XXVIII - A PROVAÇÃO DE JOANA E LEVI

XXVIII - A APROVAÇÃO DE JOANA E LEVI

Chegando a Damasco, Levi encontrou o seu pai à beira da morte. Desesperado, invocou a presença de Jesus.

O velho pregador deu os seus últimos suspiros e, de repente, eis que todos os que ali estavam presentes viram a aproximação de um homem de branco acompanhado de um grupo de homens. Era Jesus e seus seguidores.

Jesus se aproximou daquele homem desfalecido, tocou-o e ele se reanimou, erguendo-se e dizendo:

— Agora realmente acredito na força do Altíssimo! Jesus chamou Levi e lhe disse:

— Teu pai não estava morto. Foi despertado para que a glória do meu Pai seja por todos respeitada. Porém, já é chegada a hora dele e assim há de ser!

De fato, logo aquele homem tombou para não mais se erguer.

Jesus logo se foi dali com os seus seguidores. Levi, com a morte do pai, assumiu a sinagoga, começando a pregar entusiasticamente a vinda do Messias na figura de Jesus de Nazaré, exaltando as maravilhas por ele realizadas.

Aconteceu que os anciãos frequentadores daquela sinagoga, antigos seguidores da tradições até ali mantidas, insurgiram-se contra Levi, expulsando-o dali. E também os familiares e companheiros de Levi o repudiaram, ele sendo de repente jogado à rua, sem morada e sem recurso.

Arrasado e incompreendido, Levi foi ter à casa da amiga Joana, que o consolou o quanto pôde. Entretanto, Camarfeu, ciente daquela situação, foi firme e forte à presença de Joana e Levi, dizendo palavras ásperas contra Jesus e seus seguidores e invitando Levi a retornar à sinagoga, abjurar a sua crença em Jesus e assumir a antiga postura do seu pai, totalmente fundada nas tradições e um tanto avessa à aceitação de Jesus.

Naquela tarde, eis Levi retornando aos seus e à sinagoga, onde foi apresentado na qualidade de orador daquela casa, em memória de seu pai. Pregou os Dez Mandamentos, a liberdade conseguida pelo povo judeu no Egito, e naquela noite não pronunciou uma única palavra sobre Jesus e a sua missão.

No dia em que as mulheres podiam frequentar a sinagoga, Joana foi até lá e ouviu Levi pregar. Triste, baixou a cabeça em certo momento e se movimentou à saída, sendo então abordada por uma daquelas mulheres:

— Não podes sair antes do término do culto! Ela respondeu:

— Minhas orações já foram concluídas. Orei ao Altíssimo com toda a força do meu coração e pedi a proteção do nosso Pai ao nosso irmão Levi, para que ele não caia em tentação, para que a verdade e o poder do Espírito Santo o possam amparar.

Joana saiu e, chegando em casa, sentou-se em sua cama e começou a rememorar as palavras que Jesus havia dito a Levi:

— Conhece a verdade e a verdade te libertará. Hoje crês em mim, mas dia virá em que não terás a mim, e então não terás a verdade diante de ti.

Preocupada com Levi, a piedosa Joana tentava relembrar palavra por palavra do que Jesus lhe dissera.

Devagar Joana foi fechando os olhos, até que adormeceu. Sonhou com as águas de um riacho, águas que de repente se foram aumentando, aumentando, formando uma enormíssima queda d'água.

Sentada numa pedra, ela observava, amedrontada, o crescimento gigantesco daquelas águas. A certa altura sentiu um toque no ombro e então viu Jesus. Com o polegar, Jesus enxugou as lágrimas do rosto dela e disse:

— Por que choras, mulher? Muitos verão e não compreenderão! Muitos ouvirão e não entenderão! A minha mensagem é como essa água que ora vês: começa pequenina, mas crescerá, crescerá c crescerá, até se mostrar incontrolável na mão dos teus irmãos judeus. Foi mesmo para este princípio que vim à Terra. Não te preocupes com Levi. É chegado para ele o momento da prova. Também para ele chegou o momento da escuridão, para que ele se liberte dela. Ele sobreviverá e muito nos ajudará. Não te perturbes quanto a isto. Eu disse: conhecei a verdade e ela fará de cada um de vós um homem novo. Enquanto não provarmos as trevas não entenderemos a grandeza da luz. Ouve: é sempre da escuridão que sai a luz! Não temas mal algum, porque todo aquele que meu Pai me concedeu permanecerá comigo, e aquele que não caminhar comigo não terá sido dado por meu Pai.

