XIX - O FILHO DE LORENS

XIX - O FILHO DE LORENS

Feliz já ela se mostrava Joana por ter ouvido aquelas confortadoras palavras de Jesus.

Camarfeu foi à sinagoga e lá encontrou Lorens, um pregador muito respeitado que fazia daquele templo a sua própria casa. Não sendo Damasco uma urbe contemplada com muita religião e templos religiosos, aquela sinagoga de Lorens se tornava o ponto de referência neste sentido.

Camarfeu, naquela tarde, ali orava juntamente com vários irmãos de crença. Feliz, agradecia pelo retorno de Joana e da sua conscientização quanto a ser o lar o seu legítimo lugar.

Perante Lorens era muito respeitado o cobrador de impostos, Camarfeu, mais ainda por ser irmão do tão influente Benedites.

Lorens lhe perguntou de Joana e dos seus filhos, e, chegando ali também Paulo, o pregador perguntou-lhe de Joaquina. De repente era dito que ela fora curada por um menino de sábias palavras e assumindo a figura do novo e tão aguardado Messias.

Lorens indagou:

— Paulo, acreditas realmente que o Messias está na Terra?!

— Ora, pude ir até a Galiléia e lá vê-lo e dialogar com ele. Entendi, pelas suas tão diferenciadas e profundas palavras, que ele é de fato o Messias. Seus olhos são penetrantes: ingressam dentro da nossa alma e não há como fugir de tal olhar.

Camarfeu atalhou:

— Jesus é um menino realmente especial. Tem alguns dons, mas já vi muita gente curando muita gente, nas minhas longas andanças. Há profetas e profetas por todo lado. Todos querem mostrar as suas forças, mas acabam em nada às mãos dos sacerdotes.

Levi, um rapazinho que era filho de Lorenz, ouvia aquela conversa e se interessou por ela, aproximando-se então daqueles homens. Sentiu a firmeza das palavras e informações de Paulo e ali permaneceu a escutar. Sua alma se gratificava bastante com o que ouvia, diferentemente de seu pai, que relutava em acreditar que já havia um Messias sobre a Terra.

Encerrada aquela conversa, teve início a oração e depois cada qual rumou à sua casa.

Levi começou a pressionar o pai, tentando obter mais informações sobre Jesus e indagando:

— Pai, aquele menino é o Messias que aguardamos?

— Ora, meu filho, é certo que não. Bem ouviste o que disse Camarfeu, homem de grande respeito e que sabe o que diz. E' um homem de posses e influência, sendo muito bem-visto pelas autoridades romanas. Naturalmente que a palavra dele e de seu pai Barnabé tem a força da verdade. Se eles não acreditaram que aquele menino é o Messias, fica certo de que realmente ele não é aquele que esperamos. Ora, aquele que virá para nos preparar o futuro há de ser igual a um Moisés.

— Ora, meu pai, deves lembrar-te de que, ao que lemos nas Escrituras, Moisés era um escravo.

— Meu filho, deves saber que Moisés, se foi escravo, foi também um príncipe no Egito. Foi levado por uma cesta, criado como adotivo e tinha todos os princípios de um príncipe. Ele era comandado pelo faraó e recebia toda a instrução de um príncipe.

— Mas foi escravo e teve origem na pobreza, para depois se tornar um príncipe. Ora, se assim foi, por que então esse Jesus não pode ter nascido da pobreza para também se tornar um príncipe, e depois um rei, e assim exercer todo o seu poder?

Bem ouvi que ele curou a mulher de Paulo e muitas outras pessoas, e bem sabemos que tal dom é concedido por Deus a bem poucos. Por que então duvidarmos? Não é o momento certo de estarmos ao lado dele e ajudá-lo?

— Tu és ainda uma criança...

— Sou um homem! Se o senhor permitir, pretendo conversar com Paulo e Camarfeu para melhor me inteirar dessa situação.

— Meu filho, é verdade: já és um homem feito. Tens o direito de ser livre, a exemplo de qualquer outro, e procurar saber o que é certo e errado. Tens, pois, a permissão para que procedas como queiras.

