XXXVIII - TALITA

XXXVIII - TALITA

Aqueles seguidores de Jesus caminharam e de repente viram o seu Mestre, solitário, na praia. Correram até ele.

Jesus os fitou com amor, contemplou o mar e disse:

— Bendito sejas, meu Pai, que criaste o mar, as aves, a Terra e tudo o que nela vive!

Fixando Levi, disse:

— Vai e dize à minha mãe que tudo acontece da forma que o Pai pediu. Aquela última cura de Jesus criara muita admiração naquelas paragens.

De repente ali chegou um senhor em desespero, dizendo:

— Senhor, vimos quando curaste aquele endemoninhado. Podes curar tambem a minha filha?

Um outro homem se acercou daquele pai transtornado e disse:

— Por que tentas o Mestre se sabes que tua filha já está morta? Jesus olhou para aquele homem e disse:

— Não, ela não morreu: apenas dorme. O mesmo homem disse:

— Duvidas de mim?! Jesus se dirigiu àquele pai:

— Leva-me até a tua filha!

Foram até aquele lar e encontraram a mãe e os familiares em desespero. Jesus ordenou que todos saíssem e disse àquela mãe:

— Mulher, a tua filha apenas dorme!

— Senhor, ela morreu! Eu sei!

O pai ficou de fora, sem coragem de entrar. Apenas a mãe ficou ao lado de Jesus, que se sentou na cama, tocou o braço daquela menina e disse:

Imediatamente a menina abriu os olhos, sob o grande espanto da mãe, e braçou Jesus, que a acolheu nos braços com carinho e disse:

— Dá-lhe o que de comer. Ela não estava morta: apenas dormia. Aquela mãe, exultante de alegria, saiu à porta e gritou para que todos ouvissem:

— Talita está viva!

Todos então se maravilharam.

Aquele pai correu a abraçar Jesus, que disse:

— Ainda não deveis propagar essas coisas.

Disse-o e saiu mansamente, tendo a seu lado João, que indagou:

— Mas, Mestre, a tua obra não há de aparecer para todos?! João Batista gritava abertamente!

— João, há na Terra muitas e muitas coisas que ainda não entendes, coisas que o teu coração ainda não está preparado para compreender.

Sabendo não ser compreendido, Jesus nada disse ali sobre o fator cataléptico que atingira Talita e apenas disse que ela estava a dormir. Ora, assim que aquele pai o abordara pela primeira vez, Jesus já se mostrava ciente do que ocorria com Talita, já a havia visitado e se preparara para acordá-la.

Entretanto, um clima de maravilha se formava ali na mente de todos.

Jesus ordenou a Levi que fosse ter com Maria e, chamando João, disse:

— Tu irás com Levi. Esquivando-se, disse João:

— Mestre, tenho muitos afazeres.

— Bem sei, João! Agora teus afazeres serão a obra do Senhor! Pedro se adiantou e também tentou esquivar-se:

— Mestre, também eu tenho família.

— Simão Pedro, serás pescador de almas! Não é aquele o princípio com que o Pai te enviou à Terra, e sim para que testemunhes e propagues a verdade!

— Ora, Mestre, não sei ler nem escrever; sei apenas xingar e blasfemar.

— Simão, a obra do Pai está no coração de boa vontade, e não nos letrados, nos escribas e fariseus, nem nos sacerdotes. A obra do Pai está no coração daquele que ouve o chamado e segue. Tu, Simão, estarás ao meu lado e verás o Paraíso.

Perdes aqui a tua vida, mas ganhas a vida na eternidade!

O coração de Simão estava transbordante de alegria e fé. Ele e todos os lado estavam grandemente maravilhados, acreditando que Jesus havia ressuscitado Talita..

Por ali ficou Jesus.

Em certo momento, vendo que Pedro se dirigia ao seu barco, Jesus lhe disse:

— Segue-me, Simão Pedro, pois serás pescador de homens, pescador de almas!

Um dos serviçais pediu:

— Senhor, dize-nos algo de bom, algo que nos alegre o coração. Jesus fitou os olhos de Simão e disse:

— Dois homens foram orar na sinagoga. Um deles era um cobrador de impostos e o outro era um serviçal. Primeiramente, o cobrador subiu no altar e leu a sua oração, dizendo: — Pai, muito pequei, porque contrariei muitos corações, mas estou arrependido e rogo a Tua bênção! Orou e desceu. Aquele outro, um dos obreiros do templo, subiu ao altar e orou: — Graças Te dou, meu Deus, porque em mim não há pecado algum, pois não cobro tributo de ninguém! Simão, dize-me: qual dos dois mais agradou a Deus?

Simão ficou desconcertado, sem saber o que dizer, e Jesus retomou a palavra.

— Certamente, Simão, que o cobrador de impostos mais agradou ao Altíssimo, porque aquele que se exalta será rebaixado e aquele que se rebaixa será exaltado no reino dos Céus.

Disse-o, virou as costas e caminhou dali rapidamente, com André. Simão pulou do barco e disse aos seus serviçais:

— Tenho uma família e a ela nunca nada faltou. Tenho esposa e filhos. Até que o meu filho cresça e assuma o posto de pescador, este barco ficará nas vossas mãos. Porém, nada devereis deixar faltar à minha família. Sempre retornarei aqui para ver se estareis cuidando à altura do que é meu.

Jesus sumiu em meio à vegetação eseus seguidores procuraram-no por ali, até que reapareceu, a lhes dizer:

— Fui até o Pai e o Pai está feliz por me acompanhardes. Simão se adiantou:

— Mestre, doei o meu barco aos meus servidores, para que eles continuem tirando do mar o alimento para eles e minha família, dela cuidando em tudo.

— Fizeste-o, Simão? fará tudo muito bem, cumprindo à risca tudo o que lhe recomendei.

— Digo-te, Simão: serviremos a Deus. Estaremos um dia aqui, outro acolá. Comeremos aquilo que nos ofertarem, mas o muito será pouco e o pouco será muito, pois assim mesmo é o reino dos Céus: àquele que de pouco vive muito será dado no reino do meu Pai.

— Mas, Mestre, como ficam então os ricos?

— Simão Pedro, em remotos e difíceis tempos, eis que havia um certo senhor que chamou um dos seus servos, deu-lhe duas moedas e lhe pediu que as conservasse, porque no final lá estaria para cobrar o seu direito por aquilo que ali lhe passava.

A outro servo deu três moedas e ainda a outro deu cinco. Passou o tempo e aquele senhor lá chegou a cobrar os seus talentos. Chegou ate aquele dos cinco talentos e verificou que fora muito bem sucedido nos seus negócios: de cinco fez dez. O senhor pegou o que era seu e lhe disse: — Sábio servo, serás recompensado pelo teu serviço. Chegou até aquele dos três talentos e verificou que, da mesma forma, ele dobrara os seus talentos, e o senhor lhe agradeceu e louvou da mesma forma.

Por fim chegou até aquele dos dois talentos, que, feliz por vê-lo, disse: — Senhor, enterrei os teus talentos para devolvê--los quando viesses buscar, para que os ladrões não os roubassem. E o senhor lhe disse: — Servo preguiçoso! De ti mais ainda será retirado! Assim é então contigo, Simão. Se Deus te concedeu a vida e aquilo que a conserva, então isto se resguardará segundo a vontade do Pai. Sim, Simão, porque àquele que tem, mais ainda se lhe dará, e àquele que não tem, o pouco que tem ainda lhe será tirado.

JOÃO BERBEL