CAPÍTULO 1 - A PÁSCOA E OS CRISTÃOS

CAPÍTULO 1 - A PÁSCOA E os CRISTÃOS

A PÁSCOA DOS JUDEUS

A Páscoa é uma festa comemorativa dos israelitas. Em hebraico, pessach quer dizer passar por cima, saltar sobre. Que festa será essa e que relação pode haver entre ela e os cristãos?

Rememorando a história dos israelitas, vamos encontrá-los no Egito, aproximadamente 1.300 anos antes de Cristo. Haviam ido para lá cerca de 430 anos antes, quando constituíam apenas um agregado familiar: Jacó, onze de seus filhos, com suas esposas, filhos, netos, e servos e pessoas que se haviam unido a eles.

Ao chegar, tinham sido bem recebidos pelos egípcios por serem os familiares de José que, embora israelita, também filho de Jacó, se fizera grande administrador no Egito e se tornara muito benquisto pelo faraó.

Mas o tempo passou, o faraó amigo veio a morrer e também José, a quem os egípcios tanto respeitavam. E, um dia, os novos governantes se deram conta de que os israelitas em terras do Egito não eram mais, apenas, um pequeno grupo de estrangeiros. Haviam proliferado muito, pois atendiam ao crescei e multiplicai-vos, a fim de formar um grande povo para Jeová, o Deus único. Sendo eles bastante numerosos, espertos e ativos, receavam os egípcios que pudessem vir a ser um perigo para a soberania daquele país.

Consta que trataram, então, de limitar as atividades deles. Não teriam os mesmos direitos dos cidadãos egípcios, só poderiam exercer certas profissões braçais e eram obrigados a determinada cota de serviços. E, para desencorajar a natalidade entre eles, teriam decretado que todo primogênito homem dos israelitas, nascido a partir de então, seria morto.

Assim, nos últimos dois séculos daqueles 430 anos, os israelitas, antes tão bem recebidos no Egito, agora se sentiam, ali, praticamente como escravos.

Foi quando Deus fez surgir, entre os israelitas, Moisés, o grande líder que os iria libertar daquela opressão.

Moisés não era o primogênito em sua família e, sim, Aarão, seu irmão mais velho, mas era o primeiro filho homem a nascer na família depois da lei dos egípcios e teria de ser morto.

Para evitar isso, sua mãe o pôs num cesto e mandou colocá-lo na margem do rio Nilo, onde a princesa egípcia costumava se banhar. A princesa encontrou o menino, o recolheu, deu-lhe o nome de Moisés, que queria dizer "salvo das águas", e o criou no Palácio do Faraó, com todos os recursos e boa educação, como se fosse seu próprio filho.

Moisés sempre soube que era de origem israelita e, quando homem feito, vendo um soldado egípcio maltratar israelitas, se insurgiu contra ele e o matou. Então, teve de se refugiar no deserto. Foi lá que, médium de audição, ouviu uma voz espiritual e dialogou com ela, recebendo de Jeová uma ordem divina, que, na função de profeta, de porta-voz do Alto, deveria transmitir ao faraó.

Que ordem era essa? Qual a missão recebida? Voltar ao faraó e dizer a ele: Deixa o meu povo ir embora. Mensagem que, logicamente, o faraó não estava disposto a atender, não queria deixar os israelitas partirem, porque eram mão-de-obra boa e barata para o reino egípcio.

Orientado por via mediúnica, Moisés começou a pressionar o faraó e seus ministros, para que permitissem o êxodo, a saída dos israelitas das terras do Egito. Anunciou que, se não os deixassem ir embora, Jeová mandaria pragas que afligiriam os egípcios poupando os israelitas.

E dez pragas se foram sucedendo. Começou com as águas do rio se convertendo em sangue, de modo que não se podia beber água dele e os peixes morreram. Talvez, hoje, o fenômeno se pudesse explicar como ação de microorganismos ou a conhecida "maré vermelha" pela proliferação das algas. Vieram, depois, multidões de rãs, piolhos, moscas importunando homens e animais, uma peste em cavalos, bois e ovelhas, úlceras nas pessoas e animais, chuva de pedra, nuvens de gafanhotos e trevas em pleno dia.

O faraó resistia, sempre, à ordem divina. Às vezes parecia concordar, mas, assim que cada praga diminuía, voltava atrás na sua palavra e não deixava os israelitas partirem. Até que veio a décima praga, tão terrível que fez o faraó ceder completamente.

