XXI - JOÃO BATISTA

XXI - JOÃO BATISTA

Chegando a Damasco, aqueles viajantes tomaram a notícia da morte de Olinda.

Paulo indagou:

— Ora, Jesus não conseguiu curá-la?!

— Sim, ele a curou! - disse Barnabé. — Jesus aliviou todas as dores daquele corpo e nos disse que o dia dela havia chegado.

— Mas ele não poderia ter-lhe acrescentado mais alguns dias de vida? Ele tem poder sobre os Céus e a Terra!

— Eu lhe pedi, mas ele afirmou que chegara mesmo o dia dela, que para a alma dela seria melhor partir, e então aceitei, porque ela estava sofrendo muito e Jesus havia retirado as dores dela.

Revoltado com a morte da mãe, disse Camarfeu:

— Como é que podem acreditar em Jesus?! Se ele tivesse tanto poder assim, teria curado a minha mãe.

— Meu filho - disse Barnabé -, chegará o dia, e não está muito longe, em que também eu morrerei. Ora, deverias crer em Jesus e conduzir para ele também a tua família.

— Vós todos perdestes o juízo! Paulo disse:

— Eu estava lá com os jovens e ouvi de Jesus tantas belas palavras! A gente ouve somente coisas boas dos lábios dele. Ele não ofende ninguém. Não há na Terra outro jovem tão sábio quanto ele. Se é tão novo e já mostra tão grande conhecimento, imagina então quando ficar maduro, o que trará de bom para os homens!

— Tens toda a razão! - concordou Barnabé. — Se olhares para a família de Jose encontrarás o sábio Euri e outros e outros vindos da descendência de Abraão,. de Isaque e Jacó. Assim se vê que Deus fez tudo da melhor forma possível pai a mostrar a verdade aos homens. Durante toda a minha vida fui um homem religioso. Aprendi muito com Zacarias e Isabel. Ora, estão todos interligados e somente de tal família poderia vir o Messias. Vê bem, Paulo! Isabel era uma mulher bondosa, e deu à luz a João, que é um grande profeta surgido no lar de Zacarias que, a exemplo de Jesus, também foi anunciado por um anjo.

— Como se deu isso?! - Ora, João carrega consigo uma força muito grande e suas palavras também são muito fortes. Diferentemente de Jesus, ele fala com mais energia. João é pouco mais velho do que Jesus, já deve estar grande. Se puderes, vai conhecê-lo. Eu já estou velho e não posso viajar. Tenho muita saudade do meu filho que está em Roma e há muito não nos visita. A mãe dele morreu sem poder vê-lo. Mas tu podes viajar, e, indo por aquelas paragens, vai até Zacarias.

Ele é igual a Lorens: mora no seu próprio templo. Vai e terás a oportunidade de conhecer um grande amigo. Sentir-te-ás muito bem ao lado de Zacarias e Isabel. São irmãos de muita ternura, de muito carinho. Também são escolhidos por Deus para estarem na Terra. Vai, Paulo!

— Todos os meus afazeres estão aos cuidados dos meus filhos. Estou cansado e pretendo descansar um pouco. Fui duas vezes à Galiléia, tão rapidamente, e já não sou assim tão jovem, mas te prometo que, viajando por lá, procurarei saber de Zacarias.

Dias passados, eis Camarfeu e Paulo presentes à sinagoga. Paulo conversou com Lorens e este lhe disse:

— Meu filho está encantado com esse tal de Jesus. Disse que chamou Jesus de Mestre e que ele retribuiu chamando-o também dc Mestre, o que ele jamais fizera com ninguém. Levi me relatou histórias contadas por Jesus afirmando que nós, pastores, devemos ter cuidado com o nosso trabalho e as pessoas, para que a sinagoga seja realmente a intermediária de Deus. Falou de um endemoninhado que não se curou no tanque de um templo e, tendo seu pai clamado por misericórdia para que entrasse no templo com o filho, foram impedidos pelos protetores do templo. Por ali passou um povo de terra estranha e sem religião, mas que levava a fé e a pureza do coração. Um deles tocou naquele endemoninhado, em nome de Deus, e o demônio foi afastado daquela criatura. Então Jesus afirmou que os bons eram aqueles que fizeram a vontade do Pai fora dos templos, e não aqueles que estavam nos templos. Disse que Deus não escolhe lugar para manifestar as Suas obras, que o faz onde quer que encontre um coração a Ele voltado. Ora, pensando bem, há muita razão aí! Tenho andado muito e visto muitas coisas. Várias vezes fui a Jerusalém e pude ver muita e muita coisa. Lá estão religiosos de muito conhecimento e aqui estamos bem longe de tal sabedoria. Abrimos a nossa casa para que possamos ler as Escrituras e aqui a estudamos. Ora, esse Jesus fala de um Deus universal, e não do Deus dos judeus ou do Deus de outros povos. Afirma que o Pai é somente um. Ora, se verificarmos as Escrituras, veremos todos os profetas insistindo nessa mesma mensagem. Se atentarmos bem, veremos que Jesus é um profeta que está na Terra. Paulo disse:

— Estive conversando com Barnabé e ele muito falou de Zacarias. Conheces esse pregador?

