XII - O NASCIMENTO

XII - O NASCIMENTO

José e Maria também haveriam de cumprir as determinações do novo censo e se movimentaram neste sentido.

Já chegavam os dias de Maria dar à luz. José a colocou sobre um burrico, no qual foi colocado um forro em que Maria se acomodou com o possível conforto. Nos ombros dela estava um manto azul, muito belo e que de longe poderia ser visto, de tal forma que as pessoas distantes bem poderiam ver em destaque aquele diferenciado casal e aquela animália integrando a multidão que tomava o rumo de Belém.

Lá chegando, José encontrou todas as hospedarias lotadas com aquelas tantas pessoas aguardando o censo que aconteceria na manhã do dia seguinte. Sem um local para acomodar Maria, José começou a entrar em desespero, sabedor de que Maria poderia entrar em trabalho de parto a qualquer momento, uma vez que ela já sentia contrações e alguma dor.

Por fim chegaram na hospedaria de uma rústica mulher. Ela viu aquele casal naquela condição c disse a José:

— Não há como se hospedarem aqui, mas tenho o estábulo vazio. Pega este candeeiro e fica com ele. No correr da noite vos visitarei. Lá estareis bem. Muitos dos que aqui chegam também pousam lá.

José foi ter àquela estrebaria e viu que estava repleta dos animais deixados pelos viajores lá hospedados. Agregou o seu burrico àqueles animais e lhe providenciou água e alimento, enquanto Maria, de pé, apoiava-se num esteio do estábulo. José retirou o forro que cobria o lombo do burrico, ajeitou umas palhas para debaixo daquele forro levado ao chão, e ali se deitou Maria, lendo a cabeça mais alta. José a cobriu com o manto azul e, retirando o lenço do cabelo dela, com ele protegeu do frio o rosto e o cabelo dela.

Naqueles momentos Maria começou a sentir as dores do parto iminente. José, aturdido, não sabendo como proceder numa situação daquela, afastou-se um pouco e ajoelhou. Imediatamente aquela voz que se lhe manisfestava exclamou:

— Hoje a Terra está em festa, porque o seu Príncipe já se prepara para acender nela a sua Luz! Será tanta maravilha que ninguém jamais já vira igual, a não ser os anjos dos Céus, que a tudo iluminarão!

José, deslumbrado, viu uma luz descendo do céu e tomando o corpo de Maria. lista sentiu aquela presença e Jesus logo nasceu.

Assim que o nascimento se deu, ali apareceram três nobres homens que, com seus serviçais, ajoelharam-se à frente da criança.

José percebeu que se tratavam de reis.

Baltasar, Belquior e Gaspar, os três reis, se acercaram ainda mais de Jesus e, ajoelhados, levaram as mãos e a cabeça ao chão, em gesto de reverência. Ao erguerem a cabeça, José, assustado, indagou:

— Quem sois vós?!

— Viajamos do Oriente ao Ocidente para trazer nossa homenagem ao Rei dos Reis!

Um presenteou-o com pedra preciosa, outro com mirra e o outro com incenso. Ofertaram aquilo a Jesus em símbolo de prosperidade ao novo Rei, conforme diziam.

— Meu filho não é um rei! - esquivava-se José.

— Não perante os teus olhos, e sim perante os nossos! Fomos avisados antes que ele chegasse. Ele nos mandou uma estrela-guia e, seguindo-a, viajamos dia e noite para que chegássemos a tempo de saudá-lo. Pega esta pedra preciosa e procura afastar-te o máximo daqui, porque temos notícia de que Herodes está muito enfurecido com a chegada do novo Rei da Terra. Descuidamo-nos quanto a isto, não sei por quê. Dissemos que viajávamos para Belém em buscado novo Rei que aqui nasceria. Sabendo disto, Herodes mandará assassinar todas as crianças. Então levai convosco este tesouro que muito vos auxiliará. Deveis proteger o Rei com o vosso corpo e a vossa alma!

Logo José se espantou com vários pastores que ali chegavam, dizendo:

— Um anjo apareceu à nossa frente e nos guiou para cá, dizendo que aqui nasceu o Príncipe da Terra, o nosso novo Rei e o nosso Salvador.

Todos entraram em orações, enquanto aquela hospedeira trazia roupas e vestia o menino.

Naquela mesma noite, alertados pelos três reis, José e Maria, levando o menino Jesus a salvo, deixaram aquele local.

Herodes realmente estava irritado e ordenou o sacrifício de todas as crianças.

Não demorou para que aquelas tristes notícias chegassem às autoridades maiores, que então cortaram metade do poder do tresloucado Herodes. Este, a partir daí, não mais podia se valer da guarda romana, já era visto e tratado tal um dissidente de Roma.

Herodes penetrou numa fortíssima depressão, numa intérmina agonia. Passou a perder o sentido da vida. Tão grande era a força obsessiva sobre ele, que passaria seis longos anos vendo à sua frente o desenrolar terrificante daquele cruel derramamento de sangue, daquele infantício que enfim o levaria ao maior desespero e ao suicídio.

O sacrifício daquelas tantas crianças gerou um mal-estar em todo o reino, diante do que Benedites foi chamado para que se inteirasse da lamentável situação de violência. Esta não era devida aos romanos, e sim a Herodes. Haveria de ser sustado definitivamente o poder desse soberano, mas como havia um parentesco a ser respeitado, não havia como quebrar aquela hierarquia, não havia como Roma cortar aquela força de preocupante poder contrário. Porém, cortavam-se paulatinamente os seus poderes de ação.

Todo o povo odiava grandemente Herodes, mormente por aquela cruel matança infantil. Seu próprio filho lhe era uma força contrária, um forte opositor. Esmagado pelas forças negativas foi que então ele penetrou nas vias do suicídio, após seis anos de assédio.

O filho, também chamado Herodes, assumiu o poder, agora sob uma nova política. O novo Herodes queria obter a simpatia de Roma, sentir os romanos o admirando de forma diferenciada. Assim, começou a dar expansão aos seus objetivos, a atrair os guardas romanos promovendo-lhes festas no seu castelo, oferecendo-lhes ali muitas mulheres e uma desenfreada orgia. Com tais medidas, readquiria o prestígio de Roma, passando a administrar aquela província que lhe fora concedida.

JOÃO BERBEL