XVIII - JESUS EM DAMASCO

XVIII - JESUS EM DAMASCO

Maria estava muito feliz. Sua casa era visitada por muitos daqueles desejosos de ver, tocar Jesus.

A notícia de que o Messias já vivia entre os homens se estendia por toda a Galiléia e até por outras terras.

Jesus era o novo Rei para uma nova Terra e, com tal certeza ou esperança, todos desejavam senti-lo.

O menino Jesus já tinha a facilidade de desenhar as palavras das Escrituras, porque já tinha os dons do seu espírito. Suas palavras eram sempre admiradas. Sempre usava da grandeza do seu amor, da sinceridade do coração. Quando às vezes era crivado de perguntas que o magoavam, permanecia em silencio, exemplificando a todos que a verdade é a única força que liberta o homem, que ele somente se torna livre se tornar-se puro e bom de coração.

As pessoas grandemente se impressionavam com o conhecimento demonstrado por aquela criança.

Somando cerca de dez anos, em certo momento Jesus sentiu telepáticamente as vibrações de sua tia Joana, que orava intensamente por todos daquela família.

Era grande a vontade manifestada por Joana de ver Jesus, mas Camarfeu não permitia que ela viajasse até a casa de Maria. Jesus, sabendo-o, convenceu Maria a levá-lo até a casa de Camarfeu, e José se dispôs a conduzi-los.

Recebendo antecipadamente tal notícia, Camarfeu começou a se irritar e massacrar a esposa, sacudindo-a e dizendo:

— Mulher, tu és louca! Eu não quero saber de confusão na minha casa! Somos pessoas de bem e tenho um nome para zelar aqui em Damasco. De repente essa tua folia toda em torno daquele menino poderá até complicar o nosso relacionamento com Roma, gerando-nos dificuldades.

De repente se via uma poeira, denunciando a chegada dos visitantes no lar de Camarfeu.

De longe Jesus captou aquelas vibrações irritadiças dc Camarfeu. Deteve-se, beijou o rosto do burrico que conduzia Maria e disse:

Ah! Bom seria se todos os homens da Terra pudessem ser simples co
mo os animais, entender que somos todos iguais!

Disse-o e se afastou um pouco, detendo-se em meio a uns arbustos. Mai ia desceu do animal e foi ter com Jesus, fitando o alto, dizia o menino:

— Pai, o meu espírito está sobre Tuas mãos! Pai, não deixes que se ensombreçam os corações dos homens por não me entenderem! Faze com que o meu amor possa ser puro perante os homens!

Naqueles instantes, Rafael, Ismael, Miguel e Gabriel, os quatro anjos, acercaram-se de Jesus, que então disse:

- Agradeço-Te, Pai, por atenderes ao meu pedido! Saindo ele daquele colóquio, Maria o abordou:

— O que é, filho?

— Mulher, eu não estou mais sozinho. A vontade do Pai se faz bem perto de mim, porque não sou guiado apenas pela força das minhas pernas, mas também pela vontade daquele que me enviou à Terra.

Prosseguiram, e Jesus, indo à frente, bateu na porta da casa de Camarfeu que, sabendo de quem se tratava, impedia Joana de atender. O próprio Camarfeu enfim abriu aporta.

Jesus fixou profundamente os olhos de Camarfeu e disse:

- Aqueles que me recebem, recebem também Aquele que me enviou, para que a que a minha paz seja com eles - porque a minha paz te trago e a minha paz e a te deixo!

Tais palavras, no seu tom profundo, estremeceram um tanto a alma endurecida de Camarfeu, que jamais poderia imaginar poder ouvi-las naquela distància. Alterado, Camarfeu emudeceu e Jesus o abraçou, beijando-lhe o rosto.

Joana correu e ajoelhou-se aos pés do menino, que disse:

- Ergue-te, Joana, pois ainda não é chegada a minha hora! Impressionado estava Camarfeu. Joana abraçou Maria e disse:

— Minha querida irmã, hoje recebo o Senhor na minha casa! Que eu possa ser digna da vossa presença!

