O QUE FAZEMOS NESTE MUNDO?

Richard Simonetti é de Bauru, Estado de São Paulo. Nasceu em 10 de outubro de 1935.

De família espírita, participa do movimento desde os verdes anos, integrado no Centro Espírita Amor e Caridade, que desenvolve largo trabalho no campo doutrinário e filantrópico.

Articulou o movimento inicial de instalação dos Clubes do Livro Espírita, que prestam relevantes serviços de divulgação em dezenas de cidades.

É colaborador assíduo de jornais e revistas espíritas, notadamente O Reformador, Revista Internacional de Espiritismo e Folha Espírita.

Funcionário aposentado do Banco do Brasil, tem visitado todos os Estados brasileiros e alguns países, em palestras de divulgação da Doutrina Espírita.

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Encarnando no corpo do homem, o Espírito lhe traz o princípio intelectual e moral que o torna superior aos animais.

As duas naturezas existentes no homem dão às suas paixões duas fontes diferentes: umas provêm dos instintos da natureza animal, outras resultam das impurezas do Espírito encarnado, que simpatiza mais ou menos com a grosseria dos apetites animais.

Ao purificar-se, o Espírito se liberta pouco a pouco da influência da matéria.

Sob essa influência, aproxima-se do bruto; livre dela eleva-se ao seu verdadeiro destino.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos

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Apresentação

O COPO DE ÁGUA

Conta a sabedoria ioga que Narada, discípulo que morava ao lado do Senhor do Universo, quis conhecer a ilusão.

E saíram ambos pelo mundo para atender à sua aspiração. Em dado momento, disse-lhe o Senhor do Universo:

— Narada, tenho sede. Traga-me um copo d’água.

Imediatamente o discípulo saiu em busca de água fresca. Bateu na porta de uma casa onde linda jovem o atendeu, mostrando-se delicada e gentil.

Apaixonaram-se, casaram e tiveram vários filhos ao longo dos anos.

A sogra de Narada, viúva rica, morreu, deixando-lhe muitos negócios e grande fortuna.

Ele se viu rico, cercado de conforto e bem-estar com os entes queridos.

Até que veio o dia em que uma epidemia alastrou-se pela região.

Narada deixou tudo e partiu com a família.

Em viagem de barco foram colhidos por uma tempestade. O barco virou e Narada lutou muito para não morrer afogado.

Pela manhã viu-se na praia, verificando em desespero que a família perecera e ele estava só, sem recursos, sem alento, sem nada...

Chorou amargamente pela perda de seus patrimônios, de seus amados...

Então ouviu uma voz familiar:

— Narada, onde está meu copo d’água? Há meia hora você saiu para buscá-lo e não voltou.

Então Narada compreendeu. Saíra para pegar um copo da d’água para o Senhor do Universo e se perdera em ilusões.

História singela, leitor amigo, mas de ensinamento profundo.

Sem nenhum menosprezo pelas realizações humanas, principalmente em relação à família, o T texto situa a ilusão como tudo o que é transitório, é passageiro.

Diz Jesus (João, 4:14):

... mas quem beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede; ao contrário, a água que eu lhe der se tomará nele fonte de água jorrando para a vida eterna.

A Doutrina Espírita nos aponta a reencarnação como uma jornada em busca dessa água que sacia nossa sede de conhecimento, de equilíbrio, de tranquilidade, representando o esforço de renovação, de superação das mazelas humanas.

Beber essa água é centralizar nossa atenção no esforço por assimilar os princípios evangélicos, fazendo-os repercutir em nossa vida, para que nos tornemos fonte de paz e harmonia no âmbito familiar, profissional, social, religioso...

Tudo é transitório na Terra.

Só é permanente a necessidade de mudar, buscando sempre estágios mais altos de espiritualidade, no empenho incessante em combater nossas imperfeições. Para isso transitamos pelo mundo.

Deixaremos, então, o terreno das ilusões, consolidando as ligações afetivas e a vocação para a verdade e o bem, em experiências gloriosas na jornada rumo à perfeição.

Se você está disposto a cogitar do assunto, caro leitor, ofereço-lhe nestas páginas alguns temas para reflexão, na busca incessante da água que Jesus nos oferece.

Bauru, maio de 2017

email: richardsimonetti@uol. com. br site: www. richardsimonetti. com. br

FELICIDADE

MORRER FELIZ

Tema recorrente em nosso mundo é a felicidade, a maior aspiração humana.

Todos queremos, acima de tudo, ser felizes. Seria interessante refletir sobre o assunto, a partir de um versinho de Mário Quintana:

Quantas vezes a gente, em busca da ventura, Procede tal e qual o avozinho infeliz,

Em vão, por toda parte, os óculos procura Tendo-os na ponta do nariz.

Vale lembrar dona Malvina.

- Estou muito infeliz - reclamava, desalentada, dirigindo-se a Juvêncio, mentor espiritual do Centro Espírita que frequentava.

E explicava:

- Enfrento intoleráveis atribulações com a família e as enfermidades. A Terra é um vale de lágrimas! Gostaria que Deus me levasse!

Juvêncio, um guia sem papas na língua, questionou:

— Quem lhe disse que pessoas infelizes recebem passaporte para o Céu?

- Ora, quem disse! - retrucou, contrariada, dona Malvina. - Foi Jesus. O nosso mestre ensinou, no Sermão da Montanha, que bem-aventurados são os sofredores.

— Você não completou: Bem-aventurados os que sofrem, porque serão consolados'. Tapinha nas costas, minha filha! Felizes, apenas os humildes. Deles é o reino dos Céus, como está na primeira bem-aventurança.

- Eu sou humilde!

— Negativo. Pessoas humildes não fazem propaganda disso, nem reclamam da vida.

— Devo sofrer calada?

- De preferência. Nunca ouviu dizer que o coração é nosso e o rosto é dos outros?

— Como sorrir para alguém se a desolação está em mim?

- É simples. Primeiro aprenda a rir de si mesma. Olhe-se no espelho e veja como é lamentável sua expressão atormentada, como se carregasse os males do mundo sobre os ombros...

— E daí?

- Diga para si mesma: Por que esse figurino de velório? Coisa ridícula! Ninguém morreu! Quem deve morrer é o meu pessimismo, minha visão negativa da existência!

- O que ganharei com isso?

— Deixará de preocupar-se demais com as coisas da Terra e terá tempo e disposição para ser feliz. Além do mais, morrer infeliz é sintoma de rebeldia. Demostra não estar satisfeita com o que Deus lhe deu.

- Isso é ruim?

- E péssimo. Gente infeliz está despreparada para a vida espiritual. Fará estágio depurador no umbral para refletir um pouco e compreender que a infelicidade é opção equivocada, quando não nos ajustamos aos desígnios divinos.

— Então, o mais acertado...

- ...E morrer feliz, minha filha, mesmo enfrentando as dores da Terra, com a consciência de que bem-aventurados são os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados, como ensina a quarta bem-aventurança.

— Ah! Isso é impossível!

- Por quê?

- Tenho sido injustiçada a vida toda. Sofro prejuízos com as pessoas, a começar por meus familiares...

-Você não entendeu a observação de Jesus. Essa sede de justiça não diz respeito aos nossos direitos. O Mestre reporta-se aos nossos compromissos.

— Compromissos?

— Sim. Bem-aventurados os empenhados em resgatar seus débitos com otimismo e coragem, sem desalento, sem queixumes, cumprindo a vontade de Deus. Ou você acha que está na Terra em jornada de férias?

— Ser feliz mesmo sofrendo?

— Exatamente, até porque sofrimento e infelicidade não são sinônimos. O sofrimento pode ser uma imposição da vida, mas a felicidade é uma construção pessoal, de esforço intransferível.

— E algo que me compete realizar...

— Exatamente. E peça a Deus, com todas as forças de sua alma, que não a deixe desencarnar antes de conquistar a capacidade de ser feliz.

Juvêncio até imaginou ser necessária a longevidade de Matusalém para pessoas como Malvina alcançarem semelhante objetivo, ante sua milenar vinculação ao pessimismo.

Não obstante, não seria caridoso, e afinal -considerou com seus botões — temos a eternidade pela frente. Todos acabam aprendendo que a felicidade não está subordinada à satisfação de nossos desejos diante da vida. Nasce do empenho de compreender o que a vida espera de nós.
***

O guia tem razão em suas ponderações, amigo leitor.

Lembro uma expressão feliz do apóstolo Paulo, na Primeira Epístola aos Tessalonicenses (5-16):

Regozijai-vos sempre!

Se sabemos que Deus é o Pai de infinito amor e misericórdia, revelado por Jesus, que nos reserva grandioso futuro...

Se compreendemos que as dificuldades e atribulações do mundo são lixas ásperas a desbastarem nossas imperfeições mais grosseiras...

Se temos a bênção do conhecimento espírita que nos revela os porquês da existência humana — de onde viemos, por que estamos na Terra, para onde vamos...

Se tanto já aprendemos, como não manter o sorriso nos lábios, habilitando-nos a partir felizes quando chegar nossa hora, a fim de que a felicidade chegue conosco no continente espiritual?

E afinal, caro leitor, se os males maiores representam o pagamento de nossos débitos de vidas anteriores, por que ficar infeliz?

Quem salda suas contas deve sentir alívio e alegria, não constrangimento e tristeza, porquanto estará se depurando, o que o habilitará ao benefício maior, como ensinava Jesus (Mateus 5:8):

Bem-aventurados os que têm limpo o coração, porque verão a Deus.

pecado

TENTAÇÃO

Merece atenção especial, em se tratando da depuração de nossos sentimentos, o desafio do pecado, que definiriamos como a violação de um preceito religioso.

Há quem, em sua simplicidade, o situe como uma ofensa a Deus, ideia que nenhum teólogo esclarecido endossaria.

Imaginemos uma formiguinha impertinente a assaltar nosso açucareiro. Ficaremos ofendidos?

Entre nós e a formiguinha há alguns milhões de anos, na escola da evolução.

Entre nós e Deus, o infinito!

Ofendemos a nós mesmos quando desrespeitamos as leis divinas, inscritas em nossa consciência, das quais tomamos conhecimento à medida que crescemos em conhecimento e amadurecemos em sentimento.

A teologia tradicional destaca sete pecados capitais, capazes de remeter os que se deixam vencer pela tentação, às caldeiras do Pedro-botelho, mais conhecido como o diabo.

São eles: avareza, gula, inveja, ira, luxúria, preguiça e soberba.

Façamos, caro leitor, uma reflexão sobre os referidos.

• Avareza

Diz Horácio que o avarento está sempre necessitado, mesmo nadando em dinheiro.

Já experimentei o desprazer de ouvir pessoas muito bem de vida, a alegar que estavam sem possibilidade de contribuir para meritórias instituições filantrópicas.

Quanto ao mais, como diz o Marquês de Maricá: O avarento é o mais leal e fiel depositário dos bens de seus herdeiros.

Guarda e acumula o que eles vão gastar.

Isso porque ao morrer não levará um alfinete sequer de seus bens. Indivíduos apegados ao dinheiro amontoam recursos para viverem séculos.

No entanto, tantos bens, acumulados com a intenção de proveito próprio, tornam-se apenas lastros pesados que os prenderão às regiões umbralinas, além de constituírem pesados desafios aos herdeiros, tentados pelos perigosos desvios que a riqueza favorece.

• Gula

O vício de comer e beber em excesso começa como uma doença do prazer e termina em graves doenças do corpo.

Costuma-se situar a gula como mais contundente para a saúde do que a espada.

Estatísticas demonstram: os excessos na alimentação, o continuar a comer além do necessário, matam mais do que o somatório das guerras que atormentam o mundo.

Nos Estados Unidos, perto de trinta e cinco por cento da população sofre de obesidade, isto é, têm o peso acima do normal, o que implica prejuízos de produtividade no trabalho, gastos com doenças, mortes prematuras...

Um confrade de saudosa memória tinha uma regrinha simples para evitar o problema: sempre deixe a mesa de refeição com fome.

E comer o suficiente e bem devagar. O estômago não é nenhum velocista. Demora perto de vinte minutos para passar ao cérebro a informação de que está satisfeito.

E fácil avaliar quanto podemos exceder ao necessário nesse espaço de tempo se não deixarmos a mesa.

• Inveja

Eram dois filhos.

Ambos trabalhavam no campo.

O mais velho cuidava das plantações; o mais novo cuidava das ovelhas.

Ao apresentarem ao pai o produto de seu trabalho, ele revelou apreço maior pela produção do mais novo.

O mais velho não teve dúvida.

Atraiu o irmão a passeio no campo e o matou.

Parece-lhe familiar essa história, caro leitor?

Certamente você a conhece.

E a historia de Caim, que matou seu irmão Abel, por inveja.

Ainda que estejamos diante de simples lenda, ficou registrada como o primeiro fratricídio cometido por um ser humano. E coisa antiga.

Fácil definir se somos invejosos.

Ficamos felizes ou incomodados com o sucesso alheio?

Na segunda hipótese, estamos enquadrados.

• Ira

Acho notável a observação do apóstolo Tiago, em sua epístola universal (1:19-20):

Sabeis isso, meus amados irmãos: Todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar e tardio para se :rar, pois a ira do homem não opera a justiça de Deus.

A ira, o estado de extrema irritação, de ódio contra alguém, dispara autêntico curto-circuito mental. quando perdemos o controle das emoções e, não raro, caímos em estados de consciência próprios dos ?rutos das cavernas, dispostos a usar, por argumento, a força bruta.

Ficamos estarrecidos com o noticiário policial, ralando de atrocidades cometidas por pessoas fora de si, dominadas pela ira, em pleno domínio do instinto sobre a razão.

Num momento de descontrole emocional, sob inspiração desse sentimento devastador, o indivíduo pode semear dores para séculos de reparação.

Se as pessoas tivessem noção dos estragos que fazem em sua biografia espiritual quando agem assim, haveríam de preferir a amputação da mão antes de usá-la para agredir.

A maior parte da Humanidade ainda estagia na justiça do olho por olho, orientada por Moisés — combater a violência com a violência, que apenas a perpetua.

Com Jesus surge a justiça divina, consciente e calma, que combate o mal com o bem, para a qual o ofensor é um irmão doente que precisa de tratamento, não de castigo.

Diz Sêneca, o filósofo romano:

Uma ira desmedida acaba em loucura; por isso, evita a ira, para conservares não apenas o domínio de ti mesmo, mas também a tua própria saúde.

• Luxúria

O sexo é obra divina. E por ele que os seres vivos se reproduzem; é por ele que desfrutamos da oportunidade bendita da reencarnação.

Detalhe: nos reinos inferiores a Natureza determina quando ocorre o acasalamento, no chamado cio.

No ser humano o sexo deixa de ser mero instrumento de perpetuação da espécie e surge como recurso de prazer, de comunhão mais íntima entre os parceiros.

Aí mora o perigo, porquanto para considerável parcela da Humanidade o sexo passa a ser algo vicioso, sempre procurado e exagerado, em exercício de luxúria.

Adultério, traições, lares desfeitos, filhos negligenciados, doenças graves como AIDS e sífilis, desvios de comportamento, comprometimentos espirituais, são lamentáveis efeitos dessas existências motivadas pelo prazer sexual.

• Preguiça

Um amigo costuma explicar, fazendo humor, as razões da preguiça que caracteriza boa parte da População terrestre.

- Antes da presente encarnação, provavelmente esse povo fez longo estágio em regiões umbralinas, cue circundam nosso planeta. Embora o panorama desolador daquelas paisagens, muitos Espíritos acostumam-se a viver por ali, na indolência, algo semelhante à chamada população de rua, em nossas cidades, gente que perdeu a iniciativa, entregue à apatia.

