XLIV - CURAS E PREGAÇÕES EM DAMASCO

XLIV - CURAS E PREGAÇÕES EM DAMASCO

Naquela manhã, Jesus e os apóstolos já estavam preparados para sair em pregação em direção ao Mar da Galiléia.

Todos aqueles homens, a exemplo de tanta gente daquelas vastas regiões, estavam tristonhos com a partida de João Batista. Israel inteiro entrara em luto, muitos e muitos chorando a ausência do grande profeta.

Jesus procurava afastar-se dos centros urbanos, dcslocando-se mais para as regiões rurais, onde descansavam e dormiam.

A certa altura daquela nova jornada, Simão Pedro abordou Jesus:

— Ora, Mestre, há muito não nos alimentamos da carne, há muito não estamos cobertos pelo teto de uma casa. Com isso poderemos enfraquecer-nos, não chegar no final de nossa missão, e encontrar a morte.

-Senhor, precisamos descansar. Caminhamos há dias e não temos tido a cobertura de um teto.

— Simão Pedro, filho de Jonatas, não é somente de pão que vive o homem, mas também pelo amor de Deus para com todos os homens da Terra. Caminhaste ao meu lado, ouviste o que tenho dito a todos os meus irmãos. E deixaste a tua família para me seguir e isto será favorável a ti para que também estejas comigo quando eu estiver no Paraíso, porque isto rogarei ao Pai. Preocupas-te com o que vais comer, com o que vais beber, ou onde dormirás. Esquece-o, pois nada disso é importante ao homem terreno. Deus deu a todos, na perfeita harmonia, o seu bendito e santo amor. Simão, crê em minhas palavras, puis foi por amor a todos vós que vim a este mundo, para vos dar uma Boa-Nova, para que tudo o que eu disser permaneça entre vós. Fostes escolhidos pelo Pai, porque o Pai está em mim e eu estou em vós, e aquele que está comigo também está em mim, e aquele que está em mim está protegido pelo meu Pai. Não te inquietes com o alimento. Por que tanta preocupação nos teus olhos?

— Simão Pedro, es filho de Jonatas, a ti foi dado um lar. mas hoje eu e tua família e o teu teto, porque eu sou a tua casa. Leste o que está escrito e o Filho do Homem? Não entendeste o que diz a Escritura? O Filho do homem é livre igual às aves que voam e é puro de coração, tal uma criança, Simão Pedro, assim agirá o Filho do Homem com seus seguidores, até chegar o dia. Não teremos um teto onde nos abrigar, não teremos uma pedra onde nar a cabeça, porque os anjos do Céu nos oferecem o seu teto e a sua cobertura. Dorme em paz, Pedro, porque amanhã terás um novo dia. Prepararemos para deixar a Galiléia, ir para novas terras, ao encontro de novos povos. Sempre estarei repetindo tudo aquilo que disse a todos vós, e isto será nova lei sobre a Terra.

— Mas, Senhor, nas Escrituras já consta tudo o que Deus nos deu para acreditássemos e nos instruíssemos. O que mais deveria ser lá acrescentado? Moisés já nos trouxe os Dez Mandamentos e os demais profetas já nos passaram as suas leis. E quanto a ti, Senhor, trazes uma lei andando em meio mendigos, dormindo nas matas e não tendo um teto que te proteja. Ora, todos os demais profetas tiveram mais conforto. Moisés tinha a sua tenda, tinha suas mulheres. E quanto a ti, não clamas por nada disso que há sobre a Terra?

— Ó Simão Pedro, nada ainda compreendeste! Ainda não entendeste o vim fazer nesta Terra. Dorme, Pedro, e tudo aquilo de que necessitas te concedido por meu Pai. Quanto ao meu mandamento, está em tudo o que tenho ensinado: amai ao próximo tanto quanto a vós mesmos e a Deus e todas as coisas. Meu irmão, se guardares este meu ensinamento, Deus á contigo, porque Deus ama a todos os seus filhos.

