XXIII - A MISSÃO E OS DISCÍPULOS
DO BATISTA

XXIII - A MISSÃO E OS DISCÍPULOS DO BATISTA

Passado pouco tempo, eis João retomando à civilização. Passou numa casa de comércio com muitas peles de animais e ali chamou:

— Jandira, és a mulher de Tomé e és uma mulher honesta, mas o teu marido não tem sido muito honesto contigo.

No mesmo momento chegou ali Tomé e ouviu de João:

— Tomé, irmão de Jacó e filho de Jobe, estás escandalizado em Deus. Não ouviste a palavra de Deus? Mas hoje recebes a salvação!

Tomé, confuso, ficou estático à frente de João, que ergueu as mãos ao alto e disse:

— Arrepende-te e terás no Céu a recompensa! Arrepende-te!

Tomé se ajoelhou à frente de João. Este pediu a Jandira que lhe levasse uma vasilha com água. Assim que a teve às mãos, João a despejou sobre a cabeça de Tomé e disse:

— Com esta água eu te batizo, em nome de Deus! Arrepende-te e não peques mais!

Tomé estava admirado. João fitou aquelas peles e manifestou o desejo de adquirir uma delas. Disse que não tinha como pagar, mas Tomé lhe disse que já estava pago pela bênção que dele acabara de receber.

Sendo um bom artesão, Tomé preparou uma veste do gosto de João, que a vestiu. Tomé lhe deu também um cajado. Assim paramentado, João retornou ao deserto e, erguendo lá a sua tenda, pôs-se a orar em gratidão a Deus.

A aparência de João, com aquelas vestes, os cabelos encaracolados e a barba iriçada, lembrava bastante a figura do grande profeta Elias.

Lá estava João em sua tenda, coberta com as peles de camelo que Tomé lhe dera, e de repente chegou ali um forasteiro, fitou aquelas peles e disse:

— Levarei comigo todos os teus pertences!

João interrompeu a oração, fixou aquele homem e disse:

— Jesué, por que procuras aventuras? Por que deixaste a tua família, a mulher e os filhos?

Aquele homem, espantado com aquelas palavras e com o fato de João saber seu nome e sobre sua vida, soltou a faca que tinha à mão e ficou estático à frente de João, que continuou:

— Arrepende-te!

Naquele momento Jesué se arrependeu de todos os seus atos e se tornou discípulo de João, que imediatamente seguiu às margens do Jordão, tendo aquele homem a acompanhá-lo.

No caminho, perpassando por vilarejos, João ia contatando as pessoas e encontrou uma mulher a quem disse:

— Filha do adultério, arrepende-te!

João mencionou o nome dela e do marido, o que era algo admirável, pois João era um desconhecido àquela gente que também ignorava o comportamento daquela mulher.

Todos se maravilharam com os dons de João, que começou a pregar àquele povo a libertação através do batismo, a força do arrependimento. E dizia ele:

— O reino dos Céus está próximo e nele pode penetrar apenas aquele que estiver limpo de coração, aquele que não praticar o adultério!

— E quanto àquele que adulterou, enfrentará o fogo do Inferno? - indagou um daqueles homens.

— Se não vos arrependerdes, com toda a força da alma, dos vossos pecados, estareis confinados às profundezas do Inferno, porque o Céu foi feito para aqueles que são limpos de coração e estão livres do pecado.

— E quanto aos pecadores, o que devem fazer, João, para que possam ingressar no Céu?

—Arrependei-vos, de corpo e alma, e Deus vos dará uma nova chance. Porém, a partir daí não mais podereis pecar, pois então não mais sereis perdoados pelo Eterno.

Deveis revestir de sinceridade o vosso coração e honrar vosso pai e vossa mãe, e honrar a vossa esposa ou marido.

Assim é que honrareis a Deus por sobre todas as coisas, não pecando nem adulterando, porquanto os pecadores serão castigados e não lhes restará outro alvitre senão ingressarem nas profundezas, nas lavas quentes dos Infernos.

Há dias João se alimentava apenas de brotos de plantas que encontrava pelo caminho. De forma alguma se alimentava de carne e se valia bastante do mel, de raízes, de folhas de várias plantas. Além de ser um evoluidíssimo espírito e escolher o seu alimento, ainda tinha o dom de ver projetado à sua frente o que era comestível ou não comestível, o que lhe garantia o sustento físico. Através de sua sensibilidade administrava as suas situações alimentícias em torno das ervas do caminho.