No outro dia Levi chegou cedo à casa de Paulo e este lhe apresentou Joaquina, esta lhe historiou a sua terrível situação anterior e aquela nova estação de cura e felicidade, por força dos poderes de Jesus. Referiu-se ao olhar penetrante de Jesus, como que entrando na alma dela. Disse que ela e Camarfeu duvidavam de Jesus e concluiu:

— Não quero fechar os meus olhos para este mundo sem ver novamente aquele menino!

— Vamos até a casa de Camarfeu - sugeriu Paulo. — Joana, esposa dele, está muito ligada a Jesus, pois é prima e irmã de Maria, mãe daquele menino e que tem por ele um profundo respeito.

Animado a conhecer Joana, logo Levi chegou em sua casa, onde encontrou Camarfeu preocupadíssimo no seu espaço de trabalho de cobrador.

— Sê bem-vindo na nossa humilde casa! - saudou-o Joana.

— Fico-te grato por me receberes. Paulo o apresentou:

— Trago-te aqui Levi, filho de Lorens. Ele está muito interessado na história de Jesus e sei que por aqui não há melhor pessoa do que tu para lhe falar de Jesus. Viveste largo tempo ao lado da mãe de Jesus e isto é muito bom, ajudará bastante a acudir a curiosidade de Levi.

—Acreditas que Jesus é o Messias? - indagou Levi à atenciosa Joana.

— Acredito com toda a força do meu espírito, da minha alma e do meu corpo! Não há no mundo outra pessoa especial quanto é Jesus, com o esclarecimento daquele menino. Ele tem no rosto o brilho do Sol e da Lua. Seus olhos são belíssimos: podem ser azuis como o céu ou verdes como as águas, diferenciando-se de situação para situação. Não se vê um rapazinho que possa, quanto ele, mostrar tanta certeza nas suas palavras. É sempre obediente a Deus e não o nega em momento algum. Sempre que se refere a Deus o chama de Pai. Ouvi ele dizendo a umas crianças que o Pai dele estava no Céu. Uma daquelas crianças lhe indagou: — Como podes ser filho de Deus se estás na Terra? E Jesus respondeu: — Sou filho de Deus da mesma forma que tu e todos os demais o são. Deus é o Doador da Vida e nós somos fruto da Sua criação. Para chegar até Ele é necessário que nos tornemos todos irmãos, que sejamos todos iguais.
Os olhos de Levi brilhavam, fitando Joana com deslumbramento pelo que dizia de Jesus. De imediato ficou grandemente desejoso de se aproximar de Jesus, vê-lo, ouvi-lo, senti-lo. E indagava:

É possível, senhora Joana, eu tocar Jesus?

Jesus é bem mais simples do que imaginas. E' puro de coração, é puro de alma que admira os velhinhos e está sempre perto dos mais pobres. Desejas mesmo conhecê-lo?

— Ah! É o que eu mais desejo no momento! Não sei por que algo explode dentro de mim quando alguém fala nesse Jesus. Preciso conhecê-lo! Ha' um jeito de eu poder ir até ele, conversar com ele? Será que me receberá?

Joana sorriu e disse:

— Jesus recebe muito bem a todos que o procuram. Ora, Levi, tens muitos amigos, sei que tua casa reúne muitos jovens iguais a ti e que lês para eles as Escrituras. Sei que tens muito conhecimento, pois Camarfeu já me falou de tu por várias vezes, dizendo que és muito estudioso e estás preparado para assumir as funções do teu pai. Ele sempre me diz que tens uma inteligência muito avançada, e isto é muito bom. Eu gostaria que dissesses a todos do templo que Jesus é o Emissário com que Deus nos presenteia para nos ajudar a todos.

— E se me perguntarem se Jesus é o Messias, o que devo responder?

— Dize apenas que Jesus veio para ajudar os irmãos da Terra. Deixa que o tempo responda a todas as perguntas que surgirem sobre Jesus. Certamente que ele brilhará e então todos o verão sobre a Terra. Estou certa de que tal dia ligará!

— Pretendo mesmo conhecer Jesus!

Levi saiu dali entusiasmado. Queria ir imediatamente em busca de Jesus.

