DO PÓ DAS ESTRELAS AO HOMEM

Se eu pudesse

Se eu pudesse deixar algum presente a você, Deixaria aceso o sentimento de amar a vida.

A consciência de aprender

Tudo o que foi ensinado pelo tempo afora. Lembraria os erros que foram cometidos Para que não mais se repetissem.

Daria a capacidade de escolher novos rumos, Novos caminhos.

Deixaria, se pudesse, o respeito

Aquilo que é indispensável:

Além do pão, o trabalho.

Além do trabalho, a ação.

Além da ação, o cultivo à amizade.

E, quando tudo mais faltasse, um segredo:

O de buscar no interior de si mesmo a resposta, E a força para encontrar a saída.


Mahatma Gandhi

Prefácio

Como acontece com todas as pessoas, fui criança um dia, e ainda, quando bem pequenina, a primeira coisa que aprendi a falar, além de mamãe e papai, foi balbuciar o nome de Deus. Vivi ouvindo belas histórias que meus pais me contavam sobre o céu e sobre os anjos. Cresci seguindo a religião católica que eles

professavam.

Nasci na cidade de Salto, que na época era um subdistrito do município de Itu. Bem próximo à igreja matriz de Nossa Senhora de Mont Serrat, o rio Tietê apresentava uma bela cachoeira, cujo som das águas despencando sobre as pedras embalaram meus sonhos de criança.

Meu pai, além de dentista, era um poeta sonhador, e sendo assim, me ensinou desde cedo a admirar a beleza da natureza que nos rodeava, não deixando nunca de transmitir seu encanto pelas cores de um céu poente se refletindo sobre as águas do rio. Com ele deixei que a minha inclinação na-tural pelo belo e pela poesia fluísse e se desenvolvesse em minha alma; com ele aprendi a sentir importância pelas coisas mais singelas da vida e a perceber que as menores coisas que somem no conjunto são exatamente aquelas que, muitas vezes, conferem ao todo o toque especial da beleza.

Apesar de crescer na religião, as lições que aprendia na igreja constituíam um enigma que eu não conseguia entender. Nela me apresentavam um Deus muito estranho, que era bom e criou anjos, mas também fez o diabo, que criou o céu, mas também o inferno, e que nos fazia pagar um pecado que Adão e Eva cometeram... Esse, realmente, não podería ser o meu Deus - o Deus que meus pais me ensinaram. Entretanto, continuava freqüentando a igreja, mesmo não acreditando naquelas histórias, porque a igreja representava para mim a casa de Deus, e, mesmo que meu Deus fosse diferente era ali a sua casa. Para resumir a minha história, me perdi muitas vezes em confusão, visto que, para os dirigentes da igreja, eu pecava por heresia por não acreditar nos ensinamentos sobre os quais eu tinha outra opinião. Para mim, não existia inferno, não havia lógica diante da bondade; bondade não cria tormentos. Sempre acreditei que a bondade oferece oportunidade, compreende e perdoa, porque para mim a bondade inclui amor. Essa era para mim a única verdade e eu não podia compreender por que ninguém conseguia ver as coisas assim. Por que acreditavam naquilo que os outros mandavam e não buscavam ver de fato o que sentiam que poderia ser verdadeiro? Muitos temiam e expressavam seu temor quando, diante do que me ouviam falar, diziam seriamente que Deus me castigaria, que deixaria os demônios tomarem conta de mim. Porém, no meu pensamento Deus não era assim.

Toda essa situação que girava ao meu redor na adolescência, muitas vezes se tornou motivo de inquietações, de uma certa angústia que me fazia constantemente perguntar quem eu era realmente, o que fazia nessa vida e para que tinha nascido em um mundo tão confuso.

Em contrapartida, tinha uma inclinação enorme desde criança para observar as coisas da natureza. Uma semente germinando, uma flor que desabrochava tomava completamente a minha atenção fazendo surgir o interesse de saber sobre como essas coisas aconteciam. Enfim, o que eu queria saber mesmo era como Deus havia criado o mundo e feito todas as coisas, embora esse sentimento não se expressasse de forma consciente. O tempo foi passando, mas aquele sentimento não se extinguiu, pelo contrário, crescia comigo. Assim, depois do curso secundário, resolvi cursar Biologia, que nessa época não constituía uma área específica, mas fazia parte de outra mais ampla, a História Natural. Eram 6 anos de curso, mas, de uma forma geral, englobava ensinamentos desde a origem do universo até o homem, incluindo tudo o que se relacionasse com ele e com todos os seres vivos. Um fato que para mim foi providencial. Aproveitando a oportunidade de ser estudante da Universidade, usei das bibliotecas que ela possuía, lendo todos os livros que encontrava, fossem de contexto científico ou filosófico sobre o homem. Livros que abordavam as faculdades humanas como inteligência, consciência e racionalidade. Buscava compreender como essas faculdades se fizeram em nós. Cada vez mais interessada nesses assuntos que me empolgavam, procurei seguir a carreira científica. Tive como mestre um grande cientista, o Professor Dr. Theodosius Dobzhansky, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, que além de me mostrar o que era de fato fazer ciência, soube entender os conflitos de sua discípula que, na época se mostrava meio perdida entre crer em Deus ou prosseguir no campo da ciência, visto que, pelos conflitos entre religião e ciência ela se via diante de uma escolha. Ora, ele me disse, as religiões em nada importam, não são elas que fornecem Deus, nem Deus vem por meio delas. Então, por que não crer em Deus e também fazer ciência? Se Ele existir você certamente O encontrará por meio da ciência. Se Ele for uma mentira, sua crença se diluirá com o tempo.

Apesar de cético, eu percebia nele a espiritualidade oculta que transparecia na bondade que seus olhos refletiam e na alegria constante de viver.

Pouco mais tarde li o livro Como Vejo o Mundo, escrito por Albert Einstein, e nele encontrei um trecho que marcou profundamente o meu espírito. Vale a pena repeti-lo aqui:
O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um Ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo - uma espécie de sentimento exaltado da mesma natureza que os laços do filho com o pai um Ser com quem estabelecem relações pessoais, por respeitosas que sejam.

Mas, o sábio, bem convencido da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo o seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. Este sentimento desenvolve a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas.1

Este pequeno trecho é grande no sentido e merece de todos os que lerem uma reflexão mais profunda. Em primeiro lugar, mostra que, pelo conhecimento do universo e da vida, os quais descerram uma grandiosidade ilimitada, chega-se inevitavelmente à idéia de um Deus supremo bem diferente daquele que as religiões têm mostrado, além de definir o verdadeiro sentimento que devemos ter para com Ele. Em vez de um Deus cruel que castiga sem piedade, apresenta um Deus perfeito ao qual nada necessitamos pedir e muito menos implorar, mas é um Deus no qual podemos confiar porque é um Deus Providência; porque é um Deus Amor. E é este sentimento que nos faz criar as regras na direção de nossa vida; regras que nós mesmos nos impomos, não por medo Dele, não por medo dos castigos, mas porque nos vemos impulsionados a superar a nós mesmos. E dentro desse sentimento temos necessidade de um encontro com o nosso interior, buscando saber quem e como somos.

O modo de ver a divindade e de sentir em nosso íntimo mais profundo a nós mesmos tem repercussão em todos os atos de nossa vida, que nos faz mudar e nos faz construir interiormente diante daquilo que somos e daquilo que poderemos ser.

Conhecimentos podem ser encontrados não tão-somente nos livros acadêmicos, mas também na própria vida, em cada momento vivido. A vida é o melhor livro de ensino que poderiamos encontrar.

A ciência é também maravilhosa fonte de ensinamentos. Ao devassar o espaço, ao analisar as estrelas e desvendar os mundos, ela abre uma porta para tudo o que é divino. Bem disse Carl Sagan no livro O mundo assombrado pelos demônios que:
(...) a ciência é mais do que um corpo de conhecimento, é um modo de pensar. (...) A ciência é uma tentativa, em grande parte bem-sucedida, de compreender o mundo, de controlar as coisas, de ter domínio sobre nós mesmos.2
Porém, há muita coisa que a ciência ainda não compreende, muitos mistérios para serem desvendados. Ela dirige sua atenção para o mundo e a vida material e tudo o que deduz o faz com base na matéria que analisa. Separou-se das religiões que se lhes tornou um entrave, mas deixou por conta delas as coisas espirituais para poder prosseguir; encontra, porém, em seus achados uma fonte inesgotável de espiritualidade.
Sendo assim define o homem apenas como um ser material, apesar de muitos cientistas compreendê-lo como um ser espiritual. Entretanto, deixa aberto o conceito religioso.

Em minha espiritualidade não deixei de me encontrar com a ciência, contudo, me senti impulsionada a buscar explicações mais profundas no estudo das religiões.

Entre todas as que analisei encontrei o Espiritismo e percebi nele a possibilidade desejada de entender o homem além dos conceitos científicos, mas também religiosos. Entendi, dessa forma que, se o espírito evolui por meio de vidas sucessivas que se interligam como os elos de uma cadeia; se em cada vida passa por experiências numa condição tal que entra em pauta uma lei de causa e efeito, ele deve memorizar e transformar cada uma das experiências vivenciadas e das conseqüências sofridas por meio de sua consciência, que certamente, então, fazem parte de seu espírito.

Pensando assim, pode-se explicar o estado consciente demonstrado por pacientes que passam pelo processo de quase morte, como vários psiquiatras têm observado. De um modo geral, essas pessoas percebem que flutuam na sala onde estão, observam seu corpo e a equipe médica que os socorre. E ao retornar ao corpo físico, numa experiência de “quase morte”, se lembram perfeitamente de todos os acontecimentos ocorridos naquele momento. Entretanto, essas experiências variam de pessoa para pessoa, algumas se percebem andando por corredores do hospital, outras têm outros tipos de lembranças que se mostram nítidas em seu retorno e que podem ser confirmadas depois de relatadas.

Raymond A. Moody Jr. foi um desses psiquiatras que, vendo nesses casos que atendia algo verdadeiro, resolveu analisá-los mais profundamente.

Escreveu vários livros sobre o assunto, entre eles A luz do além, no qual narra a consciência das experiências vivenciadas por um grande número de pessoas que sentiram “ser fora do corpo físico”; essas pessoas mostraram percepção visual aguçada, capacidade de ouvir sons e vozes audíveis e de entender o que diziam; de se encontrarem com outros seres e de poderem fazer com maior clareza uma recapitulação da própria vida. Pessoas que quando retornaram ao corpo físico, pelo atendimento imediato dos médicos assistentes, puderam relatar com clareza o que haviam vivenciado. Esta é uma prova de que existe vida além do corpo físico, de que o espírito se mantém consciente dos fatos do momento, de que se recorda de tudo o que vivenciou. Em seu retorno usam seu cérebro, imprimindo nele os fatos vivenciados, e o utilizam para expressá-los. Porém, é evidente que suas faculdades de memorização e de consciência ou seu estado de ser consciente era inerente ao seu espírito.

Um fato que é motivo atual de estudos na área neurológica se refere ao estado cerebral do indivíduo durante uma experiência de quase morte, a qual leva à privação de oxigenação cerebral e, portanto, pode causar problemas cerebrais, que dificultaria o aparecimento das lembranças de acontecimentos ocorridos durante o processo de quase morte. No entanto, essas lembranças constituem um fato que pode ser comprovado ao se comparar o que a pessoa lembra com os acontecimentos que narram. Moody escreveu muitos livros sobre o assunto, todos eles fruto de seu estudo e de análises científicas criteriosas que tomam os resultados inquestionáveis, demonstrando, todas elas, a existência da vida após a morte.

Outra questão que tem chamado a atenção dos psiquiatras relaciona-se com a terapêutica de regressão de memória, a qual pode conduzir pacientes a recordar-se da vida anterior ou de outras vidas passadas. Entre os vários exemplos que poderíam ser citados, os livros de Brian Weiss narram de uma forma clara e precisa esses acontecimentos, analisando-os e abrindo ocasião para reflexão. Um dos melhores livros desse autor é Muitas vidas, uma só alma. Nesse livro ele narra que ao levar uma de suas pacientes, à regressão de memória, por meio de hipnose, assustou-se ao ouvir o relato de sua história ocorrida no segundo milênio antes de Cristo. Tudo o que ela relatava, as descrições feitas da época vivida com riqueza de detalhes demonstravam a veracidade dos fatos que ele estava ouvindo. Usando as palavras dele deixadas em seu livro, pode-se perceber a surpresa que lhe causou tudo o que ela lhe contava.

Ali estava uma mulher contando experiências e fazendo descrições de épocas das quais ela não tinha conhecimento em sua vida atual, e tanto eu - um psiquiatra formado em Colúmbia e Yale, um cientista absolutamente cético - quanto outros validamos aqueles relatos. Nada na minha “ciência” conseguia explicar aquilo. Eu só sabia que Catherine estava contando o que ela tinha de fato visto e sentido.3

Ora, ela não podería ter se lembrado se aquelas lembranças não pertencessem ao seu espírito, pois o espírito é o único lado humano que não morre.

Devemos refletir sobre esses fatos, pois estes nos conduzem a outras idéias inovadoras com relação às que vêm de outros campos do saber. Por esse motivo, diante dos meus conhecimentos científicos, resolvi me dedicar a um estudo aprofundado sobre a espiritualidade humana e me deparei com o que para mim constitui uma verdade: Nossa vida nesta vida não é e nem foi a única que vivemos; mas outras vidas que já vivemos influem constantemente sobre nós.

Por outro lado percebi que a ciência que se tornou meu motivo de estudo durante anos da minha vida poderia ser perfeitamente articulada com os conhecimentos espirituais que encontrei no Espiritismo.

Usando esses conhecimentos que adquiri em todos os anos de pesquisa, como geneticista, em um mundo que muito me ofereceu em conhecimentos científicos, e associando-os aos que adquiri pelo Espiritismo, me dei conta que era possível encontrar uma compreensão muito mais ampla sobre o ser humano, sua espiritualidade e sobre as faculdades que o definem e que o tornam apto a enfrentar os problemas da vida. Por esse motivo ofereço ao público este livro que resultou de toda uma vida de estudo, porém, de uma forma bem geral e simples, resumindo pontos que sirvam, apenas, como base para reflexão, esperando que ele possa servir como um caminho possível ao leitor que, porventura, deseje encontrar-se consigo mesmo. Contudo, este livro é reflexo de um outro que escrevi e cujo título é Darwin e Kardec: um diálogo possível. Nesse livro procurei demonstrar que a ciência e o Espiritismo se completam numa compreensão bem maior sobre o sentido do universo e da vida.

Nas páginas deste livro, minha intenção foi mostrar que o acaso não existe no mundo da criação divina, mas que esta criação resulta de um planejamento ou projeto infinito, ou como queiram alguns de um design inteligente. Procuro também mostrar que a vida humana tem um profundo sentido e que todo ser humano possui um futuro à sua frente, o qual deve ser construído no presente para torná-lo luminoso no amanhã como cada um de nós sonha e deseja.

O HOMEM E O UNIVERSO

UM ENFOQUE CIENTÍFICO-ESPÍRITA

Rollo May, um grande psicanalista americano do século XX, publicou o livro O Homem à procura de si mesmo, em cujas páginas discorre sobre a grande necessidade que temos de tomar consciência sobre nós mesmos, principalmente agora em que vivemos uma época de conturbações e mudanças. São suas estas palavras:
Quando a sociedade contemporânea, nesta fase de reversão de padrões e valores, não consegue dar-nos uma nítida visão do que “somos e do que devemos ser”, nas palavras de Matthew Arnold, vemo-nos lançados à busca de nós mesmos.1
1 Rollo May. O homem à procura de si mesmo.Vive-se uma época em que as pessoas se defrontam muitas vezes com a solidão e com a ansiedade, dentro de um mundo cheio de incertezas. Vive-se numa sociedade em que não se encontra um padrão definido sobre o modo de agir e de pensar e sobre os valores que direcionam a vida e o modo de viver.

Vive-se sob o efeito de perturbações constantes causadas por ameaças de guerra, de instabilidade econômica que gera desemprego, fome e miséria. Somem-se a isso os conflitos interiores de cada pessoa, o sentimento de infelicidade e tristeza, a necessidade de em muitas ocasiões ter que tomar decisões que possam levar a uma mudança de vida e diante delas a insegurança.

Mergulhados em todas as situações nas quais se vive, muitos se acomodam na idéia de que o mundo é assim e não se pode mudá-lo. No meio de tantos problemas e conturbações o ser humano perde a noção sobre si mesmo. Leva a vida como máquina que funciona automaticamente. Perde-se na rotina do seu dia-a-dia... Envolve-se em sentimentos de inferioridade, de incapacidade e de culpa... Fecha-se dentro de si, e nessa amargura deixa-se ficar. No seio da sociedade vemos pessoas envolvidas com crises psicológicas, às vezes profundas, pessoas que acabam por necessitar de tratamento e que freqüentemente têm de buscar ajuda nos consultórios psiquiátricos.

São situações que envolvem de uma forma geral todas as sociedades, todos os povos... Situações que alguns sabem vivenciar e superar enquanto outros se perdem na desilusão e no desencanto.

Há, porém, aqueles que não desistem e que enfrentam lutas pela conquista de um ideal; que não se envolvem com os conceitos alheios, senão somente com aqueles que têm... Que sabem o que querem, que traçam um caminho para seguir adiante e que têm um objetivo claro na vida. Independem dos valores ditados pela sociedade, mas se prendem àqueles ditados pela consciência.

Por que somos tão diferentes? Por que as nossas atitudes se mostram tão variadas ao nos confrontarmos com os mesmos problemas e obstáculos, mesmo convivendo dentro de uma sociedade sob as mesmas influências culturais e sob o mesmo sistema educacional? O que nos torna diferentes?

São questões sobre as quais vale a pena refletir. E o que tentaremos fazer ao longo deste livro.

CAPÍTULO 1

O HOMEM E A VIDA

Para conhecer o mundo e a vida, na busca de se obterem respostas sobre o que somos, é preciso aceitar que somos mais que matéria...

Os conhecimentos atuais nos permitem algumas noções sobre a natureza viva do mundo e do universo. Entendemos as leis que orientaram a organização universal e temos uma idéia dos processos que intermediaram a sua evolução. Temos noções sobre a nossa origem e de como evoluímos até o ponto onde nos encontramos. Porém, ainda não conseguimos saber o que e quem somos; o que representamos dentro deste nosso universo. Sentimos a vida e nos consideramos seres vivos, mas também não sabemos o que é a vida. Para podermos nos satisfazer formulamos definições que se mostram paliativas e que fogem à realidade daquilo que realmente possa ser. Assim, para alguns, a vida é apenas uma propriedade da matéria, ou seja, uma forma de energia que não deixa de ser material, enquanto, para outros, é uma essência espiritual ou mesmo até o próprio espírito.

Entre a várias religiões disseminadas no mundo, o Espiritismo oferece uma noção das mais satisfatórias às nossas necessidades, evidenciando, além disso, um sentido para a existência humana. Em seu conceito o homem é espírito que evolui e para evoluir necessita de um corpo físico; quando encarnado nesse corpo ele apresenta uma dualidade porque é matéria por um lado, e espírito por outro. Neste conceito a morte não representa o término da vida, somente representa o espírito que deixa seu corpo, mas que continua sendo tudo o que foi na vida material.

Os princípios científicos fundamentam-se no homem material e assim enxergam a sua natureza. Direcionada por esses princípios a ciência o define como produto de seus genes e do meio no qual se desenvolve. Deixa sem explicações as faculdades que realmente nos definem, deixando-as à mercê de futuras descobertas. O Espiritismo, porém, nos dá abertura para entendê-las em sua base espiritual.
Oparin e a descoberta da origem da vida

Diante da dificuldade sempre encontrada em se definir a vida, tentou-se pelo menos descobrir como ela havia se originado e se transformado na série imensa de organismos que nos rodeiam. Surgiram, no passado, as mais diversificadas explicações e muitas delas em forma de mitos. Inúmeras religiões se preocuparam em explicá-la e sistemas filosóficos se dedicaram arduamente em encontrar uma solução.

A ciência inutilmente vagava entre várias suposições, contudo, nada explicava. Foi quando nesse campo de estudo e ainda perdido em deduções, um cientista russo conseguiu uma resposta científica mais lógica e, portanto, possível de ser verdadeira. Esse cientista foi Aleksandr Ivanovich Oparin, um membro da Academia de Ciências da URSS.

Aleksandr I. Oparin

Oparin nasceu em 1894 e viveu até 1980. Estudou pela Universidade de Moscou e foi professor de fitofisiologia e bioquímica nessa mesma universidade. Dedicado ao estudo da natureza possuía conhecimentos em astronomia, geologia e bioquímica; conhecimentos que empregou para explicar como a vida se originou.

