CLASSIFICAÇÃO COMENTADA
WILLIAM CROOKES

INVESTIGAÇÕES DO SR. WILLIAM CROOKES - § I

Até aqui falamos de modo vago sobre o que tinha sido referido por diferentes autores relativamente às aparições, aos movimentos de corpos sem contacto, etc., etc. Concordamos que, em tudo que precede, nada há de natureza a contribuir para consolidação de uma convicção; mas vamos entrar no domínio dos fatos, diante dos quais nos devemos inclinar, pelo menos, caso não queiramos deles tirar deduções filosóficas. Até aqui, vimos escritores, poetas e filósofos, sem autoridade em matéria científica, opinando em favor dos fenômenos espiritualistas: isso, como se diz, não traz consequências. (O Espiritismo, Paul Gibier). Seja, mas eis que um fato grave se produziu: um dos primeiros sábios do mundo, um experimentador, cujas obras suportam sem desvantagem comparação com as de Dumas, Wurtz, Berthelot, Frémy, pronunciou-se do modo mais afirmativo, baseado em provas experimentais em apoio dessas coisas tenebrosas que se supunham sepultadas na noite da Idade Média. Que devemos concluir? Porque ousou dar como certos os fatos de mesas a baterem e a girarem, de objetos e até de pessoas elevadas do solo sem força visível, de fantasmas aparecendo, entretendo-se com pessoas vivas, deixando-se fotografar, dando porções de seus cabelos às testemunhas, como provas permanentes de suas aparições, enquanto eles desapareciam; porque ousou ele contar essas coisas com tantos detalhes e observações de moldes científicos, será forçoso que o Sr. Crookes seja um louco ou um impostor?

Se o Sr. Crookes estivesse louco, estaríamos inteirados, e diríamos de suas alegações: «Bem, são divagações de cérebro doentio, passemos adiante !» Porém, já há mais de 15 anos que ele publicou (Nos 31 anos decorridos até hoje depois que Crookes publicou seu trabalho, tem ele continuado a ser o mesmo genial revelador nos dominios da Fisica e da Química. Sempre que se tem apresentado a ocasião, quer em cartas, respondendo a indagações de homens notáveis, quer na tribuna como presidente da "British Association" ou da "Society for Psychical Research", de Londres, o grande sábio confirma plenamente as suas experiências que, de resto, têm sido confirmadas em todas as partes por posteriores experimentadores. (Nota do T.)) as suas primeiras investigações sobre o moderno Espiritualismo, nenhum dos que o combateram ou defenderam quis discutir a irresponsabilidade do Sr. Crookes, que goza de plena liberdade e nunca recebeu duchas em nenhuma casa de saúde. As obras que ainda escreve, distinguem-se pela inteligência mais «radiante» e menos suscetível de ser encontrada em outros cérebros a não ser nos perfeitamente sãos. O Sr. Crookes, portanto, não se tornou insensato. Será acaso um impostor que tenha querido zombar do público? Mas, com que interesse? Ele bem sabia que isso nada lhe renderia. Pelo contrário, não ignorava que qualquer fraude - se fraude tivesse havido - seria prontamente descoberta, então! Então seria a vergonha, seria a ruína, seria o desastre, o desabamento de uma vida honrosa de homem honesto e de sábio. Benevolamente, de caso pensado pelo gosto de propalar uma pilhéria lúgubre, o Sr. Crookes apagaria a sua auréola de honra e de glória? Pois não! No fim de uma vida tão bem preenchida, tornada gloriosa por tantas descobertas, uma só das quais bastaria para imortalizar um homem, ele desceria de seu pedestal para revolver-se miseràvelmente na lama? E porquê? para fazer fortuna? Mas o Sr. Crookes é rico, segundo dizem, e demais ele sabe que atualmente os feiticeiros não colhem vantagem alguma de suas relações com o diabo, salvo a de puxar-lhes constantemente a cauda, pelo menos nesta vida.

Porém, insinuarão, o Sr. Crookes é um especialista de quem se pode dizer, como de muitos pseudo-sábios de hoje, que sabe o que todo o mundo ignora, mas, em compensação, ignora o que todo o mundo sabe. Convém responder a essa insinuação, e aproveitaremos o ensejo para apresentar o Sr. Crookes àqueles de nossos leitores que ainda o não conhecem.

