XLVII - EM JERICÓ E CAFARNAUM

XLVII - EM JERICÓ E CAFARNAUM

Jesus se preparava para rumar a Jericó.

Ordenando que os seus apóstolos se lhe adiantassem no caminho, permaneceu por lá ainda por algum tempo, junto a alguns dos seus seguidores, inclusive Maria de Magdala, que, liberta da sanha dos seus persecutores e do apedrejamento, via em Jesus a luz que poderia acalentar a sua alma e insistia em lhe mostrar gratidão e segui-lo.

Pegando os seus pertences, enfim Jesus caminhou vagarosamente, ao encontro dos apóstolos.

A certa altura, eis que avistou uma multidão a aguardá-lo, uma vez que em Jericó já chegara a notícia de sua passagem por ali. Viu um jovem estendido ao chão, a se contorcer de dor. Um homem lançou um olhar contrário a Jesus, que o fitou e, depois, fixando o olhar no jovem caído, acercou-se-lhe. Com carinho, tocou no rosto dele e ouviu daquele pai aflito:

— Tenho apenas este filho. Se puderes curá-lo, Deus te dará toda a recompensa sobre a Terra!

Jesus se ergueu e lhe indagou:

— Crês, homem, que posso ajudar o teu filho?

— Sim, Senhor, creio! Teus seguidores tentaram curá-lo, mas foi tudo em vão. Já o levei a todos os sacerdotes, em todas as sinagogas, e ninguém conseguiu curá-lo.

Jesus percebeu que ali estavam alguns escribas e fariseus, acompanhados de alguns outros religiosos manifestando grande curiosidade em ver o que ele poderia fazer com aquele jovem. Tocou no rosto do jovem e disse:

— Perdoados estão os teus pecados!

Um daqueles homens lançou forte pensamento contrário às palavras de Jesus, que, todavia, se manteve seguro quanto à sua afirmativa. Aquele homem, não suportando o silêncio, disse enfaticamente:

— Blasfemas contra o Eterno, porque somente o Eterno pode perdoar os nossos pecados!

Jesus, fixando aqueles homens, disse:

— Fariseus, hipócritas, sois vós que ainda não percebestes que eu estou aqui a mando de Deus! O Pai está em mim e eu estou no Pai, porque tudo o que eu peço ao Pai me é concedido, e se pedirdes ao Pai, também sereis agraciados. Porém, afirmo-te, jovem: a ti foi dada a chance para que te reconcilies com este mundo. Ergue-te e vem até mim!

Os apóstolos acudiram aquele jovem, ajudando-o a se endireitar. Ele deu passos desordenados, vagarosos e abraçou Jesus. Naquele momento, deu um grito e seu corpo tremulou. Jesus o deitou ao chão.

Aquele pai, em pânico, fitou o filho naquela situação, fitou Jesus, que lhe disse:

— Não tenhas medo, porque ele apenas dorme. Ele estava morto e agora vive - porque aquele que crê em mim, mesmo estando morto, viverá!

Jesus tomou o jovem pelo braço e, acordando-o, ele se ergueu, agora já plenamente livre dos espíritos maléficos que o vinham atormentando. Fixando significativamente os seus apóstolos, disse Jesus:

— Ó homens, cruéis sois todos vós que ainda não credes no Pai e ainda não credes em mim!

Fitou Simão Pedro e disse ainda:

— Ó bando de víboras, venenosas serpentes, até quando ainda hei de estar entre vós?! Que devo fazer para que acrediteis que o Pai está em mim e eu estou no Pai?! Porque tudo o que faço, faço-o em nome do Pai!

