XLV - ESTEVÃO

XLV - ESTEVÃO

Jesus saiu da sinagoga vagarosamente e seus olhos se fixaram num jovem sábio que estava lá fora. Detendo-se diante dele, disse Jesus:

— Estêvão! Meus olhos muito se alegram por te ver!

— Senhor! Acompanho-te desde a Galiléia. Tenho ouvido o que dizes e sei que somente um Emissário do Céu pode acudir assim os necessitados e enfermos. Qual outro, a não ser tu, o Messias, poderia olhar por esses irmãos?! Senhor, tanto lutei para poder chegar perto de ti, tocar em ti!

— Estêvão, não te preocupes!

— Senhor, virá ter comigo uma jovem de fora e com ela devo unir-me em matrimônio.

Jesus sorriu e disse:

— Eu sei, Estêvão! Recebê-la-ás na condição de esposa. Porém, não te preocupes, pois não ficarás nesta terra e eu estarei contigo todos os dias e todas as horas.

— Dize, Mestre, o que devo fazer!

— Deves ir para a Galiléia e lá receberás todas as informações de que necessitas.

Aquele destacamento militar se preparava para partir no outro dia, pela manhã. Fora bem alimentado na casa de Camarfeu, onde Joana lhe oferecera um banquete.

Jesus lá chegou com os apóstolos. Havia muita carne e dessa feita Jesus permitiu que dela eles se alimentassem.

E assim correu em festa toda a noite. Jesus os deixou e foi ter de novo com Estêvão, que lhe pediu:

— Se permitires, Senhor, andarei ao teu lado.

—Ainda és bem jovem, Estêvão, e ainda não é chegado o teu momento. Vai para a Galiléia e procura a minha mãe!

Estevão partiu para a Galiléia. Lá chegando, encontrou Maria e Levi, em meio a muitas crianças.

Maria o recebeu, indagando:

— Que boa notícia te trouxe até aqui?

— Sou Estêvão. Também venho da descendência de Davi e de Pai Abraão.

Maria muito se alegrou e disse:

— Então, perante Deus, somos todos irmãos. Mas o que fazes por aqui?

— Vim a mando de Jesus.

Maria se maravilhou ouvindo-o e ele indagou:

— E's a mãe de Jesus?

— Sim.

— De quantas crianças cuidas! Jesus me encaminhou para cá. O que devo fazer aqui?

Naquele momento Maria sentiu uma certa influência e disse:

— És ainda bem jovem, mas não és uma dessas crianças a quem eu pudesse ensinar. Pelo que vejo, tens muita cultura.

—A minha família é de Jerusalém. Fui até Damasco porque soube que Jesus estava por lá. Encontrando-o, ele ordenou que eu viesse aqui.

— Sê bem-vindo! Quanto ao que queres saber, dialoga com o nosso irmão Levi.

Estêvão se acercou de Levi, que já linha idade pouco mais avançada do que ele, e indagou:

— Teu nome é Levi?

— Sim. Recebi tal nome dos meus pais. Com a morte do meu pai tive a oportunidade de pregar na sinagoga. Deixei os meus afazeres para ir ao encontro de Jesus. Quando retornei, senti que algo diferente ocorria comigo. Não deixaram mais que eu pregasse na sinagoga, por falar de Jesus. Fui perseguido penosamente e tive que negar Jesus. Foram tristes dias de escuridão a que minha alma se submeteu! Foram dias de dor, de muita amargura no meu coração! Assim foi até que, mais uma vez, Jesus esteve comigo e então pude estar também com João Batista. Se não sabes, Joana foi muito judiada por seu marido. Quase encontrou a morte, mas Jesus a curou. Com a sua cura, ela curou também a mim e pude arrepender-me daquilo que havia feito, e Jesus me perdoou.

— Mas então conhecias Jesus?

— Sim. Muitos o conhecem. Muitos são os parentes dele que o procuram. Ora, não tens uma família, Estêvão?