E prossegue, jocoso:

— No umbral isso é mais fácil acontecer, porquanto ninguém morre de fome ou é vitimado por intempéries. Espíritos nessa condição constituem a população de rua umbralina. Quando esses Espíritos reencarnam, não obstante as exigências do corpo físico, revivem as tendências cultivadas no Além. A ideia do acomodamento, do não fazer nada, ressurge, forte. E algo tão arraigado que muitos aspiram à aposentadoria simplesmente para conquistarem o direito de não fazer nada.

Bem, caro leitor, fica ao seu arbítrio julgar se nosso amigo está certo.

O que posso afiançar, sob inspiração da Doutrina Espírita, é que a preguiça é uma das principais fontes de todos os males. Quem não tem o que fazer, sempre acaba fazendo o que não deve.

São Jerônimo dizia por que não devemos nos entregar à ociosidade:

Assim o diabo sempre nos encontrará ocupados e não poderá tentar-nos.

• Soberba

Também situada como orgulho e vaidade, digamos que é a pretensão de sermos melhores do que o próximo, mais bonitos, mais inteligentes, mais capazes...

Coelho Neto, ao falar de sua pretensão de negar a existência de Deus, como se isso o fizesse importante, lembrava um rapaz que procurou o padre para confessar que seu grande pecado era a soberba.

Sentia-se o mais importante dos homens.

O padre, tentando definir o porquê daquele sentimento tão arraigado, perguntava se ele era rico, se tinha grande cultura, se era irresistível no relacionamento com as mulheres, e, ante as negativas do rapaz, o despediu, dizendo-lhe:

- Vai em paz, meu filho, não és orgulhoso, jamais foste orgulhoso, não tens nada de que te orgulhares. És, isto sim, um perfeito bobo, e isso não é pecado.

Se levarmos às últimas consequências a sabedoria do padre, diriamos que são perfeitos bobalhões todos aqueles que se jactam de alguma virtude, ou posição social, ou condição física, porquanto o tempo, que tudo muda, os colocará no devido lugar, quando retornarem ao mundo espiritual e verificarem que de

nada valeram suas “virtudes".

No continente além-túmulo têm valor as conquistas espirituais, no campo do bem e da verdade, de que jamais se jactam seus possuidores, porquanto a • irtude verdadeira não tem consciência de si mesma.

***

Esses os chamados pecados capitais que nos comprometem, segundo os teólogos.

Superá-los é nosso grande desafio.

A propósito, vale lembrar parecer de Emmanuel, no livro O Consolador, psicografia de Chico Xavier, na questão 217, quando lhe perguntam sobre o modo mais fácil de levar a efeito a vigilância pessoal, para evitar a queda em tentações:

A maneira mais simples é a de cada um estabelecer um tribunal de autocrítica, em consciência própria, procedendo para com outrem, na mesma conduta de retidão que deseja da ação alheia para consigo próprio.

Ou como recomenda a sabedoria popular:

Macaco, olha o teu rabo.

Repara em teus defeitos antes de cogitares dos alheios.

TRANSGRESSÕES

Convenhamos, caro leitor: tanto em questões de :entação como em qualquer relacionamento humano, :dta-nos honestidade na apreciação de nossas mazelas e imperfeições. Interessante tema para seguir em r.ossas reflexões.

Thomas Jefferson, um dos grandes líderes na rormação dos Estados Unidos, dizia que a honestidade é o primeiro capítulo no livro da sabedoria.

Começamos a crescer como Espíritos imortais quando nos tornamos amigos da verdade, da dignidade, do respeito por nós e pelos outros, marcas do comportamento íntegro, pouco observado em nosso país.

***

Eventualmente há destaque na mídia para acontecimento inusitado.

Alguém encontrou vultosa quantia em dinheiro e - prodígio dos prodígios! — devolveu-a ao legítimo dono!

E imediatamente promovido a herói, com direito a calorosos elogios e entrevistas, nos seus cinco minutos de fama!

Por que esse destaque?

Qual a razão desse deslumbramento?

Simplesmente por cumprir elementar dever: não se apropriar do alheio, algo que as pessoas costumam fazer, proclamando: achado não é roubado1.

Isso sem falar dos que elegem o roubo, o crime, a violência, a corrupção, por meio de vida, em clima de salve-se quem puder1.

Penoso reconhecer, mas uma das características do brasileiro é a vocação para burlar as leis e os regulamentos, no propósito de tirar vantagem, ainda que isso represente desvantagem para alguém, a contrariar elementares deveres de civilidade.

Selecionei para sua reflexão, leitor amigo, algumas transgressões cometidas pela população no dia a dia, em lista enorme que tive oportunidade de conhecer.

Se você não se enquadrar em nenhuma, sinta-se, também, um herói.

Saquear cargas de veículos acidentados.

Estacionar nas calçadas, mesmo debaixo de placas sinalizando proibição.

Subornar ou tentar subornar o fiscal quando cpanhado em infração de trânsito.

Falar ao celular quando dirige.

Trafegar pela direita nos acostamentos, em congestionamento.

Parar em filas duplas ou triplas em frente às escolas.

Violar a lei do silêncio.

Dirigir após consumir bebida alcoólica. Comercializar vale-transporte e vale-refeição. Apresentar atestados médicos sem estar doente, para justificar falta ao trabalho.

Registrar imóveis no cartório num valor abaixo do despendido, para pagar menos imposto.

Estacionar em vagas exclusivas para idosos ou deficientes.

Comprar produtos piratas.

Fazer uma fezinha no jogo do bicho.

Levar da empresa onde trabalha pequenos objetos, como clipes, envelopes, canetas, lápis, papel higiênico... Ao voltar de viagem, não declarar mercadorias que comprou no exterior.

***

Alguém diria que só a educação resolverá, oferecendo às pessoas a consciência de seus deveres e responsabilidades.

Sem dúvida, o conhecimento ajuda, mas em termos.

Se ficarmos apenas na educação formal, em bancos escolares, os resultados nem sempre serão satisfatórios.

Grandes larápios, homens importantes viciados em corrupção, possuem, não raro, diploma universitário, com doutorado e mestrado.

Ao que parece, tudo o que aprenderam foi a sutileza.

Não roubam a bolsa do transeunte.

Assaltam a bolsa do povo.

Vemos exemplos diários veiculados pela mídia sobre essas vergonhosas roubalheiras, em escala tão ampla que nos leva a admitir que a corrupção está institucionalizada em nossas classes políticas e governamentais.

Precisamos da educação moral, que se aprende no lar, em base de disciplinamento e exemplo.

Nos lares bem formados, em que os pais primam por uma conduta reta e digna, com respeito pelas leis, fica mais fácil aos filhos superarem suas mazelas e imperfeições, em favor de comportamento honrado.

Precisamos, sobretudo, do conhecimento espírita, que alarga os horizontes de nosso entendimento e nos mostra as consequências de nossas ações quando a morte nos pedir contas do que “aprontamos” na Terra.

As faltas e infrações que cometemos são sempre . respiradas na suposição de que ninguém está vendo.

Ledo engano!

Deus, presença imanente, justiça perfeita e infalível, está vendo, e nos cobrará cada gesto mpensado, cada prejuízo causado ao semelhante, cada comprometimento com o erro, o vício, o crime, tendo por representante esse juiz incorruptível que é a nossa consciência.

Ficaremos sabendo, então, que nem rezas nem penitências nos livrarão de sofrimentos, de rudes experiências reparadoras.

Todos responderemos por nossas ações no trânsito para o Além, ao passarmos pela alfândega da consciência.

Se reta for a nossa conduta, respeitando as nstituições e as pessoas, não seremos recebidos como heróis, já que não há nenhum heroísmo no cumprimento do dever.

Porém, teremos leveza de consciência suficiente para nos elevarmos a regiões aprazíveis da espiritualidade, reservadas àqueles que observam recomendações como a de Paulo (Filipenses, 4:8):

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amáv el, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.

*** SOLIDARIEDADE ***

PESQUISA SURPREENDENTE

Além da observação de Paulo, seria interessante ievar em consideração a recomendação do apóstolo Tiago, em sua epístola universal (1:27):

A religião pura é imaculada para com Deus e Pai, esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.

Temos aqui inescapável convite à solidariedade.

A propósito, vale lembrar que o Brasil é o país mais católico do mundo, com a maior concentração de adeptos.

Pela mesma razão é, também, o mais espírita.

Considerando, ainda, todas as ramificações que surgiram após Lutero liberar a interpretação da Bíblia, temos aqui expressiva população a conjugar todos os segmentos do chamado protestantismo.

No conjunto, proporcionalmente, nosso país é, talvez, o mais cristão da Terra, com imenso número de pessoas que aceitam Jesus por mestre.

E de esperar-se, por consequência, sejamos dos povos mais solidários, atendendo à essência do ensinamento evangélico - fazer ao próximo o bem que gostaríamos de receber.

Admite-se, por senso comum, que o Brasil tem uma população generosa e fraterna.

Sérgio Buarque de Holanda, historiador, cunhou uma frase célebre, na qual destaca a índole amorosa de nosso povo:

O brasileiro é um povo cordial.

Infelizmente, o ardor nacionalista em torno da solidariedade brasileira fica comprometido pela frieza dos números.

Foi com surpresa que constatei a posição do Brasil no World Giving Index (WGI), edição 2015/2016, estudo anual sobre a solidariedade no mundo.

Cento e quarenta nações entraram nesse estudo.

O levantamento foi feito com base em três perguntas aos entrevistados.

Se, com regularidade:

Doam dinheiro.

Ajudam desconhecidos.

Desenvolvem trabalhos voluntários.

Imaginei que nosso país seria o campeão ou, no mínimo, estaria entre os primeiros.

Ledo engano. O Brasil ocupa modestíssimo -sexagésimo oitavo lugar.

Há, portanto, sessenta e sete países mais solidários.

Otto Lara Resende, famoso escritor brasileiro, dizia que o mineiro só é solidário no câncer. Falou como mineiro, mas bem poderia referir-se à coletividade brasileira.

Nas grandes tragédias, nos grandes sofrimentos, sensibilizamo-nos e até pensamos em ajudar, como, por exemplo, enviar móveis, roupas e mantimentos para regiões assoladas por destruidores fenômenos naturais, vendavais, enchentes, incêndios...

Há alguns anos, quando ocorreu grande enchente no Estado de Santa Catarina, literalmente afogando várias cidades, houve fluxo tão grande de doações que os coordenadores desse movimento pediram fossem interrompidas as remessas, porquanto não havia como separá-las e distribuí-las.

No dia a dia, no desdobramento das atividades diárias, acontece diferente: pouco fazemos pelos necessitados de todos os matizes.

Aliás, um dos aspectos mais perturbadores do comportamento humano, não só do brasileiro, é a capacidade de convivermos com os males alheios, sem nos sensibilizarmos, sem deixarmos a zona de conforto, sem algo fazermos em favor do bem comum.

Em bairros de periferia das nossas cidades há gente que passa fome, crianças negligenciadas, anciãos abandonados, doentes sem assistência...

Convivemos com tudo isso, ignorando olimpicamente as misérias e dores de nossos irmãos.

Tanto mais preocupante se mostra esse levantamento quando lembramos que os poderes espirituais que nos governam têm nobre projeto de vivência evangélica para nosso país, como destaca Humberto de Campos no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, psicografado por Francisco Cândido Xavier, publicado pela FEB.

Esse distanciamento indica que não estamos fazendo os deveres de casa, não estamos cumprindo com nossas obrigações cristãs, preocupados com interesses pessoais, à distância das necessidades do próximo.

Dentre os espíritas, esse comportamento é muito grave, porquanto a Doutrina nos mostra de forma clara e incontestável as consequências de nossa omissão.

Nos grupos mediúnicos, as manifestações mais •requentes são de Espíritos perturbados e aflitos, que nem mesmo percebem sua condição de desencarnados, :tuando-se como sofridos indigentes espirituais.

Quem são?

Assassinos, bandidos, traficantes, sequestradores, terroristas, assaltantes, a colher as consequências de seus crimes? Negativo. Estes nem mesmo vêm até nós, agregados em abismos umbralinos.

Manifestam-se Espíritos que não foram maus. Cuidaram da família, trabalharam honestamente, mas simplesmente não fizeram nada em favor da coletividade, fechados no círculo familiar, em zona de conforto, sem nenhuma preocupação em contribuir para o bem-estar social.

Muitos espíritas desencarnados abordam esse assunto, dizendo-se frustrados e tristes por terem perdido as oportunidades de edificação no campo da solidariedade. E lamentam, dizendo:

— Meu maior arrependimento é não ter dedicado ao próximo um tempo maior, um cuidado maior, um desprendimento maior. Sofro pelas oportunidades perdidas!

Um mentor espiritual costuma dizer que produzimos pouco na seara do bem, porquanto fazemos o que queremos, não o que podemos.

Se exercitássemos em plenitude o querer e o poder, faríamos prodígios no campo da solidariedade.

Se todos o fizéssemos, o Brasil seria o campeão do Evangelho.

*** RELIGIÃO ***

QUE ESPÍRITA SOMOS?

Embora criticada por intelectuais, como Marx, que a situava como o ópio do povo, ou mero artifício rue impede os pobres de matarem os ricos, como sugere Napoleão Bonaparte, a religião é o grande recurso de educação da Humanidade, no propósito de aproximar o homem de Deus.

Se o mal impera no mundo, não é por culpa da religião, e se os homens são maus, piores seriam sem a religião, como ensinava Benjamim Franklin, um Homem que sabia das coisas.

Os desvios dos movimentos religiosos, que se rransformam, não raro, em instrumentos de opressão, como ocorreu no passado com seguimentos do Cristianismo, ou no presente, com seguimentos do islamismo, inspiram-se na interpretação pessoal de mas lideranças, que fazem uma religião à moda da casa, não à moda de Deus.

O caminho ideal é aquele apontado por Albert Zinstein, ao proclamar:

A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia.

Tivesse ele estudado o Espiritismo e saberia que essa religião já está na Terra.

O Espiritismo é a mais avançada mensagem oferecida aos homens, desde o Evangelho, conjugando com as lições de Jesus a grande alavanca que favorecerá a promoção de nosso planeta na sociedade dos mundos.

E uma honra estarmos em suas fileiras.

Oportuno, porém, em nosso próprio benefício, definir que tipo de espírita somos: o que ajuda ou aquele que atrapalha?

Já pensou nisso, caro leitor?

E bom fazê-lo, a fim de que, quando a morte o transferir para o Além, não venha a experimentar decepções.

Em O Livro dos Médiuns, capítulo terceiro, quando fala do método, Allan Kardec faz interessantes observações a respeito, estabelecendo o que poderiamos situar como teste a definir nossa posição na Doutrina.

Vejamos.

Espíritas experimentadores.

Creem pura e simplesmente nas manifestações.

Para eles, o Espiritismo é apenas uma ciência de observação, uma série de fatos mais ou menos curiosos.

São pessoas que não se envolvem com o movimento espírita, nem com as atividades do Centro Espírita.

Comparecem às reuniões mediúnicas por ruriosidade ou como exercício de diletantismo, uma distração. Não guardam assiduidade, nem rompromisso, interessadas apenas no fenômeno.

Tendem a afastar-se, como o fariam em relação a qualquer lazer, por fastio.

Espíritas imperfeitos.

Os que no Espiritismo veem mais do que fatos; : empreendem a parte filosófica; admiram a moral daí decorrente, mas não a praticam.

