XXII - REVELAÇÕES NO DESERTO

XXII - REVELAÇÕES NO DESERTO

João Batista procurou cumprir o seu alto desejo de se isolar no deserto e lá receber as bênçãos da Espiritualidade, as diretrizes do trabalho que haveria de cumprir na Terra perante milhares de criaturas. Bem sabia que era o Precursor do Messias, aquele que haveria de abrir caminho à passagem gloriosa de Jesus.

Assim, o jovem João aos poucos se distanciava das regiões populosas da Galiléia, adentrava sítios desérticos raramente procurados pelos homens.

Na sua solidão, longe da agitação dos homens, procurava então entrar em contato com os planos superiores.

Lá, num local inóspito, ele ergueu uma cabana para se proteger do Sol inclemente, para isto se valendo do material rústico disponível naquela região.

Alojado na sua tenda, permaneceu em contínua oração por vários dias.

No primeiro dia nada de diferente ocorreu, apesar de orar intensamente, buscando respostas.

No segundo dia também nada de anormal aconteceu.

Porém, João era um jovem insistente e, ademais, conservava e valorizava ali o conhecimento de que o grande líder Moisés também se isolara no deserto e lá dialogara com Deus.

Tal era também a sua aspiração maior naquele voluntário isolamento.

No terceiro dia, eis uma lufada de vento e uma forte voz que dizia:

— És aquele que há de preparar o advento daquele que virá! Ora, por que não abandonas tudo? Posso dar-te ouro e dinheiro!

João percebeu tratar-se de um espírito trevoso e reagiu prontamente:

— Afasta-te às entranhas do Inferno, ó Senhor do Mal! O meu coração está inclinado a servir a um só Senhor e não a ti ofertarei o meu trabalho! Afasta-te de mim, porque o meu Deus é o Único e Ele me sustentará!

A voz fortíssima de João fazia vibrar as próprias pedras e plantas dali, sob grande intensidade.

De repente um vendaval se formou, movimentando poeira por toda parte, e então João viu aquele espírito envergando roupagem estranha, totalmente desconhecida dele. E o espírito trevoso insistiu:

— Comigo está a fartura da Terra! Comigo está a prosperidade! Comigo está tudo aquilo que quiseres! Aquele a quem pretendes servir nada será, a não ser um qualquer que será estrangulado, humilhado pelo seu próprio povo, e força alguma terá sobre mim.

E João disse:

— Afasta-te, Senhor do Mal e da Escuridão! Vai ter às profundezas do teu Inferno!

Erguendo-se de inopino, João direcionou os braços ao céu e invocou:

— Ó Deus de Abraão! Ó Deus de Isaque! Ó Deus de Jacó! Ó Deus de Moisés! O Deus de Elias e também Deus meu! Confina este espírito às profundezas do Inferno!

Um forte redemoinho rodeava e rodeava João. Uma garganta ectoplásmica gargalhava febricamente. As areias se agitavam e agitavam, até que tudo cessou.

João retornou à sua tenda, cravou joelhos ao chão e disse:

— Mal algum da Terra haverá de conturbar o meu trabalho, porque em minhas mãos edificaste a Tua vontade! Terei de glorificar-Te perante todos os homens da Terra, até a chegada do Messias!

Foi então que, alcançando-o sob forte oração, ali surgiram Rafael, Gabriel, Ismael e Miguel, os quatro anjos do Senhor, e se apresentaram a João. Este, confuso, começou a esfregar o olho perante aquela visão, e apresentando-se-lhe todos, Ismael lhe disse:

— O teu trabalho na Terra é batizar as criaturas em nome de Deus. Deves valer-te das puras águas para lavar os pecados dos nossos irmãos terrenos. Grita à frente deles a necessidade do arrependimento! Dize-lhes que Deus é único e faze da tua fé a tua força! Não te rendas ao mal: preserva-te no bem e a nossa glória estará contigo!

— Aquele que deve vir após mim já está na Terra ou ainda virá?

— Eis que as cornetas dos anjos já soaram nos céus e a grande corte celestial te enviou à Terra, João, para que prepares a chegada do novo Rei, para que ele renda louvores à modificação da Terra! Eis que ele ja vive aí, no seio da simplicidade, na própria simplicidade em que reinará!

— Mas como haverei de reconhecer esse que virá?

