CAPÍTULO 2 - A SEARA E OS TRABALHADORES

CAPÍTULO 2 - A SEARA E OS TRABALHADORES

AS OVELHAS

Percorria Jesus todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas deles, pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo.

E, vendo a multidão, teve grande compaixão deles, porque andavam desgarrados e errantes como ovelhas que não têm pastor.

Nesta passagem que Mateus registrou (9:35/36), mais uma vez Jesus utiliza a figura das ovelhas para representar as pessoas, os seres humanos.

O povo para quem ele falava, bem conhecia o pastoreio e podia facilmente entender a comparação que Jesus queria fazer entre a vida das ovelhas e a nossa.

Se as ovelhas têm um pastor para guiá-las, ficam protegidas e vivem em tranquilidade. De manhã, saem a pastar, em grupo e com toda segurança, e ao fim do dia, retornam sãs e salvas ao redil.

Sem pastor que as guie, cada ovelha sai buscando o que lhe apetece e é aí que lhe acontece de se desgarrar, tornando-se presa fácil para seus inimigos naturais. Não tendo direção certa e única, as ovelhas ficam errantes, Vigam e se perdem, se exaurem, caem em abismos.

Desgarrados e errantes como ovelhas que não têm pastor. Assim Jesus via a multidão. Como pessoas solitárias, isoladas, desorientadas, sem rumo. E se compadecia muito.

Não ocorre o mesmo com a humanidade em nossos dias? Cada qual visa somente seus próprios interesses e necessidades. O egoísmo impera e isola as pessoas umas das outras. Onde a solidariedade, a fraternidade?

Estando solitários, separados, sozinhos, cada um e todos acabam ficando mais frágeis e vulneráveis ante as lutas e dificuldades da vida.

Como se agitam as pessoas, como se movimentam de cá para lá, querendo gozar, possuir, predominar, no anseio de ser completamente feliz.

Mas a felicidade não é deste mundo. A vida só tem sentido se enfocada sob o ponto de vista espiritual e essa orientação está faltando.

A maioria não sabe por que nem para que vive e, na luta do dia-a-dia, vão-se cansando, ficam esgotados, estressados, entram em pânico ou em depressão, muitos caem no abismo dos vícios.

Desgarrados e errantes como ovelhas que não têm pastor...

Compadecido, Jesus disse aos discípulos a seara é realmente grande.

A GRANDE SEARA

Já superando os seis bilhões de espíritos encarnados na Terra, a nossa humanidade é, realmente, uma grande seara, um imenso campo espiritual a ser cultivado.

Os seres humanos - mais valiosos que ovelhas, porque dotados de preciosas faculdades em potencial, de inteligência, sentimento e ação sobre seres e coisas - são mentes e corações que precisam ser cultivados para chegarem a produzir os frutos possíveis e desejados.

Há dureza nos corações? E preciso destocar empecilhos. Vícios físicos e morais? Raízes daninhas a extirpar, senão arruínam a boa sementeira espiritual. O solo da mente, o campo do pensamento e do sentimento, precisa ficar bem preparado, limpo e receptivo, para aí serem lançadas as sementes da verdade e do amor.

Bem cultivados, os espíritos humanos poderão produzir maravilhas trazendo progresso e bem-estar para todos, proporcionando, no clima estável e feliz da paz, os frutos doces e nutritivos do amor.

Humanidade! Seara de imensas possibilidades! Quanto a fazer nesse campo das almas!

OS TRABALHADORES

A seara é realmente grande, mas poucos os trabalhadores.

Para gozar, brilhar, dominar no mundo, temos milhões de interessados. Para orientar e ajudar as almas carentes e sofredoras, encontraremos poucos, muito poucos. É preciso saber trabalhar nesse campo e querer fazê-lo, estar disposto a esse mister.

Jesus, de início, contava apenas com doze colaboradores (Mt 10) e, mais tarde, com setenta (Lc 10), para atender a milhares de criaturas!

Apesar de poucos, os trabalhadores do campo espiritual são como o sal da terra (Mt 5:13/16), pois, com sua presença digna, correta, impedem a degeneração total, e luz do mundo, pelo conhecimento que demonstram e que esclarece o sentido da vida. Que seria da humanidade sem eles?

