XLIX - CAMARFEU E CÉSAR

XLIX - CAMARFEU E CÉSAR

Chegando de retorno a Damasco, lá Camarfeu encontrou os soldados romanos e lhes disse que desejava visitar seu irmão Benedites, em Roma. Demétrius lhe disse:

— Dentro de quatro dias partirá um navio com destino a Roma. Se nos apressarmos, chegaremos a tempo. Indo de navio evitarás a cansativa viagem por terra.

— Então irei.

— Que coincidência! Teu irmão também quer ver-te! Embarcaram e logo os ventos os conduziram a uma fortíssima tempestade.

O navio balançava perigosamente. Camarfeu sentiu grande medo e invocou Jesus com intensidade, segurando-se firmemente, a exemplo dos demais passageiros.

Eis que de repente Camarfeu ouviu uma voz:

— Não temas, pois a tempestade não te matará! Aquele que crê em mim navegará em águas calmas e não será surpreendido pelas tempestades!

Logo a ventania foi cessando e as águas se acalmando.

Feliz por aquela oportunidade de ter ouvido Jesus, Camarfeu, entretanto, pensou: Sou um pecador! Estou longe de Jesus! Como foi que ele veio até mim?! Pedi e ele me atendeu! Mas são tantos os meus pecados e então como posso ser um homem bom se tanta maldade fiz, se tanto blasfemei contra Jesus?! Descri dele e ele, mesmo assim, me perdoou!

Aqueles pensamentos não o deixaram até que chegasse a Roma.

Lá foi muito bem recebido por Benedites e viu logo que ele estava muito bem de saúde, parecendo até mais jovem do que ele.

Chegando à casa de Benedites, Camarfeu disse:

Disse-lhe ao irmão:

— Então dorme! Amanhã conversaremos.

Comeram pão molhado em vinho e Camarfeu foi dormir, deixando Benedites ansioso pelas notícias que o irmão lhe pudesse passar, certamente agregando-as àquelas que já lhe haviam chegado e que diziam da enorme repercussão das curas e pregações de Jesus, o que já era bem conhecido e reconhecido por Roma.

Com efeito, os militares diziam que Jesus não se manifestava, em momento algum, inimigo de Roma.

No outro dia Camarfeu recebeu uma roupagem nova, presenteada pelo Irmão, e abriram então o seu aguardado diálogo, obviamente falando de Jesus.

Disse Camarfeu:

— Sou um pecador! Antes de vir aqui fui ter à casa de Jesus para obter as mais recentes notícias dele para depois poder consolar a tua alma, mas não o encontrei.

— Triste está o meu coração! Tens a oportunidade de estar ao lado do Mestre e, quanto a mim, aqui tão longe, não tenho tal felicidade. Eu bem que gostaria de deixar aqui os meus afazeres e retornar à minha terra de origem para lá viver em minha velhice e, à semelhança do meu pai e dos meus ancestrais, lá deixar os meus restos mortais. Porém, pelo que vejo, tal oportunidade não me foi concedida. Então o meu coração se encontra muito triste por não poder acontecer o que deseja. Feliz estou, doutro lado, por saber que o Messias está na ferra e está consolando e transformando os corações.

— Devo dizer-te algo, Benedites. Sabes que sou um grande pecador, que inúmeros são os meus pecados perante Jesus, por ter descrido dele. São tantos e tantos os meus pecados que não sei nem mesmo se sou digno de apenas um olhar de Jesus! Ora, enfrentamos no navio uma fortíssima tempestade. Vi que todos já entravam em desespero, temerosos de que o navio se virasse ou arremessasse às pedras, e então pensei em Jesus com muita firmeza. Foi aí que mivi a voz dele dizendo que quem crê nele não anda em trevas e não se perde nas tempestades. Logo os ventos e as águas se acalmaram, a navegação se tornando uma maravilha até chegarmos aqui.

Benedites segurou na mão do irmão e disse, comovido:

— Ele é o Messias! E' isto mesmo que o Messias está predestinado a fazer sobre a Terra! Todos esperam o fogo destruidor e o entrecruzar de espadas e espadas sangrentas, mas ele traz uma diferenciada paz aos corações. Imagina se o Messias fosse como querem os sacerdotes e os demais: formador de exércitos e fomentador de guerras! Seria um terrível derramamento de sangue, e isto certamente não querem os Céus. Mais tarde estarei com César. Haverá uma reunião com os assessores dele. Serei chamado e estarás comigo.