Jesus disse:

— E' do trigo que se faz o pão, mas é da terra que nasce o trigo. Tudo se manifesta em perfeita harmonia, porque assim o quer o Pai que está nos Céus. Grãos e grãos são triturados, amassados e preparados no ponto certo para que possamos saborear o pão. Louvado é o nosso Pai, que nos dá tudo de graça! Então dai de graça o que o Céu de graça vos concede. Recebeis do Céu a glória de serdes autoridades perante os homens, mas nenhuma autoridade pode ser perfeita se não estiverdes em harmonia com o Pai que está nos Céus. Um minúsculo grão nasce e cresce, e de sua semente nascem milhares e milhares de outros grãos, e assim também somos nós: se não produzirmos, seremos aquela semente amaldiçoada que não deve conquistar espaço na Terra, porquanto nos Céus não lhe será dado lugar. Vossos olhos hoje me vêem, mas talvez que amanhã não mais me vejam, e então esse dia vagará sempre convosco, porquanto este jamais o esquecereis.

Fitando José, que se lhe aproximava, disse ainda Jesus:

— As obras do meu Pai que está nos Céus são boas, mas os homens da Terra não as enxergam. As obras do Pai vencem as barreiras do tempo e do espaço, mas ninguém pode vê-las, porque todo mundo serve apenas a um senhor, que é o dinheiro, e enquanto estiver servindo ao dinheiro, o homem não sentirá Deus. Tal foi o princípio que me trouxe à Terra. Não vim para os ricos, e sim para os pobres. Não vim para os sãos, e sim para os doentes.

Joana não continha a emoção por ouvir aquelas mensagens em sua própria casa e se acercava de Jesus o mais que podia. Disse-lhe Maria:

— São tantas as pessoas que nos procuram, Joana! Todo dia a nossa casa fica cheia de gente, e Jesus fala a todos essas mesmas coisas, mostrando que, na natureza, até mesmo as flores, em sua simplicidade, se tornam belas e depois fenecem para que os seus grãos caiam no solo e as plantas se multipliquem. Ele diz muitas boas coisas.

Disse-lhe Joana:

— Abençoada és tu, Maria, porque tens Jesus contigo!

— Não! Rendo louvores aos Céus e agradeço ao Eterno por nos dar Jesus, mas felizes mesmo serão todos aqueles que irão ouvi-lo, entendê-lo e segui-lo.

— Mas, Maria, ele ainda é uma criança e assim tão sábias são as suas palavras, coisas que a gente não ouve nem da boca dos adultos!

— Ora, Joana, é porque Jesus não é um qualquer. Ele é o Emissário de Deus!

E. como e que tem andado as coisas com ele!

— Muito bem! Ora, dias atrás chegou cm casa um homem todo torto, sem poder movimentar-se. Jesus o tocou e o homem gritou e gritou. Agente escutava o estalo nos ossos com o toque das mãos de Jesus. Aquele homem sarou e Jesus lhe ordenou que nada comentasse daquilo com ninguém, dizendo que o seu tempo ainda não chegou. Foi uma alegria!

Camarfeu tudo ouvia e observava. Sabia ele da pobre Joaquina, mulher que por ali residia e era rejeitada por todos, porque tinha uma incessante hemorragia. Pensando em testar Jesus, ele foi até a porta e pensou: Agora quero ver! Se ele curar aquela mulher, poderei acreditar nele, mas se ele não curar, irei desmascará-lo aqui mesmo. Se ele diz curar as pessoas, então Veremos! Pobre dona Joaquina! Vai por toda parte e não se cura!

— Vou dar uma volta e já retorno! - disse Camarfeu, saindo. Disse-lhe Jesus:

— Tio, o amor é grandioso! Se o amor não curar as pessoas, a raiva e o ódio também não curarão!