Naquele momento lhe ofertaram pão. Ele disse que estaria pregando às margens do Jordão, mas que antes necessitava fazer algo.

Dali uma multidão de pessoas já passou a acompanhar João na sua caminhada até a casa do seu pai.

Vendo-o junto àquela gente, disse-lhe Zacarias:

— João, esta é a Casa de Deus e ela comporta todo este povo a te seguir. —Não! Não vim para pregar nos templos e sinagogas. Vim para pregar no deserto, e o deserto ouvirá a minha voz! Virá um após mim que pregará nos grandes templos e sinagogas, e todos ouvirão a sua voz. O Messias já está na Terra.

Quanto a mim, aqui estou apenas para limpar o caminho à passagem dele.

— Mas, João, meu filho, há tantas criaturas daqui que te amam com tanta força do coração! Deus não nos enviará outro maior do que tu.

—Não! Não! Eu não sou o Messias! Não sirvo para atar as sandálias dele! Eu não sou o Messias! Ó Jerusalém! Ó mundo! Eu não sou o Messias!

Vim para limpar o caminho para que o Messias possa passar. Vim antes para que ele viesse depois.

Porém, ele ja está na Terra, e todos o verão, todos se encantarão com ele. Eu trago comigo o trovão na força das minhas palavras, mas o Messias trará a suavidade e beleza dos anjos! Eu batizarei com as águas e ele batizará com o fogo do Espírito Santo! Rei algum o intimidará, porque não lhe será páreo. Ele será maior do que todos - porque eu o vi e sei quem é, porque o Todo-Poderoso enviou os anjos que estão à volta dele, e mal algum será lançado sobre ele. Sobre todos eles triunfará, sobre o poder de Roma e dos sacerdotes, porque ele é o filho do Altíssimo, e é puro, da mesma forma que os anjos que desceram com ele. Eu vos batizarei em nome do Espírito Santo!

— Tu batizarás, João?!

— Sim! Batizarei fazendo com que os nossos irmãos se arrependam dos pecados. Foi para isto que vim a este mundo!

João vociferava à frente da multidão e os seus berros mais e mais gente atraíam, aumentando a fileira dos seus seguidores. Dirigiu-se ao rio Jordão e lá recebia criaturas e criaturas em busca de uma mensagem, de um lenitivo, de um esclarecimento, de uma bênção.

Aquela voz vibrante dominava o meio simples de João, a voz obrigando todos ao arrependimento. E, no passar do tempo, multidões e multidões buscavam nele a certeza de um trabalho plenamente agradável aos olhos de Deus.

No contato com as pessoas, João Batista fazia valer o seu dom de clarividência. Auscultava os corações e enxergava os atos pretéritos das criaturas. Pedia sempre que se arrependessem, que mudassem de comportamento, para que somente assim pudessem obter um mundo melhor. Pregava que o Céu não era lugar para pecadores, principalmente adúlteros.

Em certo momento apareceu ali um grupo de jovens que às vezes deixavam a Galiléia e iam a outras localidades em busca dos prazeres da carne.

João, percebendo a chegada dos jovens, afastou-se com o seu cajado e, vendo que aquele pessoal fazia menção de segui-lo, berrou:

— Não vos aproximeis! Permanecei aí!

Disse-o e seguiu, batendo na água o cajado e pronunciando ainda palavras de ordem. Chegou numa parte arenosa do rio e ali se sentou, passando a desenhar na areia a figura de Jesus, sem dar atenção ao grupo de jovens que se lhe acercava.

Aqueles jovens julgaram que João não os via e fizeram movimentos bruscos para que ele os percebesse ali, mas João continuou na mesma atitude.

Um daqueles jovens pensou: Vamos ver se esse João sabe quem eu sou. João se ergueu, fixou aquele jovem e disse com firmeza:

— Por que ousas desafiar o meu poder, ó filho do pecado, ó filho da ilusão?! Irmão, irmão, a tua alma está condenada para toda a eternidade!

