XLVI - PREGANDO E CURANDO EM BETÂNIA

XLVI - PREGANDO E CURANDO EM BETÂNIA

Jesus e os apóstolos seguiram para Betânia, onde os aguardavam muitos sacerdotes e fariseus que tinham obtido a notícia daquela visita às suas paragens.

Naquele sábado, Jesus adentrou um templo, onde uma multidão ouviu as suas palavras cativantes, falando do amor, falando de Deus.

A certa altura, Simão Pedro e Mateus conduziram até Jesus uma mulher que, vítima de um acidente, andava dificultosamente. Jesus susteve a sua pregação e se colocou diante daquela mulher. Fitou o alto, orou, tocou na enferma e ela devagar se foi colocando de pé, curada do seu mal.

Os presentes se maravilharam grandemente com aquela cura, mas um dos sacerdotes, discordando daquilo, disse:

— Jesus, vi a maravilha que operaste. Sei que curaste os aleijados, limpaste doenças e expulsaste demônios. Isto é muito belo. Magnífica é a tua obra e não há no que contestá-la. Porém, trabalhar no sábado não é lícito ao nosso povo. Nossa lei não o permite!

Jesus fitou aquele homem e disse:

— Fariseus que comeis e bebeis, mas não vos preocupais com os famintos e sedentos! Orgulhai-vos dos vossos rebanhos, mas jamais deixais os vossos próprios animais morrerem por falta de cuidados no sábado, porque isto é valioso ao vosso rebanho. Eu vos digo, fariseus, que o sábado foi criado para o homem, e não o homem criado para o sábado. O meu Pai trabalha todos os dias e nenhum de vós pode condená-Lo. Então por que condenais a mim por devolver o alívio a uma enferma? Será que esta mulher não vale mais do que as vossas ovelhas e outros animais? Ah! Os meus olhos se entristecem vendo ainda em vosso coração a falta de amor para com os nossos irmãos! O reino dos Céus não é construído ao peso dos galardões de ouro, e sim pelo sacrifício do amor de cada um de vós. Se sustentardes o vosso luxo, sereis condenados pelo Eterno, e do templo que construís para vos assentardes sobre ele não restará pedra sobre pedra. Eu vos falo diretamente de Deus, o que ainda não podeis entender.

— Mas, Jesus, isso é contra a nossa lei!

— Por que me contestas por construir dentro da casa do Pai a obra do Pai? Qual é o mal que nisto viste?

Os sacerdotes silenciaram e Jesus arrematou:

— Aquele que a mim recebe também recebe aqueles que me enviaram! Disse-o, saiu do templo e lá fora permaneceu.

Pedro disse:

— Senhor, a noite já se faz.

Jesus ordenou que seus apóstolos dormissem no templo, ao que indagou Pedro:

— Mas, Mestre, e quanto a ti, não vais conosco?

— Não.

Jesus se acomodou num beco, abrigado do sereno, e adormeceu.

Na manhã do outro dia, Jesus e os demais já acordados, acercou-se-lhes uma mulher chamada Sara e lhes convidou para comerem e beberem em sua casa. Jesus adentrou aquele lar e disse:

— Bondoso é o teu coração, que serve ao Filho do Homem, porque aquele que dá ao Filho do Homem o que de comer também o faz aos seus filhos e aos nossos irmãos!

Todos comeram e beberam.

Logo Jesus saiu e permaneceu na proximidade do templo, sentado na areia, a escrever no chão.

De repente uma turbulência aconteceu numa casa próxima, um vozerio, uma correria. Uma mulher fora surpreendida em adultério com o marido de uma mulher dali.

Uma multidão conduzia aquela mulher, aquele homem adúltero também engrossando todo aquele grupo que foi ter aos sacerdotes. Um destes fitou aquela mulher segura por aqueles homens agitados e disse:

— Ela foi surpreendida em adultério e a nossa lei manda que a apedrejemos.

Um sacerdote indagou:

— Estais determinando o seu apedrejamento?

E conversaram entre si e um dos sacerdotes disse:

— Jesus pronunciou palavras sábias, mas agora encontramos uma forma para surpreendê-lo. Levemos até ele esta mulher. Se ele mandar soltá-la, estará agindo contra a nossa lei e todo este povo passará então a ignorá-lo. Ele, que prega o perdão, certamente não deixará que a apedrejem.

