XLI - O SAMARITANO E O REINO DOS CÉUS

XLI - O SAMARITANO E O REINO DOS CÉUS

Jesus caminhou dali e, pouco tendo andado, eis que lhe levaram uma criança de pouco mais de um ano. O corpo dela se endurecia e sua boca espumava, sob fortes ataques convulsivos.

Jesus fitou os olhos daquela criança, fitou os olhos daquela mãe que a levava ao colo e indagou:

— Mulher, o que queres que eu faça ao teu filho? Já parto, pois a mim já não sobeja mais tempo por aqui e há muitos e muitos à minha espera.

— Mas, Senhor, és o nosso Deus que desceu à Terra! És o maior do reino dos Céus! Concede-me então esta graça, Senhor! Peço-te, não por mim, mas por este meu filho!

Aquela mãe, súplice, deixou escapar uma lágrima, qual argentina pérola. Jesus recolheu aquela lágrima e colocou no rosto daquela criança, dizendo:

— Espírito maligno, não encontraste outro lugar para teu abrigo, a não ser nesta criança?! Ordeno-te agora: não mais conturbes esta criança!

A criança se agitou fortemente, contorcendo-se todo o seu corpo, enquanto a mãe se desesperava tentando segurá-la e contê-la. Jesus a tomou no colo, passou a mão no seu rosto e, ela se acalmando, devolveu-a ao colo da mãe, dizendo:

— Bela criança tens tu!

Aquilo comoveu todo o povo que a tudo presenciara. Gritos e gritos se fizeram ouvir:

— Este é o nosso Senhor! Este é o nosso Salvador! Este é o Messias, pois somente o Messias pode fazer tais coisas!

Jesus fitou a multidão exultante, admiradíssima, e disse:

— Bem-aventurados são todos aqueles que têm na alma a mansidão e a simplicidade!

Afastando-se lentamente e olhando para a multidão, disse ainda:

— Não deixeis que se obscureça o vosso coração, porque não estareis abandonados. Eu sou o caminho que leva até a vida e aquele que crê em mim tem vida eterna! Vinde a mim, vós que vos encontrais oprimidos e sobrecarregados, e eu vos aliviarei! Enquanto eu permanecer neste mundo, ninguém padecerá o tormento dos demônios, ninguém deverá temer mal algum, porque vos farei homens livres!

Virou as costas e caminhou dali, seguido dos três apóstolos, e no mar da Galiléia reencontrou os demais.

Caminhando com eles, Jesus parou à frente de uma casa em que sentiu muita tristeza e muita dor. Sentava-se à porta uma mulher e Jesus lhe indagou:

— Mulher, por que tanta tristeza nos teus olhos?

— É porque o meu marido está muito doente e vai morrer.

— Mulher, sabes quem sou?

— Sim, sei que és Jesus, sei que és aquele que tanto esperamos. Porém, eu não queria incomodar-te, Senhor, porque meu marido está velho e nada mesmo se pode fazer por ele.

— Mulher, acreditas mesmo no que acabas de dizer sobre mim?

— Sim, Jesus, eu acredito!

— Vai ter então com o teu marido, porque ainda não é o tempo dele. Dá-lhe o que de comer, porque sente fome.

Jesus caminhou dali algumas dezenas de passos e eis que, subitamente, aquela mulher chegou até ele gritando:

— Bendito seja o Céu, que te enviou à Terra, Senhor, porque o meu marido já está curado!

— Todo aquele que crê em mim estará salvo!

Disse-o Jesus e dali se retirou.

Muitos viram e ouviram aquilo e muitos levaram pães, água e vinho para que Jesus os abençoasse.

Uma multidão se postou ao lado de Jesus, que se sentou numa pedra e comeu e bebeu com os demais.

Ali se aglomeraram muitas pessoas de má fama, muitas prostitutas, que se aproveitavam daquela oferta de vinho e bebiam sem que por nada pagassem.

Chegou ali um homem chamado Omar, dizendo:

— Senhor, não é certo, não é justo comer e beber com essas criaturas!

Jesus disse:

— Omar!

