XXXVI - NA TAVERNA

XXXVI - NA TAVERNA

Jesus se dirigiu a uma taverna onde se divertiam muitos boêmios e mulheres de má fama. Seus acompanhantes estacaram na porta e Simão ponderou:

— Senhor, este não é lugar para um homem de bem!

— Simão, os pecadores é que são chamados ao arrependimento. Os doentes é que precisam de remédio, e não os sãos. Por que se conturba a vossa alma, meus irmãos? Comamos e bebamos em memória desta gente. E também o povo de Deus!

Disse-o e se sentou, logo se vendo ladeado por algumas mulheres. Uma delas lhe ofereceu um copo de vinho e Jesus o bebeu.

Simeão, um dos frequentadores da taverna, se acercou e sentou perto de Jesus, dizendo:

— Não deves beber do que aqui te oferecem! Jesus redarguiu:

— Este é o fruto da uva. Aproximai-vos, André, João e Simão!

Eles adentraram o recinto, mas se encolheram a um canto, enquanto várias mulheres se mantiveram rodeando Jesus. Simeão pediu:

— Senhor, então dize-nos algo de bom, algo que nos possa alegrar. Jesus lhes disse:

— Havia um bondoso senhor que recebera, com as graças celestes, uma grande herança dos seus pais. Constituiu família e teve dois filhos, e depois ainda mais outros, e a todos amava com igualdade. Todos de lá trabalhavam e com a dedicação à lavoura sua fortuna foi aumentando. Sua colheita e seu rebanho eram os melhores. Era proprietário de uma grande vinha e todos dali lhe depositavam confiança e obediência. De repente um dos seus filhos o procurou e disse: — Pai, não posso mais ficar aqui. Preciso sair, conhecer o mundo, ver novas leiras, para que eu possa proceder igual a li, que tanto prosperaste. O pai lhe disse: - Meu filho, é justo que vás. Ainda hoje separei a parte que te toca e a ti a darei. Aquele pai comercializou uma parte da sua Vinha e do seu rebanho; entregando ao filho uma certa soma de dinheiro, disse-Ihe: — Vai e encontra o teu caminho! Aquele filho se foi e de repente adentrou em um lugar similar a este em que ora estamos. Lá era farta a bebida e as mulheres muito o agradavam. Ele bebeu, comeu e lá deixou um tanto do dinheiro que carregava. Dali partiu para outras e outras aventuras, e quando chegou a pensar em adquirir terras e rebanhos, eis que o seu minguado dinheiro já não mais dava. Passou então a trabalhar de serviçal para outros senhores. Trabalhava dia e noite, a qualquer hora, e tão mal se alimentava que foi emagrecendo. Passava o tempo, ele se lembrando então da grande fartura que desfrutava em teu antigo lar. Comparando com a sua penosa situação, dizia para si mesmo: Aqui a nada tenho direito. Na casa do meu pai os escravos se alimentam muito melhor do que eu aqui. Foi assim que no seu coração bateu a forte Vontade de retornar ao seu antigo lar.

O caminho era áspero e longínquo. O arrependimento era forte naquele coração, o remorso o matava aos poucos. Ele bem sabia que o seu pai e os seus irmãos desfrutavam da maior fartura, enquanto que a ele nada restava, porque já gastara toda a sua parte. Ele caminhou e caminhou, faminto, e, de repente, ao longe avistou a sua casa, as plantações. Chorou comovido, suas lágrimas molhando o chão. Caminhou vagarosamente, dizendo para si mesmo: — Mesmo se meu pai me receber para ser o seu escravo estarei satisfeito, pois para mim nada mais interessa na vida. De repente foi noticiado àquele pai que o seu filho retornava. Naquele filho a dor no coração era tão forte que queimava tal lenha seca, e aos poucos se aproximava daquela vivenda, com a dúvida cruel quanto a ser ou não bem aceito pelo pai e pelos irmãos. O pranto se derramava naquele rosto cansado. De repente, eis o seu pai a recebê-lo com os braços abertos e a exclamar com alegria: — O meu filho voltou!

E aquele filho disse: —Pai, se me aceitares, mesmo se eu passar a ser um teu escravo, serei muito feliz!

Mas o pai disse: — Não serás o meu escravo! Es o meu filho amado! E assim aquele pai chamou os serviçais e lhes ordenou que abatessem os melhores animais e preparassem a melhor comida em regozijo à volta daquele ente querido. Porém, o irmão mais velho, não aceitando muito aquela situação, aproximou-se do pai e argumentou: — Meu pai, não é justo promover esta festa! Estaremos matando rebanho que nos pertence para doar ao nosso irmão que de mais nada tem direito, pois acabou com tudo o que levou daqui. Aquele pai se ergueu e ordenou: — A ele será dado tudo e tudo novamente! O filho inconformado indagou: —Mas por que ages assim'/! E aquele pai disse, com alegria: — Porque o meu filho eslava morto e agora vive!

Todos os ali presentes ouviram com atenção a parábola de Jesus, entendendo que também os que ali estavam não deixariam de sofrer, amargar dificuldades, mas que um dia todos haveriam de retornar ao Pai.

Simão, chocado no íntimo da alma, acercou-se de Jesus e disse:

— Perdoa-me, Mestre! E Jesus disse:

— Bebei! André observou:

— Senhor, falaste tão maravilhosamente! Isto nos mostra que realmente és aquele que o Céu nos mandou para nos salvar! Mas, Senhor, essas mulheres e esses homens o que devem fazer para se apresentarem àquele senhor que é o dono da vinha?

— Deixai de pecar, meus irmãos! Praticai todo bem que puderdes! Acudi o vosso próximo! Se alguém sem camisa se vos acercar, dai-lhe as vossas vestes, cobri-o. Se alguém faminto se vos acercar, dai-lhe o alimento. Se alguém sedento se vos aproximar, dai-lhe o que de beber. Se alguém vos ofender, perdoai.

João indagou:

— Mesmo que esse ofensor seja o nosso inimigo?

— Sim, mesmo que seja o vosso inimigo, pois se apenas perdoardes o vosso amigo, isto em nada vos conta, mas se perdoardes o inimigo que vos aborrece, eis que a porta dos Céus se vos abrirá. Sede bons assim como é o vosso Pai celestial!

Podeis admirar a beleza das águas vos contemplando com o peixe que vos sacia a fome. Ora, se o Pai não vos amasse não vos daria o peixe e não vos daria a terra e o trigo para que comêsseis o pão.

Sede então perfeitos como perfeito é o vosso Pai!

Um profundo e respeitoso silêncio tomava conta daquela taverna. Jesus provou apenas um pouquinho daquele vinho e saiu dali. Simeão correu a abordá-lo:

— Senhor, nada bebeste! Bebe em nossa memória! Jesus disse:

— Bendito seja o Pai que está nos Céus, que vos deu a vinha e dela o seu fruto! Bebei também em minha memória, porque hoje o Príncipe deste mundo está ao vosso lado e chegará o dia em que não mais estaremos juntos.
Nesse dia a Terra se escurecerá!

JOÃO BERBEL