Insignificante ou nula éa influência que lhes exerce nos caracteres. Em nada alteram seus hábitos e não se privariam de um só gozo que fosse. O avarento continua a sê-lo, o orgulhoso se conserva cheio de si, o invejoso e o ciumento sempre hostis. Consideram a caridade cristã apenas uma bela máxima.

Pessoal duro na queda. O contato com os Espíritos e a moral espírita cristã não repercutem em seu comportamento, não implicam compromisso de renovação.

Não exercitam o espírito de sacrifício, não renunciam aos seus interesses, não combatem suas mazelas, empenhados em desfrutar, jamais em que os pode elevar na hierarquia do mundo dos Espíritos, esforçando-se por fazer o bem e coibir seus maus pendores.

As relações com eles sempre oferecem segurança, porque a convicção que nutrem os preserva de pensarem em praticar o mal.

A caridade é, em tudo, a regra de proceder a que obedecem.

Importante destacar: Kardec situa por verdadeiros espíritas os que veem no Espiritismo c desdobramento do Cristianismo.

Compreendem a moral evangélica como a base da autêntica religiosidade. Concebem o empenho de renovação como o grande recurso para uma participação produtiva nas lides doutrinárias, empenhados em servir o Espiritismo, sem servirem-sc dele.

***

Então, leitor amigo, decidiu em que categoria está enquadrado?

Se na última, parabéns. Você pertence à nobre classe de espíritas conscientes de suas responsabilidades, dispostos a corresponder às expectativas da espiritualidade.

Caso tenha guardado identidade com as categorias anteriores, seria bom considerar a incisiva ir.rmativa de Jesus (Lucas, 12:48):

...A qualquer que muito for dado, muito se lhe se.v.rá, e ao que muito se lhe confiou muito mais se lhe pedirá.

Dizem os mentores espirituais que o umbral está repleto de espíritas que negligenciaram esse detalhe.

JUSTIÇA

A QUEM NÃO ENGANAMOS

A propósito da justiça divina, que nos rege a todos, vale lembrar uma observação de Allan Kardec, em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo 27, ::em 21:

O homem sofre sempre a consequência de suas faltas; não há uma só infração à lei de Deus que fique sem a correspondente punição.

A afirmativa de que podemos enganar a justiça humana, mas jamais escaparemos à divina justiça, é uma realidade demonstrada pelo intercâmbio com o Além, quando nos deparamos com Espíritos atormentados pelo comprometimento em deslizes morais durante a existência física.

Perante os tribunais celestes, responderemos por nossas ações, inexoravelmente.

Há na Terra, com frequência talvez maior do que possamos imaginar, o crime perfeito. Nem mesmo e' cogitada ocorrência de um delito.

E é absurdo o número de crimes impunes.

Segundo estatística, no Brasil apenas oito por cento dos assassinatos são resolvidos, com os criminosos condenados.

Isso sem falar da impunidade em estelionatos. sequestros, corrupção, furtos, roubos e toda a sorte de contravenções a assolar a população, como numa epidemia de criminalidade, atingindo até políticos que representam a população e policiais que devem defendê-la.

Cedo ou tarde, porém, no Além ou em existência futura, inexoravelmente, quem de alguma forma lesou o próximo pagará por seus desatinos, em tormentosas expiações.

***

Noutro dia perguntaram-me:

- Como funciona a Lei Divina?

Há um oficial da celeste justiça ao lado de cada pessoa, como um guarda de trânsito de talão de ocorrências à mão, registrando infrações que se acumulam ao longo da vida para o julgamento infalível, pós-morte?

Algumas anotações que faria sobre o infrator: Pronunciou 4.598 palavrões. Em metade dele?

menageou a senhora mãe de alguém, atribuindo-- e aquela profissão pouco recomendável.

Amaldiçoou 13.294 vezes seus desafetos, com ? tradicional vá para o diabo que os carregue.

Alimentou 24.392 pensamentos pecaminosos.

Estacionou indevidamente 2.343 vezes seu carro em local proibido, não raro em vagas para idosos e deficientes físicos.

Em 1.223 oportunidades dirigiu seu automóvel após consumir bebidas alcoólicas.
Comprou 1.392 produtos piratas, sabendo de sua procedência ilegal.

Em 423 vezes violou a lei do silêncio com sons muito acima do razoável, perturbando ouvidos alheios.

Dirigindo o automóvel, usou o telefone celular em 94.388 oportunidades.

Mentiu 1.123.492 vezes, a pretexto de promover-se, reduzir a idade, sonegar impostos, tugir à responsabilidade, evitar alguém, justificar um atraso, não pagar uma dívida, resolver uma pendência, fofocar, autopromover-se...

Afirmou 2.732 vezes quefeliz foi Adão, que não teve sogra.

Se a justiça divina funcionasse assim, teríamos uma monstruosa burocracia, que a inviabilizaria.

Não há nenhum representante de celeste tribunal anotando nem mesmo as infrações mais graves, como roubo, adultério, assassinato, estelionato...

É tudo registrado pela nossa consciência, prodigioso computador, milhões de vezes mais eficiente do que o mais possante servidor nas redes de informática, estabelecendo o clima psíquico que respiramos.

Jesus dizia que o Reino de Deus está dentro de nós.

O inferno também, dependendo do montante de nossos pensamentos e ações, de tal forma que somos premiados ou castigados com a alegria ou a tristeza, o bem-estar ou a depressão, a saúde ou a doença, que exprimem nossos estados íntimos, condicionados ao nosso comportamento.

O meu alimento é fazer a vontade daquele que enviou.

Para construir o Reino de Deus em nós, o estado íntimo de felicidade e paz, é imperioso que os nutramos de alimentos saudáveis-, respeito às leis

divinas, fidelidade à consciência, esforço no bem.

Quem negligencia tais princípios não tem acesso à serenidade e ao equilíbrio indispensáveis à ; nquista da felicidade.

Pessoas preocupadas com o peso corporal e nropensão para a obesidade consultam diariamente a balança, avaliando o montante de gramas acrescentados ou reduzidos, no empenho por afinar a silhueta.

Deveriamos consultar diariamente o peso de nossa alma, na balança da reflexão.

Sentimo-nos em paz, saudáveis, espiritualmente enxutos?

Ótimo, estamos observando o regime de Jesus.

Sentimo-nos deprimidos, tristes, desanimados, enfermos...

Cuidado!

É preciso maneirar, ver se não estamos nos comprometendo em pequenos e grandes deslizes, que nos desajustam, acrescentando arrobas de infelicidade à nossa alma.

*** HEDONISMO ***

GANHAR A VIDA

Se não queremos fazer estágio depurador em regiões umbralinas, forçoso considerar uma das : ?servações mais incisivas sobre a existência humana, apresentada por Jesus (Marcos, 8:35-36):

Pois qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Ei angelho, esse a salvará.

Que aproveita ao homem ganhar o mundo todo, e : perder a sua alma?

Não estamos na Terra em jornada de férias. Também não viemos unicamente para pagar dívidas, como supõe muita gente.

A finalidade primeira pode ser definida numa única palavra: evolução.

Evoluímos a partir do esforço por superar imitações e fraquezas, na conquista de valores de conhecimento e virtude que nos habilitem a estágios mais altos de espiritualidade.

Ganhar a vida seria cumprir o que viemos

fazer.

O problema é que as pessoas guardam idéias equivocadas a respeito do assunto.

Observemos o paciente diante do médico, numa consulta, em ágil diálogo:

- Doutor, o senhor acha que terei vida longa?

- É casado?
— Não.
- Fumante?

- Negativo

- Álcool?

- Idem.
— Drogas?

- Nem pensar!

— Alimentação?

— Saudável.

— Festanças?

- Jamais!

- Mulheres?

— Nenhuma.

O médico concluiu.

- Bem, com esse comportamento é prov que você tenha, sim, uma vida longa. No enta tenho uma dúvida.

- Diga, doutor.

- Vale a pena?

O bom médico, como muita gente, é hedonista, ; ~iém que elegeu o prazer como finalidade da existência humana. Para ele não é compensador adotar ema disciplina rígida, mesmo se inspirada em normas iãe bem viver.

— A vida é curta! Aproveitemos enquanto rodemos - dizem os hedonistas.

Imaginam que aproveitar a vida seria desfrutar ce prazeres, ainda que capazes de comprometer a saúde e o futuro.

O fumo tranquiliza.

O alimento forte satisfaz o paladar.

O álcool dá alguma euforia.

As drogas fazem o céu artificial.

E buscam o sexo, a riqueza, o conforto, o poder, -esvaiando não raro para excessos de toda sorte, sensualidade, ambições e desvios de comportamento.

Centralizam seu olhar no hoje, no agora, sem considerar que há horizontes mais amplos, que se estendem ao mundo espiritual.

Além da crônica insatisfação, porquanto as caixões humanas são insaciáveis, ainda complicam o ruturo.

Pessoas assim constituem a maior parte dentre □ s que transitam reencarnados em nosso mundo.

Nunca será demais lembrar: descerrando a cortina que separa o plano físico do espiritual, a Doutrina Espírita nos oferece a impressionante visão do Além, nas proximidades da Terra, habitado por Espíritos atormentados e infelizes, torturados por indescritíveis padecimentos.

Ganharam a vida sob o ponto de vista humano: ficaram ricos e famosos; foram ativos nos negócios, nas conquistas amorosas, no empenho por desfrutar as benesses humanas.

Porém, como ensina Jesus, perderam a vida no sentido espiritual. Deixaram de cumprir o que vieram fazer. Regressaram ao Além do mesmo tamanho que aqui chegaram.

Não melhoraram nem deixaram o mundo melhor.

Passaram em brancas nuvens.

***

Pior: não raro desencarnaram por imprudência, bem antes do tempo concedido para cumprir o que vieram fazer na Terra, em cuidadoso planejamento, elaborado com o auxílio de mentores espirituais, era favor de sua edificação.

Conversei, em reunião mediúnica, com jovem desencarnada. Confessou, pesarosa, que partira há tiinze anos, após um baile carnavalesco.

Ela e os amigos haviam abusado do álcool.

Ao fim da festa, já raiando o dia, ao retornarem x lar num automóvel dirigido pelo namorado embriagado, sofreram um acidente e ambos faleceram.

Seu sofrimento no retorno ao mundo espiritual e indescritível. Esteve por bom tempo em regiões cue lhe pareciam infernais.

Readaptada à pátria espiritual, lamenta :er retornado prematuramente, vitimada pela imprudência.

Sabe que ao reencarnar o trauma relacionado mm a morte trágica a acompanhará, gerando desajustes variados.

Quanto ao carnaval, sempre lhe inspirará sentimentos de angústia e depressão, apresentando-se ;omo um mistério para eventuais terapeutas.

***

Diariamente aquela sábia senhora agradecia a Deus a dádiva da existência e pedia ao Senhor a ajudasse a florescer onde estava plantada.

Sua oração é perfeita.

Quando agradecemos a alguém por algo, habilitamo-nos ao bem-estar de quem reconhece que foi beneficiado.

Imagine, leitor amigo, a extensão desse sentimento quando temos por benfeitor o Pai de infinito amor e misericórdia revelado por Jesus.

Experimente agradecer a Deus, de coração, a dádiva da existência e saberá do que estou falando.

A semente jogada ao solo tem a programação que fará dela uma árvore a florescer e frutificar.

Da mesma forma, no propósito de nossa evolução, ao reencarnarmos há compromissos assumidos, roteiros traçados, planos cuidadosamente elaborados.

Importante, portanto, pedir a Deus nos ajude a guardar fidelidade ao nosso projeto reencarnatório. a fim de que, literalmente, floresçamos onde fomos plantados, valorizando as oportunidades de edificação da jornada humana.

*** CRUZ ***

CINCO TRAGÉDIAS E UMA BENÇÃO

Não é fácil florescer onde estamos plantados.

Um comportamento dessa natureza contraria nossas tendências, Espíritos imaturos que somos, à distância das realizações do Céu.

Por isso Jesus enfatiza:

Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, :ome sua cruz e siga-me (Marcos, 8:34).

A cruz, como sabemos, caro leitor, representa as erribulações que enfrentamos neste mundo de provas e expiações.

No lar:

O marido autoritário, tirano doméstico, que só deixa a família em paz quando viaja.

A esposa neurótica, irritadiça, que parece em rermanente tensão pré-menstrual.

O filho problema, aborrescente típico, rebelde sem causa, que reage a qualquer tentativa de disciplinamento por parte dos pais, proclamando; £a não pedi para nascer. Vocês me aguentem.

Os pais idosos, que começam a sair de órbita, inspirando preocupação, dando muito trabalho.

Outros fatores configuram uma cruz:

A morte de um ente querido.

A limitação física congênita ou adquirida.

A ausência ou atrofia de um membro.

A perda de um sentido como a visão ou a audição.

A doença crônica.

A discriminação em virtude da cor da pele, da posição social, da limitação intelectual.

O prejuízo financeiro.

A demissão de um emprego.

Não são raros os que rejeitam a cruz.

Há os que, em processo de fuga, resvalam para o vício: fumo, álcool, drogas, meros paliativos, sucedidos de males ampliados.

Outros fazem pior. Fogem pela porta falsa do suicídio, que apenas os precipita em sofrimentos maiores.

***

Grandes vultos da Humanidade, paladinos do progresso, enfrentaram problemas e dores, limitações e dificuldades.

Não obstante, tomaram a cruz e seguiram adiante, dando-nos valiosos exemplos de dignidade, coragem e perseverança.

Abraham Lincoln teve quatro filhos. Só um eu até a idade adulta. Faleceram respectivamente aos quatro, doze e dezoito anos.

Apaixonado por crianças, Lincoln penou muito com a morte dos filhos e com graves problemas emocionais da esposa.

Isso, porém, não o impediu de realizar seu Trabalho. Carregando a cruz, libertou os escravos e enfrentou sangrenta guerra civil para manter a unidade do país, consagrando-se como o maior presidente norte-americano

Ludwig van Beethoven sofria de surdez desde juventude, problema que foi se agravando com o passar dos anos. Nem por isso deixou de produzir composições de rara beleza.

Sua obra máxima, a Nona Sinfonia, foi composta quando estava totalmente surdo. Em seu clímax há uma ode à alegria, vibrante e sublime, produzida por alguém que vivia num triste mundo de silêncio total.

Lembro outra exortação do Mestre (Mateus 11:28-30):

Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.

Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei comigo a mansuetude e a humildade, e encontrareis descanso para vossas almas.

Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

A mansuetude, a capacidade de controlar nossas emoções, e a humildade, o reconhecimento de nossa pequenez diante de Deus, são recursos maravilhosos para que conservemos o equilíbrio e a capacidade de sermos felizes, carregando a cruz sem maiores problemas.

Quando cultivamos esses valores, a vida fica tranquila, não obstante seus dissabores e dificuldades.

A propósito vale lembrar a figura ilustre de Auta de Souza, grande poetisa do Rio Grande do Norte, que teve uma existência marcada por cinco tragédias e uma bênção, bom título para sua biografia.

Primeira tragédia, aos três anos: faleceu sua mãe.

Segunda tragédia, aos quatro anos: faleceu seu pai.

Terceira tragédia, aos onze anos: um irmão muito querido faleceu em grave acidente.

Quarta tragédia, aos quatorze anos: diagnosticada com tuberculose, foi forçada a afastar-se da escola e prosseguir sua formação intelectual como autodidata.

Quinta tragédia, aos vinte anos: faleceu o homem de sua vida, um promotor público que namorou por apenas um ano.

A bênção: sua formação religiosa, profundamente ligada ao Evangelho, a carregar o doce fardo do Cristo, que repercutia em sua poesia, desde os dezesseis anos, marcada por profunda sensibilidade.

