CAPÍTULO 4 - ALEGRIA ! ALEGRIA !

CAPÍTULO 4 - ALEGRIA! ALEGRIA!

Sobre o riacho esvoaça o inseto belo e inconstante
Vejo-o, sigo-o e o tempo passa...
Ora escuro, ora brilhante, é como um camaleão;
rubro, azul, verde, num instante perde as cores e as recupera;
essas cores, quem me dera vê-las bem, aqui na mão!
Voa, adeja, buliçoso, enfim numa árvore pousa.
Pego-o! E das cores que havia ao olhá-lo atentamente vejo
um pobre azul somente.
Assim também vos sucede, anatomistas da alegria!

Neste poema, Goethe alude em versos inspirados aos que querem dissecar a alegria. Sem tal pretensão, não podemos deixar de nos interessar em que é a alegria, o que a causa e os efeitos que produz em nós, porque, se chegarmos a saber, talvez consigamos ter mais alegria em nossa vida.

SEUS EFEITOS

Lemos no Compêndio de Filosofia de Henrique Geenen, que a alegria é um movimento íntimo da alma que produz manifestações fisiológicas:

- aumento do tônus muscular (liberando-nos da sensação de fadiga, de peso);

- eupnéia (dando sensação de plenitude, de liberdade);

- aumento de calor (causando sensação agradável). Ela nos leva ao bem-estar, a nos sentirmos vigorosos, daí, por vezes, o bater palmas, pular, gargalhar.

Faz mais a alegria, ela colore as faces, dá brilho ao olhar e espontaneidade ao sorriso. De tal modo que, no bíblico "Provérbios", já lemos: "O coração alegre aformoseia o rosto".

A explicação espírita para os efeitos da alegria diz que sentir é agir; quando sente, o espírito age sobre os fluidos do seu perispírito; este, por sua vez, influi sobre o corpo físico. Se o espírito experimenta algo bom, como a alegria, há benéfica repercussão no organismo.

ALEGRIA E BONDADE

A alegria parece até nos tornar bondosos. Já não costumamos procurar deixar alguém contente, para então lhe pedir algo?

A alegria nos torna, mesmo, mais bondosos? Não. Os maus, mesmo alegres, podem entristecer a outros. E os bons, mesmo tristes, conseguem produzir alegria para os demais.

E' verdade, porém, que a alegria dissolve tensões, retira de estados apáticos e coloca o ser na melhor condição de manifestação. Em quem, no fundo, não havia disposição de maldade, apenas estava indisposto, abatido, tenso, vai dar a impressão de maior bondade.

Só por nos devolver à normalidade, ao nosso melhor estado, a nós que, quase sempre, nos sentimos aflitos, perturbados, inquietos, abençoada seja a alegria! Que bem nos faz! Como precisamos dela!

ELA É MAIS FÁCIL QUE A DOR

Se depender de Deus, mais facilmente estaremos alegres do que tristes.

Porque Ele fez a alegria mais fácil que a dor.

A julgar pelo modo de expressão de cada uma delas: o riso, expressão da alegria, custa menos que a careta de dor ou ódio.

"Para franzir a testa, necessários 60 músculos; para sorrir, bastam 26.

Portanto, sorria... Ao menos por economia" de esforço muscular. A alegria não é gratuita, pois usa 26 músculos, mas é mais acessível, está ao nosso alcance com menor esforço.

E É CONTAGIANTE

"Como todos os espasmos nervosos (tal os bocejos e soluços) o riso (a expressão da alegria) é contagioso." (Manual de Filosofia, resumido e adatado do Cours de Philosophie, de O Lachr por G.P.)

Novamente, aqui, temos a explicação do Espiritismo. É ainda a ação do pensamento e sentimento sobre os fluidos. Quem se sente alegre emana fluidos de alegria, os que estão ao redor recebem esses fluidos e passam a sentir seus bons efeitos.

Abençoados os que são alegres! Eles nos contagiam com esse "remédio de Deus", esse "óleo de alegria" que todos deveríamos usar para eliminar a "ferrugem da vida", que são os cuidados, as ansiedades e o mau humor, aconselha o Dr. G. Wendel Holmes.