O episódio relativo a essa última praga começou com uma instrução espiritual prévia feita aos israelitas, através da mediunidade de Moisés.

Estavam no mês de nisã, aproximadamente mês de março ou começo de abril, conforme as luas, pois o calendário hebreu era lunar.

No décimo dia daquele mês, cada família ou grupo familiar deveria escolher um cordeiro de um ano. No décimo-quarto dia, imolá-lo no crepúsculo da tarde e, com seu sangue, marcar as ombreiras e verga de suas portas. A carne deveria ser assada e comida, acompanhada de pães ázimos, sem fermento, e ervas amargas. Deveriam estar vestidos, sandálias nos pés, cajado nas mãos e comerem à pressa.

Por quê?! Porque é a Páscoa (a passagem) do Senhor. (...) naquela noite virei pela terra do Egito, e ferirei todos os primogênitos deles, desde os homens até aos animais. Mas, vendo o sangue do cordeiro nas casas dos israelitas, o Senhor pessach, as saltaria, passaria por cima delas, ou seja, a praga não as atingiria.

Assim fizeram os israelitas e, naquela noite do décimo-quarto dia de nisã, a décima praga matou todos os primogênitos dos egípcios e de seus animais.

Perguntemo-nos se Deus, que é o Pai, criador de todos os seres, faria isso: Mataria criaturas inocentes para favorecer aos israelitas? Não eram todos seus filhos? Não poderemos supor, em vez disso, tenha sido uma grande conspiração, um plano guerreiro dos israelitas contra seus dominadores?

O fato é que, convencido, ante a terrível demonstração do grande poder do Deus de Israel, o faraó atendeu, enfim, à ordem dele recebida e autorizou que o povo de Israel saísse do Egito.

E tiveram de sair depressa, antes que o faraó se arrependesse da sua decisão, como já o fizera em outras vezes. Foi providencial, portanto, a instrução para que |á estivessem vestidos para viagem e alimentados para partir.

Tudo isso se passou há mais de três mil anos, como relata o livro Êxodo, na Bíblia, mas, até hoje, os judeus, remanescentes dos israelitas, celebram a Páscoa, assim como então lhes foi ordenado fazer: assam o cordeiro se o tiverem, ou o representam, e, vestidos de modo especial, o comem, acompanhado de pães sem fermento, para simbolizar que deveriam sair do Egito sem guardar mescla com as ideias deles, e as ervas amargas simbolizando os sofrimentos passados durante a escravidão naquele país.

E o significado de toda a Páscoa judaica foi apontado na instrução espiritual: Quando vossos filhos perguntarem: Que rito é este? Respondereis: E' o sacrifício da Páscoa ao Senhor que passou por cima das casas dos filhos de Israel, no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas.

Como vemos, para os israelitas, a Páscoa é uma importante festa da sua religião, instituída ao tempo de Moisés, mais de 1.300 anos a.C, para comemorar o dia em que o povo de Israel conseguiu sair da situação em que vivia no Egito e que consideravam uma escravidão. Equivaleria, talvez, ao dia de sua independência política, comemorado como uma festa cívico-religiosa.

A PÁSCOA DOS CRISTÃOS

Os cristãos também comemoram uma Páscoa. Não tem o mesmo motivo da dos judeus, nem é feita da mesma maneira, mas acontece na mesma época e nela também há um cordeiro sacrificado e uma passagem da escravidão para a liberdade. Recordemos os acontecimentos.

No ano 33 de nossa era cristã, o ministério de Jesus chegava ao fim e o dia da Páscoa daquele ano se aproximava. Jesus, como o fariam todos os judeus, se dirigiu a Jerusalém, onde, no Templo, haveria a comemoração especial da grande festa religiosa dos israelitas.

Para o culto a Deus, Jesus não dependia das atividades no Templo. Entendia os costumes religiosos do seu povo, não se preocupando em combatê-los, procurando, apenas, esclarecer o significado espiritual pelo qual haviam sido instituídos, para que as pessoas não ficassem nas fórmulas exteriores dos rituais, mas entendessem e vivessem a sua essência.

Uma outra razão especial tinha Jesus para ir a Jerusalém naquela Páscoa. Avisado para fugir, porque Heródes queria matá-lo, ele respondeu: Importa, contudo, caminhar hoje, amanhã e depois, para que não suceda que morra um profeta fora de Jerusalém (Lc 13:31/35), evidenciando que sabia o que o aguardava.