Faleceu em 1901, aos vinte e quatro anos, após uma existência curta, porém redentora, de quem abraçou o fardo do Cristo.

Sobre seu túmulo, o epitáfio, tirado de uma de uma suas poesias:

Longe da mágoa, enfim no céu repousa

Quem sofreu muito e quem amou demais.

Pelos seus méritos, Auta de Souza participou da obra monumental de Chico Xavier, que psicografou múmeras poesias marcadas por sua sensibilidade.

Dentre elas, uma em que destaca a bênção das lágrimas, mas, sobretudo, quão abençoados somos quando as enxugamos em nossos irmãos:

Benditas sejam, torturando embora,

As lágrimas que a vida transfigura

Na fonte generosa, viva e pura

De perfeição e luz para quem chora.

Lírios e estrelas de celeste alvura,

Entre as sombras da mágoa que aprimora Rolam do coração, lembrando a aurora No imenso caos da imensa noite escura!...

Benditas sejam! Lágrimas divinas Como flores brilhando sobre as ruínas, Que a provação estende, véspera e franca..

Mas, acima da bênção que as alveja,

Ante a glória do amor, bendita seja A mão da caridade que as estanca!

*** LASTRO ***

NÃO ME ATENDAS, SENHOR !

Há a cruz e há o lastro, peso que lhe acrescentamos indebitamente.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo 2”, item 12, diz Allan Kardec:

Se em duas partes se dividirem os males da vida, u ma constituída dos que o homem não pode evitar e a jutra das tribulaçóes de que ele se constituiu a causa zrimária, pela incúria ou por seus excessos, ver-se-á que : segunda, em quantidade, excede de muito a primeira.

Faz-se, portanto, evidente que o homem é o autor da maior parte das suas aflições, às quais se pouparia, se sempre obrasse com sabedoria e prudência.

Inestimável informação!

Há males inevitáveis que poderiamos denominar cármicos. Representam o resgate de débitos contraídos em existências pretéritas.

E a cruz de que falamos no capítulo anterior.

A senhora percebe o caroço no seio. O exame anatomopatológico revela tratar-se de Carcinoma Ductal Invasivo, insidioso tumor maligno.

A cirurgia é realizada com ablação da mama e de gânglios linfáticos contaminados.

Sucedem-se a radioterapia para eliminar células cancerígenas remanescentes e a quimioterapia para evitar que surjam novas.

Não obstante, o mal é insidioso, contamina outros órgãos, alastra-se em metástases incontroláveis, impondo sofrimentos e dores, até o ato final, meses depois — a morte.

Um mentor espiritual informou, em manifestação mediúnica, que a senhora, em existência anterior, submeteu-se a vários abortos, recusando-se à maternidade.

Com esses assassinatos intrauterinos lesionou centros genésicos no períspirito, o corpo espiritual, dando origem ao câncer de hoje. Funciona como válvula de escoamento dos desajustes a que se submeteu com o aborto delituoso.

Todo mal que praticamos, contrariando as leis divinas, é uma agressão a nós mesmos, resultando em sofrimentos reparadores.

Não há inocentes em nosso mundo. A Terra é um planeta de provas e expiações, habitada por Espíritos comprometidos com o egoísmo. À exceção dos grandes missionários, ninguém reencarna sem débitos a saldar.

Natural, portanto, que tenhamos males, limitações e problemas ao longo da existência, cumprindo os ditames educativos da Justiça Divina.

E' a nossa cruz.

***

Não obstante, segundo Kardec a maior parte dos transtornos a nos afligirem não são decorrentes do que fizemos em vidas anteriores, mas do que estamos fazendo no presente, a começar pelos vícios.

Prazerosos em princípio, invariavelmente são sucedidos de males que complicam e abreviam a existência, com repercussões negativas para o futuro.

Os hospitais acolhem multidões de pessoas com desajustes variados, decorrentes não de carma nascido no pretérito, mas do mau uso do corpo, do comportamento desregrado no presente.

O fumante inveterado, que consome muitos cigarros diariamente, é um candidato certo ao câncer nos pulmões.

Cerca de seiscentos mil presidiários cumprem pena por crimes no Brasil. Raríssimos poderiam dizer que estão sofrendo uma injustiça. Simplesmente aprontaram, como se costuma dizer.

Casamentos, em expressivo número, terminam até o sétimo ano. Carma dos cônjuges? Negativo! A união matrimonial é projeto de harmonização para toda uma família, envolvendo pais e filhos. Dissolve-se quando acabou ou não existiu entre os cônjuges o respeito, a fidelidade, a compreensão, que o compromisso conjugal encerra.

***

Muitas dores, doenças e sofrimentos seriam evitados se as pessoas cultivassem, como recomenda Kardec, a sabedoria e a prudência.

Sabedoria, sinônimo de saber. Ampliar conhecimentos, estudar sempre. Quem sabe mais, enxerga mais longe, tem melhores noções para preservar o equilíbrio e sustentar a vida.

Não obstante, apenas isso não resolve. Há pessoas de grande saber que adotam postura indesejável.

Interpelado a respeito da contradição que e o cardiologista comprometido com o tabagismo, o médico respondeu:

— Sei que faz mal, mas eu gosto!

O marido tem consciência de que está cometendo um crime, traindo a mulher, que é honesta, que o ama, que cuida de seus filhos... No entanto. afirma:

— Sei que é vergonhoso, mas eu gosto.

O religioso envolvido com a pedofilia, a exploração sexual de menores, tem noção do que está fazendo. No entanto, argumenta perante a própria consciência:

— Sei que é algo hediondo, mas eu gosto.

O político que recebe propinas, que rouba o erário, que lesa a população, certamente alegaria, num lapso de sinceridade:

— Sei que é desonesto, mas eu gosto.

Não basta saber o que é errado; imperioso optar pelo certo, se não desejamos complicar o destino.

Por isso Kardec proclama que além da sabedoria é preciso cultivar a prudência quanto à conveniência de uma iniciativa, quando imponha prejuízos a alguém e a nós mesmos.

Pensar antes de fazer, evitando o fazer sem pensar.

E ao verificar a inconveniência de determinada iniciativa, então, como recomenda Kardec, orar com todas as forças de nossa alma!

Rogar a Deus, a Jesus, aos bons Espíritos, que coloquem juízo em nossa cabeça, a fim de não nos comprometermos em desvios no presente, que fatalmente nos imporão amarguras e arrependimentos no futuro.

Seria importante, nesse propósito, estudar o Evangelho, de forma a podermos perguntar, antes de qualquer iniciativa:

- Jesus aprovaria?

A propósito, oportuno evocar uma vez mais a sensibilidade feminina, no poema Agradeço, Senhor de Maria Dolores, psicografia de Francisco Cândido Xavier:

Agradeço, Senhor,

Quando me dizes, “não”

Às súplicas indébitas que faço,
Através da oração.
Muitas daquelas dádivas que peço,
Estima, concessão, posse, prazer,

Em meu caso talvez fossem espinhos,
Na senda que me deste a percorrer.
De outras vezes, imploro-te favores,
Entre lamentação, choro, barulho,
Mero capricho, simples algazarra,
Que me escapam do orgulho...
Existem privilégios que desejo,
Reclamando-te o “sim”,

Que, se me florescessem na existência,
Seriam desvantagens contra mim.
Em muitas circunstâncias, rogo afeto,

Sem achar companhia em qualquer parte,
Quando me dás a solidão por guia
Que me inspire a buscar-te.
Ensina-me que estou no lugar certo,

Que a ninguém me ligaste de improviso,
E que desfruto agora o melhor tempo
De melhorar-me em tudo o que preciso.
Não me escutes as exigências loucas,
Faze-me perceber
Que alcançarei além do necessário,
Se cumprir meu dever.
Agradeço, meu Deus,

Quando me dizes “não”com teu amor,
E sempre que te rogue o que não deva,
Não me atendas, Senhor!...

*** FISIOLOGIA ***

MODELAGEM EVOLUTIVA

Auta de Souza e Maria Dolores são dotadas de notável sensibilidade.Tocam nosso coração!

Outras mulheres, cujos poemas foram psicografados por Chico Xavier, revelam essa mesma sensibilidade. Meimei, Carmem Cinira, Francisca Clotilde, Irene S. Pinto...

A propósito, caro leitor, num grupo de estudos, falava-se das diferenças entre os sexos.

Em dado momento, alguém comentou:

- Se bem observamos, há uma participação maior das mulheres nas atividades religiosas. Aqui, por exemplo, somos quinze pessoas e onze são representantes do chamado sexo frágil. Qual será a razão?

Antes que alguém cogitasse de uma resposta, concluiu, sorrindo:

- As mulheres são mais necessitadas e devedoras!

Não obstante irreverente, esse gracejo de nosso companheiro merece reflexão.

A predominância feminina revela que a mulher tem maior sensibilidade aos apelos da religião.

Aqui cabe outra questão, caro leitor.

Considerando que o Espírito transita por ambos os sexos, no desdobramento de experiências reencarnatórias, em jornada para Deus, podemos dizer que optam pelo feminino os mais evoluídos?

Em contraponto, não será a reencarnação num corpo feminino que torna o Espírito mais sensível?

Antes que você responda, ponderemos o seguinte:

A Doutrina Espírita nos ensina que viemos todos de estágios primários de evolução.

Biologicamente, somos o resultado de lento aprimoramento das formas físicas, que começou com organismos extremamente simples, até chegar ao símio antropoide que desceu da árvore e ensaiou viver como bípede, ensejando o aparecimento do homo sapiens.

À luz do Espiritismo, fomos, em pretérito remoto, um princípio espiritual a animar os seres inferiores da criação, até atingirmos a complexidade necessária para exercitar o bestunto, transformando-nos em Espíritos, seres pensantes.

Ao longo de milhões de anos, reencarnamos no seio de várias espécies e raças, guiados pelo instinto e condicionados pela estrutura física de que nos revestíamos.

Por exemplo: A ferocidade do leão ou a mansuetude do cordeiro não exprimem uma condição evolutiva do princípio espiritual. Trata-se de comportamento inerente à espécie, sempre no propósito de oferecer-lhe uma diversidade de experiências necessárias ao seu desenvolvimento.

***

Trazendo esse processo para os domínios do Espírito, podemos dizer que as condições feminina ou masculina, na experiência terrestre, também são modelos comportamentais.

Ambiente, cultura, estrutura física, hormônios e outros fatores estabelecem diferenças entre o masculino e o feminino:

O homem, mais intelectual; a mulher, mais sentimental.

O homem, mais cérebro; a mulher, mais coração.

O homem, mais racional; a mulher, mais emocional.

Na internet, algumas diferenças bem-humoradas:

Um homem pagará dois reais por algo que vale um, porque lhe é útil.

Uma mulher pagará um realpor uma inutilidade, apenas porque vale dois.

Um homem tem seis itens em seu banheiro: escova de dentes, pente, espuma de barbear, barbeador, sabonete e toalha de banho.

A mulher tem dezenas, a maior parte em desuso.

Para ser feliz com um homem, a mulher deve entendê-lo bastante e amá-lo um pouco.

Para ser feliz com uma mulher, o homem deve amá-la bastante e jamais tentar entendê-la.

Uma mulher tem a última palavra em qualquer desentendimento.

Qualquer coisa que o homem disser depois disso iniciará outra discussão.

Uma mulher preocupa-se com o futuro, ate conseguir um marido.

Um homem nunca se preocupa com o futuro, ate conseguir uma esposa.

Uma mulher casa-se com um homem esperando que ele mude, mas ele não muda.

Um homem casa-se com uma mulher esperando que ela não mude, mas ela muda.

Uma mulher dividirá seus pensamentos e sentimentos mais profundos com um completo estranho que lhe dê atenção.

Um homem só o fará em tribunal e em delação premiada.

Falando sério:

O próprio instinto materno é algo inerente não ao Espírito, mas à condição feminina, como acontece com os irracionais. Com raras exceções, sempre é a fêmea quem cuida da prole.

Diz Delfina Benigna da Cunha, em psicografia de Chico Xavier:

Maternidade na vida,

Que o saiba quem não souber,

É uma luz que Deus acende

No coração da mulher.

Breves palavras, num verso singelo, a exprimir uma realidade gloriosa:

Carregar um rebento querido nas próprias entranhas, dá-lo à luz, cuidar dele, preocupar-se com ele, desperta na mulher o amor materno, o mais belo, o mais puro de que temos notícia na Terra.

Diz Coelho Neto no poema famoso:

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,

Espelho em que se mira afortunada,

Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Todos os filhos de Deus, mesmo os machistas incorrigíveis, exercitarão um dia, na condição feminina, a experiência da maternidade, o molde do amor sublimado.

Como o Espírito é um ser pensante, capaz de decidir, na democracia da razão, e não um princípio espiritual submetido à ditadura do instinto, haverá homens e mulheres que vençam o que há de ruim ou subaproveitem o que há de bom na masculinidade e na feminilidade.

Espíritos mais evoluídos superam as limitações e valorizam as virtudes de cada sexo, aproveitando melhor as experiências evolutivas.

***

Ressalte-se que o amor materno, algo de Deus no coração feminino, favorece na mulher o desenvolvimento do lado espiritual. Por isso ela é mais propensa à atividade religiosa e mais sensível aos valores espirituais, justificando plenamente a homenagem de Victor Hugo na maravilhosa comparação entre o homem e a mulher:

O homem éa mais elevada das criaturas. A mulher, o mais sublime dos ideais. Deus fez para o homem um trono; para a mulher, um altar. O trono exalta; o altar santifica.

O homem é o cérebro; a mulher, o coração. O cérebro produz a luz; o coração, o amor. A luz fecunda. O amor ressuscita.

O homem é um gênio; a mulher, um anjo. O gênio é imensurável; o anjo, indefinível. A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher, a virtude extrema. A glória traduz grandeza; a virtude traduz divindade.

O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência. A supremacia representa a força; a preferência, o direito. O homem é forte pela razão; a mulher é invencível pela lágrima. A razão convence, a lágrima comove.

O homem ê capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O heroísmo enobrece; o martírio sublima. O homem é o código; a mulher, o evangelho. O código corrige; o evangelho aperfeiçoa. O homem é um templo; a mulher, um sacrário. Ante o templo, nós nos descobrimos; ante o sacrário, ajoelhamo-nos.

O homem pensa; a mulher sonha. Pensar é ter cérebro; sonhar é ter na fronte uma auréola. O homem ê um oceano; a mulher, um lago. O oceano tem a pérola que o embeleza; o lago tem a poesia que o deslumbra. O homem é uma águia que voa; a mulher, um rouxinol que canta. Voar é dominar os espaços; cantar é conquistar a alma.

O homem tem um fanal: a consciência. A mulher te uma estrela: a esperança. O fanal guia, a esperança salva.

Enfim, o homem está colocado onde termina a Terra, a mulher, onde começa o Céu.

*** IGNORÂNCIA ***

DESPERTAR NO ALÉM

A propósito da vida além-túmulo, a pátria espiritual, pergunta-me gentil leitora por que determinadas seitas sustentam ojeriza pelo Espiritismo e insistem que é o demônio quem se manifesta nos Centros Espíritas.

A razão é simples: de modo geral, com base em alguns textos bíblicos, esses nossos irmãos acreditam que após a morte dormirão até remoto juízo final, quando, supostamente, Jesus voltará e presidirá divino julgamento para definir o destino das almas.

Aos bons, as benesses divinas, em contemplação eterna.

Aos maus, as caldeiras do inferno, sem remissão.

Assim, concluem: se os mortos dormem até o juízo final, obviamente não se manifestam no Centro Espírita.