Abençoados os que, tendo-a ou sem a ter, sabem fazer rir! Ajudam a humanidade a se sentir mais saudável, mais bela e bem disposta.

Aprendamos a nos alegrar, cultivemos a alegria! Beneficiaremos a nós e aos outros. Mas, tenhamos cuidado, saibamos dosar nosso contentamento! Rir de mau jeito, exageradamente, pode fazer deslocar o queixo. Rir demais provoca rugas. Rir sem propósito é próprio dos tolos e dos loucos. E Salomão já esclarecia que "há tempo de chorar e tempo de rir". (Ecles. 3:4).

Examinemos um pouco mais a questão da alegria, para saberemos nos contentar legitimamente e sem exageros.

O QUE A CAUSA

Alegria!

"Estado de alma em que se sente a posse de um bem, real ou imaginário."

Na criança a correr, a alegria vem da atividade física, do uso da faculdade motora.

Na mãe contemplando o filho, vem da atividade afetiva, do uso da capacidade de sentir.

No aficionado por palavras cruzadas, vem da atividade intelectual, do uso da capacidade de raciocinar.

E, conforme seu entendimento, cada criatura usa de suas faculdades, valoriza coisas, situações e pessoas, nelas encontrando alegrias ou experimentando carências.

Por isso mesmo, a alegria é subjetiva, depende do ser que a sente e suas fontes estarão em tudo e em nada. O que é alegria para um, para outro não é. O diligente se alegra em trabalhar, o preguiçoso, não. A criança não se alegra recebendo uma utilidade em vez do brinquedo que deseja.

Quem não gosta de ler se entedia e cansa com a leitura, que a outros deleita.

QUAIS ESTÃO SENDO NOSSAS FONTES PESSOAIS DE ALEGRIA?

Basta analisar, por exemplo, o que nos diverte, o Que nos contenta e faz rir. Como nos divertimos?

Com muito ruído, gritos e gargalhadas, e movimentação brusca, violenta.

Nos esportes, à base de competição, predomínio do mais forte sobre o mais fraco, como no boxe, ou na farra do boi e brigas de galos.

Nas festas, à base de comida e bebida, sem o que não achamos interesse ou graça.

Nos filmes e teatro, à base de sexo e violência.

No jogo, à base da ambição e ganho imerecido.

Em conclusão, nossa alegria ainda costuma se fundamentar no egoísmo, na satisfação egotista do "eu", no triunfo sobre os outros, no materialismo, na posse de bens materiais e no gozo dos sentidos.

E o humorismo que se faz por aí retrata tudo isso: explora o ridículo, a violência, a esperteza sem escrúpulo.

Talvez não nos permitimos agir assim, mas não aplaudimos quem o faz? Os nossos ídolos, atletas e artistas?

A nossa é uma alegria que custa muito. São prazeres materiais, consomem energias, tempo e dinheiro, temos de disputá-los com outros, haja vista as filas para os grandes espetáculos, as multidões nos parques temáticos.

E dura pouco. Não podemos ficar só nos divertindo, a vida material tem outras exigências, os trabalhos, os deveres; o corpo tem seus limites e também, por vezes, a idade impede muitas atividades que achamos prazerosas.

Assim se alegra a humanidade! Nem muito, nem bem, nem demoradamente. Estamos sempre procurando nos alegrar e quase sempre entediados, deprimidos ou tristes.

EVOLUÇÃO E ALEGRIA

Não será sempre assim. Estamos evoluindo e a evolução intelectual e moral modificará nossas concepções de vida.

A evolução não trará impedimento de prazeres a que estamos acostumados? Nossas fontes de alegria já são tão poucas e precárias e parece que a evolução pode diminuí-las. Que acontecerá com nossas alegrias, ante a evolução: serão muito reduzidas? Acaso as perderemos de todo? Não terão os menos evoluídos mais motivos de alegria do que nós?

