XV - ZACARIAS E ISABEL

XV - ZACARIAS E ISABEL

Perto de Belém, Benedites e os seus encontraram Zacarias, marido de Isabel, e com eles uma criança. Benedites, parente distante daquele casal, viu aquela criança e indagou:

— Quem é este menino?

— É João - disse Isabel, adiantando-se. — É meu filho. Deus permitiu que eu concebesse. Recebi a visita de um anjo e ele afirmou que eu ficaria grávida. Eu disse isto a Zacarias, mas ele duvidou, sabendo que eu era estéril e já tinha idade avançada.

Porém, a ele também falou o anjo.

— Foi assim mesmo! - disse Zacarias. — E o anjo pediu que eu colocasse na criança o nome de João.

Mas como foi que isto aconteceu?! - indagou Benedites. — Esta terra está cheia de mistérios! De repente me chegou a notícia, através de meu pai, de que Maria também concebeu de forma estranha...

— E Barnabé - cortou Zacarias -, está bem?

— Sim, muito bem!

— Tive a oportunidade de saber que ele vai mesmo às mil maravilhas, que se tornou um grande comerciante. Sei também que Camarfeu se tornou cobrador de impostos e está muito bem de situação.

— Sim, está!

— Sei também das tuas andanças por todos os lados, que passaste em todos os templos. Minha casa é um pequeno templo que herdei de um grande amigo que colocou nas minhas mãos o trabalho de pregação. Sê bem-vindo na minha humiIde casa!

Mas, Zacarias, dizem que de Maria nasceu Jesus e que ele é o Messias.

Podes confirmá-lo?

Zacarias coçou a barba e disse: - Vê bem! Não tenho como duvidar nem afirmar categoricamente que ele é o Messias. Isabel estando grávida, Maria esteve aqui e, aproximando-se de Isabel. pareceu que aquela criança de minha esposa queria sair para fora, e, naquele momento, Isabel disse belíssimas palavras, assegurando que abençoado seria o Ventre de Maria, porque dali nasceriao Salvador.

Isabel atalhou:

— Parecia que a criança dentro de mim conversava comigo naquele momento. Foi uma tão grande alegria, uma tão grande felicidade quando pude fitar Maria e saber que o mesmo Emissário de Deus que veio até mim fora tambem até ela! Ora, se, sendo uma mulher velha e estéril, pude dar à luz e amamentar o meu filho, porque Deus também não proporcionaria a Maria, tão jovem, a mesma maravilha? Sei que tanto Jesus quanto João têm um grande trabalho a efetivar na Terra. É para isto mesmo que o Senhor os enviou até nós.

— Pois bem, Zacarias! A vida é cheia de altos e baixos. Ora estamos lá |m cima, ora lá embaixo. Muito tenho de agradecer a Deus pelo que aprendi, principalmente pela oportunidade de receber na sinagoga o conhecimento, ao lado do meu pai.

— Seu pai é mesmo muito religioso. Na sua visita aqui nos trouxe vários presentes e nos deixou muito felizes e alegres. Quanto a Jesus, esperamo-lo com ansiedade, mas não temos notícias dele. Ninguém sabe ainda por onde ele anda, ou mesmo se ainda vive. Foi uma tragédia aquela matança que houve em Belém por mãos de Herodes, que mandou sacrificar todas as crianças!

— Bem sei! Mas que trágico fim teve Herodes!

— E a guerra do poder, do pai e do filho, o filho vendo um pai tombado ao chão! Mas as mãos de Deus recaem em todos nós, e ele, pelo que fez, mereceu passar por aquilo. Mas não temos notícias de José e Maria. Sabemos apenas que, cada vez mais, devemos orar e pedir a Deus para que, onde quer que possam estar, estejam bem.

— Joana, esposa de meu irmão Camarfeu, acredita piamente que Jesus está vivo e Maria está bem.