Não serão, também, os anjos, já que estes jamais mistificariam, a se apresentarem como homens desencarnados.

Por eliminação, se defuntos não são, porque estes dormem; nem entidades angelicais, porque estas não mentem. Sobram os demônios, a enganar os incautos.

Certa feita pediram-me que conversasse com idosa senhora, portadora de insidiosa moléstia.

Embora paciente terminal, mostrava-se lúcida, com perfeita consciência de que sua hora estava chegando.

Evangélica, confiava na proteção divina e estaria tranquila, não fossem algumas visões que a perturbavam.

Observava com frequência, nos momentos de oração, seus pais, que se aproximavam e lhe dirigiam palavras animadoras, dizendo-lhe que estavam ali para ampará-la.

Tão confortadoras presenças eram para ela motivo de aflição. Como poderíam ser seus pais, se estes estavam dormindo?

Por outro lado, custava-lhe crer que tão carinhosas figuras fossem máscaras usadas pelo demônio para iludi-la, como explicava o pastor chamado a dar-lhe assistência.

O médico, por sua vez, materialista de carteirinha, explicava que eram meras alucinações

algo comum, segundo ele, com pacientes debilitados.

Tudo o que fiz foi explicar-lhe que ao sofrermos acentuada fraqueza orgânica afrouxam-se os laços que nos prendem ao corpo físico, abrindo campo à visão do mundo espiritual,

Identificamos, então, a presença de entes queridos que nos antecederam na grande jornada. Eles vêm até nós, oferecendo-nos conforto e bom ânimo.

Omiti, por não saber como ela a recebería, a informação de que costuma ocorrer com pacientes terminais.
***
Condicionamentos decorrentes de fantasias sobre a vida espiritual geram sérios problemas para o Espírito que retorna à pátria espiritual.

Nas reuniões mediúnicas das quais participo, no Centro Espírita Amor e Caridade, em Bauru, não raro temos a manifestação de Espíritos impregnados da concepção de que as almas dos mortos dormem até o juízo final. Mostram-se indignados, irritados por terem sido acordados antes da hora.

E reclamam:

- Como conseguiu o diabo acordar-me?

Santa ingenuidade!

Lembro-me de uma declaração interessante do papa Paulo VI (1897-1978). Afirmou que a maior vitória de Satanás foi convencer os fiéis de que ele não existe, o que facilita sua influência maléfica.

Poderiamos dizer, também, que outra grande vitória do tinhoso foi convencer pessoas ingênuas de que é ele quem se manifesta no Centro Espírita, a iludir os incautos.

As reuniões mediúnicas favorecem vasta multidão de desencarnados necessitados de ajuda. Se tudo isso é arte do demônio, seja bem-vindo.

***

Para finalizar, leitor amigo, é bom lembrar, com o Espiritismo, que diabo, no sentido de anjo caído, dominado pelo orgulho, a disputar as almas com o Criador, não existe.

E mera figura mitológica.

Diabos somos todos nós, Espíritos encarnados ou desencarnados, quando, orientados pelo egoísmo, seguimos por caminhos tortuosos, prejudicando o próximo e conturbando a obra da Criação.

Não obstante, estamos sujeitos a leis inexoráveis de evolução. Chegaremos todos à perfeição. Essa é a verdade de Deus, que não falha jamais em seus objetivos.

*** FUGA ***

PRINCIPIO ELEMENTAR

Ainda a propósito do Além, uma informação, caro leitor que me concede a honra de sua atenção:

Meu livro Suicídio, tudo o que você precisa saber, publicado pela Editora CEAC, de Bauru, foi vertido para vários idiomas - inglês, francês, espanhol, italiano, finlandês, polonês e russo, atendendo solicitações de nossos confrades do continente europeu.

A razão é óbvia: o suicídio inspira grande preocupação na atualidade, porquanto é crescente o número de pessoas que optam pela morte para fugir de seus problemas, e não apenas na Europa.

Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde, perto de um milhão de pessoas suicidam-se anualmente, no mundo.

E mais gente do que todos os mortos em guerras, vítimas de homicídios e desastres naturais.

Se considerarmos os suicídios que aparecem como acidentes ou morte natural, o número será bem maior. Há quem tenta poupar os familiares desse constrangimento. E há os que tratam de garantir o pagamento do seguro de vida, que é anulado em situações dessa natureza.

Estudos indicam que o ritmo dos suicídios está se acelerando, guardando proporções de uma epidemia mundial.

As causas apontadas são variadas: crise econômica, pressões da vida urbana, doença grave, solidão, depressão...

Destaco o materialismo. Se a pessoa não concebe a existência e sobrevivência da alma, a perenidade da vida no mundo espiritual, onde nos pedirão contas do que fizemos dos patrimônios da existência; se acredita que tudo acaba na sepultura, a morte passa a ser a solução ideal para os problemas e dores da Terra, quando lhe pareçam insuportáveis.

O leitor dirá que muitos suicidas tinham uma religião, uma crença, o que não impediu o gesto extremo.

Aqui há dois fatores a serem considerados.

Primeiro, dizer-se espiritualista, porém sustentar comportamento materialista. E o que acontece com o chamado religioso não praticante, isto é, alguém que tem uma religião por tradição familiar, não por convicção e vivência.

Por outro lado, a sobrevivência da alma e o resultado das ações humanas no Além são idéias distantes, que não chegam a repercutir no comportamento das pessoas. E tudo muito vago e especulativo.

Para religiosos assim, sem religiosidade, fica fácil conceber que o suicídio é a melhor opção ante as atribulações humanas.

***

A Doutrina Espírita é o diferencial, o grande recurso de profilaxia contra o suicídio, porquanto seus princípios não são especulativos.

Quando nos fala dos sofrimentos dos suicidas, traz o testemunho deles próprios, a nos informarem, em relatos dramáticos, os tormentos a que se submeteram com a tresloucada iniciativa.

Memórias de um Suicida, psicografia de Yvonne Pereira, é exemplo marcante. Nele, Camillo Castelo Branco, grande escritor português, relata os tormentos a que se submeteu a partir do momento em que deu um tiro nos miolos para furtar-se a uma situação difícil.

Livro pesado, denso, com relatos impressionantes sobre a situação dos suicidas. Camilo informa, em dado momento, que o pior sofrimento da Terra não se compara aos seus tormentos.

Com certeza, caro leitor, a pessoa que enfrentar o desafio de ler o livro (o texto é longo, pesado e assustador) jamais cogitará de matar-se.

Para facilitar o acesso dos interessados ao tema, escrevi Suicídio, tudo o que você precisa saber, como uma cartilha, na forma de perguntas e respostas, em linguagem clara e acessível, mostrando as causas e consequências do suicídio, com capítulos específicos sobre temas paralelos - família, profilaxia, tendência, indução, consequências, tudo com base em informações colhidas em contato com suicidas no processo mediúnico.

Há quem diga que o suicídio é, simultaneamente, um ato de coragem e de covardia.

Coragem de enfrentar o que desconhece.

Covardia ao não enfrentar o que conhece.

Busco demonstrar no livro que o suicídio é muito mais um ato de ignorância das consequências desse gesto tresloucado e de um princípio elementar enunciado pela Doutrina Espírita:

No instituto das provações humanas, Deus não impõe a ninguém atribulações superiores às suas forças.

*** MORTE ***

PARTIR COM ELEGÂNCIA

Não é de bom gosto, nem prudente, deixar este mundo pela porta falsa do suicídio, que apenas nos precipita em tormentos inenarráveis.

Há um aspecto interessante sobre o assunto, que merece nossa consideração.

Em 17 de abril de 1955, Albert Einstein (1879-1955), o grande físico alemão, foi internado em decorrência da ruptura de um aneurisma da aorta abdominal.

Anteriormente, em 1948, já havia sido operado por ameaça de problema semelhante.

Fazia-se necessária nova cirurgia, com urgência, complicada e imprevisível, em face de sua idade, mas Einstein recusou-se, dizendo:

É de mau gosto ficar prolongando a vida artificialmente. Eu fiz a minha parte, é hora de partir e vou fazê-lo com elegância.

Na manhã do dia seguinte desencarnou, aos setenta e seis anos, após uma existência dedicada à ciência, trabalhando sempre, até o último suspiro.

Interessante e sugestiva a expressão de Einstein: morrer com elegância.

O leitor perguntará se é possível ser elegante diante da grande ceifeira, já que as pessoas costumam agarrar-se com unhas e dentes à vida física, em base de daqui não saio, daqui ninguém me tira. Terminam por serem literalmente despejadas pela implacável senhora, que não dá a mínima para seus apelos, expulsando-as do corpo, situado como uma casa em ruínas.

Lamentável essa inútil resistência. Tudo o que o paciente conseguirá será prolongar a própria agonia.

Melhor soltar-se, partir com elegância.

***

Na atualidade, os recursos da Medicina, extremamente sofisticados, podem prolongar a vida de um paciente terminal por dias, semanas e até meses, na UTI - Unidade de Terapia Intensiva.

Dificuldade para respirar?

Entubação.

Acúmulo de secreção, ameaçando sufocar o paciente?

Traqueostomia.

Não consegue comer?

Alimentação parenteral.

Rins paralisando.

Hemodiálise.

Coração fibrilando?

Eletrochoque.

Isso tudo torturando o paciente solitário na UTI, ambiente gelado, fios por todos os lados, tubos garganta adentro, dores no corpo pela imobilidade, escaras apontando, sensação de horror em momentos de despertar...

Por que tal empenho?

Por que essa batalha inglória?

Resposta simples: E para atender ao decantado respeito humano, que impõe combate sem tréguas à indesejável senhora, mesmo sabendo que se está investindo numa causa perdida, com ônus emocionais para todos, principalmente para o paciente.

Se é terminal, por que submetê-lo a torturas inúteis?

A UTI fica bem para pacientes que podem estar correndo risco de morte em virtude de acidentes, enfartos, infecção, ou que precisem desse tipo de assistência após uma cirurgia. Não são terminais.

***

Diante de um paciente idoso, câncer disseminado, prestes a sofrer falência múltipla dos órgãos, o médico conversou com a família:

— Se o internarmos na UTI poderemos mantê-lo vivo por algum tempo, mas em coma induzido, com toda a parafernália ali utilizada. O que faremos?

A família, acertadamente, optou por mantê-lo em casa.

Dois dias depois faleceu, amparado pelo carinho e a solicitude de seus entes queridos.

Veja bem, leitor amigo: não se trata de abreviar a vida de um paciente, em crime de eutanásia, mas de não tentar reter alguém de partida.

Tal procedimento é hoje admitido pela Medicina, caracterizado como ortotanásia, a morte sem dor.

Se o paciente é terminal, que lhe proporcionemos o conforto necessário, minorando seus padecimentos com medicação apropriada, mas suspendendo a utilização de recursos que apenas prolongarão seus padecimentos.

É algo para pensar, leitor amigo.

Se concorda comigo, será interessante conversar com a família sobre o assunto, a fim de que, quando chegar sua vez de bater as botas, seus entes queridos superem o enganoso respeito humano, com medidas desesperadas que apenas retardam a liberação da alma.

Assim você poderá retornar ao mundo espiritual de forma elegante, como Einstein.

*** CONTROVÉRSIA ***

O ATACADO E O VAREJO

Ainda em relação à morte, consideremos a necessidade de identificar, nos princípios espíritas, a diferença entre o atacado e o varejo.

No atacado, podemos afirmar que a Doutrina Espírita é perfeita, baseada em princípios que exprimem leis morais de caráter universal, dentre as quais destacaríamos:

Lei da Reencarnação.

As experiências na carne serão repetidas tantas vezes quantas forem necessárias, até que criemos juízo e cumpramos os sábios desígnios divinos.

Lei de Causa e Efeito.

Receberemos sempre de volta o que fazemos, a fim de aprendermos o que devemos ou não fazer. Pedras jogadas na casa do vizinho fazem estragos em nosso telhado.

Lei de Sintonia Psíquica.

Somos alimentados e conduzidos por influências espirituais que podem nos elevar às alturas ou nos precipitar no abismo, sempre de conformidade com o rumo que imprimamos à vida.

O adágio Diz-me com quem andas e te direi quem és, tem contrapartida: Diz-me como pensas e te direi quem te inspira.

***

No varejo, digamos no detalhamento, usando expressão bem-humorada, há controvérsias. Creio que por isso mesmo Kardec recomendou passemos pelo crivo da razão tudo o que venha da espiritualidade, a fim de mantermos fidelidade aos princípios e não entrarmos pelo terreno da fantasia.

E sempre oportuna a recomendação de Erasto, em O Livro dos Médiuns (item 230):

Preferível rejeitar dez verdades a aceitar uma só mentira.

É imperioso, portanto, caro leitor, passar tudo pelo crivo da razão, até mesmo, perdoem-me os fundamentalistas, os textos da Codificação.

Não podemos dizer que semelhante ideia seja um sacrilégio, porquanto estaríamos ferindc a liberdade de consciência que deve caracteriza: nossos raciocínios, buscando fidelidade à própria consciência.

Estou fazendo este arrazoado introdutório para abordar duas questões de O Livro dos Espíritos que me causam perplexidade.

853: Algumas pessoas só escapam de um perigo mortal para cair em outro. Parece que não podiam escapar da morte. Não há nisso fatalidade?

Resposta: Fatal, no verdadeiro sentido do termo, só o instante da morte. Chegado esse momento, de uma forma ou de outra, não podeis livrar-vos dele.

853-a: Assim, qualquer que seja o perigo que nos ameace, não morreremos se a hora da morte ainda não chegou?

Resposta: Não; não perecerás e tens disso milhares de exemplos. Quando, porém, chegar a hora da tua partida, nada poderá impedir que partas. Deus sabe com antecedência qual o gênero de morte que te levará da Terra e muitas vezes teu Espírito também o sabe, já que isso lhe foi revelado ao fazer a escolha desta ou daquela existência.

Não obstante o aspecto enfático dessas afirmativas, poderiamos evocar milhares de exemplos a sugerir que pessoas morrem sem que tenha chegado o seu momento.

Na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, morreram perto de sessenta milhões de pessoas.

Chegara sua hora? Não creio que Hitler tenha sido inspirado a cometer seus desatinos para que tanta gente desencarnasse de forma violenta, na maior de todas as tragédias humanas.

E as bombas atômicas que os americanos jogaram em Hiroshima e Nagasaki, matando duzentos mil japoneses? Imagino a logística para retirar daqueles locais pessoas que não deviam morrer porque não chegara sua hora, e para lá levar os que seriam incinerados.

E os que provocam essas mortes? Os americanos foram inspirados a jogar as bombas naquelas cidades, no exato momento em que deveriam ocorrer aqueles desencarnes?

Onde entra, nesses eventos, a recomendação de Jesus (Mateus, 10:16):

...Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas.

Se tudo acontece atendendo a desígnios divinos, com hora marcada, por que esse cuidado?

Antes que o prezado leitor me situe por um desatinado a contestar princípios inquestionáveis, atente à questão abaixo, ainda em O Livro dos Espíritos:

746: O assassínio é um crime aos olhos de Deus ':

Resposta: Sim, um grande crime, pois aquele que tira a vida ao seu semelhante corta uma existência de expiação ou de missão. Aí é que está o mal.

Opa! O mentor espiritual está dizendo que podemos, sim, morrer antes da hora, quando assassinados, o que invalida a afirmativa contida na questão 853-a.

***

Acredito, sim, que exista a hora certa de morrer, não com determinação de ano, mês, dia, hora, minuto, segundo, mas como o imperioso momento em que o corpo deixa de funcionar, o que acontecerá conosco, inelutavelmente.

