O EVANGELHO DE TOMÉ - O ELO PERDIDO

O impacto do Evangelho de Tomé no contexto doutrinário ortodoxo proporciona meios para uma reavaliação do Cristianismo que chegou até nós. Talvez seja - ao lado de outros textos gnósticos - uma das mais importantes descobertas arqueológicas cristãs do século XX, encontrado em Nag Hammadi, no Alto Egito, em 1945.José Lázaro Böberg

Dos livros banidos, aquele que a maioria dos estudiosos considera mais próximo dos verdadeiros ensinamentos de Jesus e da Igreja primitiva é o Evangelho de Tomé. Este documento foi descoberto em 1945, junto à vila de Nag Hammadi, no Egito. (William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente, Livro Quem Somos Nós''p. 201).

INTRODUÇÃO

Quando da publicação da 2ª edição do livro do douto escritor e pesquisador Hermínio Corrêa de Miranda, O Evangelho Gnóstico de Tomé, pela Editora Lachâtre, em 1995, confesso que li a obra, achando interessante, sem, todavia, atinar com a importância de seu conteúdo para o mundo cristão e, em especial, para a Doutrina Espírita. Diz-se que o tempo é o senhor da razão. Só com a maturidade, no momento devido, é que se passa a valorizar e entender o sentido do conteúdo de certos ensinamentos. E este é um deles, seu valor só desperta quando estamos 'prontos' para assimilar-lhes sua essência. Diz-se que "quando o servidor está pronto o Mestre aparece" (Bhagavad-Gita, 9:17). Passados alguns anos, em 2002, quando começamos a registrar nossas reflexões em livros, percebemos que, na realidade, elas muito se aproximavam - excluindo alguns excessos -das idéias gnósticas. Resolvemos, assim, estudar, além desta obra, outras que abordavam o fascinante tema.

E importante citar que, antes, já havíamos contatado com os ensinamentos gnósticos, numa outra obra do mesmo escritor, Cristianismo: a Mensagem Esquecida, da Editora O Clarim, de 1988. Nela o autor reserva um capítulo nesse extenso livro, sob o título "Como se vê o Cristianismo primitivo refletido no gnosticismo". Ali começou a nos despertar algo novo sobre o que foi o cristianismo gnóstico, uma influência e trajetória, perseguição de seus membros, a sua proibição pela igreja nascente. Depois dessa inserção nesse livro, é que o autor aprofunda a pesquisa e escreve O Evangelho Gnóstico de Tomé, um trabalho de fôlego, que merece ser analisado não só pelos espíritas, mas por todo cristão de 'livre pensar' que deseja buscar o fio da meada do Cristianismo que temos hoje.

Na bibliografia gnóstica relacionada no final deste livro, passaram pelas nossas mãos obras fundamentais de autores estrangeiros, mas versadas para o português. Quem quer estudar o gnosticismo não pode deixar de ler o monumental trabalho da Dra. Elaine Pagels, uma das maiores autoridades mundiais na área de religião e história, e vencedora do National Book Award com o revolucionário Os Evangelhos Gnósticos. Trata-se do primeiro livro importante e eminente sobre o assunto, com base na descoberta, em 1945, dos textos cristãos gnósticos em Nag Hammadi, no Egito. É autora, ainda, de Além de Toda a Crença, que explora os primórdios do cristianismo, remontando a esses primeiros textos e comparando-os aos escritos canônicos. As duas obras foram lançadas no Brasil pela Editora Objetiva. Para escrever o Evangelho Gnóstico de Tomé, o escritor Hermínio Miranda tem na Dra. Pagels grande fonte de inspiração.

Desde muito cedo, fomos atraídos pela figura majestática de Jesus, mas sempre questionando sobre certos ensinamentos atribuídos a ele, que não passavam pelo crivo da razão. Encontramo-nos, assim, entre dois caminhos: Aceitar pela fé que apenas crê (religiosa), ou pela/é que sabe (aquela que, no dizer de Kardec, pode enfrentar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade). O Universo dizia-nos que caminhássemos em busca da razão. A essência da filosofia ensinada por Jesus, tirando as incongruências colocadas em sua boca pelos construtores da doutrina do Cristianismo, denota a de um homem de sabedoria. Para nós, até então, as verdades sobre ele estavam assentadas apenas nos quatro evangelhos canónicos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Ouvíamos falar que existiram outros evangelhos, mas, falsos, e por essa razão foram banidos pela Igreja, porque abertamente pregavam reencarnação, mediunidade etc. Nunca questionamos, mesmo, porque não tínhamos tomado contacto com os escritos expurgados pela Igreja.