— Sim, e muito o admiro pelo seu trabalho diante da nossa religião e o nosso povo.

— Sabes de Isabel e seu filho João?

— Sei!

— Dizem que Isabel, sendo idosa e estéril, deu à luz o menino João.

— Sim, bem o sei, mas nada mais sei de João.

— Pretendo visitar Zacarias para que possa aprender algo mais sobre João.

Disse Lorens ao filho:

— Viste, Levi? Não temos um só novo profeta: são dois! E realmente estamos muito precisados da ajuda de Deus para que sejamos um povo feliz, sem a pressão daqueles que às vezes não têm jeito para virem às nossas sinagogas.

Disse Levi:

— Paulo, estarás descansando, mas vamos preparar-nos para logo irmos conhecer João?

— Sim! Dizem que Zacarias reside numa região diferente lá na Galiléia, um tanto mais distante dos caminhos levando a Jesus. Porém, qual é a diferença? Informar-nos-emos e iremos até Zacarias.

Os dois então prepararam a sua viagem.

Muita gente gostava de frequentar a casa de Camarfeu. Joana adorava as crianças, adorava todas as pessoas que a procuravam para que falasse de Jesus, e isto muito desacomodava Camarfeu, porque era um homem rico e respeitado, nada gostando que Joana ficasse ajudando as crianças e gestantes. A exemplo dele Maria, Joana estava sempre pronta a ajudar com carinho todos os que estavam à sua volta.

Levi procurou Joana e lhe indagou sobre Zacarias, Isabel e João.

— Ora, se não sabes - disse-lhe Joana -, Zacarias e Isabel também são parentes de Maria.

— E Jesus e Maria sabem de João?

— Sabem!

— E o que Jesus disse de João?

— Afirmou que João será o seu Precursor, que ele veio para limpar o Caminho para a passagem do Filho do Homem, retirar todos os espinhos, preparar os homens para a Boa-Nova.

— Mas Jesus disse isto?!

— Sim, e também que todos verão e respeitarão João, porque ele é o último do Reino dos Céus e os Céus choram pela descida dele à Terra.

— Que estranhas palavras, Joana! Nos Céus há primeiros e últimos?!

— Não sei, meu filho, não sei. São palavras de Jesus.

— Então pretendo conhecer João e os pais dele!

Paulo e Levi se prepararam e rumaram à casa de Zacarias, lá chegando após dois dias e noites de viagem.

Adentraram a casa repleta de gente, vendo Zacarias pregando àquela gente sobre a fé em Deus marcando o povo judeu, pedindo confiança a todos, porquanto Deus já havia mandado à Terra o Emissário que logo se manifestaria à humanidade.

Um dos fiéis de Zacarias indagou:

— Trata-se de João o Emissário de Deus? O próprio João se ergueu e disse:

— Não sou eu! Não, não sou aquele que pensais que sou! Eu vim neste mundo para alertar que o Reino dos Céus está próximo. Eu pregarei no deserto, dormirei nas areias do deserto, e não assim o Messias: ele pregará nas sinagogas, nos grandes templos. Até mesmo as grandes autoridades dobrarão joelhos à frente dele. Eu me preparo para vos batizar com a água e ele vos batizará com o fogo do Espírito Santo! Eu não sou quem julgais! A minha jornada começa neste momento e não pregarei nos templos: gritarei para as areias do deserto que o fim está próximo e que é chegado o momento de o homem receber o Filho de Deus. Ele fará com que toda a Terra trema sob os vossos pés. Implorareis por misericórdia e as mãos dele se erguerão mostrando o fogo que vem dos Céus, e todos o verão e conhecerão, porque a sua voz não será ouvida apenas entre os judeus: ela ecoará por todo este mundo, e não ficará um só canto que não venha a ouvi-la. Ouvireis, porque a força do seu espírito proferirá tão fortes palavras que elas assolarão sobre todos os ouvidos da humanidade. Todos lhe obedecerão, porque ele é o Príncipe deste mundo. Quanto a mim, não sirvo nem mesmo para atar as suas sandálias.

Cabelos encaracolados e barba cerrada, João saiu dali gesticulando e reafirmando que as pessoas presentes de nada sabiam. Deixou a sinagoga e foi até uma praça próxima, seguido por todos, indagado sempre sobre o Messias, quem era, como era.

— Não sei! - vociferou João. — Mas se quereis a verdade, não sou eu! E o meu trabalho começa agora! Libertai-vos todos vós que trazeis no coração o adultério! Nenhum de vós pode ter outra mulher senão a única que desposou, e mulher alguma pode ter outro homem que não seja o seu próprio marido, porque todo aquele que adulterar queimará eternamente no fogo do Inferno, e aquele que se arrepender receberá o Céu, na glória do Pai. Arrependei-vos, porque eu vos batizarei com a água limpa!

