ENFOQUES CIENTÍFICOS NA
DOUTRINA ESPÍRITA

FENÔMENOS PARANORMAIS

Os fenômenos paranormais foram também denominados de espirituais por estarem atados às estruturas do espírito humano. Pela dificuldade de serem definidos representam sempre motivo de preocupação por parte da humanidade e, por transcenderem aos fatos psicológicos já homologados pela ciência, foram denominados de parapsicológicos.

Os pesquisadores mais dedicados aos fenômenos psíquicos ainda não puderam avaliar, com precisão, a mecânica desses fatos, embora estejam profundamente interessados nas leis que os regem. Sabemos que não existe um único processo ou lei que explique as suas razões - são muitos mecanismos em ação, combinados ou associados. Apesar das conquistas da física nuclear e melhor entendimento dos diversos campos de energia, a conceituação dos fenômenos espirituais não mais se limitam à referência dos fatos em si, mas, sim, estão a exigir a estruturação dos mecanismos que estão em jogo. Ainda muito pouco sabemos a respeito, porém a própria ciência vem proporcionando estudos e verificações de tão expressivas e interessantes maanifestações da vida.

As escolas filosóficas mais categorizadas que a humanidaade conheceu trataram com desvelado interesse das manifestações parapsicológicas, de modo esparso, sem enquadramento científico, mas que trouxeram interessantes subsídios no esclarecimento dessa temática. Com isso, não podemos esquecer os pensamentos pitagóricos, socráticos, platônicos e aristotélicos, como os mais expressivos da civilização helênica, a partir de 700 anos A.C.

Os fenômenos parapsicológicos atravessaram os séculos com as tonalidades e selos de suas próprias épocas, sendo acompanhados, mais a miúde, pelas seitas e religiões, porquanto a ciência não tinha possibilidades de avaliações, ficando, desse modo, a filosofia e a metafísica principalmente, com a responsabilidade das manipulações, algumas vezes absolutamente tendenciosas.

Com o advento da renascença, quando os filósofos do século XVIII iniciaram melhores equações do pensamento, essas idéias vão tomando um sentido mais eloqüente e mais sério. Porém, somente com as descobertas biológicas e físicas, mais bem estruturadas é sedimentadas a partir do século XIX, que os fenômenos parapsicológicos passam a ser enquadrados, melhor avaliados e como que incorporando-se em especial capítulo da Psicologia. Este grupo de idéias e observações foram encontrando apoio nas experiências e estudos dos métodos hipnóticos e aqueles que a psicologia profunda mostrou através dos estudos de Freud, Jung e Adler. E como se os véus da alma se fossem descerrando e mostrando a existência de um imenso conteúdo, porém, ainda, de vacilantes análises e difíceis conotações científicas. "É, claro e lógico que a hipnose, como também, os processos psicanalíticos não solucionaram os problemas, mas concorreram na demarcação de novas veredas em novos campos de trabalho e pesquisa.

"É, preciso que se diga que os capítulos da Psicologia e suas naturais expansões, que fazem parte da Parapsicologia, tiveram iluminações efetivas e proveitosas com o advento da Doutrina Espírita. A Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec não constitui um bloco de propostas e pensamentos filosóficos; sedimentou-se na observação criteriosa, a responder por autêntico processo científico. Houve uma pesquisa bem conduzida de lógicos resultados e confirmações dos fatos analisados. Com a Doutrina Espírita essa fenomenologia encontrou, não só apoio, mas, principalmente, esquemas e orientações que nos dias atuais causam admiração pelo modo como foram estudados e demonstrados. Estranhamos, profundamente, que os pesquisadores da parapsicologia tenham afastado e ocultado o grande pioneiro que foi Allan Kardec; nas páginas da parapsícologia Kardec é o grande esquecido.

Ficamos preocupados com os chamados pesquisadores da parapsicologia quando rejeitam o que de melhor e mais substancioso existe na fenomenologia paranormal, que são os fenômenos mediúnicos. Inegavelmente, existe uma incompreensível prevenção, por parte de muitos experimentadores, contra Kardec. Para nós, o codificador da Doutrina Espírita ofereceu um roteiro onde a ciência, além de suas próprias proposições, pudesse se acobertar na filosofia e mais se influenciasse nos terrenos da ética e da moral.

Para muitos, é necessário afastar a filosofia, a ética e a moral, por se tratarem de terrenos inseguros e ligações religiosas, a fim de que a ciência possa mostrar-se em sua verdadeira nudez. Mas a ciência do homem, ainda fria e divorciada das equações espirituais, perde-se num báratro de fenômenos que se multiplicam num infinito plano horizontal, sem a necessária verticalização para melhor observação e aproveitamento. As idéias somente se verticalizam e apresentam-se autênticas, com destinação e finalidade, diante das conseqüências morais e suporte filosófico de pensamentos sadios.