— Eu?! Ver César?!

— Sim, tu mesmo!

— Mas ele é o grande Imperador e as coisas não são tão fáceis assim.

— Não! César é tão simples quanto nós mesmos.

O conselho se reuniu. César queria saber do andamento das tropas destacadas para aquela região do Oriente Médio, quais eram as notícias daquelas paragens. Junto aos conselheiros e comandantes estava Benedites, e do seu lado Camarfeu.

Aberto o conselho, foi cumprido o cerimonial em que César, no meio de uma meia-lua, saudava a todos os seus comandados. A palavra foi franqueada e alguns se manifestaram. De repente César notou a presença estranhável de Camarfeu, que imediatamente foi apresentado por Benedites:

— Este é meu irmão, que também trabalhou para Roma, angariando tributos.

Após a colocação de alguns assuntos, eis que de repente surgiu aquele da ação e potencial de Jesus.

Um dos militares disse ter encontrado Jesus na casa de Camarfeu, o que foi confirmado por este. Houve então muita curiosidade quanto a Jesus, e César desejou saber mais e mais sobre ele.

Quando, traduzido por seu irmão, Camarfeu falou de Jesus, seus olhos brilhavam. E ele muito lhes informou sobre Jesus.

Os militares, penetrando no assunto, afirmaram que Jesus era um pacificador, que não discriminava os guardas romanos do povo judeu, nem o povo da Judéia daquele de Samaria; que para ele todos eram iguais; que ele não media o homem pelo peso da religião, e sim pelo seu amor a Deus; que todos deveriam ser obedientes a Deus, porquanto Deus ama a todos com igualdade.

César muito se impressionou com tudo aquilo que lhe informavam sobre Jesus e disse:

-— Tenho dos sacerdotes certas notícias que diferem destas que ora me passais. Há alguma divergência entre esse Jesus e os sacerdotes?

Camarfeu respondeu:

— Pelo que sabemos não há nenhuma. Jesus prega nas sinagogas, nos templos, e faz um bom trabalho.

— Mas ouvi falar de João Batista, que foi executado por Herodes numa morte violenta em que mandou cortar a cabeça dele. Achei muito estranho Herodes sacrificar um dos seus irmãos. Não entendi isto muito bem. O importante, porém, é que mantenhamos a paz e a união, que mantenhamos o trabalho em torno destas aspirações, porque sei que há a movimentação de exércitos vindo lá do povo amarelo, o que pode ser uma grande ameaça para todos. Então devemos manter todas as nossas tropas bem informadas e sempre bem preparadas para que entrem em combate a qualquer momento. Há que se concentrar a vigilância na Pérsia, pois se vierem atacar-nos entrarão por ali e temos de tomar todos os cuidados naqueles corredores. Tenho mandado vários informantes e tenho recebido a informação de que há fortes rumores de que várias coisas poderão acontecer nesse sentido, e devemos estar preparados. Então é bom que Jesus nos venha prestando esse trabalho, polarizando para si as atenções, pois assim podemos determinar a diminuição do contingente de nossas tropas naquelas paragens e concentrá-las mais para o lado de Bagdá, para que por lá, segundo os nossos informantes, possamos melhor defender o nosso povo de Roma e o próprio povo de Israel.

O grande César desejou, por fim, que Camarfeu tivesse uma boa estada em Roma.

Camarfeu estava um tanto aturdido com a situação. Jamais havia estado com o poderoso César e ora via que se tratava de uma pessoa simples e acessível, e que ele não queria, de forma alguma, estabelecer qualquer conflito com o povo de Israel.

Encerrada a reunião, os dois irmãos foram para casa. Lá chegando, Benedites, ainda todo enfocado no assunto de Jesus, disse:

— Viste, Camarfeu, como as coisas são diferentes, como o nosso pessoal faz uma idéia totalmente distorcida dos romanos? Vê bem, irmão, e imagina se uma dessas tropas invadir Israel e Jerusalém. Pelo grande movimento religioso existente em nossa terra, o povo acredita que corre lá muito dinheiro e isto pode atrair uma invasão a qualquer momento. Temos informantes que constantemente nos alertam sobre isso. Mas tudo se situa muito distante e, estou certo, nada disso acontecerá, pois ninguém ousará atacar o nosso exército. Se, todavia, acontecer um dia, bem verás os nossos irmãos romanos defendendo o povo judeu, pois eles podem defender até mais do que o poderia o próprio povo judeu. O que Roma recebe e para acudir a todos os povos sob seu domínio, e felizmente nosso povo ainda não sofreu nenhuma invasão. Deves saber, meu irmão, que tenho fortíssima vontade de reencontrar Jesus, mas se ele assim o quer, que assim o seja!

