XXIX - NA CASA DECARMAFEU

1 - XXIX - NA CASA DE CAMARFEU

Amanheceu em Damasco. Camarfeu estava intrigado com a situação de seu lar, lá onde de repente se haviam instalado Jesus e seus seguidores.

Sentia que algo diferente ocorria ali e dentro de si mesmo.

Ora, ele tanto se insurgira contra Jesus e este agora lá estava, sem rancor algum, manifestando o seu inigualável amor para com aquele que tanto o ofendera.

A família de Jubileu estava emocionada e bastante feliz com a sua cura.

No outro dia, muitos dos seus familiares se aglomeraram à frente da casa de Camarfeu e, em silêncio, aguardavam o despertar de Jesus.

Naquele local da cidade as pessoas se foram despertando e, vendo aquela aglomeração à porta de Camarfeu, uniram-se àquele grupo, e todos ali permaneceram, ansiosos para ver aquele que havia operado aquela inusitada cura.

Levi, que ali também estava, viu aquela multidão e, indo ter com Jesus, viu que ele ainda dormia, sem que o incomodasse o murmúrio de inquietude de toda aquela gente.

A inquietação, a movimentação e as conversas daquela gente aumentavam, aumentavam, mas mesmo assim Jesus não acordava.

E o ruído e os comentários cresciam, cresciam. Todos queriam ver, tocar em Jesus, mormente os familiares de Jubileu.

Levi, preocupado, foi de novo até Jesus e o tocou levemente, dizendo:

— Senhor, há uma multidão aí fora. Todos estão emocionados, com o coração alegre pela cura de Jubileu. Os familiares dele querem agradecer-te.

Jesus fitou Levi e, vendo que os olhos dele brilhavam, indagou:

— Levi, Levi, por que teus olhos tanto se espantam? Nada entendeste do que eu te disse, Levi. Pois foi mesmo para esses que vim à Terra. Porém, não vim a este mundo apenas para curar corpos perecíveis, mas também para redimir as almas ao
Pai que está nos Céus. O Pai está em mim e também eu estou no Pai, e naquele que ouve as minhas palavras e segue os meus ensinos também estarei, e também nele estará o meu Pai, porque aquele que me acolhe, acolhe também quem me enviou à Terra. Para tal testemunho é que vim a este mundo. Teus olhos estão alegres, Levi, mas um dia eles novamente se entristecerão, porque nem todos entenderão a minha mensagem, a Boa Nova que vim trazer aos humildes, às ovelhas desgarradas do rebanho. Muitos e muitos ouvirão a minha voz, porque saberão daonde vim e saberão que eu sou um bom pastor, e esses então me seguirão e ouvirão a minha mensagem, e quando o Príncipe deste mundo nele não mais estiver, minha mensagem permanecerá, e por ela e por mim próprio será exaltada a verdade. Sei que muitos não entenderão. O tempo passará com o céu e a Terra, e então exaltarão o meu nome em todas as nações. Mas nesses dias os meus olhos se entristecerão e as minhas lágrimas se derramarão!

Levi atalhou:

— Mas, Mestre, será isso por te exaltarem?

