XLII - O ALEIJADO E O SACERDOTE

XLII - O ALEIJADO E O SACERDOTE

Ao amanhecer de novo dia, Jesus caminhou com os apóstolos e chegaram numa cidade.

No local, bem movimentado, Jesus foi saudando a todos, pregando-lhes a sua Boa Nova, falando da grandeza de ser bom, de se ajudarem uns aos outros.

Logo uma grande multidão se congregou à volta dele.

De repente um homem ali chegou a chamar por Jesus. Era um aleijado caminhando dificultosamente, apoiado em um pedaço de pau.

Jesus lhe indagou:

— Qual é o teu nome?

— Pela força da nossa religião, meu pai me deu o nome de Jacó.

— Jacó, que queres que eu faça por ti?

— Ah! Senhor, tenho sentido muitas dores e pouco posso caminhar.

— Jacó, teus pecados foram perdoados! Ali estava um sacerdote, que se adiantou e disse:

— Senhor, vejo que, por toda parte, perdoas os pecados. Ora, não é somente Deus quem pode fazê-lo?

— Fariseu hipócrita! Não crês no reino dos Céus porque vives das coisas da Terra, vives a explorar a fé dos homens da Terra! Assim não entrarás no reino dos Céus! Não entras no reino do meu Pai nem permites que nele entrem estes pequeninos!

E quanto a ti, Jacó, crês em mim?

— Senhor, creio com toda a força da minha alma! Creio que és o filho de Davi!

— Se crês, abandona isso que te mantém de pé e vem até mim!

Jacó o obedeceu e foi ter ao chão. O sacerdote se avantajou ali, dizendo:

— Viste? Os pecados dele não foram perdoados!

Jesus fitou o alto e disse:

— Pai, eu Te peço, não por mim, mas para que todos estes irmãos vejam que sou o Teu filho. Isto não posso negar a este irmão! Então que a Tua obra se manifeste em mim perante estes irmãos!

Disse-o, foi até Jacó, ergueu-o e o abraçou. Jacó, apertando-o, disse:

— Perdoa-me, Senhor! Não vou curar-me, porque pequena é a minha fé!

— Jacó, nem tu mesmo conheces a fé que tens no coração! Não foi Deus quem impediu que te curasses, e sim a força do demônio falando pela boca desses homens que me desconhecem. Eu te afirmei que os teus pecados estão perdoados e isto reafirmo: os teus pecados estão perdoados!

Jesus soltou Jacó e ele permaneceu de pé. Caminhou com ele, que andava devagar, com dificuldade, até chegar num ponto em que exclamou:

— Senhor, não sinto mais a dor! Senhor, eu posso andar!

Jesus o deixou e ele andou sozinho, para espanto de todos.

Varando a multidão, Jesus caminhou rapidamente, deixando todos para trás, sem que ninguém lograsse acompanhá-lo naquela sua velocidade.

Os apóstolos se movimentaram, mas haviam perdido a visão do seu Mestre.

A certa altura, Pedro lhes disse:

— Sigamos por aqui! Um deles indagou:

— Mas como sabes que Jesus seguiu por aqui?!

— Porque sei, porque conheço!

Caminharam naquela direção e realmente reencontraram Jesus, sentado à sombra de uma árvore, a comer figos. Sentaram-se ao redor dele e Jesus ordenou que também apanhassem e comessem figos, ao que um deles objetou:

— Mas, Senhor, ainda não é o tempo de figos maduros.

— Por que duvidais?! Disse-vos para que colhêsseis e comêsseis, e então por que não crestes no que vos disse?! Sois também iguais àquele fariseu que não crê em minhas obras?! Não vistes o que aconteceu?! Aquele sacerdote não queria que aquele nosso irmão se curasse, mas ele, mesmo assim, foi curado.

— Perdão, Senhor!

— Comei!

Foram apanhar os figos e então perceberam que, tocando neles, amadureciam nas suas mãos. E Jesus lhes disse:

— Quão pequena é a fé do vosso coração! Na verdade vos digo que o reino dos Céus está próximo!

— Mas, Senhor, levar-nos-ás contigo ao Paraíso?

— Tenho pedido ao Pai que todos aqueles que caminham do meu lado e tenham a mim no coração ingressem comigo no Paraíso e lá comam e bebam comigo. Assim como foi no princípio também será no fim!

A jornada continuou, Jesus lhes dizendo:

— Preciso retornar à casa da minha mãe. Ela está ansiosa à minha espera.

Rumaram à Galiléia e, chegando em casa de Maria, lá foram muito bem recebidos por ela. Havia lá muito pão, peixe e outras carnes.

Jesus lhes disse:

— Comei em minha memória!

Partiu o pão e lhes serviu também o peixe.

Pedro disse:

— Senhor, há tempos não como carne de cordeiro.

— E também não será hoje que comerás, Simão Pedro! Come e bebe, mas não toques na carne!

— Mas, Senhor, por que devo fazer isto?

— Obedece ao teu Mestre, Simão Pedro! André disse:

— Mas, Senhor, ansiamos pela carne! Há quanto tempo vimos comendo apenas pão, peixe e frutos?! Sei que não comes carne, mas nós ainda não estamos preparados para isto.

Jesus lhes disse:

— Sim, não estais preparados! Mas hoje não comereis dessa carne! Comei e bebei! Simão Pedro, Judas, André e Tiago: ao amanhecer tereis, vós quatro, uma missão. Então orai da forma que vos ensinei, para que não vos derrubeis às tentações.

Levi, ali presente, disse:

— Senhor, tanto e tanto queria eu acompanhar-te!

— Levi, estás com a minha mãe! Maria é bendita entre as mulheres! Dentre todos, Levi, escolhi-te para colocar em tuas mãos aquilo que para mim é o maior tesouro na Terra. Ela não conta mais com o meu pai e, a exemplo de todas as mulheres, necessita de um protetor. Levi, muito serás ainda recompensado por tal dedicação.

Os apóstolos comeram, beberam e dormiram.

Ao amanhecer, Jesus foi o primeiro a se erguer. Chamou aqueles quatro e lhes disse:

— Ficarei aqui por algum tempo e, quanto a vós, ide até João Batista!

Judas objetou:

— Por que devemos fazê-lo?! Ora, João Batista ordenou que seguíssemos a ti!

— É por pouco tempo que estareis com ele. Ide e dizei-lhe que nada deve temer, que estarei com ele.

— Mas por que devo dizê-lo a João?!

— Ide e dizei-lhe que ele é o Homem do Batismo e que tudo o que o meu Pai ordenou que eu fizesse na Terra já está acontecendo. Dizei-lhe que não o abandonarei em momento algum e que tudo o que fizer deverá ser feito em nome de Deus, porque foi para tal princípio que ele veio à Terra. Dizei-lho fitando os olhos dele! Simão Pedro, tens nas tuas mãos estes três irmãos: vai com eles e aguarda o sinal te indicando o momento de todos vós retornardes a mim.

JOÃO BERBEL