XXXIX - OS DOZE APÓSTOLOS

XXXIX - OS DOZE APÓSTOLOS

Jesus saiu a caminhar, permanecendo por ali com os seus seguidores por alguns dias, até a chegada de João, quando então tomaria outros rumos.

Reuniu ali todo aquele povo que havia presenciado a cura do menino e de Talita, e que o ouvira pronunciar tão belas palavras.

Estavam todos alegres, todos desejando segui-lo, mas eram tantos e tão compromissados com o trabalho e a família que Jesus a todos não poderia arrebanhar para segui-lo. Disse-lhes Jesus:

— Alegre está o meu coração perante vós, porque sois os meus irmãos e somos uma grande família !

Estaremos caminhando por muitos lugares e se eu levar todos vós comigo, a todos não terei como alimentar.

Ademais, muitos de vós tendes a vossa família, que também desejaria estar comigo.

Porém, na verdade vos digo: não deveis deixar que por isto se perturbe o vosso coração, pois estarei convosco todos os dias, todas as horas, e muitos me verão e muitos estarão comigo.

Tenho de cumprir aquilo que sobre o Filho do Homem foi dito pelos profetas nas Escrituras. Unidos estarão os nossos corações para todo o sempre, porque vistes, ouvistes e sentistes o Filho do Homem. Muitos são os que desejariam ouvir o que ouvistes, ver o que vistes!

Em seguida Jesus designou aqueles que seriam os seus apóstolos, chamando-os um a um, e todos se alegraram. E disse:

— Sereis os meus fiéis seguidores. Comereis o mesmo que eu comer, bebereis o que eu beber e caminhareis comigo até a chegada do meu dia. Não vos escolhi: vós mesmos me escolhestes.

Assim, onze daqueles homens se tornaram seus diretos seguidores e dali caminharam com ele.

Havia uma casa à beira-mar que estava abandonada, local às vezes procurado pelos pescadores para acampamento. Jesus resolveu passar a noite ali, junto com os seus seguidores. Recostou-se na parede daquela vivenda e de repente viu que ali chegava um homem em disparada.

Jesus escrevia no chão e permaneceu na mesma atitude.

Aquele homem disse:

— Mestre, sou discípulo de João Batista. Ele me ordenou que eu também passasse a te seguir. Senhor, sou letrado. Meu pai é homem muito renomado. Aceitas-me na condição de teu discípulo?

Aquele homem se ajoelhou aos pés de Jesus, que fixou os olhos dele e disse:

— Sim, Judas Iscariotes, eu te aceito!

Disse-o e começou a chorar, ao que Judas indagou:

— Por que choras, Mestre? Não te agrada a minha companhia?

— Sim, aceito-te! Não choro por mim, e sim por ti!

— Mas o que há de errado em mim, Senhor?!

— Nada! Nada tens de errado, Judas! Seguirás ao lado do Filho do Homem, ouvirás o Filho do Homem. Choro porque dos meus doze irmãos, onze divulgarão sobre a Terra a minha obra, e quanto a ti, Judas, não o conseguirás. Eis a razão das minhas lágrimas!

— Mas, Senhor, hei de te servir, defender-te! Sei fazer contas, sei fazer tudo. Meu pai é um homem importante e muito me ensinou.

Jesus se ergueu e, erguendo Judas, o abraçou, dizendo:

— Judas, sobre os Céus e sobre a Terra há coisas que os homens ainda não entendem. Não te preocupes com o meu destino, pois sei que te dedicarás a mim com todo o teu amor e o teu carinho, porque és também uma das minhas ovelhas. Não foi João quem aqui te enviou, e sim o Pai que está nos Céus. Trabalharemos para que seja divulgada a Boa Nova entre os homens.

— Senhor, posso arrecadar muito dinheiro.

Jesus chamou:

— Tomé, vem aqui e traze-me também Tiago.

Os dois se acercaram e Jesus disse:

— Tomé, o teu coração não anda muito crente quanto aos que nos vem dos Céus. Creste apenas porque viste o que fiz.

— Não, Mestre! Quero servir-te com todo o amor do meu coração!

Jesus disse:

— Estava eu à frente da sinagoga, tendo ao lado Simão Pedro e André. Levi estava lá sentado, feliz, cobrando os seus impostos. Cheguei até Levi e lhe disse: — Levi, segue-me! Ele deixou o seu trabalho e me seguiu. De repente Pedro me disse: —

Mas, Mestre, ele é um cobrador de impostos! Então disse eu a Pedro que também Levi é um filho de Deus e que ele estará sempre do meu lado, nos meus momentos de dificuldade e de felicidade.

Ele era um homem rico e hoje é um homem pobre.

