XLVIII - ESTEVÃO, ANANIAS E LEVI

XLVIII - ESTEVÃO, ANANIAS E LEVI

A medida que Jesus se acercava de sua casa, seus apóstolos foram fazendo com que as demais pessoas retornassem às suas origens, e assim somente Jesus e os doze chegaram à casa de Maria.

Logo saiu a saudá-los Maria de Magdala, que, vendo sujas as roupas de Jesus, prontificou-se a lavá-las, com o maior amor. Mas Pedro tentou impedi--la, dizendo:

— Não podes fazer isso! Não és a mulher de Jesus. Jesus disse:

— Simão Pedro, deixa que ela o faça!

A mãe de Jesus se adiantou e disse a Pedro:

— Jesus tem razão.

E Maria de Magdala disse:

— Mestre, tu me salvaste e não andarás sujo! Sim, cuidarei da tua roupa!

E assim ela procedeu.

Aos poucos foram chegando algumas pessoas, saudando Jesus. Ali aportaram também os jovens Estêvão e Ananias. Jesus fitou Ananias e disse:

—Ananias, também és um dos meus vasos escolhidos. O que sabes de mim?

— Sei que és bom! Sei que és o Messias prometido! Sei que és o Cordeiro de Deus!

Jesus chamou Levi e lhe disse:

— Levi, vai com Ananias e Estêvão e passa-lhes tudo o que viste e ouviste de mim.

Por algum tempo estarás com estes dois e lhes ensinarás passarás ainda o que sabes de mim. Ananias indagou:

— Por que fazes isto. Mestre?

- Os teus olhos ainda não podem vislumbrar o que hás de presenciar. Pouco estarás comigo, mas um dia me glorificarás, assim como fazem aqueles que em mim estão. E tu também, Estêvão, terá momentos em que verterás as luas lágrimas. Porém
o vosso tempo ainda está longe.

Estêvão, Ananias e Levi seguiram então para Cafarnaum.

Estêvão e Ananias eram estudantes das escrituras e frequentavam os templos, o que lhes fora facultado pela vontade e posses dos seus pais.

A certa altura da jornada, disse Estêvão a Levi:

— Temos pouco para nosso alimento. Disse Levi:

— Por que te preocupas com isso? Temos o Mestre e ele estará conosco.

— Mas o Mestre estará na Galiléia. Ele não caminhará conosco! Ele pode comer e beber mesmo sem ter o alimento, mas não somos Jesus.

— Por que temes qualquer mal? - arrematou Levi. Chegaram em Jericó e lá se hospedaram. Estêvão perguntou:

— Levi, como foi que conheceste o Mestre?

— Foi uma dura jornada! Ouvi falar de Jesus quando tive a oportunidade de conhecer Joana, mulher de Camarfeu. Ela me afirmou que ele era um respeitável senhor que dizia ser o aguardado Messias.

— Acreditas que Jesus é o Messias?

— Acredito do fundo da minha alma, do fundo do meu coração.

— Por que acreditas?

— Porque vi, porque senti! São muitos os que procuram Jesus, são muitos os que estão junto dele. Sim, são incontáveis.

— Mas o que viste que mais te chamou a atenção?

— Foi tanta e tanta coisa! Vi Jesus curar as pessoas, vi cego enxergar, vi paralítico andar.

— Ora, não foram poucos os curadores que por aqui passaram, mestres que fizeram a mesma coisa.

— Sim, mas não da forma que faz Jesus! Não houve nem há outro com a capacidade dele.

— Então foi esse seu poder de curar que te chamou a atenção maior?

— Não! Foi o seu jeito de falar, o seu jeito de agir.

— Ora, João Batista falava mais alto do que Jesus, e gritava e gritava. Viste Jesus gritar alguma vez?

— Sim, quando preciso foi. Porém, na maior parte de suas falas houve a calma, a mansuetude. Vi em Jesus coisas que nenhum olho humano logrou ver na Terra.

— Mas o que viste nele que te deu tanta certeza quanto a ser ele de fato o Messias?

— Creio porque ele é o Messias! Eu bem sei que é!

— Por que, afinal, Jesus te enviou a nos acompanhar? Apenas para afirmar e afirmar que ele é o Messias?