Aquele jovem imediatamente se jogou de joelhos à frente de João, que o fitou com severidade e depois disse aos demais:

— Sois felizes deixando a vossa esposa e indo ao encontro de prazeres?! Sois tão culpados quanto Simão! Apodrecereis nas entranhas dos Infernos e não tereis felicidade alguma! Que o Pai possa retirar de todos vós todos os prazeres da Terra, para que assim alcanceis o dia em que, a exemplo deste, também vos ajoelheis aos meus pés, clamando por perdão!

Aqueles jovens se afastaram gargalhando, em franca zombaria. João ergueu aquele jovem ajoelhado, levou-o às águas e disse:

— Simão! Não peques nunca mais! Vai à tua casa, onde tua esposa e teus filhos te esperam. Trabalha, sê um homem honrado e Deus te honrará - porque aquele Senhor que virá após mim reconhecerá todos aqueles que desconhecem as leis de Deus!

Os jovens pegaram o seu companheiro e com ele seguiram. No caminho, disse-lhes Simão:

— Fui batizado por João! Não mais trairei a minha esposa! Trabalharei, pelo resto da minha vida, tal um homem honesto e honrado!

— Mas, Simão - disse um deles -, estás enganado! Aquele João nada sabe. Alguém na multidão deve ter-lhe dito o teu nome e quem és. Ele olhou somente para ti e, no entanto, qual é santo dentre nós todos? Não somos santos!

— Mas o que foi que João vos disse?

—Afirmou que não teremos mais prazer algum. Ora, ele está completamente enganado! Teremos tanto prazer quanto outros quaisquer. Cada qual se dirigiu ao seu respectivo lar.

Simão abraçou a sua esposa Isabel, abraçou os filhos e chorou, chorou, chorou, dizendo:

— Deus me concedeu a salvação! Fui um homem tomado dos erros da Terra e doravante jamais errarei! Quero apenas trabalhar para ser um bom pai, um bom marido, para que um dia os meus filhos tenham orgulho de mim. Quero passar-lhes o que aprendi: a sinceridade, o amor, a fidelidade.

O tempo correu com normalidade naquela pacata vila. Passada uma semana, dois daqueles jovens procuraram Simão e um deles lhe disse:

—Acontece algo errado comigo! Não consigo relacionar-me com a minha mulher! Nada em mim funciona e, quando penso em tal ato, um grande nojo me assalta! Não sei o que é isto!

O outro jovem disse a mesma coisa.

Realmente acontecera o que João lhes vaticinara: não mais teriam o prazer da carne. E dizia um deles:

— Deve ser uma praga, uma maldição que João lançou sobre nós! E quanto a ti, Simão, como procedes com tua mulher?

— Comigo está tudo bem! Relaciono-me muito bem com a minha mulher. Não mais quero aquela vida de prazeres e, por favor, não mais me procureis! Sigai a vossa vida e eu seguirei a minha! Quero trabalhar o máximo que puder e propiciar à minha família uma nova vida. Se quereis saber, João estava absolutamente certo. Eu chegava em casa, encontrava Isabel triste e ela nunca reclamava, mas eu notava nos olhos dela a amargura. Ela sempre foi uma boa mãe para os meus filhos e uma boa esposa para mim, mas, na minha ignorância, eu voltava os meus olhos aos prazeres do mundo. Hoje estou mudado! Não mais me procureis! Ide!

Passados alguns dias, aqueles jovens retornaram sob as mesmas frustrações e lamentações.

— Ide até João - recomendou-lhes Simão. — Somente ele pode ajudar-vos.

E assim foi que cinco deles, Tiago, Arie, Pedro, José e Mateus, buscaram João. Estavam arrependidos com toda a força da alma e do coração.

Era tarde avançada. O povo já se recolhera ao lar e João estava só, à margem do Jordão.

O Batista havia ordenado a todos os seus seguidores que fossem ter às suas casas. Já havia comido o resto de pão que lhe haviam deixado.

Eis que aqueles cinco jovens ali chegaram e se ajoelharam aos pés do Batista, que os batizou, dizendo:

—Vossa vida é a vossa família, é a vossa fidelidade à esposa. Aquele que é fiel à mulher e aos familiares recebe a proteção de Deus. Porque a família é a coisa mais sagrada que existe no mundo. Deus, ao passar a Moisés os Dez Mandamentos, ordenou que devemos honrar pai e mãe, e também que não cometamos adultério. Então, todo homem que lança olhos de cobiça a outras mulheres é também um pecador, porque não tem Deus no coração!