Sob o ponto de vista científico, não podemos dizer que o Sr. Crookes tenha sido educado à inglesa, porque, em vez de começar tardiamente seus estudos e permanecer como estudante até à idade em que, na Alemanha, por exemplo, já se é professor, aos vinte anos publicava interessantes memórias sobre a luz polarizada; depois, foi um dos primeiros na Inglaterra que estudaram, por meio do espectroscópio, as propriedades dos espectros solar e terrestre. Devem-se-lhe importantes trabalhos sobre a medida da intensidade da luz, e engenhosos instrumentos: o fotômetro de polarização e o microscópio expectral, por exemplo. Seus escritos sobre a química geral (Chemical News, ano de 1859) foram muito apreciados desde que apareceram. E' autor de um tratado de análises químicas ("Métodos escolhidos"), hoje clássico. Devem-se-lhe numerosas investigações em Astronomia, especialmente sobre fotografia celeste. Em 1855-56, a Sociedade Real de Londres, que o admitiu no número de seus membros efetivos - em primeiro escrutínio -, concedeu-lhe a título de animação um prêmio pecuniário para prosseguir em seus trabalhos sobre a fotografia da Lua. O Governo da Rainha enviou-o ultimamente a Oran, para observar o eclipse. Acrescentemos ainda que se ocupa de Medicina e de Higiene, como provam seus trabalhos sobre a peste bovina, etc., etc. Mas duas descobertas principalmente classificaram o Sr. Crookes entre os mestres da ciência moderna: o ilustre sábio já se tinha distinguido por um processo de amálgama com o auxílio do sódio, processo que é hoje empregado na Austrália, na Califórnia e na América do Sul, pela indústria metalúrgica do ouro, quando fêz conhecer um novo corpo simples metálico: o Tálio. Aprecia-se o valor de semelhante descoberta, quando se sabe que o número dos corpos simples conhecidos na série dos metais elevava-se a cinquenta mais ou menos. O Sr. Crookes foi conduzido a essa preciosa descoberta por seus trabalhos sobre a análise espectral. Foi também assim que foram isolados o cério, o rubídio e o índium.

Lembremos, de passagem, que se denominam corpos simples os metalóides e metais nos quais para a análise quimica e que nenhum processo conhecido os pode decompor em outros corpos. Conseguintemente, a designação de corpos simples dá antes a medida de nossos meios de investigação do que uma verdadeira definição da natureza real desses corpos. Não temos, com efeito, nenhuma idéia exata do que seja a MATÉRIA. Eis onde ainda está a ciência dos homens !

A segunda descoberta do Sr. Crookes vem corroborar o que avançamos: queremos falar da matéria radiante.

O Sr. Crookes, por meio de uma série de experiências de exatidão extrema, demonstrou esse estado entrevisto por Faraday. Não faremos o histórico dessas experiências tão importantes sob o ponto de vista filosófico da Química, da Física e do estudo da matéria em geral: em resumo, ressalta disso que a matéria, em sua essência, deve ser UMA e os corpos variados que caem sob nossos sentidos imperfeitos não passam de um agenciamento, de uma estrutura molecular especial da matéria, segundo a expressão do célebre químico Boutterow, de São Petersburgo, que, digamo-lo incidentemente, confirmou o que pôde examinar das experiências do Sr. Crookes sobre a força psíquica. (Os indus há muitos séculos dizem que a matérla é uma, mas que as variedades são infinitas. A fórmula, em que eles condensam essa doutrina, é variedade na unidade.)

O Sr. Crookes repetiu as suas experiências sobre a matéria radiante em 1879 (Setembro), no Congresso da British Association para o adiantamento das ciências, e 1880, na Escola de Medicina de Paris e no Observatório, a convite do professor Wurtz e do Almirante Mouchez. Os efeitos produzidos pela matéria nesse estado são dos mais surpreendentes e de uma potência formidável. Foi um grande sucesso para o Sr. Crookes.

As poucas linhas precedentes darão, pelo menos esperamo-lo, uma idéia do alto valor científico do homem que não temeu abordar o estudo dos fenômenos espíritas.

Por isso, quando o ilustre membro da Royal Society anunciou em seu jornal (<<Quarterly Journal of Science») que ia ocupar-se dos fenômenos do que por lá se denomina Espiritualismo moderno, foi uma exclamação geral: «Enfim! vamos ficar informados !» Mas desde os primeiros artigos, quando viram o Sr. Crookes admitir a realidade dos fenômenos, declarar que os havia observado, pesado, medido, registrado, etc., a coisa mudou de feição. Houve, sem dúvida, muita gente que deu o assunto como julgado; mas todo o mundo não quis render-se e fizeram-se ouvir palavras de reprovação mais ou menos sincera. Não será isso um dos incidentes menos curiosos da história do Espiritismo.