Mas esse momento não está registrado no cartório do destino, porquanto depende de uma série imensa de fatores, a começar pelo que estejamos fazendo de nosso corpo, de nossa vida.

O suicida consciente, que elege a morte para furtar-se aos males da vida, e o suicida inconsciente, que destrói o corpo com vícios e sentimentos negativos, estão partindo de forma extemporânea, antes da hora.

E há as chamadas moratórias, de que nos fala André Luiz, em que o indivíduo recebe uma ajuda do mundo espiritual para prolongar a existência física.

Para terminar, caro leitor, trago a leitura textual do quarto mandamento, na revelação de Moisés, conforme transcrição de Kardec, em O Evangelho segundo o Espiritismo:

Honrai a vosso pai e a vossa mãe, a fim de viverdes longo tempo na terra que o senhor vosso Deus vos dará.

Kardec está concordando que podemos viver muito se respeitarmos o nome de nossos pais, não fazendo nada que possa envergonhá-los.

Isso implica uma vida digna, voltada para o bem e a verdade, habilitando-nos a um comportamento equilibrado e a uma proteção ampla do mundo espiritual, para pleno aproveitamento do tempo que o Senhor nos concede para viver na Terra.

*** ALIENÍGENA ***

VISITANTES EXTRATERRESTRES

Há os que vivem além-túmulo, os Espíritos, e os que vivem além-mundo, seres de outros planetas, os alienígenas.

Assunto interessante e controvertido.

Em 1947, em Roswell, pequena cidade no Novo México, Estados Unidos, um acontecimento ganhou manchetes: o exército americano recolhera os destroços de uma nave espacial alienígena e os respectivos tripulantes, mortos.

Não obstante o desmentido do governo, explicando tratar-se de um balão meteorológico, teorias variadas foram logo apresentadas por ufólogos, defendendo a ideia de que as autoridades militares sustentavam uma campanha de desinformação para acobertar a verdade.

A partir desse episódio multiplicaram-se os relatos de pessoas que tiveram experiências com naves espaciais extraterrestres, popularmente denominadas discos voadores.

material da existência dessas naves e seus tripulantes. Nenhuma fotografia ou filmagem confiável, nenhum objeto de uso pessoal, nenhum destroço de nave acidentada, nenhum cadáver, nenhum contato com grupo de pessoas, nem alimentos, nem excrementos...

E tudo nebuloso, solitário, ermo, sempre sugerindo conspiração.

E observe, leitor, que na atualidade há sempre alguém de celular na mão fotografando e filmando acontecimentos insólitos.

Há, ainda, a complexidade para voos interestelares, entre um sistema solar e outro (os planetas que orbitam o Sol não são habitados por seres pensantes biológicos, apenas Espíritos), a exigir uma tecnologia tão sofisticada que somente culturas altamente evoluídas poderiam dominá-la.

Considere-se, contudo, que em tão elevado estágio de desenvolvimento, seus habitantes nác usariam naves espaciais. Fariam viagens interestelares a partir de desdobramento espiritual.

***

Uma palavra final, amigo leitor.

A Terra tem, sim, recebido viajores de outros planetas. Chegam aqui atendendo a migração que fazem parte do processo evolutivo de s populações.

Em A Caminho da Luz, psicografia de Chico Xavier, o Espírito Emmanuel descreve a chegada dos capelinos, habitantes de um planeta no sistema de Capela, na Constelação de Cocheiro, situado a quarenta e dois anos-luz da Terra.

Reencarnaram em nosso mundo, dando origem à civilização neolítica, há perto de dez mil anos, acelerando a evolução do homem terrestre. Segundo Emmanuel, já retornaram, em sua maioria, ao planeta de origem, após cumprirem jornada expiatória.

Por falar em Espíritos, fica a pergunta: não seriam os supostos contatos com extraterrestres apenas visões de pessoas dotadas de sensibilidade psíquica, a confundir fenômenos mediúnicos com encontros ufológicos?

*** VIDA ***

MUDAR PARA MARTE

Falando em vida além-mundo, a descoberta de água em Marte, embora salobra, por sofisticados recursos tecnológicos da NASA, agência espacial norte-americana, dá asas à imaginação de sonhadores que concebem a possibilidade de colonização daquele planeta.

Quando se esgotarem os recursos de sustentabilidade de vida na Terra ou quando a população terrestre atingir níveis de crescimento que ameacem a raça humana, com gente saindo pelo ladrão, teríamos essa promissora migração.

Como material para incontáveis filmes de ficção científica, tudo bem. Impossível, entretanto, levar a sério essa possibilidade.

Quando muito poderemos ter em Marte centros de pesquisa, como há hoje na Antártida, sem que jamais se tenha cogitado de colonizar aquela região de frio perene, com temperaturas muito abaixo do mais gelado freezer e ventanias próximas às melhores performances dos carros de corrida.

E observe, amigo leitor, que as condições de habitabilidade do chamado planeta vermelho são bem mais precárias: oxigênio em nível baixíssimo, radiação solar em níveis altíssimos; tempestades de pó com elementos químicos venenosos; um terço da gravidade terrestre, provocando perda de massa muscular e óssea, com danosos resultados; temperatura média de 60 graus negativos, chegando a 125 no inverno.

A habitabilidade de nosso planeta guarda relação com seres vivos que ao longo de milhões de anos adaptaram-se ao ambiente terrestre.

ETs que aqui aportassem vindos de planetas distantes, de outros sistemas solares, encontrariam condições adversas e provavelmente insuperáveis para aqui viver.

No filme de ficção científica A guerra dos mundos-de Steven Spielberg, em 2005, inspirado numa obra de H. G. Wells, uma invasão alienígena, com armas e tecnologia indefensáveis para o homem terrestre, foi abortada por simples bactérias, inofensivas para nós, letais para os ETs.

Uma adaptação do homem terrestre às condições físicas de Marte exigiria tempo demasiado longo para servir de opção a eventual migração.

Deus separa os planetas não apenas com. distâncias imensas, mas também com imensas diferenças de habitabilidade, a fim de que suas populações não causem problemas, umas às outras.

Quando se fala em Marte, surge sempre a pergunta:

E habitado?

Sondas espaciais norte-americanas que por lá andam desde 1965 deixam bem claro que o planeta é deserto. Cogita-se possa existir vida apenas em fase embrionária, com micro-organismos, condição de todos os planetas do sistema solar, muito quentes, como Mercúrio e Vênus, ou muito frios, como os demais.

Daí a dúvida:

Nos livros Cartas de uma morta, de 1935, e Novas Mensagens, de 1939, ambos psicografados por Francisco Cândido Xavier, os Espíritos Maria João de Deus e Humberto de Campos reportam-se a avançada e cristianizada civilização marciana.

Por outro lado, na questão 55, de O Livro dos Espíritos, os mentores espirituais informam serem nabitados todos os globos que giram no espaço.

Como conciliar tão contraditórias informações de gente da Terra e gente do Além?

Afinal, Marte é habitado ou não?

Antes de responder a essa pergunta, imaginemos a Terra sofrendo uma hecatombe que acabasse com todas as manifestações de vida.

Ficaria deserta?

Certamente não! — proclamaria o leitor bem informado. Continuaria habitada por Espíritos na psicosfera do planeta, compondo coletividades imensas, como as que André Luiz descreve na maravilhosa série sobre a vida espiritual.

Está feita a desejável conciliação. São habitados todos os mundos que giram no espaço, inclusive os planetas de nosso sistema, por seres pensantes, os Espíritos. Onde houver condições, como na Terra, poderão utilizar corpos de matéria densa para experiências evolutivas compatíveis com suas necessidades.

Quanto a Marte, fica como opção para uma bolsa de estudos em avançado curso de cidadania universal, quando retornarmos ao Além, se nãc formos reprovados na experiência reencarnatória.

*** VESTUÁRIO ***

COMO SE VESTEM OS ESPÍRITOS

Dentro de algumas décadas, segundo estimativas dos cientistas, as viagens para Marte constituirão rotina, mas desgastante para os corajosos desbravadores.

Viagem de longos meses, complicações decorrentes da prolongada ausência de gravidade, e em Marte o uso de roupas especialíssimas, autênticos escafandros, tecnologia sofisticada e complexa para por lá transitar.

Melhor mesmo, como comentamos, deixar tais viagens para quando nos libertarmos da carne.

Será tudo mais fácil, tanto o deslocamento quanto a permanência no chamado planeta vermelho, sem a necessidade de trajes especiais.

A propósito, sempre me perguntam de que é feita a vestimenta dos Espíritos que se apresentam aos médiuns, bem como seus objetos de uso pessoal.

Assunto complicado e controvertido, principalmente pela falta de elementos de analogia para uma definição exata.

Um exemplo para compreendermos esse problema: no livro Apocalipse, no Novo Testamento. o evangelista João apresenta a curiosa imagem de pássaros a cuspir fogo. Não tinha a mínima noção de que estava, em suas visões do futuro, contemplando um avião militar a lançar mísseis.

Em O Livro dos Médiuns, no capítulo Do Laboratório do Mundo Lnvisível, há um diálogo de Kardec com o Espírito São Luís, um dos mentores da Codificação.

Em dado momento, pergunta o Codificador:

Dar-se-á que a matéria inerte se desdobre? Ou que haja no mundo invisível uma matéria essencial, capaz de tomar a forma dos objetos que vemos? Numa palavra, terão estes um duplo etéreo no mundo invisível, como os homens são nele representados pelos Espíritos?

Responde o mentor:

Não é assim que as coisas se passam. Sobre os elementos materiais disseminados por todos os pontos do espaço, na vossa atmosfera, têm os Espíritos um poder que estais longe de suspeitar. Podem, pois, eles concentrar a sua vontade esses elementos e dar-lhes a forma aparente que corresponda à dos objetos materiais.

Ponto pacífico: não há clones etéreos para objetos materiais, porém podem os Espíritos, em exercício de ideoplastia, produzir as roupas de que se revestem e objetos variados, a partir desses elementos materiais disseminados.

Para o olhar humano seriam, digamos, uma espécie de holograma, uma imagem fotográfica tridimensional projetada.

Para os Espíritos teriam consistência e tangibilidade. Uma cidade como Nosso Lar, por exemplo, descrita por André Luiz, um Jardim do Eden no deserto umbralino, tem uma imensa população de Espíritos que se apresentam civilizadamente vestidos.

Conseguem todos plasmar a própria veste ou haverá setores da cidade especializados em atender à população?

Acredito que ocorram ambas as alternativas, de acordo com a capacidade de cada morador.

***

Um detalhe interessante:

Consideremos os Espíritos umbralinos, habitantes das vastas regiões purgatoriais que circundam a Terra, dominados por desajustes variados ou empenhados na prática do mal.

Aos médiuns videntes não aparecem nus. Estão todos vestidos, mas portando andrajos ou trajes escuros, mais para o preto, integrando as confrarias das trevas.

Concebendo sejam eles capazes de moldar suas vestimentas, diriamos que atuam como alfaiates incompetentes, de péssima figura num desfile de modas, pela pobreza de suas criações.

Digamos que essa alfaiataria mental situa-se nos domínios do inconsciente. O Espírito molda, em princípios de automatismo psíquico, a própria veste, que guarda conformidade com sua maneira de ser, seu estágio evolutivo.

Atendendo a esse princípio, Espíritos inferiores, como dizia Kardec, vestem-se de sombras.

Entidades angelicais revestem-se de luz e podem, por exercício da vontade, produzir o traje que pretendam usar.

Fica a pergunta: ao desencarnar o Espírito retorna ao Além em trajes de Adão?

A experiência diz que não.

Em princípio, atendendo ao mesmo automatismo psíquico, o Espírito se apresentará com trajes semelhantes aos que usou na experiência carnal.

É uma realidade confirmada pelos médiuns videntes.

***

Considerando ainda os problemas da analogia devo confessar, caro leitor, que tenho muitas dúvidas sobre o assunto, não obstante as explicações contidas nas obras da Codificação e complementares.

Certamente serão respondidas quando eu retornar à espiritualidade, convenientemente trajado, espero.

*** POBREZA ***

O QUE SERIA PRECISO.

Encarnados na Terra, desencarnados no Além, estaremos sempre bem, se dispostos a usar nossos recursos, nossas iniciativas, em favor do próximo.

Todo bem que fizermos a alguém será recurso de equilíbrio e bem-estar para nós, onde estivermos.

A propósito, conta Cornélio Pires curioso episódio num banquete do Nordeste, com a presença de homens ricos e poderosos.

Ante a lauta mesa, alguém se lembrou dos pobres...

O dono da casa, um coronel nordestino, falou:

— Muito bem lembrado! Precisamos mesmo pensar nos pobres.

Erguendo a taça de rico champanhe, acentuou:

— Proponho, portanto, um brinde: Viva os pobres!

Acompanham em coro os convivas:

— Vivaaaa!

E todos comeram felizes!

A par do lado pitoresco, bem de acordo com a índole do famoso humorista caipira, temos nessa história o registro de lamentável realidade, própria do mundo de provas e expiações em que vivemos, orientado pelo egoísmo: a lamentável capacidade do ser humano de conviver com as misérias alheias, sem que as carências do próximo o incomodem.

Imagino o espanto de gerações futuras, debruçando-se sobre o nosso tempo, quando a Terra estiver promovida a mundo de regeneração:

- Será que não sabiam? Não tinham noção de que jamais teríamos na Terra felicidade legítima, enquanto a legítima fraternidade não irmanasse todos os homens, dispostos a amparar-se mutuamente para tornar suaves as dores e completas as alegrias?

Certamente sabemos, pelo menos o sabem os que aceitam Jesus por Mestre e Senhor.

Significativas as suas orientações a respeito (Lucas: 14:12-14):

Em seguida disse àquele que o convidara: Ao dares um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem os vizinhos ricos: para que não te convidem por sua vez e te retribuam do mesmo modo.

Pelo contrário, quando deres uma festa, chama pobres, estropiados, coxos, cegos; feliz serás, então, porque eles não têm com que te retribuir. Serás, porém, recompensado na ressurreição dos justos.

Complicado, não é mesmo, caro leitor?

E que os valores evangélicos constituem para nós mero ideal que esbarra em nossa vocação imediatista. Um ideal contido pela tendência de conjugarmos o verbo de nossas ações na primeira pessoa do singular.

Impraticável, por exemplo, na atual conjuntura social, imitar o exemplo da primitiva comunidade cristã, como está em Livro dos Apóstolos (4:34-35):

Não havia entre eles necessitado algum. Pois todos os que possuíam herdade ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos.

E repartia-se a cada, segundo sua necessidade.

Era uma vida legitimamente comunitária, a partir do desprendimento individual em favor do bem-estar coletivo.

Se já constitui hercúleo desafio a disposição de convidar os pobres para nossos banquetes, impensável será dispor de nossos bens em favor do bem comum.

A primitiva comunidade cristã foi belo ensaio, realizado por Espíritos superiores, herança sagrada à espera do amadurecimento da Humanidade para que nos disponhamos ao esforço a que se refere Miche. Quoist, em Poemas para rezar, numa bela e instiganre oração:

Esta noite, Senhor, estou com medo.

Estou com medo, porque teu Evangelho é terrível, Ouvir anunciá-lo ê fácil.

E ainda relativamente fácil não se escandalizar com ele,

Mas é bem difícil vivê-lo.

Tenho medo, Senhor.

Tenho medo de ficar satisfeito com minha vidinha honesta,

Tenho medo de meus bons hábitos — tomo-os por virtude.

Tenho medo de meus pequenos esforços — dão-me a impressão de estar indo para frente.