De repente chegou até João outro grupo com os restantes cinco jovens amigos, que dele ouviram:

— Estais com o coração purificado para receberdes o batismo?

— Sim, estamos com o coração puro!

— Vem cá, André! - disse João. —Ajoelha-te e fita o céu, e não a mim! Promete, com os demais, fidelidade a Deus, porque todos vós desafiastes Deus e, em consequência, foi-vos retirado o prazer. Porém, se mais uma vez o fizerdes, coisas ainda mais preciosas vos serão retiradas!

— Perdoa, João! - disse André. — O meu coração ainda não está suficientemente limpo para receber o batismo! Perdoa-me! Duvidei muito de ti!

— Vai! Quando estiveres com o coração pronto para receber a Deus na condição de teu salvador e guia, retorna a mim e te libertarei das tentações do mundo e da carne!

Todos os jovens se ergueram e se foram.

André, chegando em casa, disse à esposa e aos filhos o que lhe havia acontecido, e quanto aos demais, ligaram-se a Simão e juntos integraram um discipulado de seis homens fiéis a João Batista, indo todos os dias até ele e participando de suas pregações.

Os quatrojovens restantes procuraram André e lhe indagaram:

— Como estás agora?

— Tudo voltou ao normal em meu relacionamento - disse ele. Um dia disse João a André, este ajoelhado a seus pés:

— André, recebe o nosso Deus Todo-Poderoso na condição de nosso legítimo salvador, e recebe o Messias, porque eu te batizo com água e ele te batizará com o fogo do Espírito Santo! Ergue-te!

Restaram os quatro jovens renitentes. Porém, passado algum tempo, premidos pela insatisfação e o arrependimento, procuraram André e Simão, que os levaram até João.

Era tarde avançada, poucas pessoas restando ao lado de João, que se preparava para passar a noite acendendo a sua fogueira. O Batista colocou de pé o cajado, olhou para os quatro jovens ali aportados e lhes disse:

— Em que acreditais? Acreditais que Deus é o vosso salvador? Acreditais no que vedes? Acreditais nestas águas porque estais a vê-las rolando sobre as pedras, acreditais nas montanhas porque vedes as montanhas, acreditais nas árvores porque vedes as árvores, acreditais nas pedras porque vedes as pedras, acreditais em mim porque eu, através daquele que vai mudar a Terra, pude extrair de vós algo de precioso. Muitos vêm aqui não em busca de algo, mas apenas com o peso do remorso no coração, por terem cometido adultério, e eles se arrependem e, aos olhos de Deus, se tornam limpos. E então , filhos do pecado, como poderia eu limpar-vos do pecado não encontrando misericórdia em vosso coração, para que, por vós mesmos, vos arrependêsseis?! Mas hoje vejo o brilho diferente dos vossos olhos. Então louvai a Deus, porque cada um de vós teve a oportunidade de se libertar do pecado, mas desejou permanecer no pecado. Então agora vos devolvo a normalidade! Ajoelhai-vos em respeito ao Eterno e Todo-Poderoso!

João os banhou, dizendo:

— E com estas águas que vos devolvo a normalidade do prazer, mas dizei, pelos caminhos que trilhardes, que Deus existe e que até então os vossos olhos não haviam podido compreendê-Lo!

Os jovens permaneceram de cabeça baixa, João cessando a sua pregação elhes ordenando:

— Ide!

Os quatro, todavia, permaneceram ajoelhados e um deles disse:

— João, não mais queremos andar pelos caminhos do pecado!

— Então ide e, quando realmente aceitardes Deus na condição de vosso legítimo salvador, retornai!

Os quatro se redimiram. Retornando ao lar, constataram que tudo voltara ao normal em seu íntimo relacionamento conjugal e então se arrependeram de todo o coração.

Felizes, foram ter com João, agora levando consigo os familiares para que os batizasse.

João a todos atendeu, sempre anunciando a sobrevinda do legítimo Salvador.

JOÃO BERBEL