XL - NAS BODAS DE CANAÃ

XL NAS BODAS DE CANAÃ

Eram preparados e aguardados com alegria os festejos do casamento daqueles parentes de Maria, em Canaã.

Para lá se dirigiram Jesus e seus apóstolos. Porém, passando na casa de Zacarias, lá Jesus ordenou que apenas três deles o acompanhassem às bodas, ou seja, João, André e Judas Iscariotes, e que os demais fossem ter com João Batista.

Jesus, acolitado pelos três, adentrou então alegremente a casa em que se efetivaria o enlace matrimonial e cumprimentou a lodos com satisfação.

A festa teve curso sob grande alacridade. Jesus se integrava aos jovens e às jovens, dançando com eles sob a maior alegria, e batia o pé, batia palmas, e seus cabelos esvoaçavam naquela movimentação toda.

Judas Iscariotes se espantou grandemente com aquele comportamento de Jesus e comentou com André:

— Se ele fosse verdadeiramente um profeta, não estaria agindo assim. João Batista deve estar enganado quanto a Jesus. Acho que o Messias é o próprio João Batista. Ele também faz muitas coisas maravilhosas através do arrependimento. É procurado por milhares e milhares de pessoas. E vê agora a atitude de Jesus! Ora, profeta algum usa de tal privilégio. Sim, disto eu bem entendo e bem conheço! Como é que o Messias poderia fazer tais coisas?!

Mesmo sob aquela agitação e aquele padrão vibratório, Jesus conseguiu captar aquelas energias contrárias de Judas.

Deteve-se em sua espontânea alegria de dançar e comemorar, deixou a multidão e, saindo, foi acompanhado pelos apóstolos.

André indagou:

— Mestre, é pecado festejar e dançar? Jesus fitou o belo céu daquela tarde e disse:

— André, olha para o céu. O que vês para além dele?

— Vejo as nuvens e sei que logo mais virá a noite.

— Vês apenas o céu, nada além do céu? Ora, se olhares então para o mar, verás também apenas o mar. Mas se lançares nele as redes, verás que ele não é apenas a água e suas ondas: há no mar outro mundo que não conheces. E se olhares ao céu, não saberás como lançar nele a tua rede, e então a tua rede não alcançará o céu. Ora, se chegar a noite e fitares o céu, verás as estrelas e verás então que o céu não é como o mar: verás as estrelas. Ora, André, se acreditas somente naquilo que vês, como então poderás crer no reino de Deus? E como podes crer em mim ao me veres festejando com os meus irmãos? André, André! Nos Céus há certos grandes banquetes que o meu Pai promove aos anjos — porque tudo o que há na Terra também há nos Céus. Ora, André, o Céu está dentro de ti, mas os teus olhos não podem vê-lo e compreendê-lo, porque acreditas somente naquilo que vês.

Naquela concorrida festa estavam também Joana e Camarfeu. Este se acercou de Jesus e disse:

— Jesus, muito apreciei vendo-te a festejar com os demais.

— Sim! Aqui estou para festejar com todos vós, porque o meu Pai que está nos Céus nos concedeu esta oportunidade e os noivos nos ofereceram tal honra.

Maria se aproximou e disse:

— Jesus, a festa ainda vai muito longe, mas o vinho já se acabou e nossos parentes muito se perturbam com isto. Jesus, dá-lhes o vinho para que possam beber!

Camarfeu fitou Jesus e, voltando-se para Maria, disse:

— Ora, Maria, o que pedes ao teu filho é algo muito difícil. Somente Deus pode operar tais coisas.

Jesus se acercou de Judas Iscariotes, fixou profundamente os olhos dele e disse:

— Judas, eu estou no Pai e o Pai está em mim! Ainda é o meu tempo, ainda correm os dias em que o Príncipe deste mundo cami¬nhará entre os homens. Mãe, enche d'água todos os potes e todos os tanques!

Maria obedeceu e Jesus, abraçando Judas e André, chamou também João, dizendo:

— Vem, João, e vem tu também, Camarfeu!

Fitando-os calmamente, disse-lhes então:

— Bebestes do vinho que lhes foi oferecido pelos homens, mas o meu Pai também vos brinda com o vinho dos Céus. Que seja feita então a vossa vontade! Mãe, dá a bebida aos meus irmãos!

De repente, ao que todos viram com grande admiração, todos os recipientes estavam repletos de vinho.

Jesus pegou daquele vinho e ofereceu a Camarfeu, que bebeu e lhe disse:

— É mesmo de costume oferecer sempre o pior vinho no começo e guardar o melhor para o final!