Camarfeu apressou o passo e logo chegou e encontrou Joaquina, e lhe disse:

— Lá em casa está um menino que se diz um grande profeta, e todos o adoram como se fosse Deus, até mesmo a minha mulher. Ela quase me deixa louco com a história desse menino. A senhora pode acompanhar-me?

— Não, não irei!

— Ora, a senhora bem sabe que faço tudo com a maior honestidade, e assim mesmo muitas pessoas me odeiam, porque tenho de cobrar os tributos paia mandar a César o dinheiro. Não o faço por gosto, mas se eu não o fizer, outro fará e talvez com mais complicação.

— Se eu for até esse menino alterarás o valor do tributo do meu marido, que há muito me abandonou, tanto quanto os meus filhos?

— Esta prova é muito importante para mim. Não medirei as consequências para poder desmascarar esse Jesus e retirar a minha Joana das mãos dele.

Joaquina se convenceu a ir. Andando com dificuldade, pelo tanto que sangrava, logo chegou à casa de Camarfeu, que a conduzia.

Jesus conversava no quintal com um dos vários meninos que ali estavam. As crianças perguntavam-lhe sobre animais e outras coisas, e Jesus respondia, como se fosse uma criança qualquer. De repente ouviu o chamado de Maria:

Jesus já percebia que algo diferente o requisitava. Caminhou para o lado de Joaquina, fixou-a e baixou a cabeça. Camarfeu a pegou pelo braço, colocou-a à frente de Jesus e, desafiador, disse:

— Não és o Messias? Esta mulher está imunda e seu marido a odeia. Ela vive pelos cantos, a sofrer. O que podes fazer por ela?

Jesus ergueu os olhos, fixou os olhos de Joaquina, e disse:

— Dize a Paulo que és uma mulher igual às outras, e dize aos teus filhos que és mãe deles e que não devem envergonhar-se de ti.

Raivosa, disse Joaquina:

— Não vim aqui para escutar isso! Não gosto que as pessoas digam que sou imunda!

— E isto é motivo de escândalo, de tal motivo para até os teus se envergonharem de ti?

Camarfeu se adiantou:

— A nossa lei determina que homem algum pode deitar-sc com uma mulher imunda. Ela está assim porque é tomada do mal e sangrará até morrer!

Joaquina fez menção de sair, mas Maria e Joana a seguraram pelos braços, Joana lhe dizendo:

— O menino não tem culpa das palavras de Camarfeu. Jesus disse:

— Mulher, acreditas que eu sou o Messias, que eu sou o Filho de Deus?

— Não!

— Mulher, se nem ao menos um pouquinho de fé tens no coração, nada posso fazer por ti, a não ser lamentar.

Joaquina saiu dali.

Jesus se ajoelhou num canto, pôs as mãos em sentido de oração e baixou o queixo até a altura das mãos, orando então:

— Pai, que criaste o Céu e a Terra, que criaste os homens e tudo o que vive, e que fazes crescer a vinha para ceder o fruto aos homens, cu Te peço: piedade por aquela mulher, pois ela não nos pode entender!

Joaquina, andando, tropeçou e foi ao chão, desmaiada. Maria e Joana viram-na tombar e, preocupadas, levaram-na para dentro da casa.

Jesus se ergueu, tomou o rumo do caminho que deixava a cidade e ali desapareceu, enquanto todos tentavam reanimar Joaquina, ainda desmaiada.

Procuraram Jesus e não o encontraram. Um certo desespero tomou conta de Camarfeu, que disse:

- Se eu for até Paulo e lhe disser o que ocorre, ele ficará enraivecido, porque sou cobrador de impostos. Ele confundirá as coisas eludo ficará muito ruim para mim. E, ademais, ele tem grande prestígio na sinagoga. Como Ficarei agora perante ele?!