Os fariseus se aquietaram no seu silêncio e Jesus disse ainda:

— Quereis chegar ao reino do Pai, mas de coração impuro jamais chegareis até Deus. Enquanto vos assentardes nos vossos galardões de ouro não tereis o Paraíso nem vereis a Deus. O Paraíso foi edificado por aqueles que são mansos de coração, que são puros de alma. Qual de vós estará então no reino dos Céus se vive para se servir do seu próprio tesouro? Ninguém pode agradar a Deus e agradar aos seus galardões de ouro. Afirmo-vos que o reino dos Céus é conquistado pelo sacrifício e pelo amor. Ora, o que faço todos vós podereis fazer se tiverdes a fé e o amor no coração. Enquanto ainda estiverdes fixados nas coisas da Terra jamais ascendereis a Deus, porque tudo aquilo que loi constituído sobre a Terra nela mesmo permanecera. Aquilo, porem, que foi construído sob o fogo do amor do espírito santo fará santo o espírito, porque deste é o reino dos Céus.

Jesus pediu àquele pai que bem alimentasse o seu filho. Aquele homem não se continha de felicidade e agradecia a Jesus incessantemente.

Disse-lhe Jesus:

— Vai e proclama a Boa-Nova!

Disse-o e partiu dali a romper a multidão, sem a ninguém mais ouvir. Os apóstolos tentaram acompanhá-lo, mas Jesus os deteve e eles permaneceram ali, enquanto ele caminhou solitário.

Logo se espalhou a notícia de que Jesus se aproximava de Cafarnaum. Jerobão era um dos pastores e pregadores do templo. Disse ele a Zaqueu, seu primo:

— Jesus estará aqui hoje. Todos daqui se movimentam com a chegada dele.

Jesus se acercava da cidade e já várias pessoas se aglomeravam a segui-lo, todos entusiasmados com a cura daquele jovem, o que já atraía para ali vários enfermos ansiosos pela sua presença.

Eram multidões e multidões gritando o nome de Jesus, que ia proferindo belas palavras.

De repente Jesus se viu tocado por uma mulher. Virou-se para André, que estava ao lado de Pedro, e disse: —Alguém me tocou! E André disse:

— Ora, são muitos os que te tocam, todos gritando e clamando por ti!

— Mas alguém me tocou de forma diferente! Virando-se para trás, Jesus ouviu de um homem:

— Esta mulher é imunda! Queres que eu a retire daqui?

— Tu me tocaste, mulher?

— Sim! Sou imunda! Não tenho nem mesmo o direito de me sentar à mesa dos filhos de Israel!

— Que queres que eu te faça, mulher?

— Cura-me, Senhor!

— Mulher, a tua fé já te curou!

Disse-o e reencetou a marcha, aquela mulher estando curada. Todos saudavam a chegada de Jesus, todos gritavam o seu nome.

De repente, em meio à gritaria, uma voz se destacou:

— Senhor, filho de Davi!

Jesus se pôs atento e aquele grito persistiu:

— Senhor, filho de Davi!

Jesus estacou e o grito insistiu, mais e mais:

— Senhor, filho de Davi! Senhor, filho de Davi!

Voltando-se, Jesus divisou um homem cego, sentado em meio à multidão, e lhe indagou:

— Bartimeu, que queres de mim?

— Senhor, se puderes, concede-me a graça de enxergar! Jesus foi até ele, colocou os dedos nos seus olhos e indagou:

— Bartimeu, acreditas que sou o filho de Deus?

— Sim, Senhor, acredito com toda a força da minha alma e do meu coração! És o filho de Davi! Tem piedade de mim!

Jesus retirando os dedos dos olhos dele, eis que Bartimeu o viu à sua frente, sob uma visualização meio confusa e ofuscada, para logo se clarificar e mostrar nitidamente a bela figura de Jesus.

Exclamou Bartimeu:

— Senhor, és tão belo! Nada mais encantador há nesta Terra!

— Vim para devolver a visão aos cegos, porque aquele que não enxerga pode enxergar a mim e aquele que enxerga às vezes não me pode entender. Aqueles que têm ouvidos me ouvirão, mas não me compreenderão, e aqueles que têm olhos me verão, mas não me entenderão!

Bartimeu, contentíssimo, agarrou-se fortemente a Jesus e foi afastado por seus apóstolos.

Foi uma grande maravilha para aquela multidão a cura daquele cego. Zaqueu, de baixa estatura, subiu numa árvore e Jesus, vendo-o, disse-lhe:

— Zaqueu, irei à tua casa e cearei contigo nesta tarde!

