XI - MUDANÇAS E CONFLITOS

XI - MUDANÇAS E CONFLITOS

O projeto do censo já era uma feliz e promissora realidade.

As forças romanas se uniam na consecução do plano.

Herodes e Pilatos já tinham a proteção romana, mas, com as mudanças, o dinheiro já não chegava com facilidade em suas mãos. Tinham de se movimentar doutra forma, noutros setores, para garantirem as suas fortunas. Já não recebiam diretamente do povo judeu, que ignorava que grande soma do dinheiro dos impostos, ao invés de ir para Roma, enchia os cofres deles, dos governadores ávidos de riquezas.

Tudo isso começou a gerar uma grande confusão.

César tomava melhor conhecimento desses fatores, do enriquecimento ilícito dos seus representantes, mas já estava agora feliz pela reviravolta, pois já recebia o triplo do que vinha recebendo antes.

Benedites foi chamado e invitado a encontrar uma solução para esses focos de irregularidades, continuando apenas a proteção dos soldados, sem que eles arrecadassem.

Com Benedites foi criada por César uma lei determinando que todas as medidas financeiras intermediadas pelos soldados haveriam de ser assinadas por César. A cada trinta dias chegavam a Roma os manuscritos reivindicatórios, que eram verificados por César e aprovados ou não.

Uma reformulação era verificada. O censo muito se dividiu e foi pedido a César um novo censo. Este foi levado avante, agora mais organizado e eficiente, com as situações já plenamente assentadas.

Com tudo o que fora feito, o povo judeu já havia perdido todo aquele medo para com as tropas romanas, aqueles traumas provocados pela violenta invasão domiciliar anteriormente verificada.

Sim, isto já ficara no passado. Tudo era conduzido pelos próprios cobradores judeus.

Porém, os governadores, diante das mudanças que nada acudiam os seus cofres particulares, começaram a pressionar o povo, que começou a novamente se ocultar. E foi assim que César, logo ciente do que ocorria, mudou todo o contexto, criou aquela nova lei em que era exigida a redação das reivindicações e sua avaliação pelos administradores em Roma.

Nessa nova ação, eis Benedites chegando à casa paterna, em Damasco, onde permaneceria por alguns dias. Ali conheceu Joana e sua filhinha. Abraçou--a e abraçou Camarfeu, que lhe disse:

— Casei-me com Joana, tive esta bela filha e já há outro filho a caminho. Espero que desta vez nasça um menino, e se isto ocorrer, levará o teu nome, pois Joana colocou na nossa filhinha o nome daquela que é para ela quase uma irmã, embora sendo primas. Mas, falando de Maria, presta bem atenção, meu irmão, nas coisas que ora te conto. Não tenho o conhecimento que tens, mas faço da melhor forma possível o serviço que Roma colocou em minhas mãos.

— Com toda razão!

— Mas ouve bem o que te digo e acredites se quiseres - porque eu, apesar de tudo o que Joana disse e justificou, realmente não acredito nessa história. Vê bem! Joana me foi prometida e, morrendo o seu pai, foi criada por Joaquim, juntamente com Maria. Ora, ela defende Maria de corpo e alma...

— Mas defende do que, Camarfeu?!

— E' o seguinte! Eis Maria aparecendo grávida e dizendo que engravidou de Deus, que o Anjo Gabriel lhe aparecera e afirmara que através dela nasceria um menino que seria o Messias, um grande Rei na Terra, tal como rezam as nossas Escrituras.

Agora vê bem! José se casou com Maria e Jesus já está para nascer...

— E chegará bem em cima do novo censo... Já vimos preparando todo o povo. Mas desta vez o censo não atingirá apenas os lugarejos: abarcaremos também os centros maiores. Tu estarás encarregado do censo aqui em Damasco. Toda a região da Galiléia participará. Já está acertado para daqui a trinta dias.

