XIII - NO GRANDE TEMPLO

XIII - NO GRANDE TEMPLO

José e Maria, conduzindo Jesus, haviam fugido para o Egito naquele dia de apreensão, por causa da fúria de Herodes.

José, pobre, valera-se daquele tesouro ofertado por um dos reis que foram saudar Jesus, e também daquele burrico.

Benedites e Demétrius reencetaram as viagens ao Oriente Médio, e nos domínios de Herodes passaram a ser respeitados à altura, fator que não ocorria com o anterior soberano. Herodes sabia da força, do prestígio representado por Benedites.

O censo foi muito bem conduzido e rendeu frutos positivos, acalmando o ânimo do povo. Todavia, permanecia a prisão dos descontentes e agitadores, dando-se força a Herodes, Pilatos e outros representantes romanos a que procedessem o julgamento.

Os governadores não estavam mais na sombra financeira de Roma: haveriam de, apoiados nos soldados romanos, criar situações próprias de sobrevivência. Assim, instituíram um outro imposto, cobrando-o das pessoas mais poderosas, inclusive dos sacerdotes. Isto ocasionou a diminuição da fortuna dos sacerdotes, todos eles há tempos desfrutando de boas moradias, regalias, vida luxuosa. O excesso de dinheiro antes embolsado pela classe sacerdotal foi então direcionado aos governantes.

Nessa situação, os sacerdotes não queriam ficar para trás: começaram a cobrar mais os fiéis, a criar um verdadeiro comércio dentro dos templos. A metade do ganho desse comércio era direcionada aos dirigentes.

Desacomodados, os sacerdotes passaram então a pregar que Roma era inimiga do povo, e não os reis das províncias.

Governantes e sacerdotes, enriquecidos no comércio, queriam cada vez mais riquezas.

Nesse estado de coisas, Roma tentava eliminar as diferenças, os abusos e os conflitos. E este era o clima e o desafio enfrentados por Benedites. a agir tal um apaziguador nomeado por Roma. Ele estava em toda parte, discursando, explicando, eliminando dúvidas, acalmando os ânimos.

De repente surgiram idéias e comentários sugerindo que Israel deveria formar o seu próprio exército. Porém, imediatamente foi estabelecida uma frente contrária a tal idéia, os próprios sacerdotes se insurgindo frontalmente contra tal sugestão, temerosos que estavam de perder os seus poderes por sobre o povo, temerosos de uma resposta contrária romana a tomar-lhes todo o poder religioso. Ora, todos os governantes e sacerdotes estavam diretamente subordinados a Roma, e diante de qualquer ameaça, Roma agiria e eles perderiam o poder e as regalias, a própria religião caindo por terra, mesmo que houvesse uma revolução.

Assim, os focos de resistência eram perseguidos pelos próprios sacerdotes.

Surgiam vários místicos e curadores que às vezes ousavam levantar a voz contra os sacerdotes. Tais curadores eram presos e crucificados sob a própria acusação proposta pelos sacerdotes diante do poder romano. Argumentava-se que o inimigo do povo judeu era também inimigo do povo romano, e assim não havia escapatória para os descontentes, os que agiam de forma considerada contrária às leis judaicas.

A crucificação era efetuada em praça pública, todo o povo judeu sendo convidado a presenciá-la, assim se exibindo o poder de Roma por sobre todos. Mas, na verdade, era a própria força dos judeus querendo mostrar o seu poder ao seu próprio povo, escondendo-se à sombra do poder romano.

Benedites de tudo sabia. Em Jerusalém, debatia com os grandes sacerdotes, com Caifás, Arnaã e tantos outros, dizendo-lhes:

— Vós sois os inimigos do vosso próprio povo! Roma não é inimiga do vosso povo.

E os sacerdotes redarguiam:

— Ora, se és um judeu, porque te levantas contra os judeus?

— Não me levantei contra o povo judeu, não desafiei o Altíssimo! Apenas almejo uma comunidade mais justa, um ambiente onde as pessoas tenham a condição de bem viver, de se mostrarem iguais, de se respeitarem. E, quanto a vós, como poderíeis trabalhar por isto se crucificais o vosso próprio povo, às vezes em troca de um nada, às vezes por não vos acatar as idé
ias?! Por que não chamais o povo a debater convosco? Aceitai a voz do povo!

A nossa lei é uma só: é a lei de Deus, os Dez Mandamentos. Cumprimos fielmente o que ordenam os Dez Mandamentos.