Jesus sorriu e Joana, consolada, tocou naquelas águas e bebeu, sentindo então um conforto e uma felicidade sem tamanho.

Logo que a imagem de Jesus se desvaneceu à sua frente, Joana acordou. Olhou para um e outro lado e, vendo Camarfeu ressonando, sorriu e exclamou:

— Louvado seja o Senhor! Ele conhece todas as suas ovelhas! Acordando no outro dia, logo Joana foi preparar os pães para alimentar as várias crianças que já iam chegando. Alegre, distribuiu-lhes o pão, dedicando-Ihes todo o seu amor, sempre lhes falando de Jesus, recomendando que fossem bondosas iguais a ele, garantindo que Deus havia mandado Jesus à Terra para acudir todas as crianças e se dizendo feliz por ter conhecido Jesus.

Dedicada àquela sua tarefa matinal de muito amor e carinho, Joana nem percebeu a presença de Camarfeu, a observá-la e ouvi-la recomendar às crianças que não roubassem, não matassem, não maltratassem ninguém.

Após aquela distribuição e aquele colóquio fraterno com as crianças, Camarfeu chamou Joana e disse:

— Não viste que Levi, com o seu fanatismo para o lado desse Jesus, quase perdeu o seu lugar lá na sinagoga, em substituição ao pai dele?! Se não fosse eu, o que teria sido daquele menino?!

— O que será de ti, meu marido, sem Jesus?! Sim, o que será de ti?!

— Então ousas desafiar-me?!

— Lembra-te de que Jesus disse que teu irmão Benedites é um dos pilares da missão dele e que nele será assentada a pedra da Boa-Nova do Messias à Terra. Se não sabes, Deus está em toda parte e ouve o que falas e eu falo. Nesta vida, meu marido, não quero errar, e sim acertar o máximo que puder, porque sei que um dia Jesus estará comigo lá no Céu!

— Ora, mulher, então estás a me afirmar que estou condenado ao Inferno?! E por que é que vou para o Inferno? Será por tratar de ti e não aceitar as tuas tantas mentiras? Por que colocas Jesus como se fora Deus? Ele é Deus?

— Para mim ele é um deus: o deus que pode curar os enfermos, o deus que olha pelos pobres, famintos e desesperados. O deus que não sente vergonha de se dizer pobre e afirma que os pobres herdarão um galardão de ouro e os ricos viverão apenas das misérias da Terra.

— Ora, minha mulher, hoje sou rico, porque o meu pai foi bem-sucedido na vida e me deixou uma grande herança, o que me faz um homem de poder sobre os outros homens. Então esse Jesus prega que serei um miserável?!

— Não, Jesus não prega que serás um miserável. Ele prega que todos os homens devem arrepender-se e que a todos é concedida uma nova chance, bastando deixar que os ensinos do Messias penetrem na alma deles e assim se modifiquem.

— Estás endoidecida, mulher! Não andas falando coisa com coisa! Acho que nem é bom ficarmos conversando muito sobre esse Jesus. Quanto ao meu irmão, tens razão, é igual a ti. Ainda bem que ele está longe de nós, porque, caso contrário, eu não o toleraria, de forma alguma.

— Por que não o tolerarias? O conhecimento e o poder dele são enormes. Se desejasse, poderia ser até mesmo um senador de César em qualquer parte dos domínios de Roma. Garanto-te que nem mesmo César, com o seu alto poderio, poderia ser tão ignorante quanto tu!

— Ora, bem sabes o que fazem os romanos! Promovem mais pobreza e ódio por toda parte!

