XIV - DESENCONTROS

XIV - DESENCONTROS

Chegando a Damasco, Benedites bem viu que o assunto era apenas um: José, Maria e Jesus.

Ninguém sabia o paradeiro de Jesus. Muitos acreditavam-no vivo, muitos supunham-no morto.

Pobre Joana! Buscava na força da prece dar expansão ao seu amor pelo puro coração de Maria e padecia diante da incredulidade dos demais.

Imperava a esperança de que Jesus seria o Messias a renovar toda a leira.

Barnabé estava muito confuso diante daquela situação, tanto quanto Camarfeu desacreditava de tudo aquilo. Porém, Joana insistia em que Maria poderia gerar somente um puro espírito vindo dos Céus, porque era uma criatura maravilhosa que vivia somente para amparar os necessitados, nada de mal saindo do seu coração grandioso.

Joana soltava profundo suspiro toda vez que seu pensamento buscava a sua irmã. Posicionava-se numa alta defesa de Maria e José.

Camarfeu se irritava toda vez que ouvia falar de José e Maria, e dizia:

— A máxima autoridade que temos é Roma. Ela tudo domina. Se há na ferra uma fortaleza, esta é Roma, e ninguém a destruirá!

Assim dizia ele por ser um cobrador de impostos bem remunerado por Roma.

Barnabé, sob tais regalias, deixara de lado toda a sua vida de comerciante. Já tinha uma boa e confortável casa, já era um homem de renome no seu meio.

Quando surgia o assunto de José e Maria, o irritado Camarfeu não deixava de fazer valer a sua autoridade por cima de Joana. Esta se recolhia no seu silencio e, nas tardes de oração, pedia forças para que, onde quer que estivessem, José, Maria e
Jesus recebessem a proteção e amparo do Altíssimo.

Quando consultado se cria ou não em Jesus como sendo o Messias, Barnabé o afirmava, mas não com plena concordância.

Benedites, diante de Barnabé e Camarfeu, argumentava:

— Ora, de onde viemos? Fomos pobres e alcançamos glória na vida. Se assim quiser e pedir a Roma, terei aqui um castelo e serei um rei, mas não é esta a minha missão.

Camarfeu o fixou e disse:

— Se tens assim tanto privilégio por parte de César, então perdes na Terra o teu tempo. Bem que poderias ter aqui o teu castelo e administrar toda esta província, assim como ocorre com Herodes e tantos outros.

Benedites respirou fundo e disse:

— Não me casei, porque Deus precisa de mim!

— E's muito inocente - redarguiu Camarfeu - acreditando tanto nesse povo. Deverias usar o teu poder para te dares bem na vida.

— Para mim nada falta. A mim não me é dada a permissão de trabalhar naquilo que trabalhas e amealhar fortunas na Terra. Vim para servir a César e ao meu Deus, nas minhas orações e no trabalho que tenho realizado.

Os centuriões, inclusive o grande Cornélius, visitavam as províncias para uma inspeção geral e numa dessas visitas Benedites tomou o caminho de Roma.

Oscar e Tomás se apresentaram a César, juntamente com Benedites, que humildemente saudou o Imperador.

César, contente com os bons resultados do censo, saudou Benedites e lhe disse:

— Há um comentário sobre a matança daquelas crianças devido a vinda de um grande Rei. Há verdade nisto?

— Nossas profecias realmente falam de um Salvador que virá.

— E esse Salvador será um novo rei?

— Não, não acredito que o seja, pois rei algum ousará medir forças com Roma. Ademais, por tudo o que se ouve, trata-se de uma criança nascida na pobreza, lá pelos lados da Galiléia, e não une nenhuma condição de ter vindo da descendência dos reis que por lá dominam. Calculo que será um religioso que trará boas coisas à Terra, e não propriamente um homem aguerrido que virá para edificar um império ou algo assim.


- Falas nisto com muita certeza. Uque te lazacreciliarem lais coisasr

— O homem vive da sua inteligência e do seu trabalho, e se o seu trabalho for honesto e feito com dedicação, o Céu lhe dá a recompensa. Também eu vim daquela região. Para falar a verdade, fui muito pobre e enfrentei difíceis situações. Hoje, graças a Deus e ao teu bom coração, confiando em minhas mãos o trabalho a que me dedico, garanto-te que estou muito feliz.

— Mas dize-me, Benedites: esse menino pode tornar-se um rei? Com a resposta como que lhe escapando, Benedites baixou a cabeça, deu um suspiro, buscando algo do profundo da alma, e eis as palavras certas o sacudindo:

— Posso garantir-te que se Deus mandar alguém para auxiliar a Terra, o primeiro a ser ajudado será o próprio povo de Roma - pois não acredito num Deus vingativo, num Deus que fomenta a violência, e sim num Deus da paz, Riquele que nos dá a certeza de podermos contar sempre com um novo amanhã, com dias plenos de esperança. Ora, pode ser que esse menino chamado Jesus seja um certo líder, mas ninguém tem notícia dele. Está desaparecido e talvez tenha até morrido pela mão de Herodes. Se estivesse vivo, alguma notícia teríamos do seu paradeiro, mas ninguém sabe quem é e onde possa estar tal criança. O que mais nos interessa é poder trabalhar com mais amor e carinho, e lutar para que coisas cada vez melhores aconteçam, para que sempre coloquemos Roma no seu lugar de glória.

