XXVI - LEVI VISITA ROMA

XXVI - LEVI VISITA ROMA

Em Damasco, eis Paulo dizendo a Levi:

— Já és homem! Viajaste por ti mesmo e não deves mais temer as viagens. Encontraste Jesus?

— Sim, e não tenho dúvida alguma de que ele é o Messias.

— Por quê?

— Vi coisas maravilhosas e que ninguém neste mundo pode ver, mas Jesus pediu que me silenciasse sobre isso, porque os tempos dele ainda não chegaram.

— Quão bom é ouvir isto dos teus lábios!

No outro dia Paulo foi à sinagoga e lá Levi o convidou:

— Vamos até a casa de Joana, pois ela deve estar ansiosa por alguma notícia de Jesus.

Foram então à casa de Joana naquela manhã e encontraram-na alimentando as tantas crianças de que cuidava. Disse Levi a Paulo:

— Ela faz a mesma coisa que faz Maria. Que coisa bonita! Incentiva os jovens a não matarem e não roubarem, aconselhando-os a terem uma vida justa, com harmonia e amor, com o coração voltado a Deus. Mas há também as forças trevosas tentando apagar a luz!

Vendo Levi que chegava, abordou-o Joana:

— Estiveste com Jesus?

— Sim, estive e vi belas coisas! Ele disse que ainda não é chegado o tempo dele.

— Que maravilha! Que boa notícia! Eu o esperava há muito tempo. É preciso que leves notícias de Jesus a Benedites.

— Ora, Joana, Benedites é quase um senador, e um dos conselheiros de César e viaja com as suas tropas. Ele esteve por aqui?

— Sim, antes da morte de Barnabé. Foi uma visita rápida. Levi, tens um conhecimento maior do que o dos outros jovens e então por que não vais até Roma e falas de Jesus a Benedites?

— Estás louca, Joana?! Ele não me receberia. Ademais, a viagem é muito longa, oferece muitos perigos. Ainda não estou preparado para uma tão grande jornada.

— Não te preocupes quanto a isso! Breve virá aqui o grande centurião Cornélius, que está acima dos maiorais de Roma. Já esteve três vezes aqui em casa, a mando de Benedites, para obter notícias nossas. Porém, há muito ele não vem por aqui e certamente já está por vir. Se vier, pedir-lhe-ei que te leve até Benedites e depois te traga de volta. Há muitas tropas fazendo essa viagem e já se fala até em viagens por navios. Porém, as embarcações são pequenas, não comportam muitos homens, e é em razão disso que persiste o transporte terrestre.

— Que bom seria, Joana, se eu pudesse ir!

— Se chegar alguém de lá, indagarei sobre isso.

Passaram alguns meses e Levi se aplicou bastante na sinagoga, estudando sobre as profecias quanto à vinda do Messias.

Certo dia apareceu em Damasco o militar Oscar, desembarcado de um navio. Chegando em casa de Camarfeu, dialogou com ele, e, esperançosa, Joana tentou também se lhe aproximar. O marido ordenou que ela se retirasse, porém, Oscar, educado, pediu que ela se lhe aproximasse.

— Sei que vieste de navio - disse-lhe Joana - e eu gostaria de lhe pedir um favor. Levi é um jovem estudioso e muito inteligente. Ele gostaria de avistar--se com Benedites em Roma e, bondoso coração que és tu, certamente que não lhe negarás tal ajuda.

— Sim, e acho que Benedites até ficará muito feliz com a presença dele, porque ele nem sai de casa e é muito querido pelas autoridades de Roma, por sua inteligência e dedicação. Benedites está sempre preocupado em saber notícia destas paragens. Da última vez que vos visitou, chegou e retornou rapidamente. Pois bem! Dize a esse jovem que se prepare para a partida daqui a uma semana, pois a nossa estada aqui será também muito rápida.

Feliz, Levi então se preparou para a viagem, sob a euforia dos amigos e dos pais.

Chegou o dia. Levi foi levado até o Mar da Galiléia e lá embarcou com os soldados.

Era algo novo para aquele jovem. O navio pouco se afastava da costa, sempre oferecendo a visão de terras e terras novas.

Chegando a Roma, imediatamente Oscar se ocupou do levantamento da sua tropa, do relatório de viagem que haveria de entregar aos superiores.