Ao ouvir isto, Zaqueu se emocionou e quase despencou daquela árvore, ao descer tão rapidamente. Jesus tocou o rosto dele e o beijou, dizendo:

— Zaqueu, vim a este mundo para chamar os pecadores ao arrependimento.

Zaqueu não se continha em sua alegria.

Jesus foi ter à praça, que se via apinhada de gente enfermada de toda sorte. Subiu numa pedra e disse:

— Quem entre vós que traz a mágoa pelo pecado que há em sua alma?
Vós que trazeis a dor no coração e credes em mim, arrependei-vos e clamai pelo Pai, porque o Pai conhece lodos os Seus filhos e pode aliviá-los de todas as tormentas!

Acercavam-se de Jesus aquelas tantas pessoas portando dor e enfermidades. Jesus orou intensamente, dizendo:

— Pai, Tu que criaste os Céus, a Terra e tudo o que nela existe, tem piedade destes irmãos para que se possam aliviar de suas dores!

Naqueles momentos todos foram sendo curados. Ali estavam os guardas romanos e logo a multidão se dispersou, a mando dos apóstolos.

Jesus viu à frente o centurião Cornélius, que o abordou, dizendo:

— Senhor, tenho um serviçal que está péssimo.

— Irei até a tua casa.

— Não é preciso, Senhor! Bem vi o que acabaste de fazer, quando ergueste as mãos e ordenaste a ação dos teus anjos, que formam também um exército e curaram a todos que por aqui estavam. Eis então que se ergueres a mão, Senhor, o teu exército irá até a minha casa e curará o meu servo! Ele tem sido um bom homem e um bom servo, e sei que para ti será fácil erguer a mão e ordenar aos anjos que o curem.

Lançando um olhar aos seus apóstolos, disse Jesus:

— Jamais vi no coração de um homem tanta fé quanto vejo em ti! Um daqueles homens observou:

— Ele é um romano. Irás à casa dele?!

— Homens são sempre homens, tanto o negro quanto o branco, tanto o rico quanto o pobre. Deus vê a todos com igualdade, porque o mesmo Sol que brilha para os ricos brilha para os pobres, e a mesma chuva que cai para os bons cai também para os maus. Homem, a tua fé curou o teu servo!

Em instantes chegava até Cornélius a notícia de que o seu servo estava curado. O centurião, emocionado, olhou para Jesus, que baixou a cabeça e caminhou em direção ao lago que ali havia.

Sabendo daquela cura de Bartimeu e de tantas outras pessoas, eis que alguns pegaram o cego Tadeu em sua casa e o levaram até Jesus, que o fitou e indagou:

— Que queres que eu faça por ti, Tadeu?

— Curaste Bartimeu, levantaste um paralítico. Concede-me também tal graça!

Jesus, naquele momento, começou a chorar. Com o seu amor imenso, disse:

— Pai, Tu que compreendes todas as coisas e entendes o meu coração, sei que é por Ti, e não por mim! Faze, Pai, a vontade deste irmão!

Tocou nos olhos de Tadeu e os curou.

Sem dizer mais palavra alguma, Jesus retirou-se dali ainda chorando, indo ter ao lago. Os apóstolos o acompanharam, enquanto ele caminhava chorando pela praia do lago.

Sentou-se numa pedra e ficou a contemplar aquele espelho d'água e a olhar o céu.

Um dos apóstolos disse:

— Mestre, quanta tristeza vejo nos teus olhos! Ora, curaste aquele cego! Pedro se acercou e também disse:

— Mestre, se curaste aquele homem, isto deve ser-te motivo de alegria! Jesus disse:

— Sim, é motivo de alegria! Porém a visão dele muito o conturbará!

— Mas por quê, Mestre?!

— Porque ele lançará olhos sobre a sua cunhada e a cobiçará com toda a força da sua paixão, e a tomará do seu próprio irmão. Ora, se ele não a pudesse ver não a cobiçaria, e, vendo-a e tomando-a para si, dobrado será o seu pecado. Então o Pai lhe tirará novamente a visão! E somente isto o que me entristece!