Rogai, pois, ao senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara, recomendou Jesus (Mt 9:38).

Mas, em seguida, convocou ele mesmo doze dos discípulos para se tornarem seus apóstolos, serem enviados como seus mensageiros e representantes.

Roguemos a Deus envie para este nosso mundo trabalhadores espirituais mais habilitados, mas, enquanto aguardamos, trabalhemos nós mesmos e nossos companheiros, com o que temos e podemos.

Somos ainda rudes e imperfeitos? Deus, que "das pedras" suscita filhos a Abraão, ao longo do tempo e no serviço, poderá fazer de nós bons obreiros para sua seara.

Assim foi com os discípulos que Jesus chamou para seus apóstolos.

E ordenou aos 12 que estivessem com ele (Mc 3:14), a fim de prepará-los para o serviço que iriam executar.

A ordem foi para os doze. Todos tinham potencialidade para um bom trabalho, mas, por si mesmo e de imediato, nenhum saberia agir com acerto. Jesus deu-lhes o poder para isso. Como?

Oferecendo aos que estivessem com ele demonstrações práticas de ação espiritual, instruindo-os no entendimento do porquê e para quê dos fenômenos, e exercitando neles as faculdades mediúnicas.

Para agir produtivamente no campo do espírito, é preciso conhecer o mecanismo da vida, harmonizar-se com a lei divina. Jesus é o mestre e modelo desse equilíbrio e ação eficaz. Estar com Jesus é o primeiro passo para quem deseja trabalhar na seara das almas. Assim, acompanhando-o em seu modo de pensar, sentir e agir, se alcança o melhor estado que nosso grau evolutivo permite e se aprende como agir na seara das almas humanas, o que fazer e a quem, e como, quando e quanto.

O TRABALHO

Esse preparo era indispensável para que, depois, Jesus os enviasse a pregar e para que tivessem o poder de curar enfermidades e expulsar os demônios.

Eis aí uma síntese perfeita do trabalho espiritual, orientador e socorrista, a ser feito junto à humanidade.

É preciso pregar, propagar, difundir os ensinos do Cristo, porque está faltando orientação espiritual para a humanidade.

O que aprendemos com Jesus, guardaremos para nós? Seria egoísmo manter a luz oculta sob o alqueire, em vez de iluminar a "casa terrena" onde vivemos.

Seres sociais que somos, nosso progresso depende da vida em sociedade, no conviver dando e recebendo, aprendendo e ensinando, socorrendo e sendo socorrido.

E o Espiritismo nos ajuda a entender Jesus, porque:

- revive os ensinos dele em sua pureza original;

- atualiza-os, pelas conotações que estabelece com os mais avançados conhecimentos humanos; e

- amplia-os, com as novas revelações vindas do mais alto.

Dá-nos o Espiritismo tal entendimento sobre a vida transcendente, que:

- na dor, conforta e consola, enxugando todas as lágrimas;

- na dificuldade, encoraja e fortalece o ânimo;

- no conhecer, nos liberta do erro, da ignorância, como assegurou Jesus ao dizer conhecereis a verdade e ela vos libertará;

- no agir, tira-nos da inércia e nos estimula sempre à prática do bem, do amor a Deus e ao próximo.

Sim, é preciso pregar, propagar, difundir o conhecimento espiritual.

Por isso, o espírita conversa, informa, esclarece, e nos centros se fazem entrevistas, palestras, estudos e conclaves, enquanto a imprensa espírita distribui mensagens em volantes, jornais, livros, e se realizam programas de rádio e de televisão.

Curar enfermidades é outro item do auxílio à humanidade. E são tantos os males e doenças neste planeta! Do corpo e da alma. A Terra pode ser vista como um grande hospital. Quantos enfermos!

São nossos irmãos, e estão sofrendo. E' preciso assisti-los.