— Mas, irmão, acreditas nessa história de Maria?! Benedites cofiou a barba e disse:

— Camarfeu, neste mundo não se pode duvidar de nada. Aqui tudo pode acontecer. Vê: eu jamais imaginava poder estar um dia ao lado do grande César, assumir a posição em que ora estou. Não, eu jamais creria nisto! Estou la apenas por força daquele senhor que me apareee desde criança. Então, se me perguntas, afirmo-te: acredito, sim, em tudo isso! Se tiver de vir o Messias, que seja então na nossa família! E se fosses mais inteligente, agradecerias a Deus por isto acontecer. E verás que esse Jesus será bem liberal em relação ao povo romano. Pensará totalmente diferente do que o povo judeu pensa do povo romano. Bem sabes que as coisas não são como se pregam. Em todo lugar há que ter educação, disciplina. Então que o
Eterno possa enviar o Messias no nosso próprio meio e até na nossa própria família, e não em meio daqueles fariseus, daqueles sacerdotes que vivem mais em torno do dinheiro do que de outra coisa. Ora, quem realmente enriqueceu na nossa comunidade judaica? Foi a classe sacerdotal e dos governadores, todos tão enriquecidos. Mas agora a coisa se dificulta um tanto para eles, e então sou perseguido por essa gente ambiciosa. Para que aqui esteja, hei de estar escoltado da forma que vês. Eles sabem que, com as novas medidas, Roma quase triplicou o rendimento dos impostos e, mesmo assim, o povo não foi sobrecarregado com altíssimas taxas. Os valores caíram muito, e assim podemos ver a alegria estampada no rosto do povo. Mas bem sabes: no meio de tudo há esses sacerdotes que às vezes pregam contra a força romana. Já imaginaste como seria esta comunidade sem a presença dos romanos? Já te deste conta dc quantos seriam os saqueadores e os assaltos? Lembra-te do sacrifício das nossas caravanas naqueles tempos difíceis? Eram muitos e fatais os assaltos que hoje deixaram de ocorrer. Então hoje o povo judeu sabe que a força romana está ativa, e então a respeita, aceita, obedece. Todos sabem que foram agilizadas mais tropas para inibir e punir os infratores, e vigiar os ambiciosos. Então nenhum de vós, judeus, deve temer, de forma alguma, os romanos. Eles não vos punirão se não errardes, mas o farão se descumprirdes as leis. Sim, a lei há de ser cumprida! Ora, não existe a lei de Deus a se cumprir em tudo, rigorosamente? Se assim é, também as leis da Terra hão de ser cumpridas. E se a nossa gente é o povo de Deus e temente a Deus, há de facilmente compreender a necessidade de cumprir as leis humanas, que havemos de ser honestos e punir os que descumprem os regulamentos que estabelecemos para todos.

E assim, com tais mesmos argumentos, Benedites pregava em todos os templos, em toda parte. Com isso, a persecução aumentou bastante para o seu lado.

Aproximando-se o dia do censo, Benedites foi atacado por um grupo de malfeitores judeus. Os soldados não conseguiram conter aquele tumulto. Benedites sofreu duros golpes, mas não morreu. Ferido, bateu a cabeça e desacordou. Julgaram-no morto. Levado a Pilatos em estado gravíssimo, foi por ele tratado e logo se recuperou.

Roma tomou notícia daquele levante popular e imediatamente destacou uma força militar que foi até Jerusalém e fez acompanhar Benedites de volta à gande Capital do Império.

César lhe indagou sobre o ocorrido, tentando melhor se informar da situação. Benedites foi bem claro:

— Fomos atacados por judeus inconformados. Há dias eu vinha recebendo ameaças. Falei em todos os templos, em todos os locais, invitando a que todos fossem fiéis a Roma, insistindo em que Roma estava cumprindo o seu papel de proteger o povo, em que o povo há de ter uma lei, uma disciplina. Ora, se os judeus respeitam as leis de Deus, por que não haveriam de respeitar Igualmente as leis da Terra? Ora, por falar desta forma não fui bem aceito por aquelas pessoas mais revoltadas.
César ordenou a Benedites que permanecesse em Roma. Mandou chamar o respeitável centurião Demétrius e ordenou que se aliasse a uma força comandada por Cornélius e assumissem toda a região de Israel, que procurassem e punissem os judeus que haviam provocado aquele atentado, que dessem apoio ao censo.

Acontecia então o censo, com todas as pessoas obrigadas a se dirigirem a determinado local. Belém, no centro da Galiléia, foi escolhida para sede do censo.

JOÃO BERBEL