XXIV - LEVI E MARIA

XXIV - LEVI E MARIA

Levi bem se inteirara das ocorrências em torno de João Batista e já presenciara sua ação na sinagoga de Zacarias.

Desejava saber se era realmente um grande profeta ou mesmo o Messias. Porém, ouvira do próprio João que ele viera apenas para limpar os caminhos à passagem daquele que seria maior do que todos.

No lar de Maria é que Levi encontraria as respostas que desejava, naquela mulher de alma branda que trouxera à vida aquele que modificaria todo o panorama da Terra.

Ali chegando, com um grupo de jovens, Levi indagou por Jesus, mas constatou que ele ali não estava.

Já entardecia e Maria, bem os recebendo, pediu-lhes que ficassem por ali, dizendo que já lhes prepararia o jantar.

— Maria - disse Levi -, tua casa é pobre. Não é justo comermos do teu alimento sem que paguemos por ele.

— Meus filhos, por que haveis de vos preocupar com as coisas da Terra?! Diz Jesus que é da Terra o que é da Terra e que é de Deus o que é de Deus.

Comemos hoje e, nada sobrando para amanhã, certamente que Deus nos proverá. Ora, Jesus não quer que ninguém saia daqui faminto.

Pouco temos, é verdade, mas dá para todos nós e amanhã teremos novos alimentos. Vejo o quão cansados estais!

— Estive com Zacarias e Isabel, tive a oportunidade de conhecer João.

— Tanto Zacarias quanto Isabel e João são também escolhidos de Deus. O Altíssimo realmente nos dá a condição de acendermos na Terra a chama do seu bendito amor!

Deus nos ama com igualdade e sobre isto Jesus tem falado àqueles que o procuram. Estiveram aqui alguns senhores de Betânia, entre eles até um sacerdote, e Jesus lhes disse muitas maravilhas.

Afirmou-lhes que próximo está o Reino dos Céus.

— Maria, tão confortados nos sentimos recebendo a tua proteção nesta casa! Porém, isto não é justo! Temos com que pagar-te!

Deixa então o nosso dinheiro para cobrir a assistência àqueles que não têm com que pagar.

— Ora, se eu receber alguma coisa de vós, Jesus ficará muito contrariado, e de forma alguma posso contrariá-lo. Então, não devo receber nada de vossas mãos.

— Mas, Maria, faze de conta que outro alguém te doou alguma coisa, e Jesus nem ficará sabendo.

— Estás muito enganado quanto a Jesus! Ele está em lugar que nem imaginamos que ele possa estar. Certamente que os anjos lhe dirão tudo o que aqui acontece.

Então, meus filhos, comei e bebei em memória de Jesus.

— Mas onde está Jesus?

— Ele foi para Betânia a convite do sacerdote que aqui esteve, mas certamente que retornará no máximo entre dois ou três dias.

Os jovens comeram, beberam e repousaram, sentindo ali a proteção de vários espíritos.

No outro dia chegou ali um senhor tendo aos ombros um jacá repleto de pães. Maria pegou aqueles pães e lhe indagou:

— Por que me trazes estes pães?

— Recebi muito dos Céus e devo presentear-te para que distribuas estes pães às tuas crianças. Ora, a cada pão que te trago, mais a minha lavoura produz.

Então servir ao Senhor é se agraciar com uma beleza sem igual!

— Mas, João - disse Maria àquele homem -, não deves fazer isto. Tens a tua família.

— Maria, vi chegando aqui este grupo de jovens e bem notei que precisarias alimentá-los.

Sei também das tuas dificuldades. José tem trabalhado diariamente e bem o tenho acompanhado no esforço dele. O que ora te dou é aquilo que me sobeja.

Naquele dia, lá no quintal, Jesus nos disse que o homem somente consegue chegar até Deus quando aprende a dividir o que tem, a ajudar o próximo.

Disse também que a cada pão que ofertarmos a um necessitado, com quatro pães seremos agraciados pelo Senhor.

E devo dizer-te a verdade: tenho doado a ti algum pão e tanto tenho recebido! Enquanto Deus me der tal bonança, permanece na certeza, Maria, de que pão não te faltará!

— João, és um homem já idoso e deves resguardar-te mais.

— Ora, Maria, do que devo resguardar-me?! Tenho a minha saudável fàmília, Jesus curou o meu filho, e então o que mais aspiro dos Céus'?! Vivíamos na infelicidade, mas Jesus tocou na cabeça do meu filho e nunca mais ele teve crises. Imagina o quanto ele espumava e se debatia! Eu o havia levado aos sacerdotes e nenhum deles lograra libertá-lo do demônio. E o que fez Jesus? Ele o tocou e ele nunca mais espumou e se debateu. A tristeza de nossa casa cedeu lugar à alegria -uma alegria que aprendemos a louvar a Deus e agradecer ao Altíssimo por Jesus nos ajudar tanto assim. Ora, Maria, tudo o que eu fizer por ti ainda será muito pouco, e o faço de coração. Ademais, não te dou o que nos falta, e sim o que nos sobra. Maria, nossa colheita vai cada vez melhor. Nossos animais, nossas ovelhas se multiplicam cada vez mais, e nada nos falta à mesa: ela é tão farta que, ao que julgo, nem mesmo os grandes escribas e sacerdotes conseguem comer tão bem. E eu devo render graças a Jesus, que expulsou do meu filho todos aqueles espíritos imundos. Hoje somente a paz impera em minha casa! Ah! Maria, Maria, muito grande é a minha alegria!