Em seu tempo a astronomia tinha noções sobre a atmosfera de alguns corpos celestes do sistema solar. Dessa forma já era conhecido que a atmosfera do Sol, de Júpiter e de outros planetas possuía elementos como amônia, metano e hidrogênio.

Oparin supôs que seriam os mesmos elementos que deveriam existir em nossa atmosfera primitiva. Elementos que considerou essenciais para a formação de compostos orgânicos. Por outro lado, como geólogo, Oparin sabia que os vulcões liberam, entre outros gases, vapor de água. Além desse vapor liberam também hidrocarbonetos. Baseado nisso, imaginou que a atmosfera primitiva deste planeta deveria conter todos os elementos necessários para a formação da matéria orgânica.
A partir disso imaginou que sob a ação do calor bastante forte que assolava a superfície da Terra, sob a ação dos raios ultravioleta do Sol e da energia liberada pelas descargas elétricas dos temporais, os elementos existentes na atmosfera terrena se organizaram em compostos que, com as chuvas, foram arrastados para os mares ainda mornos da Terra primitiva. Sob o efeito continuado das mesmas condições aqueles compostos sofreram modificações que produziram a vida. Essa hipótese tinha um profundo sentido lógico, e era firmemente baseada em observações concretas, que permitiam encontrar dados valiosos para a solução do problema da origem de substâncias orgânicas. Sua teoria continua sendo aceita em todos os campos da ciência, mas não por muitas religiões cujas histórias antigas continuaram persistentes no coração de um grande número de pessoas.

Os textos bíblicos ainda são mal interpretados. Falta ainda a noção de que cada época vivencia-da pelo ser humano reflete o seu grau de entendimento, e como conseqüência a sua capacidade de compreensão. A bíblia é o reflexo do pensamento de um povo cujo patamar intelectual e moral era bem menor do que aquele que temos hoje. Sobre outro aspecto, existe o medo que impede a reflexão sobre os assuntos religiosos, e especialmente aqueles relacionados com os textos considerados sagrados. Muita gente permanece na antiga idéia dos castigos divinos, principalmente os dirigentes religiosos, que assim determinam que os conceitos antigos devem ser aceitos sem questionamentos e sem contestações.
A abertura para novos horizontes

Com o advento do Espiritismo e com a teoria revolucionária de Charles Darwin, um novo horizonte se abriu diante do olhar da humanidade. O ser humano se descobre como um ser livre para questionar assuntos que tantas dúvidas causavam e que por isso mesmo se tornaram intrigantes para ele; livre para buscar explicações mais abertas sobre os acontecimentos da vida e do universo; livre para pensar, para refletir e questionar; livre para transcender aos dogmas; livre para vencer o medo que as religiões lhe impuseram. Será dentro dessa liberdade que expressarei nestas páginas meu modo de pensar.
A ciência me mostrou a infindável beleza de uma célula e a grandiosidade da vida que nela se expressava, que a fazia multiplicar-se e transformar-se em um ser completo; um ser capaz de pensar e sentir, de se mover pela vontade e de criar, de tornar seus sonhos realidade... E por ela... Pela ciência encontrei meu Deus.

As religiões, porém, me cerceavam, contudo transcendi a elas e nessa transcendência encontrei o Espiritismo - uma porta aberta para a liberdade... Liberdade para ser e para pensar. Posso então ponderar sobre a vida como algo surpreendente e maravilhoso, que vai muito além da matéria... Algo que se mostra espiritual... Algo que não flui da matéria, mas que transcende a ela. O homem é vida e por isso não é somente corpo físico, mais do que isso é um ser espiritual, apesar de não ser ele a própria vida, porém, apenas seu portador. Não vejo a vida como o próprio espírito. Como parece, essa é a opinião de muitas religiões. A vida é imanente no espírito. Está nele, apesar de não se confundir com ele, mas com ele se completa dando essa impressão. Por ser a vida espiritual não podemos defini-la, visto que se as coisas materiais podem ser perfeitamente caracterizadas pela sua própria constituição, o mesmo não acontece com a vida e com o espírito e com tudo o que a ele pertence. Somente podemos saber que ela existe e que se expressa em todo o ser considerado vivo. Para entendê-la em sua expressão existem dois caminhos disponíveis: a ciência por um lado e o Espiritismo por outro.
A expressão da vida na matéria

No livro A Gênese, Allan Kardec, depois de exaustivos estudos, escreveu o seguinte trecho que convém repetirmos aqui:

Ao dizermos que as plantas e os animais são formados dos mesmos princípios constituintes dos minerais, falamos em sentido exclusivamente material, pois que aqui apenas do corpo se trata... há na matéria orgânica, um princípio especial, inapreensível e que ainda não pode ser definido: o princípio vital. Ativo no ser vivente, esse princípio se acha extinto no ser morto; mas, nem por isso deixa de dar à substância propriedades que a distinguem das substâncias inorgânicas.
Os mesmos processos químicos que decompõem a maior parte dos corpos inorgânicos, também decompõem os corpos orgânicos, porém, jamais chegou a reconstituir sequer, uma folha morta. Esta é uma prova evidente que há nestes últimos o que quer que seja, inexistente nos outros.1
Pela ciência descobrimos que a vida depende de energia, a qual é fornecida pelos alimentos. Descobrimos também que a fonte principal dessa energia, que os alimentos contêm, vem do Sol. Porém, para que a energia luminosa que o Sol emite possa ser usada na manutenção da vida orgânica é preciso sua transformação em energia química. Isso é feito pelas plantas por meio de um processo conhecido como fotossíntese.
Fotossíntese

Para entender o processo fotossintético deve-se iniciar pela sua designação, isto é, pelo significado da palavra fotossíntese.
1 Allan Kardec. A Gênese, cap. X, item 16, p. 197.

Foto indica luz e síntese produção, portanto, fotossíntese é uma palavra que indica produção de alguma coisa a partir da luz. Então, fotossíntese é um processo pelo qual seres como plantas e alguns outros organismos transformam a energia luminosa do Sol em energia química utilizando para isso o dióxido de carbono (COJ, água (H,O) e minerais. O produto final é a glicose. Dela provém toda a energia que mantém a vida. Uma energia que, por isso mesmo, é designada de energia vital.

Todos os seres animais dependem dessa glicose que guarda em sua constituição a energia solar transformada em energia química. Sem ela a vida não poderia existir. Eis a razão que leva os cientistas a considerá-la como uma forma de energia e, portanto, dependente da propriedade da matéria.

Você poderá entender melhor observando a figura 1 (p. 20) que apresenta de forma esquemática o processo da fotossíntese.

Esse processo é realizado por um pigmento verde denominado clorofila que existe nas plantas e que confere a elas a sua cor. Esse pigmento é guardado dentro das células em pequenos corpúsculos ou organelas chamados cloroplastos. É no interior deles que o processo se efetua.
Para que a planta possa realizar a fotossíntese ela necessita de gás carbônico, água e sais minerais. O gás carbônico a planta absorve do ar e a água e sais minerais do solo por meio das raízes. Durante o processo elas liberam o oxigênio que é necessário para a manutenção da vida. Essa é a grande importância dos vegetais. Além de fornecer a energia necessária para que a vida seja mantida, purifica o ar que os organismos respiram ao absorver o gás carbônico e, ao liberar o oxigênio, enriquecem o ar com um elemento imprescindível à vida.

Todas as plantas são importantes, desde as grandes árvores das florestas às relvas dos jardins; dependemos delas para viver.

Sem essa consciência o homem tem desmata-do bosques e florestas para a obtenção de matéria-prima usada na confecção de produtos como papel, de madeira para a fabricação de móveis e construções de casas e utensílios em geral. O uso desmedido, a falta de cautela e de uma consideração maior ao se fazer a utilização desmesurada dos produtos, sem o conhecimento de uma possível reutilização por meio de reciclagem, eis agora nosso planeta apelando por medidas para que possa continuar a ser o lar dos seres vivos, inclusive o nosso. Temos observado as conseqüências das nossas atitudes em relação ao nosso planeta, como o efeito estufa, a mudança do clima e todas as coisas que a mídia atualmente não se cansa de propalar.
A energia química e a energia vital

Diante do exposto, penso que se pode relacionar perfeitamente a ciência e o Espiritismo, no entendimento dos processos responsáveis pela expressão da vida na matéria - expressão que depende de uma fonte de energia. Nesse caso, a fonte é o Sol e a energia um produto da transformação da energia solar em energia vital. Eis, aqui, ao que Kardec se referiu ao chamar de princípio vital. O princípio vital permite a expressão da vida, mas não é a vida, posto que esse princípio é de natureza material e a vida é espiritual. Mas, em termos científicos, a vida é um fato material, indefinível ainda, apenas o que se pode supor é que ela seja uma propriedade da matéria que constitui as coisas neste mundo. No entanto, há coisas que para nós são difíceis de entender; em tudo há uma verdade maior que está fora do alcance da nossa capacidade de compreensão.

Paremos uns instantes apenas para refletir sobre o que Kardec fala sobre o princípio vital interrogando os espíritos:

O princípio vital reside num agente particular ou não é mais que uma propriedade da matéria organizada; numa palavra, é um efeito ou uma causa?

E a resposta foi a seguinte:2 Grifo meu.
3 Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, item 63, p. 65.

E uma e outra coisa. A vida é um efeito2 produzido pela ação de um agente sobre a matéria; esse agente sem a matéria não é vida, da mesma forma que a matéria não pode viver sem esse agente. Ele dá a vida a todos os seres que o absorvem e assimilam.3

O que conhecemos como vida neste mundo é, pois, um efeito que resulta da ação da energia vital sobre a matéria, distinguindo, nesse caso, os seres orgânicos dos inorgânicos, ou seja, os seres vivos dos não vivos, tal como nós consideramos para as condições terrenas, no caso sobre a vida material.

Porém, não somente sobre este assunto a aliança da ciência com o Espiritismo se torna valiosa. Ela vai muito mais além. Ela abre um horizonte inédito de novas perspectivas com relação à vida. De um lado a ciência nos indica os processos materiais que à vida deram origem, há mais ou menos 3,5 bilhões de anos, de outro o Espiritismo a apresenta como um dom de Deus que está no espírito, que a Deus pertence, e que em sua bondade a conferiu ao princípio inteligente. Entretanto, para nós tudo o que a ela se refere é ainda um segredo que não conseguimos desvendar. A ciência apenas distingue seres vivos dos não vivos, usando para isso as características que possam assim defini-los. No entanto, me permito pensar que a vida espiritual se dissemina pelo espaço e se mantém latente no espírito. E dentro desse pensamento, para mim, o tempo demarcado pela ciência, para a vida material, mostra tão-somente quando essa vida latente se expressou sobre a Terra.

Antes de Oparin, Kardec, em 1857, trouxe as primeiras noções sobre a origem da vida e dos seres que povoam o mundo. Veja-se nas questões 43, 44 e 45 de O Livro dos Espíritos nas quais ele diz:
No começo, tudo era caos; os elementos estavam em confusão. Pouco a pouco, cada coisa tomou o seu lugar; então, apareceram os seres vivos apropriados ao estado do globo. (...)

A Terra continha os germes que aguardavam o momento favorável para se desenvolverem. Os princípios orgânicos se congregaram desde que cessou a força que os mantinha afastados e eles formaram os germes de todos os seres vivos. Os germes estiveram em estado latente e inerte, como a crisálida e as sementes das plantas, até o momento propício para a eclosão de cada espécie; então, os seres de cada espécie se reuniram e se multiplicaram.

Eles estavam, por assim dizer, em estado de fluido pelo espaço, entre os espíritos, ou em outros planetas, esperando a criação da Terra para começar uma nova existência sobre um novo globo.4

Se compararmos esses dizeres com o que conhecemos sobre a origem da vida, como Oparin mostrou, e um pouco sobre o que sabemos da organização do sistema solar, veremos que este pequeno trecho reflete bem o que Oparin deixou em sua teoria. No espaço, enquanto a Terra se remodelava, em sua atmosfera os elementos que constituíam os germes da vida formavam compostos que seriam responsáveis pelo seu aparecimento. Esses elementos, mais especificamente os átomos, se associavam e dissociavam continuamente. Com as chuvas, os compostos que se formavam caíam sobre os mares e, sujeitos à ação da energia dos raios e das radiações ultravioleta emitidas pelo Sol, se transformavam nas sementes que germinaram em vida. No espaço, os espíritos esperavam pela ocasião oportuna de aportarem no planeta e nela habitarem na matéria orgânica.

E é este conhecimento que me faz perceber que toda a criação resulta de grande projeto, de um projeto infinito em sabedoria e inteligência. Um projeto que diante dos meus olhos delineia um panorama maravilhoso, onde milhares de espíritos, ao redor da Terra, colaboravam na organização das moléculas até o momento de iniciarem sua jornada no plano terreno.

Nos mares mornos do mundo em formação, pequenas gotas gelatinosas, que flutuavam ao sabor das ondas, constituíram os primeiros corpos orgânicos com capacidade de se multiplicarem e de se tornarem os gérmens primordiais de toda a vida... Vida que hoje vemos exuberante palpitando em todo o planeta. E nelas, estávamos todos nós em nossos primeiros passos...

Aquelas gotas pequeninas se desenvolveram e se transformaram. Tornaram-se indivíduos simples como as algas verde-azuladas, fonte primária dos vegetais; tornaram-se também bactérias e proto-zoários que caminharam para os animais.

Formas simples, mas que se multiplicaram e se transformaram dando origem à multidão de espécies que hoje vemos preenchendo os mares e os rios, e ocupando todos os lugares, por mais inóspitos que sejam, se espalhando em terra firme de continentes e de ilhas, invadindo as montanhas e se estendendo aos vales, nas regiões geladas e nas mais quentes, no fundo dos mares e na superfície. E nós, seres humanos, fizemos parte dessa vida...

CAPÍTULO 2

O HOMEM

UM ANIMAL MUITO ESPECIAL

Desde os primórdios da existência, ain-\__Sg ] da selvagem, bem primitivo, o ho-OC--/ mem se mostrou religioso. Cultuava seus mortos, acreditava em uma força superior que permeia a todos e a tudo na natureza...

De onde teria saído esse sentimento, de onde os teria assimilado, de onde teria tirado crenças que os levava a fazer cultos e a promover rituais?

Desde o princípio sabia que tinha um espírito; um espírito que sobrevivia à morte e por isso necessitava ser lembrado. Já tinha em mente a existência de uma força criadora, protetora e amiga. Era uma forma de sentimento religioso que deixou vestígios por onde ele passou.

Na tentativa de entender essas crenças primitivas, arqueólogos e antropólogos se dedicaram ao estudo dos achados do passado e viram nelas a necessidade de superação do medo. O homem era temeroso, e para superar o seu temor inventou uma força protetora, invisível, sempre presente em tudo e em todos. Inventando o espírito que não morria, não se acabava com a morte, podia vencer o medo que tinha dela.

Isso não deixa de apresentar uma parte de verdade, posto que o homem vivia em pequenos grupos em um mundo desconhecido para ele; um mundo selvagem, onde o perigo era constante e estava em todos os lugares, podendo estar oculto nas sombras das árvores, podendo estar também nos temporais, no escuro da noite e no grito dos animais que perambulavam nas sombras.

A explicação parece lógica, porém uma dúvida paira em minha mente. Quando temos medo dificilmente nos apoiamos em algo que não seja visível, em algo que não possa ser usado como defesa. Em contrapartida, eles podiam constatar a morte, mas não o espírito. Como poderiam imaginar algo, se não tinham nenhuma base na qual pudessem se apoiar? A imaginação se forma graças a conhecimentos anteriores que fundamentam as suas bases criativas. Eles não deveriam ter ainda essas bases.
Existe uma outra explicação, que pela coerência, para mim, se torna mais fácil vê-la verdadeira. Baseado na espiritualidade humana, o Espiritismo considera a morte como a liberação do espírito de sua roupagem carnal.

Ao deixar o corpo, o espírito se vê fora dele e toma consciência de seu estado. Percebe que não está mais no mundo material, mas em outro que é o mundo espiritual. Nesse mundo é assistido por outros espíritos mais elevados e com eles aprende lições sobre sua espiritualidade e sobre Deus. Ao voltar para a Terra traz consigo inata essa idéia que o faz imaginar seu Deus como uma força criadora e o faz ver a si próprio como um espírito.
Novas idéias

A primeira religião foi aquela que nasceu na aurora da humanidade e que hoje se mostra nos vestígios que o homem deixou.

Surgiram outras mais tarde, mas sempre como produtos de criações humanas, que evoluíram no tempo acompanhando os progressos da humanidade. Religiões que se diversificaram e se espalharam pelos diferentes povos, moldando-se constantemente à cultura de cada um. Assim, cada povo tem sua maneira própria de crer em seu Deus, de ter seus cultos e de venerar seus mortos. Cada povo possui seus profetas e sua maneira de se comunicar com o invisível. Porém, em todos os povos as religiões acompanharam o desenvolvimento da mentalidade humana, de sua capacidade de entendimento e de discernimento sobre as coisas espirituais.

No decorrer da história humana surgiram pessoas especiais como Moisés, Buda e muitos outros até chegar Jesus. Todos trouxeram novos conhecimentos, quer seja por meio de revelações, como no caso de Moisés, quer por meio de intuições, como no caso de Jesus.

Bem mais próximo de nós veio Kardec e com ele o Espiritismo, que finalmente, dada já nossa capacidade de compreensão, nos traz novas idéias.

O Espiritismo dirige a sua atenção para o espírito e, sendo assim, considera inata no homem a idéia da perpetuidade do ser espiritual; essa idéia se acha nele em estado de intuição e de aspiração, segundo o livro A Gênese, capítulo XI, item 4. Quando encarnado as lembranças que traz no espírito se tornam inatas e se expressam intuitivamente. Encontramos nestas respostas uma explicação lógica para as crenças que expressamos e para as percepções que temos sobre as coisas que transcendem a matéria. São sentimentos inatos adquiridos em nossas contínuas passagens pelo mundo espiritual. Foi o que aconteceu com o homem primitivo. Ninguém lhes falou sobre isso no início de sua vida na Terra, mas traziam inata a idéia que expressaram na forma de suas crenças.

Com esta visão, o Espiritismo descerra um horizonte inédito para a compreensão de coisas que a ciência acadêmica não pode explicar. Por meio dele entendemos que tudo o que somos o somos em espírito, apesar de que, teimosos ainda, buscamos na matéria explicações de coisas como sentimentos, consciência e estados de alegria e de dor, dons inatos e intuições.

O Espiritismo não se opõe à ciência, mas entende o limite de sua visão; a ciência, da mesma forma, não o contesta nem a ele se opõe, muito pelo contrário, no entendimento da vida, ambos se completam reciprocamente.
A arte como um dos vestígios do passado
Os homens primitivos e selvagens se refugiavam nas cavernas deixando lá seus rastros. Rastros que falam numa linguagem silenciosa dos sentimentos que tinham... Rastros nas lapidações, nos desenhos gravados nas rochas que forravam o interior de seu abrigo. Deixavam neles o pensamento que tinham e também seus desejos, neles expressavam seu modo religioso de viver e as coisas que acreditavam. A figura de um animal ferido era garantia de conseguir alimento e ao mesmo tempo representava a força que teriam sobre ele. Deixavam também nas rochas marcas de mãos... No fundo das cavernas deixaram resíduos de funerais, de rituais fúnebres.

Um touro ferido, por exemplo, mostra a beleza da arte, dos traços que delineiam com perfeição a anatomia de seu corpo... O colorido do sangue e a expressão do seu olhar. São figuras que falam da sensibilidade, do dom artístico que bem cedo começou a expressar-se no homem primitivo. Em todos esses vestígios manifestam-se a cultura e os anseios, os desejos mais ocultos e os medos mais profundos... Tudo ficou marcado nas lapidações daquelas paredes rochosas, nelas está o começo da história dos mitos que trazemos das crendices que muitos carregam, das lendas que foram criadas e nas quais muitos ainda se apoiam. São coisas do passado que ainda se refletem sobre nós.

As influências do passado

Freqüentemente buscamos saber sobre a nossa história, quer sobre aquela que tecemos durante a vida, quer sobre aquela que vem de um tempo distante. E principalmente nesta última que encontramos as raízes do que somos. Ao percorrê-la em suas diferentes etapas e épocas de existência, percebemos na seqüência dos acontecimentos os erros que cometemos, mas, que também, muitos ainda cometem; vemos as conseqüências que esses mesmos erros tiveram e que nos levaram a mudar... Podemos sentir as angústias já vividas, as destruições causadas pela violência, as guerras que fizemos... Porém, podemos ver também o homem que constrói, que edifica monumentos duradouros e que expressa arte e sentimento... Que homem é este que de um lado destrói e de outro constrói? De um lado se mostra maldoso e de outro mostra a bondade?