Camarfeu, satisfeito com tudo, sentia-se muito à vontade na casa de Benedites. Ali oraram em gratidão a Deus. Benedites dizia a Camarfeu:

— É uma glória que o Messias esteja sobre a Terra! És agraciado, meu irmão, porque podes vê-lo, tocá-lo, ouvi-lo, quando bem sabemos que muitos não podem fazê-lo.

Os olhos de Benedites brilhavam quando ele se referia a Jesus, o mesmo ocorrendo com o seu irmão, que permaneceu ali por várias semanas, até que retornou a Damasco.

A nova viagem de Camarfeu foi completamente diferente da anterior. Pôde contemplar com admiração a beleza das águas. Fitava os céus e lá via a grandeza da criação divina, sentindo-se renovado após a tão agradável convivência com o irmão.

Chegando a Damasco, Camarfeu encontrou Joana, que há pouco chegara da Galiléia e lhe passou as boas notícias sobre a intensificação do trabalho de Jesus.

Camarfeu ficou feliz com a viagem, com a saúde da esposa e o empenho dos filhos conduzindo os seus negócios.

Eis que um dia Nicodemos, Zaqueu, Jerobão e alguns sacerdotes chegaram a Damasco e foram ter à casa de Joana, porque sabiam de seu parentesco com Jesus.

Nicodemos e seus acompanhantes buscavam Jesus e chegavam de Cafarnaum, informados de que Jesus passara por lá, mas lá já não mais o encontrando.

Joana lhes informou que Jesus estava na Galiléia e para lá rumou então aquela caravana. Entretanto, Jesus já não mais se encontrava na sua casa quando eles lá aportaram. Foram então informados de que Jesus fora à terra da Judéia, à Samaria, para pregar a sua doutrina de amor. Era-lhes dito também que ele logo estaria em Canaã, onde, com certa paciência, poderiam encontrá-lo.

Nicodemos se maravilhou com o trabalho de Maria em torno da educação das crianças. Resolveu permanecer ali por alguns dias para aprender com ela aquilo que poderia levar a Jerusalém, pensando em que as mulheres dos sacerdotes poderiam haurir aqueles bons ensinos da extraordinária mãe de Jesus e assumir um trabalho educativo às crianças. Disse-lhe Maria:

— Jesus foi ter às terras da Judéia e Samaria para pregar àquele povo sem religião, levar-lhes a sua Boa-Nova.

Nicodemos disse:

— E' uma região ainda fora do nosso alcance e da nossa religião, e que poderá gerar muito desconforto e muitos problemas. Vi Jesus de longe, quando pregava, e não pude aproximar-me dele, mas observei que ele falava muito bem.

— Ele é o Emissário de Deus! Ele é o Messias!

Nicodemos não se continha no seu desejo de se avistar com Jesus e disse:

— Iremos à procura dele. Podemos contratar aqui uns guias que nos levem até ele.

Naquele momento Maria silenciou, mas Levi se adiantou, dizendo-lhe:

— Mãe, posso conduzi-los até Jesus.

Como que pressentindo algo funesto, Maria sentiu um mal-estar repentino. Tocou no ombro de Levi e disse:

— Não! Não deves ir com eles! Sinto que não é nada bom ires com eles!

Porém, Nicodemos e os demais insistiam. Zaqueu tomou da palavra, dizendo:

— Jesus curou os meus pecados! Eu estava na perdição, estava banhado nos meus galardões de ouro e ele me mostrou um novo mundo. Conservei comigo apenas o suficiente para a minha sobrevivência e dos meus familiares, e dividi o restante aos pobres. Então Jesus ficará muito feliz me vendo novamente, quando lhe direi que a minha vida melhorou bastante depois que resolvi aceitar esta nova conduta que ele nos passou.

Levi disse:

— Mãe, vou levá-los!

— Meu filho, não vás!

Mas Levi tanto insistiu que resolveram partir.

Levi sabia do itinerário de Jesus e que a preocupação quanto àquele povo da Judéia era muito grande. Resolveram então adiantar-se até Samaria.

Tendo já viajado por lá com Jesus, Levi conhecia os mais fáceis caminhos para conduzir aqueles homens até ele.

JOÃO BERBEL