— Sabes também que pelas mãos bondosas e abnegadas de Benedites é que uma situação agradável se instalou para o nosso povo. Imagina se fosse como antigamente, os soldados romanos penetrando nas casas e levando as posses das famílias! Ora, hoje é tudo diferente e a ti foi dado tal serviço de cobrador. Barnabé, meu sogro, era um homem justíssimo e acreditava piamente em Jesus, mas nada disto herdaste dele. E o que seria então de teu pai se não tivesse a atuação benéfica de seu filho Benedites, o judeu que se tomou romano por piedade e amor ao seu próprio povo, ele que, tão dedicado ao seu trabalho, não pode nem mesmo vir visitar-nos? E sabes por quê? Porque há muitos que o admiram grandemente, mas há também muitos que o odeiam e querem matá-lo por causa do censo que ele instituiu, por causa de ti mesmo, um cobrador de impostos. Ele sabe que tais pessoas inconformadas são aquelas que têm grande poder aquisitivo, enquanto que aos miseráveis não tem coragem de levar ainda mais à miséria. E há muitos homens bons, iguais a ti, que foram preparados por Deus para exercer essa profissão e que hoje estão no Céu, tudo para que a miséria não se estendesse ainda mais no nosso povo. Ora, se perguntares a Benedites se ele acredita em Jesus, afirmá-lo-á com toda a força do seu coração. E te reafirmo mais: Jesus disse dele que é um dos escolhidos para preparar o caminho do Messias na Terra.

— Sim, o meu irmão tem mesmo dessas coisas, tem muito dessas almas crentes por aí, mas eu, de minha parte, não acredito muito nisso. Continuarei fazendo o meu trabalho da melhor forma possível. Quanto a ti, mulher, por favor, não pregues tais coisas na cabeça do pobre Levi! Ele tem toda uma vida pela frente e, com a tua teimosia, podes fazer com que perca toda a vida dele.

Mas, Camarfeu, a vida é coisa muito diferente do que imaginas. Não, não é como a julgamos! Se olharmos para o nosso passado, veremos a alegria dos nossos ancestrais sabendo da vinda de Jesus à Terra. Não te lembras do teu pai e dos amigos dele? Não sabes o quão movimentada é a casa de Maria! Todos querem ver, tocar em Jesus. Lá chega gente de muito longe para se avistar com Jesus, conversar com ele.

— Pois bem! Eu não corto em ti essa tua fixação em Jesus porque prometi ao meu irmão que não interferiria nisto, mas, pelo amor que tens no Eterno, vê o que fazes! Não sou um homem sem religião. Sempre frequento a sinagoga, sempre deposito as minhas orações aos pés de Deus. Deves saber que há muita gente que me detesta, por ser cobrador de impostos. Odeiam-me o tanto que odeiam o meu irmão. Porém, tento agir da melhor forma possível para poder agradar a todo mundo, segundo a vontade do Altíssimo. Nasci e cresci nesta cidade, sei quem tem muito, sei quem tem pouco e sei quem nada tem. Então procuro controlar tudo da melhor forma para poder enviar a César o que é de Cesar. Garanto-te que recebo poucas reclamações, mas mesmo assim muitos homens e mulheres não deixam de me olhar com maus olhos. Estou informado de que têm ocorrido saqueamentos em Jerusalém e que há lá malfeitores por todo lado, sem que os romanos consigam manter a plena ordem. São as preocupantes notícias que me chegam. Mas graças ao Altíssimo estamos aqui numa cidade muito pacata e serena, com pouca movimentação financeira, e então não há com que ficarmos preocupados.

—Até nisso concordas com Jesus, que sempre diz que ninguém assaltará os pobres e sim os ricos, que os homens tanto pecam guardando e guardando lodo o seu dinheiro que no fim da vida não têm como desfrutar dele, às vezes se enfermando e morrendo; que aquele que é rico se tornará pobre e que o pobre se tornará rico.

— Não acredito em tais coisas! Isso não pode ser verdade de forma alguma. Onde ficaria o valor da honestidade do homem se não for levada em conta? E onde estaria o valor do trabalho do homem?

— Jesus disse que todo trabalho executado com amor é bem apreciado pelos olhos de Deus e que todo trabalho realizado sem amor também não escapa aos olhos do Altíssimo, que castiga os que descumprem a lei de amor.

— Ora, deixemos de discutir, pois hoje tenho coisas e coisas a fazer. Mas hoje vejo-te contente e feliz, após vários dias em que te mostraste triste por causa de Levi. Nem quero saber o motivo da tua alegria!