Ambos, os mais e os menos evoluídos, têm numerosas fontes de alegria, previstas pela bondade divina, mas de acordo cada qual com o seu grau evolutivo. Quanto maior o desenvolvimento do ser, maiores recursos, maior capacidade de verdadeiro gozo.

Através das experiências nas reencarnações, iremos adquirindo mais possibilidade de sermos alegres, porque saberemos que:

- Deus existe;

- nossa natureza é espiritual, imortal, evolutiva;

- a vida tem finalidade superior;

- bens e situações materiais são transitórios;

- a lei de causa e efeito retribui cada ato nosso;

- o amor é a excelência da vida.

A evolução intelecto-moral, de fato, coíbe algumas fontes viciosas, como, por exemplo, as bebidas alcoólicas, o cigarro e as drogas; elas, porém, iriam se transformar em problemas e dores; suprimi-las, pois, não é prejuízo.

Mas não nos tira nenhuma das alegrias naturais, legítimas, como a de ver, ouvir, falar, cantar, comer, andar, trabalhar e conviver.

Apenas restringe abusos e isso é bom, porque impede que nossa sensibilidade se embote e o que se perde em imediatismo se ganha em qualidade, profundeza e duração.

Em compensação, a evolução:

- transforma certas dores e deveres em alegrias. Assim, toma-se um remédio amargo com a certeza de cura e se realizam trabalhos árduos com a certeza do proveito que trazem;

- amplia nossa capacidade de sentir, saber, fazer e, assim, revela alegrias que nem sabíamos existirem, que ignorávamos completamente, porque delas não nos apercebíamos.

ALEGRIA CRISTÃ

Começamos a entender Jesus que parece ver na alegria, tristeza e na tristeza, alegria (Lc 6:23/24):

Ai de vós, ricos, porque já tendes a vossa consolação os que estais fartos, porque tereis fome os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis, quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas.

Como Jesus os condena! Não, não os está condenando, mas lamentando, está compadecido deles.

Por quê? Parecem tão bem situados na vida, alegres, contentes, felizes...

Estão acomodados materialmente, mergulhados no gozo dos bens transitórios, mas esquecidos dos deveres para consigo mesmos, Deus e o próximo. O mundo materialista e egoísta os aplaude, apoia seus erros mas seu orgulho e falta de caridade acarretarão consequências, estão caminhando diretamente para a dor e a tristeza no futuro. Por isso Jesus os lamenta.

A outros, porém, Jesus chama "Bem-aventurados", afortunados, felizes. Quem são esses felizardos?

Os humildes de espírito, os que choram, os mansos, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores, os que têm sede e fome de justiça, os injustamente perseguidos por amor à justiça...

Bem-aventurados, felizes... Logo eles que para o mundo parecem os mais desgraçados, os perdedores?

Sim. Estão dentro da prova e do serviço, no resgate e no aprendizado, segundo as leis de Deus. Se souberem enfrentar essas dificuldades, estarão se libertando de problemas e entraves e se habilitando a condições mais felizes de vida, candidatos a usufruir, em breve, verdadeiras alegrias, tesouro que o ladrão não rouba, a traça não roi e a ferrugem não corrompe.

Só entende e aceita isso quem sabe da vida do espírito, imortal, evolutiva e regida pela mais perfeita justiça, a das leis divinas.

Alegria cristã! O Cristo nos fala dessa alegria, a do ser espiritual, com vistas à eternidade, não limitada pelo egoísmo, orgulho ou imediatismo.

Para que a conhecêssemos veio Jesus ao mundo. Sua doutrina, o Cristianismo, é o padrão dessa forma mais evoluída de pensar, sentir e agir.

Atingindo-a, nossas alegrias serão muitas, numerosas, diferentes das de agora, melhores, mais duradouras.

O QUE DAVA ALEGRIA A JESUS

- Lázaro está morto; e folgo, por amor de vós, de que eu lá não estivesse, para que acrediteis (Jo 11:14/15).

Alegrava-se Jesus com o que pudesse auxiliar as pessoas a compreenderem para terem fé na vida espiritual.

