XXXII - A GRANDE TENTAÇÃO

XXXII - A GRANDE TENTAÇÃO

Jesus continuava com as suas andanças, curando um aqui, outro ali.

Embora quase ninguém soubesse ainda que Jesus era o Messias, com a pregação intensa efetuada por João Batista a casa de Maria começou a receber visitas oriundas de toda parte.

As pessoas acampavam nas proximidades da casa de Jesus.

Em certo momento, eis Jesus abordando Maria e dizendo:

— Mãe, esta não mais será a minha casa: será o teu lar e lar dos teus filhos, porque é chegado o momento de o Filho do Homem cumprir a vontade do Pai que está nos Céus.

Farei um novo pacto com a humanidade, uma nova aliança celebrarei com todos os povos. A todos levarei uma Boa Nova, um novo ensino!

Maria indagou:

— Mas como farás estas coisas, meu filho?! O que será essa tua Boa Nova?

— Ó minha mãe, o Céu enviou também a ti para que do teu ventre eu nascesse, e tu me contaste belas histórias. Ora, de tudo aquilo que me ensinaste é que farei um Novo Testamento para a humanidade, e tal novo mandamento permanecerá com os homens até que se consumam todos os séculos e séculos. E nos dias finais essas minhas palavras se restabelecerão, no Céu e na Terra, como um crivo à humanidade, o código de uma nova perfeição, de um novo modelo para uma nova Terra. E nessa Terra Prometida, minha mãe, através das histórias com que me agraciaste e através desse novo testamento, estarei presente em todos os povos, em todos os irmãos, e eles lerão e seguirão os meus ensinos.

— Mas, Jesus, és tão bondoso! O meu coração não suporta separar-se do teu!

— Mãe, caminharei por todos os povos da Terra. Àquele que eu não puder projetar o meu corpo projetarei a minha alma, e assim tantos e tantos me verão, mesmo em terras estranhas.

Irei aos judeus, irei aos gentios, aos filisteus, e todos verão e ouvirão a mim. Mãe, minha alma sente um grande peso, sente uma grande dor — porque vejo lágrimas, mãe, e vejo sangue!

Maria abraçou e apoiou Jesus, que, segurando nela, foi caindo de joelhos.

Naquele momento difícil, Jesus fitou o Alto e exclamou:

— Bendito és, Pai que criaste os Céus e a Terra! Bendito e bendito sejas Tu, Pai! Porque eu estou em Ti e Tu estás em mim! Pai, sei que esta nova aliança que confiaste em minhas mãos é muito dolorida. Se puderes, afasta de mim este cálice de dor e derramamento de sangue! Não é por mim que choro, e sim por meus irmãos, que hei de chamar meus jilhos, porque para isto mesmo me deste poder sobre o Céu e sobre a Terra! Mãe, é chegado o meu tempo, é chegada a minha hora! Viste-me aqui acudindo muitos dos nossos irmãos, extirpando-lhes as enfermidades. Foram muitas crianças e inúmeros dos nossos irmãos. Agora tudo muda, mãe! Agora a nova aliança já está sobre a Terra. Agora verás o teu filho sobressalente perante os demais!

Disse-o e saiu solitário ao deserto.

Não havia notícia alguma do seu paradeiro.

Passaram as primeiras horas, os primeiros dias e não mais foi visto.

Jesus passou a se alimentar da vegetação do deserto, a sentir, mais direta e continuamente, o inclemente Sol, a sentir o chão árido. Sua pele se foi queimando sob os raios solares.

Foram quarenta dias de tortura física e psíquica.

Naqueles terríveis momentos de angustiosa solidão e introspecção, as forças expansivas das trevas lá se instalaram para perturbar Jesus nos seus mais íntimos colóquios.

A certa altura, após vários dias de tortura e abatimento, Jesus se abrigou à sombra de uma pedra.

Foi quando lá chegou uma jovem, na aparência de bela virgem, e foi passando óleo sobre as feridas dele, curando-as.

A atraente jovem lhe disse:

— Se tanto e tanto poder há em tuas mãos, por que teimas em mudar o rumo da humanidade?

Em tuas mãos estão todos os poderes: ergue-as e este grande deserto se te fará um grande presente; lindas mulheres aqui estarão para te servir, assim como foi visto com vários profetas, várias virgens os tendo servido.

Serás assim um deles e mudarás todo o destino da Terra!

Tomado Jesus de profunda fraqueza e cansaço, frágil se lhe mostrava a própria voz. E a virgem, com aquele óleo curador, aliviava os lábios, o rosto, todas as feridas de Jesus.

Súbito, eis que ali chegou um senhor de veste inesual, a dizer:

— Jesus de Nazaré! Serve a mim e aos meus princípios, pois posso dar-te uma glória ainda maior do que aquela que o teu Pai te dá!

Dar-te-ei belíssimas mulheres e serás o Senhor da Terra! O que não são em perfídia aqueles sacerdotes?! E terás de medir forças com eles!

Vê agora o que farão os teus irmãos, quando se sentirem perseguidos!

Naqueles momentos irromperam grandes explosões, modificando aquelas situações. Jesus viu naquele cenário aterrador, multidões gritando desesperadamente, sob fortes explosões destruidoras. E aquele Senhor lhe dizia:

— Estes serão chamados de Santos Guerreiros. Serão guerras e guerras feitas em teu nome, guerras alavancadas por outros que virão à Terra.