Com essa maneira de ver, só poderemos entender os fenômenos da para psicologia em face das conseqüências filosóficas e éticas, já bem traçadas pela Doutrina Espírita que defende e exige sempre uma pesquisa autêntica e sadia. A Doutrina Espírita, pelo seu dinamismo, açambarca todo o panorama da vida, cultuando a ciência em suas expansões mais delicadas e precisas, revestidas pelo entendimento filosófico e moral. Assim, a Parapsicologia, como qualquer ciência, encontra lugar de destaque dentro da Doutrina Espírita, que se ampliará e modificará casos os resultados autênticos da ciência venham demonstrar seus erros. Acontece, porém, que, até o momento, ainda não apareceu qualquer verdade científica que viesse mostrar os erros da Doutrina Espírita. Têm havido, sim, interpretações sectaristas de pessoas sem a devida competência, que não representam, pelas suas atitudes e informações, a classe dos pesquisadores e pensadores dos quais salientamos, além de A. Kardec, Russel Wallace, W. Barret, Richet, Hans Driesch, W. James, Aksakof, Lombroso, Lodge, Schiaparelli, Flamarion, Myers, Geley, G. Delanne. Gibier, Zollner, W. Crookes, Scherench-Notzing, Claude Bernard, Jung e tantos valores. Mais modernamente, no Brasil, possuímos uma plêiade de pensadores, onde podemos salientar os trabalhos de C. Schutel, Carlos Imbassahy, Herculano Pires, Hernani Guimarães Andrade, C. Alberto Tinoco, Marlene Nobre e muitos outros. Na América do Norte, salientamos a Escola de J. Rhine, que muita contribuição auferiu nos estudos de Soal, Price, Carrigton e outros. Na Rússia, muitas pesquisas estão sendo realizadas, porém obedecendo a temática materialista, onde esses fenômenos, em sua totalidade, seriam conseqüência exclusiva do bioquimismo das células cerebrais.

Devido ao interesse despertado na área parapsicológica, muitos congressos já foram realizados. Lembramos o de Copenhague, em 1922, o de Varsóvia, em 1923, o de Paris, em 1927, o de Atenas, em 1930, o de Oslo, em 1935 e o de Utrecht em 1953. Na maioria desses congressos, não foram abordados certos assuntos, principalmente o ponto referente a reencarnação e sobrevivência, o que mostra o reduzido campo das proposições aventadas.

Outros congressos e seminários aconteceram na Europa, onde o processo reencarnatório, a questão de sobrevivência do espírito e a fenomenologia mediúnica vem ocupando lugar de destaque, apesar de representarem áreas de imensas resistências e, por incrível que pareça, acolitados por indivíduos que participam de atividades espíritas. Neste caso, só podemos explicar tal procedimento, em virtude do indivíduo ocultar-se e enquadrar-se nos preceitos da ciência, chamada de oficial, em suas determinações materialistas; com isto, não queremos dizer que devamos estar atastados da ciência. Muito ao contrário. Devemos elevar os seus padrões de compreensão nas suas reais conquistas.

A ciência se faz dentro de parâmetros, em face das razões do intelecto humano, ainda limitadas e equacionando as suas verdades pelas verificações de seus próprios limites. O psiquismo humano, avaliado pela zona consciente (psiquismo de superfície), ainda está restrito às medidas de nossos sentidos. Existem muitos fatos que ultrapassam a zona do consciente, atingindo o psiquismo de profundidade, onde uma efusiva multiplicidade de fenômenos podem ser observados. Portanto, podemos dizer que ainda não nos encontramos capacitados para avaliar certos fenômenos do psiquismo, porém, jamais devemos negar tudo aquilo que ainda não percebemos de modo ostensivo.

Na atualidade o termo Parapsicologia toma posição de enquadramento da fenomenologia paranormal, ficando os de Metapsíquica ou de Psifenômenos praticamente abandonados, embora a significação seja a mesma. Os rótulos não definem as posições exatas dos fenômenos; estes, por sua desenvoltura é que se situam em determinados capítulos do conhecimento humano. Se os tempos hodiernos creditaram o termo Parapsicologia como o que melhor se enquadra na temática em apreço, aceitemo-lo, pois realmente está perfeitamente ajustado aos conceitos a que se propõe; por isso, a Parapsicologia passa a responder pelos fenômenos paranormais com todos os seus matizes e apresentações, e jamais deverá servir apenas a alguns ângulos de pesquisa, porque determinada corrente assim o entende. Ou encaramos a Parapsicologia como a ciência que açambarca todos os fenômenos paranormais - fenômenos psicológicos que estão além daqueles já estudados e computados pela Psicologia de nossos dias - ou estaremos dando guarida a opiniões e escolas tendenciosas.

