GUIA DO ESPIRITISMO

1 - A FENOMENOLOGIA PARANORMAL À LUZ DO ESPIRITISMO

Nas teorias espíritas existem três elementos: o corpo material ou físico, o corpo etéreo e o espírito.

É oportuno acrescentar uma observação, talvez nova: à luz das doutrinas de caráter "oculto", o corpo etéreo deve ser entendido como um corpo semimaterial, formado por três componentes ou aspectos (corpo casual, mental, astral). Levando-se em consideração esta classificação, pode-se procurar estudar o que acontece quando se produzem fenômenos, que antes de mais nada devem ser separados em duas classificações: os que ocorrrem entre os vivos e os que se verificam com os mortos.

Quanto aos primeiros é possível relacionar o todo a excursões extracorpóreas do corpo etéreo. À luz desta hipótese encontraremos explicação para fenômenos de bilocação, de clarividência, de transmissão do pensamento. De fato, é possível para o corpo etéreo transportar-se, relativamente ao tempo e ao espaço, para ampliar a própria bagagem de noções ou de conhecimentos que o corpo material não tem possibilidade de adquirir.

A segunda fenomenologia diz respeito a relacionamentos e intervenções com os mortos. As manifestações podem assumir três formas características: primeiro a forma telepática, com a qual um defunto pode comunicar-se diretamente com o interessado. Tal forma pode se estender ao sonho ou às alucinações de caráter telepático. Poderíamos salientar que existe uma característica que a identifica relativamente à telepatia entre os vivos, ainda que a transmissão ocorra a partir de uma mente fluídica e a recepção esteja em uma mente física.

A segunda forma de comunicação é, certamente, a mais interessante e impressionante. Em seguida teremos ocasião de perceber o porquê desta avaliação.

O corpo etéreo do defunto tende a apoderar-se do corpo físico do médium (consenciente ou não). Estabelece-se assim um estado de "transe": o corpo etéreo, através do médium, fala e age como que através de um corpo próprio.

Em geral o médium fala com uma voz que não é a sua, escreve com a caligrafia da entidade e pinta com o estilo da mesma, realiza atividades (como tocar instrumentos musicais) que, em estado de vigília, não seria capaz de fazer. Conversa em línguas que desconhece e manifesta outras fenomenologias interessantes. Tudo isso entra sob a classificação do automatismo falante e escrevente .

A terceira forma de comunicação acontece quando a entidade tira a força do médium e dos participantes para dar consistência ao próprio corpo etéreo, a fim de agir diretamente: transporte (aparte) - voz direta - levitação - telecinese.

Como afirmaram diversos estudiosos, muito justamente, alguns desses fenômenos podem se associar resultando em uma soma de fenômenos. É o caso, por exemplo, da transfiguração, na qual intervém o fenômeno da possessão, junto com o da materialização. É evidente que nestas fenomenologias, hoje infelizmente - não freqüentes, torna-se muito difícil separar o verdadeiro do falso, o autêntico do forjado.

Apenas um trabalho paciente, constante e uma mente livre de preconceitos podem enfrentar esses estudos e preparar-se para dar uma avaliação até mesmo dos fenômenos de tempos passados, não rejeitando unicamente pelo prazer em recusar ou por falta de fenomenologia atual, considerando a passada como falsa, até mesmo quando não o foi, mistificada, onde foi autêntica.

2 - O parecer da ciência

Não podemos, ainda que num apanhado rápido, nos descuidar da avaliação do fenômeno sob o enfoque científico .

Assinalei anteriormente que, se quiséssemos estabelecer um confronto entre as colocações históricas do espiritismo e as hipóteses que a parapsicologia atual sustenta, distinguiríamos tanto diferenças abissais quanto interessantes e válidas analogias e afinidades curiosas. De fato, existe para o espiritismo uma energia extrafísica referente ao corpo etéreo, movida e animada pela vontade do espírito. O corpo etéreo tem a capacidade de dominar a matéria, atravessá-la, modificá-la, parcial ou integralmente.

Não foi por acaso que se afirmou que a matéria é a continuação do espírito, ou seja, que a matéria se manifesta de acordo com os desígnios de um plano ou nível superior compreendido como "espírito".

A luz desta consideração torna-se simples concluir que a causa de qualquer fenômeno natural ou paranormal pode ser atribuída, com razão, aos mesmos princípios e leis. Justamente, como já foi afirmado diversas vezes, nunca se provou a existência do corpo etéreo de forma tangível, fazendo-se claramente uma exceção nos fenômenos de bilocação e, talvez, também nos de infestação.