Maria disse:

— Nem tu nem ela deveríeis proceder daquela forma com Jesus. Joaquina não voltava a si e Jesus não aparecia. Tudo faziam para reanimar aquela mulher e nada conseguiam.

A tarde avançava e todos se mostravam preocupados com Joaquina e com Jesus. Camarfeu se irritava bastante com aquela situação.

De repente Jesus adentrou a porta da casa e ouviu:

— Onde estavas?! Tuas palavras assustaram Joaquina. Ela caiu, bateu a cabeça e desmaiou. Não sabemos se ela voltará a viver.

Jesus foi até Joana e lhe pediu um pedaço de pão que ela tinha às mãos. Começou a mastigar aquele pão, ao mesmo tempo em que olhava para Joaquina e paia os que, apreensivos, ali estavam.

Camarfeu culpava Jesus com ásperas palavras, enquanto que ele, calmamente, mastigava aquele pão e, por fim, indagou:

— Por que vejo tanto pavor em vossos olhos? Não entendeis que o trabalho do meu Pai que está nos Céus é perfeito por sobre os filhos da Terra? Pois que me temeis? Ela apenas dorme. Trazei-me vinho!

Passaram-lhe o vinho. Jesus molhou nele aquele pão e levou à boca um pedaço. Mergulhou-o de novo no vinho e, retirando-o, levou até os lábios de Joaquina, dizendo:

— Este é o pão que comeis todo dia, sem que por ele louveis ao Pai! Mulher, acorda, pois já dormiste bastante!

Joaquina abriu os olhos.

— Senta-te, mulher! Ela obedeceu.

— Dai-lhe o que de comer! Assim fizeram.

Já era noite e Jesus, dizendo que iria sentar-se lá fora, saiu e desapareceu, todos o procuraram e não acharam. José estava preocupadíssimo e ouviu de Maria:

— Acalma-te! Ele é o Filho de Deus, o Escolhido!

José se entristeceu, como sempre se manifestava quando diziam ser
Jesus filho do Altíssimo, e não dele. Porém, Maria, captando o motivo da sua tristeza, disse-lhe:

— Também tu és o pai dele. Deus é o seu Pai do Céu e tu és o pai carnal.

José sorriu, mas sem esconder ainda o seu ar de preocupação quanto ao sumiço de Jesus.

Joaquina, confusa, perguntava sobre o que lhe acontecera e por qual razão haviam queimado a barriga dela. Disseram-lhe:

— Ora, apenas caíste e agora estás bem.

— Não! Pegaram-me, sentaram-me ali e colocaram em mim uma labareda, queimando a minha barriga. Da minha boca saiu um punhado de abelhas.

Maria levou a mão ao rosto e exclamou:

— A obra de Deus foi feita em ti e os nossos olhos não puderam ver! Vem, Joana! Oremos para Jesus, para que tenha longa vida!

— Mas nem sabemos onde ele está...

— Não te preocupes, Joana. Ele está bem. Vem orar conosco, senhora!

— Orar por quê? - indagou Joaquina.

— Porque foste curada. Não és mais imunda!

E foi então que Joaquina percebeu que realmente já não portava aquele incessante sangramento. Comovida, começou a chorar e chorar.

— Por que choras? - indagou-lhe Maria.

— Porque duvidei de Jesus!

— Não será apenas tu: todos duvidarão dele, mas ele será sempre o mesmo, até que se consuma todo o seu trabalho na Terra.

Ainda arrependida, disse Joaquina:

— Sou muito ignorante!

— Não te lamentes! Oremos para Jesus!

As três se mantiveram orando. Coçando a cabeça, Camarfeu saiu e, tendo sido acompanhado por José, disse a este:

— Quanta confusão arrumam estas mulheres! Ora, essa mulher cai, bate a cabeça, desmaia, tem alucinação e já fala que foi curada por Jesus. Pois bem! Aguardemos para ver se aquele sangramento de fato estará estancado ou se permanecerá.

