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Charles Richet

 

A Grande Esperança

 

Traduzido do Francês

La grande espérance

1933

 

 

 

O Símbolo Esperança

 

 

 

 


Conteúdo resumido

 

Nesta obra o eminente fisiologista Charles Richet se propõe a responder à pergunta: “Por que existes?”

Depois de ter presenciado centenas de fenômenos espíritas, rigorosamente controlados, junto aos mais respeitados psiquistas europeus e norte-americanos, ele refaz a sua pergunta:

“Por que existes?” e responde simplesmente: “Para existir e para ter filhos”.

Todos os fenômenos mediúnicos comprobatórios da sobrevivência do espírito além da morte corporal, mesmo as pesquisas de Sir William Crookes com o espírito de Katie King, não foram suficientes para provar a Richet a imortalidade do ser psíquico.

Vemos isto em suas próprias palavras, como se lê na Segunda Parte desta obra (Livro II, Capítulo 4 - Discussão):

“... Entretanto, ensinamos que a memória é função do cérebro. Se o sangue oxigenado cessa de passar pelo cérebro, mesmo durante um meio minuto, não há mais memória.”

Ainda assim, Richet é considerado um dos grandes colaboradores do Espiritismo, já que a sua intensa participação nas pesquisas dos fenômenos psíquicos, juntamente com Crookes, Lodge, Bozzano, Aksakof e outros, despertou em um grande número de cientistas eminentes o interesse pelos fenômenos extrafísicos.

É importante frisar que suas dúvidas em relação à sobrevivência do espírito em nada diminuem a dignidade desse grande cientista, cujos trabalhos lhe valeram o Prêmio Nobel da Paz, em 1913.

 


 

Sumário

 

A passagem de Richet 4

Primeira Parte – Por que existes?. 7

Livro I – A expansão do homem e da inteligência. 7

Livro II – A defesa do indivíduo contra a morte. 14

Livro III – A defesa da espécie e o amor 27

Segunda Parte – A grande esperança. 42

Livro I – O mundo habitual 42

Livro II – O inabitual 50

Capítulo 1 – O inabitual na biologia. 54

Capítulo 2 – O inabitual no conhecimento. 67

Capítulo 3 – O inabitual no mundo material 86

Capítulo 4 – Discussão. 101

Conclusão. 117

 


A passagem de Richet

O Senhor tomou lugar no tribunal da sua justiça e, examinando os documentos que se referiam às atividades das personalidades eminentes sobre a Terra, chamou o Anjo da Morte, exclamando:

– Nos meados do século findo partiram daqui diversos servidores da Ciência que prometeram trabalhar em meu nome no orbe terráqueo, levantando a moral dos homens e suavizando-lhes as lutas. Alguns já regressaram, enobrecidos nas ações dignificadoras, desse mundo longínquo. Outros, porém, desviaram-se dos seus deveres e outros ainda lá permanecem, no turbilhão das dúvidas e das descrenças, laborando no estudo. Lembras-te daquele que era aqui um inquieto investigador, com as suas análises incessantes, e que se comprometeu a servir os ideais da Imortalidade, adquirindo a fé que sempre lhe faltou?

– Senhor, aludis a Charles Richet, reencarnado em Paris, em 1850, e que escolheu uma notabilidade da medicina para lhe servir de pai?

– Justamente. Pelas notícias dos meus emissários, apesar da sua sinceridade e da sua nobreza, Richet não conseguiu adquirir os elementos de religiosidade que fora buscar em favor do seu próximo. Tens conhecimento dos favores que o Céu lhe tem adjudicado no transcurso da sua existência?

– Tenho, Senhor. Todos os vossos mensageiros lhe cercaram a inteligência e a honestidade com o halo da vossa sabedoria. Desde os primórdios das suas lutas na Terra, os gênios da imensidade o rodeiam com o sopro divino de Tuas inspirações. Dessa assistência constante lhe nasceram os poderes intelectuais, tão cedo revelados no mundo. A sua passagem pelas academias da Terra, que serviu para excitar a potência vibratória da sua mente, em favor da ressurreição do seu tesouro de conhecimentos, foi acompanhada pelos vossos emissários com especial carinho. Ainda na mocidade, lecionou na Faculdade de Medicina, obtendo a cadeira de fisiologia. Nesse tempo, já seu nome, com os vossos auxílios, estava cercado de admiração e respeito. As suas produções granjearam-lhe a veneração e a simpatia dos seus contemporâneos. De 1877 a 1884, publicou estudos notáveis sobre a circulação do sangue, sobre a sensibilidade, sobre a estrutura das circunvoluções cerebrais, sobre a fisiologia dos músculos e dos nervos, perquirindo os problemas graves do ser, investigando no círculo de todas as atividades humanas, conquistando o seu nome a admiração universal.