Isabel se colocou à frente dos dois e disse:

— Se Deus enviou João e Jesus à Terra para que continuem a obra do Altíssimo, estejas certo de que José, Maria e Jesus estão em algum lugar, à espera do momento certo para retornarem. Sim, acredito que eles estão vivos e que o Espírito do Senhor está com eles! Estou certa de que em breve estarão junto de nós. Ora, se Deus preparou a Obra para que vingasse na Terra, certamente que Herodes, com toda riqueza que tivesse, não viria apagar a Luz que vem de Deus. Foi tão grande a alegria naquele momento em que encontrei Maria! Parecia que o meu coração pulava! Eu falava sem querer falar. Parecia que aquele meu rebento queria sair por minha boca afora, pelo contentamento de estar à frente de Maria. Nosso João já dá os primeiros passos e aguardamos de Deus o sinal da missão dele.

— E' verdade! - disse Zacarias. — O mundo está muito complicado, muito difícil. Os homens não se entendem, debatem-se, criam conflitos e confusão entre si, e nunca se vê felicidade no coração dessas criaturas.

— Tens toda a razão! - disse Benedites. — Tomara que Jesus esteja vivo e venha para resolver esses tantos problemas! Acho mesmo que Jesus está vivo. Vejo tantas coisas por aí, Zacarias! Ora, eu próprio tive um espírito várias vezes perto de mim.

Mas na verdade ele não se me apresenta na figura de um anjo, e sim de um senhor barbudo, e tudo o que me aconselhou deu certo. Ele parece guiar os meus caminhos.

— E por que então - indagou Zacarias - não perguntas o nome desse espírito? Sabemos que o Anjo Gabriel esteve com Maria e esteve aqui, e então esse senhor que te aparece também deve ter um nome.

— Nunca tive a curiosidade de perguntar o nome daquele senhor. Deve ser também um anjo.

— Não! - atalhou Isabel. —Anjos têm o rosto limpo, não usam barba. São formosos, não têm pelos no rosto. Belos são os cabelos deles. Foi assim mesmo que se me apresentou o Anjo Gabriel. Esse teu conselheiro não deve ser um anjo. Ora, pergunta pelo nome dele quando te aparecer, e de onde vem, quem é. Se ele for de Deus, naturalmente não terá nenhuma inibição de te revelar, assim como recebemos entre nós o Anjo Gabriel, que nos veio diretamente do Altíssimo, tal uma luz, a nos revelar quem era e o que viera fazer. Então não tenhas medo: pergunta-lhe, Benedites!

— Medo é coisa que não se pode ver do meu lado! Nada podemos temer, em momento algum. Temos que acreditar no Altíssimo, sabendo que Deus está sempre ao nosso lado. Quem me aparece é um senhor amigo, e quando se me oferecer a oportunidade, hei de lhe perguntar o nome, e certamente que ele me atenderá.

Teve fim aquela proveitosa visita.

Benedites e sua tropa permaneceram por mais de um ano em Israel, e por fim encetaram a viagem cie volta a Roma, com cerca de cento e cinquenta soldados.

Numa das noites daquele percurso, estacionaram em uma hospedaria para o necessário repouso.

Ali estando, em certo momento Benedites teve a intuição de se afastar um pouco para orar e imediatamente lhe apareceu aquele espírito amigo, a dly.ci

A partir de agora devo afastar-me de ti. Deves permanecer em Roma

0 maior tempo possível. Muita confusão virá e por algum tempo não deverás \ lajur. I )eves sustar, por enquanto, a visita ao povo judeu.

Respeitoso perante a autoridade daquele espírito, disse-lhe Benedites: - Há tempos e tempos tenho tido a tua honrosa companhia e até hoje e não sei quem és.

— Por que tanto desejas saber quem sou? Ora, sou igual a ti: um filho de Deus! Mas ainda hoje terás a resposta daquilo que te despertou a curiosidade!

A tropa descansava. Alguns soldados permaneciam de plantão, porquanto a região oferecia muito perigo. Benedites escolheu o melhor lugar para repousar, junto aos demais, e ali se deitou. Dormindo, deixou o corpo. Viu à sua frente um campo cheio de trigo. A fartura era grande, mas por sobre o trigo se estendia uma névoa. Ele caminhou, mas sem tocar com os pés o chão. Viu o seu amigo espiritual chegando em meio à névoa, pegá-lo pela mão e erguê-lo. Tentou equilibrar-se no ar e ouviu do espírito:

— A fé do homem é o tesouro do seu coração! O homem, se acreditar, tudo poderá fazer! Acredita então que podes flutuar e flutuarás! Segurarei em tuas mãos!

