XXV - JESUS, LEVI E O BATISTA

XXV - JESUS, LEVI E O BATISTA

Levi e Tiago, a certa altura da sua viagem, chegaram numa enorme rocha onde havia um riacho de cristalinas águas e várias árvores. Pararam para beber daquela convidativa água e subitamente ouviram uma voz:

— Levi!

Levi viu Jesus ali sentado e, surpreso, indagou:

— Mestre, o que fazes aí?! Tens viajado sozinho?!

— Não! Há comigo alguns irmãos que se dirigem à Galiléia. Aproxima--te!

Levi se lhe acercou e ouviu:

— Olha para aquelas águas. São tão belas, tão maravilhosas que homem algum pode criá-las. Podem ser bebidas, fazem bem à saúde, não têm o sal do mar, o sal de outras fontes insalubres. Estas são águas limpas, iguais àquelas dos Céus, que nos dessedentam, enchem a alma de conforto e sabedoria. Todavia, pouquíssimos serão os homens que beberão dessas puras águas!

— Mestre, ensina-me a beber dessas limpas águas!

— Eu sou a água que vem dos Céus, porque o meu coração é limpo das coisas da Terra! Então bebe das minhas águas e sacia-te de sabedoria! Conhece a verdade e ela te fará um homem livre!

— Mestre, o que é a verdade? São a verdade as coisas dos Céus ou as coisas da Terra?

— Ah! Levi, Levi! Acreditas apenas naquilo que se vê. Contempla as águas: bebes delas porque acreditas nelas. Crês em tudo aquilo que vai ao encontro de ti e dos teus olhos, mas bem pouco acreditas em Deus! Ora, ninguém pode chegar aos Céus se a verdade não tiver limpado o seu coração. A verdade está dentro de ti, Levi! Liberta-te das coisas que o mundo te oferece! Ajuda-te, para que recebas ajuda dos Céus! Ama o teu próximo! Pai, criaste as plantas para que elas pudessem sustentar 0 homem, e criaste os animais! Pai, o meu coração se alegra mesmo que tenha de amar sem ser amado, porque muitos serão os que não entenderão as minhas palavras e, por não entendê-las, Pai, sofrerão, derramarão mais lágrimas do que eu. Então é por esses que ora derramo as minhas lágrimas e rogo a Ti, Pai, a proteção a todos os irmãos da Terra!

Jesus acariciou os cabelos de Levi, que se encostara aos seus ombros, e este exclamou:

— Mestre! Quão belas são as tuas palavras! Ainda não vi noutro coração tanta bondade quanto vejo em ti! Tão bem me sinto perto de ti!

— Esta noite, Levi, estaremos juntos.

De repente, ali chegaram os acompanhantes de Jesus, e Levi ordenou que Tiago se lhes unisse, Jesus lhes dizendo:

— Ide! Dizei à minha mãe que tenho algo a fazer. Quanto a ti, Levi, permanecerás comigo.

O grupo de acompanhantes seguiu à Galileia.

Jesus foi até as águas, molhou o rosto e os cabelos e disse:

— Esta noite estarás comigo, Levi. Do que verás nada deverás dizer a ninguém, porque o Filho do Homem ainda não está pronto.

— Mestre, farei tudo o que ordenares! Até a minha própria vida darei por ti!

— Levi, muitos seriam os filhos da Terra que dariam a vida por mim, se me compreendessem, mas tantos e tantos não me entenderão, porque na simplicidade exerço o meu amor e leve faço o meu jugo, porque sou humilde de coração.

Jesus e Levi se alimentaram de alguns pães que ali haviam sido deixados por aquele grupo. Disse Jesus:

— Estamos próximos da Galiléia. Há um certo irmão que necessita de nós e o ajudaremos.

Caminharam dali, Jesus tomando um rumo totalmente diverso daquele que seria o mais plausível, ao que observou Levi:

— Senhor, este não é o nosso caminho de volta!

— Levi, quem me acompanha também caminha com Deus. Anda então junto de meu Pai e não temas mal algum. Ninguém nos prejudicará. Nem os animais se nos acercarão. Desci entre os homens para iluminar este mundo com a minha luz e então não há que se temer mal algum.

O caminho era tortuoso e era sabido que por ali se escondiam muitas criaturas
de má fama, muitos assaltantes. Porém, sem temor, Jesus loi adentrando aquela região.