– E em matéria de espiritualidade – replicou austeramente o Senhor –, o que lhe deram os meus emissários e de que forma retribuiu o seu espírito a essas dádivas?

– Nesse particular – exclamou solícito o Anjo – muito lhe foi dado. Quando deixastes cair, mais intensamente, a Vossa luz sobre os mistérios que me envolvem, ele foi dos primeiros a receber-lhe os raios fulgurantes. Em Carqueiranne, em Milão e na Ilha Roubaud, muitas claridades o bafejaram, junto de Eusápia Paladino, quando o seu gênio se entregava a observações positivas junto aos seus colegas Lodge, Myers e Sidgwick. De outras vezes, com Delanne, analisou as célebres experiências de Alger, que revolucionaram os ambientes intelectuais e materialistas da França, que então representava o cérebro da civilização ocidental.

“Todos os portadores das vossas graças levaram as sementes da Verdade à sua poderosa organização psíquica, apelando para o seu coração, a fim de que ele afirmasse as realidades da sobrevivência; povoaram-lhe as noites de severas meditações, com as imagens maravilhosas das Vossas verdades, porém apenas conseguiram que ele escrevesse o Tratado de Metapsíquica e um estudo proveitoso a favor da concórdia humana, que lhe valeu o Prêmio Nobel da Paz em 1913.

“Os mestres espirituais não desanimaram nem descansaram nunca em torno da sua individualidade; mas apesar de todos os esforços despendidos, Richet viu, nas expressões fenomenológicas de que foi atento observador, apenas a exteriorização das possibilidades de um sexto sentido nos organismos humanos. Ele que fora o primeiro organizador de um dicionário de fisiologia, não se resignou a ir além das demonstrações histológicas. Dentro da espiritualidade, todos os seus trabalhos de investigador se caracterizam pela dúvida que lhe martiriza a personalidade. Nunca pôde, Senhor, encarar as verdades imortalistas, senão como hipóteses, mas o seu coração é generoso e sincero. Ultimamente, nas reflexões da velhice, o grande lutador se veio inclinando para a fé, até hoje inacessível ao seu entendimento de estudioso. Os vossos mensageiros conseguiram inspirar-lhe um trabalho profundo, que apareceu no planeta como A Grande Esperança, e nestes últimos dias a sua formosa inteligência realizou para o mundo uma mensagem entusiástica em prol dos estudos espiritualistas.”

– Pois bem – exclamou o Senhor –, Richet terá de voltar agora a penates. Traze de novo aqui a sua individualidade para as necessárias interpelações.

– Senhor, assim tão depressa? – retornou o Anjo, advogando a causa do grande cientista. – O mundo vê em Richet um dos seus gênios mais poderosos, guardando nele sua esperança. Não conviria protelar a sua permanência na Terra, a fim de que ele vos servisse, servindo à Humanidade?

– Não. – disse o Senhor tristemente. – Se, após oitenta e cinco anos de existência sobre a face da Terra, não pôde reconhecer, com a sua ciência, a certeza da imortalidade, é desnecessária a continuação de sua estada nesse mundo. Como recompensa aos seus esforços honestos em benefício dos seus irmãos em humanidade, quero dar-lhe agora, com o poder do meu amor, a centelha divina da crença, que a ciência planetária jamais lhe concedeu nos seus labores ingratos e frios.

* * *

No leito de morte, Richet tem as pálpebras cerradas e o corpo na posição derradeira, em caminho da sepultura. Seu espírito inquieto de investigador não dormiu o grande sono.

Há ali, cercando-lhe os despojos, uma multidão de fantasmas.