Entendendo agora aquelas lágrimas, perguntou Pedro:

— Mestre, não seria então preferível que ele tivesse permanecido cego? —Ah! Vi tanto amor na mãe e nos irmãos dele! Era um amor tão puro o daqueles corações que tive de contemplá-los, através do Pai, devolvendo a visão àquele homem.

Subitamente Jesus se alegrou e, erguendo-se, disse:

— Vamos! Zaqueu já nos espera!

Chegaram à casa de Zaqueu, onde se faziam presentes vários fariseus e sacerdotes.

Jesus se sentou na soleira que ligava um a outro cômodo e ouviu de Zaqueu:

— Senhor, mudei-me desde aquele momento! Peguei o produto dos impostos que eu cobrava e dividi com aqueles de quem havia tirado em excesso.

— Zaqueu, o reino dos Céus não é conquistado ao peso do dinheiro. Isto mostra que muitos dos teus pecados te foram perdoados.

De repente uma mulher conseguiu romper o cerco dos que cercavam Jesus e foi cair á frente dele. Chorando, as lágrimas dela caíam aos pés dele. Era Maria de Magdala, que lhe pediu perdão por molhar com lágrimas os seus pés. Sem um pano ou toalha à mão, ela começou a enxugar com os próprios cabelos os pés de Jesus. Beijando os pés, perfumou-os, ao que Jesus lhe disse:

— Mulher, guarda o resto deste perfume para cuidares do meu corpo no dia da minha morte!

Ouvindo isto, Maria se desesperou, em pranto.

Zaqueu pensou: Se Jesus soubesse que esta é uma prostituta, isto não teria ocorrido aqui!

Jesus, captando aquilo, disse:

— Zaqueu, eu sei quem é esta mulher! Zaqueu, adentrei a tua casa e não me deste óleo para o meu cabelo nem água para o meu rosto. Quanto a ela, não lavou as minhas mãos: lavou os meus pés com as próprias lágrimas, enxugou--os com os próprios cabelos e os perfumou. Zaqueu, com o que fizeste muito dos teus pecados te foram perdoados, mas muito os há ainda a perdoar!

Zaqueu engoliu desconcertado aquelas fortes palavras de Jesus, que ordenou que todos comessem e bebessem.

Vendo Zaqueu entristecido, disse-lhe Jesus.

— Zaqueu, não serás o mesmo homem, porque vim chamar os culpados ao arrependimento. Estarás comigo e ainda me representarás, porquanto, entre os homens da Terra, também foste chamado por Deus. Então levantarás o meu nome de Jericó a Jerusalém e sobre ti se erguerá, não o galardão do ouro, e sim a chama do que será chamado Fogo da Luz, que se acenderá por sobre os demais, porque assim foi feito com aqueles que creram nos profetas: fizeram com que se atirassem ao fogo do Inferno aqueles que não compreenderam o Fogo da Luz, o Fogo de Deus. Para dar testemunho à verdade desci dos Céus à Terra, para que aquele que em mim crê me entenda naquilo que vim trazer à humanidade. Então esse Fogo está em tuas mãos neste momento, Zaqueu!

Os apóstolos estavam famintos, pois pouco haviam comido no decorrer de todo aquele dia. Ali puderam alimentar-se muito bem, o que também fez Jesus, que por isto muito agradeceu e disse que naquele lar pernoitaria.

Comeram e beberam toda aquela noite, num clima de muita alegria. Os apóstolos estavam muito satisfeitos.

A certa altura Jesus ordenou que todos daquela casa saíssem, com exceção de Zaqueu e os seus apóstolos.

Maria de Magdala se acercou de Jesus e indagou:

— Senhor, e eu, para aonde devo ir? Jesus chamou João e lhe disse:

— João, vai com Maria até uma casa próxima, lá onde encontrarás um ancião de longas barbas, a quem dirás que o Senhor lhe pede pouso. Lá pernoitarás, e também Maria. Levantar-te-ás bem cedo amanhã e irás com ela até a minha mãe.