Chegou a tarde, chegou a noite muito escura e Jesus continuou andando, mesmo sem nada se enxergar.

A certa altura, notando o cansaço de Levi, disse Jesus:

— Levi, senta-te aqui!

— Senhor, este é um local muito perigoso para que nele repousemos.

— Não! Já é tarde e estás exausto. Preparemo-nos para dormir.

Era um local muito montanhoso e pedregoso. Uma árvore se lhes oferecia de conforto e Jesus disse:

— Encosta-te aí e dorme!

— Mas, Mestre, e quanto a ti?

— Também me deitarei aqui e dormirei.

Jesus se deitou e começou a ressonar. Levi, um tanto apreensivo, não dormia, o que foi notado por Jesus, que se ergueu e disse:

— Dorme! Tenta descansar! Amanhã teremos um longo dia. Disse-o, levou o dedo na testa de Levi, soprou na sua face e ele adormeceu. E Jesus logo adormeceu também.

No outro dia, Levi acordou com o Sol tocando a sua face. Estava assustado. Olhou, não viu Jesus e mais ainda se conturbou.

De repente ali chegou Jesus com um punhado de figos às mãos e os ofereceu a Levi:

— Come!

— Mestre, espantei-me!

— Por que te assustaste?

— Era o medo de que tivesses ido e me deixado sozinho.

— Levi, o Filho do homem não há de deixar ninguém sozinho, e mais ainda tu, que estás ao meu lado. Nem ao menos aqueles que estão distantes de mim estão sozinhos, porque pedi ao Pai e Ele me concedeu tal poder sobre a Terra, para que eu possa auxiliar todos aqueles que me amam, mesmo que estejam longe de mim. Dia chegará, Levi, em que não mais andarei por este mundo, mas mesmo assim estarei convosco. Não vos abandonarei! Não temas mal algum! Deus está conosco e, onde quer que formos, Ele nos acompanhará.

Levi ficou com o coração aliviado e seguiu Jesus no rumo do rio Jordão. Ali chegando, Jesus estacionou. Chegou a tarde e a noite e não saiu dali, tendo Levi sempre ao seu lado. Três dias se passaram e não se moveram dali.

— Mestre, por que devemos permanecer aqui? —Ainda hoje o entenderás!

Ali instalados, comeram figos e outras plantas, Levi sempre preocupado com a situação.

De repente surgiu um homem do meio das árvores e das pedras. Parecia um animal, com aquelas suas estranhas vestes. Jesus o chamou:

— João, vem aqui!

— Jesus! És tu que aí estás? E' o meu primo?

— Sim! Tu, João, hás de fazer o que te foi designado! Não tenhas medo algum, pois o Senhor te resguardará. Grandes forças contrárias há sobre ti, mas não percas a tua fé!

João disse:

— Mestre, o Céu não tem deixado de me falar de ti. Dize-me: és o aguardado Messias ou temos de esperar outro?

— João, João! Olha para mim, olha dentro dos meus olhos e neles encontrarás a tua resposta!

João Batista fixou os olhos de Jesus e viu uma plêiade de anjos. De repente ele próprio, João, se viu no meio deles. Disse-lhe Jesus:

— Não tenhas medo, pois vieste do mesmo Céu que eu vim, para testificar a verdade e libertar os homens. Tu, João, eras recém-chegado àquele nosso mundo. Lá ficaste pouco e retornaste à Terra. Então os teus lábios testificarão a verdade e tu aglomerarás-multidões. Muitos gritarão o teu nome, porque dos nascidos de mulher és o primeiro dentre todos e os Céus te engrandecerão ainda, pois sendo o último deles, ainda estás na Terra. João, sê forte, porque és o Filho do Trovão e estarei contigo mesmo quando estiveres sozinho, porque o meu Pai, que me enviou à Terra depois de ti, disse que também estará em mim. Muitas dúvidas terá o teu coração e muito dos teus seguidores perguntarão sobre mim, e lhes dirás, como vens dizendo, que o Príncipe deste mundo já caminha sobre ele. João, não foi a carne que te trouxe aqui, e sim a força do meu Pai que está nos Céus, para que os teus olhos testificassem estes momentos. Os meus tempos ainda vão chegar, e nesses dias, João, estarei perto de ti e me reconhecerás vendo o sinal dos Céus e dos anjos que estarão comigo. Vai, João, e prega que os tempos já são chegados!