Levi se via pressionado pelas indagações de Estêvão. Aos poucos seus olhos se foram modificando na expressão, e, com semblante assim modificado, disse:

— Muitos foram os que, vindos dos Céus, se deitaram na Terra, muitos foram os profetas que na Terra fizeram as suas obras, e muitos não foram entendidos pelos seus seguidores. Todavia, eu sou o fogo que vem dos Céus a luzir sobre os Céus e a Terra, para acender o fogo de Israel, porque vim trazer uma nova paz, através do fogo do amor, porque aquele que faz erguer a espada para sangrar o seu irmão terá também o seu próprio sangue derramado pela sua própria espada. Aquele que fere será ferido, mas aquele que perdoa será perdoado, e aquele que ama será amado. Ora, eu sou em verdade esse fogo que vem dos Céus! Crede então em mim e crede no Pai que está nos Céus, porque aquele que não crer em mim será julgado por si mesmo! Eu não sou a paz do mundo, e sim a espada, porque aquele que crê em mim estará sempre comigo e mal algum temerá!

O rosto de Levi se mostrava fortemente transfigurado naqueles momentos. Aqueles dois ouvintes muito se assustaram vendo nele a imagem esplendorosa de Jesus, acreditando assim que realmente viam o próprio Jesus à sua frente.

Comovido grandemente, Estêvão caiu de joelhos e ergueu as mãos, dizendo:

— Senhor, és o Emissário dos Céus!

Levi se recompôs vagarosamente e ouviu de Estêvão:

— Eu já acreditava, eu já sabia que Jesus é o Messias!

Os três adentraram a noite em orações e orações, ate que, orando, dormiram.

No outro dia, ao acordarem, retornou o assunto da atuação de Jesus. Ananias e Estêvão indagavam a Levi sobre tudo o que dizia respeito ao Mestre que passavam a admirar cada vez mais.

Indagou Ananias:

— De tudo o que pudeste ver ao lado do Mestre, o que foi que mais i mpressionou a tua alma?

— Em certo dia, andava eu com Jesus pela montanha, seguindo um caminho muito dificultoso e perigoso. Às vezes eu me desequilibrava e então Jesus segurava no meu braço para que eu não caísse, sempre pronunciando palavras de sabedoria.

Ali o vi se alimentando das frutas: elas estavam verdes e, sendo tocadas por ele, amadureciam imediatamente. Ele me passava aquelas frutas e eu as comia. Era uma coisa tão bela! Parecia que estávamos no Paraíso! As plantas luziam! Era uma coisa maravilhosa! Jesus ordenou que me sentasse e que eu nada dissesse a ninguém sobre o que eu estaria a ver. Foi então que algo extraordinário ocorreu à volta de Jesus. Vi dois seres que não sei se eram anjos, e Jesus conversou com eles.

Aquela coisa esplendorosa se foi desfazendo e subitamente lá chegou João Batista. Jesus dialogou com ele e lhe determinou o que era para ser feito, afirmando que a ordem já descera dos Céus para a sua consecução. Aquilo era uma maravilha!

Eu queria seguir a toda hora os passos de Jesus, ser um dos seus mais diretos discípulos, mas não pude sê-lo.

— Mas por que Jesus não te aceitou para segui-lo?

— Ele disse que eu deveria permanecer ao lado da mãe dele, e assim flz. E devo dizer-te que Maria conta histórias maravilhosas. É uma coisa admirável! Ela cuida muito bem das crianças e também eu aprendi com ela a lhes ensinar.

— Mas já pudeste aprender para ensinar?

— Sim! Estive numa sinagoga e tive a oportunidade de pregar após a morte do meu pai. Padeci dias de tortura, de grande mágoa no coração! Ora, eu pregava as Escrituras, mas negando Jesus para dar maior importância ao meu trabalho. O arrependimento foi muito forte, mas Jesus me perdoou e ordenou que eu tomasse o rumo de sua casa e ajudasse Maria.

— Então estiveste muito tempo com Jesus, se tanto aprendeste com ele?

— Tudo quanto aprendi com os ministros de nossa religião pude ensinar, com muito amor e carinho. Hoje, porém, não falo apenas das Santas Escrituras:
falo também sobre o muito que aprendi de Jesus e de Maria. É admirável a humildade de Maria em receber e educar aquelas crianças! Ora, se ela faz tudo isso com tanta dedicação, deve ser agraciada por Deus. Ela vem da escola de Joaquim e Ana, e quanto a José teve a escola do seu respeitável pai e a pureza que vem daqueles corações. O que vem da extensão dessa família é apenas coisa boa, os parentes se entrelaçando e repassando a Escritura Sagrada de mão em mão, ensinando da forma mais correta possível. Com certeza o Pai do Céu tem olhado muito bem por essa família e de não outra mesmo poderia provir Jesus.