Também Simão Pedro era um homem rico e hoje é um homem pobre. Muitos dentre vós eram ricos e hoje são pobres. Ora, Judas, ninguém serve a Deus e a Mamom.

Se alguém for servir ao dinheiro, viverá do dinheiro.

Judas observou:

— Mas, Mestre, e os sacerdotes nas sinagogas?

— Lembrai-vos do que foi dito pelos antigos quando afirmaram que à Terra viriam falsos profetas. Sim, eles existem! Ninguém pode vender o homem ou comprar a sua fé. Homem algum deve constituir galardões de ouro em nome do Pai que está nos Céus. Em verdade vos digo que o reino do Céu não foi conquistado ao peso do ouro, como disseram os vossos ancestrais, porque eles vos prometiam o maná do deserto, mas com o seu fogo envenenavam a vossa alma e vos matava. O Filho do Homem e seus seguidores não hão de adquirir moeda alguma de ninguém. Em verdade digo a todos vós: até mesmo os animais constroem a sua casa, até mesmo o lobo cava a sua toca, mas o Filho do Homem e seus seguidores não terão ao menos uma pedra em que inclinar a cabeça!

Todos baixaram a cabeça, desconcertados, e Jesus disse:

— Sei que há muita confusão no vosso coração, sei que muito se conturba a vossa cabeça. Não vos preocupeis com as coisas da Terra, porque de mim ninguém tirará o que é meu. Serei tal uma galinha e vós os meus pintainhos, e por onde eu estiver, comigo estareis. Mas em verdade e em verdade vos digo: muitos são os que desejariam estar no vosso lugar e caminhar comigo, porque passarão o Céu e a Terra, e esta Boa Nova que trago aos homens será um novo testamento para um novo tempo e uma nova humanidade. É por isto que hoje agradeço ao Pai por vos ter enviado a mim, homens simples, para que da simplicidade cresça um novo juramento, um novo testamento na Terra. Após a minha vinda, a Terra não mais estará pagã. Muito sangue será derramado, muitas lágrimas cairão, mas este novo testamento será um novo ensino à humanidade. Haverá muita divergência, mas todos tratarão a mim e a cada um de vós na condição de seres perfeitos, e então não po¬demos ter olhos para as coisas do mundo, porque estamos com Deus e Deus está com cada um de nós.

Encerrado o seu sermão, Jesus caminhou dali.

Logo correu a notícia de que Canaã seria visitada por Jesus. Ora, Joana estava ansiosa para rever Jesus, tanto quanto Camarfeu ansiava por rever os seus parentes em Canaã.

O casal chegara então naquela região, ignorando que por ali estava Jesus.

Em certo momento, o casal divisou uma multidão na praça e dela se acercou. Lá no meio estava um homem pregando que todos se arrependessem, que todos se considerassem iguais perante o altíssimo.

Joana, vendo que se tratava de Jesus, correu a abraçá-lo.

No preciso instante, ali chegou uma mulher que presenteou Jesus com uma maçã. Jesus, vendo ali uma criança, deu-lhe aquela maçã.

Joana disse:

— Senhor, tua mãe muito padece por tua
ausência.

— Mulher, quem é a minha mãe?

— Mestre, estás tão diferente! Ora, é Maria!

— A minha mãe é a tua mãe. A minha mãe é a mãe de todos, porque dentre as mulheres nascidas de mulheres, Deus me deu a mais pura que se podia encontrar. É como um jardim florido na primavera! É pura e tem a mesma cor da amêndoa madura! Ela é como os lírios do campo! Foi através dela que vim a este mundo!

— Feliz é a tua mãe e bendita seja ela entre as mulheres por ter gerado a ti!

Jesus sorriu e disse:

— Benditos sejam todos aqueles que ouvem e aceitam a minha palavra!

Naquele momento se abriu a multidão para a passagem de um homem todo deformado. Jesus se lhe acercou e indagou:

— Qual é o teu nome?

— Jonas.

— Jonas, o que queres de mim?

— Senhor, dá-me a graça de poder voltar a andar.

— Julgas que tenho tal poder?

— A tantos e tantos curaste, Senhor! És o filho de Davi!

Jesus tocou na cabeça dele e ordenou:

— Levanta-te e anda!

Com certa dificuldade ele se ergueu e caminhou, dizendo alegremente:

— Não sinto mais dor! Não tenho mais nada! O Senhor me curou!

Comovido, ajoelhou-se aos pés de Jesus, que o reergueu e disse:

— Curou-te a tua fé, e não eu!

Jesus caminhou dali e, a certa altura, num local isolado, viu uma mulher solitária, a quem indagou:

— Por que estás triste, mulher?

— Porque sou imunda e ninguém me aceita. Sangro dia e noite.