Assim estabeleceram entre si aqueles sacerdotes.

Jesus ainda escrevia na areia quando lá chegaram os sacerdotes e a multidão, jogando violentamente aquela mulher diante dele.

Impassível perante aquela provocação, Jesus deu uma olhadela naquela mulher e, silencioso, continuou a rabiscar na areia.

Um dos sacerdotes disse:

— Jesus, as leis do nosso povo, as leis de Abraão e de todos os profetas mandam que apedrejemos todas as mulheres surpreendidas em adultério. E agora, perante esta adúltera, o que dizes?

Jesus se ergueu e caminhou três passos à frente. O Sol, naqueles momentos, fazia brilhar belamente os seus cabelos na coloração de amêndoa madura.

Sua veste alva se destacava sob um esplendor diferente. Sua barba também brilhava. Sua majestosa figura crescia grandemente por sobre aqueles homens, aos quais disse:

— Atire a primeira pedra aquele que dentre vós está sem pecado! Disse-o e fitou profundamente os olhos daqueles homens, que devagar foram atirando ao chão os paus e pedras que seguravam para o apedrejamento, e aos poucos foram todos saindo dali.

Jesus, abaixando-se, voltou a escrever no chão.

Os sacerdotes também se distanciando, postaram-seà porta do templo, atentos ao que ainda aconteceria.

Aquela mulher, caída ao chão, olhou para Jesus e indagou:

— Senhor, o que devo fazer?

— Onde estão aqueles que te queriam apedrejar?

— Todos se foram! Graças dou a ti, Senhor!

— Mulher, vai e não peques mais, para que não tenhas que pagar em dobro os teus pecados!

Jesus se ergueu e caminhou devagar por ali, encontrando criaturas necessitadas e enfermas, a quem ia ajudando e curando.

A certa altura encontrou uma mulher cega que era muito maltratada pelos seus familiares, por lhes causar incômodo com sua cegueira.

Passando por ali, Jesus captou tudo o que ali ocorria em torno dela. Adentrou aquela residência, dizendo:

—A minha paz seja convosco! Muitos se alegraram vendo ali Jesus. Porém, subitamente se ergueu diante dele uma mulher chamada Joana, a qual lhe disse:

— Vi o que fizeste. Por que impediste que apedrejassem aquela mulher?! Ela é indesejável neste local. Veio de longe para nos perturbar. E' uma prostituta: dorme com um, dorme com outro e dessa feita era o meu marido que estava com ela!

— Mulher, o que conheces sobre o reino do Pai? O que te ensinaram sobre Deus?

— Ora, as Escrituras mandam que apedrejemos até à morte as adúlteras.

— Então te pergunto: se sabias que era o teu marido que estava com ela, a qual dos dois então mais pecado cabe? Porque ela era uma reconhecida mulher de má fama e disto sabia muito bem o teu marido. Por que razão então ele a procurou?

Perante Deus, qual deles mais pecou? Não seria aquele homem que deixa o seu lar e vai a outros locais em busca de aventuras?

Aquela mulher nada pôde responder a Jesus, e ele disse:

— Todavia, não é para isso que adentrei o teu lar, e sim por causa daquela que ali está sentada.

— E o que podes fazer por ela?

— Por ela nada posso fazer, a não ser ela mesma.

Disse-o, aproximou-se daquela mulher cega e pediu que ela se virasse para a sua frente. Ela indagou:

— Quem és e o que queres de mim?

— Não vim a este mundo para acudir os sãos, e sim os doentes. Aquele que crê em mim, mesmo se estiver em trevas, enxergará!

— Quem és? Jesus?!

— Sim!

— És então o Filho de Deus?!

— Sim!

— E podes ajudar-me?

— Sim, posso!

Ergueu-a, tocou os polegares nos olhos dela e disse:

— Mulher, acreditas que sou o Emissário de Deus?

— Sim, Senhor, acredito!

— Não. Senhor! Acredito mesmo que és o Messias que tanto esperamos! Todos os daquela easa rodearam Jesus, que disse:

— Bendito sejas Tu, Senhor, que criaste o Céu e a Terra! Bendito sejas, Pai, por teres criado tudo aquilo que na Terra vive! Senhor, graças Te dou por atenderes, mais uma vez, ao meu apelo!

