XX - LEVI ENCONTRA JESUS

XX - LEVI ENCONTRA JESUS

Levi convidou Paulo para ser chefe daquela caravana que logo seguiria as terras da Galiléia.

A viagem era preparada, Levi não se segurando em sua animação e curiosidade, tentando imaginar como seria Jesus, indagando a si mesmo se ele era realmente era o Messias. E pensava: Ora, se ele é um descendente de um simples carpinteiro, como é que poderá fazer grandes coisas na Terra? Talvez que proceda igual a Moisés...

A caravana saiu bem cedo e viajou toda aquela tarde, parando à noite para o repouso.

No outro dia chegaram à Galiléia e logo se acercavam da casa de Jesus. Já era muito tarde e disse Paulo:

— Não o incomodaremos a estas horas.

— E o que faremos? - indagou Levi. — Somos muitos e não encontraremos hospedagem para todos nós.

— Não! Ouço falar que Jesus dorme em qualquer lugar. Procuraremos então um lugar seguro para dormirmos.

— Mas e os salteadores? A noite pode ser muito perigoso.

— Não! Esta região é muito pobre e por aqui não há saqueadores. Procurando por ali, viram um galpão desocupado. Paulo bateu à porta da casa e o atendeu uma mulher, a quem disse:

— Senhora, somos viajantes. Viemos de longe e estamos cansados. Precisamos repousar. Poderíamos usar aquele galpão?

— Utilizamo-lo para abrigar os animais. Serve para que vos defendais Ao frio. Podeis usá-lo à vontade.

A mulher lhes cedeu uma candeia que ficou acesa durante toda a noite.

Naqueles momentos, uns já dormindo e outros acordados, eis que ali chegou um rapaz com capuz à cabeça e disse:

— Sou um viajante. Posso pousar convosco? Paulo disse:

—Viemos para conversar com Jesus. Estes jovens estão muito cansados. Indagou Levi:

— Paulo, se fosse Jesus, deixaria ele que este jovem dormisse aqui?

— Certamente!

— Então entra, meu jovem, e dorme bem!

Levi fitou aquele jovem que desceu ao rosto o capuz e agradeceu a Deus pela viagem.

No outro dia, todos já acordados, Levi se lembrou daquele jovem e, fitando o local em que ele dormira, viu apenas a palha amassada. Indagou a Paulo:

— E aquele rapaz que dormiu aqui? Deve ter saído bem cedo.

— Também não vi quando ele se foi.

Dirigiram-se à casa de Maria, que bem os recebeu e a todos ofereceu pão. Preparou uma bandeja com pão, passou-a a Jesus. O menino a colocou sobre a mesa, beijou aquele pão, partiu-o ao meio e disse:

— Pai que estás nos Céus, que criaste o Céu e a Terra, que permitiste que a semente do trigo germinasse sobre a Terra e crescesse para nos dar o pão! Graças damos a Ti, Senhor dos Céus, por nosso pão!

Jesus deu um pedaço de pão para cada um dos visitantes. Fitou os olhos do filho de Lorens e disse:

— Levi, faze o mesmo que fiz: dá a teus seguidores o teu pão.

— Mas eles não são meus seguidores: são apenas meus amigos.

— Levi, tu és mestre e um mestre conhece todos aqueles que o ouvem -porque um mestre é também um pastor, e o bom pastor conhece as suas ovelhas, e quando as chama, elas vão reunir-se ao lado dele. Em memória do meu Pai que está nos Céus, eis que nasce o trigo para que os homens o comam!

Jesus saiu e Levi fez menção de segui-lo. Jesus, percebendo-o, virou-se e disse:

— Levi, come! Tu e os demais estão famintos e então alimentai o vosso corpo. Logo rogarei ao Pai e Ele cederá o alimento à nossa alma.

Jesus caminhou em direção a uma árvore que havia pouco distante dali e, como de costume, lá se sentou num tronco tombado pelo tempo. Era-lhe um grato local em que às vezes conversava com os seus amiguinhos.