Jesus sorriu e disse:

— Bendito seja o Pai que está nos Céus, que nos deu a vinha para que nos alimentemos do seu fruto! Bebei em memória dos vossos ancestrais! Bebei em memória daqueles que vos serviram o ananás do deserto e vos envenenaram com o seu veneno! O Pai hoje vos dá o vinho da vida, uma nova bebida para me consagrar perante vós. Bebei em honra do meu Pai, porque uma nova aliança é estabelecida com todos vós, pois o Príncipe deste mundo ainda está convosco. Quem estiver comungado a mim sempre terá fartura, pois mesmo que faltar a água, ela virá do Céu e dessedentará a todos. Mas em verdade vos digo que aquilo que está diante de mim estará diante de vós, e vereis que foi para este princípio que o Pai me enviou a este mundo.

Disse-o e saiu a um canto, onde se pôs solitário. Maria o seguiu e, vendo que ele chorava, indagou:

— Meu filho, por que choras?! Ora, todos estão contentes e tudo é motivo de alegria. Por que choras assim, meu filho?!

Jesus segurou nas mãos dela e disse:

— Não choro por mim; choro por este povo, choro pelos meus irmãos que ainda não me podem compreender, que ainda bebem por beber, e não em honra do Pai, nem em minha honra. Dias virão em que tudo será uma só tristeza, em que o céu se escurecerá. Serão dias de trevas sobre a humanidade! As trombetas me anunciarão a todos os povos e o seu som será tão forte como jamais se ouviu com o próprio trombetear de Roma. Nesses dias, mãe, muitas lágrimas cairão e muitas mães lamentarão: tentarão amparar os seus filhos e não os acharão, porque delas serão arrancados.

Jesus falava e chorava.

João, vendo-o e ouvindo daquele jeito, acercou-se dele, segurou em suas mãos e disse:

— Mestre, serei teu humilde servo e, para aonde fores, guarda-me lá um lugar para que também eu esteja contigo!

— João, edificarás as minhas palavras por sobre todos os homens da Terra!

Ainda segurando ternamente nas mãos de Jesus, pediu João:

— Perdoa-me, Senhor, por não te entender!

Judas se ajoelhou aos pés de Jesus e também pediu:

— Perdoa-me, Senhor, porque não pude compreender-te! Mas há tantos e tantos mistérios, Senhor, que a minha alma ainda padece na escuridão, por tanta falta de conhecimento! Sei agora que és a Luz do mundo!

Jesus fitou Judas fraternalmente e disse:

— Sim, Judas, esta é a nova luz para o novo mundo!

— Senhor, de corpo e alma te servirei! Jesus se ergueu e disse:

— Ide! Aproveitai bastante a festa! Dançai, porque hoje é o dia da nossa alegria, porque hoje se celebra a união de dois seres — e que Deus lhes dê vida longa!

Dançaram e festejaram. Camarfeu, porém, tinha algo bloqueado na garganta e afinal indagou:

— Jesus, como é que fazes tais coisas maravilhosas? Tais poderes são dados também aos outros homens da Terra?

— Camarfeu, Camarfeu! Todos os poderes existentes nos Céus são concedidos também a todos os homens que caminham pela Terra, porque o homem não é somente a carne: ele também é forjado no Espírito do meu Pai.

— Estou muito alegre por ter conhecido a ti, Jesus, e de poder estar aqui contigo.

— Camarfeu, muitos seriam os reis e sacerdotes esparsos por este mundo que almejariam ver-me, ouvir-me, sentir-me, mas não o puderam, porque ainda não chegou o tempo deles.

— Benedites está muito velho e, ao que sabemos, não quer morrer sem antes te ver.

— Mais uma vez te peço, Camarfeu: dize a Benedites que ele também é um dos meus escolhidos e que o trabalho dele está sendo bem feito. Dize-lhe que não deve atemorizar-se, pois ao meu Pai partirei bem mais cedo do que ele, e, estando eu na glória do meu Pai, rogarei toda a força necessária para que ele possa cumprir na Terra o meu trabalho.

A noite assumia o seu reinado e todos festejavam. No avançar das horas, Jesus se recolheu a um canto, no jardim, sob uma árvore.

A festa terminava e os ruídos foram cessando. Encontraram Jesus dormindo e não o aborreceram. Os apóstolos também se acomodaram por ali e dormiram.

Ao amanhecer foram ter com Jesus e ainda o encontraram dormindo. Acordaram-no e ele disse:

— Já está na hora de caminharmos. Estais bem preparados?

— Comemos e bebemos a noite inteira. Jesus abordou Maria:

— Mulher, onde está Levi?

— Ora, meu filho, ele saiu bem cedo. Disse que iria à casa dele, que não é tão longe, e que retornará em três dias.

— Mulher, pega os teus e vai para o teu lar. Quanto a mim, irei falar do meu Pai aos meus irmãos.

JOÃO BERBEL