X - JOANA, MARIA E JOSÉ

X - JOANA, MARIA E JOSÉ

Camarfeu já era um jovem bem formado e Joana uma bela jovem. Chegara o momento de ser efetivada a promessa da sua união conjugal.

Barnabé rumou à Galiléia e lá, como prometera, deu curso aos preparativos do casamento. Foi realizado o culto e uma grande festa, com muito vinho. O lugarejo se alegrou com os três felizes dias de festa.

O casal seguiu para Damasco.

Joana, que vivera sempre do lado de Maria, não a esquecia em momento algum. Saudosa da querida irmã e fiel companheira, falava e falava dela. E Camarfeu ouvia:

— Maria é uma pessoa muito especial. É uma criatura divina! É tão bondosa! Nunca a vi temer algo ou reclamar da vida. Ela sempre se cobra muito em tudo o que faz. Sempre se mostra reservada para si mesma. É muito caridosa e estende a mão a todos que a procuram. Ajuda a todos que estão à sua volta. De uns tempos para cá ela vem dizendo que tem conversado com Deus, que o Senhor dialoga com ela através de um anjo. Ela me relatou o que lhe ocorreu quando era pequenina. Estava ela junto dos pais e, em certo momento, se desgarrou deles e saiu a caminhar. De repente viu um grande abismo à sua frente. Foi empurrada, mas logo o anjo a segurou e a colocou em terra firme. Foi então que coçou os olhos e viu que estava dentro da casa dela, que não saíra de lá. Ela sempre me falava daquela visão. Com a morte dos seus pais, passei a ficar sempre ao lado dela. Ela sempre me ajudava e incentivava. Eu me sentia muito sozinha no mundo, porque tia Ana mais atenção concedia a Maria. Aproximei-me então bastante de Maria e crescemos juntas. Maria orava muito, nisto seguindo o exemplo do tio Joaquim. Da mesma forma que ele me ofereceu a ti, prometeu Maria a José. Daqui a uns tempos eles se casarão.

-Ora - disse Camarfeu-, pelo que dizes, Maria é mesmo uma pessoa muito especial...

— Sim! Para mim foi muito especial mesmo. Quanto me ajudou! Foi a única amiga e companheira que tive na vida. Quanto a você, trabalhando para Roma, logo te tornarás igual ao teu irmão: um cidadão romano. Acompanhar--te-ei por onde quer que vás!

Na harmonia e felicidade daquele lar, Joana engravidou. Nasceu uma menina que, em louvor à sua inesquecível irmã, ganhou o nome de Maria.

Passado algum tempo, premida pela saudade, Joana desejou viajar para a Galiléia. Atendendo-a, Camarfeu a acompanhou, levando a filhinha.

Chegando à casa de Ana, Joana encontrou Maria grávida, preparando--se para o casamento com José.

Maria chamou a irmã à parte e lhe disse:

— O anjo me apareceu novamente e disse chamar-se Gabriel. Veio a mando do Senhor e me garantiu que eu seria bendita entre as mulheres por trazer no ventre o filho do Altíssimo, que deveria ser chamado Jesus.

A família tomara a estranha notícia de que aquela criança nasceria sob o influxo de Deus.

Camarfeu e Joana conversaram com José e este lhes disse algo similar:

— Dormi e tive a visita do Senhor. Ele disse que eu seria o pai do Salvador da Terra. Pediu que eu ensinasse ao menino tudo aquilo que eu soubesse e que o protegesse de todo mal que a Terra lhe iria proporcionar. Garantiu-me que eu seria protegido pelas mãos divinas, onde quer que eu estivesse.

Foi efetuada a festa do casamento de José e Maria, com muita alegria. Camarfeu estava muito confuso, tentando entender o que ocorria ali. Apartou José para uma conversa e lhe indagou:

— Casarás com Maria porque ela já espera um filho?

— Não! Ela espera um filho do Altíssimo!

— Mas como pode suceder algo assim?! Acreditas que Deus desceu dos Céus para engravidar a tua esposa?! Ora, isto é apenas lenda! Deves estar doido! Eu não aceitaria isso de forma alguma! Ela foi prometida a ti, da mesma forma que Joana me foi prometida, e nada de errado aconteceu.