Gabriel Delanne estende-lhe os braços de amigo. Denis e Flammarion o contemplam com bondade e carinho. Personalidades eminentes da França antiga, velhos colaboradores da Revista dos Dois Mundos, cooperadores devotados dos Anais das Ciências Psíquicas, ali estão para abraçarem o mestre, no limiar do seu túmulo.

Richet abre os olhos para as realidades espirituais que lhe eram desconhecidas. Parece-lhe haver retrocedido às materializações da Vila Carmen; mas ao seu lado repousam os seus despojos, cheios de detalhes anatômicos. O eminente fisiologista reconhece-se no mundo dos verdadeiros vivos. Suas percepções estão intensificadas, sua personalidade é a mesma e, no momento em que volve a atenção para a atitude carinhosa dos que o rodeiam, ouve uma voz suave e profunda, falando do infinito:

– Richet – exclama o Senhor no tribunal da sua misericórdia – por que não afirmaste a Imortalidade, e por que desconheceste o meu nome no seu apostolado de missionário da ciência e do labor? Abri todas as portas de ouro, que te poderia reservar sobre o mundo. Perquiriste todos os livros. Aprendeste e ensinaste, fundaste sistemas novos de pensamento, à base das dúvidas dissolventes. Oitenta e cinco anos se passaram, esperando eu que a tua honestidade me reconhecesse, sem que a fé desabrochasse em teu coração... Todavia, decifraste, com o teu esforço abençoado, muitos enigmas dolorosos da ciência do mundo e todos os teus dias representaram uma sede grandiosa de conhecimentos... Mas, eis, meu filho, onde a tua razão positiva é inferior à revelação divina da fé. Experimentaste as torturas da morte com todos os teus livros e diante dela desapareceram os teus compêndios, ricos de experimentações no campo das filosofias e das ciências. E agora, premiando os teus labores, eu te concedo os tesouros da fé que te faltou na dolorosa estrada do mundo!

Sobre o peito do abnegado apóstolo desce do Céu um punhal de luz opalina como um venábulo maravilhoso de luar indescritível.

Richet sente o coração tocado de luminosidade infinita e misericordiosa, que as ciências nunca lhe haviam dado. Seus olhos são duas fontes abundantes de lágrimas de reconhecimento ao Senhor. Seus lábios, como se voltassem a ser os lábios de um menino, recitam o “Pai Nosso que estais no Céu...”

Formas luminosas e aéreas arrebatam-no, pela estrada de éter da eternidade e, entre prantos de gratidão e de alegria, o apóstolo da ciência caminhou da grande esperança para a certeza divina da Imortalidade.

Humberto de Campos
(Espírito)

(Recebida em Pedro Leopoldo
a 21 de janeiro de 1936, por
Francisco Cândido Xavier)


Primeira Parte

Por que existes?

Livro I

A expansão do homem e da inteligência

- 1 -

Por que existes?

Não és realmente curioso se nunca fizeste esta pergunta. Feliz negligência, não obstante bem singular! Pois jamais pediste para viver e a existência te foi imperiosamente imposta.

Por quem? Para quê? Por quê?

No entanto tens em parte o direito de o saber, ou pelo menos de interrogar o destino, interrompendo o curso do teu trabalho, dos teus prazeres, dos teus amores e de tuas inquietações.

Mas não! Contenta-te com viver, antes vegetar, porque viver sem refletir sobre seu destino é lamentável. Andas, dormes, comes, bebes, amas, choras, ris, estás triste ou alegre e jamais te preocupas com a sorte que esperam teus bisnetos, nem com o universo misterioso que te cerca, universo esse estranhamente colossal, do qual não és mais que um átomo. Desse mundo, apesar de tuas pretensões à ciência, não vês mais que as aparências, porque dele não compreendeste grande coisa.

Então nunca procuraste saber por que existes?

Contudo és um ente sensível, sentindo alegrias e pesares. Para que servem esses pesares? Para que servem essas alegrias? Eis aí o que seria bom saber. Eis aí o que é justo aprofundar. Mas não és curioso.

Pois bem! se não és curioso, eu o serei por ti e procurarei, sem frases vãs, ver se nossa existência, nossa mesquinha e fugaz existência tem um fim; se temos um papel a desempenhar, por pequeno que seja, neste imenso Cosmos. Tudo é possível e talvez os homens e os animais nada mais sejam do que pequenos bonecos, que uma força misteriosa, sem dúvida caprichosa, se diverte a movimentar. Seja como for, ela infligiu a todos o regalo da vida e a nós impôs a consciência. Sem nos consultar, concedeu-nos esse dom doloroso e sublime de sofrer, amar e pensar.