— Mas o que comumente se ouve, principalmente em Jerusalém ou outras cidades grandes, até mesmo em Damasco, é que a ascendência do Messias viria da descendência dos reis e sacerdotes. Entretanto, da pobreza de José e Maria veio Jesus com tal conhecimento.

— Ora, o que eu ouvia falar no âmbito do meu pai girava tudo em torno disso, mas quando se dá conta da grande diferença de Jesus para com os demais profetas, tudo muda. Jesus tem a sabedoria de manipular as palavras da melhor forma possível, sabe encontrar a palavra exata para cada situação. Seu amor pelos necessitados é inigualável, diferenciadíssimo dos demais. Ora, não tenho dúvida nenhuma de que ele é o Messias!

— Ontem, Levi, tu te transformaste. Teus cabelos e tua barba se modificaram e pude ver os próprios olhos de Jesus no teu rosto. Como se explica uma coisa desta? Foi a primeira vez que te aconteceu isso?

— Houve um outro dia. A mãe de Maria estava muito ruim. Fui chamar Jesus para acudi-la, mas ele não pôde ir e retornei. Então, em certo momento, comecei a falar e a minha voz se foi modificando. Aconteceu o mesmo de ontem. Jesus está conosco! Ele não nos abandona nem jamais nos abandonará! Caminhará sempre ao nosso lado. Isto ele disse e nisto podes acreditar!

— Mas como é que ele pode fazer essas coisas?!

— Não sei como, mas sei que faz e que faz com muito amor e carinho. Estêvão, Jesus nos quer muito bem! Jesus nos ama muito! Nunca vi outro profeta agir igual a ele. Chegando numa localidade, ele não vai às sinagogas: primeiramente visita os mais pobres e desabrigados, e come e bebe junto deles; vai às tavernas e diz puras palavras às prostitutas e lhes ensina o arrependimento e o bom caminho. Não, jamais vi alguém igual a Jesus! Ele abraça os mendigos e esfarrapados que permanecem muito tempo sem um banho, e o faz como se abraçasse outra pessoa, e os beija como se beijasse outro qualquer. Ele não diferencia ninguém, de forma alguma. Faz questão de se vestir igual aos pobres e portar igual a Jesus, de se vestir igual a ele? Acredito que não! Jesus pregaa igualdade dos povos e nos ama com igualdade. Ele prega que somos todos iguais peranle os olhos de Deus, que para o Eterno não há diferença alguma entre nós. Então este é Jesus! E se vim para vos ensinar, o que mais quereis saber? Passar-lhes-ei ludo o que posso.

Os três foram para Cafarnaum e lá encontraram o povo ainda todo eufórico com a recente passagem de Jesus, que ali conquistara muitos seguidores, muitas famílias.
Indo até uma sinagoga, lá comeram e beberam.

Prolongaram-se entre os três os mesmos colóquios sobre Jesus e a sua obra magnífica, as mesmas histórias contadas com enlevo por Levi.

Após alguns dias seguiram para Jerusalém e, lá chegando, oraram no grande templo.

Caminharam por ali e constataram que lá já havia muita gente que estivera com Jesus e a ele se afeiçoava, não obstante o predomínio dos fortes ecos do sacrifício de João Batista.

Indagou Ananias:

— Levi, estiveste com João Batista?

— Vi, toquei, senti, comi e bebi com João Batista.

— E não poderia ter sido ele o próprio Messias?

— Não! Porque ele dizia que era apenas o precursor de Jesus, que viera apenas limpar o caminho à passagem de Jesus. Ele não chamava Jesus pelo nome, e sim por Mestre, e afirmava a todo momento que Jesus é o Messias.

Estêvão e Ananias então crivavam de perguntas o paciente Levi, que tudo lhes relatava da melhor forma. Por semanas ficaram ali.

Levi já não tinha mais a proteção dos seus pais e a sinagoga em que haviam atuado já fora transferida a outras pessoas. Assim, Levi vivia igual a Jesus, ao sabor das situações, ganhando aqui e ali a comida e a bebida, jamais aceitando qualquer moeda.

Quanto a Estêvão e Ananias, sendo estudantes, percorriam as sinagogas e eram muito bem recebidos. Agora, com as reiteradas informações de Levi, já sabiam muito e muito sobre Jesus.