— Não por me exaltarem. Avermelharão o chão com o sangue dos próprios irmãos e então entrarão em trevas e não me verão. Um dia gritarão por mim, mas não terei como segurar em suas mãos, porque se escandalizarão em tudo aquilo que lhes ensinarei. Turbilhões de vento cobrirão tais irmãos. Tempestades erguerão ondas nos mares. O chão se abrirá de um a outro canto. Verão que até as estrelas parecerão tombar sobre a Terra. Muitos pedidos de clemência ecoarão de um canto ao outro da Terra. A espada da impiedade se lançará sobre esses e o sangue será bastante derramado. Nesses dias o céu estará trevoso e as minhas lágrimas cairão por sobre os mais frágeis que haverão de perder a sua vida na defesa da minha doutrina de simplicidade e de amor, do meu ensino de se amarem uns aos outros como eu a todos amei e amo. Galardões e galardões de ouro se levantarão sob templos e templos, e ao redor de tanta riqueza serão esquecidos os mais simples, os mais frágeis e os mais humildes, e a fome triunfará sobre a Terra, e fecharão os olhos e gritarão o meu nome, mas a mim não verão, porque estarei com aqueles que realmente me compreenderão e enxergarão no seio da simplicidade, na grandeza do meu amor. Ora, Levi, dentre tantos, aqui estás para que ouças tais verdades, enquanto que poucos da Terra me poderão ver e ouvir. Porém, todos saberão que a minha mensagem existe sobre a Terra e muitos a apagarão dentro de si mesmos e se erguerão no triunfo brilhante dos galardões de ouro, e neles se perderão. Mas, na força da minha vontade e da minha paz, hei de ressaltar aos corações que o amor triunfará por sobre os demais, porque serão os humildes os donos da própria Terra. Estes serão aque¬les que ouvirão a minha mensagem e a segui¬rão, e não aqueles que a asfixiarão, os quais lamentarão a sua própria estadia na Terra, porque nuvens trevosas triunfarão sobre eles e nada terão além de trevas sobre trevas. Bem-aventurados serão os pobres e simples de coração, os humildes que ouvirão e seguirão as minhas palavras e os meus ensinos! Alegram-se os meus olhos fitando e contemplando este mundo, mas tristes também estarão por verem a dor deste mundo, porque por ele mesmo irei derramar o meu sangue, para que o sangue de milhares e milhares de outros irmãos seja confundido com o meu num só sangue, e quando eu chegar ao Reino do meu Pai, eles estarão comigo, porque se tornarão humildes, pacíficos e mansos de co¬ração, e leves terão sido os fardos que lhes foram colocados aos ombros, e, tanto quanto eu, haverão de vencer este mundo. Ah! Quan¬tos outros, Levi, quereriam estar aqui, junto de mim, para ouvir tais verdades, mas a eles não foi concedido tal poder, senão a ti, assim como serás, também tu, levado sobre os homens e nem verão o teu nome — porque em verdade te digo: bem-aventurados serão todos aqueles que erguerão o candeeiro sob um mais alto esplendor e cujos nomes não serão lembrados na humanidade, pois estes serão também chamados de verdadeiros fi¬lhos de Deus. Tu estarás comigo, Levi, nestes dias e também nos dias finais!
Levi estava sobremaneira encantado com a sabedoria do Mestre, a lhe mostrar o porvir do mundo, marcado de pavorosos eventos e conflitos.

Jesus tocou nos ombros dele e lhe recomendou:

— Nada divulgues sobre o que acabaste de ouvir, porque para muitos ainda não hão de ser passadas tais informações. Os anjos, a mando do meu Pai, estiveram comigo toda esta noite. Pude ver o Reino dos Céus na glória dos mais simples e humildes. Ah! Muito sofrimento e ranger de dentes ainda viverá esta Terra!

Jesus se ergueu, saiu e viu aquela multidão. Aproximaram-se-lhe os parentes de Jubileu e este correu e se ajoelhou aos seus pés, rendendo louvores e assim dizendo:

— Senhor dos Céus, filho de Abraão, filho de Isaque, filho de Jacó! És tu o todo-poderoso dos Céus que desceu à Terra! Maravilhosa é a tua obra, porque soubeste perdoar os meus pecados, que eram tantos e de mim haviam roubado os meus passos, rojando-me ao chão!

— Jubileu, de ti que caminhas com os homens da Terra foram perdoados os pecados.

Um dos que ali estavam, discordando, disse:

— Mas somente Deus pode perdoar os pecados!