João abraçou Jesus e lhe beijou a face. Jesus acariciou os cabelos de João e reafirmou:

— Medo algum deves ter, porque agora começam a se cumprir as profecias e tu és um Emissário dos Céus, para que na Terra eu possa testificar a minha Boa Nova e todos possam ver-me!

— Mas, Jesus, e os anjos que te virão defender, expulsar da Terra a força do mal?

— João, todo o mal está dentro do coração do homem, e enquanto não sair de lá, o homem não verá a Deus. Somos iguais na carne e no sangue e segundo a vontade do nosso Pai que está nos Céus! Vai, João, pregar que os tempos já chegaram!

João saiu dali e rapidamente desapareceu. Já era noite. Disse Jesus:

— Permanece aqui, Levi, e nada dize a ninguém do que aqui viste hoje! Jesus caminhou dali, foi ter a uma planura e lá estacionou. Levi desejou acompanhá-lo, mas Jesus ordenou que ele se distanciasse.

Lá estando, Jesus se ajoelhou, colocou as mãos à altura do peito e baixou a cabeça.

De longe Levi viu uma luz descendo do alto e ligando este à cabeça de Jesus. Do lado de Jesus viu dois anjos falando com ele numa língua que ele, Levi, desconhecia e que Jesus ouvia sempre em completo silêncio. De repente aquela nuvem e aqueles anjos se desfizeram e Jesus retornou até Levi, que exclamou:

— Mestre, que maravilha!

— Levi, tiveste a oportunidade de me acompanhar! Nada deves dizer de tudo isso, mesmo aos teus irmãos.

— Mas, Mestre, podes explicar-me o que ocorreu?

— Levi, há muitos mistérios sobre o Céu e sobre a Terra. Às vezes há que buscar no Pai a força e a informação para que eu possa testificar o meu trabalho.

— Estavas quieto, Mestre, sem movimentar os lábios, mas vi aqueles dois homens conversando contigo. Eram maravilhosos! Sua luz era esplendorosa! Observei que nada disseste, que apenas ouviste.

— A mim está sendo concedido todo poder sobre o Céu e sobre a Terra para que eu possa fazer os cegos enxergarem, os paralíticos andarem. O meu trabalho não será desenvolvido dentro dos grandes templos, e sim em meio dos ladrões, das prostitutas. Acabei de acertar com o meu Pai que por esses irmãozinhos darei o meu próprio sangue e deles farei homens livres. Muitos não acreditarão no que verão, porque hei de andar no meio dos enfermos e desqualificiados. Muitos rirão de mim por caminhar no meio dos pobres, dos oprimidos e Sobrecarregados, mas hei de aliviar tais corações somente com o amor, nada além do amor. Ao lado desses é que todos me verão, glorificarão e santificarão, porque assim já era no princípio e hoje se faz presente. Daqui a algum tempo o Príncipe deste mundo não brilhará mais nesta Terra e ela se cobrirá da escuridão. Contudo, permanecerei na memória dos homens, glorificado e amado por muitos, odiado e repudiado por tantos mais.

Para tal princípio é que desci a este mundo, para dar testemunho da verdade e libertar os corações mostrando-lhes que o Reino de Deus está próximo. Quanto a ti, Levi, nada temas e descansa o teu corpo.

— Senhor, tenho dificuldade em dormir, porque o medo me assalta! Jesus o abraçou e disse:

— Meu filho, não tenhas medo! Já estou consagrado! Bem viste a consagração descendo sobre mim. Os meus tempos vão chegar e tais dias serão de muita alegria e muito amor!

Os dois dormiram, acordando na manhã do outro dia e logo tomando o rumo da Galiléia.

Levi, encantado, seguia o Mestre ouvindo dele as mais lindas palavras de amor e sabedoria.

Chegando em casa, eis a solícita Maria a recebê-los:

— Meu filho! Eu estava muito preocupada! Há muito tempo estás fora de casa.

— Ó mãe, contenta-te, porque sigo o que o Pai me determina. Hoje quero alegria, e não tristeza! Hoje João trará vinho e pão, e hoje cearemos. Convida todos os amigos para que estejam conosco esta noite.

— Mas, Jesus, não temos o vinho!

