SEARA DOS MÉDIUNS

1 - Fenômenos e livros

Fenômenos mediúnicos existem na gênese de todas as religiões, mas desaparecem, à maneira de fogo-fátuo, no raio circunscrito da hora em que se exprimem. Contudo, os livros que nascem deles permanecem, por tempo indeterminado, nos horizontes do espírito.

Há quem sorria ironicamente, diante da narrativa hindu, na qual Arjuna, espantado, observa as sublimes manifestações de Crisna; entretanto, nos poemas do Bagavat-Gitá palpitam cânticos imperecíveis das mais altas virtudes.

Há quem descreia da História, quando afirma que Zoroastro recolheu ensinamentos de Ormuzd (Espírito), nas eminências do Albordjeh; no entanto, as páginas do Zend-Avesta gravam com mestria a luta do bem contra o mal.

Há quem discuta a impossibilidade de haver Moisés revelado tantos poderes, à frente dos egípcios assombrados, mas o código de mandamentos por ele recebido de Jeová, no cimo do monte, é seguro alicerce aos preceitos essenciais da justiça.

Há quem veja loucura na decisão de Sidarta, ao abandonar o palácio paterno, sob a inspiração da Esfera Superior, a fim de consagrar-se aos infelizes ; todavia, as lições guardadas por seus discípulos formam o venerável caminho budista do pensamento reto.

Há quem duvide dos fatos admiráveis que cercaram, na Terra, a presença do Cristo, relacionando acontecimentos medianímicos cuja legitimidade desafia todas as exigências da metapsíquica e da parapsicologia contemporâneas; entretanto, o Evangelho continua sendo o Livro Divino da Humanidade.

E, ainda hoje, há quem lance sarcasmo sobre os médiuns da atualidade, mas os livros basilares de Allan Kardec prosseguem como sólidos fundamentos da Doutrina Espírita, que atualiza agora as revelações do Mestre dos mestres.

Como é fácil observar, os fenômenos mediúnicos representam a ostreira das interrogações e dos experimentos humanos. O livro edificante, contudo, é a pérola que passa a guarnecer o tesouro crescente da sabedoria que nunca morre.

Eduquemos, assim, a mediunidade, entre nós, para que ela possa surpreender e fixar a emoção e a idéia, a palavra e o trabalho dos mensageiros que supervisionam e conduzem o aperfeiçoamento terrestre, porque, em verdade, nesse ou naquele documentário, o livro é o comando mágico das multidões e só o livro nobre, que esclarece a inteligência e ilumina a razão, será capaz de vencer as trevas do mundo.

2 - Fenômenos

Ateus diversos pedem fenômenos que os constranjam a crer na evidência do Mundo Espiritual; no entanto, é forçoso convir que, se fenômenos ajudam convicções, não alteram disposições.

Nesse sentido, é justo assinalar que o Espírito encarnado sobre a Terra reside transitoriamente num corpo em cuja intimidade se processam transcendentes fenômenos anímicos, que ele, de modo geral, não procura auscultar ou compreender.

Para sustentar-se, tem o coração por bomba vigorosa e infatigável, pulsando cerca de setenta a oitenta vezes por minuto, mas levanta-se e age, à custa desse apoio, sem nada perguntar a si mesmo, quanto a isso.

Para respirar, usa os pulmões, semelhantes a filtros surpreendentes, com trabalho ininterrupto na oxigenação incessante do sangue; contudo, repara as próprias forças, a cada instante, sem ponderar nos prodigios da hematose.

Para pensar, conta com o cérebro, precioso maquinismo articulado por bilhões de células, a se definirem por funções específicas; entretanto, efetua as mais complexas associações de idéia, sem qualquer preocupação pelos mecanismos da mente.

Para ver, dispõe do olho, câmara fotográfica em cuja retina trabalham milhões de unidades celulares, com serviço determinado para as horas de luz intensa e para as horas de sombra; no entanto, enxerga espontaneamente, sem meditar nos poderes sublimes da visão.

Para escutar, possui o ouvido, notável caixa acústica a estruturar-se em compartimentos diversos, destinados ao registro dos sons, mas ouve sem a menor admiração pelo portento auditivo.

Para exprimir-se, traz consigo a laringe por verdadeiro instrumento musical, destinado à produção fisiológica da voz; contudo, expressa-se nas mais diversas línguas sem refletir nas maravilhas da fala.

Para onde se volte, a criatura humana encontra fenômenos e mais fenômenos a lhe requisitarem as faculdades de interpretação; no entanto, se ainda não procura apreender a espiritualidade que carreia por dentro de si mesma, como aceitará a espiritualidade que a desafia por fora?

Fujamos ao propósito sistemático de provocar fenômenos, com o objetivo de impor ao homem a certeza da sua sobrevivência além da morte, porquanto de fenômenos múltiplos o caminho que ele percorre está cheio.

Divulgando o estudo nobre e alicerçando as nossas palavras no exemplo, ajudemo-lo, tanto quanto possível, a simplesmente raciocinar.

3 - Faculdades mediúnicas

"Há diversidade de dons espirituais, mas a Espiritualidade é a mesma.

Há diversidade de ministérios, mas é o mesmo Senhor que a todos administra.

Há diversidade de operações para o bem; todavia, é a mesma Lei de Deus que tudo opera em todos.

A manifestação espiritual, porém, é distribuída a cada um para o que for útil.

Assim é que a um, pelo espírito, é dada a palavra da sabedoria divina e, a outro, pelo mesmo espírito, a palavra da ciência humana.

A outro é confiado o serviço da fé e a outro o dom de curar.

A outro é concedida a produção de fenômenos, a outro a profecia, a outro a faculdade de discernir os Espíritos, a outro a variedade das línguas e ainda a outro a interpretação dessas mesmas línguas.

No entanto, o mesmo poder espiritual realiza todas essas coisas, repartindo os seus recursos particularmente a cada um, como julgue necessário."

Quem analise despreocupadamente o texto acima, decerto julgará estar lendo moderno autor espírita, definindo o problema da mediunidade; contudo, as afirmações que transcrevemos saíram do punho do apóstolo Paulo, há dezenove séculos, e constam no capítulo doze de sua primeira carta aos coríntios.

Como é fácil de ver, a consonância entre o Espiritismo e o Cristianismo ressalta, perfeita, em cada estudo correto que se efetue, compreendendo-se na mensagem de Allan Kardec a chave de elucidações mais amplas dos ensinos de Jesus e dos seus continuadores.

Cada médium é mobilizado na obra do bem, conforme as possibilidades de que dispõe.

Esse orienta, outro esclarece; esse fala, outro escreve; esse ora, outro alivia.

Em mediunidade, portanto, não te dês à preocupação de admirar ou provocar admiração.

Procuremos, acima de tudo, em favor de nós mesmos o privilégio de aprender e o lugar de servir.

Emmanuel