Lá estava aqueie Jesus que ja era um rapazinho, cabelos já alongados, alguns fiapos de barba, roupa branca bem presa à altura do pescoço. Costumeiramente, ali sentado, pegava uma vara e com ela rabiscava algo no chão, para depois apagar e rabiscar de novo.

Naqueles momentos, olhando em direção à sua casa, viu aqueles jovens se alimentando. Maria foi ter com ele e disse:

— Meu filho, tão pouco comeste! Precisas comer mais. O teu corpo se desenvolver, transformas-te num homem e, a exemplo de todos, deves alimentar-se melhor.

— Muito hei de falar! Prefiro comer pouco e falar apenas o necessário.

— Meu filho, já sabias da vinda desses visitantes?

— Sim! Eu já estivera com eles.

Muito desconfiado, Levi caminhou em direção de mãe e filho. Jesus escrevia no chão e, um a um, os jovens foram chegando. Disse Levi:

— Somente um mestre, somente um homem de muita sabedoria pode dizer tão sábias palavras quanto ouço de ti! És mesmo o Filho de Deus?

— Sim, mas, Levi, também tu és filho de Deus. Aproxima-te também, Marcos, e vós todos.

Os jovens e Paulo se aproximaram mais de Jesus, que dizia:

— Paulo, são todos conturbados pela força da carne. Aquele que renasce da carne é de carne, nada mais do que carne, mas aquele que vem do espírito é do espírito. Eis que o pó da terra consome o que é da terra, mas aquele que vem de Deus é de Deus.

Levi indagou:

— Pode o senhor, Mestre, explicar o que é da carne e o que é do espírito?

— Sim! Sentai-vos todos!

Todos se sentaram, Maria se acomodando ao lado de Jesus, que disse:

— Somos todos filhos de Deus e Ele nos delineou apenas um propósito: A força de sermos espírito. Porque o espírito é de Deus e a carne é da Terra. Então a carne permanece na Terra e o espírito volta para Deus. Aqueles que são bons de coração, aqueles que amam o próximo estão sempre próximos de Deus.

— Mestre, poderias explicar-nos o que é um homem bom e um homem ruim?

— Todos nós nascemos com um só propósito. Da verdade o homem vem e para a verdade o homem vai. À sinagoga foi levado um homem muito doente, endemoninhado. Ali chegando, os grandes protetores do templo ordenaram: -Dai-lhe um banho; se ele se livrar do demônio poderei ingressar no templo. Banharam-no, a ponto de quase afogá-lo, mas o demônio insistia em não o deixar adentrar o templo. Passava por ali um grupo de homens e um deles viu aquele pai arrastando o filho endemoninhado, e manifestou muita piedade, indagando: —Por que o arrastas? E o pai disse: — Há muito ele está possuído do demônio e nada podemos fazer. Foi levado até o templo, mas ele não pôde entrar, pois somente pode entrar aquele que é limpo de coração, conforme disseram os protetores do templo. Aquele homem fitou, compadecido, aquele que estava caído ao chão. Ele e os demais vinham de longe e nada conheciam de religião. Um deles se agachou, olhou ao alto e disse:

— Deus, Tu és a glória maior de todas as glórias! Deus, tem piedade deste homem caído! Tal homem se ajoelhou e todos os seus companheiros o acompanharam, e aos poucos o demônio se retirava. Ergueram aquele enfermo e indagaram:

—Sentes mais alguma coisa? O jovem se viu livre do demônio e seu pai abraçou aquele que tocara no rosto do seu filho, beijou-o e lhe disse: — Deus há de te dar a recompensa pelo que fizeste ao meu filho! Tu, Levi, pregas na sinagoga, serás um grande homem, e viste então o que é bom e o que é ruim. E lá o bem e o mal dentro daqueles que dizem estar do lado de Deus, e há aqueles que se afirma estarem longe de Deus, mas que são puros de corpo e de alma. Nestes se manifestam as maravilhas do Pai. Pedi ao Pai e Ele vos dará tudo o que requisitam os filhos da 'ferra; basta que estejais limpos de coração. Porque a bondade do Pai tanto se manifesta nos grandes templos quanto nos mais diferentes locais da Terra. O Pai está diante daquele que tem puro o coração, mas se afasta daquele que tem endurecido o coração. Não importa o lugar em que se esteja: a verdade está dentro de cada um. Mas vós viestes até mim e vejo conturbados os vossos pensamentos. Muita coisa ainda vereis neste mundo! Virão muitos falsos profetas e pregarão dentro das sinagogas, mas não terão limpo o coração. Estou aqui perante vós e bem-aventurados sois todos vós que me vedes no corpo da carne - pois seriam muitos os reis e sacerdotes que desejariam estar no vosso lugar e ouvir as minhas palavras. Venho de Deus para que com Ele possa abençoar a cada um de vós, derramando no vosso coração a minha paz - a paz que não se encontra naqueles que se distraem nos prazeres da carne, e sim no poder do espírito que liberta os corações. Por que vos assustais? Esta noite estive entre vós, mas vossos olhos não me viram ou compreenderam.

— Estiveste mesmo com eles? - indagou Maria.

— Sim, estive!

Mas vi que estiveste o tempo todo ao meu lado, dormindo.

— Mãe, o que é da carne é da carne, o que é do espírito é do espírito. Livre o espírito e sopra onde quer. Eles estavam conturbados pelo medo da viagem dos assaltos, e então resolvi visitá-los e fui até eles.

— Ah! Jesus, Jesus! Somente tu, com teu tão grande amor, poderias la' vê-lo!

Levi exclamou:

—Agora estou ciente de que verdadeiramente te posso chamar de Mestre porque sábias são as tuas palavras! Não, ainda não ouvi tão corretas palavras da boca dos sacerdotes. Lá na nossa sinagoga tive a oportunidade de ouvir grandes homens pregando, mas nem eles puderam esclarecer o que é verdadeiramente o homem de bem e o homem do mal, e agora posso entendê-lo, e posso ver-te, Jesus, e sentir-te! Coloco todo o meu trabalho em tuas mãos! Disse-o e se ajoelhou aos pés de Jesus, que o ergueu e disse: —Ainda não é chegado o meu tempo. Dias virão em que me fitarás e te lamentarás, não por mim, e sim por aqueles que não compreendem o que sou.

Algum dia farás das minhas palavras o teu ensino. Crescerás, mas pequenina será perante ti a tua casa. Nesses dias, mesmo estando eu longe deste mundo, permanecerei com todos aqueles que no firmamento o Pai me deu para que eu possa conduzir o trabalho que Ele me confiou às mãos. Eis que de mim falam as escrituras, e tudo o que dizem já está acontecendo. O Filho do Homem já está na Terra para dar testemunho da verdade. Todos virão a mim! Porém, não vim a este mundo para derramar o sangue dos nossos irmãos, e sim para evitar lodo derramamento de sangue, fazendo com que os homens mantenham quietas as suas espadas, para que vejam que o amor vence todas as batalhas. Por enquanto sou o Príncipe deste mundo e para isso mesmo vim a este mundo. Vieste a mim, Levi, e ora me compreendes, mas segue em frente com os vossos seguidores, e um dia hei de estar contigo, e certamente ainda nos veremos!

— Mestre, mandarei embora os meus amigos e ficarei ao teu lado!

— Não temas, Levi! Ainda não é chegada a minha hora e o meu tempo. Quando chegarem o meu tempo e a minha hora, então verás qual é o meu trabalho e o que o meu Pai ordenou que eu fizesse na Terra.

— Mestre, podemos ficar ainda aqui?

— O tempo que quiserdes. Nossa casa é pequena e somos pobres, mas da mesma forma que Deus dá alimento às aves dos céus, da mesma forma que alimenta todos os animais, também a nós não negará o alimento.