— Creio nas palavras do Senhor! Euri, pai de José, ali chegou e lhe disse:

— Bem sabes o que pode ocorrer! Encaras com firmeza toda a situação a ocorrer? Há duas coisas a observar. A lei aqui é rígida. Maria estando grávida, de todo jeito essa nunca vira e, pelos ditames da nossa religião, Maria será apedrejada. Agora, se disseres que és o pai da criança, nada ocorrerá a Maria. Porém, terás de assumir tudo isto!

— Eu fui prometido a Maria!

— Não é pela promessa que Joaquim fez destinando-te Maria; trata-se de tu, meu filho, saberes qual é a tua felicidade. A nossa lei é clara: o castigo da mulher adúltera é o apedrejamento. Então bem sabes como proceder: ou assumes tudo ou te calas para sempre!

— O filho é meu! O Céu me concedeu um filho e ninguém o roubará de mim! Várias vezes abracei Maria na condição de minha mulher e esposa, e não te posso garantir se houve algo mais entre nós dois, pois era tão bom estar junto dela! Estando do lado dela, eu não sentia apenas o que sente o homem ao lado de uma mulher: era algo tão mais grandioso do que se possa sentir ou acreditar. Eu sentia o meu corpo penetrar no corpo dela, e o corpo dela penetrar no meu corpo. Eu sentia como se fôssemos uma só pessoa. Garanto-vos que assim foi por várias vezes.

Camarfeu, também presente e atento, observou:

— Então foste tu a engravidá-la?

— Não! Se queres, podes pensar assim. Seja o que for, foi o Céu que mandou esse filho! Vi o Senhor e Ele me pediu que eu em tudo protegesse Maria e a criança - e, com toda a força da minha alma e enquanto tiver vida, protegerei essa criança! E ela se chamará Jesus!

Camarfeu, Joana e sua filha retornaram para Damasco. Lá, eis Camarfeu crivando a esposa de perguntas:

— Joana, conviveste bastante com Maria e então podes responder-me: ela era uma pessoa pura?

— Maria é mais pura do que pudesses imaginar! Se estás pensando que ela se deitou com qualquer homem, isto deves tirar logo da tua cabeça!

— Ora, ora! Se acreditas que Maria se engravidou sozinha, estás louca!

— Não sei, mas acredito piamente em Maria, porque convivi com ela e sei muito bem o que digo. Eu bem via a expressão do rosto dela quando orava, quando conversava com Deus. A fisionomia, os olhos dela mudavam. Parecia que ela se transformava noutra pessoa, parecia estar plena de luz! Muitas vezes, quando no nosso quarto, ela passava a noite inteira orando. Quão feliz eu a via! Não era uma pessoa comum. Não era uma menina igual às outras meninas, não era uma jovem igual às outras jovens. Sim, ela foi bem diferente! Se me perguntas se acredito no que ela disse, afirmo-te convicta: sim, eu acredito!

— E, quanto a essa criança que vai nascer/ Achas que sera mesmo o Messias?

— Nenhuma dúvida tenho quanto a isto! Se Deus houve por bem escolher na Terra uma pessoa perfeita, escolheu muito bem Maria. Não vi crianças e |ovens iguais a Maria. Ela tinha algo de diferente. Convivi com ela e estou bem certa de que ela nada faria de errado. Se me indagas se ela era pura e permaneceu pura, respondo-te: sim, ela é pura! Dou minha alma em garantia de que Maria não decepcionaria ninguém! Sou pouco mais velha do que ela e bem a acompanhei. Maria contava maravilhosas histórias às meninas e meninos. Quando ela se sentava para contar as suas histórias, todas as crianças a rodeavam com interesse. Ela falava então da honestidade, do amor, da obediência do filho para com o pai. Eram belíssimas as histórias que ela contava. Em criança ela já era uma professora, já auxiliava as demais criancinhas. Todos a admiravam e atinham na qualificação de mãe. Ora, se Deus teve de fazer uma escolha, escolheu a melhor mulher que havia no mundo! E Maria, estou certa, de nada se envergonhará. Ela crescerá ainda mais em esplendor com a chegada desse filho. Sim, bem o verás! Eu queria que convivesses um pouco perto dela para que melhor pudesses avaliá-la, presenciar a forma com que conversa com as pessoas, o brilho nos olhos dela quando fala de Deus, das Escrituras. Parecia fazer tudo com a maior facilidade, ensinando as crianças mais novas, encaminliando-as. Ah! Acredito sim! E acreditaria uma, dez, mil vezes se fosse necessário! Não, na Terra não há outra igual a Maria!