Camarfeu conduziu Joaquina até a casa dela, já que a noite avançava.

Maria e Joana oravam e oravam. Exaustas, adormeceram. José pouco conseguia dormir..

Amanheceu e Jesus não apareceu. Procuraram-no por toda parte. Chegou o meio-dia e ele não apareceu. A preocupação e a procura se estenderam até a tarde. Imaginavam que as palavras ásperas de Camarfeu e Joaquina o haviam ofendido e que ele retornara sozinho à Galileia, ao que discordou José:

— Não, Jesus não faria isso! Procuremo-lo ainda. Ele deve estar por aqui, em algum lugar.

De repente lembraram-se de ir até a sinagoga e foi lá, enfim, que encontraram Jesus, que passara a noite orando ali. Maria indagou:

— Jesus, por que não nos avisou que estarias aqui?! Nada comeste...

— O Filho do Homem não pode alimentar-se daquilo que tens por alimento.

— Mas por que te negas a comer?

— Já estou alimentado do meu Pai e do Espírito Santo.

Jesus tomou com eles o rumo de casa e, diante das indignações de Maria, dizia:

— Mãe, ainda não estou preparado para este mundo! Sim, pois me senti fraquejado perante aquelas palavras de dúvida lançadas contra mim. Vi nos olhos daquela mulher as dúvidas quanto a mim, a ti e meu pai. Vi nos olhos de meu tio a discordância quanto aos meus atos, tentando-me nas minhas curas. Ora, devo servir apenas a vontade do Pai para provar na Terra o que sou. Naqueie momento o meu espírito ficou muito abatido e procurei então afastar-me para orar, e orei intensamente, e os meus irmãos vieram até mim. Eles me andaram e ordenaram que eu aqui viesse e, vindo, reencontrei as mesmas energias. Por mais uma vez os meus irmãos me acudiram e acordamos aquela que dormia. Revigorado por aquelas forças, eu haveria de me libertar das forças da escuridão e então busquei na Casa de Deus o meu refazimento, o pão dos Céus, o alimento do meu Pai. Naqueles momentos os anjos me alimentaram me concederam tudo quanto eu necessitava, pedindo que o meu coração jamais e ensombreça perante os maus procedimentos dos homens. Afirmei-lhes que EU ainda não estava preparado e eles me disseram que o Filho do Homem veio para iluminar a Terra, que muitos duvidarão de mim, que muitos me criticarão e humilharão, mas que eu devo manter sempre forte o meu coração perante os homens. Mostraram-me dois homens armados com muita força, mas também que os meus anjos são mais fortes do que eles. Ordenaram que eu erguesse sobre os dois as minhas mãos e, fazendo-o, vi-os se desmanchando à minha frente, clamando por piedade. Eram demônios que agiam na Terra para prejudicar as criaturas.

Ouvindo tais palavras do filho amado, Maria mostrava no olhar um brilho incomum. Seu coração parecia querer explodir de alegria. Começou a chorar, comovidamente. Jesus se afastou um pouco com ela, levou a mão terna nos olhos dela e disse:

— Mulher, tudo acontece da melhor forma possível. Vê: não estamos sozinhos!

Maria olhou para o lado e viu Gabriel, Ismael, Rafael e Miguel, sob forte iluminação. Admirada, indagou:

— São os meus olhos da carne que estão vendo isto?

— Não! Os olhos da carne vêem o que é da carne e os olhos da alma vêem o que é da alma. Aqueles que vivem para a carne morrem pela própria carne, enquanto que aqueles que vivem sob a força do Espírito Santo têm consigo a grandeza da força da alma, e os anjos sempre os secundam. Meu Pai me enviou para que eu possa ajudar os irmãos da Terra.

A frente de José, Maria, Joana e Camarfeu, na casa deste, disse-lhe Jesus:

— Camarfeu, os teus olhos não devem brilhar somente pelas coisas da Terra. Arrepende-te, junta-te a nós e dos Céus te virá a recompensa.