— Sim, apenas Deus pode perdoar — e Deus está em mim, e a mim foi dado poder sobre os Céus e a Terra, e aquele que crê em mim sobreviverá e verá em mim o seu guia, o seu salvador. Para tal princípio é que vim a este mundo. E o que diríeis a este irmão? Que continue rastejando ou que se livre dos seus pecados para que possa andar à semelhança de um homem qualquer? Jubileu, ergue-te, homem! A mim nada deves, senão ao Pai que está nos Céus, que nos cobra cada pecado feito contra os nossos irmãos. Vai, Jubileu, é dize que não foste curado por mim, e sim pela tua própria fé e pelo Todo-Poderoso que está nos Céus! Cabe-me apenas dizer-vos, meus irmãos: amai-vos com toda a força do vosso corpo e da vossa alma, porque é o vosso amor que vos salvará, porque é a bondade do vosso coração que será a vossa fonte de luz no vosso retorno ao Pai. Lembrai-vos: hoje estou entre vós, caminho pelos vossos caminhos, porque hoje sou a luz desta Terra. Dia virá, todavia, em que não mais poderei caminhar convosco. Nesse tempo proclamareis o meu nome, chamareis por mim e eu estarei em todos vós, até que se consumam todos os séculos. Para testemunho de tais coisas é que vim a este mundo. Não vim para os ricos, para os reis, para os grandes sacerdotes, e sim para os humildes, os pobres, os enfermos, e estes ouvirão a minha voz e entenderão que para eles próprios são os meus ensinos, e me exaltarão e estarei diante deles, porque assim há de ser feito. Roguei ao Pai, com toda a força do meu coração, e o Juiz da Terra se fez presente e o grande julgamento celestial deu razão a que eu estivesse entre vós, para ouvir o vosso lamento, para poder enxugar-vos as lágrimas, andar com os pobres e oprimidos, saciar a sede do sedento e matar a fome do faminto, porque hoje sou a fonte da mais pura água descida dos Céus, para estar do vosso lado, caminhar convosco e vos amar a todos. Por isto vos digo, meus amados irmãos: não se passarão Céu e a Terra enquanto não se cumprirem todas as profecias e enquanto os homens não se amarem mutuamente. Porém, esses dias ainda chegarão! Os Céus ainda se entristecerão. Lágrimas e lágrimas serão der¬ramadas. Mães procurarão por seus filhos e não os encontrarão. Alucinados, tais filhos andarão sob trevas e suas mães se lamentarão profundamente. Serão dias tortuosos e tenebrosos. Porém, estarei sempre ao lado dos sofredores, daqueles que não entenderam a grandeza de amor. Sob os marcos celestes, as minhas palavras ecoarão por todos os cantos da Terra. Todos sentirão a minha presença, todos sentirão a alegria de amar, porque o amor é que vos libertará. Sede simples, sede mansos de coração, da forma que sou perante vós, e Deus estará convosco, e as vossas mãos operarão maravilhas, e o vosso labor será bem-visto aos olhos de Deus. Fazei-o em minha memória, porque eu estarei convosco a todo momento. Para este princípio foi que me fiz homem e me coloquei junto de vós.

O silêncio marcava a atenção daquele grupo de ouvintes. Todos fitavam, admirados, os cabelos dourados de Jesus. Seus claros olhos resplandeciam belamente, refletindo o azul celeste. Os raios matinais tocavam nos seus ombros, provocando o brilhar dos seus cabelos. Aquela gente sentada à sua frente sentia a doçura de uma paz jamais sentida, assinalada pela presença daquele profeta diferenciado que todos aceitavam com todo o amor do coração. E, fitando o alto, dizia Jesus:

— O Pai nos deu os céus e a Terra, e nos deu o mar e tudo o que nele existe, e tudo o que há sobre a Terra, e nada nos co¬brou por tudo isto. Também eu andarei ao vosso lado e nada vos cobrarei. Apenas vos recomendarei que vos ameis uns aos outros, para que também vos amem os Céus, para que Deus vos dê a recompensa que merecereis. Os homens lutam entre si para que as suas vestes sejam mais avantajadas e brilhosas do que as dos demais. Muitos roubam, muitos matam para que se ergam as suas casas. Não é pecado o homem se vestir nem ter a sua casa. O pecado está naquele que mata para se vestir e erguer a sua casa. Mas aquele que busca a simplicidade dos Céus é vestido por Deus. Contemplai a beleza do que há à vossa volta, a beleza das plantas que o Pai vos concede com muito amor. Ora, assim tam¬bém o Pai vos cobre e alimenta com a grande¬za do Seu amor, e nada vos faltará, nem de vestimenta, nem de alimento, nem de mora¬dia, porque Ele tanto vos ama que de mim vos presenteou, e eu por vós derramarei o meu sangue, para que o meu amor germine em todos vós e para que vejais que na Terra nada se faz necessário para que o homem se destrua e escandalize. O homem pode comer e nada lhe fará mal, mas aquilo que da sua boca é lançado não morrerá com o corpo: ficará com ele até o dia do seu juízo, e o condenará, e juiz algum da Terra o defenderá, porque o seu próprio juízo lhe terá dado a sentença. De que adianta se o sal que do mar vem para dar sabor ao vosso alimento acudir apenas o que está na Terra? Porque o sal que vem das profundezas dos Infernos salga a vossa alma e sobre vós não haverá luz: o céu obscurecerá os vossos olhos, porque não entendeis que aquilo que é da Terra vem da Terra e aquilo que é de Deus vem de Deus. Nada do que comeis vos prejudicará, mas aquilo que de dentro de vós lançardes sobre os pequeninos será a vossa condenação a muito sofrimento. Mas em verdade, em verdade vos digo: aquele que mesmo em nome de Deus usar desse sal para salgar a grandeza das coisas da Terra muito perderá nelas, pois elas condenarão a sua alma. Esses não verão a Deus! Em verdade vos afirmo: aquele que, simples, me ouvir, assim mesmo entenderá, porque tudo o que falo é para o bem da vossa alma. Outros que vieram se engrandeceram e perderam pela vida; igualaram-se aos vossos ancestrais que se alimentaram do ananás do deserto e se envenenaram. Eu, porém, não vos alimentarei desse fruto, porque sei que ele não é benéfico à vossa alma. Eu vos dou o que vem dos Céus, o pão vivo que há de saciar a vossa fome. Por tal motivo é que desci a este mundo. Vim para o meu povo, vim para as minhas ovelhas, e sei que elas ouvem as minhas palavras, porque sabem que sou um bom pastor, sabem que entrei pela porta e não pulei a porteira, pois se assim o fizesse, me chamariam de saqueador. Porém, abri o portão e gritei, e continuarei gritando, e todos aqueles que ouvirem a minha voz serão as minhas ovelhas, e elas sempre ouvirão a minha voz, pois sabem que eu não sou mau pastor, sabem que eu não as deixarei sozinhas. O bom pastor está hoje entre vós para buscar as ovelhas desgarradas do seu rebanho e trazê-las debaixo das suas asas. Irmãos, a glória dos Céus está sobre a Terra! São dias de glória, são dias de alegria, porque os anjos dos Céus se movem em meu louvor! Não são apenas os da carne que nesta manhã me ouvem, mas também os que não estão na carne e são simples e humildes de coração: vêm para defender a minha causa e choram de alegria, pois por milhares e milhares de anos clamaram por este momento. Aleluia! Aleluia! — gritam tais anjos em meu louvor, e eu falo em louvor a cada um de vós que me ouvis. Muitos dentre vós me ouvirão, porque sois os meus amados filhos, e muitos olhos verão cegos enxergando, coxos andando. Mas não apenas para dar testemunho às coisas da Terra operarei entre vós, não para me engrandecer perante esses irmãos, e sim para que todos constatem que o Filho do Homem está sobre a Terra. Porque são dias de glória, são dias de alegria estes em que ando convosco e tendes a mim!