Tenho medo de minhas atividades — fazem-me crer que estou fazendo dom de mim.

Tenho medo de minhas sábias organizações—considero-as sucessos retumbantes.

Tenho medo de minha influência — imagino que i ai transformar as vidas.

Tenho medo de meus donativos, que encobrem o attt não dou.

Tenho medo, Senhor, pois há pessoas que são mas pobres do que eu.

Há seres menos instruídos que eu,

Menos evoluídos,

Menos confortavelmente alojados,

Menos aquecidos,

Menos remunerados,

Menos alimentados,

Menos privilegiados,

Menos amados.

Tenho medo, Senhor, pois não faço bastante por eles, Não faço tudo por eles,

Seria preciso que eu desse tudo.

Seria preciso que eu desse tudo, até que não houvesse mais um só sofrimento, uma só miséria, um só pecado no Mundo.

Então, Senhor, seria preciso que eu desse tudo, o tempo todo.

Seria preciso que desse minha vidal

*** SABER ***

CONHECIMENTO PASSIVO

O poema de Michel Quoist é de impressionante clareza, mostrando a lamentável realidade do mundo em que vivemos, orientado pelo egoísmo.

O Espiritismo, por sua vez, é bênção de esclarecimento, deixando visível a necessidade de superarmos a zona de conforto, os interesses meramente individuais, para participarmos da sociedade em que estamos inseridos, visando sempre o bem do próximo.

Imperioso, porém, um cuidado: evitar o conhecimento passivo. Veja a seguinte história, caro leitor:

O adolescente acompanhou, admirado, a exposição da professora falando sobre as doenças causadas pela mosca.

Jamais imaginara que um bichinho tão pequeno provocasse males tão grandes.

Retornando ao lar, sentou-se à mesa para a refeição e, enquanto comia tranquilo, uma mosca voejava, assentando-se em seu prato, sem que ele fizesse o mínimo gesto para afastá-la.

Não foi capaz de observar o aspecto prático das informações recebidas, em relação ao impertinente inseto.

Caiu no conhecimento passivo, aquele que não repercute no comportamento das pessoas.

Jesus esteve entre nós há perto de dois mil anos, com um manancial de ensinamentos que nos surpreendem e comovem.

Entretanto, as pessoas parecem não perceber que dizem respeito ao seu cotidiano, à sua vivência.

Comportam-se na base do não é comigo.

O Sermão da Montanha nos oferece exemplos marcantes, conforme as anotações de Mateus:

Não permitir que a cólera nos domine em determinadas situações, nem depreciar as pessoas com expressões pejorativas (5:21-22).

Antes de orar, livrar o coração de mágoas e ressentimentos e buscar o perdão de quem tenhamos ofendido (5:23-26).

Combater pensamentos maliciosos no convívio social (5:27-28).

Respeitar os sagrados vínculos conjugais (5:31- 32).

Jamais faltar à verdade (5:33-37).

Responder ao mal com o bem (5:38-41).

Cultivar sentimentos de benevolência para com todos que nos prejudiquem (5:43-48).

Não fazer propaganda das boas obras praticadas (6:1-4).

Colocar o coração na dimensão espiritual (6:19-21).

Observar o lado bom da vida e das pessoas (6:22-23).

Cumprir os desígnios divinos, acima das preocupações humanas (6:25-34).

Não julgar senão as próprias ações, em esforço de renovação (7:1-5).

Dá para perceber que essas orientações de Jesus constituem conhecimento vazio para considerável parcela da Humanidade.

Se assim não fosse, há muito estaríamos vivendo no sonhado mundo de regeneração, de que nos fala a Doutrina Espírita.

Em O Céu e o Inferno, uma das obras básicas, Kardec nos oferece visão ampla da vida espiritual e o que aguarda quem não observa as lições de Jesus.

Então, meu caro leitor, não vale para nós o conhecimento passivo, a dificuldade de uma criança em colocar em prática um ensinamento. Já não somos crianças, nem estamos lidando com simples noções sobre nosso futuro.

O Espiritismo, literalmente, mata a cobra e mostra o pau, isto é, comprova essas informações a partir do testemunho de Espíritos desencarnados que sofrem as consequências de sua inconsequência enquanto encarnados, distraídos dos objetivos da existência humana.
***
Ainda em O Céu e o Inferno, Kardec nos oferece um oportuno Código Penal da Vida Futura, baseado no contato com dezenas de Espíritos desencarnados, felizes ou infelizes, tranquilos ou atormentados, de conformidade com suas ações quando encarnados.

Os trinta e dois artigos ali apresentados merecem nossa atenção. Constituem valioso roteiro para uma existência equilibrada e um retorno feliz à pátria espiritual, desde que nos empenhemos em evitar o conhecimento vazio.

No artigo trinta e três, temos um resumo oportuno do código, com as seguintes alíneas:

1° — O sofrimento é inerente à imperfeição.

2° — Toda imperfeição, assim como toda falta dela promanada, traz consigo o próprio castigo nas Consequências naturais e inevitáveis: assim, a moléstia pune os excessos e da ociosidade nasce o tédio, sem que haja mister de uma condenação especial para cada falta ou indivíduo.

3° — Podendo todo homem libertar-se das imperfeições por efeito da vontade, pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a futura felicidade.

E Kardec conclui, lembrando o Evangelho:

A cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra: — tal é a lei da Justiça Divina.

*** FILHOS ***

UMA QUESTÃO DE HOSPITALIDADE

Nessa reflexão em torno da jornada humana, consideremos, caro leitor, a família; em particular, os filhos.

Não sei se você tem ou pretende constituir uma prole. De qualquer forma, tenho uma história sobre o assunto que há de interessá-lo e, talvez, até surpreendê-lo.

Cícero e Marise preocupavam-se com a rebeldia de Pedro, filho adolescente de quatorze anos.

Não obstante o carinho e os cuidados recebidos, comportava-se, não raro, como um estranho no ninho, rebelde, mal-humorado, como se enxergasse em ambos inimigos disfarçados de genitores.

Seria o menino algum desafeto do passado que viera até eles para uma reconciliação, sob inspiração da consanguinidade?

Estudiosos da Doutrina Espírita, sabiam que o reencarnante pode conservar, nos registros espirituais, a mágoa do passado. Daí, talvez, aquelas crises de rebeldia.

Cícero e Marise tinham dificuldade em admitir essa possibilidade, porquanto o carinho que lhe dedicavam não seria inspirado em mero propósito de reconciliação. Guardavam a certeza de que estavam ligados pelo coração desde o passado remoto.

Chegaram a consultar um psicólogo para orientá-los quanto às origens daquela situação e a maneira de enfrentá-la.

As teses psicológicas, porém, não os satisfaziam. Havia algo que só a espiritualidade poderia explicar.

***

Um médium, famoso pelo seu discernimento, recebeu o casal para uma orientação.

Cícero expôs o problema, adiantando:

— Sabemos que esses desentendimentos podem ter origem em nosso contato com desafetos do passado, porém não é assim que nos sentimos em relação ao nosso filho. Temos muito carinho por ele e enorme preocupação com a atual situação.

— Pedro é um bom menino — completou Marise -, estudioso, compenetrado, mas de vez em quando, não sabemos se por influência espiritual ou problema pessoal, revela uma animosidade que nos magoa, como se tivesse ressentimento por algo que lhe tenhamos feito.

O médium concentrou-se e, recebendo informações do mundo espiritual, comentou:

— Pelo que estou sendo informado, houve um problema quando você engravidou.

Surpreenderam-se ambos. Ninguém sabia do ocorrido.

Vendo a esposa nervosa, Cícero adiantou:

— Quando Marise ficou grávida foi um transtorno. Éramos estudantes, sem condições para nos casarmos. Não tínhamos conhecimento espírita e chegamos a consultar um médico sobre o aborto. Graças a nossos pais, que interferiram energicamente, não cometemos tal loucura. Pedro nasceu normalmente e desde então nos apegamos a ele.

O médium sorriu:

— Está explicado o comportamento do menino. A rejeição em princípio e a cogitação do aborto marcaram profundamente seu ego. Ele traz, nos domínios do inconsciente, uma grande mágoa, sentimento que ainda não superou, embora o afeto que devota a ambos.

- E que faremos? - indagou Marise, preocupada.

— Orem muito por ele e persistam no carinho e na compreensão, sem reagir negativamente às suas malcriações. Com o tempo tudo se acertará.

No livro Vida Antes da Vida, a psicóloga americana Helen Wanbach relata experiências de regressão de memória realizadas com voluntários que eram induzidos a recordar suas emoções no exato momento do nascimento.

São impressionantes.

Observe, caro leitor, os relatos seguintes:

Dava-me conta do ciúme, por parte de meu irmão mais velho, e que todos estavam infelizes com o meu sexo.

As pessoas no quarto pareciam muito eficientes, mas sem calor humano. Não foi uma chegada feliz ao mundo.

Fiquei surpresa ao constatar que minha mãe não me queria.

Minhas impressões, após o parto, foram de que havia nascido no lugar errado. Todos queriam um menino e eu era uma garota.

Senti que minha mãe estava envergonhada de mim por ser um bebê de parto caseiro.

Dava-me conta de que todos se mostravam felizes por ser uma garota, mas não eram boas-vindas, de coração aberto.

Percebia os sentimentos dos outros e a rejeição de minha mãe. Meu pai demonstrava sentimentos mistos.

Imagine, prezado leitor, você chegando à casa de um familiar para longo estágio.

Surpreso, observa no comportamento de alguém, de alguns ou de todos, que sua presença não é recebida com simpatia. Chegam a cogitar mandá-lo de volta.

Seria horrível, não é mesmo?

Produziría marcas indeléveis, que não fariam amistosa sua estadia.

Algo semelhante ocorre com o Espírito de retorno à carne. Rejeitado hoje, problema para a família amanhã.

***

A educação e a orientação dos filhos para a vida são enfaticamente destacadas como responsabilidade intransferível dos pais.

Oportuno, nesse particular, iniciar esses cuidados desde o momento em que se constata a gravidez.

Não importa como aconteceu — se por escolha ou descuido, se planejado ou inesperado.

Imperioso seja o nosso hóspede recebido com carinho.

Ainda que por circunstâncias trágicas, como Num estupro, a rejeição sempre terá consequências desagradáveis e até danosas para todos os envolvidos.

Um filho, culminância comum em enredos nos domínios do sexo, é sempre alguém que foi enviado por Deus para experiências redentoras.

E a rejeição é uma palavra que não existe no manual divino da boa convivência no lar.

*** PALAVRA ***

CHICO XAVIER 1

Julgo oportuno, caro leitor, ao refletir em torno da existência humana, considerar alguns episódios da maravilhosa existência de Chico Xavier.

Referindo-se aos problemas de comunicação verbal, Chico lembrava uma recomendação de Emmanuel:

- Chico, quando você não tiver uma palavra que auxilie, procure não abrir a boca.

Como sempre, temos na orientação do mentor espiritual sábio conselho, cumprido à risca pelo médium.

Diria, leitor amigo, que uma das inúmeras virtudes de Chico, na grandiosa missão de transferir para a Terra algo da sabedoria do Céu, foi sua disciplina, sempre empenhado em observar com rigor as orientações que recebia.

Significativamente, a primeira delas, no contato inicial entre ambos, quando Emmanuel o informou a respeito da tarefa que desenvolvería, foi sobre a necessidade de um comportamento disciplinado.

Daí o sucesso de Chico, um dos raros médiuns que cumpriram integralmente seus compromissos, sem vacilações, sem desvios.

E nunca seremos suficientemente gratos a Deus por estarmos desfrutando dos resultados do trabalho sublime realizado por esse missionário que. disciplinadamente, complementou e desdobrou os princípios codificados por Allan Kardec.

Imagino que só Espíritos da estirpe de Chico Xavier têm condições para vivenciar em plenitude a orientação de só abrir a boca quando tiver boas palavras a dizer.

Se nós outros, alunos do educandário terrestre, seguíssemos à risca essa orientação, a mudez havería de instalar-se na Terra.

Lembrando com Jesus que a boca fala aquilo de que o coração está cheio, cobras e lagartos fazem parte do cotidiano das pessoas.

Até parece que Deus nos deu o dom da comunicação para que nos amassemos, quando, na verdade, o Senhor espera que nos amemos.

Se você contestar, leitor amigo, proclamanc: que só flores e bênçãos partem de seus lábios, no cotidiano, deverei perguntar-lhe:

O que está fazendo aqui?

E um Espírito sublimado em missão celeste nestas plagas agrestes?

Ou, quem sabe, alguém da estirpe de Alcíone?

Se a desconhece, não sabe o que está perdendo!

Se deseja conhecê-la, leia Renúncia, de Emmanuel, o notável romance psicografado pelo nosso Chico, publicado pela Federação Espírita Brasileira.

Alcíone foi um anjo que deixou os páramos celestiais para auxiliar amados seus, retardatários nos caminhos da evolução.

Sua ação, como anjo encarnado, foi inesquecível, usando a palavra sempre no sentido de edificar, de construir, de acalmar as inquietações humanas.

Foi alguém que, como diria o apóstolo Paulo, era capaz de refletir o próprio Cristo em seu comportamento angelical, a iluminar os que dela se aproximavam.

***

Bem, caro leitor, se não temos competência para edificar sempre com a palavra, como recomenda Emmanuel, que pelos menos tomemos cuidado para não complicar.

Pior que não ter algo de bom para falar são as más palavras quando, no auge de uma discussão, de um desentendimento, a boca fala do que mora no coração.

Lembro ilustrativo versinho de Pietro Metastásio (1698-1782), poeta italiano:

Não adianta chamar de volta

A palavra que do peito fugiu.

Não se retém a flecha,

Depois que do arco saiu.

Fatalmente produzimos estragos quando falamos como quem atira flechas.

O problema é que, não raro, essas flechadas são irreparáveis.

Casamentos são desfeitos...

Amizades são destruídas...

Desatinos são cometidos...

Uma senhora separou-se do marido, de quem passou a ter horror, a partir de uma discussão em que ele, colérico, homenageou a senhora sua mãe, atribuindo-lhe aquela profissão pouco recomendável. Chamou-a insistente e injustamente de prostituta, ferindo sua dignidade.

Semelhante à orientação de Emmanuel, meu irmão Roberto, que era de pouco falar, quando cobrado pela esposa, que era seu oposto, lembrava um ditado popular:

Fale apenas o que seja mais importante do que o teu silêncio.
E já que estamos no terreno das citações, lembro Mateo Alemán (1547-1614), escritor espanhol:

Palavras que não sejam de proveito para os homens, é melhor que a língua emudeça e as diga a Deus o coração.

Coração envergonhado, acrescentaria eu, a pedir a complacência divina, em face de nossa vocação para desferir flechadas venenosas.

*** EVOLUÇÃO ***

CHICO XAVIER 2

Chico recebeu a visita de um Espírito que viveu nos tempos de Moisés.

A entidade tentou conversar com ele em pensamento.

O médium não entendia.

Emmanuel traduziu:

— Ele está dizendo que não vem à Terra há aproximadamente quatro mil anos. Achou as construções um pouco diferentes, mas percebeu que a evolução moral foi pequena.

Em breve observação da entidade visitante, um diagnóstico preciso do grande mal da Humanidade: o lamentável descompasso entre o progresso material e o moral.

Lembro velho aforismo:

O ser humano aprendeu a locomover-se no ar com o avião; no fundo dos oceanos com o submarino, mas não aprendeu a andar como homem.

O progresso material tem sido espantoso.