Seguindo assim, de um passado distante aos dias de hoje, podemos ouvir o som mudo dos passos dados pela humanidade, podemos ouvir seus gritos de vitória ou seus lamentos doídos... Podemos sentir seus anseios, perceber suas derrotas, mas também notar os seus progressos...

Viemos de um passado remoto e trazemos em nós muito do que fomos apesar dos progressos conseguidos... O homem primitivo ainda se reflete sobre nós... Ele se encontra escondido no coração de muita gente que se apóia nos amuletos, na necessidade de proteção para encontrar a sorte, nas imagens dos santos venerados, nos cultos e rituais com velas e fumaça de incenso... Coisas que são infundadas, que não possuem bases científicas, que podem causar sentimentos de obrigação ou de temores, tal como a história nos conta que acontecia com os homens das cavernas.

Esse é o motivo de se buscar a nossa história... De se voltar ao passado para encontrar o homem do presente, para saber quem foi e como se tornou quem ele é.

Encontrando os caminhos seguidos nos fatos que se sucederam, poderá se pressupor os que virão depois. Por isso existem os historiadores... Historiadores que buscam comparar a Antigüida-de com o tempo moderno, verificando os progressos obtidos e os meios usados para alcançá-los; as mudanças ocorridas e os fatos que as causaram... Busca-se, afinal, encontrar o homem que se edi-ficou e se construiu, que criou a sociedade e que a modifica em cada época, nos moldes do que já conseguiu aprender.

Por meio da história procuramos saber se evoluímos ou se a evolução apregoada é fruto de mera ilusão... Para muitos somos ainda os mesmos selvagens das cavernas, mas para outros somos bem diferentes, melhores e mais humanos...

Mas, se olharmos para nós mesmos e para o passado que tivemos, podemos perceber que progredimos, que caminhamos bastante e que somos hoje mais humanos do que ontem fomos.
Entre erros e acertos

A comparação entre o tempo antigo em que vivemos e o moderno ou atual, atesta a nossa evolução. Mas, essa evolução ao longo do tempo foi gradual e relativamente lenta, de tal forma que podemos perceber as mudanças ocorridas e os fatores que a causaram.

Os historiadores, como dissemos anteriormente, têm se ocupado em analisar não somente os eventos que se sucederam, mas incluem neles os erros cometidos. Assim é a história científica, cujo interesse se assenta sobre a “preocupação com a verdade, com o método, com a análise crítica de causas e conseqüências no tempo e no espaço. A importância desse estudo está em que se conhecendo os erros e o que deles decorreram, pode-se criar formas de evitá-los, ou de pelo menos amenizá-los. Um exemplo disso está nas des-truições e mortes que as guerras causaram com sua violência.

Sabemos da Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914el918, e dos efeitos dela sobre a humanidade; efeitos nefastos de dor e sofrimento, diante dos quais ergueram-se os povos, reuniram-se as nações para formar uma organização, uma liga entre elas, com o objetivo de manter a paz mundial. A maioria das pessoas já ouviu falar na Liga das Nações, posteriormente considerada ineficiente por não ter sido capaz de evitar a Segunda Guerra Mundial. Por esse motivo foi dissolvida para criar-se um outro órgão no qual se corrigiram os defeitos e erros cometidos pelo primeiro. Foi assim que nasceu a ONU, Organização das Nações Unidas, formada em 1945. O objetivo tem sido o mesmo, isso é “promover a paz mundial, promover a colaboração entre paízes para solucionar problemas mundiais como segurança, questões socioeconômicas, culturais e humanitárias, pobreza, doenças e degradação ambiental, o respeito pelos direitos humanos e ajudar a construir e manter um bom relacionamento entre as nações”.2

E assim que pelas causas e seus efeitos o homem se constrói, melhora e procura solucionar seus problemas em termos mais amplos, que envolvem a sociedade e se refletem sobre toda a humanidade.

Mas, atrás desse homem material está o espírito que progride, que aprende e melhora, que na continuidade da vida espiritual entre erros e acertos se edifica.

CAPÍTULO 3

OS PASSOS DA HUMANIDADE

Do que falamos sobre a importância do passado sobre nós, sentimos necessidade de fazer um retrocesso um pouco maior em nossa história. Necessitamos encontrar a nossa origem. Ela começa há mais ou menos 22 milhões de anos, quando alguns mamíferos semelhantes a gorilas, habitantes de árvores, resolveram deixá-las para vagarem nas amplas savanas africanas... Ali se modificaram, do chão se ergueram para andar sobre duas patas, transformaram-se, tomaram-se eretos, aumentaram o cérebro, arredondaram o crânio e modificaram a face, enfim, transformaram-se em humanos.

Que força ou que fatores os teriam impulsionado a mudar seu comportamento, de tal forma a alterar a sua maneira de viver entre galhos para caminhar nas colinas?
Podemos, sobre este assunto, encontrar respostas tanto no âmbito científico como no religioso se, porém, nos apoiarmos no Espiritismo que oferece a oportunidade única de se considerar o homem como produto de uma evolução espiritual, perfeitamente harmônica com aquela que se realiza na matéria orgânica.

0 ponto de vista científico1 DNA, iniciais que designam o ácido desoxirribonucleico.

Depois da descoberta dos fatores que determinam a herança das nossas características, e que hoje sabemos, estão distribuídos ao longo de moléculas conhecidas como DNA,1 todas as explicações sobre as características humanas, sejam elas físicas, fisiológicas ou comportamentais, recaem sobre as ações desses fatores, conhecidos como genes. Dessa forma, tudo o que somos, tudo o que sentimos, nossos impulsos mais íntimos e nossas ações dependem de nossos genes, mas que são por sua vez dependentes da influência do ambiente em que nos desenvolvemos. Genes podem desenvolver a violência a qual pode ser controlada pela educação; podem tomar as pessoas altas, mas que serão baixas se não receberem alimentação adequada e assim por diante. Podem nos levar ao impulso de viajar e de conhecer novos lugares e se isso é possível é o que fazemos... Pelo menos é o que fizeram aqueles animais que deixaram as florestas para morar nas savanas. Cientificamente considera-se que esse impulso na busca de outros lugares foi causado por alterações genéticas que casualmente podem ocorrer.

Com o tempo, vivendo em ambiente completamente diverso daquele que haviam explorado, lentamente sofreram mudanças em suas formas, transformaram patas traseiras em pés, enquanto as dianteiras modificaram-se em mãos. E como dissemos, tornaram-se eretos, desenvolveram o cérebro, modificaram a face...Tornaram-se humanos... Assim foram os passos dados pelo animal em direção ao homem, conforme o ponto de vista científico e que mostramos esquematizado na figura 4 (p. 48).

0 Espiritismo e a ciência

Quando Darwin lançou o livro A Origem das espécies, em 1859, havia dois anos que Allan Kardec havia publicado O Livro dos Espíritos, considerando assim, a codificação do Espiritismo.

Paralelamente a Darwin e independentemente dele, outro cientista, Alffed Russel Wallace, havia desenvolvido a mesma teoria, e, portanto, deve também ser mencionado aqui, visto que, com o completo desconhecimento das pesquisas feitas por Darwin, também a desenvolveu. E isso exatamente na mesma época. Porém, cabia a Darwin publicá-la, porque essa teoria iria provocar grandes tumultos sociais e religiosos, capazes de serem suportados com êxito, se o seu autor fosse de família nobre e muito rica, a quem todos, independentemente de seus sentimentos, respeitassem. Alfred Russel Wallace era de família simples e vivia de seu trabalho como professor. Não teria condições de enfrentar os conflitos que surgiram e terminaria por ser relegado e sem emprego.

A teoria da evolução darwiniana funcionou como um grande choque para um povo orgulhoso e cheio de preconceitos. Muitos perderam a fé. Diante daquela teoria, o ser humano já não podia entender-se como uma criação especial e, também, a idéia de ver-se como animal não permitia a ele entender-se mais como ser humano. E onde ficaria a sua crença e tudo o que aprendeu, como ficariam os ensinamentos cristãos, como ficariam os antigos textos sagrados? Então, o que seria o homem assim jogado do pedestal em que se achava e de tudo o que até aquele instante acreditara?

Contudo, o Espiritismo já começava a mostrar seus efeitos, trazia em seu contexto as respostas que se buscavam... Abriu dessa forma oportunidade para o ser humano readquirir suas crenças e sua fé e, ainda hoje, ele continua a nos permitir uma visão bem maior sobre nós mesmos. Ao homem material adiciona o espiritual e mostra que ambos evoluem harmonicamente. Mostra a nossa natureza humana apresentando-a na alma e mostra os animais que, se não possuem ainda o espírito humano, possuem uma essência dele na forma mais simples de um princípio que deverá se desenvolver, progredir e transformar-se em espírito humano.

Essa é a nova visão de um horizonte mais amplo e mais claro à nossa compreensão. Um horizonte que põe em destaque o homem que se modela fisicamente sob a ação de mecanismos orgânicos, mas que tem um espírito que também se desenvolve, que impulsiona os processos biológicos para encontrar constantemente novas formas para habitar. Aceitar isto como um fato é entender que a alma foi a força propulsora que levou os primatas, considerados nossos precursores, a buscar um novo rumo. Certamente, as condições orgânicas do corpo físico estavam disponíveis à utilização espiritual e é neste ponto que a interpretação genética pode ser vista como apenas a ocorrência de alterações orgânicas abrindo a oportunidade para o espírito seguir um novo trajeto em sua evolução.

0 princípio inteligente e a alma humana

Tudo o que existe no universo teve uma origem. Uma origem que sempre começou de organizações mais simples para se estruturar nas mais complexas, tal como aconteceu com os astros, as estrelas, o nosso mundo, a vida e a nós mesmos. Em tudo isso se nota um desenrolar perfeito e harmônico como se mãos invisíveis dirigissem todos os passos pelos caminhos a serem seguidos. Caminhos que incluem o percurso percorrido por dois tipos de universos: um material e outro espiritual.

Com relação ao espiritual me refiro às multidões de espíritos simples e ignorantes, que invisíveis no espaço sideral, caminhavam ligados às partículas universais, e colaborando com a construção material dos mundos, assistiam a todos os eventos universais; observando e guardando as imagens que presenciavam no recôndito de seu arquivo mental. Contudo não vão sós. Com eles há espíritos celestes bastante evoluídos que os assistem e orientam.

Depois de uma grande jornada pelo espaço sideral aportam em nossa Terra, onde os elementos existentes na atmosfera, provenientes da grande explosão de um buraco negro, formavam a matéria orgânica que nos mares mornos se organizavam em gotas gelatinosas para expressar a vida.

De encarnação em encarnação, por meio das experiências terrenas, encontraram oportunidade para desenvolver instintos e atributos como a consciência e a inteligência, aprendendo e memorizando cada momento vivido, cada experiência, cada episódio que a vida na Terra lhes proporcionava... Na continuidade desse processo de constante evolução tornaram-se almas e como tais se encarnaram nas formas primitivas da Terra, possivelmente ainda não humanas, mas que já se modelavam nessa direção.

Kardec, em A Gênese, ao se referir às primeiras encarnações humanas na Terra, aponta para a possibilidade de terem as almas humanas primitivas, em suas primeiras encarnações, utilizado o corpo de um animal, na seguinte hipótese:

Bem pode dar-se que corpos de macacos tenham servido de vestidura aos primeiros espíritos humanos, pouco adiantados, que viessem a encarnar na Terra.22 Allan Kardec. A Gênese, cap. XI, item 15, p. 212
Penso que este ponto merece algumas considerações. Sabe-se pelo Espiritismo que o espírito não se liga diretamente ao corpo grosseiro da matéria. Entre ela e o espírito há um envoltório constituído por matéria sutil, semifluídica, que permite a ligação entre ele e o corpo físico. Esse é o perispírito que pelo Espiritismo é considerado o modelador do corpo físico. Então, como poderia o perispírito de uma forma animal, semelhante a um macaco, como o daquele que se constituiu em precursor humano, constituir-se em um modelador do corpo na forma humana, se seu perispírito era o de um macaco? Ou, ao contrário, como poderia a alma humana, com um perispírito humano vestir-se sob a pele de um macaco?

A hipótese de Kardec inclui a possibilidade de que os primeiros espíritos humanos primitivos, na continuidade de seu caminho evolutivo, usaram, para a formação do corpo que lhes serviria de instrumento, as células ovo das fêmeas dos primatas antecessores humanos, e exerceram sobre elas a sua atividade intelectual.

Assim, desde que:

(...) admitida essa hipótese, pode-se dizer que, sob a influência e por efeito da atividade intelectual do seu novo habitante, o envoltório se modificou, embelezou-se nas particularidades, conservando a forma geral do conjunto. Melhorados, os corpos, pela procriação, se reproduziram nas mesmas condições, como sucede com as árvores de enxerto. Deram origem a uma espécie nova, que pouco a pouco se afastou do tipo primitivo, à proporção que o espírito progrediu. O espírito do macaco, que não foi aniquilado, continuou a procriar, para seu uso, corpos de macaco, do mesmo modo que o fruto da árvore silvestre reproduz árvores dessa espécie, e o espírito humano procriou corpos de homem, variantes do primeiro molde em que ele se meteu. O tronco se bifurcou: produziu um ramo, que por sua vez se tornou tronco.33 Idem, item 16, p. 213.

Penso que, como na natureza tudo é gradual e não há saltos, a alma humana, em suas primeiras encarnações, ao se ligar pelo perispírito ao ovo do primata animal, poderia ter exercido sobre ele sua influência, imprimindo nele uma energia diferenciada, a qual, por sua vez, poderia ter influído sobre a organização interna do ovo, orientando-o m sua organização segundo novas diretrizes. Isso poderia causar pequenas modificações, que, entretanto, seriam suficientes para um perispírito pouco desenvolvido na forma humana usar aquele corpo. Some-se a isso que no ovo, ao qual ele se ligou, poderiam éxistir variações genéticas adequadas, produzidas anteriormente pelos processos naturais de mutação, às quais, seriam, então, usadas pelo espírito na construção de seu novo corpo.

Sabemos que as transformações físicas, do animal para o homem, foram lentas no tempo, de tal forma que a evolução simultânea do perispírito humano acompanhando todo o processo impulsionou continuamente o aparecimento de formas físicas modificadas. Porém, nada se sabe sobre os processos evolutivos perispirituais que intermediaram a sua evolução.

Contudo, suposições desse tipo poderiam explicar as mudanças evolutivas do homem como um todo, da forma como anteriormente nos referimos, e, além disso, também poderia explicar o impulso que levou o primata nosso precursor a mudar seu comportamento. Esta é, porém, apenas uma interpretação pessoal, que como geneticista, deduzi da suposição feita por Kardec.
Mesmo tendo em conta a explicação científica que se refere ao corpo físico e ao seu desenvolvimento evolutivo, com relação ao espírito a situação é bem diversa e pode ser vista de outra forma. No entanto, matéria e espírito reagem concomitantemente de forma harmônica, interagindo continuamente de maneira que, sob o comando espiritual, o corpo físico se modela segundo as normas biológicas às quais se acha sujeito.
0 grande projeto

A palavra projeto significa planejamento de algo com destino a um fim. Todo o projeto tem um objetivo que deve ser alcançado. Pelo projeto e pela maneira como ele se desenvolve pode-se sentir a capacidade de quem o projetou.

Assim, o universo e a vida fazem parte de um projeto; um projeto cujo objetivo é o espírito que deve evoluir e que para isso necessita da matéria. Um projeto infinito em perfeição e beleza... Um projeto que mostra um Arquiteto supremo em bondade e uma inteligência que ultrapassa qualquer limite. Um projeto que inclui a construção material e a edificação espiritual. Dentro dele podemos nos ver como espíritos, e como tal, encontrar um sentido para a vida.

Sei que ao olhar dos incrédulos, isto pode parecer tolice ou até mesmo absurdo, porém, se temos alguma coisa diante dos olhos e buscamos uma explicação, tolice será não querer saber o que ele possa significar, e basear-se em um único aspecto porque se desprezam as coisas ou fatos que não são palpáveis, sem querer saber se são verdadeiros ou não, significa apenas a vontade de fugir daquilo que não conseguimos apreender ou que não desejamos ver.

Entender a espiritualidade e a atuação do espírito na direção evolutiva almejada, sua influência sobre o corpo físico como seu usuário, nos leva a compreender toda a vida como um ato divino de infinita bondade.

Esta bondade, entretanto, poderia ser questionada diante das limitações causadas por doenças, por malformações especialmente cerebrais que condenam pessoas a situações de dependência dos outros e de sofrimentos causados pela inutilidade física. Muitos se revoltam com a situação e podem se perder na descrença, enquanto outros imputam a Deus a maldade de quem castiga. Isso podería ser evitado pela compreensão de que é o espírito o causador de seus defeitos. Deficiências físicas fazem parte dos processos evolutivos espirituais, nos quais o corpo físico se presta à solicitação espiritual. São as marcas que trazemos de coisas que fizemos em outras vidas e que a bondade divina nos permite resgatar.
0 nosso passado

Durante o desenrolar desse projeto, em diferentes fases já fomos animais e como animais fomos primatas; na continuidade dele, paulatinamente nos tornamos humanos. Um processo contínuo que não deixou margem a algum elo perdido como um dia já se buscou encontrar.

Houve uma época, logo após o lançamento da teoria da evolução darwiniana, que diante dos abalos causados, tanto sociais como religiosos, procuravam-se motivos para desmerecê-la. Então, criaram a idéia de que se ela fosse verdadeira deveria se encontrar nas camadas da terra os fósseis de formas intermediárias que seriam assim meio-homem e meio-macaco. Se isso não fosse encontrado provaria a invalidade da teoria.

Fizeram-se inúmeras escavações em busca desse elo. Entretanto, o que tem sido encontrado nas entranhas da terra são fósseis que permitem a reconstrução da linhagem humana. Notam-se as mudanças, porém, de uma forma geral. A linha é progressiva, apresentando alterações simultâneas em todas as características em direção à estruturação humana.

Antropólogos e arqueólogos ainda escavam a terra em busca de mais informações. E se deparam sempre com achados que completam as lacunas que ainda existem, apesar de que, aqueles que já foram encontrados são suficientes para se reconstruir a história evolutiva humana. As lacunas que ainda existem não devem servir de críticas, apenas indicam que é necessário se prosseguir na procura.

Quanto a se ter um elo perdido que mostre um ser meio-homem e meio-macaco, isso não existe, pois o homem evoluiu como um todo em suas características. É, porém, possível traçar uma linha que se estende do símio ao homem moderno. Vai-se de uma forma primitiva, que é conhecida como Australopithecus ao Homo e deste, depois de várias outras espécies intermediárias ao Homo sapiens, a nossa espécie. É assim que, como nos diz Kardec, “nada na Natureza se faz por transição brusca. Há sempre anéis que ligam as extremidades das cadeias dos seres e dos acontecimentos”.

Essa visão se direciona para o homem material e baseado nela pode-se entender a consideração científica de ser o homem apenas um macaco melhorado.

Porém, não podemos descartar a idéia de ser ele mais do que isso; de ser além de matéria um espírito que, como tal, também tem evoluído acompanhando o progresso de sua estruturação material. Devemos, portanto, procurar compreender esse lado de nossa evolução, acompanhando os passos do nosso espírito em direção à alma que hoje somos.

Noções parciais

Uma noção parcial sobre nós mesmos, que se possa ter pela ciência ou pela religião, poderá nos causar um conhecimento parcial e eu diria até mesmo, não tão correto, ou até mesmo falso, além de se tornar conflitante diante de informações que se chocam.

Aderidos à ciência muitos se consideram animais porque descendem de animais, melhorados, porém animais. As religiões que se espalham entre os povos diferem quanto aos seus conceitos, apesar de que, para todas elas existe a noção do homem espiritual. Freqüentemente elas se digladiam entre si por princípios e idéias diversificadas. Muitos se tornam materialistas e o materialismo tem suas conse-qüências. A noção de um Deus se esvai e com isso se encoberta o sentido da existência. Nesse tipo de visão o ser humano se torna profundamente egoísta e reage às condições competitivas do mundo para ter para si o que puder, sem olhar para as necessidades dos que tentam partilhar as condições que a vida oferece. Afinal, como Darwin já havia dito, os melhores sobrevivem e os outros não interessam, pois estão fadados a serem vencidos.