— Mestre, trouxemos dinheiro e podemos comprar alimentos, podemos pagar por aquilo que comemos.

— Levi, Levi! Nada compreendeste do que te disse! Não vim a este mundo em busca do ouro do mundo - porque aquele que luta pelo ouro deste mundo morrerá pelo seu próprio ouro e não verá a Deus, enquanto que aquele que ouvir as minhas palavras não acumulará galardões de ouro, e sim fará do seu amor a alavanca até a morada do Pai que está nos Céus. Comei e bebei e nada vos faltará! Permanecei aqui, todos vós, o tempo que quiserdes, sentindo--vos aqui como em vossa própria casa - porque a minha mãe vos dará tudo o que requisitardes.

Pequenina era a casa de Maria e aqueles jovens se espalharam pelo quintal.

Jesus disse a Paulo:

— Preciso ir até Damasco!

— Sim! E quanto a estes jovens?

— Dize-lhes que permanecerão aqui por alguns dias, até que retornes. Jesus e Paulo seguiram, pois, a Damasco.

Orlinda, muito idosa, sentia muitas dores. Desesperados estavam Barnabé, Camarfeu e Joana. Jesus ali chegou, e Barnabé, vendo-o, disse:

— Foi o Senhor dos Céus quem aqui te enviou, Jesus! Minha mulher está à morte! Sente fortes dores e não pode morrer!

Jesus se acercou de Orlinda, tocou no rosto dela e imediatamente cessaram todas as suas dores.

— Graças a Deus - disse Orlinda -, não sinto mais dor! Jesus chamou Barnabé à parte e disse:

— As dores dela cessaram, mas os dias dela já findaram. Esta noite ela deixará o seu corpo e tu, Barnabé, faze tudo o que ela pedir. Ela partirá e nada posso fazer.

Jesus fitou Camarfeu e disse a Joana:

— Mulher, este é o teu lar!

E voltando-se para Paulo, disse:

— Temos que voltar.

— Mas acabamos de chegar, Jesus! Viajamos o dia inteiro e já é noite!

— Paulo, temos que voltar!

Os dois viajaram para a Galiléia naquela mesma noite.

A certa altura, notando o grande cansaço de Paulo, disse Jesus:

Repousemos por aqui. Aqui é muito perigoso! Não! Dormiremos e nada nos acontecerá! Deitaram-se e Jesus adormeceu, enquanto Paulo, temeroso, olhava para os lados, até que afinal foi vencido pelo sono.

Fazendo-se o dia, Paulo acordou, tocou em Jesus e disse:

— Jesus, já amanheceu.

— Tens fome?

— Sim! Comemos tão pouco!

Jesus caminhou até uma figueira carregada de frutos e deles se alimentou, D mesmo fazendo Paulo, que disse:

— Apenas tais frutas matarão a nossa fome?

— Sim, por algum tempo. Mas come o máximo que puderes. Alimentaram-se e caminharam até à noite, apenas alimentados por aqueles figos.

Paulo estava muito cansado e adormeceu. Jesus levou a mão à cabeça dele, refazendo toda a energia daquele corpo exausto.

Amanhecido mais um dia, Paulo acordou revigorado e, vendo Jesus a dormir ainda, acordou-o e disse:

— Jesus, estou tão bem! Não sinto nenhum cansaço. Sonhei que caminhava num deserto. Vi uma pomba branca que chegou até mim voando e pousou na minha cabeça. Não vi mais nada. Ora, senti o meu corpo fortalecido e nem fome tenho!

Jesus nada disse. Caminharam e logo chegaram ao destino. Adentrando a sua casa, Jesus foi abordado por Levi:

— Estamos preocupados! Deixaste-nos aqui e, passando-se já quase cinco dias, temos de retornar.

— Não! Fica aqui mais esta noite e procura descansar. Deves preparar esses jovens, pois serão grandes homens!

Na manhã do outro dia, Paulo e os jovens seguiram para Damasco.

JOÃO BERBEL