Dando por encerrada a sua missão, Levi resolveu então retornar ao lar de Maria, que realmente passara a ser também o seu novo lar, desde já um largo tempo, integrado que estava àquela família de Jesus. Porém, tendo encontrado uma caravana
direcionada a Damasco, optou por fazer uma rápida viagem até lá, em visita à sua mãe, já bem idosa, e também para rever Joana, Camarfeu e os demais. Integrou então aquela caravana.

Chegando a Damasco, Levi reencontrou a sua mãe naquele local da sinagoga, lá onde haviam vários pregadores em atividade. Matou a saudade da mãe e ela o abençoou, dizendo:

— Filho, temos constantes notícias de Jesus. Aqui ele é muito pregado até mesmo pelo nosso irmão que aqui está.

Levi foi ter à casa de Joana, depois de dois dias de sua chegada. Reencontrou Camarfeu já bem velho, e também Joana, que lhe disse:

— Estamos cogitando de ir à Galiléia. Camarfeu, tocado pela força de Jesus depois que foi curado, quer ir de toda forma.

Levi observou, com certa ironia:

— Ora, senhor Camarfeu, não acreditavas em Jesus, e então por que crês agora? Tiveste de ser curado para acreditar?!

— Sou um homem muito cheio de pecados! Sei que Jesus me curou, mas não pôde curar os meus pecados. Sei que eles são muitos e que o Eterno não me perdoará, e também não Jesus. Programo uma viagem a Roma, mas antes disso quero ir ter com Jesus. Sei que ele caminha por vários lugares e que por onde passa atrai multidões. Meus filhos já assumiram todos os negócios e bem sabem o que fazem. Gostaria então que tu nos levasses até Jesus.

— Estou aqui há pouco e desejaria ficar por mais algum tempo para sentir um pouco mais o carinho da minha mãe. Todavia, se é do vosso desejo, poderemos partir daqui a dois dias.

Assim combinados, Levi retornou ao lar de sua mãe e, dois dias passados, partiu para a Galiléia com Joana e Camarfeu.

Chegando à casa de Maria, não encontraram Jesus.

Joana e Camarfeu saudaram alegremente Maria, todos se emocionando.

Já chegava a noite. Maria lhes serviu pão e vinho, a lhes dizer que era uma enorme alegria poder ser a mãe de Jesus e que ele já havia conquistado uma infinidade de corações.

Joana disse:

— Que Deus conceda vida longa a Jesus e à minha Maria, para que Jesus possa conquistar e livrar todos os corações do poder do mal e do Demônio!

Naquele momento Maria se entristeceu. Algo parecia incomodar a sua alma.

Respirou fundo para conter ás lagrimas forcejando por saltar dos seus olhos, foi ter ao seu quarto, que era separado da casa, fechou a porta, sentou-se ao leito e começou a orar. Teve uma desagradabilíssima visão. Jesus, rosto belo e sereno, era atacado e achincalhado pelos sacerdotes. De repente viu muito sangue e Jesus perdoando a todos que o massacravam.

Vendo aquelas cenas, Maria chorou sem cessar. O anjo Gabriel se lhe acercou para consolá-la, dizendo:

— Mulher, este não é o teu filho: este é o filho de Deus. O Altíssimo dar-te-á a glória dos Céus, porque serás chamada Maria, a Mãe de Todas as Mâes, e Maria, Mãe da Luz, porque serás imaculada sobre todas as Marias e serás chamada por todas as mães, porque serás a Mãe de todos os filhos da Terra!

Tais palavras confortaram Maria. Alegre, saiu ao encontro dos visitantes e lhes disse que Jesus não demoraria para retornar ali. Então os visitantes resolveram aguardá-lo.

Disse Camarfeu a Maria:

— Irei a Roma. Preciso visitar o meu irmão. Sei que ele já está bem velho e quero reencontrá-lo. Porém, pretendo primeiramente me avistar com Jesus.

Maria disse:

— Por que tanta preocupação? Terás muito tempo para que reencontres Jesus. Vai e deixa Joana aqui, pois me dou muito bem com ela e conosco ela estará muito bem. Relembro nosso tempo de criança, quando fomos criadas juntas, e hoje a vejo casada, sem convivermos juntas. Deixa ela aqui e quando retornares para buscá-la, certamente que Jesus estará aqui e poderás estar com ele.

— Está bem! Passarei aqui esta noite, descansarei amanhã e no segundo dia partirei bem cedo. Preciso mesmo visitar o meu irmão, pois sei que ele não durará muito tempo.

JOÃO BERBEL