XXX - A MORTE DE JOSÉ

2 - XXX - A MORTE DE JOSÉ

Jesus e Levi saíram dali. Levi observou:

— Mestre, teus amigos se foram...

— Meus amigos estão em toda parte! Quanto a nós, seguiremos para Betânia.

Passaram despercebidos pelo povo e rumaram para Betânia. Em Cafarnaum passaram também despercebidos. De lá rumaram à casa de Jesus, que já estivera por um mês longe dali.

Maria estava preocupada, ansiosa para rever Jesus.

No crepúsculo, Jesus viu de longe a sua pequena vivenda e seus olhos denunciavam a sua alegria. Por momentos viu aquele local iluminado, vários espíritos superiores à volta daquela abençoada casa.

Maria correu a abraçar o seu filho ama¬do e disse:

— Foi Deus quem aqui te enviou, meu filho! Teu pai está muito ruim!

Jesus observou a casa cheia dos seus parentes. Viu, de lado, o seu primo Darúbio, que se lhe acercou e disse:

— Jesus, há tempos que estou à tua espera. Já pude caminhar contigo por vários lugares, mas és igual às aves: ora estão aqui, ora estão ali. Estamos muito preocupados. Há dias Maria vem cuidando de José, que está muito doente.

— Com o que vos preocupais? Ainda não é chegado o dia dele.

— Mas, Jesus, ele já não anda, e quando anda é com muita dificuldade.

— Vou até ele.

Jesus foi até o seu pai, acariciou a barba dele e disse:

— Meu pai, meus olhos se alegram quando te vêem!

— O teu Pai não é o Todo-Poderoso que está nos Céus?

— Sim! Ele é meu Pai, ele é teu Pai, Ele é Pai de todos os filhos da Terra!

— Meu filho, há muita bondade no teu coração! Já és quase um homem e os meus olhos se alegram em te ver! Tua mãe e eu estávamos muito preocupados, pois há muitos dias não te víamos.

— Por que vos preocupais comigo? Deveis preocupar-vos com vós mesmos, com os vossos irmãos, com os que estão à vossa volta. Por mim não há com que alguém se preocupe. Onde quer que eu esteja, estou com o Pai e o Pai está em mim!

E hoje estou aqui: o pai está com o filho e o filho está com o pai.

— Jesus, não entendo o que dizes agora. Dizes do teu Pai que está nos Céus e não de mim que estou na Terra?

— São os teus lábios que dizem tais coisas. Não te disse isto! Tu és o meu pai e eu sou o teu filho — porque foi de ti que alcancei este mundo. Se não fosse tu, meu pai, eu não existiria. O Pai que está nos Céus te concedeu na Terra que, por minha mãe, eu fosse por vós concebido, e muitos são os anjos dos céus que rendem louvores por estes momentos. Esta noite, meu pai, dormirei do teu lado, para que todos os anjos que me saúdam possam também saudar a ti.

Jesus ordenou que todos se afastassem e permaneceu sentado naquele leito. Colocou a cabeça de José no seu ombro e começou a acariciar os seus cabelos.

Naquele momento um turbilhão se formou diante de Jesus. Maria adentrou o recinto e se sentou do outro lado do leito.

Jesus disse:

— Lembro-me de ti, meu pai, desde aqueles momentos em que o Altíssimo me enviou à Terra. Eu estava no ventre de minha mãe e já via a ternura do teu olhar, a tua preocupação naqueles duros momentos, as vibrações que daquele manto acudiam a minha mãe, aquelas energias dos Céus. Sentia a mão de minha mãe na barriga, tentando proteger-me, e sentia a tua preocupação quando te negavam hospedagem. Vi o teu carinho quando forravas o chão para que minha mãe lá se acomodasse, e ouvia as canções celestes anunciando em júbilo a minha entrada neste mundo. Ah, meu pai, bem senti a tua preocupação quando levavas a mim e minha mãe à terra distante, as dificuldades que enfrentaste junto a um povo que te era estranho e indiferente! Tudo vi e senti, meu pai, e por isto tanto te amo e a ti tudo devo! Muitos renderão louvores aos Céus pela grandeza destes dias, porque são dias de felicidade para a Terra!