O Sr. Crookes havia entretanto mostrado a maior severidade no decurso de suas investigações; mas as pessoas que se julgaram contrariadas no momento da digestão pacífica de seus conhecimentos adquiridos, irritaram-se vendo pronunciar-se, em sentido contrário ao seu, um juiz do qual haviam antecipadamente aceitado as conclusões, mas sob condição, implicitamente formulada, de que elas fôssem conforme às suas idéias.

Veremos, não obstante, que essas investigações foram empreendidas com um espírito verdadeiramente científico e que o seu autor não pecava por excesso de credulidade:

"O espiritualista, diz o Sr, Crookes, fala de corpos com o peso de 50 ou 100 libras, que são elevados no ar sem intervenção de força conhecida; mas o químico acostumou-se a fazer uso de uma balança sensível a um peso tão pequeno que seriam precisos dez mil como ele para perfazerem um grão. Ele julga-se por conseguinte autorizado a pedir a esse poder, o qual se diz guiado por uma inteligência, e suspende até ao teto um corpo pesado, que faça mover sob condições determinadas sua balança tão delicadamente equilibrada.

O espiritualista fala de pancadas que se produzem nos diferentes partes de um aposento, quando duas ou mais pessoas estão tranquilamente sentadas em torno de uma mesa. O experimentador cientifico tem o direito de pedir que essas pancadas se produzam sobre a membrana esticada de seu fonautógrafo.

O espiritualista fala de quartos e de casas sacudidos, a ponto de ficarem danificados, por um poder sobre-humano. O homem de ciência apenas pede que um pêndulo colocado debaixo de uma campânula de vidro e repousando em base de alvenaria sólida seja posto em vibração.

O espiritualista fala de artigos pesados de mobília a se moverem de uma peça para outra sem a ação do homem. Mas o sábio construiu instrumentos que dividem uma polegada em um milhão de partes: e ele está autorizado a duvidar da exatidão das observações efetuadas, se a mesma força não conseguir deslocar de um simples grau o indicador de seu instrumento.

O espiritualista fala de flores molhadas de orvalho fresco, de frutas e até de seres vivos conduzidos através de vidraças fechadas e mesmo através de sólidas paredes de tijolos. O investigador científico pede naturalmente que um peso adicional (embora da milésima parte do grão) seja colocado em uma das conchas de sua balança quando esta estiver trancada à chave. E o químico pede que seja introduzida a milésima parte de um grão de arsênico através das paredes de um vidro com água pura, hermeticamente fechado.

O espiritualista fala de manifestações de uma potência equivalente a milhares de libras e que se produz sem causa conhecida. O homem de ciência, que crê firmemente na conservação da força e pensa que esta não se produz sem o esgotamento correspondente de alguma coisa para substituí-la, pede que as ditas manifestações se produzam em seu laboratório, onde poderá pesá-las, medi-las e submetê-las às suas próprias experiências. "

Foi com esses sentimentos que o Sr. Crookes abordou o estudo dos fenômenos cujo exame se impunha, pensava ele, à Ciência, sem que ela pudesse protelar por mais tempo. Depois de ter feito essa espécie de profissão de fé científica, o autor acrescenta, em nota, a seguinte observação:

"Para ser justo a esse respeito, devo estabelecer que, expondo estas vistas a muitos espiritualistas eminentes e aos médiuns mais dignos de confiança da Inglaterra, uns e outros exprimiram sua perfeita confiança no êxito da investigação, se esta fôsse levada a cabo lealmente no espírito que já indiquei. Propuseram-se auxiliar-me com todo o poder de seus meios, pondo à minha disposição as suas faculdades particulares. E até ao ponto em que cheguei, posso acrescentar que as experiências preliminares foram satisfatórias."

§ II

O Sr. Crookes já devia saber um pouco o que pensar a respeito da «força psíquica». Com efeito, um ano ou dois antes de começar os seus trabalhos nesta matéria, um grêmio sábio de Londres, The Dialectical Society, fundado em 1867, sob a presidência de Sir John Lubbock, já se tinha pronunciado a esse respeito de modo positivo, Quando essa sociedade, composta de notabilidades científicas, decidiu em sua sessão, de 6 de Janeiro de 1869, que ia ocupar-se com os «pretendidos fenômenos espiritualistas;" era, conforme declaração da ata, com a idéia de que ia destruir para sempre essa superstição que começava a ser um estorvo, porque todo o mundo falava dela. A Dialectial Society nomeou para esse fim uma comissão formada por trinta e três membros efetivos, que se subdividiram em seis sub-comissões.

Entre os membros dessa comissão figurava um sábio cujo nome é muito conhecido entre os naturalistas: Alfredo Russel Wallace, que nos deu, em uma obra interessante, (A. Russel Wallace, Miracles and modern Spiritualism) informações muito curiosas relativas à história da comissão de que fazia parte.