Maria disse, olhando para aquele grupo de jovens:

— Servir a Deus é amar o próximo - porque quando se ama o próximo se ama também a Deus! O Pai quer que cresçamos, que nos multipliquemos em amor, e então é por isso que vos alimento com alegria e com todo o amor do meu coração. Ontem não vos disse? Sim, bem ouvistes! Nada falta ao coração do homem quando ele ama e ajuda o seu próximo. Amigos, vamos então orar a Deus pelo pão, pela bênção do alimento!

Maria colocou pães sobre a mesa, sentou-se e orou:

— Pai que estás nos Céus, agradecemos-Te pela fartura do alimento em nossa mesa!

Agradecemos-Te por Jesus, louvamos Jesus por estar entre nós, meu filho que neste momento deve estar pronunciando lindas palavras no lugar em que está.

Que o Pai lhe dê vida longa para que ele possa sempre nos ensinar o verdadeiro caminho de Deus!

Maria partiu o pão e o passou àqueles tantos jovens, que assim mataram a sua fome.

Levi disse:

— Preciso encontrar Jesus! É muito importante para mim!

— Tem calma, filho! - pediu Maria. — Ele não demorará e aqui há muito o que comer: nosso Pai nada nos deixará faltar.

— Vou até Betânia! - insistiu Levi.

— Deves aguardá-lo, pois ele deve estar para chegar.

Porém, Levi estava determinado a ir imediatamente em busca de Jesus e convidou o amigo Tiago a acompanhá-lo, ordenando que o restante dos jovens fizesse o caminho de volta até Damasco, acompanhado de Paulo, o que foi cumprido.

Ponderou Maria a Levi e Tiago:

— Sois muito jovens e é muito perigoso viajarem sozinhos por aí.

—Não! Irei ao encontro de Jesus e, estando ele em toda parte ao mesmo tempo, estou certo de que estará também a nos proteger.

— Tu, Levi, és um jovem muito inteligente! Já és um pastor e daqui a pouco serás um grande sacerdote, pelo teu conhecimento. Mas, dize-me: como está o nosso primo Camarfeu?

— Sempre resmungando. Joana tem lá um grupo de crianças, a exemplo do que fazes aqui, e com muita alegria as ensina. Porém, Camarfeu é muito refratário a tudo isso. Ele vive se lamentando de tudo, principalmente depois da morte de Barnabé.

— É verdade! Soube mesmo da morte dele.

— Jesus esteve com Barnabé, mas ele já estava idoso e morreu feliz por ter recebido a visita de Jesus. Mas, Maria, és tão graciosa e tão bondosa! Se todos pudessem receber a visita de Jesus no momento da morte, certamente que ele acionaria todos os anjos dos Céus e ninguém iria para o Inferno.

— Levi, meu filho, há certas coisas que não se pode fazer! A morte é a libertação da carne para que a alma vá aos Céus, e feliz é aquele que tem um bom coração, que faz a partilha do pão, que estende a mão aos necessitados, assim como faz Jesus, ajudando os doentes. Tenho aprendido muito com o meu próprio filho. Quando ele ainda era pequenino, sentávamo-nos ali, naquele pequeno banco. Jesus colocava as mãos em meio às pernas, prendendo-as, e me fitava. Eu lhe contava então várias histórias e ele se encantava bastante com o que ouvia de mim. Seus olhos brilhavam. Eu lhe falava do bom samaritano, do filho que abandonara a família rica para ir em busca de aventuras. Contava-lhe histórias e histórias, mas ele apreciava sobremaneira aquela do bom samaritano. É a história de um homem que havia sido assaltado e estava todo enferidado. Passaram por ele dois religiosos, viram-no e nada fizeram por ele, julgando que em pouco tempo ele morreria. De repente passou por ali um samaritano, pessoa indesejável aos olhos dos judeus, pela sua reconhecida falta de religião. Chegando de Samaria, aquele homem viu aquele outro todo machucado e resolveu dar-lhe socorro. Aliviou com azeite as suas feridas e o prendeu ao lombo do seu animal, conduzindo-o até uma hospedaria próxima, lá pagando pela hospedagem e pelo trabalho que o enfermo daria ao proprietário. Jesus maravilhava-se muito com isso. Varávamos noites, ele não se cansando com as histórias que eu também contava às crianças, tendo Jesus sempre ao meu lado. Agora Jesus cresce, cresce tão rapidamente e pouco estaciona aqui. Todavia, tudo me basta e conforta, porque para mim é uma imensa alegria poder ser a mãe de Jesus. Pois então, Levi, se queres ir ter com ele, vai e que Deus te proteja e ao teu companheiro!

Maria passou-lhes alguns pães e eles seguiram para Betânia.

JOÃO BERBEL