Dias passados, eis que, estando na sinagoga, Levi lia as Escrituras para que os dezesseis jovens presentes o escutassem. Leu os Salmos e abriu numa das profecias em que Jeremias afirmava que a Terra receberia o Messias, o reformador do mundo e perante o qual todos se dobrariam. E dizia Levi:

— Ouvistes as profecias? Mas já se fala que está na Terra um jovem chamado Jesus. Ele tem a idade pouco menor do que a nossa, mas manifesta sabedoria e mansuetude nas palavras. Pelo que sabemos, ele anda no meio dos pobres, cura os doentes e fala abertamente que é o Filho de Deus. Acreditais nestas coisas?

Os jovens murmuraram, aturdidos, e Levi continuou:

— Para acreditar é preciso ver. Aqui estou pregando, ensinando em nome de Deus, e o meu pai disse que eu tenho tal dom e que um dia posso até tornar-me um sacerdote. Contudo, preciso conhecer todos os caminhos da Terra e taivez que nisto esse Jesus muito me possa ajudar. Querendo obter a ordem do meu pai, conversar com nosso irmão Paulo e com ele ir até Jesus.

Imediatamente vários daqueles jovens manifestaram o desejo de acompanhar Levi e este lhes disse:

— Ide até os vossos familiares e perguntai aos vossos pais se permitem que viajeis comigo.

Treze daqueles jovens estavam interessados e crivaram de perguntas o jovem Levi, que um dia convidou Joana para que lhes falasse de Jesus. Chegando tal convite até Joana, seu marido reagiu negativamente, tolhendo-lhe tal oportunidade.

Porém, Levi, insistindo, foi até Camarfeu e argumentou:

— Somos um povo, somos uma comunidade e pretendo um dia ajudar toda esta cidade, entender um pouco das coisas. Porém, se eu não conhecer as coisas que estão na Terra, como é que um dia poderei falar delas? Não podemos duvidar de nada que existe e possa existir no mundo, Camarfeu. As Escrituras nos alertam de que virá um novo Rei!

Camarfeu, denotando uma irritação interior, disse:

— Há algum tempo já não se falava nesse Jesus e já começa tudo outra vez!

— Pois bem! Não levarei Joana lá no templo. Fica tranquilo quanto a isto.

Levi o disse e agiu de outra e inteligente forma: levou os jovens à casa de Joana. O quintal era amplo, com árvores frondosas, e bem os acolhia a todos. Os jovens se acomodaram muito bem por ali.

Quando lá chegou Camarfeu e viu aqueles tantos jovens, irritou-se sobremaneira, gritando:

— Mas que diabo está acontecendo aqui?!

Levi se adiantou e disse, perante os seus jovens amigos:

— Este é Camarfeu, um homem muito respeitado na nossa cidade por causa da sua postura e do cumprimento de seus deveres. Sabemos e compreendemos que ele é um homem honesto.

Providencialmente, ali chegou, naquele momento, Barnabé, que morava bem perto e já andava dificultosamente, apoiado num bordão. Vendo aquele grupo de jovens, indagou:

— Meu filho, o que é que está acontecendo aqui?

— Este é filho de Lorens. Estes jovens estão aqui desejando conversar com Joana sobre Jesus.

Ora, meu filho, por que tens tanta discordância e desconfiança?! Por que é que esse Jesus tanto te irrita? Pergunta-me, filho, se creio no que dizem que ele é.

— Mas acreditas mesmo nele?!

— Tenho brancas as minhas barbas e o corpo corroído pelo tempo. Sei que logo chegarão meu dia e já pude ver esse menino, ouvir o que dele se fala. Dia, se me perguntas, respondo: sim, acredito nele! Porque, bem antes de vir pai a Damasco, frequentei na Galiléia a sinagoga e lá muito ouvi falar de Jesus. Tive a oportunidade de conversar com Zacarias sobre Jesus. Zacarias também tem um filho que faz muitas boas coisas. Sim, acredito! Ora, se Deus escolheu um nosso parente, mesmo distante, então que louvado seja Deus lá nos Céus e glorificado seja esse Messias que palmilha a Terra! Que ele possa mostrar ainda essa humanidade que precisamos mais de amor! Quem sabe acabem um pouco os roubos, os saqueadores, ouvindo as boas novas da boca desse Jesus? É evidente que ele é o Messias! Tive as minhas tantas dúvidas sobre isso, mas agora eu não tenho dúvida nenhuma. Qual é o homem da idade dele que se interessaria por curar uma mulher imunda?