Existe uma outra condição na qual se procura agradar ambos os lados, ou seja, o científico e o religioso, qualquer que seja a religião. Conheci pessoas que pela incerteza dos fatos espirituais militam a religião e dentro dela acreditam em seus dogmas sem, porém, uma reflexão maior; em contrapartida, buscam a ciência e se agrupam a ela como cientistas. Encontrei na área científica alguns colegas que se comportavam dessa maneira. Resta-me, contudo, a dúvida no que realmente pessoas assim acreditam e o que realmente pretendem, ou que visão têm de seu Deus.

No entanto, a maioria dos cientistas que conheço está em busca da verdade, e mesmo se mantendo céticos, estão prontos a aceitar outras idéias desde que elas lhes pareçam verdadeiras. Assim me senti um dia, apesar de, pela beleza da vida, não deixar de acreditar e não ter a menor sombra de dúvida sobre a existência de meu Deus. Apenas as religiões se me mostravam confusas refletindo o medo de contrariar antigas crenças. Buscava, então, explicações que pudessem me parecer razoáveis e mais lógicas em seus conceitos. Encontrei o Espiritismo e por ele pude entender a ciência e me ver mais que um corpo físico, mas também um espírito; pude me ver em minha dualidade. Então compreendi que já fomos primitivos, que caminhamos bastante, mas seguindo as normas de uma evolução contínua, sempre prosseguimos sobre os reflexos do passado; de um passado que constrói incessantemente o presente.

CAPÍTULO IV

UM POUCO DE HISTÓRIA

Entre as várias características que desta-cam o ser humano do restante mundo animal está a sua procura constante em conhecer o mundo e principalmente a si próprio, e nisto empenha-se com a curiosidade de quem não mede esforços, que luta, que persiste vencendo os obstáculos de sua própria ignorância.

Nos seus primórdios, contavam apenas com a imaginação e dela formulavam concepções. Reunidos ao redor de fogueiras, à noite, observavam o céu e viam as estrelas e viam a lua... Provavelmente se perguntavam o que poderia ser tudo aquilo.

Ao longo do tempo, embalados pela observação e pela fantasia, criaram história sobre uma Terra plana coberta por uma cúpula; história essa envolta em misticismo que acabou se tornando lenda...

Eram também aventureiros, sempre se lançando para outros lugares em busca de condições melhores, onde não faltassem alimentos nem água.

Em suas migrações se espalharam, encontraram novas terras bem distantes. Em muitos lugares se fixaram, aprenderam a construir moradias fazendo nascer os povoados. Sabiam o lugar certo para morar, geralmente à beira de rios, onde a água era abundante e os arredores mostravam-se promissores com relação à caça.

Fizeram nascer as mais belas civilizações, construíram templos magníficos e deram vazão aos sentimentos religiosos. Criaram deuses e neles se apoiaram, porém, ao longo do tempo, em sua marcha progressiva, se modificaram sobre as bases de sua bagagem antiga... Bagagem que ainda persiste no seio da humanidade e que pode ser percebida quando analisamos a nossa história. Trazemos muito do homem antigo em nossas crenças em que a fé se mistura às crendices, aos talismãs da sorte, às adorações diversas a coisas e imagens.
A necessidade de alimentos para uma população que aumentava fez surgir a agricultura e a domesticação de animais.

Entretanto persistiam na observação do céu e disso formularam seus conceitos sobre o espaço, a Lua, o Sol e as estrelas...

Sempre ao longo do caminho mostraram um modo próprio de ver e de sentir, de perceber o mundo e as coisas que ele tem, e assim estabeleciam suas idéias as quais transformavam em linguagem. Discutiam entre si seus pensamentos, trocavam informações e contavam aos seus filhos aquilo que conseguiam apreender e que lhes parecia verdadeiro.

Assim foram os passos da humanidade, e, olhando para a nossa história ainda podemos ouvir os sons mudos de cada um desses passos na construção do homem moderno.
A influência religiosa

As religiões, de uma forma geral, têm exercido grande influência sobre o desenvolvimento do ser humano em seu aspecto moral, não deixando, podem além, de interferir sobre a sua intelectualidade, uma vez que cercearam conhecimentos pela imposição de dogmas considerados inquestionáveis.

O efeito das revelações tem sido benéfico, porém é preciso entender que a interpretação delas tem sido condicionada ao entendimento humano, nas diferentes épocas em que vivemos.

Para compreender melhor este assunto, novamente devemos lançar o olhar para o passado, e procurar sentir em cada momento vivido a nossa capacidade de compreensão.

Voltemos, pois, à distante época mosaica, há mais ou menos quatro mil anos. Lá encontraremos Moisés, um profeta que segundo a história havia libertado seu povo da escravidão do Egito. Levou-o para o deserto e ali acampou com eles. Lá freqüen-temente se retirava para orar ao pé do monte Sinai e foi ali ao sopé desse monte que recebeu as revelações divinas. Elas incluíam o decálogo ou mandamentos das leis de Deus e a Gênese que, por meio dele, foram transmitidas ao povo hebreu. Usando o decálogo Moisés, como legislador, formulou suas leis, conhecidas por esse motivo por leis mosaicas.

Essa é uma história já bastante conhecida, de forma que nos basta recordá-la sem nos atermos aos seus detalhes. Contudo, devemos considerar, que se foram adequadas ao entendimento humano daquela época, parecem se chocar com o que se tem descoberto por meio da observação dos fatos da vida e do universo, tornando-se motivo de conflitos entre religiosos e cientistas.

Para muitos, aquelas revelações, especialmente no que refere à gênese, permanece viva e única devendo ser aceita, ao “pé da letra”, sem contestações. Falta ainda para as religiões que se assentam sobre os velhos textos bíblicos compreender que a intenção divina era a de mostrar ao homem apenas a relação que havia entre Ele como criador e o ser humano como criatura. Há 4.000 anos era a única coisa que podia ser compreendida. O ser humano estava longe de entender a maneira como Deus criou o universo e o homem.
Uma breve passagem pelo Antigo Testamento

Para entendermos um pouco mais as diferentes situações vividas durante o desenrolar da história dos povos, convém relembrarmos alguns trechos dos velhos textos deixados pelo povo hebreu e contidos no Antigo Testamento. Sob este título encontram-se vários livros bíblicos. Vejamos, por exemplo, a primeira parte desse texto, na qual se encontra a narrativa de um povo, sua origem, seus usos, costumes e suas crenças, realçando sempre a ligação que ele tinha com seu Deus.

Por meio dos profetas recebiam mensagens divinas. Direcionemos, portanto, neste momento, a nossa atenção para Moisés, considerado um dos maiores profetas desse passado remoto.

Conta-nos a Bíblia, mais especificamente pelos textos do “Êxodo”, que Moisés foi o grande libertador do povo hebreu condicionado nesse tempo à servidão no Egito. Esse povo, depois da morte de José,1 havia se estabelecido numa região do rio Nilo, e posteriormente foi subjugado e escravizado pelos egípcios. Ao libertá-lo, Moisés o conduziu para o deserto e lá se retirava freqüentemente para orar no monte Sinai. Era ali que o profeta entrava em contato com Deus e foi dali que, segundo ele, Deus lhe transmitiu as revelações.
1 José tem toda uma história narrada no livro Gênese, capítulo 2.

As mensagens divinas, apesar de verdadeiras em sua essência foram, porém, transmitidas ao povo segundo a compreensão do próprio profeta. Dessa forma, ao serem passadas para os hebreus o foram de acordo com a interpretação do interlocutor, à qual se somou o entendimento de um povo que já trazia consigo muitas crendices e mitos. E necessário, portanto, dentro dos conhecimentos atuais, saber interpretar os textos bíblicos, seus escritos e ensinamentos.

Vejamos agora o que diz o primeiro livro bíblico conhecido como Gênese, também chamado o Livro das Origens. Encontramos ali a história da criação divina. Ao lê-la fica evidente diante de nossos olhos que essa história não tinha por finalidade tornar-se um manual científico que expusesse a maneira como Deus criou o mundo, apenas apresenta de uma forma simbólica que Deus o criou. O objetivo principal foi, portanto, religioso. Para transmiti-lo, o seu autor usou a simplicidade pueril conveniente à sua época... O homem estava distante de uma compreensão maior para penetrar os segredos da criação.

Contudo, os ensinamentos, por mais imaginativos e envolvidos por idéias fantasiosas ou simbólicas não deixaram de ser profundos quanto ao conceito que trouxe de um Deus...

Com relação às leis que deveriam ser acatadas por pessoas pouco desenvolvidas moralmente, Moisés, como legislador, para fazer-se obedecer implantou a idéia de um Deus que não hesitava em castigar, e que era implacável quanto àqueles que não cumprissem os mandamentos. Essa idéia persistiu no tempo e o homem criou em sua mente a visão de uma divindade à sua imagem e semelhança, com todos os sentimentos de vingança e de ira que possuía. Contudo, importante foi o fato de saber que ele vinha das mãos de Deus e, portanto, ele fazia parte de toda a criação. Podia, enfim, definir-se e entender-se como filho do criador, e como tal tinha um futuro a ser seguido. Cumprindo as leis poderia contar com a proteção divina e salvar-se, ou, se não as cumprisse, poderia perder-se, podendo estar sujeito à ira divina.
0 sofrimento no mundo

As revelações mosaicas foram essenciais para a humanidade naquela determinada fase de seu desenvolvimento intelectual e moral. De certa forma supriu a necessidade que o homem tinha de encontrar um sentido para a sua existência. Mais do que isso, apesar de ser apresentada de uma forma simbólica, não deixou de dar ao homem as primeiras noções sobre o mal. Deu-lhes uma razão de se viver em um mundo de lágrimas e de árduos trabalhos. Lembremos, por exemplo, o que nos diz o capítulo I, a partir do versículo 27, do livro Gênese. Ali está exposto que o Criador moldou da argila o homem e de uma de suas costelas fez surgir a mulher em estado de pureza, sem pecados, para poder usufruir as belezas e delícias do jardim do Éden. Esse jardim era um paraíso e nele havia árvores frutíferas e muitas flores.

Os nossos primeiros pais podiam comer dos frutos de todas elas, menos os de uma árvore que produzia os frutos da sabedoria. Havia também animais. Entre eles a serpente, o mais astuto de todos eles.

O capítulo 3, do versículo 1 ao 22 conta que, um certo dia ela se aproximou e tentou Eva dizendo que eles podiam comer daquele fruto para conhecer o bem e o mal e assim tornar-se como Deus. Eva comeu e ofereceu o fruto para Adão que também dele se serviu. Cometeu-se assim o primeiro pecado que os homens designaram de culpa original. Por causa disso, eles foram expulsos do paraíso para um mundo hostil, cheio de perigos e sofrimentos. Como descendentes deles herdamos esse pecado e ficamos sujeitos às mesmas penas. Assim o homem conheceu as aflições e a amargura da dor.

Notamos, aqui, que a maneira de explicar as primeiras noções que recebemos sobre nós e nosso Deus e as origens do bem e do mal foram dadas de um modo muito simples, quase infantil, mas era a única que cabia em nosso entendimento na época em que nos foi passada. Entremeadas com mitos e fantasias, tornou-se precioso documentário de uma determinada fase de nossa história e, portanto, nunca deverá ser modificada. Nós é que necessitamos saber identificar dentro delas a verdade que se esconde em sua puerilidade.
A falta de uma interpretação correta e os conflitos gerados

Para muitos, ainda persiste a idéia de que fomos moldados com a argila da Terra pelas mãos do Criador na figura de Adão. Com seu sopro divino infundiu-lhe a vida e com ela o espírito.

Vale a pena repetirmos aqui o que já dissemos anteriormente, visto que é importante se refletir sobre o assunto. Sendo assim, voltemos à maneira como Deus criou a mulher e que já sabemos foi de uma costela de Adão. Segundo os velhos textos ela se chamou Eva. Dessa forma Deus criou os pais de toda a humanidade.

Concedeu-lhes o Criador um paraíso para viverem, mas a desobediência às ordens divinas levou-os ao castigo de serem expulsos para uma terra de dor e amarguras.

Essa idéia atravessou milênios e se tornou um dogma, no qual se deveria acreditar sem discussão, pois se assim não fosse o homem sofreria a pena de queimar em fogo eterno.

O medo passou a dominar o ser humano e o impedia de buscar explicações mais plausíveis. Porém, o espírito humano, indômito por natureza, resolveu quebrar as antigas amarras e lançou-se na aventura de procurar outras explicações.

Abstendo-se de crer em fatos que não aclaravam sua mente, tão profundamente mergulhada nas sombras das dúvidas que o atormentavam, buscou na observação criteriosa dos eventos da vida e do universo um caminho para um entendimento maior.

Obtém, então, respostas que não coadunavam com o que os velhos textos diziam. Insurgiu-se, pois, contra as idéias reinantes buscando por meio de investigações criteriosas conhecer a verdade sobre os assuntos universais. Encontrou nesse caminho outras bases que se mostraram mais sólidas para o entendimento da vida e de si próprio. Fez assim nascer a ciência.

A reação religiosa perante as inovações científicas foi sempre austera e intransigente. Os líderes da Igreja acabaram por constituir um Tribunal que ficou conhecido como Tribunal da Inquisição, cuja função era a de julgar idéias que poderiam, para eles, ser heréticas. Isto aconteceu pouco mais de mil anos depois de Cristo.

Apesar dos ensinamentos cristãos direcionarem o ser humano para o amor e para a compreensão mútua, a organização da nova Igreja incluía o radicalismo cruel que condenava e torturava. Não se admitia dentro da igreja nenhum fato que pudesse demonstrar heresia. Todo aquele que fosse considerado incrédulo pelos seus conceitos heréticos merecia a pena de morte. Nessa época foram vividos momentos de muita angústia, de muito sofrimento... Qualquer um, sob a mínima acusação, era considerado culpado e sem apelação sofria torturas que terminavam com a morte. Momentos que foram terríveis, fruto exclusivo da ignorância, mas que não conseguiram cercear o desejo daqueles que buscavam a verdade. Muitos cientistas do passado morreram queimados na fogueira. Apesar disso, o coração humano conseguiu atravessar todas as barreiras criadas pelo temor e prosseguiu avante... E a ciência, como campo de conhecimento, caminhou, descortinando novos horizontes ante a visão admirada, por vezes assustada do homem. Mas como conseqüência das perseguições sofridas, desligou-se de qualquer religião, direcionando-se para o materialismo.

A ciência em vanguarda

Em 1859, um cientista, num assomo de coragem, lança um livro, hoje famoso, noticiando que o homem era um animal, descendente de animais. Um nome muito conhecido no mundo da ciência, e combatido pelos religiosos que encontraram nele um forte abalo para seus fundamentos.
O trabalho desse cientista, ao ser exposto ao público, como era de se esperar, não foi aceito pela sociedade nem pelas religiões que tentaram desesperadamente bani-lo para apagar aquelas idéias tão avassaladoras e por que não dizer, maldosas...

Sabemos que havia um motivo maior causador de todo aquele abalo. A resposta se encontrou sempre bem dentro de nós mesmos. Era o orgulho ferido... Era o pensar em nós como animais, descendentes de animais e não uma criação especial das mãos divinas. Charles Darwin jogou por terra todo o orgulho humano, tirando-o de seu pedestal e o lançando no meio de símios e de outros animais repulsivos ao olhar vaidoso da sociedade.

Contudo, o ser humano, em sua ânsia de encontrar a verdade sobre si mesmo e de seu verdadeiro papel no mundo, prosseguiu, porém, dando abertura para novos rumos. Novas revelações vieram e, somadas aos conceitos científicos, possibilitaram um entendimento maior... Dois anos antes das descobertas de Darwin, Kardec havia apresentado a maneira de reatarmos nossos laços com a ciência, numa ampla visão do homem em seu destino, seu progresso, sua evolução... Unindo tais conhecimentos tornou-se possível uma visão mais ampla sobre a nossa origem, nosso destino em direção ao futuro, enfim, do significado que temos perante a vida e principalmente perante o nosso Deus.

CAPÍTULO 5

NOÇÕES DE TRANSCENDÊNCIA

A ciência vê o homem como resultado , de um prolongamento da evolução universal e como tal a sua origem coincidiu com a origem do universo. No momento da grande explosão, que é conhecida como big bang, todos nós já estávamos lá, na forma primordial de inúmeras e diferentes variedades de quarks e de outras tantas micropartículas que se constituíram nos blocos básicos da construção de toda a matéria. Com a reorganização universal formaram-se as galáxias, as estrelas e os planetas e também a vida que surgiu na Terra, que evoluiu e deu origem a nós humanos. Neste caso eu me pergunto: o que seríamos todos nós? Seríamos parte do universo como pequenos corpos celestes? Como explicar, então, dessa forma, nossa capacidade ilimitada de sentimentos, de pensamentos, de imaginação e inteligência? Uma capacidade que é somente nossa e não existe em coisa alguma além de nós? Que partículas seriam responsáveis pela formação de todas essas faculdades?

Poderiam as religiões abrir uma porta para a nossa compreensão nesse sentido? Entre elas há tantos conceitos diferentes que além de se chocarem entre si contradizem as opiniões científicas causando mais dúvidas e ansiedades do que dar algum tipo de solução desejável.

Diante de tantas incertezas eis aí a humanidade perdida dentro de si mesma. O resultado é o que vemos acontecer, em que cada um, se religioso, vê a si próprio de acordo com o que ensina sua religião, e se materialista, baseia-se nos dizeres científicos que o mostram como algo que termina com a morte. São tipos de opiniões que não deixam de influir sobre o ser humano, especialmente sobre os seus sentimentos e as suas atitudes em relação à vida.

As religiões, de um modo geral, são coercitivas, impõem-se pelo medo na figura do diabo e de um inferno de infinitas dores. Submete o homem a um Deus implacável e vingativo. As vicissitudes da vida passam a ser consideradas como castigos; dessa forma o homem se transforma em um eterno prisioneiro que deve amar a Deus, mas que no entanto apenas o teme.

Prisioneiro de si próprio, pelo medo que atormenta, vivendo em função do que é pecado e do que não é, de ter de ser caridoso e não ser consigo próprio, o homem perde a noção de si mesmo. Mesmo que não acredite na existência de Deus, pelo sim ou pelo não, acha melhor dizer que acredita e enfileira-se nas igrejas em busca de salvação. Teme buscar a verdadeira resposta que guarda consigo. Sufoca, muitas vezes, a revolta diante da imagem de um Deus cruel. Disso muitas vezes resulta ansiedade e agonia, desespero e desequilíbrio pela contínua repressão a que se submete. Muitos se flagelavam no passado e no presente muitos ainda se castigam pelos flagelos morais.

Em contrapartida, o materialismo tem também sua influência; se tudo acaba com a morte, por que não viver tudo o que para ele é aprazível e tentador? Por que pensar nos outros se pode arrebanhar tudo para si próprio? Por que não conquistar poder e supremacia que satisfaçam os desejos egoísticos? E nisso que encontra a satisfação em superar o sistema competitivo da sociedade em que vive e dentro da qual muitas vezes se entrega aos prazeres luxu-riosos e envolvido pelas idéias de que a vida é curta e termina com a morte. São modos de se encarar a existência que pode afinal terminar em sentimentos de angústia e de inutilidade perante a vida.

Esses tipos de comportamento podem ser notados de uma forma geral em nossa sociedade, porém, em cada caso, as reações são individuais, porque dependem das pessoas e da interpretação que cada indivíduo possa ter. Há pessoas que encontram na religião esperança e bem-estar e que acreditam na bondade de seu Deus. Pessoas naturalmente bondosas e simples em suas atitudes; pessoas caridosas que procuram fazer o bem envolvidas pelo amor, independentemente do que ensina a religião que professam. Também há materialistas que às vezes são bem melhores que religiosos perante seu próximo e perante Deus.

Transcendência

O Espiritismo apresenta uma visão inovadora de um homem, não só em seu contexto material, mas também transcendental, e nessa visão pode se vê-lo como um ser que tem uma dualidade, tal como expressou Herculano Pires: “Cada criatura humana é um ser espiritual, mas é também um ser físico ou um ser corporal”.1

Além disso, oferece uma noção bem diferente sobre a divindade, mostrando um Deus que não é o Deus que as religiões criaram; mas um Deus cósmico, providencial que nos assiste e nos permite sempre novas oportunidades. Portanto, o Espiritismo é esperança que fortifica e é força que impulsiona.