Basta renderes fidelidade a mim e nada disto te acontecerá! Agora fecha os olhos!

Jesus o obedeceu. Aquele Senhor ergueu a mão à frente dele e Jesus viu outro triste cenário: viu o templo, viu-se com as mãos atadas, premido pelas autoridades, e viu vários sacerdotes determinando a sua crucificação.

— Contempla! — dizia aquele Senhor. — É o teu próprio povo que te crucificará!

E à frente de Jesus se sucediam aquelas cenas terrificantes. Ele se via com uma coroa de espinhos, via a satisfação daqueles sacerdotes perante toda a humilhação por que passaria, pessoas a cuspir sobre ele, seu rosto coberto de saliva, sangue e suor. Todo aquele ingente sofrimento Jesus visualizava, toda a tragédia infinita de conduzir e ser pregado numa cruz.

Aliciante, insistia o tentador:

— Basta que te dediques a mim e tudo será evitado! Foram tantos os profetas que se refestelaram sob o luxo dos seus reis, e então por que também tu não o farias?

Bem sabes que a Terra seguirá o seu curso e que tantas e tantas coisas a atingirão.

Mas vê o que te posso proporcionar!

Aquele Senhor fez um movimento com as mãos e às visão de Jesus surgiram várias virgens a servi-lo, à semelhança do que era feito à presença dos grandes reis e profetas.

Jesus, forças vencidas pela exaustão acumulada em dias e dias, fitou a jovem que o curara e disse:

— Filha do pecado, por que tentas a mim? Tu és a sombra da tua própria sombra!

O Pai que está nos Céus não te perdoará por tentares o Filho dele! Por que me persegues? Ouve o que disse João: arrepende-te e serás salva! Fruto do Mal que ousas desafiar Deus, naufraga-te na sombra do Inferno que criaste para ti mesmo, porque vim a este mundo para servir a um só Senhor — e Deus é o meu Senhor! Todos que servirem a ti não terão senão sofrimento, porque a minha aliança está ligada ao Pai que está nas alturas e não terei medo algum, porque esses que contenderem na Terra enfrentarão os seus próprios problemas, mas um dia se tornarão homens livres. Um dia eles entenderão a minha mensagem de amor e então serão chamados de Filhos de Deus, porque deles é a Terra Prometida, deles é a Terra Nova. Mal algum que exista na Terra triunfará sobre mim, porque eu estou no Pai e o Pai está em mim!

— Por que teimas, Jesus, contra mim?! — gritava aquele Senhor. — Tenho tanta força quanto tu!

— Perante mim não tens força alguma, porque tudo o que tenho vem dos Céus e tu vens das profundezas dos Infernos! Naufraga-te na tua escuridão, servo infiel!

Vai, anjo caído dos Céus, às entranhas do teu Inferno, e a ti não restará senão dor, lágrimas de sofrimento!

Aquela mulher à frente de Jesus se transformou numa serpente, na areia, e um redemoinho medonho se formou.

Jesus cobriu com as suas vestes os seus olhos, para que aquela fustigante tempestade não os conturbasse.

Aquela turbulência cessou e logo tudo se acalmou. Jesus caminhou um pouco e à sua frente viu uma fonte de água.

Naquele espelho aquático viu a sua pele tostada, toda manchada pelo Sol. Bebeu daquelas águas. Sentiu uma mão tocar no seu ombro e disse:

— Bem-aventurados serão todos aqueles que ouvirem a minha voz, por mais escandalização que possa haver sobre a Terra!

E aqueles que vencerem serão chamados de Filhos de Deus!

Saciado, ergueu-se e caminhou dali, rumando então à sua casa.

Haviam sido quarenta dias de insulamento, de privações, de tentações, de preparo à sua sublime missão. Muitos já o julgavam morto, desaparecido.

De repente, lá chegava ele, rosto, braços queimados pela longa permanência ao desabrigo do Sol.

Maria, vendo-o daquele jeito, exclamou:

— Meu filho! O que foi que te aconteceu?!

— Ninguém sobe ao Céu se não descer ao Inferno!

— O que estás a dizer, meu filho?!

— Mãe, tentei reconciliar-me com os nossos irmãos que não são ligados a Deus, mas eles não me compreenderam.

— Mas o que ocorreu contigo, meu filho?!

Jesus então relatou à sua extremosa mãe o que havia acontecido e ela, inconformada, indagou:

— Mas como pudeste ir em busca de uma coisa dessa, meu filho?!

— O Pai ordenou que eu restabelecesse aliança com todos os irmãos da Terra.

— Mas, meu filho, foram dois os maus espíritos que te perturbaram?

— Não, mãe! Em nome deles foram legiões, grandes e grandes espíritos que se desenvolveram para o lado do mal, que se agarraram à luxúria e aos galardões de ouro.

Eles me tentaram e viram que tentei reconciliar-me com eles, mostrar-lhes o caminho do arrependimento, mas eles não me deram ouvidos.

— Meu filho!

Maria lamentava o triste estado físico do seu filho amado. Mãos ternas e carinhosas, limpou as suas feridas e ele repousou por alguns dias, recuperando-se.

JOÃO BERBEL