Excetuando quatro membros que desde o começo acreditaram na realidade dos fenômenos sem aceitarem a teoria espiritualista, e outros quatro que ao mesmo tempo admitiam os fenômenos e a dita teoria, a comissão compunha-se de sábios completamente cépticos. Entretanto, quando chegou o momento de apresentar um relatório à Dialectial Society, condensaram em um único feixe os resultados das experiências tentadas pelas seis submissões, - a maior parte delas somente com as «forças dos membros -, e todos esses depoimentos relativos às investigações feitas pelos seis grupos de sábios, trabalhando separadamente, foram concordes .

O relatório das comissões dos trinta e três compunha-se de duas partes distintas: na primeira parte eram relatados os fatos verificados pelas seis sub-comissões; a segunda continha os testemunhos orais ou escritos, fornecidos aos membros desse inquérito de novo gênero, por testemunhas honestas e dignas de fé.

Na primeira parte, o relatório concluía afirmativamente a respeito da existência:

1º - De ruídos, de vibrações, de natureza muito variada, produzidos fora de toda ação muscular ou mecânica;

2º - De movimento de corpos pesados sem ação muscular ou mecânica e frequentemente sem contacto ou conexão com pessoa alguma;

3º - De ruídos que, por meio de um código de sinais, respondem a perguntas de maneira inteligente;

4º - Ainda mais, se as comunicações são em grande parte de caráter banal, dão às vezes informações desconhecidas de todos os presentes;

5º - E também que existem certas pessoas favoráveis por sua presença à produção do fenômeno, enquanto que outras pessoas os contrariam, mas que essa diferença nada tem que ver com a opinião professada por essas pessoas em relação aos fenômenos.

Os depoimentos orais ou escritos foram trazidos à Sociedade por diferentes personalidades, tais como o professor A. de Morgan, presidente da Sociedade de Matemática de Londres e secretário da Real Sociedade Astronômica; M. C. F. Varley, engenheiro-chefe das companhias de telegrafia internacional e nacional e transatlântica, amigo do ilustre Tyndal.

Esta segunda parte do relatório era ainda mais variada do que a primeira, e o relator concluía que os testemunhos mencionados afirmavam a existência de fatos tais como: corpos pesados e, em certos casos, homens elevando-se espontâneamente no ar; aparição de mãos e de formas que não pertenciam a nenhum ser humano, mas parecendo animadas e podendo ser agarradas pelos assistentes; execução de pedaços de músicas em instrumentos que ninguém estava tocando; aparição quase instantânea de desenhos ou pinturas, formando-se espontâneamente, etc., etc.

O Sr. Russel Wallace faz notar que as suas observações levaram-no a estabelecer que o grau de convicção obtido pelo experimentador é mais ou menos igual à soma de tempo e de trabalho empregados nas investigações. Assim acontece relativamente a todos os fenômenos naturais, ao passo que o exame de uma impostura ou de uma ilusão, diz o Sr. Wallace, conduz a um resultado invariàvelmente oposto.

Os membros da Sociedade Dialética, que não tinham feito parte da comissão, não ousaram tomar a responsabilidade do relatório e deixaram que os membros da referida comissão o publicassem por sua conta e risco. O Sr. Crookes conhecia as experiências da Sociedade Dialética, por isso, não deviam surpreender-lhe os primeiros resultados que obteve.

§ III

A primeira parte das investigações do Sr. Crookes convergiu para os fenômenos determinados por um «médium"' bem conhecido, o célebre Home, cujo nome foi citado nesses últimos tempos e que acaba de falecer em Paris, em um estado vizinho da miséria. Encontram-se todas as informacões desejáveis a respeito desse médium em uma obra onde ele próprio conta a sua vida (Daniel Dunglas Home, Révélation sur ma vie surnaturelle) e os fatos que foram atestados por sábios e médicos dos dois hemisférios.

Um dos fatos mais interessantes produzidos por Home era o que os cépticos chamavam "a sorte do acordeão". Em pleno dia, o médium segurava com uma só mão o acordeão pela extremidade oposta às chaves, e o instrumento tocava, em aparência, espontâneamente, as mais variadas árias e com a melhor execução. Foi a primeira coisa que o Sr. Crookes examinou. A experiência é longamente narrada em seu livro. Vê-se que foram tomadas as mais minuciosas precauções; foi até notada a temperatura da sala onde se operava (era em casa do próprio Sr. Crookes). Dois observadores, colocados de cada lado de Home, punham os pés sobre os dele. O Sr. Crookes havia visto o médium vestir-se para certificar-se de que ele não introduzia sob sua roupa nenhum instrumento, etc.; uma gaiola de metal rodeava o acordeão ... Mas ofereçamos a palavra ao Sr. Crookes:

" ... Depois de abrir com minhas mãos a chave da parte baixa do instrumento, retirou-se de sob a mesa a gaiola quanto bastou para ser nela introduzida o acordeão com as chaves voltadas para baixo. A gaiola foi depois empurrada para debaixo da mesa, tanto quanto o permitiu o braço do Sr. Home, mas sem lhe ocultar a mão aos que estavam perto dele.