Por meio dele pode-se perceber o ser cor-póreo e o ser espiritual que todos somos. Assim podemos entender que nossa origem corporal é o resultado de um longo processo de evolução orgânica, do mais simples organismo ao mais complexo, durante o qual atuaram leis biológicas. O nosso espírito também é fruto de uma contínua evolução, que ocorreu mediada por leis espirituais, começando simples e ignorante até a alma que hoje somos.

Podemos, então, nos ver numa dualidade que possibilita entender os processos evolutivos pelos quais passamos, diferentes quanto à natureza, porém, em corpo e espírito tão unidos e tão harmônicos que funcionam como uma única coisa... Como um único ser. Por um lado encontramos na ciência todos os processos orgânicos envolvidos com a evolução de nosso corpo, e por outro, pelo Espiritismo, todo o trajeto percorrido na evolução do nosso espírito.

Como um corpo físico, toda a estrutura material é condicionada pelos genes que determinam as características físicas. Nosso cérebro, por exemplo, encontra neles os fatores responsáveis pela sua formação. São os genes que impulsionam o seu desenvolvimento material, são eles que determinam, sob a ação do meio externo, todos os caracteres físicos cerebrais responsáveis pela expressão das faculdades que nos definem.

Porém, uma coisa é o cérebro e outra é a mente. O cérebro é o órgão onde a mente espiritual atua. Assim as faculdades humanas são espirituais que fluem da mente espiritual para o cérebro por meio do perispírito.2
2 Perispírito - Matéria semifluídica que envolve o espírito e o liga ao corpo físico.

A matéria e sua finalidade

Nessa concepção dualística do homem pode-se entender a finalidade da matéria. Ela não ocorre por acaso, ela se prende a um objetivo. Faz, portanto, parte de um projeto, dentro do qual, todas as coisas e fatos universais adquirem um significado e apresentam um motivo.

Basta-nos olhar para a disposição e o tamanho dos astros no espaço; uma disposição que possibilita se movimentarem sempre nas mesmas órbitas celestes e sempre mantendo a mesma distância que os separam. Cada astro tem um tamanho adequado, tem uma porção de matéria que influi mais ou menos sobre outro astro na atração que exerce sobre ele. A isso chamamos força gravitacional. Essa força se equilibra com uma outra que repele e que conhecemos como força centrífuga, a qual é causada pelo movimento de rotação de cada astro. Esse ponto de equilíbrio se mantém pela distância que existe entre os astros; se ela fosse um pouco maior ou um pouco menor esse equilíbrio nunca seria possível.

A vida na Terra depende do Sol como fonte de energia e, se ele estivesse mais distante ou mais próximo da Terra, a vida no planeta não poderia ser mantida. Assim, olhando para o universo em sua estrutura e em seu permanente equilíbrio, pode-se perceber que tudo é matematicamente determinado, e que as mínimas coisas que ele apresenta não existem por acaso, mas, desde os maiores aos menores detalhes pode-se apreender os efeitos de uma causa. Nessa linha de pensamento pode-se entender que o papel da matéria na criação é produzir mundos para abrigar espíritos; é produzir os corpos onde os espíritos devem morar; é fornecer a energia que as estrelas têm para aquecer os mundos e impulsionar a vida... A matéria é, portanto, o suporte, a base para o espírito evoluir.

Porém, nem todos pensam assim. Para muitos o universo simplesmente existe sem ser efeito de uma causa e sem nenhum planejamento, apenas um dia ele aconteceu... Nesse caso, como se explicaria tanta organização nas coisas universais?

0 Espiritismo e a ciência

Existem inabaláveis evidências de que o acaso não existe no universo. Todas as coisas atestam um planejamento perfeito. Entretanto, aqueles que não conseguem aceitar este fato, preferem ver o universo e a vida como um acontecimento casual e o relegam ao descaso frente a outras possíveis interpretações. Qualquer outra idéia, qualquer outra sugestão de ordem transcendental se torna para essas pessoas um motivo de preconceito.

A mesma coisa acontece com fatos que podem ocorrer no quotidiano e que por não apresentarem um fundamento concreto não são considerados. Muita gente já deve ter ouvido falar sobre mesas girantes; mesas que muitos jovens usaram como motivo de distração ou brincadeira. Eram mesas sobre as quais se colocava um ponteiro e ao redor dele se distribuía o alfabeto.

Essas mesas foram comuns no século XIX. Em 1855 um cientista, Denizard Hippolyte-Léon Rivail, eminente em sua época pelas pesquisas e publicações de trabalhos na área educacional, ouviu pela primeira vez falar sobre elas. Um amigo magnetizador com o qual mantinha relações em virtude dos seus estudos sobre magnetismo, comentou sobre elas como algo extraordinário, visto que podiam ser giradas e podia-se fazê-las falar.
Rivail não acreditou a princípio, porém se propôs a assistir ao fenômeno; queria conhecê-lo e ver o que ele teria de verdade. Isso aconteceu em casa de um amigo onde pôde testemunhá-lo.

Constatando que realmente havia algo extraordinário nesse fenômeno resolveu estudá-lo. Verificou assim a presença de uma influência invisível, porém, inteligente, sobre os movimentos do ponteiro. Como cientista, fez uma pesquisa meticulosa sobre esses fenômenos, usando para isso um método analítico experimental. Um método, porém, que diferia dos métodos científicos usuais e assim deveria ser, pois o objeto em estudo não fazia parte do mundo material. Rivail não se deixou envolver por idéias preconcebidas, mas observava atentamente, comparava e deduzia pelo encaminhamento lógico dos fatos. Desde o princípio compreendeu a gravidade do assunto que explorava. De seu estudo resultou a codificação espírita, publicada em um livro em 1857, cujo título é O Livro dos Espíritos. Esse livro encerra valiosas lições sobre a evolução espiritual e apresenta as leis que a dirigem. Por meio delas podemos entender a dualidade humana em espírito e matéria, e estender a nossa visão sobre nós mesmos. Mais do que isso Rivail, que mais tarde assumiu o cognome de Allan Kardec, mostrou a possibilidade de comunicação com o invisível mundo dos espíritos.

A codificação espírita surgiu em um momento propício de nossa história. Ela veio sanar as dúvidas que as inovações científicas, emersas dois anos depois pelas descobertas de Charles Darwin, iriam trazer, e que além de abalar o ser humano, naquela época, se tornou motivo para muitos perderem a fé.

O Espiritismo, portanto, foi oportuno, porque trazia uma outra concepção sobre o ser humano e uma outra visão sobre o Criador. Muitos se voltaram para ele e por meio dele encontraram nova maneira de reatar a sua fé.
Do pó das estrelas...

Com o advento do Espiritismo pode-se compreender perfeitamente os dizeres científicos que afirmam ter vindo o homem do pó das estrelas. O conceito espírita do homem permite essa compreensão ao mostrar a sua dualidade.
Convém, pois, uma breve consideração sobre essa expressão usada pela ciência. Ela surgiu quando cientistas como Hubert Reeves, Joêl de Rosnay e Yves Coppens disseram com singeleza o seguinte:

O ser humano resulta de uma longa evolução do universo e da vida, que há 15 bilhões de anos, impulsiona no sentido de uma complexidade crescente: os átomos, as moléculas, as estrelas, as células, os seres vivos e a nós humanos, que não cessamos de perguntar-nos de onde viemos... Todos unidos, como os elos de uma mesma cadeia, do big bang até a inteligência humana. Descendemos assim de macacos e de bactérias, mas também de estrelas e galáxias.33 Hubert Reeves; Joêl de Rosnay; Yves Coppens. A mais bela história do mundo. Apud André Langaney. A mais bela história do homem, p. 7.

Esse pequeno trecho, não somente se refere aos elementos estelares que nos deram origem, como também deixam bem clara a seqüência com que nos originamos. A maneira como expressaram evidenciam a continuidade constante que nos deu origem.
Para entendermos melhor, vamos imaginar primeiro que antes de nosso universo deveria existir um outro, como os fatos já conhecidos parecem demonstrar. Nesse universo anterior deve-riam existir, assim como no nosso, muitos sóis que nada mais eram que estrelas, ao redor das quais giravam outros mundos. Pode-se aceitar que assim fosse, visto que nosso universo se originou de uma estrela que se transformou em um buraco negro. Essa estrela era, portanto, preexistente. Aquele buraco negro primordial,4 ao explodir, liberou partículas que novamente iriam se estruturar em matéria universal. Contudo, vale a pena repetirmos que as partículas que resultaram do big bang se reorganizaram em átomos que formaram moléculas fazendo surgir um novo universo, dentro do qual, entre outros mundos, formou-se a Terra e nela os elementos existentes fizeram nascer a vida. E de lá viemos, do big bang, todos unidos como os elos de uma cadeia.
4 Relativo a primórdio, que é a origem, o início de (algo); primeiro, primitivo. Você poderá encontrar este assunto com mais detalhes em Darwin e Kardec: Um diálogo possível.

A visão materialista e a espiritualista

Na grande sociedade humana ocorrem duas situações, porém ambas são igualmente importantes para o nosso aspecto evolutivo: a materialista e a espiritualista.

Em ambos os casos a origem humana, no que se refere ao corpo físico e material, mostra os mesmos princípios em sua procedência. Isso significa que em ambos os casos a origem humana provém de uma organização surpreendentemente perfeita de micropartículas, de átomos e moléculas capazes da expressão da vida. Porém, vimos que não podemos definir a vida, e a ciência se mostra impotente para responder tal questão, apesar de inúmeros cientistas já terem tentado inutilmente encontrar uma solução para o problema.

Na condição materialista das sociedades humanas se vê a vida fazendo parte da matéria que termina com a morte. Nesse caso ela encontraria sua origem na matéria resultante do big bang, ou da grande explosão do buraco negro primordial.

Na visão do Espiritismo, a vida material se manifesta no mundo quando ao espírito se associa um elemento material, ou seja, o princípio vital.
Associando esse conhecimento ao conhecimento científico pode-se entender que ela resulta não somente de uma energia material, mas do efeito que ela causa quando à matéria se liga o espírito.

0 que é o espírito?

Vimos o que é a matéria e verificamos que é possível defini-la. Difícil, porém, é saber o que é o espírito. O Espiritismo o define como “ser inteligente da criação que povoa o universo fora do mundo material’’ como está expresso na questão 76 de O Livro dos Espíritos.

Entretanto, esta definição considera o espírito como uma individualidade de ser extracorpóreo e não o que ele é em sua constituição, ou seja, em suas qualidades constitutivas, como normalmente é definida a matéria. Mas, é a única apreciação que se pode fazer de algo que não é palpável aos nossos sentidos, que não podemos ver ou tocar.

Como espíritos viemos das mãos de Deus e podemos nos considerar dessa forma seus filhos, assim como tudo o que faz parte da criação. Entretanto, somos apenas filhos do Criador por sermos obra sua, mas não trazemos o timbre da divindade, ou seja, não somos deuses. Sobre esse assunto Kardec nos dá uma explicação muito clara por meio de uma analogia com o pintor e a pintura que ele cria. O pintor pode considerar sua obra de arte como sua filha, pois ele a criou, mas essa obra não é o pintor. Pode um homem ter um filho, mas o filho não é o pai por ter dele nascido. É importante ponderar-se sobre esse assunto, pois há em algumas religiões a crença de sermos deuses, já que somos filhos de Deus.

Quanto ao aspecto material um filho herda de seus pais as características físicas, porém, quanto ao espiritual é de Deus que recebe as potencialidades para o desenvolvimento espiritual de todas as suas qualidades morais, assim como de tudo o que define a sua personalidade, inteligência e consciência, bem como de tudo o que marca sua integridade pessoal. O corpo físico se torna dessa forma apenas um instrumento em que o espírito reflete tudo o que possa definir um ser humano.
Os primeiros passos da nossa criação

Nossa história começa nos confins do tempo, provavelmente no princípio do universo. Não temos idéia do momento exato, mas ligados aos átomos assistimos à toda organização universal e assim chegamos ao nosso mundo. E tudo o que víamos guardávamos em nosso arquivo mental. Na Terra, por meio da matéria orgânica adquirimos um corpo físico, e iniciamos, então, a nossa jornada. Aqui chegamos, simples, na forma de princípios inteligentes, que deveriam passar por experiências, aprender com elas e memorizá-las afim de que seus conhecimentos fossem contínuos através do tempo. Para que isso fosse possível deveriamos contar com um arquivo mental que guardava lembranças e as elaborasse, fazendo-as refletir sob a forma inata nas experiências de cada vida futura. Durante os trajetos percorridos nessa jornada inicial da nossa existência, como princípios inteligentes, fomos nos individualizando uns com relação aos outros na identidade ímpar que nos distingue e identifica.

Assim o espírito foi se aprimorando vida após vida, uma ligada à outra como os elos de uma corrente, nas quais lembranças e impulsos inatos constantemente influiriam em cada nova reencarnação.

A lógica da criação divina5

Em todo o desenrolar da evolução universal, desde o seu princípio até a formação das galáxias, das estrelas e dos planetas, bem como de todos os outros corpos celestes, nota-se uma seqüência constante e progressiva no tempo e no espaço. Não existem saltos, nem falhas que façam surgir imperfeições e que denotam uma sabedoria infinita, um grande projeto criativo que exibe perfeição e espetacular beleza. Nele nada foi esquecido... Não faltaram detalhes que expõem uma bondade sem limites!

Todas as leis que atuam constantemente em qualquer parte desse universo em evolução são exatamente as mesmas, de tal forma que, conhecendo o que sucede dentro de nosso sistema solar,
5 Lógica como parte da filosofia significa uma forma de pensamento em geral baseada em operações intelectuais que visam à determinação do que é verdadeiro ou não.

É uma maneira pela qual se encadeiam os acontecimentos, as coisas ou os elementos da natureza efetiva. Essa definição é encontrada na maioria dos dicionários da língua portuguesa.
saberemos tudo o que acontece em todos os outros sistemas solares que existem, por mais distantes que se encontrem, nesta ou em todas as outras galáxias. Percebemos nisso a suprema lógica do Criador. A Terra, por exemplo, refletia um objetivo divino de receber espíritos que em seus primórdios fariam dela um lar temporário e nela iniciariam o seu caminhar evolutivo. Para que pudessem expressar a vida nela foi necessário que os oceanos aparecessem nas depressões terrenas, áridas ainda... Oceanos que nasceram com as chuvas torrenciais, com os temporais violentos que assolaram o planeta em sua formação. É no seio deles, de suas águas mornas que a vida começou a se expressar... Sabemos que isso foi possível pela presença de compostos orgânicos que se formaram depois de muito se combinarem e se decomporem tentando produzir aqueles que seriam especiais para a expressão da vida.

Os elementos necessários se encontravam espalhados, ao redor, na atmosfera terrena e vinham do espaço, das explosões da nossa grande estrela solar, mas se somavam a outros que sempre acompanharam a atmosfera do planeta. Por esse motivo, podemos dizer com a ciência que viemos do pó das estrelas...
Quando esses compostos, afinal, surgiram, depois de um grande ensaio, começaram a se multiplicar por auto-reprodução, e é nesse momento que a ciência considera que a vida começou a sorrir em suas primeiras expressões neste planeta.

Nós e a vida

Éramos nós naquelas águas mornas de um oceano primitivo, na forma primordial de pequenas gotas gelatinosas conhecidas como coa-cervatos... Todos nós iniciando nossa jornada na Terra.

Dos coacervatos nos diferenciamos e, então, aparecemos como pequeninas algas verde-azuis... Como todo vegetal, buscávamos produzir a nossa própria energia vital na expressão da vida.

Fomos, depois, animais mais simples que numa complexidade crescente adquirimos outras formas bem mais estruturadas. Vivemos como vermes e insetos, e mais tarde fomos peixes e depois répteis para posteriormente podermos voar nas asas de uma ave. Desenvolvemos os instintos que garantiam a nossa sobrevivência e reprodução. Não éramos almas ainda, mas apenas princípio - um princípio inteligente.

Por esse caminho encontramos sempre, mais e mais, novas experiências que arquivamos, que trabalhamos mentalmente num contínuo processo de aprendizagem e progresso.

CAPÍTULO 6

DEUS JOGA DADOS?

John Houghton é um cientista que dedica a sua vida ao estudo da origem do universo, mas não deixou de lado seu sentimento religioso. Em todas as suas publicações
científicas encontram-se dizeres bíblicos perfei-tamente entrosados com os conhecimentos acadêmicos. No livro Deus Joga dados: um esboço da história do universo, por exemplo, mostra que Deus não criou o mundo ao acaso e que o universo não aconteceu como um efeito da sorte. Essa idéia se encontra explícita em toda a sua obra.

Escreveu esse livro como resposta ao que Eins-tein disse, certa vez, ao se referir ao universo, que Deus não joga dados, isto é, nada apareceu pela sorte ou pelo acaso. Houghton, porém, quis dizer que pode ter havido acontecimentos casuais na estruturação universal, mas se os houve eles estariam predeterminados e tinham uma finalidade.

Tudo o que a ciência tem me mostrado sobre este maravilhoso universo e sobre a vida em sua admirável organização tem me orientado a somar meu pensamento aos de Houghton e de Einstein, sentindo que nada no universo é casual. E pensando assim procuro olhar para o passado e nele encontrar uma Terra que se remodela, que se constrói em montanhas, que sofre as conseqüências de tremendos temporais dando origem aos rios e mares para fornecer a água tão necessária à vida que desabrocha. Vejo-me, então, participante da criação, assim como todos os seres que este mundo abriga. Percorro os acontecimentos que se desenvolvem lentamente, de modo paulatino, como se seguissem um trajeto anteriormente estabelecido; ou, como se mãos invisíveis tivessem traçado os caminhos a serem seguidos. Vejo primeiro uma Terra vazia no silêncio de si mesma. Uma Terra que aos poucos se torna verde e que começa a se agitar com a vida que aparece; com ela surgem os sons que quebram o silêncio do mundo aparentemente adormecido; ouço o canto das aves, ouço o som das folhas que se balançam ao vento; vejo a cor das flores que desabrocham e que fazem contraste com o verde das plantas e com o azul do céu. Vejo a vida, enfim...

Posso, então, em pensamento, ouvir a voz de Kardec dizendo que “um anjo já foi um áto-mo” o que me permite deduzir que nós nascemos em espírito junto com o universo. Não posso saber o momento exato, visto que ele é para nós desconhecido, mas posso imaginar que miríades de espíritos ligados às partículas primordiais do universo nascente caminharam pelo espaço, colaborando, e ao mesmo tempo assistindo à toda organização universal.

Enquanto estávamos no espaço portávamos a vida, embora não a expressássemos; mantínhamos essa vida, porém, em estado latente. Há mais ou menos 3,5 bilhões de anos chegamos aqui na Terra, marcando o início de uma longa jornada. Passamos, como já disse, por várias formas, desde as que eram mais simples às que eram mais complexas. Um dia abrimos os olhos para a humanidade pela primeira vez. Mas, já havíamos vivido nos mares e invadido os rios, experimentado a terra firme e livres voado no ar. Hoje construímos cidades e procuramos conhecer outros mundos que aos milhares se esparramam pelo espaço... E para isso nos tornamos astronautas. Assim temos caminhado: do princípio inteligente que ontem fomos ao homem que hoje somos.

0 homem e a alma

Há mais ou menos vinte milhões de anos, alguns primatas semelhantes aos macacos se tornaram as formas precursoras do que hoje somos, dando origem à humanidade. No aspecto eram animais, como tantos outros que com ele coexistiam... Um animal, porém, diferenciado, que num dado momento se ergueu das quatro patas, se transformou e se modelou na forma de um ser humano... É possível que nele o espírito humano estivesse ensaiando na Terra os seus primeiros passos, trazendo consigo todas as bases para o seu posterior desenvolvimento. Não conhecemos o momento em que o espírito se fez alma depois de ser princípio inteligente; “o princípio das coisas está nos segredos de Deus” nas palavras de Kardec.
Contudo, baseada no Espiritismo não me é difícil imaginar que a alma, em seu princípio, tivesse como primeira encarnação na Terra o corpo de um animal.

Um animal que, impulsionado por ela, desgarrou-se dos seus congêneres para seguir adiante por um novo caminho. Um animal que mudou o seu comportamento, que preferiu outro lugar para viver. Que deixou os galhos das árvores para explorar as savanas das longínquas terras africanas. Ali não existiam árvores para saltar de galho em galho, então era preciso caminhar e para isso precisou se erguer do chão sobre as patas traseiras e se não fosse assim nunca nos tornaríamos eretos.