— Vê-lo-ás erguendo os coxos, devolvendo a visão aos cegos, expulsando os demônios. Assim e' que veras na Terra aquele que tem a força que nenhuma outra se lhe iguala. Ele, na sua simplicidade, inaugurará um novo tempo. A humanidade. Muitos se ajoelharão aos pés dele e muitos até crerão que ele é o próprio e eterno Deus, em face da sua bondade e do seu amor. A sinceridade transparecerá dos olhos dele. Quando ele chegar até ti verás a mim repousando sobre os ombros dele.

— E quem és tu?

— Sou Ismael. A mim foi passada a responsabilidade de resguardar a vinda desse novo Rei que desce à Terra e cujas palavras transporão todas as barreiras e atingirão todas as nações, tal uma nova diretriz à humanidade.

Os quatro anjos se foram e João, sob aquele embate de forças, caiu ao chão e adormeceu, assim permanecendo toda aquela tarde e noite. Ao acordar no outro dia, eis uma grande confusão se manifestando em sua cabeça. Acreditou ter sonhado com quatro anjos mandados por Deus para que o esclarecessem sobre a sua missão. Relembrava também os momentos em que via aquele espírito trevoso que se autodenominava Deus do Mal e se responsabilizava pelos fatores da perdição dos homens em toda a Terra.

Permanecendo ali a meditar, João se via compungido a crer que tudo aquilo fora um sonho, mas ao mesmo tempo se dava conta de que estivera plenamente acordado quando daquelas visões. Grande conturbação se fazia em sua mente, pouco ele entendendo efetivamente da situação.

Sob tal confusão mental, João fechou os olhos e se concentrou. Subitamente viu formar-se à sua frente um túnel no qual adentrava um homem de longos cabelos e barbas, com roupagem branca e vermelha.

Aquele homem se acercou de João, que tentava visualizá-lo, mas quase sem o conseguir, tal era o ardume dos seus olhos à frente daquela luz.

Como se estivesse tomado de uma enfermidade repentina, ele esfregava os olhos enquanto ouvia:

— João, em ti edificarei o meu Evangelho! João, foste o escolhido para que a Terra receba a Nova Era!

— Mas, Senhor, quem és tu?!

— Por todo tempo estive bem perto de ti, João, e continuarei contigo em todos os momentos. Não andarás sozinho! Foste o escolhido para que abras o meu caminho.

— Es o Rei que aguardamos ou deveremos esperar outro?

— Para dar testemunho à verdade, para lavar os pecados da Terra dedicarei o meu amor a toda a humanidade.

Tu foste escolhido nos Céus para que viesses à Terra e limpasses o meu caminho para que eu possa testificar sobre a Nova Era e o novo ensino.

— Mas, Senhor, como devo servir-te?

—Vai, João, e anuncia a toda a humanidade que o Príncipe deste mundo já nele está, e anuncia que este Príncipe irá curar os doentes, dar visão aos cegos e erguer os paralíticos.

Dize ao povo que tudo isto farei em nome do nosso Pai que está nos Céus. Vai e prega, João, com toda a força do teu coração!

Ajoelhado diante de Jesus, João indagava:

— Sei que muito longe de ti estou, que nem para atar as tuas sandálias sirvo eu, mas dize-me: quem és?

— Sou aquele que edificará na Terra perante os homens! Sou aquele que jamais te abandonou! Vai, João, e prepara as criaturas para que se arrependam e assim ingressem no Reino dos Céus!

Junto de Jesus estava Ismael. João pediu:

— Senhor, senta-te na minha tenda e ora comigo!

— João, escasso é o nosso tempo. Temos de trabalhar!

João sentiu um forte fluxo energético e, vendo que Jesus partia, pediu:

— Senhor, permanece ao meu lado! Caminharemos juntos!

— Não é este, que propões, o nosso trabalho na Terra, João. A ti foi dado na Terra todo o poder para que fales de Deus e para que por toda parte seja ouvida a tua voz.

Todos te ouvirão dizer que é chegada a hora do grande Príncipe, que eleja se faz presente entre os homens.

João levou as mãos ao rosto, ao tempo em que aquele túnel e aquela luz se extinguiram.

Exausto, deitou-se, para acordar somente no outro dia, quando então se pôs a rememorar tudo o que lhe acontecera naquelas visões.

Eis que, ajoelhado e orando, João viu um grande profeta conduzindo à mão um grande cajado.

O profeta fixava e louvava aos Céus. Envolvia-se numa pele de camelo cingida por largo cinto.

João, vendo aquilo, entendeu que sob aquela aparência é que deveria manifestar-se entre os homens.

JOÃO BERBEL