XXXIV - A MORTE DE ANA

XXXIV - A MORTE DE ANA

Muitos seguiram Jesus, rumo ao Mar da Galiléia.

A certa altura da caminhada, eis que de longe chegou um homem a gritar:

— Mestre! Mestre!

Jesus parou e viu que era Levi, que lhe disse:

— Senhor! Venho correndo tanto! Venho a mando de tua mãe. Procurei João Batista e ele me indicou o rumo que tomaste. Apressei-me bastante porque a mãe de Maria está muito doente. Maria me pediu para vir buscar-te.

Jesus fitou o céu, contemplou as nuvens se formando e se sentou sob uma figueira. Recolhendo as pernas, apoiou os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos.

Introspectivo, sondou os acontecimentos, para depois dizer:

— Levi, já nada mais podemos fazer!

— Mas, Mestre, tua mãe chora muito e bastante clama por ti!

— Entre o Céu e a Terra há ainda muitas coisas que os homens não podem entender, porque ainda caminham sob o manto da escuridão, numa noite sem Lua e sem o brilho das estrelas. O Pai é bondoso e vem buscar tudo aquilo que é dele, no momento certo.

Lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Jesus. Passados alguns momentos, disse:

— Levi, vai e dize à minha mãe que daqui a alguns dias irei ter com ela.

Disse-o e fechou os olhos por alguns instantes, para depois dizer:

— Vai! Está tudo bem. Vai, Levi, e dize à minha mãe que está tudo bem.

Levi permaneceu um pouco por ali e depois regressou ao lar de Maria. Lá chegando, encontrou-o atulhado de gente.

Assim que viu Levi, Maria correu até ele, colocou as mãos no seu ombro e indagou:

— Onde está o meu filho?

Levi permaneceu mudo. Maria sacudiu os ombros dele e insistiu:

— Dize, meu filho, onde está o meu filho!

A voz, alterada, saiu então de Levi:

— Mãe, não posso estar aqui, porque devo seguir o meu caminho. O Pai que tudo nos dá também tudo nos tira. Não te preocupes! Mãe, dentro de pouco tempo estarei contigo, porque tudo o que fiz já está feito. Os mortos devem enterrar os seus mortos!

Maria fitou os olhos de Levi e os viu com diferente cor: eram os próprios olhos de Jesus derramando as suas lágrimas. Maria o abraçou fortemente e disse:

— Levi!

— Maria! Proferi o que Jesus me mandou dizer.

— Não! Ele próprio disse por tua boca!

— Não ficarás magoada com ele por não ter podido vir?

— Ora, Levi, ele está a trabalho do Altíssimo! Ele sabe onde deve ou não deve estar. Seja feita a vontade de Jesus, e não a minha! Mas ele está aqui e nossos olhos não podem vê-lo!

Ali já se encontravam todos os parentes de Maria, inclusive Joana e Camarfeu.

Em certo momento, Camarfeu abordou Maria:

— Ora, Maria, onde está Jesus?! Ele não é o Salvador? Por que então não está aqui?

— Ele está servindo a Deus! O Altíssimo deve ter para ele um trabalho mais importante.

— Mas, Maria, é a tua mãe que está aí para ser velada, e não um vizinho, uma pessoa qualquer. É a avó dele, e todos devem ter respeito neste momento, deixar tudo para velar a tua mãe. Não é certo Jesus deixar de comparecer! Ora, já se ouvem rumores de que ele faz coisas que homem algum faz, e dizem até que ele pode desaparecer dos olhos da multidão. Por que então ele não pode estar aqui?

Imediatamente se abriu um caminho e ali apareceu Jesus, agora sob uma roupagem bem diferente: alva era ela, com uma túnica vermelha aos ombros. E ele saudou:

— Que a paz do Senhor seja convosco! E, fixando Camarfeu, disse:

— Camarfeu, Camarfeu! Um dia derramarás muitas lágrimas, porquanto não sabes receber o Filho do Homem! E nesses dias, procurando-me, não mais me encontrarás! Bendito sejas, Senhor dos Céus, Deus, nosso Pai, que tens nas mãos todo poder! E em Teu nome peço que seja colocado em Teus braços o espírito de Ana! Pai, Tu que criaste os Céus e a Terra, e que nos deste o trigo para que à mesa esteja o pão para alimentar os Teus filhos, bendito és sobre tudo o que vive na Terra, porque és o Pai soberano e justo que está em toda parte! Permite, Pai, que a Tua bendita paz esteja em todos os corações!