— E o que devo fazer? Devo renunciar ao cargo que Roma confiou em minhas mãos e me tornar pobre, igual a vós?

— Camarfeu, Camarfeu, eu ainda não estou pronto para aquilo que hei de fazer junto aos homens, mas tu te edificarás em mim e herdarás o Reino dos Céus.

— Não! Estás enganado quanto a mim, Jesus. Tenho família, tenho filhos. Meu pai e minha mãe já estão velhos e então o que seria deles?

— Observa os pastores, o quanto de ovelhas têm nos pastos. Quando chega o frio têm de protegê-las, mas muitas delas não conseguem ser guardadas e às vezes ficam no tempo, mas a sua grossa lã as defende das noites frias, e estarão iguais àquelas protegidas nos estábulos. Assim são também os filhos de Deus. Não é pelo montante do ouro que se mede os homens da Terra, e sim pelo seu amor, pela sua simplicidade, pelo desejo da igualdade entre todos os homens. Não, Camarfeu, ainda não te mostras preparado para ver o Reino dos Céus! Porém, garanto-te que um dia não restarão de ti pedras sobre pedras, porque tudo o que tens na Terra é dado pelo próprio homem e isto acaba, enquanto que aquilo que o homem carrega dentro da alma é bem-visto aos olhos do meu Pai. Ofereço-te um tesouro nos Céus e queres o tesouro da Terra - então que seja feita a tua vontade! Meus olhos ainda verão a ti, mas será por tão poucas vezes que um dia lamentarás bastante pelos dias de hoje, e então pedirás aos Céus, com toda a força do coração, que os meus olhos enxerguem os teus, mas eu já não mais estarei por aqui, e então os teus olhos lacrimejarão. Não culpo a ti nem a nenhum daqueles que não quiserem ouvir-me. Hoje sou pequeno na idade, mas sou grande na alma e no espírito -porque tudo o que testifico não o faço de mim, e sim destes que estão ao meu lado. Fica em paz!

Virando-se para seus pais, disse-lhes Jesus:

— Nesta noite viajaremos!

— Mas, Jesus, passaste a noite toda sem dormir! Pouco comeste no correr de todo o dia!

— Mãe, Deus quer que viajemos. Sigamo-Lo, então! Joana se adiantou:

— Jesus, pelo amor de Deus, fica conosco mais esta noite!

— Mulher, estarei contigo nesta noite, amanhã e em todos os dias, porque aqueles que o Pai me concedeu, pedirei ao Pai que sejam protegidos pela força do fogo e do Espírito Santo!

Jesus beijou a face de Joana, despediu-se dos primos, fixou Camarfeu e desejou:

— Que a paz esteja contigo!

Saíram. José acomodou Maria sobre o animal, olhou para o filho e disse:

— Jesus, estás muito cansado.

— Nada há nesta Terra que me possa cansar! Mas há uma coisa que muito me aborrece e entristece.

— O que é, Jesus?

— Meu pai, é a falta de amor, a falta de compreensão! Os dias passam, ¡á é noite, e amanhã veremos outro dia. Quantos dias nascem e quantos dias se vão e os homens continuam os mesmos homens!

Os três seguiram e, a certa altura, notando Jesus o cansaço nos seus pais, disse:

— Dormiremos aqui.

— Mas aqui não há nenhum abrigo...

— Aqui estaremos bem. Há esta pequena árvore.

Jesus pegou o forro sobre o animal e o estendeu sob a árvore. Pegou o manto de Maria e a cobriu, deitando-se ao lado dela, o que também fez José. Exaustos, todos dormiram.

Alvorecendo, José acordou e viu Jesus a dormir ainda. Tocou nele, acordando-o e indagando:

— Dormindo assim, sem te cobrires! Deverias ter-te cobrido junto a nós.