Não pretenderemos substituir a ação da medicina nem com ela competir, mas mostrar que há entre espírito e corpo uma estreita relação de causa e efeito, e que é possível beneficiar aos enfermos com recursos espirituais. Como a oração, que descontrai, libera energias, renova a mente e atrai o providencial concurso dos bons espíritos. E a fluidoterapia, em que, sob o comando do pensamento e da vontade, a aplicação de fluidos se faz, nos passes e nas vibrações ou irradiações a distância, abastecendo, restaurando e equilibrando energias, vitalizando e, às vezes, até curando.

Mas não adianta curar corpos sem regenerar almas, porque as doenças não acontecem por acaso, têm causas espirituais, decorrem de nosso grau evolução.

Ante as enfermidades, o Espiritismo, mais que tentar curar, ensina a prevenir. Se faltou conhecimento e equilíbrio e a enfermidade se instalou, procurar superá-la com o auxílio da medicina e os recursos espirituais. Se impossível a cura, compreender com Emmanuel que a enfermidade é, muitas vezes, o remédio que pedimos à farmácia de Deus e, então, suportar resignadamente sua ação reparadora.

Expulsar os demônios é tarefa inevitável, quando se procura socorrer os seres humanos.

Não que haja seres criados à parte da humanidade e para sempre rebeldes a Deus. Os demônios, da Linguagem evangélica, podem ser englobados na expressão adversários do bem, que o são todos os espíritos ainda Ignorantes ou resistentes aos desígnios divinos.

Costumamos temer os supostos demônios, sem nos darmos conta de que, por vezes, também nós agimos como um adversário do bem, quando em desacordo com que é certo e bom.

Entretanto, ser adversário do bem não é um estado permanente, definitivo. Todos os seres espirituais evoluem e se aperfeiçoam. E' a lei de progresso, Deus assim o quer e não há seres que resistam para sempre à sábia e santa vontade dele.

Que espíritos quer Jesus que afastemos? Certamente não é aos bons, pois só nos beneficiam e, sim, aos maus, porque sua influência é prejudicial, por vezes obsessiva. Se eles se aproximam de nós, porém, não é sem uma causa: a sintonia ou a dependência que lhes ofereçamos. E se Deus permite que eles venham a nós, não é sem um propósito necessário, útil: o de nos fazer conhecer o processo da influência entre os seres e aprendermos a preveni-lo ou corrigi-lo.

Se Jesus quer os expulsemos, é porque podemos influir sobre eles, exercendo nossa vontade, pois também somos espíritos. E temos, ainda, proteção especial ao nosso alcance: Deus dará um bom espírito aos que lho pedirem.

Agir amorosa e esclarecedoramente sobre o espírito e também sobre o encarnado, libertando-os dos vínculos infelizes em que incautamente se enredaram, é o que chamamos de desobsessão.

Esse intercâmbio com os espíritos é um dos serviços da seara espírita. Feito de modo fraterno e segundo as leis divinas, comprova a imortalidade e revela muito da vida futura, sobre como é a existência no Além, o que nos aguarda no lado de lá. Por esse intercâmbio mediúnico o Espiritismo consolida a nossa fé em Deus, em nossa natureza espiritual, e enseja se faça ajuda mútua entre a Terra e o Céu, entre encarnados e desencarnados.

CONDIÇÕES DO TRABAEHO

Pregar, difundir a verdade espiritual, as leis que regem a vida, curar enfermos, assisti-los com os recursos espirituais, e expulsar demônios, libertar as almas das influências inferiores, eis, em síntese, o trabalho na seara de Jesus, trabalho que tem de ser feito:

Sem restrição de pessoas, pois se amardes somente aos que vos amam, que galardão havereis? (Mt 5:46/47).

Sem se prender a convenções, como Jesus que não se deteve ante as limitações do sábado, argumentando: E, por consequência, lícito fazer bem nos sábados (Mt. 12:2).

Sem se fechar no âmbito familiar, porque quem Ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim (Mt 10:30).

Sem interesse egoísta, de lucro ou qualquer vantagem pessoal, já que de graça recebestes, de graça dai (Mt 10:8/10).

Com a disposição de se doar inteiramente, certos de que quem achar a sua vida, perdê-la-á. Quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á (Mt 10:39).

Com previdência, procurando pensar e prever antes de agir, como aconselhado na parábola da edificação de uma torre (Lc 14).