— Sim, tenho os meus familiares, os meus irmãos. Mas, Levi, o que sabes de Jesus? Conheceste-o agora?

—Não! Conheço-o há muitos anos. Quando ele era jovem, caminhamos juntos. Vi muitas maravilhas operadas por aquelas sagradas mãos. Vi coxo se erguer e andar, vi demônios delirando ao chão quando Jesus lhes apontava a mão, vi coisas que nenhum outro homem viu. Caminhei bastante ao lado de Jesus e pude vê-lo junto de João Batista.

— Então viste mesmo João Batista?! Ora, também pude vê-lo. Bem criança, fui levado até ele por meus pais. João me fixou os olhos e disse que eu iria servir àquele que viria depois dele. Porém, nada pude entender daquilo naquela época. Por algumas vezes pude estar perto de João Batista, que ainda não está esquecido pelo povo.

— Estêvão, crê no que te digo: Jesus é o Messias! Disto não tenho dúvida nenhuma.

Estêvão, interessadíssimo, ia esticando o diálogo com Levi, tentando arrancar dele tudo o que soubesse de Jesus. Levi lhe falava sobre as suas andanças com Jesus, sobre as maravilhas que observara ao lado dele.

A certa altura disse Estêvão:

— Sei que um grupo de homens segue Jesus. Por que também tu não és um desses seus diretos seguidores?

— Estou aqui, a mando de Jesus, para ajudar Maria em tudo o que é preciso fazer. São muitas crianças e jovens, gente igual a ti que às vezes vem aqui. Passo a todos o que aprendi com Jesus. Maria sabe belas histórias e as conta às crianças. As crianças e jovens adoram ouvi-la e muito a amam.

Estêvão estava maravilhado e muito gratificado com o que ouvia. Indagou afinal:

— E eu, o que devo fazer aqui?

— Ora, se quiseres trabalhar aqui conosco, estou certo de que Maria em nada se oporá. A ti não faltará o alimento e a bebida, e com nada terás de te preocupar.

Estêvão resolveu então permanecer por ali. Ouvia os relatos de Levi, as histórias de Maria e muito se alegrava com tudo.

Em dado momento, Estêvão abordou Levi, dizendo:

— Há tempos estou aqui, há cerca de dois meses. Preciso ir ter com os meus familiares em Jerusalém.

Estêvão foi ter então com os seus pais e irmãos, que tinham uma vida bem farta.

O pai de Estêvão não acreditou nem concordou com a conduta de Jesus, conforme tudo aquilo que, entusiasmado, seu filho lhe contava, e lhe disse:

— Ora, Estêvão, já mataram João Batista e se houver qualquer outro profeta que a ele se iguale, também ele não deixará de ser sacrificado.

Mas Estêvão dizia:

— Jesus é um homem diferente. Haviam dito que ele estava em Damasco e então fui ao seu encontro.

— Ora, Estêvão, não ias para Betânia para estar ao lado dos nossos irmãos e lá aprender com eles algo mais das Escrituras?! Vejo que foste muito além do que prometeras, indo até Damasco ao encontro desse Jesus.

— Pai, meus olhos muito se alegraram! Lá em Damasco estava toda a guarda romana, instalada na casa de Camarfeu. De longe fiquei espiando aquela tropa, observando o que acontecia, aguardando ansioso a chegada de Jesus. De repente vi ao longe uma poeira. Ela se aproximava e então pude ver aquele grupo de homens se acercando dali, até que foi detido por um guarda romano. Ora, ali mesmo, sendo barrado pelo guarda, Jesus o curou, eliminando o seu problema de urinar. O guarda muito se alegrou por ter sido curado. Fiquei atento a tudo aquilo e fui entender que se tratava de uma cura somente depois que tudo aconteceu e todos saíram a comentar. Não pude aproximar-me o quanto desejava, mas vi que Jesus e seus seguidores lá chegavam com suas roupas sujas, que não eram homens normais que se vestem como nós e os demais. Eram maltrapilhos, mas, ainda que suja, branca era a veste de Jesus. Logo o vi diferenciado dos demais homens, por causa da sua aparência, da sua estatura. Cativante era o seu sorriso. Bela era a sua barba. Seus olhos eram claros. Não se pode expressar aquela maravilha! Mansas eram as suas palavras e, ao sorrir, parecia penetrar dentro das pessoas. Vi naquele homem simples aquela diferenciadíssima figura e então acreditei que ele é realmente o Messias que esperamos. Ele ficou por ali. Dizem que curou Camarfeu, encarregado da coleta de impostos em Damasco. Pregou na sinagoga. Pai, era tanta gente que nem imaginas!