Nisto o auxiliou Levi, que tinha muita dificuldade com a língua estrangeira, mas já absorvera algo no pouco convívio com os romanos.

Oscar entregou às autoridades o seu relatório e se direcionou com Levi à casa de Benedites.

Oscar se adiantou e anunciou a Benedites que ali estava um visitante judeu, e então o coração dele se alegrou, dizendo:

— Manda que entre. Ele é daqui mesmo?

— Não! Veio de Damasco.

Levi, que mal conhecera Benedites, viu-o ali na figura de um senhor bem maduro, de barba e cabelos longos e encaracolados.

Os dois se abraçaram e Benedites pediu que o jovem se sentasse, indagando-lhe:

— Quem mesmo és tu?

— Sou Levi. Meu pai é pregador numa sinagoga. É pequena, mas atende bem aquele local.

— E de qual região vens?

— De Damasco.

— Ora, então conheces a minha família.

— Sim, e é a mando de Joana que estou aqui.

— E qual é a boa notícia que o jovem me traz?

— Estive com Jesus! Acredita se quiseres: ele é o Messias! Os olhos de Benedites brilharam e ele disse:

—Acredito com toda a força do meu coração e da minha alma! Louvado seja esse Senhor!

— Acredita: ele é diferente do que imagina o meu pai e do que todos dizem dele. Jesus prega com amor! Diz que andará no meio dos pobres, das prostitutas e ladrões. Ele é sempre alegre. Estive na casa dele e bebeu vinho conosco, se alegrou conosco e até dançou.

— Levi é o teu nome... Mas ele dançou?!

— Sim, dançou e dançamos com ele, como se fizéssemos uma festa de porém disto nada posso falar, porque ele me pediu silencio.

— Não, Levi, não é preciso! Mas não tens lido nas Escrituras que ele, o Messias, seria simples, que andaria no meio dos homens e muitos não o reconheceriam? Então está tudo muito certo, não há nada errado! Está lá gravado nas Escrituras: o Messias descerá dos Céus, andará entre os homens e eles não o entenderão; muitos o ouvirão e não crerão; muitos verão e não acreditarão. Sim, acredito! Ah! Tenho muita vontade de colocar os meus olhos sobre Jesus, mas não tive ainda a permissão.

— Permissão de quem?

— Acho, Levi, que a permissão vem de Deus. Escuto uma voz e vejo um senhor que se apresenta à minha frente. Eu estava aborrecido aqui em Roma. Os navios vão buscar trigo, alimentos, tributos. Fui num deles até Damasco e rapidamente tive de visitar meu pai e os familiares, porque assim mesmo me dissera aquela voz daquele senhor: que eu fosse, fizesse logo o necessário e voltasse rapidamente para Roma. Não acreditei naquela voz, achando que não seria verdadeira. Na madrugada acordei com um ruído. Ergui-me e vi um homem. Ele se voltou e vi que era aquele mesmo ancião que costumeiramente se me apresentava. Ele disse: — Vai, meu filho! Vai ver o teu pai, pois ele precisa de ti. Porém, faze rapidamente o que tens de fazer e retorna. Não é muito bom que te demores naquela região. Ele abriu a porta e saiu. Quando me virei, vi que eu dormia, e então me lembrei de que aquilo já havia ocorrido várias vezes comigo. Foi assim que segui para Damasco e lá vi meu pai dar os últimos suspiros. Lá ouvi Joana falar muito de Jesus e ela me confirmou tudo isto que ora me dizes. Pude receber a bênção do meu pai e ouvir dele que já partia. No outro dia ele partiu e então viajei imediatamente para cá e não mais estive lá. Já não saio mais daqui e a minha idade vem chegando. Eu precisava sentir Jesus! Gostaria de conversar com cie, tocar nele, mas acho que não conseguirei. Talvez que tenha de ficar por aqui mesmo. E há quanto tempo vivo aqui! Contemplo estes prédios, estas construções e então sinto tanta saudade de casa, de quando eu era criança! Meu pai sentado ao meu lado a me aconselhar, as dificuldades de mamãe, o carinho e o amor que nos dedicava... O tempo foi passando e nesta vida fui tendo apenas surpresas, situações inesperadas. Mas se me perguntares novamente se acredito em Jesus, respondo-te convicto: certamente que acredito! Já ouvi muitos sérios homens falando da vinda de Jesus e realmente o Messias já está na Terra. Porém, dize-me mais coisas, conta-me mais notícias de lá!