O homem atalhou:

— Mas como sabes o meu nome?! Poucos aqui me conhecem...

— Sei quem és, sei de onde vens e sei também que muito tens. Porém, a quem muito foi dado também pode ser retirado.

— Por que dizes isto, Senhor? Por ter eu alguns pertences?

— Nada que existe na Terra pertence ao homem; pertence-lhe unicamente aquilo que vem de Deus. Por que não comes e bebes comigo? Não vim chamar os justos ao arrependimento, e sim os que necessitam ouvir as minhas palavras. Come em minha memória!

— Senhor, bem vi o que há pouco fizeste. Bela é a tua obra, não posso negar. Porém, e essas e esses que estão do teu lado?

Jesus se ergueu num impulso e, alterando supinamente o tom e poder da sua voz, fê-la percutir fortemente naquelas consciências:

— Ó servo cruel! Na tua boca há o veneno da serpente?! Não ouviste o que te disse?! Vim para este mundo chamar os culpados ao arrependimento! Não podes entender-me porque vives das coisas da Terra e com elas morrerás! Vim do mundo de Deus e para Deus subirei, e jamais renegarei a um destes pequeninos, porque, se o fizer, também a mim será negado o reino dos Céus. O reino do meu Pai não foi constituído com o ouro da Terra, e sim no sacrifício de se amarem uns aos outros. Foi para este princípio que vim a este mundo, para dar-lhe o amor, e em nome deste amor hei de derramar o meu sangue!

A voz troante de Jesus, aquele tom violento, similar ao verbo de João Batista, estremeceu todos aqueles corações. Aquele homem, constrangido, caiu de joelhos e lhe pediu perdão. Jesus o perdoou, dizendo:

— Aquele que julga também será julgado e aquele que perdoa também perdoado será no reino dos Céus!

Aquele homem, sob lágrimas, pediu ainda:

— Perdão, Senhor, mais uma vez, por minhas ofensas!

— Não pecaste sobre mim: pecaste sobre ti mesmo. Sê puro de coração, da forma que vês os demais!

Aqueles homens e mulheres diziam:

— Mestre! És tão bom de coração! Dize-nos, Senhor, o que é ser bom!

Ali sentado, rodeado dos seus apóstolos, disse-lhes Jesus:

— No rumo de Samaria seguia um viajante que de repente foi apanhado pelos ladrões, que o esbofetearam, chutaram e jogaram ao chão. Julgando-o morto, lá o deixaram, levando a sua montaria e os seus pertences. Horas depois passaram por ele vários homens que o viram e fizeram por ignorá-lo. Passou por lá um sacerdote que vivia ensinando nas sinagogas, olhou para aquele homem caído e disse: — Está morto e nada se pode fazer. De repente passou por lá outro homem, um judeu que tinha consigo o dom de ensinar, e procedeu da mesma forma. Passou por lá também um samaritano, ele que religião alguma professava, e, olhando para aquele homem, disse para si mesmo: — Está péssimo ou está morto. Verificando melhor, viu que ele estava muito ferido. Tirou da sua montaria o azeite e o aplicou em todo o corpo daquele homem, limpando as suas feridas. Instalou-o na sua montaria e seguiu de pé, conduzindo-o. Chegando na cidade, foi ter a uma hospedaria. Chamou o proprietário, passou-lhe algumas moedas e lhe disse: — Isto dá para pagar vários dias de sua estadia. Cuida bem das suas feridas. Voltarei aqui e se o dinheiro não cobrir as despesas, pagarei o restante. Eis então que por ali passara um sacerdote, um levita e um samaritano. Dizei-me agora: qual dos três foi legitimamente o homem bondoso? Todos responderam:

— O samaritano.

— Então agi igual ao bom samaritano! Uma criança se aproximou e sentou perto de Jesus.

Um dos presentes disse:

— Senhor, falas tão maravilhosamente! Ensinas-nos coisas que outros não nos podem ensinar. Nem os grandes profetas nos ensinaram assim! Mas, Senhor, dize-nos: como é o reino dos Céus?