Jesus apertou os olhos dela, e ela, sentindo dor, disse:

— Senhor, sinto profunda dor nos meus olhos!

— Pai, não faço isto para me exaltar perante os homens, e sim para que todos vejam a Tua obra!

Retirou os dedos e ela começou a ver tudo de forma nublada. De repente viu nitidamente o rosto de Jesus e o abraçou com força, dizendo:

— Senhor, eu posso ver, eu posso ver!

Todos, comovidos, abraçaram-na e Jesus saiu calmamente dali, a caminhar pela cidade.

Os apóstolos ainda estavam em casa de Sara, se alimentando, e logo souberam que Jesus rumara a Cafarnaum. Aquela ex-cega, deslumbrada, disse:

— Eu quero ver Jesus! Eu quero seguir Jesus!

Então ela e todos daquela casa saíram correndo em busca de Jesus, mas já não o encontraram.

Jesus saíra ocultamente daquela localidade e caminhava solitário. Pouco tendo caminhado, sentou-se à sombra de uma árvore e entrou em meditação.

A ex-cega, chamada Maria, e a adúltera, também chamada Maria, buscavam por Jesus, querendo segui-lo por toda forma, juntamente com tantas outras pessoas que ali haviam visto as suas obras.

Lá sentado, em certo momento Jesus viu que lá chegavam aquelas tantas pessoas. Primeiramente chegaram os seus apóstolos, a quem Jesus ordenou que se sentassem por ali, e depois chegou aquele grupo de pessoas.

Maria, a que há pouco fora curada, acercou-se de Jesus e disse:

— Senhor, eu estava morta e me trouxeste à vida! O que devo fazer?

— Belos são os teus olhos - isso ninguém pode negar! Mas neles há também muita bondade. Maravilhas-te por estares enxergando. Ora, foi para este princípio que vim a este mundo, para que os cegos possam enxergar. Muitos, porém, serão aqueles que têm olhos e não me poderão ver, e têm ouvidos mas não me escutarão. Mas aqueles que estão em mim ouvem as minhas palavras e me entendem, e sabem de onde vim. Estes estarão sempre comigo, mesmo que nem perto de mim estiverem.

A outra Maria, a adúltera, acercou-se um pouco mais e por ali permaneceu silente, sem coragem de estar diante de Jesus. Por fim ela disse:

— Senhor, podes ir ate a minha casa?

— Mulher, ainda não é chegada a hora.

Jesus e toda aquela gente permaneceram por ali boa parte daquele dia. Joana, esposa daquele adúltero, abraçou Maria, aquela que adulterara com ele, e disse:

— Apesar de tudo o que aconteceu, eu te perdôo! Jesus viu aquela cena e disse:

— Perdoar apenas assim não é o suficiente! O perdão verdadeiro e' como uma fé: não deve ser camuflado diante da beleza das coisas que o mundo nos oferece. O perdão legítimo deve estar muito mais além disto. O perdão, repito, é tal uma forte fé.

Ora, se tivesses o tanto de fé que teve Maria, também tu poderias enxergar. Se tivesses o perdão na mesma proporção da fé que nos pode curar, então estarias livre, mulher! Perdoai aos vossos inimigos! Perdoai aos que vos perseguem! Perdoai aos que vos caluniam! Irmãos, perdoai àqueles que lançam contra vós toda a raiva e todo ódio! Porque o reino dos Céus é edificado com a força de amor daqueles que conseguem perdoar aos seus inimigos. Em verdade vos digo: o Pai não contemplará a paz em vossa alma enquanto ela não brotar do fundo do vosso coração, para que possais amar-vos indistintamente uns aos outros, para que, batendo-vos à porta um maltrapilho, dai-lhe as vestes que requisita e também o banho que o conforte. Todo aquele que usar de misericórdia para com o seu irmão também terá sobre si a misericórdia. Todo aquele que praticar o amor nos caminhos da Terra terá também o amor caminhando com cie. Todo aquele que dedicar a vida em favor dos necessitados sempre receberá a misericórdia de Deus.

JOÃO BERBEL