- Ora, posso falar-te de João, que se tornou o Batista. Ele batiza multidões nas águas do Jordão e afirma que o Messias batizará com o fogo do Espírito Santo. São muitos e muitos os que procuram João, e não poucos os que enxergam nele o próprio Messias, pela sua força e pelo seu palavreado. Tive a oportunidade de estar na sinagoga de Zacarias, pai de João. Estive lá acompanhado de Paulo e bem vimos João gritando e gritando, num comportamento bem diferente daquele de Jesus.

Quando se refere a Deus, Jesus o faz chamando-0 de Pai dele, e o seu olhar se torna então muito penetrante. Quando nos fita, parece entrar dentro da gente. E' um homem muito belo. Seus cabelos são grandes até o ombro e têm a cor do ouro. Sua barba é bem cerrada e claros são os seus olhos. Não é visto homem assim tão belo naquela região. E Maria e Joana são também muito belas. Mas a própria pele de Jesus se mostra diferenciada de qualquer outra criatura. Ele é de alta estatura. E muito simples e sempre quando fala se vê cercado de gente. Nunca está sozinho. Ora, a mulher de Paulo estava toda imunda, muito doente, e foi curada pelo toque de Jesus. Vi muitas curas de Jesus, coisas que outro homem não faz. Ele toca nas pessoas com muito amor. É um toque diferenciado: somente toca quando está fixando os olhos das pessoas, estas tentando desviar o olhar e não o conseguindo. Então ele diz coisas maravilhosas, coisas novas. Benedites, precisas encontrar Jesus!

— Não posso! Sou fiel àquele senhor que me guia - porque tudo o que ele anteviu sobre a minha vida realmente aconteceu. Hoje não quero ocupar o posto de senador ou outros postos mais da hierarquia militar. Prefiro mais seguir o senhor que me aconselha a bem usar as palavras. Quanto a ti, tornar-te-ás um sacerdote, um pregador, e então hás de te preparar. Há de preparar os filhos para que sejam homens bons e vivam também aqui.

— E quanto a Roma?

— O mundo é muito grande. Hoje Roma domina muitas outras regiões diferenciadas de Israel, lá onde até se cultuam religiões diferentes da nossa. São todos filhos de Deus que estão no mundo e devemos respeitá-los a todos. Com a vinda desse Messias, estou certo, teremos muita ajuda. Mas, Levi, que bom que vieste! Hoje beberemos do bom vinho. Vê: estou bem aqui, com bons móveis e até um tanque de banho. E quando vem o frio temos a proteção contra ele. Aqui é muito mais frio do que por lá. Estamos na estação do calor, mas o frio já começa a aparecer.

— Percebi mesmo o frio da noite em nossa viagem. Oscar até me passou um agasalho para que eu pudesse defender-me do frio.

— Esta será uma noite um tanto fria e tu és o meu convidado. Aqui há isto nao comeremos esta noite, hoje cearemos a nossa maneira, apenas tu e eu. u meu vinho é do melhor e estou certo de que não bebeste outro tão bom quanto ele. Tenho pães. Hoje nos lembraremos do nosso tempo, recordaremos que os tempos estão chegados, que já veio o Messias para libertar o nosso povo. Faremos a nossa ceia em homenagem a Jesus!
Levi se sentou então no chão, coisa que muito estranhou. Na mesa de pedra, muito bem polida, foram colocados os pães.

Benedites disse:

— Cearemos somente depois que o Sol se for, como é do nosso costume. Logo escureceu e Benedites acendeu os candeeiros.

Levi observou que na rua haviam sido acesos uns tantos candeeiros, notando, surpreso, que toda a cidade estava iluminada.

— Como é maravilhoso! - exclamou Levi. — Lá em Damasco há apenas algumas parcas luzes nas ruas, enquanto que aqui está tudo iluminado!

— A dificuldade de lá está na aquisição do óleo, que para vós é muito caro. Quanto a nós, temos navios e pescadores que matam as baleias e delas retiram o óleo de iluminação que aqui temos com fartura. Mas chegará o dia em que verás, Levi, a mudança nas coisas. O Messias tudo mudará, estou certo disto.