- Mas, Senhor, como pode ser assim?! Por que não vamos aos grandes templos para que lá mostres o que sabes, para que todos te respeitem? Sim, porque bem sei que és realmente o Emissário de Deus. Assim ficaria bem mais : não precisaríamos ficar peregrinando de um lado a outro, teríamos fartura comida e bebida.

- Simão Pedro, realmente nada assimilaste do que eu te disse. Simão Pedro, vim a este mundo para dar testemunho da verdade. Aquele que se angrandece, Simão Pedro, será rebaixado e aquele que se rebaixa será exaltado no reino dos Céus - isso eu já disse. Ouve o que digo!

-Mas Mestre, como pode assim te ouvir o mundo? Muito bom e belo é o que fazes, todos viram e sentiram o que fizeste a vários irmãos. Sei que nenhum outro fez tanto assim.

— Simão Pedro, não vim a este mundo para trazer a paz: vim trazer a espada.

Simão Pedro se perturbou ao observar que aquele diálogo se distanciou daquilo que ele vinha dizendo. Confuso, indagou:

— Mas, Mestre, és contra a espada!

— Simão Pedro, um dia a tua própria espada sairá da bainha. Nesse dia verás o sinal no céu. Porém, esse momento ainda não é chegado.

— Senhor, disseste-nos, e também disseram-no as Escrituras, que libertarás a Terra de todos os males.

— Sábias são as tuas palavras, Simão Pedro, sábias são as tuas palavras, mas não será como imaginas. Não vim ao mundo para julgar e condenar o mundo. Vim a este mundo para trazer a paz, mas não aquela paz que imaginas. A paz que trago comigo é a paz de Deus, porque aqueles que não me ouvirem e não aceitarem o que faço serão julgados por si mesmos.

— Mestre, perdoa-me pela minha ignorância em não te entender, mas muito e muito creio em ti, tanto quanto nenhum outro da Terra. Estarei sempre contigo! Não, jamais te abandonarei!

Jesus abraçou Simão Pedro e disse:

— Simão Pedro, filho de Jonatas, há muito e muito que se possa fazer sobre o Céu e sobre a Terra, mas somente os que são bons e humildes de coração, aqueles que são misericordiosos podem entender. Não sou o juízo da vida, porque a ninguém vim condenar. Vim dar complemento a tudo aquilo que já foi dito e mostrar aos homens que o tempo é chegado para que o Pai se reconcilie com a Terra, para que o reino dos Céus desça sobre a Terra. Para tal testemunho é que vim a este mundo: testificar o Pai, glorificar o Pai perante a humanidade, mostrar a todos que o Pai está em mim e eu estou no Pai. Hoje sou o Príncipe deste mundo, mas o meu reinado não se assenta sobre os galardões de ouro, sobre a suntuosidade dos grandes templos e das belas vestes, e sim na simplicidade, mostrando a verdade a todos os irmãos e, principalmente, chamando os culpados ao arrependimento. Para tal princípio é que estou neste mundo. O Pedro, esperar de mim algo diferente não é o que provocará o entendimento. Mas o meu coração está muito alegre e feliz por eu estar aqui. Dorme, Pedro! Amanhã os teus ouvidos ouvirão um chamado que nos levará a outros lugares, e então teus olhos se alegrarão. Agora repousa!

Simão Pedro se deitou próximo de Jesus, que acariciou a cabeça dele e permaneceu ali sentado, examinando com os olhos tudo o que estava à sua volta, e logo adormeceu, o mesmo fazendo todos aqueles exaustos homens.

Jesus acordou bem cedo e, sozinho, partiu dali.

De repente Simão Pedro ouviu um chamado longínquo. Logo viu que selava de Levi e, acordando André, indagou:

— André, aquele não é o amigo de Jesus?

— Sim.

Levi se aproximou e disse:

— Preciso urgentemente falar com Jesus! A mãe dele me pediu para encontrá-lo e dizer que o seu tio Camarfeu não está bem de saúde e precisa dele.

