XXXV - ANDRÉ, JOÃO E SIMÃO

XXXV - ANDRÉ, JOÃO E SIMÃO

Os discípulos João e André acompanhavam Jesus em sua ida ao Mar da Galiléia. Os dois estavam extremamente maravilhados com tudo o que acontecia em torno de Jesus.

Tinham-no na condição de um grande e inigualável Mestre.

Jesus abraçava todas as pessoas que encontrava pelo caminho e todos iam adquirindo admiração e confiança nele.

Ao tombar da tarde, Jesus chegou no porto do Mar da Galiléia, ali onde estavam vários pescadores.

De repente eis Jesus presenciando a chegada de um barco com um homem em fúrias, pronunciando palavrões e palavrões.

Aquele homem ancorou ali o seu barco. Havia tentado e tentado, mas nada lograra pescar e por isto lamentava e xingava sem cessar.

André se adiantou a abraçá-lo, indagando:

— Está tudo bem, meu irmão?

— As coisas por aqui não andam nada bem. Somente dívidas e mais dívidas! Tentamos buscar no mar, mas nele não há mais nada. Parece que acabaram com o peixe daqui!

Jesus se acercou e disse:

— Simão! Não tires do barco as tuas redes e volta a pescar!

Simão vociferou:

— Esse homem está louco! Onde já se viu! Esse homem não sabe que passei a noite inteira neste barco, nesta maldita pescaria, e nada peguei!

André pediu:

— Simão, faze o que o Mestre ordenou!

— Mestre?! Ora, André, não venhas dizer-me que segues outra vez a um desses profetas que não cansas de seguir! Estou cansado e quero descansar! Trabalhei a noite toda e nada consegui!

Jesus subiu no barco, segurou na mão de Simão e, olhando fixamente nos olhos dele, disse:

— Simão! Sou eu quem te pede isto!

Simão ficou meio anestesiado sob aquele olhar imperativo e, agora com voz mais amena, disse:

— Não estás entendendo! Já pescamos por toda a noite e nada conseguimos.

André insistiu:

— Faze, Simão, o que te pede o Mestre! Jesus se sentou na proa e disse:

— Vamos!

O barco se afastou aos poucos, Simão ainda desconfiado e gritando aos seus serviçais:

— Forçai, homens! Não sejais fracos! Voltemos ao mar!

Em determinado local Jesus pediu que parassem de remar, o que fizeram, e ordenou:

— Lançai agora as vossas redes! Preparavam-se para lançar as redes do lado direito do barco, mas Jesus ordenou:

— Lançai-as à esquerda! Obedeceram-no. Jesus se ergueu, foi ter com Simão, colocou a mão no ombro dele e disse:

— Simão, bendito seja o nosso Pai, que criou o mar e os peixes para alimentar os homens!

Lançadas as redes, logo Jesus ordenou:

— Recolhei as redes! Simão discordou:

— Mas acabamos de lançá-las às águas!

— Recolhei!

Simão, meio contrariado, ordenou aos seus homens que recolhessem as redes. Um deles disse:

— A rede está muito pesada. Deve estar presa em alguma coisa.

Jesus ordenou:

— Puxai!

— Mas está muito pesada!

Jesus e Simão os ajudaram e todos puxaram as redes.

Era um momento de muita surpresa para Simão e os demais: jamais haviam visto tanto peixe em suas redes, de uma só vez. O barco ficou atulhado de peixe.

Disse Jesus:

— Simão, por que te preocupas com tantas coisas assim?

— Tenho o meu trabalho e o meu lar. Muitas pessoas precisam comer!

— Simão, não somente de pão vive o homem, e nem somente de peixe, mas também do amor do meu Pai!

Feliz e admirado com o inusitado sucesso daquela pescaria, indagou Simão:

— Mas tu és o Filho do Altíssimo, assim como é dito nas Escrituras?!

— Sim, sou, para dar testemunho à verdade!

Contentíssimo com aquela pesada carga de peixe, Simão cantava, abria os braços, não se continha em sua alegria.

André, vendo a aproximação do barco e o cantarolar de Simão, logo percebeu que muito peixe haviam conseguido.

Toda aquela folia de Simão acabou por despertar a atenção de muitos, inclusive de um certo cobrador de impostos chamado Levi, que gritou para ele:

— Simão, antes nada tinhas conseguido, mas agora muito peixe pegaste, e então hás de dar a tua contribuição para Roma!

Simão saiu vociferando:

— Malditos são esses cobradores de impostos! São iguais a abutres na carniça! Eles não nos dão trégua! Eles estão sempre nos perturbando! Eles nos roubam tudo o que temos!