De igual forma, a grande maioria segue este racio¬cínio, sem nada contestar. No entanto, o inesperado acon¬teceu. Em 1945, perto da cidade de Nag Hammadi, no Alto Egito, um camponês descobriu, numa urna de barro, uma biblioteca contendo um conjunto de textos. Eram os livros sagrados de uma das mais antigas seitas cristã. Ao todo, eram 52 livros cristãos gnósticos contemporâneos do cristianismo inicial, sugerindo-nos que o Cristianismo que conhecemos poderia ter tomado rumo bem diferente do que nos foi legado pelos seus construtores. Inúmeros livros encontrados expressavam as ideias de Jesus de um modo diferente daquelas que foram construídas pelos teólogos da Igreja, sob a administração dos Imperadores Romanos. Serão analisados os enunciados do Evangelho de Tomé no decorrer desta obra. Segundo as pesquisas, eles parecem ser transmitidos em forma que é anterior à que temos nos evan¬gelhos canónicos.

Os vencedores têm o direito de escrever a História, na forma que melhor lhes aprouver. Assim foram os cristãos eclesiásticos que registraram a origem do Cristianismo. Eles se autodefiniram como ortodoxos - verdadeiros. Decidiram que todas as outras correntes oponentes existentes eram falsas, e seus seguidores foram designados de hereges (falsos). Por essa razão, estes foram rejeitados, escarnecidos, amaldiçoados, atacados, queimados, completamente esquecidos - perdidos. E, ainda, para gravar a vitória sobre os vencidos, cristalizaram na mente dos seguidores que o triunfo deles era inevitável, pois foi um trabalho dirigido pelo Espírito Santo. 'E Deus que quis assim!* A população sempre soube da existência de apenas 4 evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. E ainda mais, na construção dos textos, a expressão 'Jesus disse' passou para História que todas as palavras ali constantes eram literalmente dele. Vale a pena ler o excelente livro Da Bíblia aos nossos dias, de Mário Cavalcanti de Melo, da Federação Espírita Paranaense, Curitiba, 1972. Lambem recomendamos o livro O que Jesus disse? O que Jesus não disse? De Bart D. Ehrman, da Editora Prestígio, Rio de Janeiro-R.l., 2005.

Vários dogmas, inseridos paulatinamente, macularam os princípios originais de Jesus, para atender aos interesses político-administrativos da Igreja nascente e do Império. Neste sentido, idéias como ressurreição da carne, doutrina da Trindade, nascimento virginal de Jesus, céu e inferno exteriores, Juízo final, milagres, penas eternas, entre outras, foram adicionadas à doutrina. O paradigma religioso passou a ser acatado pelo seguidor, geralmente, sem qualquer questionamento, pois foi recebido como 'palavra de Deus', quando, na realidade, foi criação do homem.

Foram descobertos, nesta biblioteca, o Evangelho de Maria, Evangelho de Filipe, O Evangelho da Verdade, O Apocalipse de Pedro, O apócrifo "Livro secreto de João", Carta de Pedro, entre outros, mas, talvez a mais importante descoberta arqueológica cristã do século XX tenha sido O Evangelho de Tomé. É um documento fascinante, objeto de extensa literatura moderna. Recentemente, o professor Helmut Koester, da Universidade de Harvard, pelos exames de datação dos papiros sugeriu que a coleção dos dizeres do Evangelho de fome, embora compilada por volta de 140, pudesse incluir algumas tradições ainda mais antigas que as dos Evangelhos do Novo Testamento, "talvez remontem à segunda metade do século I (50-150), isto é, tão antigas, ou mais que os Evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João" (segundo a Dra. Pagels em Os Evangelhos Gnósticos). Atente-se para o detalhe de que, dentre os inúmeros livros considerados "apócrifos" e que foram banidos pela Igreja, os estudiosos sustentam que o mais próximo dos verdadeiros ensinamentos de Jesus e da Igreja primitiva é esse Evangelho de Tomé.

Dessa feita, acreditam os pesquisadores que as versões dos dizeres de Jesus encontrados no Evangelho de Tomé, seriam em geral, versões mais originais do que a dos evangelhos canônicos, que teriam sofrido modificações e editorações ao longo dos séculos. No decorrer de nossa exposição, daremos maiores detalhes sobre este documento. Para exata avaliação da importância desses textos, Hermínio Miranda afirma: "é preciso ainda considerar que, embora não se possa atestar a 'pureza virginal' dos escritos, é certo que pelo menos durante quase dezesseis séculos eles não sofreram manipulações mutiladoras, o que está longe de poder ser assegurado quanto aos documentos canônicos. Daí o frisson que a descoberta causou nos círculos da erudição internanacional".