Os dois se retiraram dali, observando os dois lados do caminho que era a saída da cidade, até que viram um ancião que lhes chamou a atenção. João se lhe acercou e disse:

— Vim aqui em nome do Senhor! Ele ordenou que eu te pedisse pouso para nós dois. Esta é Maria.

— Sim! Devo obedecer ao Senhor, porque ele desceu dos Céus para nos salvar a todos, para conduzir as almas ao arrependimento. Ora, se vêm em nome dele, nada vos posso negar!

O ancião chamou a jovem Rute e lhe disse:

— Mulher, esta é Maria e este é João. Precisas hospedá-los aqui. Rute disse:

— Esta é aquela mulher de má fama! O ancião disse:

— Ela foi tocada pelo Senhor, e quando o Senhor toca em alguém, todos os seus pecados lhe são retirados.

Rute, aquiescendo, disse:

— Então está bem! João disse:

— Não vos preocupeis comigo. Dormirei aqui fora mesmo. E somente uma noite. Dai pouso a Maria.

Já era noite e acolheram Maria, enquanto João se sentou no banco.

— A noite é muito fria - disse-lhe o ancião.

— Nada há a temer! Estive e estou com Jesus, e ele disse que nenhum frio pode ser tão forte quanto a impureza dos corações!

— Estou certo disso, e se veio do Senhor somente coisa boa pode ser! O ancião, porém, abraçou João e o conduziu para dentro da casa. João e Maria acordaram bem cedo no outro dia. O ancião lhes passou pães e azeite, dizendo:

— Levai isto em minha memória, para onde fordes!

E assim João conduziu Maria de Magdala até a mãe de Jesus.. No caminho, Maria de Magdala, apreensiva, indagou:

— João, estamos indo até a mãe do Senhor! Será que ela nos receberá?! Ora, fiz somente coisa errada na minha vida. Tenho má fama por causa da minha beleza. O que pensará de mim a mãe de Jesus?!

— Jesus é apenas bondade e amor, e sua mãe é nisto igual ao filho. Vamos confiantes, pois tudo correrá da melhor forma possível. Logo verás a maravilha que é Maria: é tão mansa quanto Jesus, e é tão bela quanto tu!

Caía a tarde quando chegaram. Maria os recebeu com a maior alegria e lhes deu alimento e bebida.

Os dois dormiram e, acordando bem cedo no outro dia, eis que foram abordados pela mãe de Jesus, a indagar:

— Jesus está indo para Cafarnaum?

— Sim - respondeu Maria de Magdala. — E quanto a mim, o que farei da minha vida?!

— Seguirás Jesus!

— Mas sou uma mulher de má fama! Ele não me aceitará!

— E certo que ele te aceitará! Ele aceita a todos; aceita a ti e principalmente os doentes, porque veio justamente para chamá-los ao arrependimento. Nada temas, Maria! Jesus te amará como ama a qualquer outro filho de Deus! Sim, porque Jesus não vê o defeito das pessoas: chama todos ao arrependimento. Ele é tão bom! É aquele ente querido que está entre nós, é aquele que a todos nós ama! Sim, ele nos quer muito bem! Jesus não veio para os que não têm pecado, e sim para os que se contaminaram com o pecado. Então a nada deves temer: podes ir ao encontro de Jesus. Temos notícia de que ele passará uns dias aqui após a sua estada em Cafarnaum.

Jesus desceu para Cafarnaum, acompanhado de muitos e muitos seguidores que ansiavam por tocá-lo, senti-lo, ouvi-lo.

Zaqueu também estava desejoso de segui-lo, mas Jesus lhe disse:

— Não seguirás comigo. Irás para Jerusalém e lá bem sabes o que fazer.

Zaqueu, Jerobão e seus serviçais tomaram então o rumo de Jerusalém, lá chegando num clima de festa em torno do grande templo.

Ainda persistia ali, sob grande força, um descontentamento quanto à morte de João Batista.

Zaqueu encontrou ali Nicodemos, Caifás e outros sacerdotes.

Disse-lhe Caifás:

— Sei que és um coletor de impostos, sei que Roma te passou uma grande fortuna e que és rico entre os homens. Trazes então algum tributo a Deus e para ser servido no grande templo?