Com rendimento, apresentando o resultado possível e desejado, como esclarecido na parábola dos talentos (Mt 25).

Desde que, assim, basicamente preparados para trabalhar, a seara está aberta a todos que nela queiram servir e comporta variadíssimas funções.

Escolhamos uma para nos engajarmos.

A de mestre não poderá ser, porque já está ocupada por Jesus: Vós me chamais Mestre, e dizeis bem, porque eu o sou. Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, o Cristo (...) e todos vós sois irmãos (Mt 23:10 e 8).

Mas poderemos ser:

Lavrador, aquele que revolve o campo das mentes, arrancando idéias errôneas, abrindo sulcos, caminho para idéias superiores. Assim fizeram os pioneiros, rompendo as barreiras dos preconceitos.

Semeador, que nas mentes já abertas coloca as verdades novas, falando, escrevendo, nas atividades artísticas. A melhor semeadura, entretanto, será sempre a do exemplo.

Pescador, quem sabe interessar e atrair as criaturas para as coisas do espírito e para o serviço da seara.

Pastor, que vigia e assiste aos que já estão no redil, aos que já fazem parte do agrupamento, mas precisam de ajuda constante e previdente.

Mordomo, que organiza e administra recursos e atividades da seara, quer no movimento dos participantes dos grupos, como na programação de labores doutrinários ou, ainda, cuidando do patrimônio material.

Não escolhamos apenas o que "queremos" ou o que "gostamos" de ser e, sim, o que "podemos" e "devemos" fazer, o que precisa ser feito.

Por isso mesmo, servo é a categoria mais geral e útil e está ao alcance de todos. Basta não escolher apenas o que "queremos" ou "gostamos" de fazer e, sim, o que "podemos" e "devemos" fazer.

E em qualquer caso, seremos:

Ceifeiros, pois, em qualquer dessas situações, porque estaremos sempre colhendo resultados do que outros já lizeram, do trabalho que desenvolveram. Antes de nós alguém já lavrou, semeou, pescou, pastoreou, administrou e serviu. Agora, estamos "ceifando", encontrando situações mais bem preparadas, mentes já desenvolvidas, e pelos bons resultados de agora, quem nos precedeu e nós, todos nos alegramos.

Mas ainda há muito mais por fazer, porque o trabalho na seara espiritual não atingirá logo o seu fim, uma vez que a natureza não dá saltos. A consecução dos objetivos espirituais para a humanidade terrena será alcançada pelo labor perseverante de muitos, ao longo do tempo, através de muitas vidas sucessivas. Desde já, porém, a humanidade precisa ir sendo estimulada e ajudada para o progresso espiritual. E, no interesse de todos nós, devemos fazer isso sem perda de tempo.

Trabalhemos em equipe, seguindo em tudo o exemplo de |esus.

Embora altamente capacitado para realizar ele mesmo qualquer trabalho espiritual no campo das almas, mas trabalhou sozinho, convidou todos para se engajarem no trabalho da seara, fazendo cada qual o que pudesse, como, onde, quando e com quem estivesse.

Exemplificou a partilha das oportunidades de serviço com os discípulos, quer quando chamou os doze para apóstolos, ou quando a eles e aos setenta da Galiléia, passou a enviá-los dois a dois, como unidades mínimas de serviço em que se prestavam proteção e auxílio mútuos.

Assegurou sua ajuda aos que se unissem para o labor, afirmando: onde duas ou mais pessoas estiverem reunidas em meu nome aí estarei com elas.

O trabalho individual pode ser útil e bom, mas na seara espiritual o ideal será o trabalho em equipe, porque não se visa atender apenas uma necessidade pessoal e, sim, produzir o bem-estar geral, quanto possível, e que o próprio trabalho enseje progresso a todos, tanto aos que ajudam como aos que são ajudados.

Ciúmes, desavenças, disputa de lugares e de predomínio? Provam que está prevalecendo o interesse particular e não o do bem geral.

Em verdade, a seara espiritual é grande, poucos os trabalhadores, há campo para todos e cada qual tem nela sua importância e valor.

