FRANCISCO, O SOL DE ASSIS

FRANCISCO, O SOL DE ASSIS

A noite medieval, embora com alguns relâmpagos esparsos que a iluminavam periodicamente, encontrava-se num despertar suave, mas significativo. O poder arbitrário da Igreja e dos reis governantes da Europa esmagava a sociedade cansada de sofrimentos.

De um lado, o luxo abusivo, a extravagância, o orgulho de classes, os ódios entre as cidades e a intriga encarregada de tornar qualquer governo sem diretriz, e de outro, a miséria, o poviléu, as doenças desconhecidas e destruidoras, a indiferença pelo ser humano constituíam o contraste alarmante, nessa sociedade impiedosa e dominada pelas superstições.

O Espírito de Jesus Cristo havia desaparecido do convívio real entre as criaturas, crucificado nos dogmas, nas guerras de religião e de política de Estado, embora vigesse nas almas simples e ingênuas, em alguns sofredores que se apegavam à esperança de paz e à conquista do Reino dos Céus.

O exausto século XI extinguia-se entre conflitos lamentáveis e lutas intermináveis por toda parte.

O papado, distanciado do povo, transformara-se num centro de prazer e de disputas acirradas pelo poder, enquanto os reis coroados pelos chefes da Igreja submetiam-se ou entravam em guerra contra o favoritismo e os crimes praticados.

A cavalaria representava uma força de dignidade para os homens, e o monasterio, o refúgio para as mulheres...

A literatura encontrava-se empobrecida e somente os trovadores conseguiam manter-lhe o espírito em viagens contínuas, em narrativas heroicas e eróticas, enquanto a promiscuidade, filha dileta da falta de higiene, ceifava as vidas desequipadas de recursos propiciatórios à saúde.

Repentinamente, em Assis, amanhece novo dia. O sol aquecedor da misericórdia e vitalizador do sentimento de amor surge na pessoa do jovem Francisco, atordoado pelas dúvidas e sonhando com as certezas da imortalidade.

Acostumado ao prazer e à exuberância nos trajes caros, nas festas juvenis ricas de encantamento, e depois de participar dos incidentes bélicos entre a sua amada Assis e outras que se lhe fizeram inimigas, embora fossem irmãs, foi tomado pela melancolia e pelo sofrimento do vazio existencial.

Desejava o triunfo humano, a glória no campo de batalha, a situação privilegiada como cavaleiro de alguma potestade, honrando a família Bernardone, cercado de amigos joviais, no entanto, sonha que não era justo servir ao servo, quando o senhor estava à sua espera...

As armas reluzentes que o deslumbram no estado onírico, foram transformadas em bordão e traje grosseiro; as lanças, as espadas e os capacetes brilhantes converteram-se em flagício pessoal, que o feriram mil vezes, deixando-o ao desabrigo e ao abandono, quase sempre a sós, porém, cantando o hino de amor e de encantamento pela Irmã Natureza.

A sua luz íntima exteriorizase e cresce, clareando as veredas humanas e os labirintos internos das criaturas em sombra, apontando o rumo de segurança infalível que é Jesus descrucificado.

Renunciou a tudo e a todos, menos ao ideal de amar...

E o seu amor inundou a Terra de alegria e de bênçãos, fazendo que o planeta nunca mais fosse o mesmo, após a sua entrega.

A sua é a história ímpar da total doação a Jesus.

A sua é uma existência de renúncia sem igual, de sofrimento sem masoquismo, por eleição pessoal, portadora da força indomável da vitória do Espírito sobre a matéria.

Francisco transformou-se no Sol de Assis, que passou a iluminar toda a Terra.

Depois de Jesus, ninguém que o iguale, e mesmo antes d'Ele.

Doce e suave como a brisa do amanhecer, fez-se forte e poderoso como a tempestade que vence os obstáculos e deixa os sinais da sua passagem, num reflorescer de bênçãos.

Jamais terá ocaso esse sol incomparável, que permanece, há mais de oito séculos, iluminando as vidas que se lhe entregam espontânea e confiadamente, aguardando o momento de alcançar o Infinito.

O mundo sente saudades de Pai Francisco, anela por ouvir novamente a sua canção de ternura dedicada a todos os irmãos da Natureza, ver a sua frágil e vigorosa figura, nos trajes rotos em que cobria as feridas, acompanhar os seus passos trôpegos pelo cansaço e pelas doenças, renovando-se na sua alegria incomum e na sua abnegação jamais igualada.

Ao lado da sua filha Clara e de fiéis companheiros, colocou Jesus no mundo de então, surpreendendo os poderosos que se lhe submeteram de boa mente, assinalando o século XII e todos os demais do futuro, com a força invencível do amor e da suprema doação.

Quanta saudade daqueles dias, que se hão de instalar nestes dias!

Saudamos, neste delicado livro dedicado a Francisco, o Sol de Assis, um brado a mais em favor da sociedade em despertamento para a realidade do Espírito.

Tudo quando se possa escrever ou informar sobre o Pobrezinho de Deus, ainda é pouco, em se considerando o gigantismo da sua claridade no mundo, desde aquele já recuado período em que abençoou a Terra com a sua e a presença dos seus.

Ao lê-lo com carinho, cantemos com ele cada pensamento e confiemos conforme ele o fazia, que o sofrimento baterá em retirada, quando as mulheres e os homens compreenderem a finalidade psicológica da existência carnal.

Reflexionemos nas suas singelas lições e deixemo-nos sonhar com ele as maravilhosas paisagens do porvir.

Esperamos que, ao terminar a sua leitura, algo de Francisco insculpa-se na mente e no coração de cada um dos que o examinarem com reflexão e respeito.

JOANNA DE ANGELIS

..NATUREZA

..CAPÍTULO 1 - EM LOUVOR AO IRMÃO SOL

..CAPÍTULO 2 - A IDADE MÉDIA
..CAPÍTULO 3 - O MOVIMENTO LEIGO E PAUPERISTA
..CAPÍTULO 4 - OS LEPROSOS
..CAPÍTULO 5 - IRMÃO DA NATUREZA
..CAPÍTULO 6 - FRANCISCO E O BRASIL
..CAPÍTULO 7 - AS CATEGORIAS DE FRANCISCO
..CAPÍTULO 8 - TRAZ ELE DE VOLTA
..CAPÍTULO 9 - A ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA
..CAPÍTULO 10 - EPÍSTOLA AO MENESTREL DE DEUS ..
..CAPÍTULO 11 - PRESENÇA FEMININA
..CAPÍTULO 12 - A GRANDE CONFRARIA
..CAPÍTULO 13 - A IMPORTÂNCIA DO DIÁLOGO
..CAPÍTULO 14 - ÊMULO DE JESUS
..CAPÍTULO 15 - A CONHECIDA ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO
..CAPÍTULO 16 - FRANCISCO E O ESPIRITISMO
..CAPÍTULO 17 - IRMÃO DE JESUS
..CAPÍTULO 18 - DUAS PRECES DE FRANCISCO
..CAPÍTULO 19 - ORAÇÃO À SÃO FRANCISCO ..
..CAPÍTULO 20 - MEU AMIGO DOS PÉS DESCALÇOS
..CAPÍTULO 21 - PARECE QUE FOI ONTEM
..CAPÍTULO 22 - BREVE CRONOLOGIA