— Mulher, crês em que eu sou o Filho de Deus e que posso curar-te?

— Senhor, acredito com toda a força do meu coração, com toda a força da minha alma! Porém, sendo imunda, não me senti digna de me aproximar de ti, que és puro, porque somente os puros devem estar contigo.

— Mulher, a tua fé te curou! Vai e anuncia aos teus familiares que já não mais és imunda!

Camarfeu, a tudo ali observando, posse à frente de Jesus, dizendo:

— Tenho ouvido falar muito bem de ti.

— Sim, Camarfeu. Muitos falarão bem de mim, muitos falarão mal de mim. Àquele que bater em minha porta eu a abrirei e lhe darei alimento. Aquele que pedir, tendo fé, obterá. Sim, Camarfeu, foi para dar testemunho da verdade que vim a este mundo.

— Jesus, sei que és um homem bom. Realmente, nada de errado te pode ser atribuído, pois vê-se que ajudas os pobres e oprimidos, mas não posso aceitar que és o Messias.

— Camarfeu, Camarfeu! Não somente os teus lábios o dizem: muitos e muitos outros dirão a mesma coisa. Mas chegará o dia em que todos verão o Filho do Homem sentado ao lado do Deus todo-poderoso, e então crerão em mim e entenderão que realmente sou o Emissário do Pai que veio para salvar a Terra.

— Salvarás a mim e salvarás a todos os pecadores?!

— Para tal testemunho, Camarfeu, é que vim a este mundo.

— Mas, Jesus, estás blasfemando! Como poderias salvar os pecadores?!

— De fato, não posso salvar os pecadores, mas eu os convidarei a que se arrependam.

— Mas, Jesus, isso dizes aqui, em praça pública?! Eles te ouvirão mas logo a tudo esquecerão: foi sempre e sempre assim. Foi assim com os profetas e contigo não será diferente.

— Camarfeu, eu não vim trazer a paz: vim trazer a espada. Porque aquele que não ouvir e sentir a minha palavra será condenado por si mesmo.

Camarfeu, já mudando o tom da voz e o tratamento, indagou:

— Mas como pode sê-lo, Mestre?

— Ah! Agora palavra sábia, muito sábia saiu da tua boca. Sim, eu sou Mestre, porque eu ensino!

— Mas, Mestre, sei que andas no meio das prostitutas e dos mendigos, e que dormes em qualquer lugar...

— Para dar testemunho à verdade é que vim para os doentes, convidá-los ao arrependimento. Aquele que me ouvir e seguir de corpo e alma certamente estará salvo. E muitos serão os que me ouvirão e estarão do meu lado. Convence-te disto, Camarfeu!

— Estás convidado a ir na minha casa.

— Camarfeu, já estive em tua casa por várias e várias vezes, e não muito bem me recebeste. Porém, em verdade, em verdade te digo, Camarfeu: aqueles que a mim recebem também recebem aqueles que me enviaram.

— Muito bem, Jesus! Se fores até Damasco e de mim te lembrares, visita-me. Já não tenho mais raiva nem ódio no coração.

Jesus colocou a mão no ombro de Camarfeu, que já muito avançava na idade, e disse, afinal:

— Camarfeu, cuida bem da tua família, cuida bem de Joana, e ela bem cuidará de ti.

Disse-o e caminhou dali com os seus apóstolos, a quem disse:

— A minha mãe me chama e nós todos iremos até ela.

Rumaram à Galilé
ia. Chegando bem próximo da sua casa, Jesus resolveu acampar por ali, num local com muitas árvores.

Sabendo que Jesus estava por ali, várias pessoas foram ter com ele, inclusive Levi, a quem disse Jesus:

— Levi, não passarás a noite conosco. Retorna e dize à minha mãe que nas primeiras horas da manhã estarei com ela.

Disse Levi:

— Maria quer ir até Canaã. Haverá lá a festa de casamento de um teu parente e ela deseja que a acompanhes.

— Dize-lhe que nos encontraremos amanhã, porque hoje tenho algo a fazer.

Os apóstolos, cansados pela viagem, se acomodaram ali, em meio às árvores, e logo dormiram. Aproveitando-se daqueles momentos de quietude, Jesus saiu a orar. Apenas Simão o viu a sair e pensou: Ele se foi em oculto. E Simão o seguiu e o viu orando.

Com grande amor orava Jesus naqueles momentos. Tanta era a força de fé naqueles instantes que as árvores se acenderam, numa bela incandescência.

Quando tudo ali se iluminou, eis que os quatro anjos protetores de Jesus se lhe acercaram: Ismael, Miguel, Gabriel e Rafael. Uma voz se fez ouvir:

— Nosso Senhor que desceste à Terra, tudo aconteceu da forma que deveria acontecer.