CONTRAS E PRÓS

Uma vez que vamos fazer o bem, esperamos e queremos ser bem acolhidos e com agrado por todos, sempre. Jesus, porém, já nos alertou: Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos (Mt 10:24/35).

Sim, chamaram Jesus de Belzebu e, no entanto, ele pregava apenas a adoração a Deus em espírito e em verdade. E que seus ensinos por vezes pareciam contrariar os interesses e costumes vigentes. Os adversários da luz, encarnados ou não, se aproveitavam dessa incompreensão para tentar desmerecer a atuação benéfica de Jesus. O mesmo aconteceria com os seus seguidores.

Sereis odiados de todos por causa do meu nome, disse o Mestre.

O nome de Jesus é o seu ideal, o que ele representa. Quem pregar igual a ele também por vezes será odiado, rejeitado, pelos adversários do bem. Mas, não é o discípulo mais que o Mestre, nem o servo mais do que o seu senhor. Baste ao discípulo ser como o Mestre e ao servo, como o seu senhor.

Haverá, sim, dificuldades no trabalho da seara.

Nos tempos evangélicos foram as perseguições, as prisões, os açoites, as traições, as calúnias e os martírios. Atualmente, todas estas coisas acontecem mais em espírito. Nem por isso são menos duras ou difíceis de se enfrentar e suportar.

Eis que vos envio como ovelhas entre lobos. O lobo é voraz, predador. A ovelha, animal útil e não agressivo, simboliza bem o cristão, servidor e não violento, que parece indefeso, não fora o aconselhamento providencial do Mestre: sede, portanto, prudentes como as serpentes e simples como as pombas (Mt 10:16).

Qual é a prudência da serpente? Rastejando pelo solo, ao senti-lo trepidar, cautelosamente se desvia do perigo antes. Ao cristão se recomenda: Vigiai e orai.

Em que a pomba é simples? Não alimenta nenhuma intenção de ataque, não é ave de rapina, simboliza pureza e pacifismo.

Viver com prudência e simplicidade é conduta que traz em si mesma uma defesa natural, protege porque evita e previne muitos problemas. Diz André Luiz: O seu desejo de paz garantirá tranquilidade para o caminho. Ávida do cristão, limpa, sem maus propósitos, tornará difícil aos maldosos o colherem em suas malhas.

Embora, mestre verdadeiro, Jesus nos aponte as dificuldades que encontraremos no labor da seara, ele também nos encoraja: Não se vendem dois passarinhos por um ceitil? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai. Não temais, poisl Bem mais valeis vós que muitos pardais. (...) até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Através de suas leis, sábias e imutáveis, Deus vela por nós.

Enfrentemos, pois, as dificuldades:

- com coragem, sem temer os que matam o corpo mas não podem matar a alma (Mt 10:26/28);

- com decisão, tomando da charrua sem olhar para trás (Lc 9:62);

- sem guardar ressentimentos. Se ninguém vos receber, nem escutar as vossas palavras, saindo daquela casa ou cidade, sacudi o pó dos vossos pés (Mt 10:14).

O SALÁRIO

Pelo trabalho na seara divina, podemos esperar alguma recompensa?

Digno é o trabalhador do seu salário (Mt 10:10), a cada um será dado segundo as suas obras.

Até ajudar aos que trabalham na seara merece recompensa, pois, mesmo se for um copo de água fria que se dê a alguém por ser profeta ou justo, se receberá galardão igual ao deles em suas funções (Mt 10:40/42).

Então, por que a parábola dos servos inúteis? Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos foi ordenado dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer (Mt 17:7/10). Onde a retribuição? Analisemos, para entender.

O servo nada tem de seu, trabalha com os bens do seu senhor. Em troca, habita na casa do senhor, onde tem alimento, proteção, vida.

O espírito, dentro da vida universal, nada tem de seu, trabalha com os preciosos, abundantes bens de Deus. Pode lidar com tudo, usufruindo condições para seu viver.

Terá algum crédito ou saldo a receber por isso? Pelo contrário, sempre esteve antecipadamente em débito pelo que lhe foi confiado.

Para cada bem que fez, já recebeu com que agir e usufruiu um efeito, um resultado na vida universal. Realizar suas atividades é nada mais do que mera obrigação.

