O EVANGELHO GNÓSTICO DE TOMÉ

O VERDADEIRO CRISTIANISMO COMO FOI ENSINADO POR JESUS

Introdução

Ao contrário do que se poderia pensar, o movimento cristão primitivo não constituiu um bloco monolítico de crenças e ritos administrados por uma única e incontestada instituição. Durante estima em uma centena as seitas dissidentes suscitadas no decorrer dos três primeiros séculos da era cristã.

Nenhuma das heresias desse período representou maior risco para a estabilidade da Igreja primitiva do que a dos gnósticos. Surgido no início do segundo século, o gnosticismo alcançou o mais alto ponto de sua trajetória durante as duas décadas finais desse mesmo século para extinguir-se na segunda metade do século seguinte, o terceiro, cedendo seu espaço a novas heresias, como a dos maniqueus que, aliás, adotou conceitos gnósticos na formulação de sua doutrina.

Foi considerável o atrito ideológico entre as diversas correntes que disputavam a hegemonia do movimento cristão, como ainda hoje se pode observar dos veementes textos sobreviventes, de autoria dos heresiólogos de então, na defesa do que entendiam como princípios inegociáveis da única e verdadeira fé. O resultado de tais contendas ideológicas é que definiu para a posteridade o perfil do cristianismo.

A temática deste trabalho desenvolve-se, portanto, em zona de turbulência, em território contestado, sobre o qual tendências divergentes lutam por expandir-se e consolidar-se com o reconhecido vigor que costuma ser posto em discussões políticas ou religiosas e que parece redobrar quando o debate combina as duas situações como é o caso que temos para exame.

Em assuntos de tal natureza, a abordagem deve ser cautelosa e balanceada, mas não tímida a ponto de inibir, no expositor, uma tomada de posição. O dever de informar não exclui o direito de opinar, desde que as atitudes e intenções do autor fiquem claramente identificadas para o leitor.

Nada tenho a objetar aos autores que, no tratamento deste ou de outros assuntos potencialmente controvertidos, prefiram resguardar-se na discrição, tão imparcial quanto possível. Com uma importante ressalva: os antigos critérios de aferição de objetividade e subjetividade estão sendo rudemente questionados pela física moderna, para a qual até o simples ato de observar um fenômeno produz nele uma interferência que o modifica. Do que se depreende que a observação e a conseqüente informação não se livram de um colorido de participação, segundo nos diz Heinseberg, citado por Capra: "o que observamos não é a natureza propriamente dita, mas a natureza exposta ao nosso método de questionamento".

Os autores que optam por um mínimo de envolvimento pessoal merecem respeito; sejam suas razões acadêmicas, sociais, religiosas ou de mera preservação de status. Neste trabalho, porém, assumimos uma postura opinativa, amadurecida na meticulosa análise crítica do material estudado. Claro que prevalece intacto para o internauta o direito às suas próprias conclusões, destiladas do exame das informações que lhe são passadas nesta e em outras obras. Entendo, porém, ser meu dever expor-lhe com lealdade o meu posicionamento na questão, ao mesmo tempo em que acrescento uma declaração de princípio: sou cristão naquilo que a doutrina de Jesus preservou de sua essência intemporal, - o amor ao próximo como instrumento para realização do reino de Deus em cada um de nós.

Devo admitir, contudo, que sou um cristão que não se acomoda ao perfil, ou melhor, aos perfis traçados pelas diversas correntes ortodoxas. Mas, que é, realmente, um cristão? Não é tão fácil, como parece, caracterizá-lo, ou Hans Kung não teria escrito um volumoso tratado apenas para expor suas cogitações a respeito do problema. É que rejeito aspectos que o cristianismo oficial considera inalienáveis, como trindade, divindade de Jesus, pecado original, céu, inferno, juízo final, demônio, ao passo que outros aspectos, embora contidos na mensagem de Jesus, não conseguiram espaço nas estruturas teológicas, como a preexistência do espírito, a doutrina das vidas sucessivas e viabilidade de um intercâmbio entre vivos e mortos. Conseqüentemente, sobram-me no cristianismo oficial, nas suas várias denominações, conceitos com os quais nada tenho a fazer e faltam-me outros - que encontro nos ensinamentos de Jesus, mas não na doutrina ortodoxa - sem os quais o quadro geral da vida não faz, para mim, nenhum sentido.

Lê-se no Evangelho de Tomé que precisamente a pedra rejeitada pelos construtores é a mais importante, por ser a que irá fechar o arco da abóbada. O Cristo parece falar nesse logion em tom profético numa antecipação do futuro. A observação aplica-se sem retoques à situação criada pelos formuladores da doutrina eclesiástica que rejeitaram praticamente em bloco a realocação espiritual, que teria garantido um acabamento elegante e seguro às construções teóricas, em favor de cristalizações dogmáticas que não resistiram à passagem do tempo.