José dormiu e Jesus, ali se acomodando, também dormiu.

No outro dia José amanheceu bem e Jesus permaneceu por ali.

Porém, agravou-se a doença de José, que tossia bastante.

Três dias passados, Maria chamou Jesus e ele foi ter ao leito de José, dizendo:

— Pai que estás nos Céus! Pai que através de minhas mãos curaste os coxos e tantos doentes, salva o meu pai!

José o fitou e disse:

— Meu filho, é chegado o meu momento, assim como chega o tempo de todo mundo! Tu és o Filho de Deus e as tuas mãos a muitos salvarão!

— Pai que estás nos Céus, concede a mim o poder de salvar e dar a saúde ao meu pai da Terra!

Luzes se refletiam à volta de Jesus naqueles momentos. Entendendo todas as cenas invisíveis ali acontecendo, Jesus disse enfim:

— Pai, seja feita a Tua vontade, não a minha!

Fitando ternamente Jesus, disse José:

— Meu Deus, nas Tuas mãos entrego o meu espírito!

Jesus o abraçou e disse:

— Seja cumprida, meu pai, a tua vontade, e não a minha!

Disse-o e chorou comovidamente. Pronunciou ainda belíssimas palavras e depois saiu dali.

Maria também derramou as suas copiosas lágrimas.

Reunidos todos os familiares, sob as mais sentidas preces, foi ali enterrado aquele homem justo que fora o genitor do Messias que palmilhava a Terra.

Jesus se acercou de Maria e do grupo de familiares e disse:

— Mulher, Deus é o princípio da vida, porque Ele é o Senhor da Verdade. Sem esse princípio jamais chegaríamos a qualquer lugar, pois tudo está ligado ao Pai que está nos Céus. Ele alimenta a Terra, os animais, todo ser vivente. O homem, quando se alimenta da força do seu princípio, que vem do Espírito Santo, deixa que a sua alma se encha de alegria. Aquilo que é constituído do pó da terra, a ele retornará, mas aquilo que vem de Deus, a Ele retornará. Sob tal princípio foi que o Pai criou os Céus e a Terra, para que o homem habitasse a Terra, crescesse e se casasse, para que todos os seus filhos aqui viessem comer do pão da vida. E sob tal princípio foi que o Pai me enviou à Terra, para mostrar a verdade aos homens, para que possam entender que tudo o que gira em torno deles é coisa da Terra e que aquilo que é da Terra há de ficar na Terra. Mulher, o meu coração dói, porque quando tive fome, meu pai me deu o alimento, e quando tive sede, ele me saciou, e me cobriu no frio da noite, e nada me deixou faltar. É por isto, mulher, que rogo ao Pai dos Céus que tenha do Seu lado o meu pai da Terra. Mulher, os teus olhos choram, a tua alma está triste, mas mesmo assim acolhe por dentro a alegria, aceita o que o Pai determinou, porque um dia não chorarás por teu marido, e sim por mim, e do teu lado outras tantas mulheres também chorarão. Mas tudo há de passar e, como foi escrito pelos profetas, no terceiro dia renascerei no reino dos mortos e todos me verão ao lado dos meus anjos, e as cornetas deles soarão anunciando que o Filho do Homem voltou aos Céus. Então a minha paz penetrará todos os corações, e com aqueles meus verdadeiros seguidores estabelecerei uma aliança, assim como foi feito comigo pelo meu Pai, e em momento algum lhes deixarei órfãos, até que se consuma todo o tempo, séculos após séculos. Mulher, eis o momento da glória! Mulher, eis o momento da alegria! Porque tudo está acontecendo tal como quer a vontade do Pai que está nos Céus. Verás os meus olhos se alegrarem perante outros olhos, durante o tempo em que o Príncipe deste mundo nele permanecer, mas saibas, mulher, que dia de trevas virá. Nesse dia verás o sinal no céu, porque ele se escurecerá à vista de todos. A alva beleza do véu que, no seu segredo, cobre o templo será agredida e ele se partirá ao meio. Lágrimas dos Céus se derramarão sobre mim. Nesse dia a Terra se ressentirá, porque a escuridão estará tentando vencer a luz. Porém, em três dias a luz soberana e justa renascerá no altar de todos os corações, sob grande poder. Nesses dias, então, muitos se alegrarão e serão muito felizes. Aos poucos o tempo estará marcando o passo de novos homens e novas mulheres, mas o peso do ouro ainda assinalará o crivo de um grande galardão sob a mão dos ambiciosos que tentarão diminuir a minha imagem ou glorificá-la sob o peso do império da materialidade. Esses dias estarão marcados pelo derramar de muito sangue dos nossos irmãos. Nesses dias também os Céus chorarão. Lágrimas rolarão, porque os homens acreditarão que é pela grandeza do ouro que devem constituir o seu império. Esses colocarão a minha doçura como símbolo, mas deixarão de aquietar na bainha a sua espada e muito sangue farão derramar em meu nome. Esses padecerão e amaldiçoarão o dia em que nasceram, porque não estarão sob as minhas mãos e sim sob o poder do Pai que está nos Céus. Esses amargarão o próprio juízo final e estarão lamentosos pelo sangue derramado. Todavia, aqueles que em mim depositarem o seu sentimento, mesmo que rastejando sobre a terra, de uma forma ou de outra contarão comigo do seu lado, e ouvirão de mim: A vós estendo a minha mão! E comigo estarão os meus anjos, acudindo esses irmãos, até que chegue a Terra Prometida. Os que entende¬rão a minha mensagem e se amarão tanto quanto os amo, tornar-se-ão humildes e leve se tornará o fardo dos seus ombros, e eles ingressarão na Terra Prometida. Mulher, para tal propósito é que desci a este mundo; não para julgá-lo e condená-lo, porque aquele que não crer na minha mensagem já estará condenado por si próprio. Aqueles que deixarem de entender que é somente através do amor que ascenderão ao Pai estarão em lamentos e invocarão os Céus nos seus dias de tristeza, e amargarão muita fome e ranger de dentes, e verterão lágrimas e lágrimas, e pedirão que a terra tombe sobre si mesmos e os consuma. Esses não terão senão lamentos e muita dor no coração. Nesses dias, mães e pais tentarão resgatar os seus filhos do sombrio abismo da morte, mas nada conseguirão, porque o crivo do derradeiro julgamento assinalará os crimes e pecados desses irmãos, muitas vezes até manchando o meu nome na aquisisão de fortunas. Nesses dias finais, mães e pais procurarão pelos filhos e não os encontrarão, porque o Anjo estará sobre eles e os guiará a outras glórias e outros caminhos, e todos estarão sobre as mãos do meu Pai que está nos Céus.

Jesus encerrou o seu sermão e poucos dali puderam entender a sua mensagem fixada naquele tempo e avançando ainda para futuros horizontes, retratando a evolução moral da Terra. Fitavam o olhar expressivo de Jesus e viam luzes refletidas sobre ele, luzes vindas de alhures.

Naqueles momentos, um clima diferenciado tomava toda aquela região.

Jesus acariciou ternamente os cabelos de Maria e disse:

— Mulher, amas o teu filho, porque o teu filho ama a sua mãe!

Disse-o e a abraçou. Os demais, comovidos, também os abraçaram.

Joana, também ali presente, abraçou Jesus e, colocando meigamente a cabeça no ombro dele, disse:

— Jesus, és tão bondoso! Quão bom é ficar junto de ti! Feliz és tu, Maria, porque concebeste Jesus!