— Eu não preciso cobrir-me com aquilo que os homens oferecem na Terra. O meu Pai celeste me protegeu do frio e de tudo o mais, porque o meu tempo ainda não é chegado.

Ergueram-se. Maria tirou pães do embornal e os serviu a Jesus e José, ela também se servindo. Jesus se sentou e comeu daquele pão, contemplando a natureza.

Pediu Maria:

— Jesus, perdoa Camarfeu! Ele é um bom homem. Há certas coisas que ele não pode entender, porque aprendeu a ser diferente.

— Nada tenho a perdoá-lo. Ele é um bom homem, é um bom pai, um bom marido. Estou triste por Joana: ela o abandonará e irá em busca de nós. Isto não será nada bom para ela, porque meu Pai a enviou na Terra para cuidar de Camarfeu, e não para me acompanhar.

— Mas, Jesus, ela não será louca de fazer isso.

— Minha mãe, eu não posso mentir! Mas vamo-nos! Seguiram e, exaustos, chegaram à Galileia.

Jesus reencontrou os seus amiguinhos naquela tarde e lhes disse que a viagem havia sido ótima.

— Tanta gente veio aqui! - disse um deles. — Viam que não estáveis aqui e iam embora.

— Muitos virão em busca de mim! Jesus disse-o e adentrou o seu lar. Maria preparou o jantar e se alimentaram.

Três dias passados, ali apareceu Joana, acompanhada de um homem chamado Paulo, marido de Joaquina. Dizia ela que ali estava para permanecer uns tempos com Jesus, que lhe disse:

— Mulher, vai ter com o teu marido! O teu lugar não é aqui. Se aqui ficares, estragaras toda a tua estadia na Terra, porque Camarfeu precisa muito de ti. Ele é um bom homem. Disse Joana:

Paulo me trouxe a mando dele, porque entre nós se criou um clima muito ruim. Ele não aceita determinadas coisas que precisa aceitar!

— Mulher, retorna ao teu marido! Dias chegarão em que das minhas mãos verás coisas maravilhosas! Verás o Reino dos Céus na própria Terra! Porém, ainda não é chegado o momento. Quando chegarem tais dias, clamarás por mim e estarás comigo. Então vai ter com o teu marido e os teus filhos, pois eles necessitam de ti.

Por dois dias os dois permaneceram ali. Paulo, bem entendendo e aceitando Jesus, disse:

— Senhor, muito grato te sou pela cura da minha mulher! Que devo fazer por ti?

— Crês em mim? Crês que sou o Messias? Crês que sou a Luz da Terra? Crês que sou o Filho do Homem?

— Creio com toda a força da minha alma - porque ninguém na Terra teria dos Céus o poder de curar a minha mulher! Frequento a sinagoga, sou fiel a Deus e a Ele entrego as minhas orações. Alegres estão os meus olhos por verem a ti, Senhor!

— Felizes são todos aqueles que podem ouvir e entender aquilo que falo, aqueles que acreditam naquilo que realizo. Porém, os meus dias ainda nao chegaram, os dias em que todos ouvirão a minha voz, em que todos saberão sobre mim e muitos e muitos me seguirão.

— E quando será esse tempo?

— No dia em que o Céu descerá à Terra, no dia em que a luz brilhará na parte mais alta do candeeiro. Nesses dias verão o Filho do Homem dando luz aos cegos, fazendo andar os coxos. Encontrarão o Filho do homem no meio das prostitutas, dos pobres e doentes. Muitos sacerdotes, escribas e fariseus escandalizarão em mim, mas serei firme e forte no Pai, e as minhas palavras terão tal força que será como se o Céu explodisse sobre a Terra. Vai, Paulo, e leva Joana contigo, e dize aos teus filhos e irmãos que o Filho do Homem já está na Terra, que ele veio para que muitos olhos que o vejam não o enxerguem o para que muitos ouvidos que o ouçam não o escutem, mas que todos os doentes o seguirão. Vai e fala, preparando os teus irmãos para a verdade que te repito: o Pilho do Homem já está na Terra. Dize-lhes que ele ainda é uma criança, que e prepara no mundo para viver no mundo.
ramo, ouvmao isto, encheu dc alegria o coração. Disse Joana:

— Felizes estão os meus olhos, pois viram num menino coisas que não viram em nenhum outro profeta, nem em Zacarias nem em outros pastores! Ouvi palavras diferentes, soando suavemente, quais plumas de algodão. Sim, felizes estão os meus olhos e contentíssima estou!

Paulo e Joana retornaram a Damasco.

Perante Joaquina, Paulo lhe deu uma boa notícia: havia visto aquele santo menino que trazia esperanças ao mundo.

Aqueles corações se repletavam de felicidade.

Muito contrariada estava Joana ao retornar ao seu lar. Aborrecida estava, pois o seu sonho era conviver com Jesus, Maria e José, mas Jesus não o permitiu. Chegou em casa muito tarde e não encontrou Camarfeu. Preparou-se para dormir e. adormecida, Jesus apareceu à sua frente, porém já se mostrando homem feito, bem alto, com cabelos longos, divididos ao meio, com a cor da amêndoa madura, e sua barba cerrada, da mesma coloração. Em espírito, Joana se sentou na cama e indagou:

— Quem é o senhor?

— Sou o Cristo, o Filho de Deus! Mulher, vem!

Jesus a pegou pela mão e os dois saíram pela porta daquela casa. Jesus ergueu as mãos ao alto e de lá surgiu Gabriel. Disse Jesus:

— Joana, este é Gabriel, o meu Irmão dos Céus que veio preparar a ferra para que eu nela caminhe. Contempla o teu lar: teus filhos dormem. Já imaginaste o que seria dos filhos sem as mães?

Jesus ergueu a mão e à frente de Joana apareceu um grupo de jovens correndo e gritando. Jesus lhe disse:

— Estes são os filhos que, sem o teu carinho e o teu afeto, e pela posição do teu marido, podem ser perseguidos por saqueadores. Porém, se estiveres junto deles poderás protegê-los - porque o Pai dos Céus te dá a proteção para que protejas a tua família. Joana, o teu lugar ainda não é junto de mim!

Joana foi ter ao leito e começou a sonhar com os seus primos, com Lázaro e outros familiares, e via sempre Jesus olhando por todos eles. De repente acordou com a chegada de Camarfeu, que lhe indagou:

— Já voltaste? Ora, pensei que ficarias por lá. Joana se ergueu e disse:

— Meu marido, o meu lugar não é ao lado de Jesus. Ele ja tem consigo os anjos dos Céus! O meu lugar é ao teu lado e ao lado dos nossos filhos!

Mas não continuarás insistindo em falar desse Jesus? Estive com Pauloe que está igual a ti: sonhando com o Messias, sonhando que esse menino é filho do Altíssimo. Ora, de repente todo mundo tomará tal notícia!

— Jesus disse que o seu tempo ainda não chegou! Ele se tornará grande e forte! Será diferente de todos os homens!

— Como imaginas esse Jesus quando crescer?

— Será um homem de longos cabelos, divididos ao meio, muito belos, caídos aos ombros. Sua barba será cerrada. Claros serão os seus olhos, diferenciados dos olhos de todos os homens desta região.

— Olhos claros?!

— Sim! E penetrantes!

— Disto eu nada duvido. Quando ele conversa, parece que os seus olhos nos enfeitiçam! Ora, Joana, ele é mesmo um menino diferente, mas quanto a ser o Messias, isto somente cabe àqueles que são reis e sacerdotes.

— Quem ele é ou vai ser não importa para nós agora, meu marido. E esqueçamos o passado!

E os dois dormiram em paz.

JOÃO BERBEL