Depois de erguer a mão, Jesus se virou, beijou o rosto de Maria e saiu por entre a multidão.

Muitos tentaram acompanhá-lo, mas não o conseguiram, tão rapidamente ele caminhava. E assim ele sumiu das vistas de todos.

Teve curso o velório e o sepultamento, sob muito choro, maiormente de Maria, que ali perdia a companhia valiosa de sua genitora.

Joana a todo tempo abraçava Maria, a consola-la em suas lágrimas. As duas saíram em certo momento e Maria indagou:

— Levi, onde está Jesus?

— Ele disse que haveria de partir por ter algo a fazer e também que se deixasse os mortos enterrarem os mortos.

— Mas não o seguiste?!

— Tentei, mas ele seguia tão velozmente que em pouco tempo desapareceu.

Maria se ajoelhou ali mesmo, no quintal, e orou comovidamente, assim:

— Louvado seja o Senhor, nosso Deus, por ter-nos dado Jesus! Ah! Às vezes o meu coração deixa de entender, mas que seja feita a Tua vontade, e não a nossa, porque ele não é o meu filho, e sim o Teu filho, que está entre nós!

Maria, terna, fitava os céus, e uma lágrima perolada caiu do seu meigo olhar.

Naquele momento, ali presentes apenas ela, Joana e Levi, eis que o Anjo Ismael lhe apareceu à frente. Comovida, ela indagou:

— Quem és tu? És um Emissário dos Céus?

— Maria! Estamos ao lado de Jesus. Encarregamo-nos de encaminhar até o Altíssimo as mensagens de Jesus.

— E tu, quem és? — indagou ao outro anjo

— Sou Miguel.

E os dois anjos se postaram ao lado dela.

De joelhos, Maria orou intensamente, agradecendo ao Altíssimo, louvando-O com extraordinária fé, jamais observada em qualquer ser da Terra.

O Anjo Rafael também se fez ali presente e Maria disse:

— Alegram-se bastante os meus olhos, porque somente agora sinto de novo a doçura que vi e senti antes de nascer Jesus!

Ismael disse:

— Maria, não deixes que se conturbe o teu coração perante os mais frágeis que não entendem a mensagem de Jesus. Ora com todo o amor do teu coração, para que te livres das tentações do mundo! Bendita és tu, Maria, que entre as mulheres pudeste conceber o Filho do Altíssimo! Bendita és tu, Maria, porque muitos se alegraram por Jesus estar neste mundo!

Maria chorava de contentamento. Joana sentia aquela fortíssima vibração e apenas via uns indefinidos vultos, sem melhor entender o que ali se passava. Maria se ergueu e Joana a abraçou, a indagar:

— Maria, conversas sozinha?!

— Não! São as revelações dos Céus! Agora posso compreender, mais do que ninguém, quem verdadeiramente é Jesus e o que pode fazer na Terra. Joana, o Senhor me disse que muitos o ouvirão e poucos o entenderão. Disse-me que muitos duvidarão dele, e é por isto que dificílima é a missão de Jesus. Mas o Senhor está ao lado dele por todo o tempo, para que mal algum lhe venha a acontecer.

— Maria, eu queria ser igual a ti: poder conversar com o Senhor!

— Ora, Joana, nunca me acontecera isto, a não ser quando Jesus estava para nascer. Há pouco os anjos estiveram novamente diante de mim. Estou feliz, muito contente mesmo, por ver que tudo acontece sob a vontade do Altíssimo!

Ana foi sepultada, deixando um clima de tristeza naquela casa onde era a companheira fiel de Maria.

No decorrer da enfermidade de Ana, pouco podia sair Maria, sempre dedicada a cuidá-la, além de ter de cuidar das suas crianças.

Joana permaneceu por ali, junto de Maria, enquanto que Camarfeu retornou a Damasco e reassumiu o seu trabalho.

Cessou toda aquela movimentação na casa de Maria e ela disse a Levi:

— Vai ao encontro de Jesus e dize-lhe que tudo correu na normalidade e que agradecemos por sua visita.

Levi se foi, dirigindo-se àquele local de encontro com Jesus, próximo do local do Jordão em que atuava João Batista. Ali chegando, foi informado de que Jesus se encaminhara ao Mar da Galiléia.

JOÃO BERBEL