Benedites serviu o vinho, sob a admiração de Levi quanto à beleza dos copos, dos talheres.

— Que vinho bom! - exclamou Levi.

— É o ótimo vinho bebido por César e seus convidados.

— E como é César? É um homem muito bravo e nervoso?

— Não! Muito pelo contrário: é um homem bom, generoso e justo.

— Mas são tantas as injustiças de que ouvimos falar com relação ao Império Romano! Falam da crueldade dos soldados...

— Levi, os soldados agem por conta própria. Se fosse pela vontade de César, sangue algum seria derramado. As coisas não são da forma que o povo imagina. A violência é praticada somente em cima dos saqueadores. Eles devem comer, mas têm de respeitar a lei, e não roubar dos trabalhadores o seu sustento. Os soldados são então obrigados a trabalhar neste sentido, para garantia da ordem. Observa bem! Se pagam normalmente o tributo, isto é supervisionado pelos soldados. Ora, se não houvesse a proteção deles, o que aconteceria? O saqueador ataca tudo e ainda zomba das vítimas, estupra. Então isto há de acabar.

Os soldados têm de agir nesses casos. Prendem os infratores e os levam as autoridades, a exemplo de Pilatos e Herodes, dentre os que conheces, e de outros tantos governadores. Todo um relatório é efetuado para cada caso. Viste como hoje tudo está mudado? Hoje temos nas sinagogas e lugarejos públicos os cobradores de impostos, que conhecem todas as pessoas e retiram delas somente o justo. Quando chega aos romanos a notícia de que certo cobrador está exorbitando na cobrança, visando lucro próprio, ele é prontamente punido e destituído do seu cargo. Mas ocorre que todos têm medo de se manifestar, denunciar os injustos. Se Roma vem a saber, não deixa de mandar punir o ambicioso infrator. Foi por isso que elegemos as sinagogas e seus dirigentes e frequentadores, para que as próprias pessoas fiscalizem os atos de cobrança de impostos, juntamente com as tropas romanas. Então o nosso trabalho surgiu para ajudar os nossos irmãos, e não para prejudicá-los. Jamais mandaríamos daqui uma tropa para aterrorizar as famílias, o nosso povo. De forma alguma! Já tive a oportunidade de enfrentar a ação dos saqueadores e fui salvo pela graça de Deus e do meu invisível protetor. Então sei de tudo. compreendo tudo. O palácio é um tanto longe daqui, mas há sempre guardas à minha disposição. Aqui é tudo muito bonito, mas às vezes sinto uma grande tristeza dentro de mim, a vontade de voltar ao meu povo, de retornar à casa de Maria, visitar Cafarnaum, Damasco. Eu desejaria estar em qualquer canto de Israel, junto da minha gente! Eu desejaria tirar dos pés as alpercatas e caminhar descalço por aquelas areias, sentir a brisa que me acariciava o rosto quando criança. Tudo isto é forte dentro do meu coração! Porém, sinto que estou envelhecendo, um outro mundo à minha volta. As vezes César me chama para os seus banquetes. Sentindo-se satisfeito com o trabalho das tropas, ele às vezes me convoca para me agradecer e trocar idéias. As vezes reúne os comandantes para que eu palestre à frente deles.

Tudo o que falo é exaltando a grandeza moral do homem, a grandeza de ser bom e justo. Falo-lhes da cegueira que faz perder o homem por demais ambicioso. Lembro-lhes do que sentimos quando trabalhamos com amor: a grandiosidade de Deus diante de nós.

— Mas, Benedites, andas em torno de César e dize-me então: César acredita em Deus?

— Sim, mas acredita num Deus diferente do nosso. Crê nisto!

— E falas de Deus às tropas?