Todos acordaram e logo Jesus retornou, dizendo:

— Levi, vai até a minha mãe e dize-lhe que está tudo bem, que estaremos indo para Damasco e lá veremos Camarfeu.

Levi ponderou:

— Mas, Senhor, os romanos estão lá, estão por toda parte. Haverá lá ia grande concentração deles.

— Sim, Levi, cuja sei. Dize à minha mãe que estarei com Camarfeu e ana, e dize que não se preocupe, que está tudo muito bem.

De fato, Camarfeu estava muito doente e clamava pela presença de Jesus. E lá estavam os romanos, e Cornélius e o próprio Benedites, que fora visitar ao irmão enfermo.

Ali receberam a notícia de que Jesus lhes visitaria então adiaram o seu retorno a Roma.

Jesus e o seu grupo seguiram então para Damasco.

Nas proximidades daquela cidade já se aglomeravam muitos e muitos crendo ver Jesus.

Chegava a tarde. Jesus se deteve numa pequena fonte e ali mesmo várias pessoas chegaram em busca dele, inúmeras criaturas enfermas, cada qual com seu problema.

Todos iam tocando em Jesus e ele então ordenou que se afastassem.

Em seguida foi tocando na cabeça de um e de outro, sempre enunciando palavras mansas, afirmando que Deus estava com eles e que eles eram o povo dc Deus.

Depois que Jesus atendeu a todos os enfermos, estes permaneceram por lá.

Apareceu ali um homem afortunado e se acercou de Jesus, dizendo:

— Senhor, vejo e admiro o teu trabalho. Somente um Emissário de Deus pode fazer o que os meus olhos viram nesta tarde !

Jesus lhe disse:

— Simeão, que a paz esteja contigo! Aquele homem agradeceu e indagou:

— Senhor, que devo fazer para agradar a ti e aqueles que te enviaram?

— Vai e anuncia que o reino dos Céus está próximo!

Simeão arrancou do corpo a sua vistosa roupagem e a quis passar de presente a Jesus, que disse:

— Minhas vestes ainda me servem para cobrir o corpo. Passa a tua veste a um irmão necessitado.

Simeão viu Pedro e o presenteou, e Pedro grandemente se maravilhou com aquilo.

Jesus pediu que aquelas pessoas retornassem aos seus lares e afazeres, uma vez que já se haviam libertado dos seus problemas de saúde.

Todos os olhos se maravilhavam e alegravam, muitos insistindo em permanecer ali, mas Jesus ordenou que fossem embora. Aos poucos a multidão se desfazia.

Todos os apóstolos estavam famintos e Jesus lhes disse:

— Longa foi a caminhada. Estais todos exaustos e famintos. O que tens para nos oferecer, Judas?

— Senhor, temos apenas água.

— Traze-me então a água.

Judas se acercou de Jesus e indagou:

— Mas, Senhor, matarás com água a nossa fome?! Jesus fitou os olhos de Judas e disse:

— Quão pouca fé há no teu coração! Tomé se acercou e ponderou:

— Senhor, se caminharmos, logo chegaremos à cidade e lá teremos o que comer.

— Por que tanto vos preocupais com o alimento? Já vos pedi para olhardes para as aves que voam livres no céu: cias não plantam, não colhem, não têm celeiro e, todavia, Deus nada lhes deixa faltar. Por que então achais que algo vos faltará?

Tomé insistiu:

— Mas, Senhor, apenas água?!

Jesus virou as costas, deu alguns passos, olhou para o alto, olhou para os apóstolos e disse:

— O Pai que está nos Céus nos dará o alimento. Bebei das minhas águas, porque elas vêm dos Céus e vos alimentará!

Jesus tomou daquela vasilha, bebeu um pouco e ordenou que todos bebessem daquela água. Beberam e aquela água matou a fome de todos.

Prepararam-se para dormir.

Simão Pedro pegou aquela sua vistosa veste que ganhara e a colocou sobre uma pedra, bem à vista dos seus olhos. Logo dormiu, a exemplo de todos os demais.