Todos têm nojo de uma mulher assim, todos a repudiam, mas esse menino não a discriminou e a tratou com normalidade, como se fora outra pessoa qualquer. Então acredito, sim, nesse Jesus, e também a sua mãe Orlinda. Joana, minha filha, podes dizer a estes meninos quem é esse Jesus e o que ele faz!

Camarfeu baixou a cabeça e adentrou a casa, fitando Joana e meneando a cabeça em sinal de reprovação. Barnabé o chamou de volta:

— Vem cá, meu filho! Já há muito não temos notícias de teu irmão. O que será que Benedites está arrumando lá em Roma? Tenho muita saudade ele. Já estou muito velho ce cansado. Tua mãe mal pode levantar-se. Se encontrares alguém que possa levar nossas notícias ao teu irmão, manda dizer que estamos muito saudosos dele. Mas, Camarfeu, por que és tão duro com a tua esposa? E' uma mulher tão dedicada! Todos os teus filhos são bem cuidados por ela.

E se tivesses casado com outra mulher que não desse o valor que ela te dá? Quando olho para Joana, lembro-me da tua mãe. Somente Deus sabe o que passamos juntos lá na Galiléia! Era uma vida muito difícil, mas a casa e todos vos éreis bem cuidados. E vê a tua esposa, como trabalha tanto e tão bem. Não, mulher igual à tua não se acha em qualquer lugar! Quando eu estava no lar de Joaquim, ele, já muito doente, me mostrou aquela que ele criava como filha. Fitei os olhos daquela criança e algo me falou forte na alma. Não, não escolhi errado, porque eu sabia que tudo o que viesse de Joaquim seria coisa maravilhosa. Assim foi que ele escolheu José para ser o marido de Maria. Aquela foi sempre uma família dedicada. Viste o quanto José teve de dificuldade? E, no entanto, aceitou Maria com toda a força e amor do seu coração. Ora, filho, vejo-te irritado com Joana e me entristeço!

— Joana é um tesouro que jamais quero perder!

— Mas se continuares na tua teimosia acabarás por perdê-la, e não a culparei: a ti mesmo culparei. Deverias sentir-te honrado com Joana do teu lado. Ainda verás: um dia muito te arrependerás do que estás fazendo, e nesse dia não estarei ao teu lado para te ajudar.

Camarfeu foi até a casa de sua mãe, que já estava muito idosa e doente.

Joana, à frente dos jovens, falou de sua vida, da felicidade de ter vivido ao lado de Maria. Dizia que esta desde pequena levava consigo o brilho das estrelas, a pureza celeste no coração; que tinha consigo uma grande simplicidade e que não conseguia dizer não a nenhuma criatura da Terra, e que apenas queria ajudar as pessoas; que sempre se via rodeada de crianças. E dizia ainda Joana:

— Quando soube que traria Jesus à Terra, foi muito difícil para ela. Todos julgavam que Maria não era pura de corpo e alma. Quanto a mim, acreditei nela com toda a energia do meu coração, porque cresci junto com ela, vi o que ela era. Posso afirmar, com a maior convicção, que somente um espírito da maior grandeza e pureza poderia nascer daquele ventre. Imaginai o quanto sofreu Maria! Teve de abandonar a sua terra e fugir para o Egito até a morte de Herodes. Maria, José e Jesus padeceram bastante naquelas terras estranhas. Ela dizia que os seus dias e noites eram longos e que quando retornou à Galiléia era como se tivesse nascido de novo. Pude então ver e admirar Jesus. Ide até ele, conhecei-o!

— Sim, Joana - disse Levi -, pretendemos conhecer Jesus! Mas será que ele nos receberá?

— Ora, Jesus está sempre rodeado de criaturas, meninos e meninas, adultos. Todos vão tirar consultas com ele. Lá chegam até pessoas de outras terras. Nem sabemos como tais pessoas distantes são informadas sobre Jesus. Ele sempre conversa com todos e sempre fala com mansidão, sem jamais se irritar ou exaltar, e todos recebem com amor e carinho as suas sábias palavras.

JOÃO BERBEL