FRANCISCO DAS AVES
CLARA E O SOL - O SEGREDO DE ASSIS

A história de um convite

Estranho foi o percurso da redação deste livro... Na realidade, as pedras que lhe prepararam o caminho foram assentadas uns cinco anos antes do início das suas primeiras linhas. Eram bem discretas, na verdade, e, se sua repetição frequente não tivesse acabado por chamar-me a atenção, sem dúvida eu logo as teria esquecido.

Essas pedras, qual um fio condutor, apresentaram-se sob a forma de algumas reflexões lançadas ao "acaso" em conversas com amigos e conhecidos...

Aqui e ali, diziam-me ter sonhado comigo, e o assunto era um livro que eu devia escrever sobre Francisco de Assis. Os sonhos nunca eram idênticos, mas sempre terminavam com a mesma mensagem.

Estes e outros comentários estenderam-se por mais ou menos seis meses; depois mais nada... Silêncio sobre o assunto. Houve então o surgimento de outros livros, sobre outros temas, que quase me fizeram esquecer o que eu vagamente havia chamado'^ projeto Francesco".

Quase, mas não completamente... Realmente, que tema de escrita magnífico o itinerário ao mesmo tempo místico e revolucionário desse Poveretto que iluminou toda a Idade Média pela beleza da sua alma!

Só que, para lançar-me num projeto assim, faltava-me, como aconteceu com todas as minhas outras obras, o que chamo "um verdadeiro sinal do Céu".

Para dizer a verdade, falar de Francisco de Assis pela mera beleza do assunto não tinha qualquer sentido. Em oito séculos, sua vida e obra já suscitaram milhares de livros. Por que lhes acrescentaria mais um?

Sim, por quê? A menos que tivesse acesso a novas informações... Quanto a mim, tal como me encontrava, nada de especial tinha a dizer, nenhum dado inédito. Da vida do pobrezinho de Assis, conhecia poucas coisas, como aliás acontece com a maioria de nós; devemos reconhecer.

Tudo isso levou-me a uma certa primavera em que, tarde da noite, uma voz bem audível veio colocar-se bem no centro do meu crânio. Era tão presente que não pude deixar de levantar-me e ir apanhar uma caneta para anotar de imediato o que ela me dizia. Grave caso de esquizofrenia segundo as normas da nossa sociedade, concordo... mas fenômeno clássico e coerente para aqueles que, entre os quais me incluo, sabem muito bem que a vida não se limita ao que nela vemos.

Um ser falava-me, e acabei por adivinhar-lhe a presença numa luz delicada que se mantinha verticalmente diante da minha escrivaninha. Quase imediatamente, através das linhas que fazia jorrar de mim sobre o papel, ela declinou sua identidade:

Chiara... Clara de Assis.

Foi assim, nessas condições inesperadas, que nasceram as primeiras páginas do relato que o leitor tem entre as mãos. Somente as primeiras páginas, porque, sem a menor dúvida, escrever um livro dessa forma teria sido "muito fácil".

Depois desse acontecimento decisivo - o verdadeiro sinal que eu aguardava -, ficava evidente que chegara minha hora de agir. A presença "em consciência" de Clara convidava-me explicitamente a penetrar-lhe na memória, através do labirinto das suas lembranças, para restituir um retrato diferente de Francisco.

Então, quase cotidianamente, durante longos meses, foi-me dada a chave para poder investigar à vontade no filme da Memória do Tempo ligado à alma de Clara de Assis e, às vezes, à de Francisco. É importante, pois, que aqui se compreenda bem que, embora este livro tenha para uns a aparência de um romance, ele relata tão somente a realidade de uma existência.

Inútil precisar que esse mergulho da minha própria consciência no coração das pegadas deixadas no espaço-tempo por Francesco e Chiara, depois por Agnes, irmã dela, teve para o homem que sou algo de desconcertante e emocionante: Mais desconcertante ainda quando me vi trazendo de volta informações capazes de modificar o olhar com que a História, e principalmente uma certa religião, os vêem.

A natureza dessas informações - a que se deve o subtítulo desta obra, O segredo de Assis, a meu ver justifica plenamente o trabalho que me foi pedido. Cada um o julgará por si...

E um trabalho que foi realizado dia após dia, "às cegas", isto é, sem um plano preestabelecido, em total ligação com as "presenças" contatadas e com a vivência da minha alma no fio do tempo.

Infalivelmente, a confiança e o amor foram-lhe os regentes, porque, para dizer a verdade, foi só no decorrer da redação que lhe compreendi a urgência e a pertinência. Com certeza, a revelação a que Francisco de Assis teve acesso no meio do seu caminho de vida poderia ter mudado a face do Cristianismo, se tivesse sido divulgada. Ela nos teria ajudado a sair de um dramático realismo ao unir-nos às fontes puras da mensagem crística, longe de censuras e manipulações.

Nesse sentido, não hesito em dizer — com alegria — que o testemunho que constitui este livro é perfeitamente herético... com relação ao dogma oficial da Igreja. Que não seja visto, porém, como uma manifestação de hostilidade para com ela, porque é uma tentativa pacífica de trazer à tona algumas verdades simples, tão simples que amedrontaram séculos de hierarquia eclesiástica. Faça-se o que se fizer, toda luz sempre acaba por sair do alqueire.

As páginas que se seguem não pretendem, por certo, traçar ponto por ponto uma biografia exata de Francisco de Assis. Pelo contrário, esperam fazer com que de novo exale o perfume d'alma que o habitou, pondo-lhe em evidência o ardente segredo, o segredo de Clara também, assim como o profundo amor que os uniu em torno das pegadas originais deixadas pelo Cristo realmente encarnado na Terra.

Certamente serão desmentidas se comparadas com grande numero ae textos ditos autênticos, históricos, doutos o que receberam o imprimatur. No entanto, meu objetivo, repito, não é entrar em qualquer polêmica, por mínima que seja. Isso não teria nenhum interesse. Contrariamente ao que frequentemente se afirma, não creio que se prepare a paz fazendo a guerra.

Embora possa perturbar, este livro é antes de tudo um livro de amor. Se tira a mentira do seu esconderijo, é sem arrogância, com ternura e compaixão.

Espero que ele seja fiel à memória do sublime par solar formado incontestavelmente por Francisco e Clara de Assis. No meu coração de escritor-testemunha, ele é um grande convite à unificação e à felicidade...

DANIEL M. GIVAUDAN

..CAPÍTULO 1 - FOI NUM TEMPO NÃO MUITO DISTANTE

..CAPÍTULO 2 - OS CHAMADOS
..CAPÍTULO 3 - UMA JANELA NA ALMA
..CAPÍTULO 4 - PELA PORTA DOS MORTOS
..CAPÍTULO 5 - A REVELAÇÃO DAS AVES
..CAPÍTULO 6 - A REVELAÇÃO DE DAMIETA
..CAPÍTULO 7 - AS DESILUSÕES
..CAPÍTULO 8 - OS PERGAMINHOS DE SÃO DAMIÃO
..CAPÍTULO 9 - O SANGUE E O ÓLEO
..CAPÍTULO 10 - A FLOR DO CARDO
..CAPÍTULO 11 - O ÚLTIMO CÂNTICO
..CAPÍTULO 12 - O NOME DO AMOR