— Não! Nada trago, porque doei aos pobres o que tinha para trazer aqui.

Caifás bateu com os dedos nos olhos e, estranhando, disse:

— O que disseste?! Os meus olhos estão vendo, mas os meus ouvidos não estão ouvindo essas coisas!

— Sim, eu o fiz! Conheci um determinado homem que é bom por natureza. Leva nos olhos a grandeza do fogo dos Céus. Vendo-o e ouvindo-o, entendi que eu havia tirado dos homens mais do que seria do meu direito e então lhes devolvi a diferença. E te garanto que foi uma tão grande satisfação em mim que os olhos que me viam bem me notavam diferente. Fui tocado por Jesus! Vi cego enxergar, paralítico andar, dor de muitos e muitos ser retirada. Até mesmo eu padecia de uma forte dor no joelho, fruto de um tombo em criança, e agora estou curado. Tens ouvido falar de Jesus?

— Jesus é aquele que tem falado às multidões. Nicodemos, tens viajado por aquelas paragens: tens visto esse Jesus?

— Sim, seguindo-o à distância.

— Ora, Nicodemos, belas coisas me disseste de João Batista. Esse Jesus é igual a João Batista?

— Não! É diferente. Mesmo ouvindo-o à distância, bem observei que sua voz é mansa. Ele fala e todos bem o ouvem, e quando fala se observa um silêncio total na multidão, sem um único zumbido. Calma e clara é a sua voz e penetrantes são os seus olhos.

Caifás, curioso, indagou ainda:

— Podes descrever-me esse homem, Nicodemos? Zaqueu se adiantou, dizendo:

— Eu descrevo. Ele tem estatura bem mais alta do que a minha. Sua barba e seus cabelos são belos. Seus olhos são claros, ora parecendo o azul do mar e ora se assemelhando ao verde dos arvoredos. Tem uma beleza que não se vê noutra pessoa. Mansas são as suas palavras, falando do reino dos Céus e afirmando que o reino dos Céus está próximo.

Caifás fitou Nicodemos e, fitando Zaqueu, lhe indagou:

— Então não trazes nenhum tributo ao templo de Israel?! Ora, Zaqueu, todos os templos têm os seus fiéis e estes têm passado as suas oferendas também ao altar do nosso templo. Deus não te abençoará se não Lhe trouxeres as tuas oferendas.

— Trarei sim, noutra oportunidade. Voltando-se para Nicodemos, pediu-lhe Caifás:

— Nicodemos, quero que sigas esse Jesus! Se possível, vai ter com ele e dialoga com ele.

Zaqueu saiu dali, já mostrando a sua mudança interior e pensando: Ora, todos os sacerdotes estão muito ricos e Jesus condena a riqueza.

Nicodemos foi ter com Zaqueu e os dois se sentaram na escada. Nicodemos abriu um diálogo:

— Então tens ouvido Jesus?

— Dele tenho ouvido apenas palavras de sabedoria. Jamais ouvi uma palavra agressiva aos sacerdotes.

— Este povo está todo enfartado de dinheiro e ainda quer tirar mais e mais dinheiro dos outros! E o que diz Jesus sobre isso?

— Ele condena os que têm muito dinheiro.

— Não! Acompanho-o já há muito tempo, ouvindo-o de longe, e bem ouvi dele que é condenado aquele que retira dos outros mais do que lhe é necessário e aquele que não faz correto uso do dinheiro que lhe cai às mãos.

— Tens razão! Não sei por quê, mas ele me tocou a alma profundamente. Ele fala apenas boas palavras que saem da sua boca apenas para ajudar os desafortunados e enfermos. E' um bom homem!

— Sim, é um homem bom e justo! Jerobão se acercou e disse a Zaqueu:

— Já deixei lá o meu tributo e já saciei a fome de dinheiro de Caifás. Zaqueu e Jerobão desceram a escadaria do templo e percorreram a cidade.

Uma multidão já se acercava de Jesus quando ele chegava a Cafarnaum, cidade ainda mais pobre do que a pobre Jericó. E ali ele começou a pregar.