Aí está o resultado desse irreparável equívoco: estamos diante de uma estrutura doutrinária danificada por inúmeras infiltrações e irrecuperáveis fraturas e que nada tem a dizer a uma humanidade aturdida que, à falta de conhecimento confiável, vaga sem rumo, em busca de mecanismos de fuga, em esforço inútil para escapar a uma realidade incompreensível e perversa.

Precisamente nessa hora de perplexidades, um obscuro trabalhador rural árabe resgata, no Alto Egito, um conjunto de documentos, sobre os quais pousavam mil e seiscentos anos de silêncio e reclusão. Para surpresa de muitos, encontram-se nesses textos algumas das mais importantes pedras angulares rejeitadas no período formador das arquiteturas teológicas. Não é de se esperar que esse impactante achado promova mudanças de vulto no contexto doutrinário ortodoxo, mas é certo que os documentos coptas nos proporcionam meios para uma realista reavaliação do modelo de cristianismo que chegou até nós.

O quadro teológico ortodoxo resulta de opções feitas nos séculos iniciais - por pessoas certamente bem intencionadas, mas falíveis -, à vista de um amplo conjunto de alternativas. Dentre as alternativas rejeitadas estavam conceitos perfeitamente válidos e inteligentes que, antes de serem gnósticos e, conseqüentemente, suspeitos de contaminação herética, teriam proporcionado ao cristianismo uma estrutura doutrinária racional e aberta para o futuro, pronta para receber e acomodar, sem abalos ou temores, irrecusáveis revelações e conquistas científicas. Em vez disso, ficamos com uma teologia fechada em si mesma, como uma pesada construção medieval, tão obsoleta hoje quanto os conceitos adotados no projeto.

Por isso, vai ficando cada vez mais difícil e mais desastroso recuar e recompor. A reabilitação de Galileu foi o primeiro recuo envergonhado, após séculos de obstinada resistência. E quando conceitos mais dramáticos como o da preexistência do ser espiritual adquirirem status de verdade cientificamente demonstrada (o que para muitos já aconteceu)?

Preexistência pressupõe sobrevivência e renascimento. Sendo isso verdadeiro, então o que fazer de céu, inferno, juízo final, salvação coletiva, pecado original e coisas desse gênero?

Não há dúvida, pois, de que a redescoberta do gnosticismo vem proporcionar uma oportunidade singular de se promover uma releitura no cristianismo em si. É uma situação curiosa, dado que, dessa vez, não é a ortodoxia que contesta a heresia, mas esta é que se põe a questionar aquela.

Poderíamos simular um jogo especulativo, segundo o qual seriam testadas as diversas hipóteses imaginadas para a fisionomia atual do cristianismo se tivessem seus formuladores ideológicos adotado certos conceitos tido por gnósticos. Mas, como dizem os ingleses, de nada adianta chorar sobre o leite derramado. Perdeu-se a oportunidade de uma construção, na qual cada arco ou abóbada teria no lugar certo a sua pedra angular. É preciso lembrar também que não se faz uma arcada somente com pedras angulares. É até provável que a hegemonia do grupo gnóstico sobre a massa maior, que Pagels considera um cristianismo quantitativo, tivesse sido igualmente indesejável, mas não há dúvida de que a rejeição do material gnóstico foi fatal à estabilidade das construções teológicas do cristianismo ortodoxo.

A tese que este trabalho propõe pode ser expressa em poucas palavras: foi um equívoco a opção pelo formato de cristianismo que hoje conhecemos, que excluiu a contribuição do gnosticismo.

Tanto quanto as indefinições de autores exageradamente preocupados com a imparcialidade, impacientam-me as longas introduções, quando estou do outro lado do livro, ou seja, como leitor. É hora, pois, de colocar aqui um ponto final e passarmos logo ao trabalho em si.

Hermínio C. Miranda

PARTE I
O GNOSTICISMO E A REALIDADE ESPIRITUAL
1 - DESCOBERTAS SINCRÔNICAS
2 - O PROBLEMA DA ABORDAGEM
3 - GNOSE E GNOSTICISMO
4 - INTERAÇÃO GNOSTICISMO/CRISTIANISMO
5 - O DIALOGO COM OS "MORTOS"
6 - CONHECIMENTO E AMOR
7 - DICOTOMIAS CONFLITANTES
8 - POLARIDADE SEXUAL
9 - OS TRÊS PATAMARES DA EVOLUÇÃO
10 - QUEM INVENTOU O MAL?
11 - DOCETISMO, ANTIGO E INÚTIL DEBATE
PARTE II
O EVANGELHO DE TOMÉ
1 - QUEM É TOMÉ?
2 - O DIFÍCIL ACESSO AO TEXTO
3 - UMA RELEITURA DOS LOGIA
4 - O DOCUMENTO