-A minha alegria é ver a alegria destas crianças. Elas são melhores do nós. Não têm maldade no coração. Quanto a nós, erramos julgando as pessoas e nada de bom fazemos por elas.

— Nisto tens razão! Quando criança, nada me incomodava nesta Terra; não tinha esses impostos, esse Jesus. Graças a Deus, as crianças não se preocupam com tais coisas! Estou sabendo, por boca dos serviçais, que à tarde pretendes ir à sinagoga conversar com Levi.

— Sim, pretendo conversar com ele. E'-me proibido fazê-lo?

— Não é proibido, mas hoje não o farás! Permanecerás aqui em casa! Camarfeu foi cuidar de suas tarefas e, à tarde, retornando em casa, não encontrou Joana. Correu dali até a sinagoga e a encontrou quando ela lá chegava. Disse-lhe ele:

— O que queres aqui?! Vamos para casa!

Disse-o com voz baixa e disfarçada, para não denunciar a sua ira à frente das pessoas, e foi com Joana até a sua casa. Lá chegando, ela foi surrada violentamente pelo marido, durante toda a noite. Chegou até a desmaiar. Camarfeu a colocou na cama, passou azeite nos seus tantos ferimentos e ali a deixou.

No outro dia Joana amanheceu recuperada. Semi-nua, tapando as suas feridas, ela afastava o olhar do marido, que lhe disse:

— Nunca mais me desrespeitarás! Se fizeres algo que não aceito, irei devolver-te à casa de Jesus, de tua querida Maria e de José. Dir-lhes-ei que tu erraste. Levarei comigo muitas pessoas para testemunharem da tua conduta. Então permanece em silêncio! Doravante ficarás dentro deste quarto e não conversarás com ninguém!

Camarfeu orientou os serviçais para que levassem comida no quarto dela.

Joana estava toda marcada. Sentia dor no corpo inteiro. Trancafiada, isolada e tanto sofrendo com os ferimentos, ela se entristecia a cada dia. As feridas iam sendo curadas, mas o seu corpo perdia os movimentos. Suas pernas tanto se atrofiaram que já não tinha forças para atender a porta: entravam os serviçais e a encontravam caída, reinstalando-a então no seu leito. Começaram a cuidá-la, limpá-la, banhá-la.

Foram meses passados naquela prisão de tanto sofrimento. Ela orava, pedia e nada mudava.

Um dia, muito desfalecida, ela orou:

- Senhor Jesus, sei que podes ouvir-me, onde quer que estejas, porque sei que nosso Pai que está nos Céus te deu todo o poder por sobre os homens na Terra. Muito já lutei para sobreviver, mas a cada momento me sinto mais fraca. Se esta é a minha sina e se meus olhos não mais puderem contemplar os teus, que então seja feita a vontade de Deus! Mas se o Altíssimo permitir, apenas desejaria rever os teus olhos e os teus cabelos, para te agradecer por tudo o que os meus olhos puderam contemplar na Terra, porque sei que és o Messias que Deus nos enviou!

Naquele momento em que ela orava fervorosamente, a porta do quarto se abriu e ali se fez um clarão. Era Jesus, a dizer:

— Bem-aventurada és tu, mulher, porque não foram teu sangue e tua carne que pronunciaram essas palavras, e sim provieram do meu Pai que está nos Céus! Mulher, teus dias ainda não chegaram, e saibas que os meus chegarão primeiro do que os teus! Mulher, que o amor do meu Pai e que toda a força do meu coração se manifestem sobre a tua alma e esta se replete de minha alegria e do meu amor! Ordeno, em nome do meu Pai, que todas as tuas dores e enfermidades te sejam extirpadas!

Mulher, não são as minhas palavras que ora te curam, e sim a tua fé naquilo que sou!

Joana, surpresa, viu que suas dores haviam acabado. Ergueu-se e, tentando acercar-se de Jesus, ouviu:

— Não me toques! A vontade do Pai e a tua fé me trouxeram aqui! Disse-o, virou-lhe as costas e transpôs a parede, saindo dali.

Joana bateu na porta e esta foi aberta. Camarfeu, estando na sala, ordenou que a deixassem sair, o que foi feito.