Os que estavam de cada lado viram o acordeão balançando-se de maneira curiosa; depois, desprenderam-se dele alguns sons, e, finalmente, muitas notas foram tocadas sucessivamente; meu ajudante agachou-se sob a mesa, disse-nos que o acordeão alongava-se e encolhia-se; ao mesmo tempo verificava-se que a mão com a qual o Sr. Home segurava o acordeão estava completamente imóvel e que a outra repousava sobre a mesa.

Depois, os que estavam dos dois lados do Sr. Home. Viram o acordeão mover-se, oscilar, volte ar em torno da gaiola e tocar ao mesmo tempo. O Dr. A. B. (O dr. A.B. era professor Huggins (N.Autor)) olhou então para baixo da mesa e disse que a mão do Sr. Home parecia completamente imóvel enquanto o acordeão se movia, produzindo sons distintos.

O Sr. Home manteve ainda o acordeão na gaiola pelo modo ordinário; (Isto é, com o lado das chaves voltado para baixo) seus pés estavam seguros pelas pessoas que estavam junto dele, a outra mão repousava sobre a mesa e, ainda assim, ouvimos notas distintas e separadas, ressoando sucessivamente, e depois uma ária simples foi tocada. Como tal resultado só podia ser produzido pelas diferentes chaves do instrumento postas em ação de maneira harmoniosa, todos os presentes consideraram-no como experiência decisiva. Mas o que se seguiu, foi ainda mais surpreendente: o Sr. Home afastou inteiramente do acordeão a sua mão, retirou-a completamente da gaiola e segurou na mão da pessoa que estava perto dele. Então o instrumento continuou a tocar, sem contacto algum e sem mão alguma perto dele.

Eu quis depois experimentar que efeito produziamos fazendo passar a corrente elétrica da bateria em torno do fio isolado da gaiola. Para esse fim, meu ajudante estabeleceu a comunicação com fios que partiam de pilhas de Grove. De novo, o Sr. Home segurou no instrumento dentro da gaiola, do mesmo modo que precedentemente, e imediatamente ele ressoou, agitando-se de um a outro lado com vigor. Mas não me julgo autorizado a dizer se a corrente elétrica, passando em torno da gaiola, veio em auxílio da força que se manifestava no interior.

O acordeão ficou então sem nenhum contacto visível com a mão do Sr. Home. Ele retirou-a completamente do instrumento e colocou-a sobre a mesa, onde foi segura pela mão da pessoa que se achava perto dele; todos os presentes viram bem que as suas mãos estavam ali. Dois dos assistentes e eu percebemos distintamente o acordeão flutuando no interior da gaiola, sem nenhum suporte visível. Após curto intervalo, esse fato repetiu-se segunda vez.

Então, o Sr. Home tornou a pôr a mão na gaiola e tomou de novo o acordeão que começou a tocar a principio acordes e arpejos e depois uma doce e queixosa melodia muito conhecida, que foi executada de modo perfeito e belíssimo. Enquanto essa ária era tocada, peguei no braço do Sr. Home, acima do cotovelo e fiz correr docemente a minha mão, até que ela tocassse a parte superior do acordeão. Não se movia nenhum músculo. A outra mão do Sr. Home estava sobre a mesa, visivel a todos os presentes, e seus pés conservavam-se sob os pés dos que estavam a seu lado.

Depois de haver alterado em todos os sentidos essa curiosa experiência do acordeão e de haver-se convencido de que o instrumento se agitava sob a ação de uma força invisível, o Sr. Crookes construiu aparelhos para registrar certos fatos de aumento de peso dos corpos, que ele observara cinco vezes diferentes. «Em cinco ocasiões diferentes, diz o Sr. Crookes, vi objetos, cujos pesos variavam de 25 a 100 libras, momentâneamente influenciados, de tal forma que eu e outras pessoas presentes, só com muita dificuldade, conseguíamos suspendê-los do chão.»