Para melhor entendimento dos estudos que serão desenvolvidos alertamos os leitores quanto às expressões utilizadas para expor o pensamento de Jesus. Assim, para comunicar um pensamento, encontramos expressões como, "Jesus disse", ou "ele disse"; entendamos o que consta dos enunciados, como palavras, anotações, logions, discursos ou ditos, atribuídos a ele. Esses ensinamentos foram coletados na base do 'ouvir dizer', sem qualquer prova documental. Na verdade, ninguém sabe se Jesus disse ou não, pois, nada deixou escrito.

O Evangelho Gnóstico de Tomé é composto de 114 logions ou 'dizeres' de Jesus, sendo alguns semelhantes aos que constam dos canônicos, mas sem milagres, histórias, contendo os 'ditos', simplesmente. A título de exemplo, no logion ou dito n.° 1, o Jesus de Tomé diz: "Quem descobrir o sentido destas palavras não provará a morte". A grande diferença entre os gnósticos e os canônicos é que os primeiros advogam uma ligação direta com Deus, na própria intimidade, enquanto os segundos criaram uma estrutura organizada com dogmas, rituais, e a ligação com Deus só ocorreria através da Igreja. Para os gnósticos, o Reino de Deus é uma conquista íntima, enquanto que, para a Igreja, é algo que ocorreria por procuração dada pelo crente, ao filiar-se à instituição. Note o leitor não ir aqui nem em nenhum outro texto qualquer ataque à crença alheia. Vale lembrar o velho ditado atribuído a Aristóteles: "Sou muito amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade".

Serão abordados apenas alguns logions dentre os 114 do Evangelho de Tomé. Neles procurou-se mostrar o ensinamento de Jesus, diferente daquele que os canônicos ensinam. São idéias do Jesus gnóstico.

Concluindo, resta-nos abordar o porquê de optarmos pela denominação no Evangelho de Tomé de O elo perdido. Entendemos que jamais, oficialmente, ele será considerado o 5.° Evangelho, como Rohden assim o denomina em sua obra. Ele foi banido e seus seguidores perseguidos, e muitos deles, mortos. Mesmo com sua descoberta, a eficácia do paradigma elaborado pela Igreja de Roma foi tão forte, que, só, individualmente, pela maturidade de espírito, esse elo pode ressuscitar as idéias iniciais e mais próximas ao que Jesus ensinou. Nem todos estão prontos para isso. Poucos cristãos ortodoxos encontram-se neste estágio de questionar sem medo, não obstante, muitos já tenham atingido essa maturidade. Por isso, para a grande maioria, continuará o Evangelho de Tomé, sendo um 'elo perdido'. Para alguns, no entanto, ele é a grande descoberta que elucida os verdadeiros princípios de Jesus. Tomara que a leitura desta obra possa contribuir para o seu insigh, e que o elo não se perca mais!

José Lázaro Böberg

..PREFÁCIO
..1 - O CRISTIANISMO QUE LEGAMOS
..2 - OS EVANGELHOS GNÓSTICOS
..3 - REINO DE DEUS: TOMADA DE DECISÃO
..4 - JESUS SALVA?!
..5 - IMPERSONALISMO DA LEI UNIVERSAL
..6 - JESUS NÃO É DEUS
..7 - CONHECER A SI MESMO
..8 - NÃO PROVAR A MORTE
..9 - A QUESTÃO RESSURREIÇÃO
..10 - TRANSITORIEDADE DA VIDA
..11 - DEUS DOS VIVOS
..12 - PROVAS
..13 - PEDRA ANGULAR
..14 - REFORMA ÍNTIMA
..15 - O JOIO E O TRIGO
..16 - EM SINTONIA COM O CRISTO
..17 - REVELANDO O QUE TEM DENTRO DE SI
..18 - O JEJUM DO MUNDO
..19 - ALIMENTAÇÃO ESPIRITUAL
..20 - EU SOU O TODO
..21 - RENUNCIAR
..22 - MORADA DE DEUS
..23 - A VIDEIRA
..24 - FARDO LEVE E JUGO SUAVE
..25 - SEMELHANTE A UMA CRIANÇA
..26 - PARALELO ENTRE CRISTÃOS E GNÓSTICOS