Todos ouviam com deslumbramento aquelas palavras de Jesus. Era um silêncio total, sem um ruído qualquer, até das própri¬as aves. A voz suave de Jesus dominava tudo à volta. Era uma maravilha! Jesus se aureola¬va magnificamente sob a luz solar caindo so¬bre ele. Encerrando a sua pregação, disse:

— Ide, meus irmãos, e dizei aos outros irmãos sobre a glória dos Céus! Ainda não é chegado o meu tempo, e quando isto se der, murmurarão em todos os templos e sinagogas as palavras do filho do Homem. Ide todos vós, a quem chamo Filhos de
Deus, e concretizai os meus ensinamentos, porque os vossos olhos, para darem testemunho de mim, ora me vêem, para que este momento seja registrado na glória do meu Pai que está nos Céus!

Jesus silenciou, baixou a cabeça, colocou as mãos ao peito, sobre elas apoiando o seu queixo. Depois fitou os céus e disse:

— Graças a Ti, Pai, por mais este dia, por mais este momento!

Joana serviu pães a todos os que ali estavam, Jesus abençoando os pães e dizendo:

— Graças e graças a Ti, Pai todo-poderoso que estás nos Céus, e que fazes crescer o trigo, que é o fruto do pão!

Jesus partiu um pão, deu um pedaço a Joana e caminhou dali. Joana o chamou:

— Senhor, não vais comer?

Jesus se virou, sorriu, meneou a cabeça e saiu.

Levi pegou um pão, correu na direção de Jesus e o puxou pela veste. Jesus parou, olhou para trás, pegou aquele pão, sorriu e disse:

— Agradeço-te!

Levi, observando que a veste de Jesus estava bem suja pelas longas viagens, pensou: Ele precisa trocar esta roupa, precisa apresentar-se melhor.

Jesus captou aqueles pensamentos, virou-se para trás e disse:

— Levi, não é importante aquilo que envolve o nosso corpo, e sim aquilo que está dentro dele. Aquilo que cobre o nosso corpo é coisa da Terra e ficará na Terra, mas o que está dentro dele é o espírito e ele vem de Deus.

Disse-o, sorriu e seguiu. E como alguns tentassem segui-lo, ordenou que não o fizessem e que por ali permanecessem.

Não se viu mais Jesus por ali. Passou o dia e aquela multidão se foi dispersando da casa de Camarfeu, permanecendo Levi e aqueles homens que haviam acompanhado Jesus. Todos estavam ansiosos à sua espera.

Chegou a noite e Jesus não apareceu. Julgaram que Jesus havia retornado à Galiléia.

Aquele grupo de seguidores, já no outro dia, disse a Joana que tinha deveres a cumprir e se foi.

Passou mais uma noite e Jesus não reapareceu, retornando apenas cinco dias depois de ter partido para o ignoto.

Levi o abordou, indagando:

— Jesus, onde estavas?

— Fui comungar com o Pai, agradecer por permitir que os anjos estivessem comigo.

— Senhor, és grande nos Céus! Uma legião de anjos se move ao teu comando!

Os olhos em brilho, disse Jesus:

— Todos se alegram por mim!

— Nada comeste...

— Sim! Há muitos frutos sobre a Terra. Alimentei-me de tudo o que o meu corpo requisitava. Ora, o homem vive da terra, e se o Pai não deixa famintas as aves dos céus, por que haveria de nos negar alimento? Observa as árvores tantas, o tanto de bons frutos sobre elas. Os homens não os comem porque às vezes não lhes agradam ao paladar, mas te garanto que há neles muitos nutrientes que podem acudir a nossa fome. Aprende com tudo aquilo que está sobre a Terra e ela te sustentará.

O Pai não criou nenhum dos seus filhos para morrer de fome, porque em toda parte coloca o seu sustento. Se estamos em comunhão com o Pai, Ele está em comunhão conosco. Ora, pude alimentar-me muito mais que todos vós que comestes do pão.

Naquela manhã era preparada ali uma ceia para ser servida a umas autoridades romanas que ali aportariam em busca dos impostos. Camarfeu ordenou que matassem uma ovelha para servir aos romanos. Ora, Jesus caminhava dali e, vendo os serviçais carregando as vísceras daquele animal, desviou o olhar para o chão, numa atitude de contrariedade para com aquele ato. Levi, em tudo acompanhando os mínimos gestos de Jesus, indagou-lhe:

— Mestre, estás bem? O que foi que te aconteceu?!