Para certificar-se de que o efeito era real e não produzido por sugestão operada sobre sua imaginação, o Sr. Crookes construiu um aparelho: Uma tábua de mogno descansava uma extremidade sobre uma mesa e a outra ficava dependurada ao gancho de uma balança de mola. O médium colocava a extremidade de seus dedos sobre objetos postos no extremo da tábua que descansava na mesa. Ou então, em lugar de descansar diretamente sobre corpos sólidos (caixa de fósforos de papelão, campainha), a extremidade dos dedos de Home era mergulhada na água de um vaso isolado, fixado em outro vaso cheio de água, de modo que a pressão do líquido não tivesse ação sobre o aparelho. E' fácil compreender, pela descrição, que a pressão exercida pelos dedos de Home não podia ter ação alguma sobre a balança situada na outra extremidade da tábua. A outra extremidade da tábua estava suspensa ao gancho de uma balança, de mola, já o dissemos.

Um cursor munido de uma agulha permitia, obter o traçado auto gráfico das variações de pesos, traçado que se produzia sobre uma lâmina de vidro enegrecida pelo fumo de uma lâmpada movida horizontalmente por meio de um maquinismo de relojoaria.

Quando os dedos de Home não tocavam no aparelho, a lâmina de vidro, posta em movimento, era marcada com uma linha horizontal; mas desde que os dedos eram postos em contacto com o instrumento, do modo acima assinalado, o índex descia até o ponto de indicar um aumento de peso de 5.000 grãos (cerca de 325 gramas). Em uma primeira experiência, em que a disposição era outra, enquanto Home conservava os dedos sobre a campainha e a caixa de fósforos de papelão, o Dr. Huggins, sábio mui conhecido, observava o cursor da balança de mola, e verificou, diversas vezes, que o peso acusado era de seis libras e meia e mesmo de nove libras. Ora, o peso normal da tábua, disposta como estava, era apenas de três libras: ela tivera, por conseguinte, em um momento dado, um aumento de peso de 300%.

O Sr. Crookes fêz a seguinte experiência comparativa: subiu à mesa, e, sustentando-se sobre um pé, apoiou-se com todo o seu peso (140 libras) em cima do ponto da tábua em que Home havia conservado seus dedos, sem pressão. O Dr. Huggins, que observava o índex da balança, verificou que todo o peso do Sr. Crookes só influía nela por libra e meia ou duas libras, e era quando o Sr. Crookes provocava um abalo.

Os Srs. W. Huggins e Ed. W. Cox, duas notabilidades científicas da Inglaterra, que auxiliaram o Sr. Crookes nessas experiências, escreveram-lhe cartas por ocasião de uma memória que o último submeteu à apreciação daqueles, nas quais eram expostas as experiências.

Essas cartas merecem atenção do leitor imparcial.

"Uper Tulse Hill, S. W., 9 de Junho de 1871.

Meu caro Sr. Crookes.

A memória que publicastes, parece-me a exposição fiel do que em minha presença ocorreu em vossa casa. A minha posição na mesa não me permitiu ver a mão do Sr. Home, afastada do acordeão, mas somente que esse fato foi estabelecido naquele momento por vós e pela pessoa sentada do outro lado do Sr. Home.

Essas experiências mostram que seria importante fazer novas investigações; mas desejo deixar bem entendido que não exprimo opinião alguma quanto à causa dos fenômenos que ocorreram.

Sou, muito sinceramente, vosso

William Huggins."

"Russell Square, 36, 8 de Junho de 1871.

Caro Senhor:

Estando presente, com o intuito de investigações, às experiências de ensaio relatadas em vosso artigo, apresso-me em trazer meu testemunho em favor da perfeita exatidão com que as descrevestes, e das precauções e cuidado que empregastes nas diferentes provas.

Os resultados parecem-me estabelecer de maneira concludente este fato importante: há uma força procedente do sistema nervoso e que é capaz, na esfera de sua influência, de dar aos corpos sólidos movimento e peso.

Verifiquei que essa força era emitida por pulsações intermitentes e não sob a forma de uma pressão fixa e continua, porque o index subia e baixava incessantemente durante a experiência. Esse fato, julgo-o de grande importância, porque tende a confirmar a opinião que lhe dá por origem a organização nervosa, e contribui muito para apoiar a importante descoberta do Dr. Richardson, de uma atmosfera nervosa, de variável intensidade, envolvendo o corpo humano.

As vossas experiências confirmam inteiramente a conclusão a que chegou a comissão de investigações da "Dialectical Society", após mais de quarenta sessões de ensaios e de provas.

Permiti-me acrescentar que não vejo nada tendente a provar que essa força seja outra coisa além de uma força emanada do organismo humano, ou pelo menos ligada a ele diretamente, e que, por conseguinte, como todas as outras forças da Natureza, ela é de plena competência dessa rigorosa investigação científica, à qual fostes o primeiro a submetê-la.