Jesus lhe disse:

— Acalma-te, Simão! Boa foi a tua pescaria, e então deves mesmo dividi-la com os que não têm.

Recolheram aqueles peixes e Jesus saiu dali. Procurando uma parte mais alta, sentou-se na areia e se pôs a desenhar no chão um barco, tendo a seu lado André e João.

Comentou André com Jesus:

— Simão está muito feliz com o êxito da pesca. Não deves perturbar-te com ele.

Ora, ele é assim mesmo: diz palavrões, xinga todo mundo, mas tem o coração bom. Não se sabe de nenhuma maldade que pudesse ter feito a alguém.

Acaba por contribuir normalmente com os impostos. Então deves depositar nele um pouco de confiança.

— André, o momento dele ainda não chegou. Ele se dedicará a mim com toda a força do seu amor e sua alma.

Os serviçais de Simão já haviam preparado todos os peixes para distribuição.

Cabelos encaracolados, barba desgrenhada, ali chegou Simão gesticulando e estacou à frente de Jesus, que permaneceu sentado.

Simão o convidou: — Pelo grande serviço que nos prestaste, podes comer conosco em nossa casa?

— Sim, estarei contigo.

Jesus se ergueu e com os seus discípulos caminhou poucos passos, logo encontrando um menino a espumar, sob ataque epiléptico, o que sempre lhe ocorria, sem que ninguém o lograsse curar.

Jesus pediu que lhe dessem passagem e então o pai dele se adiantou até ele, dizendo:

— Já não sei mais o que faço com o meu filho. Ele está endemoninhado e nada pode detê-lo. E anda por toda parte. Um dia está bom, outro dia está péssimo.

Tenho que trabalhar para dar sustento à minha família, mas a minha esposa não consegue segurá-lo, e assim tenho de ficar sempre ao lado dele.

Jesus tocou no ombro daquele homem, afastou-o da sua frente e se acercou do menino que estava doente, com o corpo retorcido.

Dirigindo-se ao espírito perturbador, indagou-lhe Jesus:

— Por que tentas tanto este irmão, ó ser imundo?!

Uma grossa voz saiu do menino:

— Não me toques!

Jesus colocou a mão na testa dele e ordenou:

— Afasta-te e não mais conturbes este irmão!

Disse-o e passou a mão no rosto do menino, que gritava com grossa voz, assustando a todos os presentes e dizendo:

— Não podes tocar-me! Não toques em mim! Tenho medo!

Jesus deslizou as mãos por uma daquelas pernas atrofiadas, com isto fazendo estalar os ossos do menino, de tal forma que todos presenciavam e escutavam aquilo.

Fez o mesmo com a outra perna e com os braços, aquela voz forte sempre gritando para que Jesus se afastasse.

Em seguida, Jesus cuspiu na mão e levou à boca daquele menino, que então desmaiou.

Todos se assustaram, dizendo:

— Ele está morto! O que foi que aconteceu?!

Jesus ordenou que ninguém tocasse no menino, mas desobedeceram-no, tentando, por toda forma, erguê-lo. Indignado, disse-lhes Jesus:

— Ó seres imperfeitos, homens sem fé! Não compreendestes ainda a obra de Deus?! O Pai se manifesta através de vós e através das minhas mãos se manifesta a obra de Deus!

Disse-o e soprou no menino, que imediatamente abriu os olhos. E Jesus lhe ordenou:

— Levanta-te!

O menino se ergueu e caminhou com certa dificuldade.

Todos se maravilharam com aquela ação de Jesus, que já saía dali e ouvia do pai do menino:

— Graças te dou, Mestre, por teres curado o meu filho!

Jesus lhe disse:

— Se tivesses fé, farias o mesmo que eu fiz.

André se acercou de Jesus e disse:

— Ora, Mestre, ninguém pode fazer o que fazes!

Jesus se apartou um pouco dali e indagou a André:

— O que vês para além do mar?

— Vejo montes, muitos montes.

— Pois se tivesses fé do tamanho de um grão de mostarda, ordenarias que se abrissem aquelas montanhas e elas então se abririam e o mar passaria no meio delas.

— Perdoa-nos, Mestre! Ainda somos pecadores!

— Orai e vigiai, todos vós, para que não vos derrubem as tentações!

Jesus caminhou dali, acompanhado de João, André e Simão. Este lhe indagou:

— Irás mesmo em minha casa?

— Sim! Ainda hoje estaremos contigo. Porém ainda tenho algo a fazer.

JOÃO BERBEL