Pretendo voltar a este assunto, uma vez que, quanto ao fenômeno de bilocação, gostaria de adiantar uma hipótese interpretativa, que pode se dissociar do processo puramente espírita. Para a ciência oficial não encontra confirmação a hipótese da existência do suposto corpo etéreo no indivíduo vivo, e muito menos no falecido. Os fenômenos paranormais representam um objeto de estudo para a física, a medicina e a psicologia, visto que as diferentes manifestações que se produzem ou se determinam constituem um terreno fértil para abrir, em direção a horizontes cada vez mais vastos, os conhecimentos científicos, na perspectiva de uma meta chamada "verdade". Tendo como base numerosas observações foi possível apenas concordar em manter válida a hipótese da Existência de uma forma de "energia", decididamente impessoal, colocada em nível das dimensões do inconsciente humano que, talvez, represente a chave da fenomenologia paranormal. Convencionou-se, portanto, julgar a existência de uma .. força" ou .. energia" ligada à existência física, mas independente desta, com a finalidade de identificar as causas da fenomenologia paranormal.

É evidente que esta hipotética (nem tanto) energia pode encontrar a sua estrutura paralela no corpo etéreo. Esta energia considerada indiferentemente como energia parapsíquica, inconsciente coletivo, eu sublimado, nível PSI, representa, em termos diversos, aquilo que os esoteristas e os espíritas definem como corpo etéreo, enquanto lhes é comum uma natureza com características extrafísicas.

Não é este o lugar para uma tal consideração, uma vez que desejo fazer apenas um apanhado, o mais sintético possível, sobre a história e a estrutura do espiritismo. Sobre o problema científico da credibilidade das teorias espíritas se poderia fazer um longuíssimo discurso, que desejo resumir na resposta à pergunta que surge espontânea em cada um de nós, ou seja, se com autoridade e credibilidade a hipótese espírita pode ser posta de lado e considerada superada.

Certamente, deve haver um grande número de pesquisadores e estudiosos que julgam em sã consciência que a ciência anulou a hipótese espírita, mas devemos deixar claro que, no caso de alguns fenômenos, até os dias de hoje, não se pode demonstrar a ausência de intervenção espírita. É justo e necessário admitir que, para alguns fenômenos que, no passado, foram impropriamente atribuídos a uma intervenção sobrenatural, pode-se formar hoje uma interpretação científica, mas isso não deve representar uma regra absoluta, ou seja, fazer com que tudo se encaixe em leis físicas das quais ainda não se conhecem a existência, os componentes e as forças que regem suas estruturas.

Demasiadas vezes se fez uma avaliação parcial e imperfeita de um fenômeno mas, atualmente, parece que, superada uma dificuldade inicial de confiança e de convivência, se possa, com o devido senso crítico, procurar indagar seriamente a respeito dos fenômenos paranormais. É justamente neste sentido que se orientam essas páginas, isto é, para consentir que um número cada vez maior de pessoas possa tomar contato direto com esses fenômenos. Em seguida às experiências que poderão nascer deste livro, espero que se abra uma fase nova de pesquisa sobre indivíduos que têm, de forma latente ou manifesta, capacidades de caráter paranormal, a fim de podermos, depois, avaliar, selecionar, pesquisar e classificar todas aquelas fenomenologias que, no passado, despertaram interesse, curiosidade e espanto, mas que hoje, à luz investigadora de novas teorias e horizontes científicos, poderiam obter respostas novas e interessantes.

Uma vez superado o enfoque monopolista de caráter espírita. Pode-se comparar a fenomenologia, o conteúdo que expressa e as grandes possibilidades que oferece na pesquisa referente, aos fenômenos paranormais.

Eu afirmo que não se deve aceitar cegamente um enfoque de tipo espírita, unicamente porque este emerge de informações sérias que chegaram até nós do além, mas que é preciso usar, em chave de pesquisa e de confiável e qualificável avaliação, toda a fenomenologia que deriva do espiritismo.

Hoje, tende-se para um espiritismo corrente identificado como "ultrafania", onde o sentido das revelações se projeta para horizontes espirituais e místicos, sobre o conteúdo dos quais faço as reservas mais cautelosas, por ser um terreno que se presta com enorme facilidade a hábeis mistificações ou a cômodas manipulações.