Jesus contemplou todos o seus apóstolos e entendeu que eram homens rudes e necessitados de alimento substancial.

Pôs-se em oração, sob um forte sentimento de piedade e amor.

De repente todos aqueles homens, desdobrados em sono, estavam diante de Jesus e de uma pedra onde havia uma farta alimentação: carne, pão, mel e muito mais do que requisitavam para o seu sustento. Comeram e se fartaram.

Até então cabisbaixo, Jesus fitou o céu, agradeceu a Deus, deitou-se e adormeceu.

Com aquela forte alimentação espiritual, todos dormiram um pesado sono.

Em certa hora da noite passava por ali um andarilho. Viu aquela bela veste exposta na pedra, ao lado de Pedro, e a surrupiou, distanciando-se furtivamente dali.

Assim que o primeiro raio de Sol tocou no rosto de Pedro, ele acordou. Seu primeiro olhar foi para aquela bela capa que lá não mais estava.

Espantou--se, indignou-se sobremaneira com aquilo e, furioso, acordou Jesus. Este olhou para o transtornado Pedro, tentando entender o que acontecia, e Pedro disse:

— Mestre, passou alguém aqui e roubou a minha veste! Jesus fixou Pedro por alguns momentos e depois disse:

— Simão Pedro, filho de Jonatas, por que não deste também o restante de tuas vestes para que aquele homem as levasse? O maior tesouro que podemos acumular é aquele que a traça não come, a ferrugem não corrói e o ladrão não rouba.

— Mas, Senhor, ganhei de presente aquela bela veste!

— Simão Pedro, filho de Jonatas, ganhaste muito mais do que isso e não o percebeste!

Todos já erguidos, Jesus olhou para a água da vasilha e se dirigiu aos seus:

— Algum de vós ainda sente fome? Bebei desta água para irmos embora. Tomé se adiantou:

— Mestre, sonhei com uma grande mesa. Estavas na cabeceira. Era uma ceia e havia grande fartura. Todos comeram. Há tempos não comíamos assim! Foi um sonho muito alegre e feliz!

André também se adiantou:

— Mestre, eu também sonhei com esse banquete!

Viu-se, pois, que todos haviam sonhado a mesma coisa, e Jesus lhes disse:

— O homem precisa do alimento, mas não somente de pão vive ele. Tomaram então a direção de Damasco.

As vestes de Jesus e de todos os apóstolos já estavam péssimas, bastante sujas pelas viagens.

De repente viram ao longe aquele agrupamento de soldados romanos. Pedro ponderou:

— Mestre, são muitos os soldados. Aguardemos que saiam de lá, para que possamos lá chegar.

— O que temes? Enquanto tu e os demais estiverdes comigo, enquanto eu caminhar neste mundo ao vosso lado não deveis temer mal algum.

— Senhor, observa como eles se vestem e olha para as nossas vestes. Estamos maltrapilhos, iguais aos mendigos e esfomeados!

— Tu, Simão Pedro, e todos vós, meus irmãos, deixastes a fartura do vosso lar e também eu nada vos deixarei faltar. Mal algum vos deve atemorizar. Ainda não chegou a minha hora, a hora da escuridão, e, portanto, a luz ainda se faz presente entre vós.

Os cabelos de Jesus e dos demais estavam sujos e faziam péssima figura. Jesus lhes disse:

— Pernoitaremos na casa de Camarfeu.

Caminharam e chegaram diante daquele grande destacamento militar. Vestidos daquela forma bem desagradável de se ver, logo foram cercados pelos soldados. Um deles avançou a mão sobre o peito de Jesus, que fixou os olhos dele e disse:

— Meu irmão, a tua doença está curada! Estranhando, indagou o soldado:

— O que disseste?!

— Digo-te: não tens mais problema para urinar. O meu Pai te concedeu esta graça! Não deves mais te preocupar com isso.

O soldado levou a mão à altura da bexiga, sentindo ali uma forte dor.

— O que fazes comigo?! - indagou.