Quando Camarfeu viu o corpo dela, estremeceu. Nele já não se via mais marca alguma das feridas. O rosto e todo o corpo de Joana estavam rejuvenescidos. Ela sorriu, contentíssima, e disse:

— Meu marido, os Céus me enviaram um anjo e ele me curou! Camarfeu estava estarrecido e indagou, admiradíssimo com a transformação havida na esposa:

— Mulher, que poder é este que tens nas mãos?! Como foi que te curaste?! Ninguém entrou nesta casa!

—Teus olhos enxergam o que há na Terra, mas não enxergam o que está nos Céus! Todavia, não entremos neste assunto. O importante é que o Guia dos homens já se faz presente na Terra. Tu, meu marido, eu e qualquer homem de poder não calaremos a voz do Messias! Se achares que deves surrar-me novamente por eu crer em Jesus, que então o faças quantas vezes quiseres! Matarás o meu corpo mas não matarás o que vai na minha alma, porque ainda hoje pude sentir o poder de Deus e de Jesus aqui se manifestando! E tu não sabes que Jesus te ama mais do que qualquer outro neste mundo!

— Estás novamente louca! Cessa já este assunto!

Joana saiu para receber o beijo do Sol. Ajoelhou-se no quintal e entrou em prece de gratidão a Deus por tudo o que lhe ocorrera.

Levi soubera que Joana fora bastante surrada e que estava bastante adoentada, trancada e proibida de receber visitas. Pregando e pregando durante aqueles meses de reclusão da pobre Joana, tornava-se uma figura cada vez mais importante no seu meio. Saudoso, foi à casa de Camarfeu naquela mesma tarde da cura de Joana e lá a encontrou totalmente recuperada. Indagou a Camarfeu:

— Afinal, o que foi que aconteceu com ela?

Camarfeu permaneceu cm silêncio e Levi se acercou de Joana, indagando:

— Estás bem? Precisas de alguma coisa?

Ela continuou em silêncio e apenas meneou a cabeça, negativamente. Levi disse:

—A senhora tem sido tão boa para mim! Lembro-me dc quando eu era criança, das coisas que me ensinavas. A senhora foi para mim uma verdadeira mãe! Soube do que te aconteceu, mas, graças a Deus, vejo-te ótima e vejo que c tudo mentira o que disse o povo. Porém, a senhora não quer conversar comigo...

Joana baixou a cabeça, ainda silente. Levi insistiu em abrir o diálogo, mas ela não disse uma única palavra.

Camarfeu chamou Levi e lhe disse:

— Joana disse coisas e coisas sobre Jesus. Afirmou que Jesus esteve aqui e a curou. Porém, isto é coisa de mulher... Ela ficou muito tempo no quarto e devagar foi obtendo a cura. Não vás conversar com ela, pois ela acabará por confundir a tua cabeça e tens muito o que fazer.

Levi retornou à sinagoga.

Paulo se afastara de Levi e da sinagoga. Continuava viajando às terras da Galiléia, ia para Jerusalém, frequentava os templos, ia ter com Jesus, sempre com aquela viva fé alicerçada em sua alma pela cura da sua mulher.

Os jovens que haviam acompanhado Levi e ouvido Jesus não mais manifestavam interesse quanto ao Messias.

Passou o tempo e Joana foi retomando o seu trabalho assistencial com as crianças, banhando-as e alimentando-as. Porém, mantinha-se no seu mutismo quanto a Jesus. Levi ia em sua casa, via a sua dedicação às crianças, mas os dois não dialogavam.

Aquele silêncio de Joana muito incomodava Levi. E ocorreu que, certo dia, Camarfeu viajou e em sua casa chegou Levi, que encontrou Joana cuidando das crianças. Levi se acercou de Joana c disse:

— Sei que estas crianças serão homens de bem, a exemplo de teus filhos e do teu marido. Também eu, graças a Deus, estou indo muito bem, l'iisi nando na sinagoga.

Joana apenas meneava a cabeça, sem nada dizer. Levi, bastante intrigado com aquele inexplicável silêncio de meses e ineses, insistiu:

— Joana, o que é que tens contra mim?

Ela fitou profundamente os olhos dele e disse:

— Tenho dó, tenho piedade de ti!

— Por quê?!