E ali estava Jesus, em Jerusalém, reunido com seus apóstolos no cenáculo, a sala de refeições em que comemorariam a Páscoa. E lhes disse: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa antes da minha paixão.

Ele sabia que estava chegando o momento final, do testemunho maior. Em breve, o aprisionariam, maltratariam, fazendo sofrer. Seria sacrificado e deixaria este plano material.

Antes dessa sua paixão, desse seu sofrimento prolongado, dessa grande mágoa e martírio, desejava estar com eles. Porque vos declaro que não a tornarei a comer, até que ela se cumpra no reino de Deus. Não teria oportunidade de outro encontro assim, a sós com eles, neste mundo, e queria muito essa oportunidade para lhes dar as últimas instruções: avisar sobre o que iria acontecer muito em breve; consolá-los antecipadamente pelo que sofreriam; orientar sobre como deveriam se comportar então; esperançar para o futuro, a continuidade dos labores.

Nessa ceia pascoal, Jesus fez e disse coisas importantes, que os apóstolos iriam sempre recordar e os evangelistas registrariam (Jo 13 até 16; Lc 22:14/38), e vamos relembrar.

Repartiu com eles o pão e o vinho, simbolizando o pão a idéia divina, a mensagem de que ele se fizera portador para alimentar o pensamento da humanidade, e o vinho, a essência espiritual de sua vida terrena, toda de exemplos e testemunhos de amor.

Oferecera aos discípulos o pão de seus ensinos e o vinho de sua vida para vitalizar suas almas e lhes pediu: Comei, bebei, significando absorvam, assimilem o que lhes ofereço, e Fazei isto em memória de mim, isto é, transmitam aos outros o meu ideal, para que perdure na Terra e não se perca entre os homens.

Cingiu-se e lavou os pés dos apóstolos, assumindo assim ele, o Mestre, uma função de servo, para lhes ensinar que se ajudassem mutuamente no que fosse preciso, sem orgulho nem desejo de mando.

Informou que sabia estar sendo traído e por quem. Não impediu o traidor, respeitando-lhe o livre-arbítrio, e não o agrediu, não usou de violência contra ele, mas lhe lamentou a atitude infeliz, que acarretaria consequências para o futuro: Ai daquele por quem o Filho do Homem está sendo traído.

Alertou a Pedro e aos outros, para ficarem prevenidos, a fim de não falharem nos testemunhos que viriam. Que estivessem armados para defesa com duas espadas, nas quais podemos identificar as armas do cristão: vigilância e oração.

Confortou aos discípulos, pedindo: Credes em Deus, crede também em mim. Que também confiassem nele, porque ia preparar-lhes o lugar, assegurando na casa de meu Pai há muitas moradas.

Existem no Universo muitos planos de vida e habitação para os seres espirituais, em mundos corpóreos ou não.

Tomé ponderou: Senhor, não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho? Foi então que Jesus se afirmou: Eu sou o caminho da verdade e da vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.

O caminho para o Pai que Jesus representa não é como um roteiro terreno, é o modo de entender, sentir e agir, que ele ensinou e exemplificou e que, se o seguirmos, nos conduzirá a uma vivência de progresso espiritual.

Filipe não entendia por que Jesus falava tanto, o que estaria ele tentando explicar. Mostra-nos o Pai e isso basta, disse o apóstolo.
Com paciência, Jesus lhe explicou: Quem me vê a mim, vê ao Pai.

E que ninguém pode ver a Deus, só podemos reconhecê-lo através de suas obras, de sua criação. Filipe precisava aprender a ver, em Jesus, o exponencial maior da espiritualidade já alcançado por um ser humano que Deus criou.

Assegurou que quem crer nele fará o que ele faz e coisas ainda maiores, porque estava retornando para o Pai, para o plano espiritual. Ficando aqui, eles muito ainda poderiam realizar e de lá ele os assistiria.

Prometeu-lhes que se perseverassem na sua palavra, se seguissem sua orientação, rogaria ao Pai e Deus enviaria para eles um Consolador, o Espírito de Verdade, o Espírito Santo, o Paracleto, que quer dizer advogado. Um advogado?! Sim, no assessoramento e proteção que receberiam dos bons espíritos teriam um advogado, defensor ou auxiliador, para enfrentarem as lutas e dificuldades de seu labor, a continuidade da pregação e exemplificação da Boa Nova.