Jesus tocou-o na altura da bexiga e lhe disse:

— Estás curado!

A dor daquele homem desapareceu de imediato e ele teve uma forte vontade de urinar. Estando em praça pública, não havia como urinar.

Os demais soldados o rodearam e ali mesmo urinou, na normalidade, e entendeu que realmente havia sido curado.

Desperta por aquela movimentação em frente à sua casa, Joana saiu à porta e, vendo que se tratava de Jesus e seus seguidores, pediu aos guardas que lhes abrissem passagem, afirmando-lhes que eram aqueles por quem estavam esperando.

Jesus saudou Joana e, adentrando aquela casa, saudou a todos que lá estavam e foi ter diretamente ao leito de Camarfeu, que amargava fortíssima dor à altura da cintura e não mais podia andar, em razão de um tombo acidental.

Fitando Camarfeu, Jesus tocou com o dedo em sua testa e o tirou. Camarfeu disse:

— Jesus! Há tempos estou acamado, sem poder andar. Podes curar-me?

— Sim! Já estás curado! Levanta-te e anda, Camarfeu, em nome de Deus!

Ele se ergueu e andou sem nada mais sentir.

Jesus viu a um canto um velho homem que se maravilhara com o que acabara de ver.

— É Benedites - disse Camarfeu.

Benedites deixou escapar lágrimas e lágrimas, e, ajoelhado aos pés de Jesus, disse:

— Senhor! O tempo passou e já chego aos meus últimos dias. Ah! Eu não poderia ser mais alegre e feliz como me sinto hoje! Senhor, eu bem que desejaria caminhar ao teu lado, permanecer perto de ti para te proteger, caso alguém ousasse atacar-te.

Jesus fixou os olhos de Benedites, pegou no seu braço e o ergueu, dizendo:

— Benedites, estás junto de mim, caminhas comigo, porque estou junto àqueles que a mim recebem. Antes que viesses a este mundo já te fora dada, Benedites, em meu nome, a honra dos Céus.

— Mas, senhor, muito criança eu era ainda e ja ouvira falaru de tiu, que vieste para salvar o mundo!

— Para tal testemunho é que vim a este mundo. Todo aquele que crê em mim e em minhas palavras será salvo por si mesmo.

— Senhor, tens a aparência de um grande rei, embora não te vistas igual a um rei.

— Vim para os pobres, para as prostitutas, para os bandidos. A estes vim chamar ao arrependimento.

— Senhor, és tal como eu havia antevisto! És a estrela que brilha neste mundo de escuridão!

— Sábias são as tuas palavras, Benedites!

— Eu não queria deixar este mundo sem te conhecer.

— Benedites, a tua missão ainda não findou. Roma ainda é o teu lugar.

— Mas, Senhor, eu queria servir-te!

— Benedites, já me serves! Em Roma está a tua missão e vida longa terás para que possas completar o teu trabalho na Terra.

Disse-o e o beijou e abraçou. Com aquele amplexo, fortíssima foi a energia que Jesus transferiu àquele homem: embora sob a mesma aparência exterior, Benedites se renovou interiormente, muito se fortalecendo.

Jesus os deixou e foi ter com Joana.

Camarfeu observou Benedites a andar com desenvoltura e, estranhando, indagou:

— O que foi que aconteceu contigo, Benedites?! Não estás mais a rastejar!

Benedites bem entendeu que aquela energia absorvida de Jesus realmente lhe propiciaria um prolongar de sua existência. Jesus disse a Joana:

— Dize aos nossos irmãos que ainda hoje estarei na sinagoga. Disse ela:

— Senhor, bem sujas estão as tuas vestes. Deves lavar-te, e também teus seguidores.

E todos se banharam e receberam novas e limpas vestes. O almoço foi servido e, sendo servidas as várias carnes, Jesus impediu que os seus apóstolos as comessem: deveriam comer apenas carne de peixe e pão.

Simão Pedro, descontente, observou:

— Ora, Senhor, no banquete que nos ofereceste em sonho havia carnes...