Os estudiosos dos fenômenos parapsicológicos enquadram as suas respectivas apresentações em qualidades específicas do psiquismo. Assim, no psiquismo humano, existiriam três capacidades: a PSI-Gama, a PSI-Kapa e a PSI-Theta, a se expressarem em face do tipo de fenômeno e a maior ou menor sensibilidade dos seres.

A capacidade PSI-Gama estaria ligada aos chamados fenômenos inteligentes relacionados com a clarividência, audiência, telepatia, leitura de cartas, psicografia, psicofonia, psicometria, etc.

A capacidade PSI-Kapa estaria ligada às ações psicocinéticas que se referem, principalmente, ao deslocamento de objetos sem interferência da força física.

A capacidade PSI-Theta abrangeria toda a fenomenologia ligada aos espíritos desencarnados, isto é, com a interferência dos mortos.

A menor observação atesta que essas "capacidades" do psiquismo raramente se encontram isoladas, apresentando fenômenos bem definidos de sua área. Elas como que se conjugam, se interpenetram, mostrando os fatos que, por mais simples que sejam, exigem complexa estruturação. Desse modo, torna-se realmente difícil tentar explicar o fenômeno parapsicológico sem a conjuntura psíquica de totalidade em ação, onde as energias específicas da zona central do Inconsciente ou zona Espiritual comandam o processo. Também é preciso salientar que muitos pesquisadores ligam os fenômenos parapsicológicos às capacidades PSI·Gama e PSI-Kapa, colocando, sob fortes dúvidas, a capacidade PSI·Theta. Baseados nesta conceituação, afirmam que todos esses inusitados fenômenos são exclusivo resultado das células nervosas do ser encarnado.

Claro que existem inúmeros fenômenos pertencentes ao psiquismo dos encarnados, conhecidos como fenômenos anímícos, ficando o termo de fenômenos mediúnicos quando há interferência do espírito desencarnado. Como admitimos a imortalidade e a lei palingenética ou reencarnação, os fenômenos parapsicológicos, tendo como plataforma a zona do Inconsciente ou Espiritual são, em última análise, do Espírito, que pode estar encarnado (alma na conceituação kardequiana) ou desencarnado.

O que comumente se observa é que os fenômenos paranormais estão bem mesclados, pela sua complexidade, entre encarnados, desencarnados, ou associados entre ambos. Divaldo P. Franco, em uma de suas afirmações sob os fenômenos paranormais relacionados ao mediunismo, assim se expressa:

"A moderna parapsicologia, quanto a psicotrônica, através da sua chamada metodologia matemática têm uma técnica para demonstrar quando o fato é eventual e quando ele é casual; quando há interferência do acaso e quando se repetindo N vezes, eliminada a teoria da probalidade do vento fortuito, ele se torna de natureza racional, sendo programado. Além disso, a própria psicologia vem demonstrando proeminentes estudos da chamada Tanatologia, ou ciência que estuda a morte e as suas implicações, em que a sobrevivência do espírito, já não é mais dogma religioso, nem um conteúdo de comportamento espiritualista apenas, mas é um fato psicológico, psiquiátrico, conforme os estudos da doutora Elizabeth Kluber Ross e o dr. Raymond Mood Junior, que abriram horizontes novos para essa ciência, hoje incorporada à parapsicologia, com o nome de Paracemática, o ramo da parapsicologia que estuda os fenômenos de além-túmulo".

A Parapsicologia possui os seus métodos na avaliação dos fenômenos de sua área. Duas posições foram consideradas: um critério de unicidade e especificidade, portanto, qualitativo, e um critério estatístico, representando a condição quantitativa.

O método qualitativo é o de maior valor, embora dependendo da argúcia e experiência do pesquisador. Este método relata a vivência do fenômeno com todas as suas nuanças; diante das concordâncias e generalidades (procedimento kardequiano) passa a fazer parte da casuística em apreço, enquanto que o método quantitativo tem provado muito mais a inexistência do acaso.

O método quantitativo veio ao encontro dos anseios dos cientistas. Percebendo a realidade fenomênica, necessitavam das bases da ciência oficial. Este método, esquematizado nas posições analítico-intelectivas, tem seus limites e exige um número infindável de experiências, o que veio fortalecer o método qualitativo, quase sempre interpretado como fraude ou percepção patológica.