César, já muito amigo de Benedites, pediu-lhe licença, dizendo ter que repousar, e saiu, murmurando:

— Esse povo judeu tem coisas que não se entendem!

César saiu rindo e Benedites e seus companheiros tomaram o rumo de casa, e por lá permaneceram.

Oscar continuava aquele militar dedicado, sempre treinando o exército para a defesa de eventuais invasores.

Benedites permaneceu mais um ano em Roma e depois foi designado a nova missão de ir em busca das populações e lhes falar das intenções dos humanos já que vários grupos contrários a Roma emergiam, agitando as massas para que se insurgissem contra os romanos em Jerusalém.

Oscar e Demétrius acompanharam Benedites em seu trabalho pelas vastas regiões do povo judeu.

Benedites encarecia com o povo e os líderes a necessidade de se manter uma forte segurança, através dos soldados romanos, para evitar os ataques e a desordem. Falava dos ataques sofridos na Pérsia, em Bagdá, no Egito, mostrando que em Israel os romanos faziam a sua parte mantendo a ordem que faltava noutros locais e evitando o domínio de exércitos estrangeiros. Pregava a liberdade de todos, dizendo que Deus criou o mundo para o homem e que o homem há de administrar a sua vida da melhor forma possível, para poder viver em paz; que a paz está no interior de cada um, bastando que cada um procure a sua própria paz interior.

Com o seu dom de falar, inspirado sempre por aquele sábio espírito, Benedites arrebanhava multidões que bem o ouviam, convencendo a todos de que a unificação dos povos significava uma melhor garantia de vida para todos.

Todavia, emergiam ainda certos focos de resistência, muitos acreditando que os romanos acabariam por tirar tudo o que pertencia ao povo judeu.

Benedites insistia. Pregava que todos haveriam de cumprir as leis da Terra, para que assim mesmo cumprissem também as leis de Deus. E sempre que o questionavam sobre as leis de Deus, lembrava-lhes os Dez Mandamentos de Moisés, encarecendo a necessidade de todos cumpri-los para que nada lhes faltasse. E afirmava:

— Nenhuma dessas leis manda que entremos em conflito uns com os outros. Se melhor examinarmos as coisas, veremos que daquilo que julgamos ruim podemos tirar o que é bom e viver da melhor forma possível.

Com o seu verbo inspirado e sua plena confiança e dedicação, Benedites lograva amenizar bastante aquela situação de conflito, criando uma considerável concordância para com a presença romana. Falava e orava bastante, agradecendo ao Eterno por tudo o que concedia aos homens.

Com isso os cidadãos pagavam cada vez mais os seus impostos, confiantes na autenticidade das palavras daquele representante de Roma. E ele seguia confortando a todos, recebendo muitos aplausos. Porém, recebia também severas críticas dizendo que estava ali interessado unicamente no lucro dos impostos. Grupos de resistência começaram então a persegui-lo.

Certa feita, a tropa de Benedites rumava a Damasco e se deteve em certa parte do caminho para proporcionar descanso aos soldados e aos animais.

Sentados, Demétrius e Benedites, grandes amigos, conversavam:

— Benedites, afinal como é esse tal de Jesus de quem andam falando?

— Ora, não sei explicar como é, do jeito que age, pois de nada sei; mas estejas certo de que, encontrando-o algum dia, não deixarei de te dizer o que saberei e pensarei dele.

Benedites, seguindo a sua intuição, afastou-se um pouco daquele local em que se sentavam os amigos. Isolado, orou e. naquele momento, sentiu que alguém lhe locava o ombro. Virou-se para trás e viu que se tratava daquele seu mesmo protetor de sempre. O sábio ancião lhe disse então:

- Deves deter aqui a viagem. Retorna com a tropa e depois te avisarei o dia certo para seguires a Damasco. Esta viagem oferece muito perigo e deves recuar. Segue com Deus e Jesus! - completou, colocando a mão no ombro do seu protegido.

Benedites fixou o grupo de soldados a descansar e viu que Demétrius estava a fitá-lo. Caminhou até o amigo militar e disse:

— Não iremos para Damasco! Temos de retornar a Jerusalém.

— Mas por quê?! Damasco não está tão longe. Podemos descansar a tropa.

— Não sei como explicar, mas não devemos seguir para Damasco.

— Por que isto agora?! Deves estar louco, Benedites! Há pouco vi que conversavas sozinho...

— É por isto que imaginas que estou louco? Tudo bem! Mas eu, de forma alguma, desobedecerei a voz que me alertou. Sim, voltaremos para Jerusalém!

E voltaram. No caminho encontraram uma caravana e três romanos que iam reunir-se ao contingente militar de Damasco. Ora, no trajeto tal caravana foi confundida com a tropa de Benedites e, atacada, foi dizimada, todos morrendo indefesos.

Logo que Demétrius tomou notícia daquele atentado contra os soldados, abordou Benedites, indagando-lhe, surpreso:

— Como soubeste?! Quem te avisou do perigo?! Talvez, sendo a nossa tropa, pudéssemos abater os atacantes.

—Não pisamos nesta Terra para derramar sangue. Quanto menos sangue for derramado por mãos humanas, mais rapidamente teremos a nossa vitória. Tudo depende de cada um de nós! Está nas nossas mãos a nossa vitória. Tudo depende de cada um de nós. Estás nas nossas mãos a nossa vitória. Porfiaremos nos mesmos princípios com que iniciamos a nossa jornada!

JOÃO BERBEL