— Por que te preocupas, mãe? Ainda hoje o terás! Maria preparou o pão disponível apenas para a tarde. Após o almoço, eis que ali chegava João com mais pão e vinho. Levi, observando aquilo, ficou grandemente admirado e disse:

— Maria, como é que Jesus sabe dessas coisas?! Ora, ele não esteve com João e então como é que sabia que ele viria com o pão e o vinho?!

— Levi, Jesus é o Filho de Deus! A ele foi dado o poder que falta aos homens da Terra.

Jesus se adiantou ali e disse:

— O meu Pai testifica em mim para que eu O testifique na Terra. E' necessário que amemos nosso Pai com toda a força do nosso coração e da nossa alma.

Este é o maior mandamento para os homens.

Triste estava José pela mesma razão de sempre: Jesus se referia a Deus na qualidade de Pai e raramente colocando José na condição de seu pai.

Jesus ali continuava explanando sobre a beleza da Terra, sempre se referindo ao Criador na condição de seu Pai dos Céus. José, ouvindo-o, mais ainda se entristecia, o que logo foi percebido pelo admirável coração de Maria, que se lhe acercou com carinho e disse:

— Meu marido, o teu filho te ama!

— Mas, Maria, ele nunca se lembra de mim, nunca se refere a mim! Tenho muito amor por ele, mas ouço-o mencionar apenas o seu Pai do Céu, em tudo me relegando, como se eu nada fosse para ele.

— Não te aborreças por isso, José!

Jesus, a conversar com os presentes, captou aquelas energias de José e se retirou para o lado dele, dizendo:

— Dentre os homens da Terra ninguém é mais feliz do que eu, porque tenho um pai carnal e um Pai celeste que é Deus. Meu pai, graças te dou por teres gerado a mim, e também à minha mãe rendo graças por ter-me concebido! Aos Céus rendo louvores, porque neste mundo ninguém teve um pai tão bom quanto o meu! Agradeço-te, meu pai, porque me embalaste no colo quando eu era pequenino, e te agradeço, minha mãe, por estares sempre ao meu lado. Meu pai, teus olhos estão tristes, mas o meu amor é maior do que a tristeza do teu coração. Pai, não estarás sozinho! Por onde eu estiver, sempre rogarei por ti! Agradeço a Deus por este momento. Não verás na Terra, com os olhos carnais, o Filho do Homem. Não verás o meu sofrimento, a minha dor. Não verás o Filho do Homem sendo chicoteado, surrado, humilhado. Não, na carne teus olhos não me verão assim! Mas estarei contigo e rogarei ao Pai do Céu que estejas muito feliz!

José disse:

— Meu filho, não são nada boas estas tuas palavras!

— Meu pai, não crês que eu sou o Messias? Crês em mim, pai?

— Creio com toda a força da minha alma e do meu coração!

— E não leste o que de mim está escrito? Muitas dores virão, muitas lágrimas serão derramadas, mas para dar testemunho da verdade é que estou na Terra, meu pai, meu coração, minha vida e meu amor!

Jesus o abraçou sob lágrimas de comoção e José disse:

Sob lágrimas estavam pai e filho, sem mais ninguém a vê-los e ouvi-los, pois Maria já se havia retirado. Mas Jesus saiu dali feliz para ir ter com os demais.

Começou a distribuição dos pães. Jesus tomou de um copo de vinho e disse:

— Bebei todos vós em minha honra! Bendito seja o Pai que está nos Céus, porque nos deu a vinha e hoje bebemos do fruto da vinha! Assim como é aqui glorificado, também no Reino dos Céus será glorificado este dia, porque o meu Pai fará muitas belas coisas através das minhas mãos - porque eu estou no Pai e o Pai está em mim! Os meus tempos ainda não chegaram, mas um dia haverão de chegar, e nesse dia vereis multidões e multidões tentando tocar em mim. Porém, ainda não é chegado tal tempo - porque para cada tempo existe um tempo e tudo há de acontecer no seu tempo. Não cai uma folha de uma árvore sem que seja pela vontade do Pai; não cai à terra um fruto verde. Tais dias chegarão, mas ainda estamos a prepará-los.

Jesus bebeu e comeu, e os familiares e todos os demais dormiram.

No outro dia, todos acordando, não encontraram Jesus. Ele se fora para não se sabia aonde.

Levi e Tiago retornaram então para Damasco.

JOÃO BERBEL