Na parábola dos trabalhadores da última hora (Mt 20), cada qual entrou em uma hora diferente, mas todos receberam um denário.

E' que o salário, o resultado do trabalho, espiritualmente, é um só: a vida, aqui ou no Além, com seus valores e efeitos. Não há outra coisa a ganhar e todos os trabalhadores devem ser pagos. Não vemos médiuns novos na seara recebendo as mesmas bênçãos que os mais antigos, quando entram em serviço? A vantagem dos antigos é que desfrutam dessas bênçãos há mais tempo.

Na parábola dos talentos (Mt 25:14/30), vemos o trabalhador que não rendeu sendo admoestado, e aos que renderam, quer cinco como dois talentos, ser dito: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu Senhor.

A recompensa única do labor espiritual é continuar desfrutando de um viver espiritual mais intenso, com maior campo de ação, mas, também, maior responsabilidade, deveres ampliados.

E, na parábola dos lavradores maus (Mt 21:33), aprendemos, ainda, que quem não trabalha direito perde o salário e a oportunidade de continuar a servir, o campo de ação de que desfrutava.

Quanto a quem pára de trabalhar, é sal que perde o sabor (Mt 5:13 e Lc 14:34/35), para nada mais servindo, uma vez que perdeu sua função e merecimento. Assim os médiuns, dirigentes, passistas e expositores que agiam bastante na seara espiritual, se por negligência e descaso interrompem suas atividades, perdem o campo de ação, a sintonia, o mérito. Ninguém pode viver da glória do passado, se no presente não dá continuidade à obra. O que foi feito, está feito, já recebemos o resultado devido dentro da lei divina e com isso nem chegamos a pagar o que Deus antecipadamente nos concedeu. E as bênçãos do hoje, com que estamos retribuindo?

Na Terra, entendemos que temos o dever de trabalhar cada dia pelo pão do corpo. Mas Jesus nos recomenda: Trabalhai não pela comida que perece mas pela que permanece para a vida eterna (Jo 6:7).

O pão da vida eterna, imortal, se ganha com o salário do labor espiritual, cada dia, todo dia.

TRABALHEMOS!

Olhemos ao redor. Como está a humanidade? Pessoas sofrem, andam solitárias, desorientadas. Jesus teve grande compaixão delas. E nós, permanecemos insensíveis? indiferentes?

Que grande, imensa seara espiritual! Aberta ao trabalho da mente e do coração. A seara é grande, poucos os trabalhadores... Roguemos ao Pai:

Envia, Senhor, trabalhadores para a tua seara.

Mas, cada cristão, cada um de nós, é um obreiro em potencial dessa seara. Chamados por Jesus, temos nela a oportunidade e a honra de servir.

Trabalho que, espiritualmente, irá dignificar e valorizar a nossa vida, trazendo-nos aperfeiçoamento do eu e maior capacidade de ser feliz!

Só precisamos nos preparar. Estudar Kardec para viver Jesus.

Aprendamos a servir em nome do Cristo e trabalhemos como ele no evangelho nos ensina: com amplitude, desprendimento, previdência e proveito, sem desânimo nem temores, confiando no amparo divino sem disputas nem contendas, pois os trabalhadores são poucos e todos necessários.

Para que o trigo chegue ao ponto de colheita, um lavrará, outro semeará, outro vigiará e, finalmente, outro ceifará, mas do fruto nos alimentaremos todos.

Sirvamos com amor, dedicação. Digno é o trabalhador do seu salário, o salário sublime da vida espiritual, que se traduz por entendimento, sentimento e capacidade de ação cada vez maiores.

Participemos mais e mais da seara, sejamos nela colaboradores ativos e interessados. Cresceremos muito, espiritualmente.

Na ceia pascoal, Jesus disse aos seus apóstolos: Já não vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor, mas tenhamos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu
Pai vos tenho feito conhecer (Jo 16:15).

Se hoje, na seara de Jesus, o nome de servo, já nos honra, empenho-nos ainda mais no trabalho do bem, para um dia merecer, quem sabe! que ele nos chame pelo doce nome de amigo!

Therezinha Oliveira