- Graças te dou, ó Pai, Senhor do Céu e da terra, que escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (Lc 10:21).

Aos muito capazes, deixa Deus que busquem a verdade, para que tenham o merecimento do esforço que lhes está ao alcance: é atitude justa.

Aos menos capazes, oferta o Pai aquilo de que necessitam e sozinhos não alcançariam: é atitude bondosa.

Alegrava-se Jesus com a justiça e bondade do Pai.

O QUE DEVE NOS ALEGRAR, SEGUNDO JESUS

- Bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem e os vossos ouvidos, porque ouvem". Porque (...) muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes e não o viram; e ouvir o que vós ouvis e não o ouviram (Mt 13=16/17).

Alegremo-nos pelo entendimento espiritual que já nos é propiciado, ele nos ajuda a bem vivermos, errando menos e acertando mais.

- Bem-aventurado és, Simão bar Jonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus (Mt 16:17).

Sintamo-nos contentes quando pudermos ter contato com o plano espiritual superior.

- Não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos, antes, por estarem vossos nomes escritos nos céus (Lc 10:20).

Regozijemo-nos, não por dominar, mas já estarmos sendo considerados em condições de trabalhar no campo espiritual, e sermos considerados confiáveis para exercer essa atividade.

- Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam (Lc 11:28).

Fiquemos contentes não por coisas exteriores a nós, mas se já conseguimos agir de acordo com a lei divina, pois só assim teremos verdadeiro merecimento e gozo espiritual.

- Para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos e regozijem (Jo 4:36).

Sintamos satisfação com os bons resultados obtidos na seara, que são de produção coletiva e não comportam contendas nem ciúmes.

- Ele era a candeia que ardia e alumiava, e vós quisestes alegrar-vos por um pouco de tempo, com a sua luz (J° 5:35).

Usufruamos a companhia dos bons, que tanto conforto e bem nos traz.

- Era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado (Lc 15:32).

Digo-vos que assim haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende (Lc 15:7).

Alegremo-nos muito quando alguém se recupera espiritualmente, saindo do erro e do sofrimento que ele acarreta.

- Se me amásseis, certamente exultaríeis por ter dito: vou para o Pai; porque o Pai é maior do que eu (Jo 14:28).

Exultemos com o que for bom para o próximo, sem querer retê-lo ou impedir sua realização com nosso egoísmo.

- Coisa mais hem-aventurada é dar do que receber (At 20:35).

"Deus ama o que dá com alegria" (2 Co 9:7). Estejamos jubilosos por podermos doar algo de nós ou nos doarmos.

Esse é o padrão da alegria cristã.

E por ele que estamos nos alegrando?

Talvez estejamos, ainda, numa fase de transição, passando da alegria mundana para a alegria cristã. Sem querermos mais nos alegrarmos por essa alegria violenta, sensualista, egoísta, impiedosa, mas sem termos aprendido, ainda, a nos alegrarmos inteira e puramente pela alegria do Cristo.

Estamos no grande esforço de enfrentar bem tarefas e problemas, nos resgates e provas, a fim de galgarmos níveis superiores de evolução.

E o esforço da renúncia, da disciplina e do serviço exige toda a nossa concentração e capacidade de ação.

Se é assim, perseveremos, porque são para nós, então, estas palavras do Cristo: (...) vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará; e vós estareis tristes... mas a vossa tristeza se converterá em alegria... e a vossa alegria ninguém vo-la tirará (Jo 16:20/22).

Se já abençoamos a alegria de agora, que nos revigora, ajuda e embeleza, mas é imperfeita, deixa ressaibos e nos foge a cada instante, com que expressões poderemos definir a alegria espiritual, que nos virá de entender a vida, sentir o amor e servir à harmonia universal?

Alegrai-vos sempre no Senhor! convida-nos o salmista.

Alegremo-nos, sim, de alegria verdadeira, a superior, santa, sublime, imensurável, inalterável e intérmina alegria cristã.

Therezinha Oliveira