Uma multidão o ouvia e, no meio dela, via-se um que de todos se diferenciava. Encostado um pouco mais longe, via e ouvia tudo aquilo. Logo que tudo se acalmou, aquele homem se aproximou de João, que o fitou e reconheceu, dizendo:

— Tu me guiarás pelo deserto! É contigo que irei! Disse aquele homem:

— Mas já fizemos isto uma vez, João!

— Ainda preciso de ti! Irei contigo e lá me deixarás! Aquele homem, chamado Darúbio, indagou:

— E o que levarás para alimento?

— Faremos como da outra vez: servir-nos-emos de mel, gafanhoto e algo mais que encontrarmos pela frente.

— Há muitos animais no deserto.

— Nenhuma vida deve ser abatida para sustento de outra vida! Todo aquele que quiser ser puro de coração deve respeitar a vida e não sacrificá-la.

— Mas, João - insistiu Darúbio -, é necessário que os homens da Terra se alimentem.

— É necessário que haja na Terra o pecado? Homens e mulheres pecam, cometem adultério. E como são vistos pelos olhos de Deus aqueles que contrariam todas as leis? Leste o que esta gravado nas escriluras? Entendeste o que foi deixado para que ensinemos? Não matareis! - eis o que diz a sagrada lei. Darúbio, prepara-te!

—Eu?!

— Sim, estarás bem perto de mim. Um dia darás para toda a Terra o testemunho daquilo que viste e verás em mim - porque não foi apenas a carne que te trouxe aqui, mas também a tua alma e o teu espírito!

Paulo e Levi tudo presenciavam e ouviam. Levi se acercou de João e disse:

— Perdão, Mestre!

— Eu não sou Mestre!

— Peço-te perdão por estar aqui. Vim porque muito ouvi falar de ti, de Zacarias e de Isabel. Perdoa a minha ignorância, mas quero perguntar-te: tu és o que veio dos Céus ou deveremos esperar mais? João vociferou:

— E' o que muitos me perguntam! Não, eu não sou o Messias! Já vos disse: não sirvo nem mesmo para atar as sandálias dele.

Era do desejo do jovem Levi indagar ainda se Jesus era o aguardado Messias, mas o tom da voz de João era tão forte que algo embargou a sua garganta. Ele e Paulo se afastaram dali e retornaram à sinagoga, à procura de Zacarias e Isabel.

Paulo disse a Zacarias:

— Estive com Barnabé em Damasco, ele que diz ter tido a honra de ter estado ao teu lado.

— Barnabé é um bom homem - disse Zacarias. — É aquele homem que tem o coração voltado a Deus e tem apenas bons pensamentos. Sei de Benedites e de Camarfeu. Benedites se tornou um homem muito importante. Tive a oportunidade de ouvi-lo aqui mesmo, dentro desta casa, ele insistindo na importância de convivermos bem com os romanos. Garanto-vos que éramos muito revoltados com o povo de Roma, mas Benedites nos mostrou que se nos revoltássemos haveria muito e inútil derramamento de sangue, e que se todos agíssemos corretamente pagaríamos tributo bem menor a Roma e, atendendo assim mesmo a César, receberíamos dele a proteção. Garanto-vos que a fala dele foi de muito bom agrado. Ele veio, explicou e todos entenderam. É um homem iluminado por Deus, desses que poucos há na Terra. Porém, não se tem mais notícia dele.

— Ele permanece em Roma e disse a Barnabé que por lá ficaria um largo tempo, não mais visitando Israel. Barnabé está muito triste e saudoso dele, sempre aguardando notícias que não chegam. Em Damasco tudo funciona perfeitamente quanto aos assuntos dos romanos, que por lá quase não aparecem, a não ser para buscarem os tributos pagos a César. Tudo segue às maravilhas. O povo de lá não é tão dedicado à religião quanto o daqui. Aqui vejo a sinagoga abarrotada, enquanto que por lá a frequência é bem pequena. Contudo, lá todos têm uma vida melhor.

— Sabemos que o povo de Damasco vive mesmo bem melhor do que o nosso povo daqui.

— Tive a oportunidade de ver João. Ele é muito nervoso e bravio.

— Ora, é tudo o grande desejo de ver a Terra modificada. Quando pequeno, João já se expressava da mesma e eloquente forma. Ele traz no coração uma fé que não se vê em outra criatura. Em criança já manifestava tão grande fé! Nem imaginas a fé do coração dele! A pregação dele é diferente, e se me perguntares se ele é um profeta, direi que sim - e o direi não por ser o pai dele, mas porque realmente o vejo na condição de um dos melhores que pisaram na Terra. Quando fala de Deus, a sua voz, os seus olhos, o seu corpo, tudo muda nele, e ele não teme ninguém. Diz que é chegado o seu momento, que pregará pelo deserto, e eu nada posso fazer para impedi-lo. Sim, pedirei que não vá, mas ele não irá ouvir-me.

JOÃO BERBEL