Pensar desse modo me conduz a sentir a perfeição que existe na seqüência contínua da vida e ouso imaginar que sendo Deus o mesmo criador da matéria e do espírito, não deve ter agido diversamente entre ela e o outro. A mesma continuidade evolutiva da matéria deve ter acontecido com o espírito que simples no princípio, edificou-se com o tempo, remodelou-se continuamente até alcançar o seu status de alma humana. “É assim que tudo serve, tudo se coordena na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo que, ele mesmo, começou pelo átomo”.

0 homem na religião

Mesmo dentro de religiões radicais há pessoas que possuem um pensamento mais aberto e apresentam atitudes mais honestas quanto ao que acreditam.

Sabemos que quem faz a religião é o homem e é o homem que faz a diferença que existe dentro dela. As religiões dependem, portanto, do grau de desenvolvimento humano. Dependem, também, da capacidade que cada indivíduo tem de compreender os ensinamentos religiosos que elas emitem.

Em geral, é comum pensar que os cientistas todos são materialistas, porém não é bem assim. Há muitos que são religiosos, como Houghton, por exemplo, que soube conciliar a sua religiosidade com a ciência, serenamente e sem conflito.

Sendo evangélico encontrou um meio de harmonizar seus conhecimentos científicos com aqueles religiosos, apesar de serem as religiões evangélicas em geral mais radicais.

O radicalismo geralmente nasce do temor, da falta de compreensão do que a religião ensina como são ditos. Nesse caso o que falta é a reflexão sobre o sentido que os ensinamentos têm e da época na qual foram emitidos. Essa reflexão possivelmente despertaria a consciência para uma união mais harmônica e sincera entre religião e ciência, sem desencontros e hostilidades, tal como o Espiritismo faz, tal como ele permite.

CAPÍTULO 7

ATRIBUTOS HUMANOS

Na frase ao lado, Kardec, na introdução ao Livro dos Espíritos, justificou a divergência encontrada na linguagem usada pelos espíritos. Mostrou-a como um reflexo do grau de conhecimento que cada um deles possuía. Motivo pelo qual selecionava todas as respostas que seriam usadas para posterior análise.

As que nitidamente mostravam sinais de desconhecimento ou que se mostravam fora do esperado eram descartadas.

Contudo, essa mesma frase pode ser usada para explicar a aparente discordância entre algumas explicações científicas e espíritas, as quais poderíam à primeira vista parecer contraditórias, ou até mesmo podería conferir um sentido oposto com relação a um mesmo assunto tratado. Um exemplo disso são os conceitos que a ciência e o Espiritismo respectivamente expõem sobre um mesmo assunto, no caso o homem. Entretanto, a diferença está apenas nos aspectos abordados por essas duas áreas de conhecimento. A ciência avalia o homem como ser material e o Espiritismo como ser espiritual. Portanto, as diferenças refletem apenas visões diferenciadas que cada linha de pensamento possui.

Dessa forma, para a ciência tudo o que somos resulta de um processo de evolução orgânica que se inicia com a origem da vida neste planeta, ao passo que, para o pensamento espírita tudo o que somos o somos em espírito que também evolui, porém não de acordo com as leis físicas de evolução material, mas de acordo com as leis espirituais. Neste caso a ciência e o Espiritismo podem parecer antagônicos e aparentemente incompatíveis, porém, deixam de o ser quando a cada aspecto humano se confere o seu respectivo caráter. Se não o fizermos cometeremos erros que tal como Boff expressou são os erros que cometemos e que decorrem da ilusão sobre nós. Na constituição integral do ser humano existe a matéria no corpo físico que deve ser entendida pela ciência, mas existe também o espírito que deve ser entendido de acordo com a sua natureza espiritual, e isso foge ao campo científico; encontra, porém, suporte no Espiritismo. Aliando esses conhecimentos podemos entender o homem em espírito e matéria.

O corpo seria para o espírito como um equipamento perfeito posto à sua disposição. Seria assim como um dos mais sofisticados computadores, um hardware em que o espírito insere a sua programação. Descrever essa máquina com tudo o que ela dispõe para o seu usuário não significa descrever a pessoa que o utiliza.

0 homem e seus atributos

Concordando com o grande escritor Leonardo Boff posso me referir ao homem usando as palavras dele quando diz que o homem é um projeto infinito.

O ser humano é único no universo. Nenhum elemento, nenhuma pedra, nenhum composto mineral, nenhuma planta, nenhum animal apresenta a capacidade que ele possui de sentir, de pensar, de recordar, de escolher caminhos... Por isso mesmo, ele pode ser definido como ser consciente e racional.

São as faculdades ou atributos que todos temos que nos distinguem individualmente como pessoas, e falar deles é falar do que nos é próprio, do que nos é peculiar. Falar deles é falar de nossas qualidades, de tudo o que nos caracteriza e que nos permite exercer um papel no mundo em que vivemos. Nossos atributos nos identificam como pessoas e nos destacam no seio de nossa sociedade.

Quando você quer conhecer uma pessoa necessita saber como ela é com relação à sua índole, seu caráter, seu temperamento, suas inclinações ou suas tendências. E esse conhecimento constitui a base de todo relacionamento interpessoal.

E ele que nos leva a entender a natureza de cada pessoa com a qual convivemos, de forma que possamos agir com cada uma, de acordo com seu modo próprio de ser.

Relacionamentos interpessoais dentro da sociedade em que vivemos não são fáceis e freqüentemente nos vemos na condição de termos de mudar para nos moldarmos às diversas condições que encontramos. Há pessoas desconfiadas que sempre buscam intenções escusas nos outros, no que dizem ou no que demonstram ser; mas também há aquelas que são confiantes e sempre sabem ver as coisas acreditando na bondade e na sinceridade. São situações que muitas vezes geram insegurança, mas que podem ser amenizadas se nos deixarmos levar pela compreensão de como cada pessoa é ou possa ser. Entretanto, isso depende do tipo de relacionamento, se mais íntimo, mais próximo e constante ou se é eventual e passageiro. Será importante em situações de contatos mais permanentes como aqueles com colegas de trabalho, com os superiores, com os subalternos; será importante igualmente no seio da família, entre o casal e com os filhos. Conhecer a natureza das pessoas nos ajudará a lidar com elas da melhor maneira, a compreendê-las e a respeitá-las, aceitando-as assim como são.

Este é um assunto deveras interessante e que caberia em todo este livro. Porém, temos outro objetivo, motivo pelo qual deixamos aqui apenas. Entretanto, devo ressaltar que para entender nosso próximo devemos entender primeiro a nós mesmos, para respeitar os outros precisamos respeitar a nós próprios e para aceitar os outros tais como são, devemos aceitar primeiro a nós mesmos. Compreender os erros alheios significa compreender em primeira instância os nossos próprios erros. Para isso precisamos de uma boa dose de humildade e de muita sinceridade, porque somente assim será possível reconhecer não somente as nossas qualidades, mas também nossos defeitos; as atitudes nas quais expressamos amor e compreensão, mas da mesma forma aquelas nas quais deixamos fluir sentimentos negativos de rancor ou de desprezo. Isso significa olhar bem de frente a nossa norma de conduta perante as pessoas com as quais nos relacionamos, o que indica a necessidade de saber quem e como somos.

A importância de nossos atributos

O nosso conhecimento interior depende de uma análise profunda de nossas ações e atitudes ao longo de nossa vida, dos sentimentos que tivemos em nossas relações pessoais. Depende também de saber reconhecer em nossos atos o que fizemos de bom e o que fizemos de ruim. Isso envolve não somente uma ação da memória, mas também de nossa capacidade perceptiva, bem como da consciência e do nosso discernimento.

Esses atributos, na visão espírita, são dons do espírito, os quais deverão se desenvolver durante a trajetória evolutiva espiritual. Entre eles, a memória desempenha um papel muito importante.

Definir a memória, à primeira vista, parece simples, mas quando entramos nessa tentativa nos deparamos com uma grande complexidade. Seu conceito depende do tipo de memória sobre o qual se está falando. Ela existe em diferentes formas de expressão, como por exemplo, memória de curta ou de longa duração. Contudo, é possível defini-la em seu contexto geral e dentro dele é considerada como capacidade de reter e manipular informações adquiridas anteriormente.

Há, porém, outros conceitos como aquele dado por José Lino Bueno, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, para quem “a memória é um conjunto de procedimentos que permite manipular e compreender o mundo, levando em conta o contexto atual e as experiências individuais, recriando esse mundo por meio de ações da imaginação”.1 Para esse mesmo pesquisador “o que fica armazenado é um sumário interpretativo2 de toda a nossa experiência passada”.

O desenvolvimento da memória depende, todavia, de outras características que possivelmente a antecedem e impulsionam em sua origem para posteriormente continuarem a influir sobre ela.1 Prof. Dr. José Lino Bueno — artigo “Memória” redigido no site http://www.comciencia.br/reportagens/memoria/ mareia, shtml.

Assim necessitamos da percepção das coisas ou dos fatos que emergem de cada momento vivido, bem como da interpretação pessoal dessas coisas ou fatos, os quais, por si mesmos se tornam mais ou menos importantes e atrai maior ou menor atenção sobre eles.

A atenção é fundamental na aquisição de uma memória permanente. Quanto menor a atenção dada a um determinado fato vivido, menor se torna o tempo da permanência dele na memória, o que significa que a lembrança dele tem curta duração.

Existem inúmeras pesquisas a respeito do assunto. Dependendo da escala evolutiva, dos organismos inferiores para os superiores, a duração do tempo da memória é variável, aumentando gradativamente do inferior para o superior, alcançando um ponto mais elevado nos chipanzés para atingir um nível culminante no ser humano. Ao mesmo tempo a complexidade dos mecanismos da memória é muito maior no homem do que nos animais mais próximos.

A memória na escala filogenética, isto é, do organismo mais simples ao mais complexo, depende do desenvolvimento do sistema nervoso, especialmente do cérebro, local onde a memória tem a sua sede, assim como a percepção e a importância que cada organismo confere aos diversos eventos de sua vida.

Essa é a visão científica de quando olhamos a evolução material dependente dos fatores hereditários, base do desenvolvimento orgânico, e nesse caso do sistema nervoso na escala animal. Assim nos informa a ciência oferecendo subsídios para entendermos os mecanismos físicos de desenvolvimento das qualidades do nosso espírito.
Com relação às informações da ciência existe uma contraparte que vem das diversas interpretações religiosas.

A contraparte3 religiosa 3 Contraparte - aquilo que complementa ou completa a correlação entre partes em que uma delas é a principal.

As religiões que se fundamentam nos ensinos mosaicos vêem o homem como criação especial e nesses termos ele nada tinha a ver com os restantes seres vivos.

Essa interpretação foi considerada dogma e, portanto, não deveria ser questionada. Por esse motivo tem havido muitos conflitos entre a ciência e as religiões. Esses conflitos chegaram ao auge na época do lançamento do livro de Darwin que mostrava uma idéia divergente sobre a origem das espécies e do homem. Como sabemos, Wallace participou dessa nova teoria. Um pouco mais tarde Wallace aderiu ao Espiritismo, cujos conhecimentos o perturbaram com relação à origem do homem. Certos pontos ficavam para ele sem explicação.

Assim, as faculdades humanas como consciência e discernimento não poderiam ter se desenvolvido à custa de um processo que dependesse da seleção natural. Wallace não conseguiu explicações que para ele fossem plausíveis. Inclinou-se, pois, a pensar que o homem pudesse ter se originado de outra forma. Provavelmente, toda a situação do momento no qual ele vivia deve ter também exercido alguma influência sobre seu modo de pensar, apesar de ser o Espiritismo bem diferente quanto aos seus conceitos religiosos. Sua falta de entendimento tornou-se motivo de grande conflito interior. Sentiu-se confuso e mesmo duvidoso quanto à origem humana. Mas, o que lhe faltou foi, provavelmente, entender os dois aspectos que constituem o ser humano e daí perceber que cada aspecto, espiritual ou material, evolui segundo normas e regras diferenciadas, apropriadas a cada caso, porque dependem da natureza do aspecto considerado. Assim, as faculdades humanas pertencem ao espírito e se desenvolvem sob a condução das leis espirituais de progresso e, portanto, nenhuma seleção natural, tal como descrita por ele e por Darwin, poderia ter atuado sobre elas. Por outro lado, para essas faculdades se expressarem no corpo físico, dependeriam a estruturação de órgãos adequados, no caso o cérebro, cujo desenvolvimento esteve na dependência dos processos de evolução orgânica.

Além da falta de uma interpretação maior ou mais completa, Wallace viveu numa época de conflito e perturbação que muito influiu sobre ele, como discutiremos em seguida.
Circunstâncias influentes sobre as idéias de Wallace

Para entendermos o problema de Wallace com relação aos nossos atributos, devemos olhar para as circunstâncias sob as quais ele viveu em sua época e que possivelmente influíram muito sobre ele.

Sabemos que seu nome ficou indubitavelmente ligado ao de Darwin, pois ambos foram os autores da teoria da evolução e da origem das espécies.

Ao contrário de Darwin, Wallace era pobre, de família humilde, o que lhe ocasionou uma infância muito difícil.

E comum se ouvirem censuras a Darwin por não ter incluído em seu livro sobre a origem das espécies o nome de Wallace, porém, ambos se tornaram amigos e ambos expuseram suas teorias, cujo conteúdo era o mesmo, na maior sociedade científica da época, a Linnean Society of London. Essa apresentação feita em ordem cronológica demonstrava que o trabalho de Darwin não resultou de um roubo das idéias de Wallace, além de garantir a ambos a autoria do trabalho. E preciso que isso fique bem claro porque em muitas palestras que tenho proferido sobre o assunto é comum ouvir críticas a Darwin por não ter colocado o nome de Wallace também como autor de seu livro.

Entretanto, isso era necessário, posto que, naquela época, o livro lançado causou grandes conflitos dentro da Igreja e da sociedade como um todo. Conflitos que não atingiram Darwin por ser ele de família nobre e muito rico, ao passo que para Wallace seria nefasto, uma vez que, por ser pobre, teria sido banido pela sociedade e provavelmente perderia seu emprego.

Como cientista Wallace conseguiu destaque, publicou muitos outros livros sobre o assunto, terminando por ser premiado diversas vezes, além de se tornar membro das sociedades científicas mais eminentes da Inglaterra.
Entretanto, uma idéia o atormentava com a dúvida da origem evolutiva dos atributos humanos. Como poderia a consciência e o discernimento ter se desenvolvido por meio de seleção natural, visto que esses atributos eram espirituais? E daí sua inclinação em pensar numa origem diferenciada do ser humano.

Ele vivia uma época de grandes mudanças conceituais, e apesar de não ser religioso a princípio, era adepto das idéias do Owenismo criado por Robert Owen o qual, mais tarde, como Wallace, se converteu ao Espiritismo.

Owen, antes de se tornar espírita, tinha como religião um princípio, no qual “a única religião benéfica era a que inculcava o serviço à humanidade, e cujo dogma fosse a irmandade do homem”.44 Frase em destaque foi mencionada por Raby, 1991, conforme o site do Espiritismo comentado, em artigo escrito por Jáder Sampaio.

Outro conceito importante que pairava no pensamento humano nessa mesma época foi o que se tornou conhecido como mesmerismo, por ter sido criado por Franz Anton Mesmer, um médico alemão do século XVIII.
O método de Mesmer aplicava uma terapia científica que conseguiu revolucionar a medicina da sua época. Essa prática usava a hipnose como recurso e terminou por dar início à psicologia experimental.

Os conceitos de Mesmer, de certa forma, anteciparam aqueles que posteriormente Kardec codificou na doutrina espírita. Para Mesmer o homem não era apenas um corpo, e se encontrava imerso em uma matéria sutil que se espalha por todo o universo e o interliga com todos os seres. Seria um tipo de fluido vital, também conhecido como magnetismo animal. Esse fluido seria a causa da vitalidade orgânica e conteria princípios que mantêm a saúde ou a faz recuperar.

Mesmer, com essa prática e conhecimentos, contribuiu muito para a medicina de uma época em que os conceitos médicos se baseavam ainda em terapias despidas de eficiência como as sangrias, e que em muitos casos receitavam ópio e outras drogas igualmente perniciosas.

Allan Kardec estudou profundamente a ciência de Mesmer e a considerou irmã do Espiritismo.

Foram esses acontecimentos na vida de Wallace que o conduziram a estudar o Espiritismo e aderir-se a ele.
Podemos imaginar que todo esse panorama vi-venciado por Wallace, mais as idéias religiosas propaladas em seu tempo, num contexto que girava em torno de uma multidão de idéias, não deixaram de influir profundamente sobre ele, tornando-se a causa de seus conflitos interiores.

Também não devemos esquecer que ele vivia numa época em que a crença geral era a de uma criação especial do homem uno em sua alma e corpo, e dentro dessa concepção tudo o que ele era estava nele, e estando nele estava também em seu espírito. Diante de seu dilema, inclinou-se a pensar que sua teoria seria válida apenas para o caso dos animais.

Essas considerações são importantes porque numa rápida visão mostra como as condições, os conhecimentos e os tipos de relacionamentos vividos em cada época podem exercer sua influência sobre o ser humano, e como as situações criadas podem atuar sobre a direção de nossos conhecimentos e das nossas crenças.

Não é fácil, porém, entender a evolução orgânica e a espiritual, ocorrendo ambas de forma simultânea e por caminhos diferentes em um mesmo indivíduo. Entretanto, se pudermos imaginar o espírito como um usuário de seu corpo físico e que à medida que ele progride requer um corpo mais aprimorado, então encontraremos a resposta mais facilmente. Imaginemos para tanto o corpo como um computador bastante elaborado e cada vez mais sofisticado. Porém, os computadores co-meçaram simples. A medida que os seus usuários aprenderam a manejá-los, encontraram necessidade de ampliá-los. Criaram-se novos programas que impulsionavam a uma constante melhoria em sua sofisticação produzida pela inteligência criadora humana cada vez mais aperfeiçoada.

Assim é o espírito com relação ao seu corpo físico. Na justa medida de seu progresso foi remodelando o seu aparelho, adequando-o às suas necessidades.

O corpo e o espírito possuem modos diversos, porém peculiares de evolução, embora interajam harmonicamente em contínuo processo.

Desse modo, de acordo com as necessidades espirituais, a vida começou a se expressar no mundo e se organizou, inicialmente em formas muito simples que ao longo do tempo se estruturaram na organização celular que deu origem às algas verdes azuis, às bactérias e protozoários, prosseguindo nos vermes e
outros invertebrados, continuando em seguida nos vertebrados como peixes e deles aos répteis para continuar nas aves e chegar aos mamíferos.

Em toda essa escalada, começa o espírito a desenvolver as suas faculdades. A princípio, muito sujeitos à ação da matéria, começam pela sensibilidade, que se inicia nos vegetais. Mas, essa sensibilidade inicial tem como fonte as potencialidades inerentes ao espírito, que na primitividade dependem dos processos bioquímicos, sobre os quais, certamente, a energia espiritual não deixou de atuar. Aqui vejo a importância do corpo físico, e, portanto da matéria. Penso, ao sentir essa importância, que matéria e espírito interagem com uma única finalidade: a evolução do espírito.

As condições iniciais de desenvolvimento espiritual da sensibilidade deve ter começado pelos processos bioquímicos que ocorriam nas células vegetais, muito embora o potencial para o seu desenvolvimento fosse a causa primeira de expressão. Ali se manifestava de forma sutil o que nos animais seria uma das mais importantes faculdades... A capacidade sensitiva.

Essa sensibilidade inicial, apesar de nos vegetais ser meramente mecânica, foi a semente plantada no recôndito mental do espírito que nos animais começa a germinar e a crescer. Ela se constituiría na fonte da maioria de todas as outras faculdades.

Nos animais a expressão da sensibilidade dependería do aparecimento de células especiais, muito simples no início, mas que se estruturaram e se edificaram num sistema, no qual o cérebro se tornou o órgão central de comando. No homem a complexidade desse órgão maravilhoso permite ao espírito manipular as faculdades, expressar os sentimentos, as emoções, a alegria e a dor; permite também pensar, deduzir coisas a partir de conhecimentos pré-adquiridos, usar a consciência, discernir e escolher situações que o livre-arbítrio permite.

CAPÍTULO 8

AS FACULDADES HUMANAS

O conceito de Jung é bem apropriado ao Z / nosso assunto, porque para entender a alma se faz necessário passar pelo chão que lhe é próprio, isto é, orientar a nossa visão para a sua natureza e a tudo o que a ela é peculiar e a ela pertence. Para compreender o homem devemos separar o homem material daquele que é espírito.

É preciso vê-lo em sua dualidade.