Os dois levitaram por sobre a névoa, durante alguns momentos. De repente o espírito soltou as mãos. Benedites continuou levitando por alguns metros e caiu, logo sendo reerguido pelo amigo, que lhe disse:

— Caminha comigo! Por que temes? Acredita! Tem fé!

Benedites levitou novamente, foi até um pouco mais longe e de novo foi ao chão. Acudido pelo amigo, levitou e foi até mais longe ainda, caindo por uma terceira vez. Reerguido, ouviu do amigo:

— Viste? Esse foi o caminho que trilhaste. Se estivesses sozinho em todo tempo, terias ido ao chão irremediavelmente. Deves saber: recebi a oportunidade de guiar os teus passos, porque de ti depende o trabalho do emissário que já veio à Terra.

Acredita: ele é o Messias! Com o fogo do seu amor, ele apagará da Terra todas as manchas de sangue. É para isto que ele vem a Terra.

Ergue-te e caminhemos ainda! Por uns tempos terei de afastar-me de ti -já te disse.

— Por quê?!

— Permanece sempre de bem com Deus, sempre acreditando que o Salvador já está na Terra. Caminha firmemente! Chegará o teu tempo e verás a face do Messias - e então compreenderás por que ele será diferenciado de todos os homens. Ele não virá para os ricos, e sim para os pobres, os doentes. Com o fogo do amor, queimará todos aqueles que não entendem a grandeza do amor que o Pai tem para com a humanidade. Deixo-te agora, pois vou unir-me aos meus irmãos para darmos sustento ao Salvador.

— Mas pelo menos posso saber teu nome?

— Sim! Sou o quarto da linhagem de que faço parte. Unificamo-nos e criamos exércitos de anjos para que a Terra mude o seu grosseiro padrão de vibração e possa sentir a grandeza desse espírito que já está na Terra. Ele é o mais puro dos puros que existem! Falará a todas as nações. Sua voz será ecoada em todos os lugares. Neste momento em que o Messias pisa a nova Terra precisamos dar-lhe a cobertura. Meu nome é Rafael. Estou ao lado do Arcanjo Miguel, do Arcanjo Ismael e também do Arcanjo Gabriel. Recebemos a incum¬bência de estarmos aqui para que Jesus possa fazer tudo aquilo que lhe está predestinado. Nosso Arcanjo Miguel guia toda uma plêiade de espíritos que estarão formando uma cidade espiritual sobre este território. Nós quatro precisamos então dar sustento a esses irmãos. A nós foi dada tal oportunidade.

Benedites se lembrou, naquele momento, do que lhe dissera Isabel: anjos têm o rosto limpo. Fitou aquele ancião de longas barbas e Rafael imediatamente se transfigurou, se mostrando na forma jovial, imberbe, da forma que imaginavam as criaturas da época.

— Não verás mais a mim - disse Rafael - por determinado tempo, porque o que eu podia fazer já fiz. Lembra-te sempre de tudo o que te pude dizer e ensinar, e tudo será útil para ti e para Jesus. Vai e faze o que tens de fazer!

Rafael caminhou pela névoa e Benedites foi ter ao corpo, acordando com aquele sonho na cabeça e a chamar por Demétrius.

— Amigo - disse ao militar-, não mais poderei ver o meu povo. O que há de ser feito ficará em tuas mãos!

— E quanto a ti, o que estarás fazendo?

- Certamente estarei aguardando chegar a idade. Sempre que puderes, peço-te, visita meus familiares.

A tropa seguiu para Roma e lá Benedites relatou a Oscar e Tomás tudo ii que havia acontecido.

A partir de então Benedites se fixou definitivamente em Roma, seguindo as leis e os costumes do povo romano, da melhor forma possível.

Comentando com os amigos, disse-lhes Benedites que a todo tempo estivera com um Anjo de Deus e não sabia.

No seu íntimo, Benedites acalentava aquela grande vontade de ver, conhecer Jesus, mas isto não lhe foi possível.

JOÃO BERBEL