A Psicologia é um ramo da Ciência que tem sido até hoje quase inteiramente inexplorado; e essa negligência deve provàvelmente ser atribuída ao fato estranho, de que a existência dessa força nervosa tenha permanecido por tanto tempo sem ser estudada, examinada, mas apenas consignada.

Agora, uma vez estabelecido, com provas dadas por aparelhos, que é um fato da Natureza (e se é um fato, não é possível exagerar-se-lhe a importância sob o ponto de vista da Fisiologia e da luz que deve fazer sobre as leis obscuras da vida, do espírito e da ciência médica), sua discussão, seu exame imediato e sério só podem ser feitos pelos fisiologistas e por todos os que tomam a peito o conhecimento "do homem", conhecimento que foi denominado, com razão, "o estudo mais nobre da Humanidade".

Para evitar a aparência de qualquer conclusão prematura, eu aconselharia que se adotasse para essa força um nome que lhe fôsse próprio, e ouso sugerir a idéia de denominá-la força "psíquica"; que as pessoas, nas quais ela se manifesta com grande poder, chamem-se "psiquistas", e que a ciência, que a ela se refere, se intitule "psiquismo", como ramo da Psicologia .

Permiti-me também propor a próxima formação de uma Sociedade Psicológica, no intuito de fazer adiantar, por meio de experiências, dos jornais e da discussão, o estudo dessa ciência até aqui desprezada.

Sou, etc .

Ao Sr. W. Crookes, F.R.S."

§ IV

E' mister ler-se o livro do Sr. Crookes para fazer-se uma idéia do zelo de precauções de que ele se rodeou em suas experiências. O pobre Home era submetido a provas bem ofensivas: seguravam-se-lhe os pés e as mãos, não tinha o direito de fazer um movimento, sem que muitos pares de olhos desconfiados se fixassem nele.

As experiências acima foram repetidas com outra pessoa dotada de um «poder» semelhante ao do Sr. Home, mas menos forte. Demais, com essa pessoa, que o Sr. Crookes não nomeia, porque, diz: ele, ela não fêz profissão de médium, o sábio realizou experiências da mesma natureza, mas com instrumentos mais delicados.

Obtiveram-se traçados com o auxílio de um destes instrumentos, no qual uma membrana de pergaminho, esticada sobre um quadro, devia servir, sem contacto das mãos, para fazer mover a extremidade da alavanca que repousava nela. Os efeitos ruidosos obtidos por intermédio da pessoa em questão foram muito notáveis: parecia aos experimentadores que caía uma saraiva sobre a membrana de pergaminho. Os traçados obtidos quando o Sr. Crookes segurava as mãos do médium, que permaneceram completamente imóveis, foram registrados pelo aparelho.

Os traçados obtidos com o Sr. Home por meio do mesmo instrumento são mais acidentados e marcam uma força mais considerável, se bem que ela tenha operado a muito maior distância do que no caso precedente.

Partindo dessas experiências, o Sr. Crookes concluiu que a existência de uma força associada ao organismo humano deve ser considerada fora de dúvida. Essa força, «por meio da qual pode ser produzido um aumento de peso nos corpos sólidos sem contacto efetivo», encontra-se em raros indivíduos. Na mesma pessoa, ela é muito variável de um momento a outro. Depois de haver observado o «estado penoso de prostração nervosa e corporal em que algumas dessas experiências deixaram o Sr. Home, depois de vê-lo em estado de desfalecimento quase completo, estendido sobre o soalho, pálido e sem voz», o Sr. Crookes pensa que essa, influência procede do sistema nervoso e que essa força psíquica é "acompanhada de um esgotamento correspondente de força vital". (Home morreu de afecção nervosa; é a sorte de todos os que, como ele, se prestam a essas experiências de maneira contínua. Os faquires da Índia acabam geralmente do mesmo modo).

E' bom repetirmos que todas essas experiências foram feitas na casa e no laboratório de seu autor, por meio de instrumentos seus, e com a assistência de preparadores, que são mestres na maior parte .

William Crookes havia publicado as suas investigações, quando Boutterow, professor de Química na Universidade de São Petersburgo, lhe escreveu que acabava de fazer experiências semelhantes com Home, cuja força nesse momento era das mais consideráveis. Um aparelho havia sido disposto de tal forma que a pressão das mãos de Home no lugar onde eram aplicadas teria diminuído a tensão, se este último tivesse feito o mínimo esforço. O dinamômetro, que servia na experiência, marcava uma tensão normal de 100 libras. Quando Home aplicou as suas mãos, a tensão do dinamômetro foi elevada a 150 libras.