Disse Jesus:

— Sei que não tardará a minha hora, e nessa hora sei que estarás comigo.

— Jamais te abandonarei!

Jesus começou a chorar. Eram lágrimas de sangue! A consolá-lo, disse-lhe um dos anjos:

— Bem-aventurado és tu. Senhor, que nos concedes a alegria de atuarmos na Terra! Vai, Filho de Deus, e mostra à humanidade que o amor vencerá o ódio e tudo se consumará, até chegar o dia em que o ódio e o derramar do sangue estarão banidos da Terra!

Jesus colocou a mão no rosto e fez pender a cabeça.

Simão ficou bastante espantado com o que vira. Jesus o chamou:

— Aproxima-te, Pedro!

— Senhor, que coisa esplendorosa! Quem são aqueles anjos?

— Vieram a mando do meu Pai. Simão Pedro, sei que os teus olhos se deslumbraram vendo tais coisas, mas não o comentes com os teus irmãos. Simão Pedro, és pedra e em ti edificarei a minha igreja!

— Senhor, hei de te servir sempre e sempre! Nunca hei de te abandonar! Teu servo serei eternamente!

— Ora, Simão Pedro, filho de Jonatas, os meus olhos se alegram vendo e sentindo o amor que tens por mim. Rogarei ao Pai que, onde quer que eu esteja, todos vós estejais comigo. Isto te afirmo!

Jesus saiu dali. Já estava para amanhecer. Recostou-se a um canto e dormiu.

O Sol se fez presente e todos os apóstolos se ergueram e arrumaram, enquanto Jesus ainda dormia. Por fim tocaram nele. Abriu os olhos, limpou o rosto e, com os seus, rumou à sua casa.

Maria já os aguardava com muitos pães e peixes. Um banquete se preparava à chega¬da de Jesus.

A mesa era enorme, construída com a arte e empenho de José. Ali se sentou Jesus e os doze apóstolos.

Levi fez menção de se sentar junto a eles, mas foi barrado por Jesus:

— Levi, deixa que aqui se sentem os meus irmãos. Senta-te ali mais atrás.

Pegando o pão, Jesus passou um pedaço a cada um e também lhes dividiu o peixe. Todos comeram e, a certa altura, João perguntou:

— Mestre, não darás aos demais o que de comer?!

— Não, João! Este é o nosso momento! É a hora em que o Céu desce à Terra, é a hora de cada um de vós comungar comigo. Pouco comestes e estais famintos. É necessário alimentar a quem tem fome.

Levi, muito triste, saiu para fora, e Maria, a tudo presenciando, disse a Jesus.

— Levi está muito magoado e vai embora. Há muito ele estava à tua espera. Ele é igual a nós, sente as nossas dores e necessidades. Eu o chamei mas ele não quis adentrar aqui.

Lá fora estava Levi, sentado num tronco de árvore, e Jesus foi ter com ele. Disse Levi:

— Senhor, não devo estar onde estão tu e teus seguidores. Sei que ainda estou muito longe de ti. Sou muito imperfeito, Senhor!

Jesus o abraçou com carinho e disse:

— Levi, a cada um de nós foi dada uma missão na Terra. Ora, Levi, já estás alimentado e eu estou contigo! Por tua própria boca já falei, Levi. Não preciso estar contigo de corpo presente, pois estarei em espírito. Dentre os que o Pai me enviou és o primeiro. Então por que te preocupas com tão pequenas coisas? Não viste tantas belas coisas operadas por minhas mãos, coisas que os homens ainda não viram? E não ouviste de mim coisas que homem algum ouviu? Estes doze irmãos estão preparados para o meu tempo de agora e tu serás do meu tempo futuro.

Levi o abraçou e pediu:

— Perdão, senhor!

Levi se lembrou, naquele momento, daquele dia em que, à frente daquela Maria saudosa da presença do seu filho, Jesus tomara do corpo dele e transmitira à sua mãe aquelas palavras confortantes.

E Jesus lhe disse:

— Levi, servir-me-ás em outras oportunidades, mesmo eu já não estando presente, porque tudo sabes de mim e aqueles irmãos nada ainda sabem de mim: são homens que ainda estão chegando, homens que ainda não sabem se sou bom ou ruim, homens que ainda albergam muitas dúvidas na alma. Quanto a ti, sei que não alimentas dúvida alguma sobre mim. Permanecerás com a minha mãe, serás o guia dela.

Levi novamente abraçou Jesus, dizendo:

— Sou teu servo! Estarei em todo e qualquer lugar que me colocares! Quero servir-te com toda a força da minha alma e do meu coração!

JOÃO BERBEL