XVII - BARNABÉ CONHECE ROMA

XVII - BARNABÉ CONHECE ROMA

Demétrius passou em casa de Barnabé e, convidado por este, ceou e bebeu do vinho que era reservado apenas às melhores ocasiões. Dizia Barnabé:

— Hoje quero que todos bebam com alegria e amor no coração. Amanhã irei para terra estranha. Se algo acontecer comigo, Camarfeu, e eu não puder retornar...

— Nada vai acontecer - cortou Demétrius. — Viajamos constantemente para lá e nada acontece. Fica tranquilo quanto a isso.

— Mas se acontecer algo comigo, promete-me, Camarfeu: respeitarás a tua mulher!

— Ora-disse Camarfeu -jamais faltei ao respeito com ela.

— Pelo jeito que conversaste com ela a respeito de José, Maria e Jesus, bem vi a diferença e a ira estampada nos teus olhos. Irei porque preciso ter notícias do meu filho.

— Marido - disse Orlinda -, dize-lhe que morro de saudades e que não quero morrer sem vê-lo. Há muito ele não vem aqui e eu gostaria de saber a razão disso, o que acontece com ele.

— Fica certa de que saberei de tudo e te trarei a explicação. Deve estar acontecendo alguma coisa. Talvez que César o tem ocupado muito por lá.

A tropa saiu na manhã do outro dia.

Era uma viagem cansativa, mas Barnabé era um homem forte, de muita resistência.

Chegando a Roma, Barnabé foi levado até a casa de Oscar e lá dentro viu Benedites fazendo algumas anotações. De pé, ficou a observá-lo da porta, sem que Benedites percebesse a sua presença.

-Benedites - disse Oscar -, há um presente para ti !

Voltando-se, Benedites viu o rosto do pai, bastante castigado pelo Sol. Ergueu-se, abraçou-o e disse:

— Meu pai! Alegres estão os meus olhos por ver-te aqui! É muita felicidade para todos nós! Deus tem sido maravilhoso para nós!

Os dois, abraçados, saíram pelas ruas, Barnabé se entusiasmando grandemente com as casas, os palácios, as obras arquitetônicas enfeitando Roma.

— Como pode o homem construir tanta coisa assim?! - exclamava ele.

— Ora, pai, da mesma forma que foi erguido o grande templo de Jerusalém. Aqui há muitos arquitetos que projetam estas maravilhosas construções. Roma cresce a todo momento, é bem gigante aqui na Terra. E quanto à mamãe, Camarfeu, Joana e as crianças?

— Estão todos bem. Porém, saí de casa um pouco intrigado. Teu irmão anda muito irritado, brigando muito com Joana, por ela acreditar que Jesus é o Messias.

— E Jesus está vivo?

— Sim!

— Ainda não tive a oportunidade de visitar José c Maria. Mas o que aconteceu com Jesus?

— Quando houve aquele massacre de crianças, chegaram três reis à frente do menino Jesus. Eles encontraram soldados de Herodes e estes lhes Indagaram sobre o que estavam fazendo ali três soberanos de terras distantes. Disseram-lhes que tinham ido visitar o novo Rei que ali nascia. Ora, tal fato acabou chegando aos ouvidos de Herodes, que, temeroso de perdero seu trono. Indagou a verdade dos três reis, que lhe afirmaram que o novo Rei iria dominar toda a Terra. Assim, Herodes mandou matar todas as crianças nascidas naquele período. Com isso, Maria fugiu para o Egito e lá muito penou. De repente chegou lá Darúbio, parente de José, e viu os três numa situação muito difícil.

Darúbio lhes informou que Herodes já havia morrido e que poderiam retornarem segurança. Assim, Darúbio ajudou José, Maria e Jesus em seu retorno à Galiléia. Sabendo da chegada de Maria, teu irmão levou Joana até lá. Camarfeu disse que Jesus é uma criança comum, mas Maria afirma que ele é o Messias.

Isso gerou uma grande confusão que foi desembocar lá em casa. Hás de ver teu irmão brigar com a esposa! Pedi a Camarfeu que respeitasse mais Joana. Tu bem a conheces e sabes que é uma pessoa maravilhosa. Teu irmão muito a tem maltratado por ela insistir em que Jesus é o Salvador.