É certamente verdade que, se os espíritos existem, sua função não é fazer pequenos fenômenos físicos, conceder "passes", mover objetos, predizer o futuro ou reunir amores que se acabaram. Seria uma triste tarefa para assumir por toda a eternidade.

Estou convencido de que depois da passagem haja aquele "algo" que, no fundo, todos esperamos que exista, pois ninguém fica satisfeito com esta limitada experiência terrena e, se alguma coisa existe, é obrigatório conhecê-la dentro dos limites do possível a fim de tornar a nossa vida atual cada vez mais adequada e adaptada à futura.

Enfrentaremos o problema do "espiritismo" estudando todos os fenômenos, em suas possíveis, diferentes classificações, avaliações e considerações, a fim de que, na prática, mesmo aquele que se recuse a aceitar a sobrevivência depois da morte, e queira limitar seu conhecimento à fenomenologia física ou parafísica, possa se declarar satisfeito com tudo aquilo que tiver aprendido com a leitura deste livro.

Meu desejo, repito,é permitir a todos experimentar (naturalmente expondo-se aos menores riscos possíveis). Não desejo convencer ninguém, nem arrastar legiões de iniciados. Pretendo apresentar metodologias para "experimentar", independentemente das orientações que cada um alimenta no interior da própria experiência. É natural que aqueles que não se sentem preparados para enfrentar um encontro com este tipo de fenomenologia devem abster-se de qualquer contato com essas experiências.

Aconselhamos àqueles que se consideram impressionáveis ou sugestionáveis, ou que têm apenas uma curiosidade superficial e perigosa, que evitem esses conhecimentos: poderiam ficar impressionados, condicionados e indefesos, seduzidos por um vórtice que se torna cada vez mais perigoso quanto mais for estimulado, como o som de uma corda musical quando a percussão se torna mais intensa e rápida.

Querer fazer experiências com o mundo paranormal e, sobretudo, com aquilo que em geral é definido como "espiritismo", comporta não apenas uma discreta dose de coragem, como também uma lucidez e uma racionalidade válida e preparada, uma capacidade de participação consciente e objetiva (certamente nada fácil de se conseguir).

Não se pode brincar com certas fenomenologias, sejam elas derivadas de profundos dinamismos da mente, ou gratuitas manifestações do inconsciente individual ou coletivo, ou atinjam sua autêntica energia no mundo dos "que passaram", para uma margem onde o tempo se chama eternidade. Deve-se procurar experimentar e verificar, com o desejo único de encontrar a resposta que o homem espera desde sua aurora distante: o que será de mim depois da morte? Enquanto esperamos, podemos apenas supor, mas é nosso dever PROCURAR: é o que pretendemos fazer.

Falar de "espiritismo" quer dizer enfrentar um terreno escaldante, um terreno talvez perigoso, sobretudo quando emerge alguma referência (que será obrigatória) da concepção do espiritismo kardecista. Isso pode criar uma hostilidade por parte de pesquisadores inspirados, pode constituir um apoio fácil para aqueles que mergulham em um conformismo doutrinário, como felizmente acontece com freqüência no caso de numerosos expoentes daquela que é considerada a ciência OFICIAL.

Dou-me conta de que a ciência, sobretudo a oficial, encontra dificuldades em aceitar e formular novos esquemas de pensamento sobre os quais consolidar princípios e interpretações fundamentais com a finalidade de uma contínua análise das leis que coordenam e governam a Natureza, essencialmente naquilo que é representado como seu aspecto físico. Esses esquemas tornam-se indispensáveis quando se deseja manter uma segurança operativa no tempo. Isso resulta apenas que a tentativa de modificar uma variável desses esquemas representa um ato que deve se desenvolver muito lentamente no tempo, para não determinar perturbações violentas naqueles que são os princípios da vida. Se tiver de haver uma modificação, esta deve ser a mais lenta possível enquanto conseqüência de uma cada vez mais atenta e vigilante observação, e sobretudo de uma repetição cada vez mais comprovada em laboratório experimental. Este procedimento é indispensável para a ciência, a fim de que as conclusões possam ser consideradas como tais, e acreditamos que tal atitude deva ser considerada válida e confiável, embora passível de concretização à sombra de uma vontade edificadora e não demolidora como infelizmente acontece na vida cotidiana.

Angelo dé Micheli

PARTE III - EXPERIÊNCIAS FUNDAMENTAIS
..OS FENÔMENOS MEDIÚNICOS ..EXPERIÊNCIAS DE "GRANDE MEDIUNIDADE