Podes então perguntar a essa força misteriosa: por que te ocupaste de nós? Que queres?

- 2 -

Sabemos perfeitamente, não por que, mas como nasceste. Duas pequeninas células microscópicas encontraram-se um dia (ou, antes, uma noite) numa úmida e sombria caverna e tu és o resultado dessa união silenciosa.

Ora não havia senão uma célula fêmea entre cem milhões de células machos que turbilhonavam em redor dela. O pequeno macho que teve o privilégio de penetrar a célula fêmea foste tu! Sim! já eras tu. De tal forma eras tu que nada mais poderia modificar tua forma e tua evolução.

Mais tarde cresceste, tomaste a forma de embrião, de feto, de homem. Adquiriste hábitos, ganhaste teu pão, procuraste ser amado ou amar; sentiste a sede de prazeres, de amores, de dinheiro ou de glória. As duas células, depois de unidas para formar um ente humano, seguiram uma rota longa e complicada.

Mas se um outro dos cem milhões de machos que volitavam em redor da célula fêmea tivesse tido mais apetite, se se tivesse mostrado mais ágil ou mais vigoroso, não mais serias tu quem alcançaria a inefável felicidade de desenvolver-se: seria teu irmão quem teria nascido. Portanto, bem vês que no momento fatídico do teu nascimento podiam ter nascido milhares de seres diferentes de ti.

Na verdade, tu és o resultado de um acaso prodigioso, porque nada poderia fazer prever que essa célula macho fosse a privilegiada, e certamente no teu ponto de vista pessoal é muito interessante, mas no ponto de vista geral, que tenha sido tu ou um dos milhares dos teus possíveis irmãos, isso nada significa. Para a humanidade imensa, nenhuma importância haveria se tivesse nascido um de teus irmãos, sendo um pouco maior ou menor do que tu, com o nariz mais longo ou mais curto.

- 3 -

Transponhamos, pois, o imenso passado que te precede. Cem milhares de séculos. Isso nada é do ponto de vista da eternidade do tempo.

Ainda que isto seja profundamente misterioso, a ciência pôde, mais ou menos, levantar algumas hipóteses sobre esse prodigioso passado.

Houve um tempo (bem longínquo) em que o nosso planeta ainda não existia. Mas o nosso querido Sol já lá estava, naturalmente um pouco maior e mais branco que hoje.

Esse divino Sol era, como é hoje, uma colossal massa gasosa de fogo; ele perambulava sozinho no espaço infindo sem ser acompanhado, como hoje, por um cortejo servil de planetas.

Ora, essa massa colossal de um gás em ignição era, como toda a matéria, submetida à lei da atração. Da mesma forma que os nossos oceanos, cedendo à atração lunar, têm as marés que, em dadas ocasiões, os fazem aumentar de volume, da mesma forma a massa ígnea do Sol pôde, quando um astro vizinho dela se aproximou (de algumas centenas de milhares de quilômetros (?) provocar uma formidável maré de fogo).

É, pois, provável que um astro qualquer, enorme também, seguindo seu curso errante perto do Sol, tenha provocado uma maré de fogo, de sorte que parcelas enormes da massa ígnea, atraídas pelo astro, se tenham destacado do globo solar.

Mas elas não puderam ir muito longe, pois estavam retidas pela atração solar, e, detendo-se em caminho, movidas ao mesmo tempo pela força centrípeta e a força centrífuga, puseram-se a girar sobre si mesmas, a voltear em redor do centro de onde acabavam de se desprender. Esses esferóides ígneos, prosseguindo seu curso no espaço gelado durante séculos e séculos, congelaram-se. Antes elas eram unicamente gasosas. Certas partes, pois (os metais), se liquefizeram. O esfriamento então, sendo ininterrupto, solidificou a superfície. Mas a massa central conservou-se líquida e em ignição. Portanto, hoje, a terra é uma massa líquida revestida de tênue camada sólida.