— Mas acreditas mesmo que lá na casa de Joaquim ou de José Carpinteiro, e do coitado do Euri virá o Salvador?! Sempre tive a oportunidade de acompanhar o meu pai nas sinagogas, ouvi sobre esse Messias que salvará o nosso povo. Ora, achas mesmo que um menino que será filho daquele carpinteiro irá mudar toda a Terra?! Joana, minha querida, como te enganas sobre isto! É bom que esqueças um pouco tal história. Se tiver de vir esse novo Rei, certamente que virá de um pessoal poderoso, de pessoas riquíssimas. Se julgas que chegará por aí um desses que combaterá com o povo de Roma estás completamente enganada. Nem Deus pode com os romanos! Eles são muito bem equipados, muito bem preparados para qualquer situação, e nós lhes pagamos pela segurança que nos oferecem. Observa bem o meu irmão. Ele é quase que um comandante romano. Não é um centurião, mas é um conselheiro de César, cargo altíssimo e que rendeu à nossa família o direito de cobrar impostos. Então, se conversares com ele ouvirás dele que, com tudo isto que vai na tua cabeça, estás errada. Dentro de pouco tempo ele estará por aqui e então te peço: conta-lhe toda essa tua história. Bem verás então: ele se rirá bastante de ti. Ora, como poderia uma mulher se engravidar sozinha?! Pelo que ouvi de José, eles andaram namorando, mas nem ele sabe se manteve um mais estreito relacionamento com ela. Ora, certamente que houve entre eles um conúbio para que Maria gerasse essa criança, e para afirmar que tal criança veio de Deus criaram toda essa história, tentando mostrar que é um Rei a nascer ali, chamar a atenção das pessoas para isto. E quanto a ti, mulher, ficas acreditando nessas asneiras. Imagina que coisa absurda! Já reparaste quão bela é Maria? E viste José, já um senhor, bem mais velho, que haveria de se casar pela promessa do pai? E ele, perto de uma tão bela mulher, resistiria? Qual homem na Terra resistiria?! Ah! Como podes acreditar que Maria é virgem?!

—Não quero mais falar contigo sobre isto! Acredito nela com toda a força da minha alma, com toda a força do meu coração! Vi Maria crescer, vi a sinceridade do coração dela. Deus conversou com ela através de um anjo e eu creio nisto com a maior firmeza, pois eu bem a contemplava quando ela orava, e escutei dela que os anjos a visitavam em criança. Fomos íntimas amigas, estivemos juntas desde o nascimento e bem a conheço. Não, ela não seria capaz de contar uma única mentira! Ela perderia a vida, mas jamais contrariaria as leis e trairia José. Isto te afirmo com toda a força do meu coração! Se acreditas ou não, o problema é teu! O que te posso dizer, na condição de tua esposa, é que te amo com todo o meu carinho, com toda a força da minha alma, e que o meu tio não poderia escolher no mundo outra pessoa melhor do que tu. Estou muito feliz contigo! És o homem da minha vida! Preencheste todas as necessidades do meu coração. Não terei olhos para mais homem algum, a não ser para ti! Não tenho culpa de ignorares o que sinto, entendo e sei sobre Maria!

Barnabé logo tomou ligeira notícia do que ocorria com José e Maria, do nascimento do Messias, e procurou saber de melhores informações. Lembrava-se do seu antigo amigo, o sacerdote Simeão, que lhe alertara bastante sobre a chegada de um novo Rei a mudar toda a Terra. Perguntou então a Joana:

— Como podemos acreditar na história desse menino que, nascendo no meio da maior pobreza, está predestinado a ser o Messias? Como poderia ele reunir forças para se levantar contra Roma? Isto não deve ocorrer, de forma alguma. O Messias virá da descendência dos grandes profetas, virá da cúpula, com todas as forças para se tornar um grande Rei que será protegido por toda forma. Ora, sendo tão pobre, como é que chegaria a ser o grande Rei?

Joana se ergueu e disse:

— Benedites, teu filho, também era pobre, nasceu contigo em meio às ovelhas, foi pastor, viajou comigo, mas não conseguiste dar-lhe o que era de direito. Ora, mesmo assim, ele é hoje mais do que Pilatos: é um dos conselheiros de Roma. E, dize-me agora: como pôde um jovem pobre chegar na situação alcançada por teu filho? E ainda me perguntas sobre esse menino pobre, duvidando que ele possa ser o aguardado Rei? É certo que ele pode sê-lo. Aguardemos o seu nascimento!

JOÃO BERBEL