— Sim, digo abertamente o nome de Deus. Não posso tomá-Lo sob falso testemunho e sempre reafirmo aos capitães e aos demais que existe um Ser Superior que está sempre ao nosso lado e a quem devemos respeito. Digo-lhes que família passam a crer em Deus, embora não da forma que acreditamos. Porém, aqui não se pode falar em religião. Aqui não há religião, e se algum soldado professa alguma religião, isto é problema dele e não de César, que jamais negou a ninguém o direito de professar qualquer religião. Ele sempre respeita os judeus e a sua religião. Tanto é assim que a ordem dele é para que soldado algum interfira na religião dos súditos: todo o povo judeu pode promover livremente o próprio ritual. Soldado algum violentará o templo ou desrespeitará uma sinagoga ou qualquer local sagrado, em qualquer parte do Império. Isto é ordem direta de César, e aqui quem desejar pode fazer as suas orações. Eu oro toda manhã e toda tarde, e agradeço sempre a Deus a oportunidade de estar aqui. Então me sinto feliz, com o coração repleto de alegria, porque não vim aqui por escolha própria, e sim daquele que está bem perto de Deus e sempre me mostra o caminho certo. Então bebamos e comamos! Lembremo-nos daqueles nossos irmãos escravos que foram retirados do Egito, da fome que aquelas crianças e aqueles velhos passaram. Muitos tombaram, não resistiram à viagem penosa, mas era da vontade de Deus. Brindemos então em homenagem a esses irmãos!

Beberam, comeram, riram contentes.

Benedites recordava saudoso o seu tempo de criança, a primeira vez que ia beber vinho e foi proibido por seu pai, que depois lhe passou o vinho dizendo que ele era sagrado.
Foi uma noite muito feliz para os dois novos amigos.

No outro dia se ergueram cedo, quando os candeeiros já estavam apagados. Caminharam pelas ruas da grande urbe, contemplaram obras portentosas, Levi se mostrando admiradíssimo com tudo.

Um mês se passou, quando então uma tropa seguiria para Damasco e nela ingressaria Levi.

A viagem seguiu. Levi conversava com um e outro dos tantos soldados e logo se deu conta de que realmente eles não eram inimigos do povo de Israel. Muitos demonstravam a alegria, a felicidade estampada no rosto pelo fato de poderem atender à necessidade do povo judeu. Entendeu então que Benedites estava absolutamente certo em tudo aquilo que falava sobre isso.

Semanas decorriam. Passaram nas regiões adjacentes à Pérsia e à Babilônia, ali onde numerosos eram os salteadores. Naquele território neutro perpassavam muitas criaturas oriundas do mundo antigo e distante hoje chamado Mongólia. Eram criaturas à procura de vida fácil e que se detinham quando avistavam as tropas romanas, a lhes provocar medo e respeito por suas próprias reluzentes armas e vestes vermelhas e douradas. Diante daquelas tropas de um até quinhentos homens, recuavam os salteadores e a região já se tomava um tanto livre deles.

Não obstante esse forte sentido de proteção, os judeus olhavam os romanos com olhos de insatisfação. Eram inúmeros os que os detestavam pela cobrança de impostos que lhes impingiam.

Chegando a Damasco, Levi descansou em casa por dois dias.

Logo que saiu, encontrou Paulo e então dialogaram sobre aquela viagem.

Levi exaltou ao amigo a beleza de Roma, e os dois, conversando, foram ter à casa de Joana, encontrando-a rodeada de crianças.

— Meu filho, aproxima-te! - disse Joana ao ver Levi ali chegando. Levi se sentou e foi logo relatando todas as suas impressões da viagem, agradecendo a Joana pela oportunidade que lhe abrira. Disse que foi uma viagem fantástica, que conheceu novos povos e terras.

— Deste-me um grande presente! - disse ele a Joana. —Aliás, dois presentes me deste: a viagem e a bênção de conhecer Benedites. Ah! Joana, ele tem uma tal paixão pelo nosso povo que nem podes imaginar. O coração dele transborda de alegria ao falar da nossa gente, da vontade de vir para cá, e os olhos dele se orvalham. Quando Oscar lhe anunciou a minha chegada, ele parecia querer desmaiar de contentamento. Ele me recebeu maravilhosamente. É diferente dos demais de lá: é igual a nós, veste-se da forma que vestimos. Seus cabelos e sua barba são longos, diferentemente dos romanos, que têm barba e cabelos cortados. Ele se veste como se fosse um sacerdote e é muito respeitado. Crianças vão até ele e ele as ensina com amor. Ensina também os comandantes e todos o respeitam como se ele fosse um mestre. É muito grande o conhecimento dele. Fiquei mesmo imensamente feliz ao lado dele. Quando eu encontrar Jesus, falar-lhe-ei de Benedites e direi da vontade dele em conhecer o Messias. A viagem foi muito cansativa, mas assim que estiver descansado procurarei Jesus e lhe direi que do outro lado do mundo existe um homem muito bondoso e que deseja conhecê-lo.