— O reino dos Céus não é coisa que se vê aqui ou acolá.

— Senhor, falas tão bem!

— Muitos reis desejariam estar aí sentados, no vosso lugar, mas em verdade a eles não foi dado tal merecimento, e sim a vós, porque hoje o reino dos Céus se revela a vós através de mim.

— Como se faz para entrar no reino dos Céus?

Jesus, tendo ao colo aquela criança, disse:

— Quereis mesmo ganhar o reino dos Céus?

Todos responderam afirmativamente e Jesus lhes disse:

— Então sede simples e puros, iguais a esta criança. Na verdade o reino dos Céus não é conquistado ao peso do dinheiro e do ouro, e sim da simplicidade. Sede puros tanto quanto esta criança e a vós será aberto o reino dos Céus. Sede iguais àquele bom samaritano e então vereis que o vosso verdadeiro galardão está constituído na vossa simplicidade, no amor que habita dentro da vossa alma. A muitos serão dados galardões e galardões de ouro, e eles se perderão sob o peso do seu próprio ouro, e esses não verão a Deus.

Saciada de comida e bebida, a multidão se dispersou, ali permanecendo apenas Jesus e os apóstolos.

A noite chegava e um deles disse:

— Senhor, devemos ir à cidade.

— Não iremos à cidade. Pernoitaremos por aqui mesmo.

Junto com André, Judas se acercou de Jesus e disse:

— Senhor, falas tão bem! João ensinou os seus discípulos a orar. Senhor, aqui estamos sozinhos e então ensina-nos a orar!

— Vinde!

Jesus caminhou até uma alta duna, ali se sentou e pediu a todos que se sentassem. Em seguida, silencioso, fitou o rosto de cada um dos seus apóstolos.

Naquele momento, uma luz desceu do alto. Jesus abriu os braços e fitou o céu, dizendo:

— Bendito seja o senhor, que criou o Céu e a Terra! Bendito seja o Senhor, que criou tudo o que existe na Terra! Ó Pai que estás nos Céus e em toda parte, e nos dás o pão que todo dia nos alimenta, santificado seja o Teu nome sobre todas as coisas! Ó Pai de misericórdia e de amor, dá-nos a força de viver neste mundo perdoando sempre! Pai, perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos os que nos devem! Livra-nos de todos os pecados e de todas as nossas imperfeições, porque és, acima de todos, o maior poder!

Olhando com ternura para todos os que ali o ouviram, Jesus unificou numa oração todas aquelas palavras que eles pouco entendiam e disse:

— Pai nosso que estás nos Céus, santificado seja o Teu nome! Venha a nós o Teu reino! Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como nos Céus! O pão nosso de cada dia dá-nos hoje, Senhor! Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos os nossos devedores. Não nos deixes entregues às tentações, mas livra-nos, Senhor, de todo mal, porque és, para sempre, o poder e a glória!

Maravilhados, todos tentaram deixar gravadas em si mesmos aquelas palavras. Um deles exclamou:

— Como isto é belo, Senhor!

— Belo é tudo o que o Pai nos dá! E doravante vos chamarei de irmãos. Amai-vos uns aos outros tanto quanto eu vos amei!

Disse-o, puxou para o rosto o capuz e saiu andando, acompanhado dos apóstolos.

Chegou a noite e, estando num arvoredo, Jesus ordenou que todos dormissem, um encostado no outro, ele se colocando no meio deles.

Intenso era o frio. Um deles disse:

— Senhor, está muito frio!

— Tende fé! Deus está conosco! Jesus abriu os braços, soprou para o lado daquelas árvores. Todos viram algo diferente que saiu dele e a todos envolveu. Com isto cessou o enregelante frio e Jesus lhes pediu:

— Agora orai ao Pai, na forma que vos ensinei a orar.

E, fitando o firmamento estrelado, disse:

— Na casa do meu Pai há muitas moradas! Se assim não fosse eu não vo-lo diria. Rogarei ao Pai para que, onde quer que eu esteja, comigo estejais!

Todos dormiram e, aos poucos, Jesus também adormeceu.

JOAO BERBEL