— Lembra-te? Jesus fitou os teus olhos e afirmou que um dia conhecerias a verdade, e que somente então te tornarias um homem livre. Ora, és prisioneiro do teu medo, da tua mentira, de ti mesmo. Estiveste com o Mestre, fitaste os Olhos dele, caminhaste com ele e não pudeste compreendê-lo! Ele esteve contigo em tua casa, ergueu da morte o teu pai para mostrar que ele é o Messias, mas mesmo assim os teus olhos se apartaram da verdade. Por que, Levi?! Porque temeste ficar pobre! Levi, tiveste medo, tiveste vergonha de Jesus! Quanto a mim, não tive medo em momento algum! Fui surrada e trancafiada. Apanhei como jamais apanhara na vida. Naqueles dias julguei que morreria, mas não perdi a fé em Jesus, porque sabia que ele estava ao meu lado. Roguei a Deus, com toda a força do meu coração, piedade para o meu marido. Eu tinha vergonha de sair e mostrar as feridas do meu corpo. Entendia que chegavam os meus últimos dias de vida e então invoquei Jesus com toda a força da minha alma, e ele veio e me tocou em espírito, e limpou todas as minhas doenças, e me disse que eu viveria mais do que ele, que o dia dele chegaria antes do meu. Vê agora o meu corpo: não há mancha alguma das chibatadas, não há mais osso quebrado na minha face nem osso algum doendo no corpo. Ah! Jamais negarei Jesus!

Naquele momento chegou ali um grupo de homens, em meio deles se destacando um de oranco que se lhes distanciou e caminhou no rumo de Joana e Levi. Era Jesus.

Levi estava em pranto. Jesus fitou ternamente Joana e disse:

— Mulher, bem-aventurada és tu, porque o teu espírito, o teu sangue e a tua carne sorveram das minhas vivas águas - porque eu estou em ti, e aquele em que estou, mesmo se estiver morto, viverá! Aquele que em mim se envergonha, também eu, quando chegar no reino do meu Pai, dele me envergonharei. Mulher, eu vim para cear com os pobres, caminhar no meio deles e lhes dar o remédio, junto às prostituídas e aos ladrões - porque, neste chão de meu Deus, ninguém mais do que eles me merece, pois eles são os enfermos requisitando o meu remédio, e eu sou o médico que veio para curá-los. Farei tudo o que sobre mim está escrito. Muitas lágrimas se derramarão. Muitos me verão e não compreenderão. Muitos me negarão, até que um dia eu nasça dentro deles!

Levi caiu de joelhos e disse:

— Caminharei contigo por toda parte e por todo tempo! Não mais preciso da minha casa, da minha mãe, dos meus irmãos! Somente de ti necessito, Mestre! Perdoa-me, porque eu fracassei!

— Em verdade, Levi, hoje aqui vim em teu nome, porque verdadeiramente hoje nasço em ti! Estarei hoje contigo e todos a mim verão e sentirão!

Jesus se recolheu na casa de Joana.

Passou o dia, chegou a noite e ali chegou Camarfeu, que foi saudado alegremente por Jesus:

— A minha paz te dou e que a paz de Deus esteja contigo!

— Jesus! O senhor aqui?!

— O senhor que veio dos Céus veio não para execrar os culpados, e sim chamá-los ao arrependimento. Camarfeu, segue-me! Se a tudo renunciares, terás no Céu o teu galardão, mas se persistires me negando, de ti nada restará: serás destruído tanto quanto Israel e Jerusalém. Isso teus olhos não verão, mas muitos olhos verão e naqueles dias entenderão que vim a este mundo para dar testemunho da verdade. Aquele que crê em mim jamais andará em trevas! Não vim para os ricos, e sim para os pobres. Vim chamar os pecadores ao arrependimento. Não vim para curar corpos perecíveis, e sim redimir almas eternas! Camarfeu, não sou teu inimigo, nem foi isto que me trouxe a este mundo; vim para auxiliar a ti e a todos!

Joana se acercou mais dali e Jesus lhe disse:

— Mulher, este é o ltu marido! Segue-o e obedece-lhe com toda a força do teu coração e da tua alma, até chegar o dia da tua glória!

Jesus saiu dali e reintegrou-se àquele grupo de homens. Depois todos rumaram à sinagoga, que estava repleta naquela noite.