Esses fenômenos relativos à terra repetiram-se provavelmente e se repetirão em milhares e milhares de planetas, pois sabemos que a constituição química da terra é mais ou menos idêntica à dos astros. A terra é um resumo das maravilhas dos céus.

A pouco e pouco, pelo progresso do resfriamento periférico, o oxigênio e o hidrogênio (que estavam desassociados) se combinaram; o vapor de água, gasoso anteriormente, se liquefez; os mares formaram-se e (pela continuação do esfriamento gradual) na camada houve curvaturas que formaram montanhas. Daí as formas dos continentes e dos mares como se nos apresentam hoje.

Assim, pois, sobreveio (como e por quê?) uma obra maravilhosa, decisiva para nós! A vida surgiu nos mares e nos planetas.

Eis aqui, ó tu que me lês, nossa humílima origem.

Primeiramente surgiram as células simples, vegetando quer nas águas cálidas ainda, quer num solo úmido, numa atmosfera rica em ácido carbônico.

Logo em seguida essas células, com certeza inconscientemente, compreenderam que se tornava necessário viver e multiplicar-se. Já se manifestava em todo seu esplendor esse empenho do indivíduo para a vida, empenho esse que é o característico de todo ser vivo.

Ora, para viver é necessário fixar o carbono e o azoto. Essas pequenas células famélicas, aspirando fixar o azoto e o carbono, foram obrigadas a lutar sem tréguas contra suas irmãs (famélicas também) e a resistir às forcas cósmicas hostis ou indiferentes. Deram-se batalhas incessantes e por essas batalhas elas tomaram as mais diversas formas, a fim de cada vez melhor se adaptarem às condições cambiantes de suas existências. Essas formas novas de adaptação foram transmitidas a seus descendentes, de sorte que pouco a pouco as células primitivas se tornaram seres novos cada vez mais complicados.

Tanto quanto os mistérios do planeta no-lo podem ensinar, essas novas formas foram, em primeiro lugar, as plantas gigantescas, os fetos, as enormes palmeiras, cujos resíduos, acumulando-se, são para a humanidade atual um abundante manancial de energia (aliás inesgotável).

Será que o Sol, fixando essas massas de carbono combustível nas plantas de outrora, não tenha querido preparar poderosas reservas de forças nas nossas máquinas atuais? Adivinha-se facilmente que, se eu empresto ao Sol essas intenções filantrópicas, não posso considerar essa hipótese como real.

Com as plantas aparecem animais já bastante complicados, crustáceos, imensos répteis, moluscos, insetos, peixes que parecem, por uma progressão incessante e contínua, intensificar mais e mais a consciência do ser. Ora, pouco a pouco essa consciência se transforma numa inteligência. Pela consciência e inteligência o amar a vida desperta em todos os entes vivos. Quando chegam os mamíferos e quando enfim o homem aparece, neles também desperta o mesmo amor à vida e o mesmo horror à morte. E em lugar de se atenuar, esses dois instintos crescem à medida que a inteligência se desenvolve.

Ademais, quaisquer que sejam as variações das formas, com adaptações às diversas condições vitais, a geração sempre se faz pela conjunção de duas células, uma célula fêmea rodeada por inúmeras células machos. A modalidade do supremo esforço que a toda poderosa Natureza estabelece para que essas duas células possam fundir-se e perpetuar a espécie é a mesma, quer em se tratando de uma planta, de um ouriço do mar, de um cão ou de um homem.

Se em pensamento nós nos representássemos à sucessão rápida de fenômenos longínquos, globo ígneo e gasoso, mares quentes que se esfriam, continentes que se formam, plantas que se multiplicam, animais que se complicam cada vez mais, compreendemos que o mundo inerte evoluiu para a vida e que a vida evoluiu para a inteligência.

Assim, pois, a inteligência dos seres vivos se intensificou; tornaram-se estes cada vez mais inteligentes até atingir o estado atual, até se tornarem homens, isto é, seres capazes de linguagem (essa maravilha das maravilhas), capazes de inventar o cálculo integral e a geometria analítica, capazes de conhecer a composição química dos astros que se encontram a uma distância de muitos milhares de trilhões de quilômetros, capazes também de compreender as idéias abstratas, tais como a solidariedade e a justiça.