Assegurou-lhes paz, não como a do mundo, que fingida, interesseira é, por isso mesmo, frágil, mas a paz inalterável da consciência esclarecida. Que não se perturbassem nem se atemorizassem, pois voltaria a estar com eles, oportunamente.

Como lhes ensinou quanto podiam entender sobre a vida espiritual e suas leis, já não os chama servos, pois o servo não sabe o que faz o seu Senhor, mas de amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer.

Que serão incompreendidos, perseguidos e até mortos, porque não partilham interesses e modo de agir comum. Mas, quando ele voltar a vê-los, terão grande alegria.

Compreende que até se dispersem, atemorizados, mas ele não ficará só, porque o Pai estará com ele.

Dizia tudo isso antes de acontecer para que, quando acontecesse, acreditassem nele e não se abalassem. No mundo passais por aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo. Mostrara como se vence espiritualmente, suportando e superando dores e dificuldades.

Ao término de sua fala, Jesus orou, por si mesmo, pelos discípulos e pelos futuros cristãos. Depois, foi para o jardim das oliveiras, onde seus adversários o prenderam, mas conseguiu que fossem liberados os seus seguidores. Julgado, condenado e sacrificado, ressurgiu gloriosamente.

Assim se encerram as narrativas evangélicas referentes à Páscoa relacionada a Jesus, o Cristo.

COMPARANDO AS DUAS PÁSCOAS

Na Páscoa dos judeus, conforme o capítulo do "Êxodo", temos o sangue do cordeiro imolado, que salva os israelitas da praga exterminadora e eles passam da escravidão, em que se sentiam morrer, para a liberdade em que iriam viver a partir dali.

Na Páscoa dos cristãos, segundo as narrativas evangélicas, Jesus é o cordeiro divino, manso e humilde, sacrificado em favor não apenas dos israelitas, mas de toda a humanidade.

Ele deu o seu sangue para nos salvar, ofereceu sua existência corpórea entre nós para ensinar e exemplificar como se vai ao Pai, como se progride espiritualmente em direção ao Bem.

Se bebermos esse sangue, se assimilarmos seu ensino como exemplo, nos salvaremos da ignorância, da inércia, do vício, do egoísmo, do orgulho, do materialismo. Escaparemos dos efeitos danosos de tudo isso que aflige e faz sofrer tantas criaturas. Evitaremos males e problemas que passarão por cima de nós, sem nos atingirem. Estaremos salvos pelo sangue do cordeiro.

A ressurreição de Jesus, seu ressurgimento espiritual, nos dá nova compreensão da nossa própria natureza e da realidade espiritual da vida.

Passamos, então, do temor morte física para a certeza da imortalidade, vida espiritual intérmina, em que o progresso intelecto-moral, incessante, nos levará a uma plenitude de ser como ainda nem podemos entender ou visualizar, e costumamos denominar de perfeição e felicidade.

AS COMEMORAÇÕES DA PÁSCOA

Para os judeus, já vimos como é feita e que significado tem.

Na Igreja Católica, existe a quaresma, quarenta dias que imitam o suposto jejum de Cristo, começando na "quarta-feira de cinzas", passando pela "semana santa", com abstinências, jejuns, cerimônias, procissões e a representação do domingo de ramos, da santa ceia, da prisão no horto, do sofrimento e morte de Jesus, até o sábado de aleluia pela ressurreição.

No meio social, costumes e tradições de outros povos se mesclaram com a comemoração da Páscoa, surgindo os ovos e o coelho, como símbolo da vida que se renova, fértil e abundante.

Os espíritas também somos cristãos e, se quisermos, podemos comemorar a Páscoa, acompanhando feriados e costumes sociais, mas sem nenhuma demonstração especial de religiosidade exterior, pois o culto que prestamos a Deus é interior, em espírito e verdade.

A época da Páscoa pode ser uma boa ocasião para se recordar e estudar os acontecimentos da vida de Jesus, especialmente os relacionados à sua última ceia pascoal.

Que pediu Jesus, quando se despedia, que seus seguidores fizessem "em memória dele"? Que assimilassem seu ideal, através de sua vida, ensinos e exemplos, e o partilhassem com a humanidade.

Façamos assim, não só na Páscoa, mas em todos os dias de nossa vida.

Therezinha Oliveira