O método quantitativo teve forte apoio nos trabalhos e apreciaçõe$ de Richet, Lodge. Coover, Soal e mais modernamente J. Rhine. Tudo isso porque os cientistas não conseguem arrecadar e enquadrar no método qualitativo as posições definitivas dos fenômenos. Estes são oscilantes e variáveis, pois dependem das percepções dos sensitivos ou médiuns que, por sua vez, nunca se encontram em identidade de posições para uma determinada pesquisa. A maioria dos fenômenos paranormais relacionados com os sensíveis ou médiuns, pela sua intrinseca natureza, jamais se apresentam com as mesmas condições; as oscilações são palpáveis e compreensíveis.

Muitas teorias foram aventadas, a fim de explicar a mecânica para psicológica. Sendo os fenômenos parapsicológicos muito complexos não existirá uma teoria que tudo explique e defina. A estrutura fenomênica é bastante rica e variável, permitindo a existência de muitos mecanismos em ação.

Apreciando as hipóteses existentes sobre a temática, salientamos:

a) A hipótese de Jung: Admite um princípio de sincronicidade acima da causalidade, transcendendo o espaço e o tempo. Pela sua estruturação de aspecto filosófico e por não poder ser "medida nem pesada", foi bastante combatida.

b) A hipótese energética: Apresenta-se com inúmeras angulações. Muitos consideram a mente humana como um verdadeiro rádio ou mesmo aparelho especial de TV; tudo estaria relacionado a uma questão de sintonia. Para outros haveria um sexto sentido, um sentido apropriado ligado a uma percepção extra-sensorial; esta qualidade foi denominada de criptestesia. Outros tantos ampliaram a última conceituação, dizendo que a fenomenologia paranormal estaria ligada a criptestesia telepática, cujos fatores estariam relacionados aos interoceptivos vicerais; assim pensa e admite Khérumian. Neste último caso existiriam estruturações ligadas ao sistema neurovegetativo?

c) A hipótese idealista - Estaria diretamente relacionada com as regiões do Inconsciente humano, onde os sentidos conhecidos não teriam qualquer participação. Tudo se passaria em campos energéticos específicos, fora do tempo e espaço conhecidos, e as expensas de uma desconhecida mecânica.

A maioria dos investigadores encontra-se enquadrada neste pensamento, embora variando a conceituação da zona Inconsciente do psiquismo. Para uns, a zona Inconsciente é resultado do trabalho das células nervosas ou neurônios; para outros, o inconsciente seria uma região específica de energia imortal (jamais desaparecendo com a morte do corpo físico) representando a Individualidade a captar material das experienciações nas Personalidades ou corpos físicos que vai ocupando pelas diversas romagens reencarnatórias.

Vêm ganhando terreno, por múltiplas evidências e fatos bem equacionados, aqueles que explicam a fenomenologia paranormal às expensas dos campos energéticos do Espírito, em sua apropriada dimensão, como o responsável por qualquer processo dessa ordem. Isto daria à Parapsicologia uma mobilidade maior de pesquisa e avaliação, não acontecendo o mesmo com aqueles que restringem o processamento fenomênico exclusivamente aos campos da zona consciente. O processo é sempre profundo, os fenômenos são intensamente ricos pelas construções éticas que demonstram e as conseqüências morais para a vida humana.

Podemos, então, considerar que fenômenos deste jaez teriam sempre sua origem nos campos do Espírito ou zona do Inconsciente, com translado e respectivas projeções nas telas da zona consciente ou psiquismo de periferia. O processo se desenvolve na zona espiritual, mesmo diante impulsos externos de energias afins, transferindo-se para a zona cerebral onde haverá a tradução intelectiva a fornecer conhecimento e avaliação de sua presença.

A fenomenologia observada nas telas da zona consciente seria, antes de tudo, a projeção de um desenvolvimento que se efetuou nos campos energéticos do Espírito, jamais nas regiões limitadas da zona consciente. Alguns fenômenos teriam origem nas estruturas espirituais do próprio sensível ou médium, e outros tantos, sob influência das fontes espirituais externas. Os primeiros estariam classificados nos fenômenos anímicos e os segundos nos fenômenos espirituais.

Os que desejam reduzir a Parapsicologia a dois ou três capítulos, ficando outros conceitos, reconhecidamente comprovados, como se propriedade religiosa, estão cometendo o maior dos erros, em virtude de estarem isolando da ciência campos de pesquisa reais, que devem ser estudados, comentados e elucidados em suas funções. Desse modo, muitos fenômenos são enquadrados como sobrenaturais deixando ao entendimento humano a desconfiança e o desinteresse. Temos obrigação de evoluir para uma posição universalista, onde os fatos existentes terão significação e finalidade; o sobrenatural é ausência de conhecimento. Caminhemos, pesquisemos, analisemos num sentido honesto, ao lado das conseqüências morais e filosóficas da vida, e estaremos inevitavelmente na trilha do conhecimento.

Jorge Andrea