— O meu coração muito padece quando vê que uma vida se vai. Louvado seja o Pai todo-poderoso que está nos Céus, que permite que o homem sobreviva das vísceras dos animais!

— Cearás conosco esta noite?

— Sim! Ficarei aqui por mais uma noite. No passar das horas, o banquete era preparado.

De repente chegou a tropa romana e com ela o militar Demétrius, que logo viu a figura de Jesus se destacando ao fundo.

Todos se saudaram e se acomodaram.

Demétrius se acercou de Jesus e indagou:

— És Jesus?

— Teus próprios olhos o dizem!

— E os meus olhos estão certos? Jesus se agachou e começou a escrever na areia.

Demétrius insistiu:

— O senhor é Jesus? És o nazareno que veio dos Céus?

Jesus parou de escrever, ergueu a cabeça e disse:

— São os teus olhos que afirmam tal coisa!

— Se és Jesus, devo lembrar-te de que há em Roma um meu amigo que muito te conhece e admira. Quando pronuncia o teu nome, brilham os olhos dele.

Jesus retomou a escrita na areia e Demétrius completou:

— Esse meu amigo se chama Benedites. É irmão de Camarfeu.

Jesus se ergueu, colocou a mão no ombro do militar e indagou:

— O que foi que Benedites disse a meu respeito?

— Disse-me que serias reconhecido à nossa vista, mesmo que estivesses confundido numa multidão. E, de fato, quando te divisei, vi um brilho diferente no teu olhar, vi beleza no teu semblante e vi ternura em teu coração.

— Não são apenas os teus olhos, Demétrius, que enxergam tais coisas; isto vem do meu Pai que está nos Céus. Dize àquele irmão que ainda estarei com ele, que ele verá a mim e nele edificarei o meu templo, pois ele é mais forte do que a pedra, e a rocha, quando dura, não se quebra. Dize-lhe que tudo o que fora predito já está acontecendo. Dize-lhe que os cegos enxergam e os coxos andam. Dize-lhe tudo isto e ele muito se alegrará, e dize-lhe ainda que os meus dias derradeiros chegarão bem antes do que os dele.

— Mas, Senhor, tão jovem ainda és e tão mais velho é Benedites!

— O homem não morre somente por sua velhice, mas também por sua missão. E esta é a minha missão: fazer com que os olhos que não vêem passem a ver e fazer com que caminhem os coxos. Mas não somente os corpos perecíveis me importam na Terra, e mais sim as almas perdidas que precisam redimir-se. Para tal testemunho é que vim na Terra. Dize a Benedites o que repito: antes do fim dos seus dias, ele verá a mim, e os meus dias antecederão o dele, e nesse dia também ele se cobrirá de tristeza, e nele hei de edificar o meu templo.

Disse-o e se afastou dali. Contatou Levi e lhe disse:

— Levi, é findado aqui o nosso tempo. Vamos caminhar!

Jesus chamou Camarfeu, que já ia meio alterado pelo vinho, e disse:

— Lembra-te do que ora te digo, Camarfeu: chegará aí fora um irmão de longe que se chama Jonatas e estará à tua procura. É um grande pastor e a mim ainda não conhece. Ele tem a bondade e a ternura no coração. Dize-lhe que será um pregador na sinagoga.

— Fá-lo-ei com o maior prazer! Não queres sentar-te e beber conosco?

Jesus aquiesceu. Camarfeu pegou pão e vinho e passou a Jesus, que comeu e bebeu, o mesmo fazendo Levi.

Joana se acercou com uma trouxa de pães e Jesus lhe disse:

— Mulher, partiremos agora, e aqui é o teu lugar, ao lado do teu marido. A mim não verás por algum tempo, porque muito hei de fazer e grande é a obra do meu Pai!

JOÃO BERBEL