— E quanto a Roma, não está também cumprindo os Dez Mandamentos, não está evitando os saques, não está punindo os ladrões e os assassinos? E vós tanto e tanto insistis em não compreender a verdade! Sois os cegos que não enxergam um palmo à frente do rosto! Roma poderia vir aqui e derrubar todo este templo, escravizar todo mundo, obrigando o povo a trabalhar de graça. Porém, tal não é a vontade do Imperador. César deseja que vivais bem, com dignidade, e que haja mais igualdade entre os povos. Ora, vós próprios criais essa situação vergonhosa: escondei-vos à sombra de Roma para criticar a própria Roma. Se fizésseis a vossa parte com justeza, poderíeis sair do templo, fitar aquele morro e não mais ver aquela gente derramando lá o seu sangue. E sangue inocente que estais derramando! E por quê? Simplesmente porque as pessoas não aceitam as vossas idéias!

— O Messias - disse Caifás, erguendo-se - está para chegar, e com a chegada dele todos os povos tremerão!

— Se o Messias for inteligente e se realmente for o prometido do Altíssimo para governar a Terra, ele não se colocará contra Roma em momento algum - pois se for contra os romanos não será aquele Rei justo que todos nós aguardamos. Que ajustiça se restabeleça na Terra, mas não a justiça que favoreça pessoas, milionários e esmague os famintos! Não, esta não é a vontade do Altíssimo! A vontade de Deus é que todo o povo judeu se mostre em igualdade. Sim, esta é a vontade do Altíssimo! Vós tanto ledes, mas nada sabeis! Se vier o Messias esperado, ele será muito diferente do que imaginais. Precisais ter mais humildade, mais amor no coração para lidar com o povo. Não estou aqui para debater, para brigar com todos vós, nem para vos ensinar. Não, não é nada disto! Aqui estou porque já não mais suporto ver o que ocorre debaixo da vossa barba, enquanto a isto fechais os olhos, em nome de uma religião. Ora, tanto falais de Deus, todos os dias! Será que esse vosso Deus é justo ou não será o mesmo Deus de Abal e de outras tribos que por aí estiveram, obrigando a vinda de autênticos profetas para provarem que Deus é único? Então vamos acreditar que Deus é Deus dos romanos, dos judeus, dos persas, dos babilônios, dos egípcios; que tudo o que gira em torno da Criação é feito pelas mãos de Deus.

Sim, porque se for apenas o vosso povo que foi feito por Deus, então há de se criar outro Deus, pois estaremos fora da lei. Será que não percebestes?! Será que vossos olhos não enxergaram isto?! Estudais e estudais, ledes a todo momento a Santa Escritura e não entendeis. Espero muito mais de vós!

Caifás se ergueu e disse:

— Não tens o direito de nos dizer tais palavras dentro do nosso próprio templo! Somente nós, sacerdotes e representantes de Deus, podemos falar assim!

— Eu sou um judeu! Tive a oportunidade de viver na pobreza, de estar na sinagoga e aprender com um sacerdote verdadeiro. Ele saía de casa e, observando o campo, chorava quando a colheita era ruim e via os camponeses passando necessidade. E, mesmo assim, o celeiro dele era aberto a todas as famílias que lá iam buscar ajuda. Quanto a vós, não agis assim; isolai-vos aqui em Jerusalém, sentindo-vos tal um Deus.

— Somos representantes do Altíssimo para trazer a ordem e a mensagem ao nosso povo!

— Então vereis esse Messias que mudará toda a Terra e todo esse vosso contexto! Após a vinda dele a vossa vida não será mais a mesma, porque depois dele este templo estremecerá bastante. Eu não queria estar na vossa pele! O Messias fará tremer, não o povo romano, e sim vós! Depois dele não haverá outro, porque ele mudará o curso da Terra. Será um mundo antes dele e outro depois dele. O Messias será bem diferente do que pensais. Imaginai, sim. um Rei se erguendo da cinza da pobreza, no meio dos pecadores, pedindo a união de todos, ajudando os necessitados. Ele virá até vós e tremereis diante dele!

Benedites, após as suas inspiradas palestras, fez o caminho de Damasco.

O centurião Demétrius acompanhara Benedites e entendia que somente um grande líder igual a ele poderia enfrentar aqueles sacerdotes.

De fato, nada fazia calar a voz de Benedites. Seu sentimento era muito forte, direcionado pelo sábio espírito que tudo lhe passava.

JOÃO BERBEL