O computador de que me sirvo para escrever estas mal traçadas reuniria sem problemas os perto de setecentos mil textos da famosa biblioteca de Alexandria, considerada durante séculos o repositório do conhecimento humano.

Usando essa incrível máquina, converso à vontade, sem nenhuma despesa, com minha filha que mora do outro lado do mundo, na Austrália; acesso notícias sobre acontecimentos em tempo real; faço compras, escrevo aos amigos, consulto enciclopédias, colho informações sobre tudo o que possa interessar-me.

A informática é onipresente.

Graças a ela o homem foi à Lua, temos viagens mais tranquilas de automóvel, trem, avião ou navio, medicamentos mais eficazes, construções mais seguras, existência confortável...

No entanto, também a informática favorece o direcionamento de teleguiados que explodem matando populações indefesas, as diatribes dos hackers, os desfalques contábeis, o ataque às contas correntes nos Bancos, o planejamento de assaltos e males outros sem conta...

O descompasso entre o superdesenvolvimento científico e o subdesenvolvimento moral transforma bênçãos em maldições, benefícios em malefícios.

Nobel descobre a nitroglicerina para domar a Rocha e favorecer a construção de estradas e edificações. Em breve é usada em bombas devastadoras.

Santos Dumont inventa o avião, que encurta distâncias e aproxima povos. Logo surgem os bombardeiros que matam de forma cruel e indiscriminada populações indefesas.

Einstein formula a teoria da relatividade, que inaugura a era atômica, a favorecer benefícios incontáveis para a Humanidade, e fazem-se bombas capazes de eliminar a vida na Terra.

Pasteur desvenda o mundo dos microorganismos, em favor da saúde, sem imaginar que logo viria a ameaça da guerra bacteriológica, capaz de produzir males contagiosos e letais.

Realmente, não aprendemos a andar como homens, não obstante tenhamos há dois mil anos o manual perfeito para deixarmos de andar de quatro, oferecido por Jesus, que se deu ao trabalho de explicá-lo e exemplificá-lo até o sacrifício da própria vida.

Há muito, à luz do Evangelho, deveríam ter sido erradicados do planeta as desigualdades sociais, a miséria, o infortúnio, a solidão, as guerras, a maldade...

No entanto...

Homens-bomba matam pessoas para semear o terror.

Traficantes enriquecem à custa da desgraça física e mental dos viciados.

Empresários inescrupulosos acumulam fortunas imensas, em detrimento de infelizes que não têm o que comer.

A classe política, que deveria promover o progresso e o bem-estar da população, perde-se na defesa de seus próprios interesses, minada pela corrupção.

E considerável parcela da população, gente rica, gente de classe média, abastada ou não, gente que poderia fazer a diferença, a balança pender para o bem, prefere edificar seu oásis particular, no deserto das misérias humanas, e convive tranquilamente com o fato de existirem multidões de carentes ao seu derredor, que vivem abaixo da linha da pobreza...

E rendem-se homenagens aos abnegados que se dedicam a servir, a fazer algo em favor do próximo, como se estivessem exercitando virtudes raras e não elementares deveres de solidariedade.

***

Fica a pergunta:

Esse descompasso entre o progresso moral e o científico é normal?

Bem, leitor amigo, se fosse normal não haveria por que o Espírito visitante fazer a observação que abre estes comentários. Quando muito, diria estar tudo nos conformes.

O problema é de prioridades.

A Humanidade tem priorizado o progresso material, sob inspiração do egoísmo, cerrando as portas ao progresso moral, sustentado pelo altruísmo.

Na esteira do egoísmo, projetado na consciência dos povos, temos as lutas fratricidas, as guerras, as disputas religiosas, o clima de beligerância, que evoca os brutos, em detrimento da paz.

Fala-se em maturidade, mas é forçoso reconhecer que ela não é sinônimo de idade. Não somos vegetais que germinam, crescem e frutificam por ação do tempo.

Somos seres pensantes, cujo amadurecimento depende de nossa iniciativa, de nosso esforço...

E o que tem faltado.

*** PRUDÊNCIA ***

CHICO XAVIER 3

Chico escorregou e caiu.

Ensaiou reclamação, sentindo-se vitimado por Espíritos galhofeiros, quando Emmanuel lhe recomendou que agradecesse aos agressores.

Ante a surpresa do médium, o guia explicou:

- Se você se irritar emitirá vibrações quase iguais às deles e eles ficarão com mais força.

Podemos tirar desse episódio duas lições importantes.

A primeira: Espíritos que desejam prejudicar-nos podem criar problemas para nós, a começar de simples queda.

Nesse aspecto, vale lembrar que muitos acidentes graves nas estradas têm origem em influências espirituais, a gerar distrações e infrações perigosas.

Daí os imperativos da oração e vigilância recomendados por Jesus.

E' preciso elevar o nível vibratório pela oração, e o nível de atenção pela vigilância, a fim de não sermos envolvidos por Espíritos perturbadores.

No entanto, amigo leitor, há uma ressalva: muita gente atribui todos os seus problemas e males a influências espirituais inferiores, sem perceber que, geralmente, a origem está em nossos excessos e indisciplinas.

A propósito, vale lembrar a questão 530, de O Livro dos Espíritos.

Interroga Kardec:

Os Espíritos levianos ou zombeteiros não podem criar pequenos embaraços à realização dos nossos projetos e atrapalhar as nossas previsões? Numa palavra, serão eles os autores das chamadas pequenas misérias da vida humana?

Responde o mentor:

Eles se comprazem em vos causar aborrecimentos que são provas para vós, a fim de exercitar a vossa paciência.

Cansam-se, porém, quando vêem que nada conseguem.

Entretanto, não seria justo, nem acertado, responsabilizá-los por todas as decepções que experimentais e de que sois os principais culpados pela vossa irreflexão.

Convence-te, pois, de que se a tua louça se quebra, é mais por descuido teu do que por culpa dos Espíritos.

A observação final é algo para inscrever na lousa da memória, em tinta indelével, ajudando-nos a superar a tendência de atribuir aos Espíritos o que é decorrente de nossos descuidos.
***

A segunda lição, igualmente importante, é bem definida numa expressão popular: o passar recibo.

E reagir negativamente a uma provocação, seja de Espírito encarnado ou desencarnado.

Quando encarnado fica mais fácil evitar.

Se o filho é malcriado...

Se a esposa está em TPM...

Se o marido faz-se mudo como uma porta...

Se o motoqueiro nos agride com palavrões...

Se o chefe nos destrata...

Se o subordinado comete faltas...

Podemos, com um mínimo de compreensão, reagir positivamente, sem ensaiar revide deseducado e sem situá-los como uma cambada de Espíritos atrasados, nas asas da irritação.

O problema maior está na influência não identificada, exercida por Espíritos que nos causam embaraços. Se não tomarmos cuidado, seremos dominados por sentimentos negativos que nos colocarão em sintonia com eles, A partir daí, ninguém pode prever os estragos que farão em nosso íntimo, induzindo desajustes físicos e psíquicos.

E' preciso cuidado para não quebrar a louça. Se acontecer, tenhamos o cuidado maior de não baixar o padrão vibratório, a fim de que nossos atentos e insidiosos acompanhantes não façam estragos em nossa casa mental.

*** DESTINO ***

CHICO XAVIER 4

Reportando-se ao dia a dia, comenta Chico:

Deus nos concede a cada dia uma página nova no livro do tempo.

Aquilo que colocaremos nela corre por nossa conta.

Interessante a imagem do livro existencial. Realmente, a jornada humana é como um livro que estamos escrevendo, usando o lápis da iniciativa.

Em linhas gerais, há um enredo de que cogitamos ao reencarnar, envolvendo família, profissão, raça, cor, nacionalidade, sempre no propósito de nosso crescimento espiritual.

Infelizmente, com raras exceções, inspirados nas ilusões da Terra, tendemos a dar asas à imaginação, afastando-nos do enredo proposto, o que sempre resulta numa obra conturbada e nada edificante.

A propósito do assunto, vale lembrar um tema instigante: o confronto entre determinismo e o livre-arbítrio.

Há quem proclame que o fio do destino é tecido por Deus.

Tudo aconteceria segundo os Desígnios Celestes, com o instrumental da fatalidade.

Complicado admitir isso.

Se escorrego e quebro a perna...

Se me envolvo numa trombada no trânsito...

Se um enfarte fulminante leva-me para o Além...

Se o casamento não dá certo...

Se um Espírito me obsidia...

Esses e outros males obedecem a inexorável determinação divina?

Diz um amigo:

— Deus tem costas largas. Se alguém nos faz um favor, logo Lhe transferimos o débito, ao dizer: Deus lhe pague!... E não temos nenhum constrangimento em debitar-Lhe todas as atribulações da existência!

Realmente, é cômodo pensar assim, sem assumirmos nossas responsabilidades, sem reconhecer o essencial: os males que nos afligem são fruto, geralmente, de nosso desatino, não do destino.

A perna quebrada não resultou de uma distração?

O acidente de trânsito não teria acontecido por imprudência?

O infarte não seria o somatório de excessos demais e exercícios de menos?

A dificuldade no casamento não teria origem na displicência em relação aos deveres conjugais?

As influências espirituais que nos oprimem não se infiltraram em nosso psiquismo pelas brechas de um comportamento desajustado?

Não somos marionetes, nem meros personagens de um romance cujo autor as submete aos seus devaneios, sem que possam interferir no enredo.

Somos seres pensantes, criados à imagem e semelhança de Deus, conforme o texto bíblico, dotados de suas potencialidades criadoras, responsáveis, portanto, por nossas ações e senhores de nosso destino.

***

O destino, amigo leitor, pode ser considerado sob dois aspectos: o absoluto e o relativo.

O absoluto está subordinado à Vontade Divina.

Há uma meta que devemos atingir, no desdobramento das experiências reencarnatórias: a perfeição.

Lá chegaremos fatalmente, quer queiramos ou não, porque essa é a vontade do Todo-Poderoso, que não falha jamais em seus objetivos.

O relativo subordina-se ao livre-arbítrio.

A maneira como vamos atingir aquela meta suprema depende de nós, de nossa maneira de agir, das escolhas feitas, dos caminhos escolhidos, dos livros que estamos escrevendo a cada experiência reencarnatória.

Podemos levar alguns milhares ou milhões de anos nessa jornada.

Depende de nossas escolhas.

Sempre que entrarmos no desvio, atrasando a jornada, virá a mestra dor, impondo uma correção de rota.

Assim, seguimos pelos caminhos que queremos, sejam estradas asfaltadas ou brejos espinhentos, caminhos retos ou atalhos enganosos, para chegar exatamente aonde Deus quer.

Talvez lhe pareça, leitor amigo, inaceitável que Deus interfira em sua vida, impondo-lhe seguir no rumo da perfeição, a contrariar suas próprias disposições.

Não obstante, oportuno lembrar que Deus é, acima de tudo, nosso Pai de infinito amor e misericórdia, como revelou Jesus. Um pai que trabalha incessantemente pelo nosso bem e a nossa felicidade.

Um filho poderá reclamar, em sua imaturidade, das disciplinas impostas pelo genitor, mas reconhecerá, mais tarde, que lhe foram sumamente benéficas.

Assim acontece conosco.

Hoje ficamos amuados quando Deus nos corrige.

Amanhã agradeceremos ao Senhor ter limitado nossa liberdade, corrigindo nossos desvios.

E, algo curioso, amigo leitor: quanto mais perto estivermos da perfeição, mais amplo será nosso livre-arbítrio.

Quanto mais evoluirmos, maior será a liberdade de fazer o que a nossa vontade determina, porquanto sempre faremos o que determina a vontade de Deus.

*** MILÊNIO ***

CHICO XAVIER 5

Na virada do milênio, ante as expectativas gerais sobre o que nos reservaria o novo ciclo, um repórter perguntou a Chico:

— Que mensagem você deixaria para os iniciadores da construção do Terceiro Milênio?

O médium respondeu:

— Prezado amigo, se eu dispusesse de autoridade rogaria aos homens que estão arquitetando a construção do Terceiro Milênio, para colocarem no portal da Nova Era as inesquecíveis palavras de Nosso SenhorJesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. ”
Como sempre, as respostas de Chico ensejam valiosas reflexões.

Na virada do milênio muitos confrades festejaram o advento de uma Civilização Cristianizada, marcando a promoção de nosso planeta na Sociedade dos Mundos.

De expiação e provas, onde o egoísmo predominante gera desigualdades sociais e os variados males que afligem a sociedade, para regeneração, em que consciências despertas elejam o altruísmo como modus vivendi, ensejando um ambiente de paz e harmonia.

Houve até quem imaginasse, a partir de supostas revelações mediúnicas, que às vésperas do terceiro milênio um astro enorme, planeta desconhecido, mil vezes maior que a Terra, em estágio primitivo, passaria nas imediações atraindo os maus com ele sintonizados.

De repente, como num passe de mágica, haveria uma limpeza geral e aqui ficariam apenas as almas harmonizadas com o Cristo, as ovelhas, livres dos bodes.

Pois é, amigo leitor, estamos perto de completar o segundo decênio e nada do referido astro, pondo por terra todas as especulações a respeito do assunto.

***

O próprio Chico tem uma observação esclarecedora, quando diz que um milênio tem mil anos.

Isso significa que a instalação da propalada civilização cristianizada deste milênio, promovendo nosso mundo para regeneração, pode estender-se ao longo de dez séculos.

A sabedoria divina não opera a toque de caixa. O Senhor oferece-nos reiteradas oportunidades de crescimento espiritual.

Como ensina Jesus, o Pai não quer perder nenhum de seus filhos, e o Mestre tem a missão de recolher todas as ovelhas ao redil do Senhor, sem distinção.

Ressalta em Lucas, 15:7:

Digo-vos que do mesmo jeito haverá alegria no Céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.

***

Obviamente, os que forem degredados para um planeta inferior, recalcitrantes empedernidos, não estarão sujeitos à perdição eterna.

Nesse mundo primitivo comerão o pão que o diabo amassou, enfrentarão dores e atribulações que quebrarão sua crosta de maldade e egoísmo, para que neles brilhe a luz celeste de que todos somos portadores, filhos de Deus, criados à sua imagem e semelhança.

E do empenho de Jesus, nosso governador espiritual, fiador de nossas almas, que reduzidos grupos de Espíritos sejam degredados, furtando-se a tão penosos recursos de reabilitação.

Daí a paciência e a espera.

Na verdade, se a propalada separação do joio

e do trigo, dos bodes e das ovelhas, fosse agora ou nos próximos decênios, a Terra ficaria quase deserta, se considerarmos a observação do Mestre, no Sermão da Montanha (Mateus, 5:5):

Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a Terra.

Complicado, não é mesmo, leitor amigo?

Ficarão na Terra os que houverem conquistado a mansuetude.

E quem é manso? Raro encontrar pessoas dotadas da sublime virtude. O vocábulo está até deturpado.

Chamar alguém de manso é um xingamento.

No entanto, a mansuetude é a característica marcante daquele que eliminou a agressividade, sustentada pelo egoísmo, habilitando-se ao altruísmo, tanto em atos quanto em ações.

Por isso é preciso dar um tempo.

E quando esse tempo chegar, quando a Humanidade houver vencido a agressividade, à exceção de uma minoria recalcitrante, poderemos, como diz Chico, inscrever no pórtico da abençoada civilização que aqui florescerá a recomendação de Jesus (João, 13:34):

Um novo mandamento vos dou:

Amai-vos uns aos outros.

Como eu amei a vós, assim também deveis amar uns aos outros.

Essa será a suprema lei que, plenamente observada pela Humanidade renovada, instalará entre nós o Reino de Deus.

E para isso que estamos aqui.

F I M