Jesus e os seus estavam instalados na humilde vivenda de Isaías, bondoso homem, muito religioso e de puro coração, fiel estudante das escrituras sagradas.

E ele pregava:

— O reino dos Céus é construído com o amor, com o sacrifício e a simplicidade.

E a multidão aumentava.

De repente chegou ali Bedeu, um paralítico que ali fora conduzido no leito por seus parentes. Estes não logrando romper o cerco da multidão, quebraram o telhado da casa e por ele fizeram entrar Bedeu.

Este se contorcia e dizia que louco era aquele pessoal a fazer aquilo com ele, que já não suportava a dor daquele sacrifício.

Jesus foi até aquele homem e puxou o seu braço, que estalou. Ele reagiu, dizendo:

— Senhor, queres matar-me?!

Jesus puxou-lhe o outro braço, fazendo-o também estalar, e Bedeu repetiu:

— Senhor, queres matar-me?!

Jesus puxou uma das suas pernas e que também estalou. E Bedeu repetiu ainda:

— Senhor, queres matar-me?!

Jesus fixou profundamente os olhos dele e disse:

— Bedeu, o Senhor quer que vivas! Crês?

— Quem é o Senhor?

— Olha nos meus olhos e verás a graça do Senhor!

Naquele momento uma cortina de névoa cobriu os olhos de Bedeu e ele se viu mergulhado em grandes águas, olhando daqui e dali, tentando nadar, mas não conseguindo. E ele gritava:

— Estou dentro d'água e me afogando! Eu não sei nadar! Jesus soprou nos olhos dele e disse:

—Agora estás salvo! Foste tirado do tormento da tempestade e trazido à vida, porque isto o Pai te concedeu! Aquele que crê em mim não morrerá!

— Quem és?

— Quem achas que eu sou?

— És o Salvador do mundo!

— Eu não sou o Salvador do mundo, porque o mundo não se pode salvar. Sou aquele que foi mandado para curar os enfermos e acudir os necessitados, para trazer a verdade e acender a luz naqueles que não podem enxergar. Aquele que crê em mim não andará em trevas nem se afogará nas tempestades, e terá a vida eterna! O Pai te concedeu isto em amor a ti e a todos os Seus filhos!

Bedeu foi curado e isto despertou enorme euforia na multidão. E Jesus pregava àquela gente:

—Perfeito é o reino de meu Pai! Lutai pelas coisas da alma, e não pelas coisas da Terra. Não somente de pão vive o homem, mas também das coisas de Deus. Nada que é da Terra se perde: tudo se transforma, porque tudo é fruto da Terra; porém, aquilo que é de Deus reage com o agente que é o princípio de tudo, porque assim Deus nos deu a vida e somente Ele nos pode tirá-la. Mas, em verdade vos digo que a verdadeira vida é aquela do espírito!

Quando a multidão se foi dispersando, bem se via que a humilde casa de Isaías fora completamente destruída pelo povo, ao que, preocupado, observou Pedro:

— Mestre, a casa do nosso irmão foi toda destruída!

— Por que te preocupas com as coisas da Terra? E, chamando Isaías, indagou-lhe Jesus:

— Crês em Deus?

— Sim, creio!

— E crês também em mim?

— Sim, creio!

— Crês que posso reconstruir a tua casa?

— Sim, creio! Mas não quero que o faças, porque foi Deus quem esteve dentro da minha casa e eu mesmo terei o imenso prazer de reconstruí-la com o maior carinho, em amor ao meu Deus e também em amor a ti, meu Mestre!

— A graça dos Céus cai sobre ti, Isaías, pois consolados e benditos são os que a recebem, e por ela também tu foste agraciado, porque àquele que perde até a sua própria casa em meu nome o Pai dará uma casa nos Céus.

Disse-o Jesus e partiu para a Galiléia e para sua casa. No caminho foram muitos os que abordaram Jesus e ouviram dele os ensinos invitando ao perdão, ao amor e à renúncia às coisas terrenas.

JOÃO BERBEL