Nessa dualidade seu corpo físico pode ser explicado pela ciência, enquanto o espírito por esse meio nunca o será. Temos aí, então, a filosofia espírita cujos conhecimentos visam ao espírito em sua origem e sua evolução, mas não deixa de lado os conhecimentos científicos, muito pelo contrário, caminha com eles.
Kardec trouxe para a humanidade uma nova noção que permite enxergar o homem como um ser integral. Uma noção que nos leva a sentir que tudo o que somos se encaixa dentro de um planejamento divino, de um grande projeto, no qual o seu criador tinha em mente o crescimento, isto é, o progresso do espírito. Outras religiões pelos seus princípios não facilitam interpretações possíveis neste sentido. A ciência por si, também, pelos seus conceitos apenas, se restringe à matéria e não permite uma visão mais ampla; baseada na obra do acaso não nos mostra nenhum projeto e deixa no esquecimento a existência de um projetista.

Considerar a vida como fruto de um projeto significa perceber que ela foi planejada e que, portanto, existe um autor para esse planejamento... Pela maneira como foi planejada pode-se saber sobre as qualidades daquele que fez o projeto. No caso da vida, defrontamo-nos com um grande arquiteto cuja competência foge ao alcance de nossa inteligência. Um arquiteto que não fez o mundo sem atrativos, porém encheu-o de cores no céu e nas flores, no verde das florestas... Fez o vento suave que nos acaricia e os vendavais para aprendermos a lidar com eles. Fez a chuva para cair na terra e fecundar as sementes, para matar a sede dos seres com a água pura das fontes. Um projetista que não olvidou dos detalhes que preenchem a natureza, permitindo assim a vida e, ao mesmo tempo, despertando o espírito para a sensibilidade da beleza.

Falando em espírito nos leva a crer que este universo não foi construído para deleite do Criador apenas, mas que ele tinha uma finalidade como a de dar algo para quem não termina com a matéria - o espírito que no corpo pode ouvir no mundo o som da natureza, o murmurar das águas correndo sobre as pedras do fundo dos rios... O som das cachoeiras, das ondas que morrem na praia... Pode ouvir as vozes da vida tão exuberante nas florestas. Com o olhar pode ver o encanto que existe em tudo e, então, deixar-se sentir o que seria o mundo se não fosse assim... O espírito que se desenvolve no meio de tudo o que é belo e que por isso mesmo abre as asas para a sensibilidade; uma sensibilidade que deixa extravasar nas suas pinturas, na música que acalma e faz sonhar... Na poesia que fala ao coração...
Em tudo isso se podem sentir os motivos da criação... Entretanto, não será possível encontrar um sentido para toda a grandiosidade do universo e da vida se tomarmos essas coisas meramente pelo lado intelectual, que aponta para o acaso. E significa também deixar de lado a verdade que se busca, e que deixamos se esconder aos nossos olhos. Diante de toda a grandiosidade que podemos sentir em toda a criação, pensar que ela se fez à custa do acaso, seria o mesmo que negar a existência de um projeto infinito. “Achar que o mundo não tem um criador é o mesmo que afirmar que um dicionário é o resultado de uma explosão numa tipografia” como se referiu Benjamin Franklin.11 Frase encontrada no site http://www.flickr

Como diz Jung, a natureza pouco se importa com nossas opiniões. Contudo, se atrás da matéria percebemos algo espiritual, então, pode-se encontrar o sentido de tudo o que existe. E se assim for feito, será inevitável lidarmos com a alma e, para entendê-la, deve-se passar para o chão que lhe é próprio... Mas, não será pela matéria e nem pela ciência acadêmica... Pela filosofia talvez... Mais corretamente pela ciência e filosofia espírita.

A ordem na seqüência criativa

Um dos fatos que leva a sentir a presença de um planejamento na criação é a ordem e a seqüência mediante a qual o universo e a vida se desenrolam.

Todos os fatos universais acontecem mediante processos sucessivos, paulatinos, caminhando em uma direção. Nota-se neles a continuidade constante e progressiva na organização de todas as coisas como se mãos invisíveis impulsionassem, dirigissem toda a construção, mostrando que nada na natureza se faz por transição brusca, mas que se desabrocha lentamente, passo a passo...

Assim foi a vida desde a sua origem, assim foi a sua diversificação até o aparecimento do homem que continuou em seus passos remodelando seu íntimo, seu modo de ser, sua inteligência, seu modo peculiar de ver e sentir. O homem que é acima de tudo espírito, que arquiva lembranças, que as transforma, que as usa na forma inata em cada vida na qual renasce, que adquire novas lembranças das experiências vividas a serem úteis nas vidas posteriores, que amplia a consciência e adquire a autoconsciência no conhecimento de si próprio, que usa a razão e se torna racional, que escolhe seu caminho obedecendo ao livre -arbítrio, e que constantemente reestrutura a sua personalidade. Todas as mudanças que sofre ao longo de seu percurso se refletem em cada época vivida, de tal forma que o que ele é hoje não é igual ao que foi ontem nem será igual ao que será amanhã.
Na seqüência da vida

Vimos que o espírito, simples e ignorante, ao chegar à Terra, passa a habitar a matéria orgânica, expressando a vida da maneira como acima discutimos. Passa por várias formas de organismos, desde os mais simples aos mais complexos até chegar ao homem.

Um espírito que, desde a forma mais primitiva no corpo físico, ao vivenciar experiências, vai guardando tudo o que viveu... Cada ambiente por onde passa é motivo para o desenvolvimento de sua percepção. A percepção do belo, mas também das ameaças de um predador que se esconde na sombra das florestas à espera de alimento são experiências vivenciadas que fazem surgir os rudimentos da consciência, que desperta a sensibilidade e o torna apto a perceber o perigo nas levíssimas alterações do lugar aonde habita. E tudo o que vive guarda em seu arquivo mental, elabora, transforma, deixando lembranças que ficam em seu inconsciente para posteriormente refletir-se na forma de idéias, percepções e conhecimentos inatos.

A luta pela sobrevivência nas florestas é, para ele, grande; e isso faz com que, por um lado, desenvolva a argúcia, seja por ser a mira de um predador, seja por ser o próprio predador; o que vai ser predado deve sentir a presença do perigo iminente a fim de poder fugir em tempo, enquanto o outro deve desenvolver estratégias astuciosas para caçá-lo. Este sistema faz desenvolver cada vez mais a percepção e a destreza de quem é perseguido, mas também desenvolve a esperteza e a inteligência do perseguidor.

Esse modo que existe na natureza pode parecer cruel, entretanto, tem um motivo em termos da criação. A morte não significa nada se considerarmos a vida no espírito que continuará, mesmo fora do corpo físico. Para o princípio inteligente a morte percebida por ele lhe dará o impulso para o desenvolvimento do instinto que o fortalecerá a evitar sempre o perigo. Logo poderá adquirir outro corpo na prole de outro animal, mas algo já terá aprendido. Sob outro aspecto, esse sistema aparentemente atroz é necessário. Os animais se reproduzem em proles geralmente numerosas, se não houvesse mortes, rapidamente os recursos naturais, incluindo o espaço para viver, se esgotariam, não permitindo mais a vida. Esse sistema agencia o equilíbrio ecológico que possibilita a manutenção constante da vida neste mundo, e, ao mesmo tempo promove a evolução do espírito em seu preparo para a humanidade. E assim que a vida vai construindo a sua história. E é por meio dela que vemos a evolução espiritual sempre se desenrolando por meio de um processo seqüente: do princípio inteligente ao espírito humano.

Na estrutura orgânica mais simples dos organismos que começam esta seqüência, inicia-se o aparecimento das primeiras células especiais para perceber tudo o que acontece em derredor. Com o tempo se especializam e se reestruturam na formação de um sistema diferenciado para receber impressões, manipular e impulsionar atos e atitudes individuais. Agrupam-se com o tempo dando origem a um órgão que irá assumir o comando geral do organismo, bem como de todas as ações por ele executadas. A esse órgão denominamos cérebro.

Conseqüentemente, o princípio inteligente, à medida que progride, encontra na matéria condições de desenvolver progressivamente as sua faculdades, singelas no início, mas que se ampliam em sua escalada evolutiva, dos organismos mais simples aos mais complexos e organizados até chegar ao homem. Uma ameba, por exemplo, abrange apenas o que é alimento e o que não é, porém, numa leve percepção procura também se afastar daquilo que lhe é nocivo.

É dessa forma que os seres, em sua evolução, se aprimoram na percepção dos fatores do ambiente e constroem a consciência que lhes dão as bases para o discernimento.

Penso que todos recordam do grande tsunami, ocorrido não faz muito tempo, mais precisamente em 26 de dezembro de 2004, e que assolou boa parte das costas africanas e asiáticas, não deixando de atingir várias ilhas. Uma das mais atingidas foi a ilha de Sumatra. Em Sri-Lanka uma reserva com 1.300 animais de várias espécies foi atingida. Inexplicavelmente, um dia antes dessa tragédia, todos os animais migraram para a parte mais alta do parque. Nenhum deles morreu.2 Fugiram impulsionados pelo instinto que se fez presente diante da percepção de sutis alterações do ambiente, que mesmo imperceptíveis ao homem foram suficientes para os animais. Digo que foi pelo instinto, visto que os animais ainda não conseguem discernir se devem fugir ou não como o homem o faria. O discernimento é uma faculdade que pertence ao ser humano.

A relação entre espírito e matéria

Uma das coisas lindas da criação é a perfeita interação que existe entre o espírito e a matéria. O progresso do espírito induz ao do corpo físico que deve se moldar às novas aquisições espirituais.
2 Informação obtida do site http: //www.consciencia.net/ especiais/tsunami2004.html

Enquanto espiritualmente os processos reencar-natórios se fazem presentes, no mundo material os mecanismos biológicos caminham atuantes seguindo as leis naturais de desenvolvimento, tal como a ciência explica usando a teoria darwiniana da evolução. Mudanças ocorrem no material genético que confere as características individuais, abrindo a oportunidade para a origem de outras formas animais. As condições do ambiente atuam sobre elas, de tal modo que, aquelas que possibilitam melhor sobrevivência se fixam, enquanto outras são eliminadas. E isso é o que Darwin chamou de seleção natural. Ao longo do tempo, novas mudanças se somam pela atuação do mesmo mecanismo e terminam por diferenciar-se em outras formas dando origem às novas espécies. Desse modo, ao longo desse período, cada corpo animal possibilita ao espírito experienciar essa situação de mudança, progredindo simultaneamente e paralelamente influindo em todo o processo. Tão perfeito este sistema que, dispensando a idéia do acaso, abre um novo horizonte de compreensão, sobre o qual se pode sentir a contínua atuação da suprema inteligência. Um sistema no qual as formas se moldam, as células se diferenciam, o corpo físico se modela em sua estruturação, enquanto o espírito caminha, crescendo e se transformando para se tornar humano... Esta é uma bela história, uma história grandiosa da qual fazemos parte... Somos nós os seus principais protagonistas.

CAPÍTULO 9

NOS PASSOS DA HUMANIDADE

No final de toda essa narrativa eis-nos aqui, /1/ seres humanos ainda em busca de nós W mesmos... Olhamos para trás e percebe' mos os trajetos que percorremos e que fizeram a nossa história... Os passos dados por todos nós no caminhar da humanidade... Nesses passos percebemos nossa ânsia de saber todas as coisas que fazem parte da vida... De entender o que era a própria vida... Percebemos também que andamos por muitas veredas... Que trilhamos muitos caminhos... O caminho da ciência...

O caminho da filosofia... O caminho das religiões. Eram caminhos paralelos, caminhos que não se cruzavam e onde cada um conduzia para um lugar diverso.

Hoje podemos ter uma nova visão. Podemos nos entender com a ciência espírita como seres espirituais... Com Darwin podemos nos ver como um produto da evolução do animal para o homem... Com Darwin e Kardec podemos nos ver como seres que têm um destino, que não caminham sem rumo levados pelo acaso. E nesta junção nos sentimos participantes de um projeto... Um projeto que visou não somente a nossa origem, mas também nosso progresso, cujo decorrer não foi ao léu, não foi ao acaso, mas se mostrou orientado... Nele interferiram e continuam interferindo leis materiais e espirituais que orientam o percurso a ser seguido.

Fizemos até aqui uma longa jornada. Atravessamos o espaço e assistimos ao maravilhoso espetáculo da formação de galáxias e estrelas; chegamos à Terra e habitamos os mares, multiplicamo-nos em formas, demos origem a uma multidão de espécies que encheram os mares, que invadiram os rios e alcançaram a terra. Povoamos, assim, o planeta em todos os seus recantos.

Nossos primeiros passos

Vamos imaginar o homem primitivo bem selvagem, ainda homem-animal, vagando pelas savanas de uma terra africana. Mas, um homem com uma grande capacidade de desenvolvimento, de crescimento, de progresso... Uma grande capacidade para enfrentar dificuldades e tentar vencê-las. Podemos vê-lo andando em grupos acionados pelo medo e pela necessidade que tinham de se defenderem mutuamente. A princípio arborícolas, dormiam nas árvores para evitar as feras noturnas. Depois se aconchegaram nas cavernas que encontraram pelos caminhos. Organizaram-se em clãs e cada clã representava para eles uma família. Em cada gruta um clã, um grupo unido com os mesmos afazeres e ligados pelos mesmos sentimentos. Andavam pelos arredores e caçavam. Ajudavam-se mutuamente. Nesses clãs estavam as sementes da organização social. Mas nelas estava também o germe das religiões.

Ao redor do feiticeiro ou xamã executavam cultos aos mortos e à divindade. Por meio do isolamento, da meditação e de ervas especiais o feiticeiro entrava em transe e nesse transe entrava em contato com o mundo dos espíritos. Era ele que determinava as regras religiosas, que trazia as mensagens do mundo espiritual. Era ele o dono do poder, e era ele que curava as doenças.

Quanto à divindade era para eles, como Féli-cien Challaye descreve:

Uma espécie de força anônima e impessoal, que se encontra em cada um dos seres, sem se confundir, no entanto, com qualquer um deles. Ninguém a possui inteiramente, e todos dela participam. Ela é de tal forma independente dos súditos particulares em que se encarna, que tanto os precede como lhes sobrevive. Os indivíduos morrem; as gerações passam e são substituídas por outras; mas esta força continua sempre atual, viva e semelhante a si mesma (...) Tomando-se a palavra num sentido bem lato, poder-se-ia dizer ser essa força o deus que cada culto totê-mico adora. Apenas é um deus impessoal, sem nome, sem história, imanente ao mundo, difuso numa multidão inumerável de coisas (...).11 Félicien Challaye. As grandes religiões, p. 21.

De acordo com um bom número de sociólogos e de historiadores essa é a mais primitiva das religiões. Elas tinham como característica unir o grupo humano do clã a determinada espécie de seres, como um animal, por exemplo, os quais consideravam sagrados. Esses seres são os totens que deram nome à religião: totemismo. Esse foi o começo da história das religiões.

Religiões são criações humanas que evoluem acompanhando a evolução do homem, por isso variam de acordo com a época e o nível de compreensão humana. Porém, nasceram com o homem que expressava por meio delas a sua espiritualidade. Muitos confundem espiritualidade com religiosidade, contudo ambas diferem em seu significado. A primeira é um dom do espírito e a segunda tem como origem a primeira.

A espiritualidade existe em todos os seres humanos, é permanente no espírito, constante, sempre igual, não desaparece e, mesmo que oculta em muitos corações, permanece lá como semente, pronta para desabrochar.

Quanto à religião, muitos professam e outros não. Os que professam se dizem religiosos, apesar de freqüentemente dela participarem para alívio de seu medo com relação ao futuro. Outros participam com sinceridade e procuram seguir as regras que elas ditam... Encontram nelas o Deus pelo qual buscam. Entretanto, a espiritualidade permanece constante dentro de cada um, esperando um momento no qual possa despertar. A religiosidade é, portanto, a expressão da espiritualidade.
No tempo e no espaço

A passagem pelo mundo animal foi uma grande jornada através de muitos caminhos, durante os quais muitas experiências foram vivenciadas. Dessa forma, quando o homem despertou para a vida humana já trazia consigo os fundamentos para se edificar; possuía um cérebro aprimorado pronto para expandir-se em inteligência, em consciência e racionalidade. Podia enfrentar os obstáculos do mundo e aprender com eles a maneira de vencê-los.

No início se tornaram caçadores e fabricavam ferramentas que lhes servissem para caça e ao mesmo tempo para defesa contra o ataque dos animais. Usavam para isso pedras de sílex que, ao lapidarem, soltavam faíscas que ao caírem sobre o chão forrado por capim seco o incendiaram... Foi assim que mesmo antes da nossa espécie o homem descobriu o fogo e aprendeu o jeito de fazer fogueira.
A necessidade em sua vivência fez aprimorar-se, o viver em grupo ensinou-o a conviver, e nessa luta incessante progrediu, aprendeu, evoluiu enfim.

Em algum dia na vida desses homens primitivos deixaram as cavernas, e se foram em pequenos grupos em busca de outros lugares onde houvesse abundância de caça e de água para viver melhor.

Mais tarde construíram cidades que se tornaram grandes metrópoles. Bem depois, não contentes em conhecer somente seu mundo, projetam aeronaves e por meio delas procuram conhecer o espaço. Um dia aportaram na Lua... Apesar disso, o homem não chegou à sua fase final de evolução, porém continua ainda a caminhar em direção ao progresso.
Atributos: nossa maior riqueza

Por atributos humanos se entende tudo o que é próprio ou peculiar do ser humano, tudo o que o define e caracteriza.

A percepção, a memória, a consciência, a inteligência, por exemplo, são faculdades que possuímos.

De uma forma geral, todos os nossos atributos interagem entre si, e cada um deles é importante para o desenvolvimento dos outros. Assim, é pela percepção das coisas ou fatos da vida que a memória se desenvolve e que a consciência se edifica.

Para entendermos melhor faremos um pequeno relato sobre um fato que ocorreu certa vez em minha casa e que trago em minha memória. Lá estavam meus filhos e meus netos, na ocasião ainda crianças.

Marina, uma de minhas netas, com seis anos de idade, me perguntou certa vez: “Vovó, por que a gente tem duas vozes no pensamento, uma que fala que sim e outra que fala que não, quando a gente quer fazer alguma coisa?”. Então lhe perguntei o que ela queria fazer e o que aquela voz oculta lhe dizia para não fazer. Ela me respondeu que gostaria muito de subir a alta grade que cercava a frente de minha casa. Perguntei a ela o que aconteceria se ela subisse. Ela ficou por uns momentos calada, mas, olhando em seguida para mim me disse que lembrara de uma outra ocasião em que havia subido por uma escada até o telhado de casa. Quando lá estava, não conseguindo descer se assustou e começou a chorar e a gritar apelando por ajuda. Foi auxiliada pelo tio que depois lhe chamou a atenção, mostrando a ela o perigo que havia corrido. E se não houvesse ninguém ali, o que ela faria? Poderia ter caído...

A lembrança do acontecimento anterior se tornou importante para ela, bem como a conse-qüência do que fizera naquele dia. Essa lembrança despertou-lhe a consciência do perigo. Diante dessa consciência ela encontrava uma escolha, a de não subir no portão. Isto significa que, naquele instante, ao querer galgar o portão usou de sua memória, de seu discernimento, da sua raciona-lidade e de seu livre-arbítrio. E assim que n^sas faculdades interagem entre si a realização dos nossos atos e que orientam o desenrolar da nossa vida. É dentro desse conjunto harmônico de todas as faculdades, de todos os sentimentos, da capacidade de sentir e ver as coisas que nossa personalidade se constrói, que o homem se edifica e se torna aquilo que é.

Quanto àquela voz interior, a voz da consciência está sempre presente em cada momento da nossa vida.

Sua definição pode ser encontrada nos dicionários de forma geral. Usaremos aqui o Moderno Dicionário Michaelis que diz o seguinte:
A consciência é a capacidade que o homem tem de conhecer valores e mandamentos morais e de aplicá-los nas diferentes situações que vivência. A definição religiosa considera a consciência como o testemunho ou julgamento secreto da alma, aprovando ou reprovando os nossos atos (...).

Porém, a enciclopédia Wikipédia se refere a ela como sendo

(...) uma qualidade psíquica, isto é, que pertence à esfera da psique, por isso se diz que ela é um atributo do espírito, da mente, ou do pensamento humano... Ser consciente não é exatamente a mesma coisa que se perceber no mundo, mas ser no mundo e do mundo, para isso, a intuição, a dedução e a indução fazem parte.

Esta é para mim a melhor definição.