Jesus aconchegou Joana e acariciou os seus cabelos, ao mesmo tempo que abraçava Maria, e disse:

— Felizes são, Joana, aqueles que ouvem a minha palavra e seguem o meu ensino! Eu não sou bom, porque eu gostaria de abraçar o mundo inteiro e trazer todos até mim, até o meu amor, mas ainda não posso, até que chegue o dia de eu ascender ao Pai. Não deixeis, todos vós, que se perturbe o vosso coração, não deixeis que ele se abata diante dos maus procedimentos, porque a minha verdade sempre estará perante vós, sempre estarei com cada um de vós. Dia virá em que o meu corpo não mais poderá estar entre vós, mas mesmo assim rogarei ao Pai que em espírito eu possa estar convosco, até que se consumam todos os séculos e séculos. Quando vos chegarem os dias de trevas, não deixarei ao menos um de vós descoberto pela minha veste: a todos cobrirei, mesmo que gélidas sejam as noites. Porque aquele que crê em mim, mesmo que sob a escuridão encontrará o caminho; mesmo que desmoronem sobre ele todas as montanhas da Terra, ele estará comigo; mesmo que no leito da dor, também estará comigo. Sim, porquanto foi por amor a todos que vim a este mundo. Vim para mostrar aos homens que o Pai das alturas muito os ama e com igualdade, porque o mesmo vento frio que tomba sobre os que andam so¬bre as calçadas tomba também àqueles que bem se agasalham no seu luxo, porque o Pai faz com que a mesma chuva que cai sobre os bons e os pobres caia também sobre os ricos e maldosos, e faz com que o mesmo Sol brilhe para o justo e também para o injusto. É tudo a bondade do meu Pai perante todos os seres da Terra! Em verdade vos digo que antes que este mundo existisse eu já existia, e que tudo o que encontrais foi por mim rogado ao Pai e Ele vos concedeu: o Sol, para que brilhe sobre vós, o vento trazendo a suave brisa que reconforta a alma quando o calor a abrasa, a chuva que atende a necessidade de todo ser vivo com a germinação do trigo e a frutificação da vinha, para que assim vos alegrásseis; os animais, para que a vida do homem tives¬se um pouco mais de prazer; as aves', para que cantassem livres; a inteligência, para que o homem com ela dominasse todos os demais seres vivos. E hoje o meu Pai está alegre, por¬que uma nova aliança foi estabelecida sobre a Terra, para que todos os olhos se alegrassem com a minha vinda, porque foi por amor a cada um de vós que vim a este mundo, para dar testemunho à verdade, para que não permanecêsseis no pão servido pelos vossos ancestrais, pois ele é tal aquela planta venenosa que viceja no deserto: dela se alimentaram e padeceram na Terra, muitos adoecendo e morrendo. Eu, porém, vos dou o pão da vida! Aquele que crer em mim e me aceitar entenderá quem sou, e se alimentará da minha carne, e o meu amor nele germinará e ele se tornará homem livre, porque alimentado pelo meu Pai que está nos Céus!

Todos ouviam com enlevo aquelas palavras de Jesus, que a partir da morte de José passava a viver mais intensamente no plano do espírito do que no plano carnal.

Poucos eram os que podiam compreender o sentido das suas palavras, mas ele triunfava na expressão da alegria e da felicidade que transmitia a todos.

Disse Jesus a Levi:

— Come e bebe em minha memória! Depois disse a todos:

— Comei e bebei todos vós! Voltando-se para Levi, disse:

— Amanhã, antes que chegue o Sol, partiremos daqui.

Maria ponderou:

— Meu filho, tanto e tanto tens caminhado, e tão pouco tens parado em casa!

— Mulher, é tal princípio que me faz crer cada vez mais: é pelo amor que tens em mim! Porém, nada passa, nem o Céu e a Terra, se não for pela vontade de Deus. Nem um só grão germina no chão sem a permissão do Pai, nem cai da árvore um só fruto nem uma velha folha sem que o Pai o permita. Mas tão grande é o amor do teu coração, mulher, que tudo vês! No entanto, ainda não é chegado o meu tempo, o meu dia. Tenho de sair, mulher, porque aqui não posso permanecer, porque para isto não me foi dada a ordem. Observaste quantos aqui vieram para o sepultamento do teu marido e meu pai? Vês quantas pessoas chegam aqui? Ora, daqui a dias chegarão multidões desejando tocar em mim, ouvir de mim, mas ainda não é chegado tal tempo.

JOÃO BERBEL