Saul, pai de Estêvão, indagou:

— Meu filho, afinal o que foi que esse tal homem pregou na sinagoga?

— Eu e tanta gente enfrentávamos muita dificuldade para entrar, aproximar-nos, estar mais perto. Com as pontas dos pés me ergui na direção da janela, que, como as demais, estava aberta. Escutei, com muita dificuldade, o que ele pregou. Falava diferentemente dos demais. Pregava que devemos dividir o que temos, perdoar aos nossos inimigos, amar-nos uns aos outros. Proferiu coisas maravilhosas que eu jamais ouvira dos sacerdotes. Afirmou que somos todos iguais aos olhos de Deus e que as diferenças entre nós são devidas à falta de amor entre uns e outros. Pai, belíssimas eram as palavras dele, e dessa feita ele estava de roupa limpa. Sua veste era tão alva que quase brilhava. Diferente e profunda era a sua voz, maravilhoso o seu jeito de falar. Não se ouvia um mínimo ruído dentro da sinagoga. Estavam todos maravilhados. Ao terminar a sua pregação, Jesus saiu calmamente. Eu estava encostado na parede, tentando descansar o meu corpo pelo esforço que fizera, e então Jesus parou à minha frente e me chamou pelo nome, dizendo que eu deveria partir para a Galiléia e ir ter com Maria, sua mãe. Tive a oportunidade de me sentar ao lado de Jesus, tocá-lo. Não sei o que ocorre comigo, meu pai, mas já não sou a mesma pessoa!

— És quase um homem feito, Estêvão. Deves aprender mais na sinagoga, onde Jonatas está perfeitamente apto a te ensinar. Ele é um grande amigo da nossa família e com ele deves aprofundar as Escrituras, aprender da melhor forma possível.

Daqui a pouco tempo haverás de contrair matrimônio, pois és prometido à filha de Jonatas.

— Pai, sei que devo obedecer-te e o farei da melhor forma que puder, porque também isto recomendou Jesus no seu sermão: Obedecei ao vosso pai e a vossa mãe. É então o que pretendo fazer, e sei que a nossa própria lei manda que o homem case e se multiplique. Pai, não te decepcionarei! Serei um bom filho!

— Meu filho, também tua irmã Abigail logo estará casada.

— Sim, pai, ela já tem o seu pretendente e é um bom homem que fala muito bem nos templos e tem grande ligação com Roma, assim como a têm também os pais dele. Bom é o palavreado dele e é muito educado. E' um estudioso das nossas leis e haveria de ser até um sacerdote, mas assim ele não preferiu, optando por ser um mensageiro daqui a Roma. Sem dúvida que ele é um bom homem e será um bom marido para Abigail.

— Meu filho, és homem e tens as tuas chances. Muito já me alegra que caminhes sozinho pelos lugares que tens ido.

— Ora, pai, nisto não há problema algum. Hoje temos muitas caravanas. Assim como viajamos daqui para Betânia, também vamos para Damasco ou para qualquer outro lado. Quase ninguém mais caminha sozinho, e se fosse para eu viajar solitário, garanto-te que eu próprio não teria tal coragem.

E assim Estêvão permaneceu em casa de seus pais.

JOÃO BERBEL