A memória e a imaginação

Todos nós temos capacidade de imaginar fatos ou coisas. Podemos sonhar coisas que desejamos. A consciência é a capacidade que o homem tem de conhecer valores e mandamentos morais e de aplicá-los nas diferentes situações que vivência. A definição religiosa considera a consciência como o testemunho ou julgamento secreto da alma, aprovando ou reprovando os nossos atos (...).

Quando me ponho diante dessas coisas e percebo por meio do que sei, do que aprendi que sou dotada de capacidades imensas, sinto-me transcender para além da matéria de meu corpo. E é então que me percebo diante de meu Criador. Um Criador que me fez simples e ignorante, mas que me deu em sua bondade as sementes de tudo o que eu precisava para ser o que hoje sou. Andei por muitos caminhos, neles aprendi e me desenvolvi, me tomei consciente e capaz de criar e construir, de sentir e de poder dar expansão aos meus sentimentos, enfim, de me tornar um ser social. Posso entender a mim mesma e posso entender meu semelhante... Enfim, posso compreender que as lembranças de cada experiência vivida de todas as vidas que tive se refletem sobre mim e hoje se expressam como os dons inatos que possuo.

Os instintos e a inteligência

O homem não é somente “faculdade ou dom”, é também “instinto” e “inteligência”. Instinto que é impulso... Impulso que o leva a atos impensados, inconscientes, muitas vezes desastrosos, mas na maioria das vezes benéfico diante de um perigo... Benéfico quando conduz ao amor.

Você quer saber o que é instinto? Pois ele é a força interior que impele você a executar atos inconscientes dos quais você só se dá conta depois que agiu.

O instinto é essa força ou impulso que todos temos e que é adequado às nossas necessidades de sobrevivência e de reprodução.

É pelo instinto sexual que desenvolvemos o amor e que nos unimos pelo matrimônio, que construímos uma família com os filhos que tivermos.

O instinto é diferente da inteligência, porque esta impulsiona atos conscientes, e se mostra como uma faculdade do espírito que move o pensamento, que nos induz a criar e a atuar sobre a imaginação, estabelecendo novas idéias e novas regras a serem seguidas em nossa vivência. O instinto, porém, se faz notar por atos que não dependem do pensamento, nem da reflexão, fatores estes que são importantes para o desempenho da inteligência.

O instinto de sobrevivência é que impele os animais a viverem agregados dentro de sua espécie, que induz os peixes de pequeno porte a formarem cardumes e as aves migradoras a voarem em grupo de um lugar para outro. De uma forma geral os animais de cada espécie não vivem de forma solitária. No agrupamento deles encontram maior chance de sobreviverem aos ataques de seus predadores.

Muitos possuem uma organização social surpreendente como o que observamos em formigas e abelhas, dentro da qual, cada indivíduo tem uma função específica no trabalho de manutenção das colônias.

Nas colônias de abelhas, por exemplo, há operárias que saem em busca de alimentos. A primeira que encontra volta para avisar as outras, que então a seguem em busca do néctar das flores para alimentar a rainha e as larvas que vivem em cada favo. Mas, há também os soldados que protegem a colônia e que atacam quem dela se aproxima. Há a rainha cuja função é a de se acasalar e colocar os ovos, um a um em cada favo. Um serviço completo de colaboração que prepara o espírito para mais tarde atuar como humano na ajuda mútua e no trabalho cooperativo.

Os instintos chegam ao homem que com a inteligência, a percepção e a consciência mais elaboradas, podem transformá-los em tendências... Tendências para o amor que ajuda o próximo, que constrói sociedades e delas participam em sistema de colaboração e ajuda mútua... É dos instintos que nasce o amor materno, e por que não dizer também o paterno... Amor que se amplia e se estende aos mais fracos, o amor solidário que socorre e auxilia.

Nos animais todos os instintos são úteis à sobrevivência de sua espécie e a maioria de suas ações são instintivas. No homem, com o desenvolvimento maior da inteligência e de seus atributos, a maioria dos instintos como aqueles da agressividade que levam à violência, ao egoísmo, e a muitos outros do mesmo tipo se tornam tendências que devem ser superadas.

Os instintos são diferentes das tendências que se manifestam como disposições naturais, inclinações ou propensões para seguir determinados caminhos ou agir de acordo com sua predisposição. As tendências não são impulsos como os instintos, mas se manifestam como inclinação a determinadas coisas que são percebidas pela mente, e que podem ser controladas pela vontade, enquanto os instintos não.

Há tendências boas e há tendências ruins. Há tendências que nos impulsionam para a arte, para a poesia e para o amor mais puro e universal, e há aquelas que nos levam para a violência, para o egoísmo e para as paixões. Tendências que no homem se tornam piores que os instintos animais porque são elaboradas pela inteligência, direcionando-se para a maldade ou crueldade que não existe nos animais.

Enfim, o homem...

Vemos hoje o homem, que já foi ave, que voou sob o azul do céu e que sente desejo de liberdade de voar livre no espaço, de sentir o vento, de olhar a Terra das alturas.
homem que sempre quis voar e que por isso mesmo construiu aviões, sofisticou-os, aumentou-lhes a velocidade... Aviões que encurtam a distância voando céleres sobre o azul do céu.

O homem que é alma, que é consciente e inteligente, mas que já foi simples e ignorante e voou nas asas de uma ave... Um homem que se levanta, que caminha tentando vencer os obstáculos... Um homem que sabe olhar o céu no desejo de voar... Um homem que quando espírito pode volitar e que, assim, quando encarnado, soma a lembrança inata de estar livre, volitando, ao vôo da ave que foi um dia voando no azul do céu.

Porém, essa alma que é o homem traz instintos, traz também suas tendências... Algumas que valem a pena de ser alimentadas, algumas que devem ser vencidas, que necessitam ser superadas... São aquelas ruins que herdamos da animalidade de um tigre, de um leão, ou de um crocodilo, que expressam vio-lência e agressividade... E o veneno das serpentes que transformamos no veneno das palavras...

Há, porém, ao lado, o cuidado com os pequeninos, que reflete a ave que cuida de seu ninho e protege seus filhotes, que reflete a leoa que guarda sua prole e que enfrenta qualquer perigo para garantir-lhe a vida... Dirão os céticos e dirá a ciência que isso resulta de um processo natural, que não envolve sentimento, que é o instinto animal para manter a sobrevivência da espécie, que tudo isso resultou de uma seleção natural. Não estará de todo errado nem em desacordo, mas se puder transcender para o espírito que está naquele animal, que vivência experiências, então encontrará uma resposta mais correta... Poderá ver-se passando por experiências que guarda e transforma no recôndito secreto de seu arquivo mental para mais tarde refleti-las na alma e deixá-las fluir nas diferentes formas de expressão que possui. Por isso entenderá o amor mais nobre e mais puro do coração de uma mãe ou de um pai. Amor que é sentimento e não somente instinto, amor capaz de se transformar em amor maior, mais amplo e mais largo de forma que atinja e englobe todas as pessoas, de senti-las e compreendê-las, de esquecer os preconceitos aceitando a todos em suas diferenças e limitações.

Porém, ainda existem a violência e a agressividade que trazemos das feras e que se apresentam nas diferentes formas humanas de agredir, como as guerras que são feitas, e que causam tantas mortes desnecessárias... E dos instintos que nasce o orgulho, a ânsia de poder que leva o homem a conquistar supremacia sobre todos os demais... É ainda o instinto que gera a vaidade e o egoísmo... E o instinto que na forma de tendência se reflete sobre o homem em sua maneira de ser.

Todos os instintos são úteis aos animais na manutenção de sua sobrevivência e na manutenção de sua espécie. Diferente no homem por se tornar um ser inteligente.
A natureza humana

Em todo o discorrer deste livro tenho tentado apresentar uma nova maneira de ver os fatos e as coisas da vida. Em suas páginas tive a oportunidade de mostrar que, para muitas questões, não existem explicações possíveis quando se envereda por uma única área de conhecimento. Contudo, pode-se ampliá-lo se o aliarmos a outras fontes de saberes. Será assim mais fácil de se entender a natureza humana, marcada por emoções e sentimentos, guiada pelos instintos, mas dirigida pela consciência e pelo discernimento.

Natureza que pela ciência é vista como apenas parte do comportamento, mas que a filosofia considera como conjuntos de sentimentos, emoções e qualidades mentais, bem como formas de pensar e de agir. Assim a natureza humana é tudo o que o ser humano é, e exprime em sua vida. Você é o que a sua natureza é, e você é tudo o que quiser ser, basta querer... Basta desejar...

Você pode escolher o seu caminho e construir a sua história. E se você escolher amar as pessoas, se puder compreendê-las, se puder ser solidário e amigo, então você conquistará aquilo que todos nós almejamos, a paz de espírito e a felicidade. Porém, isso depende somente de você.

A vida apresenta lutas, problemas e dificuldades, mas você está apto para vencê-las. Como todos nós, você é dotado de uma força mental cujo limite está ainda longe de ser conhecido... Você pode... E só querer. Entretanto é preciso ter fé. Acima de você há um Deus que o ama, e se você quiser vencer, se você sonhar com algo bom e construtivo e desejar realizar seu sonho, você encontrará meios de o fazer, encontrará a força necessária no seu trabalho e na sua persistência. Contudo, nada conseguirá se se deixar vencer pelo pessimismo ou pelo comodismo.

Considere que você é especial como todo o mundo é porque como todos nós você faz parte de uma criação de infinita sabedoria e bondade.

CAPÍTULO 10

O HOMEM E O UNIVERSO

Se você chegou pelas páginas deste h. JT livro até aqui deve ter notado que mesmo usando diversos campos de conhecimentos, muitas coisas fogem ao nosso entendimento. Assim, falamos sobre a vida, mas encontramos com relação a ela um grande mistério que não conseguimos devassar. Sabemos que sua manifestação depende de uma energia a qual chamamos energia ou princípio vital, que por si só não é a vida, apenas um agente que permite a expressão da vida material. Então, a vida acontece na Terra quando ao elemento material se une o princípio vital; é a única coisa que podemos dizer. Porém, há também uma vida espiritual da qual nada sabemos.

Sobre a matéria universal encontramos a semelhança em todos os componentes que formam o universo. São os mesmos elementos que constituem as estrelas, os planetas, as galáxias e a nós humanos; o que varia, e concede a cada um sua natureza, é apenas a proporção com que esses elementos se associam.

Porém, não sabemos se existem outros tipos de matéria para além do universo conhecido. Conforme o Espiritismo a matéria pode existir numa forma tão etérea e sutil que nossos sentidos não podem perceber. Assim é o caso do perispírito ou corpo perispiritual, que serve de ligação entre o espírito e a matéria grosseira do corpo físico. Convém falarmos um pouco sobre ele.

O espírito, sendo algo indefinido, muito sutil, não pode agir diretamente sobre a matéria que constitui o corpo orgânico. Assim não o faz diretamente senão por meio de um envoltório que se torna um corpo intermediário. Esse é o perispírito. A natureza dele é semimaterial. Na questão 257 de O Livro dos Espíritos, Kardec o define como o “laço que une o espírito à matéria do corpo”, e segundo ele, o espírito o tira do “meio ambiente, do fluido universal; contém ao mesmo tempo, eletricidade, fluido magnético e, até certo ponto a matéria inerte”. O perispírito faz do ser abstrato que é o espírito, um ser concreto, definido, e o torna apto a agir sobre a matéria tangível. Em cada reencarnação é o perispírito que por meio de um cordão fluídico liga o espírito à célula germinativa que lhe dará origem; ao deixar o corpo físico, o espírito se vai envolto pelo seu perispírito. Contudo, pouco se sabe sobre a matéria sutil que o constitui, a não ser que é absorvida do fluido universal de cada globo onde o espírito irá nascer.

Entretanto, existe um fato que se torna real e evidente diante do nosso olhar. Esse fato domina todas as hipóteses que podem ser formuladas:
(...) vemos que existe matéria que não é inteligente e vemos um princípio inteligente independente da matéria. A origem e a conexão dessas duas coisas nos são desconhecidas. Que elas tenham, ou não, uma fonte comum, com pontos de contato necessários; que a inteligência tenha sua existência própria ou que ela seja uma propriedade, um efeito; que seja mesmo segundo a opinião de alguns, uma emanação da divindade é o que ignoramos. Elas nos parecem distintas e por isso, admitimo-las como formando os dois princípios constituintes do universo. Vemos acima de tudo isso, uma inteligência que domina todas as outras e as governa, distinguindo-se por atributos essenciais. A esta inteligência suprema é que chamamos Deus.11 Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, questão 28, p. 53

Essa é a grande tríade do universo: O princípio supremo inteligente e criador e a sua criação que se resume no princípio inteligente e no princípio material.

Se existe o corpo físico orgânico e se existe o espírito, existem também, além dos mundos materiais, mundos que são espirituais. Sobre este último pouco sabemos, senão que é moradia dos espíritos; que nesses mundos também aprendemos de forma que sempre trazemos conhecimentos em cada vida na matéria, porém sob a forma inata. Esses conhecimentos continuamente se expressam pela consciência.

Os conhecimentos inatos constituem-se em evidência que a memória é um atributo espiritual na qual o espírito mantém tudo o que aprende, tudo o que percebe. Se a memória fosse atributo do corpo físico é evidente que o passado não se refletiría na vida presente, visto que o corpo é passageiro e com a morte se decompõe. Tudo o que ele viveu e experienciou terminaria com a morte.

Seriam os espíritos e seriam os mundos próprios a eles imateriais? A resposta espírita que encontramos na questão 82 do livro da codificação mostra que:

(...) Imaterial não é o termo; incorpóreo seria mais exato, pois, sendo o espírito uma criação, deve ser alguma coisa. É a matéria quintessenciada, mas sem analogia para vós outros, e tão etérea que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.22 Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, p. 71
0 homem moderno

Vamos lembrar neste momento o que dissemos nas primeiras páginas deste livro, nas quais abordamos os problemas vividos em nossa modernidade. Problemas que conduzem o homem a perder as noções sobre si mesmo. Para voltar ao entendimento do que ele é como indivíduo, tornou-se preciso um retorno em sua história e rever o seu passado. Tornou-se necessário também se considerar sua natureza humana e sua espiritualidade.

De acordo com a linha de pensamento adotada nas páginas deste livro, podemos entender que somos espíritos em evolução, e que não estamos neste mundo por acaso, mas o sentido da nossa vida é o futuro que devemos construir. Temos condições de seguir avante, porque somos inteligentes, temos uma consciência e capacidade para discernir. Assim, podemos escolher nossos caminhos. Somos, além disso, seres que transcendem, que não têm medo de ir em frente. E essa transcendência, como resume Boff, é talvez o “desafio mais secreto e escondido do ser humano”.

Porque transcende, mesmo sob os rigores da Igreja no passado, eis que ele irrompe com todas as ameaças de castigos e se aventura a descobrir o mundo e a vida fazendo nascer a ciência.

Leonardo Boff, com genialidade, mostra o homem como “um ser de abertura, um ser social capaz de criar utopia, de acrescentar algo ao real”. E como continuação ainda diz:
(...) isso é exclusivo dele, nenhum animal é capaz de utopia. Por isso ele cria símbolos, cria projeções, cria sonhos. Porque ele vê o real transfigurado. Essa capacidade é o que chamamos de transcendência, isto é, transcende, rompe, vai para além daquilo que é dado. Numa palavra eu diria que o ser humano é um projeto infinito.33 Leonardo Boff. Tempo de Transcendência: o ser humano como um projeto infinito, p. 36.
Somos, portanto, o projeto infinito da criação; seres criados todos iguais e perfeitos em criação, mas passamos pelos animais, e quando animais desenvolvemos instintos, que se por um lado acionam o desenvolvimento do amor, por outro conduzem ao egoísmo, à vaidade, ao desejo de poder e domínio. Coisas que, entretanto, constituem a mola do nosso progresso.

Porém, somos inteligentes e sabemos avaliar as conseqüências dos nossos atos. E por essa avaliação aprendemos, porque, na essência de nós mesmos, temos um profundo desejo de encontrar um meio de ser feliz, de saber conviver, de dar amor para também receber. Isso faz parte do planejamento divino de nossa evolução.

Somos seres sociais que gostamos de conviver em sociedade, as raízes desse sentimento encontram-se distantes porque nasceram quando selvagens procurávamos nos unir, nos agrupar para sobreviver. A vida social faz parte da vida humana e ele a procura guiado pelo instinto. Nenhum homem vive sozinho.

E na interação social que os sentimentos cooperativos se expressam para assegurar o bem-estar comum e é ainda nessa interação que o ser humano procura satisfazer sua carência de afeto e compreensão. A vivência social desenvolve a consciência social de colaboração mútua, de união na força do trabalho que leva à produção. É nessa vivência que aprendemos que a solidariedade é um dos meios mais eficientes na construção do bem comum.

Entretanto, o homem moderno ainda se deixa levar pelas tentações de suas tendências negativas. Elas se escondem nas ocasiões que propiciam aberturas por onde se possa entrar. É nessas ocasiões que nossas tendências podem se revelar impulsionadas pelo orgulho ou pela vaidade, pelo egoísmo de quem busca tudo para si mesmo e que conduz à dissimulação ou a atitudes enganosas que escondem os verdadeiros sentimentos.

E justamente dentro da sociedade na qual se vive que as tendências humanas encontram oportunidades de expressão. Entretanto, à medida que os conhecimentos forem assimilados no decorrer das páginas da existência, as quais sempre encerram preciosas lições nas experiências vividas, e, principalmente, nos erros cometidos, mais despertaremos a consciência da necessidade de mudar.

Quanto mais aprendermos sobre o amor, mais desenvolveremos o sentimento de fraternidade, e quanto mais o desenvolvermos, mais fácil se tornará não nos deixarmos envolver pelas delimitações das conveniências pessoais que tanto limitam na escolha do que parece correto e mais justo em relação aos outros.

Dificuldades humanas

Como, porém, encontrar o amor dentro de um sistema social cujas regras são cerceadas e impulsionadas pelos instintos diante de condições, às vezes tentadoras, mas não recomendáveis à paz de espírito que traria somente bem-estar?

Como encontraremos a nós mesmos, se diante das circunstâncias sociais nos sentirmos inseguros, se direcionarmos a nossa atenção ao que os outros são, para parecermos iguais? São questões que geram a insegurança e a falta de auto-estima. Entretanto a auto-estima não deve ultrapassar os limites do normal, isto é, deve ser baseada no que somos, sem orgulho e sem vaidade, de forma que consideremos também, nossos defeitos. Amar a si próprio significa aceitar-se tal como se é, com defeitos e qualidades, sem precisar usar de uma supervalorização própria que nos torne superiores aos nossos semelhantes ou que cause entorpecimento das qualidades que possuímos causando perda da auto-estima. Isso significa entender-nos como iguais a todo mundo e ter um modo de amor que nos induz a compreender e a amar os nossos semelhantes. Por esse amor será mais fácil perdoar a nós próprios nos erros que cometemos, bem como perdoar as falhas que os outros mostram em relação a nós.

No final de toda essa narrativa, temos uma história, mas uma história que ainda não terminou do céu, e diante da luz do sol, agradeça a oportunidade de estar vivo, de ser tudo o que você é e, então, com otimismo e alegria, pense em fazer desse dia um bom dia para você.

Você foi bem dotado para vencer... Você possui a força mental suficiente que é movida pela sua vontade. Seu corpo físico, por si só, já é uma força energética. Seu estado emocional pode promover essa força e mantê-la em harmonia com a de seu espírito, que por seu lado, possui a fonte de sua força. Adquira sua auto-estima considerando que você faz parte da criação como um projeto infinito. E isso ninguém poderá tirar de você. Não se deixe abater pelas desilusões e desencantos que possa encontrar em sua vida. São coisas naturais, são desafios que você está apto a vencer e que estimulam o seu aspecto transcendental. Não fuja dos erros que cometer, porém, enfrente-os sob a luz da consciência; eles podem se transformar em preciosas lições para o seu crescimento. Deixe que o amor divino penetre o seu coração e permita que esse amor se reflita ao seu redor para alcançar as pessoas que cruzarem com você em sua jornada.

O pensamento é uma força que pode se tornar construtiva ou destruidora. Isso depende somente de você. Portanto, abra os olhos para o mundo irradiando paz e alegria por onde você passar. Você é mais que matéria, você tem um futuro que somente você poderá construir. Todos temos limitações que são determinadas pelo grau de desenvolvimento que conseguimos conquistar, não se deixe abater por elas, por que elas fazem parte do seu trajeto... Como todo mundo você é um espírito dinâmico em sua evolução e nunca deve desistir ou parar. Alimente a sua fé, ela é a semente da esperança que o fará prosseguir...

F I M