XXVII - A PÁSCOA NO LAR DE
MARIA E JOSÉ

XXVII - A PÁSCOA NO LAR DE MARIA E JOSÉ

Era chegada a Páscoa e era do costume judeu comemorá-la nos templos e sinagogas.

Uma comemoração também seria efetivada na casa de Maria, local singelo que era um porto seguro às tantas criaturas oriundas de várias regiões, em busca de Jesus, de uma orientação que era sempre proferida com palavras mansas, à semelhança da suave brisa marinha.

Maria se animava, convidando os parentes das redondezas para uma Páscoa de alegria no verdadeiro templo de amor que era o seu lar.

José já estava muito doente, mas mesmo assim, aguardando a sua partida aos planos do espírito, estava feliz com aquela oportunidade de congraçamento com os seus parentes.

Era um homem bom e justo em todas as coisas, e a sua sinceridade era aplaudida por todos.

Parentes esparsos por várias províncias foram chamados para a tão aguardada festividade, e tal convite chegou até o lar de Joana, em Damasco.

Camarfeu, assoberbado com os encargos tantos que assumira após a partida do seu pai, não encontrou situações para ir até a casa de Maria, mas concordou com a ida de Joana.

Assim, Joana, Levi, Paulo e outros partiram à Galiléia.

Levi estava contentíssimo. Era um jovem de muito conhecimento e simplicidade.

Na casa de Maria eram feitos os preparativos para a comemoração.

Logo Maria percebeu que o número de convidados ali presentes excedia em muito o que esperava. Preocupou-se então com o alimento, que era pouco e não daria para toda aquela gente.

Chegou o momento da comemoração. José, mesmo enfermo, ergueu-se lá no quintal em que cada qual se acomodava da forma que podia, saudou a todos e disse:

— O meu coração está hoje repleto de alegria e amor! Sei que os meus dias não se esticarão por muito tempo, porque tal é a vontade do Eterno.
Assim foi com o meu avô, assim foi com o meu pai e assim também será comigo. Os meus olhos estão cheios de felicidade por poder estar convosco nesta noite e fazermos a partilha do pão, festejar nesta Páscoa a memória dos nossos ancestrais, a fuga dos nossos irmãos escravos das terras do Egito, levada avante por Moisés. Que este dia possa ficar ainda na nossa memória, como ficou com o nosso povo em todo esse tempo! Que este pão seja uma nova passagem a uma nova terra, à terra prometida ao nosso povo!

José, emocionado, sentou-se, apoiado por Jesus, que tomou da palavra, dizendo:

— Hoje também os Céus estão em festa, porque aquilo que acontece na casa de meu pai da Terra acontece também na casa do meu Pai dos Céus. Comamos em memória dos ancestrais que não tiveram o pão que ora temos farto, e que ele não seja apenas o pão da Terra, mas também o pão do espírito, do qual eu testifico, para que ele receba tanto quanto recebeis daquele a quem prestais o vosso serviço. Hoje o nosso patrão é o Altíssimo dos Céus, o meu Pai e Pai de cada um de vós, porque antes d'Ele nada existiu, porque Ele é um só, é justo por excelência e nos ama a todos com igualdade. Por tal princípio é que desci a este mundo, para testificá-Lo perante vós. Que este dia seja uma nova aliança para um novo povo e que todo este povo possa obter a glória de Deus, que devagar encontra guarida no vosso coração! Bendito é o Pai celestial que está nas alturas! Que a paz se faça em todo coração de homens de bem que trabalham na edificação de um novo mundo! Tempos tortuosos advirão! Muitas lágrimas se derramarão! Muitas mães correrão em busca dos filhos e não os verão! Muito sangue será vertido na Terra e o luto cobrirá o coração de muitas mães! Gritos lamentosos ecoarão por toda a Terra, porque os homens não compreenderam nem compreenderão a minha mensagem de amor trazida a este mundo. Por este mundo o seu Príncipe caminhará e a cada passo uma palavra de verdade será soberana: aquela que manda vos amardes uns aos outros. E' uma ordem que vem da perfeição do Pai, para que juntos todos possam comer e beber, para que todos entendam que são iguais. Do pior dos homens, habitando as prisões e calabouços, até o mais justo sacerdote a trabalho da Providência, daquele mais pobre que se acha caído na calçada até o mais todos brilha a bondade do Eterno. Porém, muito para muitos será dado, mas muito e muitos serão cobrados, porque aqueles que, nas facilidades da vida, brilham sob a força da prata e do ouro estarão lamentosos e servirão aos galardões da miséria. Porque isto está escrito: que tudo o que está sobre aTerra, mesmo o brilho do Sol que a ilumina, proporcionando a luz da liberdade a todos os corações, tudo atinge a bons e maus; que a chuva cai para todos os povos, para os bons e os avarentos. Nesta noite os Céus nos pedem que amemos e que todo o amor do nosso coração se devote unicamente no pensamento de alcançar o Altíssimo, para que aquilo que foi passado às minhas mãos eu possa entregar a todos os meus irmãos da Terra. Palmilharei este mundo e em todos os corações depositarei o meu amor. Todos verão que o Príncipe deste mundo brilhará por todos os necessitados, nem ao menos um restando para ser tocado por mim, para que a libertação do coração alcance todos os povos. Assim foi no começo e será no meio e no fim! Choram os meus olhos, porque até a chegada da nova Terra muitas lágrimas serão derramadas, muito sangue será vertido. Porém, a justiça prevalecerá sobre os homens! Eles vencerão os céus e a Terra, mas jamais a vontade do Pai, nem aquilo que na Terra eu deixar tal um tesouro para os que possam entender a maravilha de sermos iguais. Mas até que venha a Terra nova, lágrimas e lágrimas correrão no mundo que não podeis entender nos dias de hoje. Muitos e muitos gritarão o meu nome, me louvarão sobre a Terra, em nome do Pai que está nos Céus. Hoje aqui estou porque sou o Príncipe deste mundo, e os vossos olhos me verão em glória ao lado do Pai, olhando por todos os necessitados da Terra. Nem um único coração há de se encontrar solitário, porque estarei sempre rogando ao Pai a proteção a todos os irmãos; bastará um só pensamento, um só olhar ao alto e eu estarei ao lado do desajustado. Sem que vossos olhos então me vejam, minhas lágrimas continuarão caindo por todos os meus irmãos da Terra, porque foi por amor a eles que desci e permaneço neste mundo. Caminharei convosco e rogarei ao Pai que seja cumprida toda a Sua vontade, para que todos os irmãos cumpram na Terra as suas provas, até a chegada do dia final!

Jesus baixou a cabeça perante aquele grupo de visitantes, todos vendo as lágrimas descendo dos seus olhos.

Consolado por sua mãe, ele dali saiu, sem mais uma palavra dizer e deixando que todos ficassem à vontade nos seus festejos pascais.

Solitário, foi ter a um local isolado daquela vivenda, lá onde não atingia a luz dos candeeiros.

Silente ficou ali Jesus por certo tempo, até que Maria foi ter com ele e o viu a fitar o firmamento, onde as estrelas marcavam a muda sinfonia de uma belíssima noite.

Maria lhe falou de suas apreensões quanto à falta de alimento e Jesus lhe disse:

— Não te preocupes, mãe! O Pai dá o alimento a todos os seus filhos! E de fato Maria verificou que de repente o pão e o vinho se mostravam
multiplicados, todos os visitantes se fartando.

Terminada a festa, procuraram por Jesus e, já no amanhecer do dia, acharam-no dormindo sob uma oliveira que Maria sempre cuidava com muito amor.

Maria, preocupada, ouviu dele:

— Mãe, era preciso ceder acomodações às visitas.

Foi visto, pouco distante de Jesus, um ancião barbudo que logo se distanciou dali.

Maria indagou sobre aquele homem que todos afirmaram não pertencer ao grupo de visitantes, e Jesus esclareceu:

— E' Unair. Ele esteve a me vigiar esta noite. Antes que eu nascesse, o Pai enviou à Terra vários colaboradores para que fossem pregando ao povo a vinda do Messias. Unair é um deles.

JOÃO BERBEL