A inteligência ganhou muito, não só em profundidade, mas também em extensão. Há cem mil anos, se os homens já existissem, o que é provável, esses homens – muito próximos dos macacos – seriam bem pouco numerosos, vivendo disseminados no vale do Nilo ou nos palmeirais da Caldéia (?). Há dez mil anos, sem que se possa precisar um número qualquer, no máximo poderiam existir vinte milhões de homens (?). Hoje há três mil milhões. Cada ano a população humana, apesar de guerras infames, aumenta de quatro ou cinco milhões de almas.A terra toda está invadida pela espécie humana. Nenhuma praia deserta. Até os pólos foram conquistados. Todas as montanhas são transpostas. Todos os desertos atravessados. A expansão do gênero humano na superfície do globo terrestre é total.

Essa expansão do gênero humano é a expansão da inteligência.

Logo vemos claramente se descortinar esse grande fenômeno indiscutível: o desenvolvimento da inteligência em qualidade e quantidade; fenômeno prodigioso que não mais nos admira, porque nele vivemos e a ele nos habituamos.

E por que? Sim! Por que essa sucessão contínua de fatos, disparates na aparência, nos conduziu a esse resultado supremo: a intensificação da inteligência?

Procuremos compreender a causa desse magnífico despertar.

- 4 -

Somente duas soluções são possíveis. Ou é o acaso ou é uma lei.

Vejamos antes a solução do acaso.

Ora, quando digo solução, não é uma solução. Ao contrário. Em bom vernáculo, acaso quer dizer que não temos solução a propor. O acaso não é em absoluto uma hipótese como as outras, é a negação de toda hipótese.

Uma moeda que atiro ao ar cai do lado da coroa e eu digo ter sido o acaso que a fez cair assim, pois ignoro absolutamente que rotações, que reviravoltas pôde ela fazer para tombar desse lado. Encontro-me na rua com meu amigo A, distante de sua residência e da minha. As causas determinantes desse encontro, no minuto exato em que eu passava, foi obra do acaso, porque ignoro por completo os motivos que lá o levaram precisamente nesse minuto. Disparo um tiro de espingarda numa perdiz que voa e um grão de chumbo quebra-lhe uma asa; é o acaso que faz esse grão de chumbo feri-la e não um outro das centenas de grãos que se encontravam no cartucho.

Há pouco falei dos milhares de células machos que assaltaram a célula fêmea; foi ainda o acaso que concedeu o privilégio a essa célula e não a uma outra.

O acaso nada mais é do que nossa ignorância, mas também é provavelmente a ausência de leis, ou pelo menos de leis que nos sejam acessíveis. Quando as coisas evoluem por obra do acaso, elas são de uma fantasia louca, a menos que nos pareça por demais desordenadas para que a nossa ciência não tenha podido penetrar as leis. Não se pode achar a direção nem a intenção às agitações que um vôo de mosca determina no galvanômetro.

Dá-se o mesmo com a existência dos seres vivos e o desenvolvimento triunfal da inteligência. Parece que esses grandes fatos são o realce de uma direção, de uma intenção; ousarei dizer, embora a palavra seja terrivelmente antropomórfica, de uma vontade tenaz, obstinada, engenhosa, que foi durante milhares de séculos perseguida sem esmorecimento e sem desânimo.

Os pequenos acontecimentos individuais são, sem dúvida alguma, devidos ao acaso, mas o conjunto indica uma lei. Os físicos admitem que as moléculas de um gás, quando é mudada a pressão ou a temperatura, não se comportem todas da mesma maneira. Mas como se trata de um número imenso de moléculas, é absolutamente aplicável o cálculo das probabilidades e a distensão desta ou daquela em particular não é levada em conta.

Imaginai uma série de acontecimentos complexos, múltiplos, incoerentes na aparência, que, ao cabo de milhares de anos, nos encaminha progressivamente a um fenômeno superior que é a inteligência. Não temos o direito de dizer que foi por obra do acaso que essa inteligência apareceu. É quase evidente que houve aí uma lei poderosa e universal. Se dissermos que a inteligência é obra do acaso, isto é, a ausência de toda lei, então nada nos resta senão atirar às gemônias a pequena centelha cuja flama vacila em nós.

Um fenômeno inteligente não pode ter sido por obra do acaso. Tomo dois números de três algarismos, por exemplo 124 e 532. Qual será o produto? Se alguém me disser 65.968, direi que foi provavelmente um fenômeno inteligente e não por acaso que esse número exato me foi dado.