A carne que vos foi ofertada naquela noite não proveio de nenhum sacrificio de animal, o que ja não acontece aqui e agora.

Todos estavam desejosos de saborear aquelas carnes, mas obedeceram a Jesus.

Tendo sido curado, Camarfeu, em comemoração, mandou preparar um banquete para a noite e ordenou que matassem seus melhores animais.

Jesus foi ao templo, que estava completamente lotado, muita gente até permanecendo de fora. Ali pregou:

— O reino dos Céus está próximo. Amai-vos então uns aos outros! Na Terra Prometida entrarão apenas os bons de alma e coração. Respeitai-vos, irmãos! Que os filhos jamais deixem de respeitar os pais! Quando alguém vos tomar uma veste, dai-lhe o resto das vossas vestes para que as leve consigo. Quando alguém vos bater no rosto, mostrai-lhe a outra face para ser batida. Se alguém vos tomar algo por empréstimo, não o busqueis. Se alguém estiver faminto, dai-lhe o que de comer. Se alguém estiver nu, dai-lhe o que possa cobri-lo. Se algum faminto e maltrapilho bater à vossa porta, deixai que entre e se banhe, e dai-lhe novas roupas. Fazei tudo isto em memória do Eterno, porque todo aquele que ajuda também recebe dos Céus a ajuda, e a todo aquele que ama o seu irmão também vem a recompensa dos Céus e m forma de amor. Sois livres, meus irmãos! Nenhum de vós está aprisionado, porque Deus vos criou livres. Então a ninguém aprisioneis. Quando fordes fazer um festim, não chameis apenas aqueles que têm acesso ao vosso lar e ao vosso coração: chamai também os necessitados, os maltrapilhos. O Paraíso, meus irmãos, é conquistado através do amor de uns para com os outros. Mal algum temais quando tiverdes de estender a mão aos necessitados, porque tudo aquilo que os olhos dos homens não podem ver é visto pelos olhos de Deus. Por isso, quando fordes levar vossa oferenda ao altar, lembrai-vos antes dc vos reconciliar com o vosso irmão. Quando tiverdes de auxiliar alguém, não o trombeteeis para que todos saibam que tendes um bom coração, porque tudo o que não é visto pelos olhos humanos é visto pelos olhos divinos. Aquilo que é visto pelos olhos do homem é somente visto por eles. O que dá a vossa mão direita não deve saber a vossa mão esquerda. Fazei isto em memória de Deus e estareis sempre com Deus, e Deus estará sempre ao vosso lado. Sim, porque se odiarmos e não amarmos, não seremos bem-vistos por Deus. Nosso Pai nos deu tudo aquilo de que necessitamos. Não é necessário que retiremos algo do nosso irmão, pois tudo aquilo de que carecemos Deus coloca ao nosso alcance. O reino dos Céus é constituido do amor do vosso coração, da misericórdia de cada um de vós. Em busca desse amor é que edificareis o vosso verdadeiro Paraíso. Mas para que nele possais entrar é preciso que sejais mansos dc coração, humildes de alma, porque é este o legítimo tesouro a ser buscado pelo homem. Todos aqueles que se iludiram com os seus galardões de ouro atraíram para si apenas a tormenta, o aguilhão do sofrimento. O Pai conhece todos os seus filhos. Não cai da árvore uma só folha sem que o Pai não saiba. Tudo o que está em vós está interligado ao Pai que está nos Céus. Sede bons, sede perfeitos, porque nisto vos aguarda nos Céus a recompensa.

Todos se encantaram com a pregação de Jesus.

Os olhos de Benedites estavam marejados de deslumbramento, e ele deixava escapar os seus pensamentos no sentido da luta de Jesus pela igualdade dos povos, para que nenhum irmão vivesse à custa do sacrifício de outros.

Jesus foi muito bem-aceito por todos aqueles ouvintes, todos dali entendendo então que realmente ele era o Messias.

Maravilhados, muitos se alegraram e entusiasmaram com tudo aquilo.

JOÃO BERBEL