Levi lá pregava a vinda do Messias quando Jesus adentrou o templo e se sentou ao fundo. Ninguém dali o reconheceu, com exceção daqueles seus seguidores e do próprio Levi, que lhe passou os pergaminhos da escritura sagrada para que ele lesse.

Jesus leu a passagem do profeta Jeremias falando da chegada de um novo Rei para uma nova Terra, o Messias que espantaria do mundo todas as trevas, tudo se diferenciando com a sua chegada.

Jesus fitou os presentes e disse:

— Acreditai se quiserdes: para dar testemunho à verdade, em mim se cumprem hoje as profecias e todos me verão e conhecerão!

Estava ali um homem que andava com extrema dificuldade, apoiado num pedaço de pau, e que mesmo assim se encarregava de limpar aquela sinagoga. Era Jubileu.

Jesus pregava e, ao ouvirem as suas palavras, alguns homens se insurgiram contra ele, dizendo:

— Blasfêmias saem da tua boca! E Jesus disse:

— Então lançais sobre mim toda a vossa fúria, dizendo que blasfemo sobre as palavras de Deus! Aproxima-te de mim, Jubileu!

Aquele homem se lhe acercou um pouco e Jesus disse:

— Hoje, Jubileu, todos os teus pecados estão perdoados, porque tal poder me concedeu o Pai que está nos céus! Lança fora esses paus que te sustem e caminha até mim!

Jubileu, comovido, exclamou:

— Senhor! És o Filho do Altíssimo! Minhas dores sumiram! O que acontece comigo?! Já me ergo sozinho! Sinto tuas mãos me levantando! Os anjos dos Céus vieram até mim!

— Jubileu, vem!

Ele caminhou até Jesus e este o abraçou, beijou e disse:

— Vai, Jubileu! Deus muito te ama e muito te quer bem! Porém, ainda não é chegado o meu tempo! Vós, meus irmãos que aqui estais, crede em mim, porque vistes um coxo andar, crede em mim por minhas obras. Digo-vos em verdade: não condeno a nenhum de vós que me criticou ou condenou, porque foi para este princípio que vim à Terra, para falar aos homens abertamente, gritar nos templos. Todavia, não é chegado ainda o meu tempo! Levi atalhou, dizendo:

— Mestre, é chegado, sim, o teu tempo! Uniremos força e ergueremos aqui um grande templo!

— Levi, Levi! Pedras são pedras e serão derrubadas! Templos são templos e serão destruídos! Porém, não assim com as minhas palavras: elas permanecerão, serão reconstituídas, mesmo que os templos dos corações estejam derruídos. Feliz aquele que crê em mim com toda a força do coração!

Levi se ajoelhou aos pés de Jesus e disse:

— Senhor, perdoa-me! Jesus o reergueu e disse:

— Levi, não tenho no que te perdoar. Todos os meus irmãos serão testados, assim como o foste também. Tiveste medo de dormir na rua, à semelhança dos mendigos, e temeste a perda do aconchego do teu doce lar, mas hoje sei que medo algum resta no teu coração, aí onde só vejo a vontade de me seguir. Garanto-te, Levi, que estarás comigo e presenciarás a chegada do meu dia. Ver-me-ás ser humilhado e maltratado, cuspido pelos nossos próprios irmãos.

— Mas, Senhor, bondosa é a tua alma, por provir de Deus, e o que então poderiam fazer com o Filho de Deus?! Ninguém se erguerá contra ti!

— Levi, as forças das trevas ainda prevalecem na Terra e muitos se revoltarão contra mim. Porém, eu vencerei todos os homens da Terra e os anjos dos Céus estarão comigo e não me abandonarão. Entretanto, ainda não é chegado o momento em que virão a mim.

Jesus deixou a sinagoga e foi ter à casa de Camarfeu, onde pousaria com os seus seguidores, nos jardins.

Camarfeu estava intrigado com a situação de seu lar, lá onde de repente se haviam instalado Jesus e seus seguidores.

Sentia que algo diferente ocorria ali e dentro de si mesmo. Ora, ele tanto se insurgira contra Jesus e este agora lá estava, sem rancor algum, manifestando o seu inigualável amor para com aquele que tanto o ofendera.

JOÃO BERBEL