O autor lembra também em seu livro que o Dr. Roberto Hare, professor emérito de Química, obtivera resultados idênticos, do mesmo modo que o Sr. Thury, professor da Academia de Genebra, em 1855. Este último repelia a intervenção dos "Espíritos», não queria ver nesses fenômenos senão o efeito de uma força nervosa especial, análoga ao éter dos sábios, que transmite a luz, e dava a essa força o nome de força ectênica.

A existência dessa força é, pois, incontestável.

Poderíamos admitir isso fàcilmente, mas eis que a comissão de investigações da Sociedade Dialética de Londres, ao mesmo tempo que estabelecia a sua realidade, depois de experiências, «atesta que essa força é frequentemente dirigida por alguma Inteligência» .

Em sua obra sobre a sugestão, o professor Bernheim, de Nanci, não admite a ação de uma força emanante do corpo humano nas manifestações magnéticas ou hipnóticas. Ele nega a existência dessa força; entretanto, o Dr. Barety, depois de Mésmer, verificou-lhe os efeitos de modo claro, por meio de experiências muito engenhosas. (Barety, Força nêurica radiante, vulgarmente chamada magnetismo animal) O Dr. Barety demonstrou mesmo que essa força, que ele denomina força nêurica radiante, produz seus efeitos através de uma parede, mas que não atravessa a água, na qual ela se acumula. Essa força difere pois da força psíquica, porque esta se transmite através da água, como vimos nas experiências precedentes.

Quando o Sr. Crookes tornou conhecidas as suas investigações, elas foram muito mal recebidas; naturalmente, a Sociedade Real, da qual faz parte esse experimentador, não quis saber de uma novidade tão comprometedora, e o professor Balfour Steward levou a facécia ao ponto de supor que o Sr. Crookes e as pessoas que o haviam auxiliado, tivessem sido fascinados pela grande potência electro-biológica (?) do Sr. Home. «E' possível - respondeu o Sr. Crookes - que tivéssemos sido fascinados, mas os instrumentos registradores teriam também sido fascinados?»

O sábio inglês verificou o fato importante seguinte: quando a «força» era débil, a luz exercia uma ação contrária sobre alguns dos fenômenos. Mas com Home, cuja força era considerável, podia-se operar em plena luz. Isso lhe permitiu experimentar a ação de diferentes luzes sobre essa força: luz do Sol - luz difusa - luar - gás - lâmpada - vela - luz amarela - homogênea, etc., etc.

Os raios menos favoráveis às manifestações «parecem ser os da extremidade do espectro»"

Até aqui, nada há de extraordinário nas experiências do Sr. Crookes, nada, em aparência, para um observador superficial, mas o sábio «habituado às investigações maravilhosamente exatas» diz a si mesmo que, se sem ação de força conhecida, uma pena se move espontâneamente, não há razão para que um homem não se eleve igualmente, e nas mesmas condições, acima do solo"

Eis porque o Sr. Crookes fala dos fenômenos seguintes de um modo natural, cujo princípio já é admitido; por isso contenta-se ele com indicar sumàriamente diferentes fenômenos que observou e que reserva sem dúvida para um trabalho de mais fôlego, classificando assim esses fenômenos:

I Classe - Movimentos de corpos pesados com contacto, mas sem esforço mecânico.

II Classe - Fenômenos de percussão e outros sons da mesma natureza.

III Classe - Alteração do peso dos corpos.

IV Classe - Movimentos de objetos pesados colocados a certa distância do médium.

V Classe - Mesas e cadeiras suspensas do solo, sem contacto de ninguém.

VI Classe - Suspensão de corpos humanos. (Viu por três vezes Home elevar-se acima do soalho. )

VII Classe - Movimento de alguns pequenos objetos, sem contacto de ninguém.

VIII Classe - Aparições luminosas.

IX Classe - Aparições de mãos luminosas por si mesmas.

X Classe - Escrita direta.

XI Classe - Formas e figuras de fantasmas.

XII Classe - Casos particulares que parecem indicar a ação de uma Inteligência externa.

XIII Classe - Manifestações diversas de caráter composto.

Seria mister poder citar por inteiro o livro do Sr. Crookes; por isso incitamos todos os que não crêem ser essas questões dignas da atenção dos homens sérios para que leiam alguns capítulos (100) da obra que acabamos de analisar ligeiramente: encontrarão aí o tato científico de um experimentador consumado e o tom de uma alta sinceridade que impõe. Demais, ao mesmo tempo em que relata as sessões mais povoadas de fantasmas, o Sr. Crookes não nos diz que acredita nos Espíritos: parece ter posto de parte essa questão. (...)

Dr. Paul Gibier (O Espiritismo (faquirismo ocidental))