— Não te aflijas com isto, Levi. Ora, não achas que Jesus já sabe destas coisas? Benedites não recebe a visita de um espírito? Ora, se Benedites tem tal graça, imagina então Jesus! Quantos não seriam os espíritos que Jesus teria à sua volta, falando com ele? De tudo o que acontece Jesus tem informação. Lembra-te de Orlinda, a mãe de Benedites? Ela ficou doente, não foi? E Jesus não apareceu lá? O pai dele também ficou doente e Jesus nao o visitou, se Jesus sabe dessas coisas e dessas pessoas, sabe também de Benedites. Mas digo-te: não há apenas Benedites, e sim outros e outros, noutros lugares, que muito e muito se alegrariam se pudessem conhecer Jesus, senti-lo, dialogar com ele. Ah! Como é bom estar perto de Jesus, de Maria! Quanta paz Maria transmite! Muitíssimo grata sou a Deus por ter-me colocado junto de Maria! Cresci ao lado dela e isto é uma glória! Ora, de Maria somente poderia nascer mesmo o Messias. Se há na Terra uma mulher de grande amor no coração, esta é Maria! Não, jamais vi outra mulher igual a ela! Isto posso garantir! Que felicidade! Ah! Levi, se não fosse por meu marido, eu bem que desejaria ir à casa de Maria, visitar Jesus mais uma vez, segurar na mão dele, ouvir aquela sua voz, sentir aquele olhar irradiando coisas maravilhosas. Como é grandioso! Talvez que lá de longe Jesus esteja captando os meus sentimentos e as minhas orações. Talvez que um daqueles anjos que assistem Jesus possa vir até o meu marido e convencê-lo a me conceder mais uma oportunidade de ir até a casa de Jesus e Maria.

— Ora, Paulo é muito amigo do teu marido e nisso poderia ajudar-te.

— Por falar no meu marido, ele está ansioso para conversar contigo e obter as notícias do irmão dele. Infelizmente ele não está aqui agora, mas à tarde estará. Se não for pedir-te muito, eu gostaria que retornasses então à tarde.

Mais tarde, eis Levi e Paulo chegando à casa de Camarfeu, que disse:

— Levi, que bom que tenhas ido a Roma e tenhas podido conhecer o meu irmão! Eu já estive em Roma. Que bom que é aquilo lá! Se a nossa cidade fosse igual a Roma, tudo seria melhor.

— Irmão Camarfeu, o meu coração está transbordando de alegria por ter conhecido o teu irmão. Ele me recebeu de braços abertos, me abraçou fortemente e me disse muitas belas coisas. Quando lhe passei a notícia de que, ao que creio, Jesus é o legítimo Messias, o coração dele se encheu de felicidade.

— Mais uma vez me vens falar desse Messias?! Para te falar a verdade, não acredito nem em Jesus nem em Messias algum! Ora, igual a Jesus, quantos curadores não temos por aí curando as pessoas? Jesus é apenas mais um deles, alguém que sabe falar bem. E agora vens colocar Jesus na condição de Deus!

—Tudo bem! Pediste-me informações de Benedites e ora te digo: ele me disse que já sabia que Jesus é o Messias. Ele pediu para que te aproximes de Jesus e que não barres as pessoas desejosas de irem até ele. Teu irmão me garantiu que virá até aqui. Ademais, daqui a alguns dias, eu, Paulo e algumas mulheres iremos à sabes que tudo o que tens a Benedites o deves. Se impedires Joana de viajar conosco, falarei disto ao teu irmão na próxima vez que encontrar qualquer soldado romano.

Sim, porque agora posso conversar muito bem com os romanos. Lembra-te: viajei de navio para Roma. Ora, se proibires Joana, logo Benedites estará sabendo que impedes a tua mulher de visitar a prima dela!

Camarfeu, sentindo-se premido por aquela situação colocada por Levi, enfim permitiu que a esposa fosse visitar Maria.

JOÃO BERBEL