Os dois se sentaram num banco e Benedites disse:

— Digo-te uma coisa, meu pai, e não irás acreditar. Estivemos na casa de Zacarias e ouvimos de Isabel que também seu filho João foi anunciado por um anjo, assim como ocorreu com Jesus e Maria. Zacarias sugeriu que eu perguntasse quem era aquele ancião que aparece para mim, e, na minha viagem para cá, estando eu muito cansado, em certo momento me separei da tropa para orar e de repente senti a mão daquele espírito. Conversei com ele e ouvi dele que eu não mais deveria ir a Jerusalém, pelos riscos que lá correria. Disse que eu deveria permanecer em Roma até que ele se manifestasse novamente, o que, segundo ele, demorará bastante para ocorrer, porque Jesus está na Terra eco Messias. Foi por tal razão que não mais viajei e apenas mandei as minhas notícias. Dize à mamãe que estou maravilhosamente bem, que não deve preocupar-se comigo em momento algum. Pois bem. meu pai! É o momento de anunciarmos ao mundo a chegada de Jesus! Então não tenhas vergonha de anunciar o nome e a missão dele. Naquele momento, aquele senhor nada me disse, mas logo que dormi, me vi num farto campo de trigo. Era tudo maravilhoso! De repente se me aproximou aquele ancião, andando sobre a névoa, e vi que meus pés também não tocavam o chão. Ele me segurou pelas mãos e me ensinou a andar acima daquela névoa. Andei com ele e caí três vezes. Na terceira vez ele me amparou e disse belas palavras. Afirmou que é um Arcanjo c que estava ao meu lado para me proteger. Disse-me que eu teria aqui uma missão, que a missão de Jesus dependia do que eu faria aqui em Roma e que se eu fosse para qualquer parte de Israel, poderia complicar o meu trabalho. Então aqui estou e permanecerei. Aqui a gente faz projetos, ensina. Sou quase um professor. Muitos me chamam mesmo de mestre, c isso me dá muita segurança, a certeza de que poderei realizar o meu trabalho da melhor forma possível. Todos daqui gostam de mim e daqui não sairei. Porém, não deixes de me trazer notícias de Jesus. Dize ao meu irmão para acreditar na mulher dele, que ela está certa e ele está errado. Mas dize-o com muito amor e carinho. Traze-me todas as possíveis notícias de Jesus, pois preciso manter-me informado. Dize à mamãe que sinto a presença dela em minhas orações. Tenho sonhado muito com ela. Lembro-me do sonho que tive com ela: estávamos lá na nossa casa da Galileia, contemplando os campos, os rebanhos. Lá comíamos aquela carne dos nossos animais, mas aqui isso não é tão fácil. O povo daqui come carne suína e bovina. Aqui nada se perde neste sentido. Mas dize à mamãe que vou muito bem de saúde e que irei visitá-la assim que puder.

Barnabé, feliz com o que ouvia, seguiu com o filho à sua residência. Lá se alimentaram, Barnabé se servindo do vinho, enquanto que Benedites se conservava longe de bebidas, nisto se diferenciando de todos. Seu pai pediu que ele bebesse em sua homenagem, o que fez Benedites. Orou Benedites:

— Deus, criador de tudo o que existe na Terra! Deus, que deste ao homem a inteligência para que ele sobrevivesse! Deus que também olhas para paralíticos e oprimidos! Deus que nos deste o trigo para que ele nos dê o pão! Deus que nos deste a vinha para que ela nos dê o seu fruto! Tudo veio das Tuas mãos. ó Criador! E em Teu nome que pedimos, em oração, para aquele que veio a Terra a Teu mando. Que ele tenha vida longa na Terra e que possa realizar aqui o melhor trabalho!

Encerrou agradecendo o alimento e a bebida.

Todos que ali estavam, mesmo sendo romanos, aceitavam bastante as idéias de Benedites.

Comeram e beberam, alguns em excesso, e todos se sentiram felizes.

No outro dia, Barnabé saiu com o filho a conhecer melhor a cidade.

Que lhe mostrado o palácio de César. Viu a sala de reuniões do conselho e tudo o mais que ali se mostrava.

Barnabé indagou:

— Tudo isto é construído com o dinheiro dos judeus?

— Não. O que vem de Israel é muito pouco. Há várias outras províncias sob o domínio de Roma, regiões em que as terras são mais férteis e então oferecem mais facilidades de plantações. César oferece segurança a todo esse povo e em troca é cobrado o tributo, o qual garante o sustento do exército. Bem ves que são milhares os soldados sob o comando de César. Encantado com tudo, comentou Barnabé:

— Na viagem para cá vi grandes campos. Aqui eles são mais abertos.

— Sim, e mais produtivos.

JOÃO BERBEL