Não obstante, é de tal maneira menos intelectual do que o desabrochamento da inteligência depois de um esforço de cem mil séculos!

Vejamos um indivíduo embriagado que procura entrar em casa. Ele vai titubeante. Avança, recua. Cambaleia à direita e à esquerda, dá uns passos para frente e para trás. Contudo, apesar de seus titubeios, apesar de suas incertezas, se aproxima cada vez mais de sua casa; reconhece-a vagamente; hesita a tocar na grade e na campainha. Enfim, ei-lo em casa. Assistindo às suas oscilações, vós teríeis dito que foi o acaso quem o conduziu...Oh, não! Ele teve um confuso conhecimento das coisas e, a despeito de sua embriaguez, conseguiu atirar-se no leito.

Eis um outro exemplo. Comparemos a multidão heterogênea e confusa de seres vivos a um corpo da armada que recebeu ordem de seguir de Reims para Châlons. Os soldados avançam por caminhos diversos e marcham em celeridades que não podem ser comparadas. Alguns se extraviam nos campos, outros param nos albergues, há outros que cantam; há os que, cansados, se sentam nos barrancos; infantes, couraceiros, artilheiros, dragões, motociclistas, aviadores, tudo é dessemelhante, tudo é incoerente. Nada compreenderíamos de seus atos se só vivêssemos durante um centésimo de segundo.

Um centésimo de segundo para a marcha de uma hora é quase como um século em relação há 25.000 séculos. Que se pode saber da marcha de um corpo da armada, em um centésimo de segundo? Da mesma maneira, para a marcha da humanidade, que poderemos saber de sua evolução futura, não conhecendo mais que um século de sua vida?

Entretanto, todos os homens que assim marcham com seus fuzis, seus canhões, suas motocicletas, suas metralhadoras, seus tanques, têm um objetivo que é o de chegar a Châlons. Se para observá-los tivéssemos uma hora em lugar de um minuto, a despeito da diversidade dos caminhos, quase poderíamos conhecer a intenção do chefe que os dirige.

Pois bem! podemos imaginar de que seres vivos a terra estava coberta há um milhão de anos; os arquivos paleontológicos da terra permitem-nos sabê-lo e assim compreendermos distintamente que esse rebanho de seres, que vivia há um milhão de anos, marche para uma inteligência maior, como os soldados marcham para Châlons. Não obstante uma aparente desordem, esses seres vivos, débeis parcelas dessa inumerável coorte, avançam inconscientemente para um grande destino.

Eis aí o que é incontestável.

Não é pois o acaso: é uma lei.

Seguramente para cada um desses seres, quer sejam eles répteis ou peixes, pássaros ou mamíferos, cangurus ou homens, foi unicamente o acaso que os condicionou a uma existência individual.

Assim, pois, numa Companhia de Infantaria que segue por uma estrada, é o acaso que faz Paulo cantar, Pedro fumar, Jorge sentar-se na encosta, Henrique enxugar a fronte, Luciano parar junto a uma árvore. Mas essas irregularidades nenhuma importância têm. A coluna prossegue sua marcha, pois não vai a debandada, obedecendo antes a uma ordem expressa. Da mesma forma as irregularidades desta ou daquela espécie animal, verdadeiramente desta ou daquela nação; os atrasos do progresso final, mesmo durante alguns séculos, nada significam para o conjunto das operações do rebanho vital.

Ora por pouco que se estude a evolução (a progressão) desse rebanho vital durante milhares ou milhões de anos, vemos surgir uma real direção. Tudo se passa como se esse bizarro cortejo, que se renova incessantemente, obedecesse a uma determinada ordem.

No imenso Cosmos do qual nada mais somos que um fragmento minúsculo no espaço como no tempo, há acasos individuais, não acasos gerais, mas muitas leis como para as moléculas de um gás comprimido e como para o número de raios, a, b, g, que o rádio emite.

Por conseguinte, uma soberana lei biológica aparece claramente, a da progressão intelectual.

Bem entendido, contanto que transponhamos as centenas de séculos.

E não faço aqui alusão alguma aos outros modos misteriosos, abismais, que fremem em redor de nós. Não tomo – pelo menos no momento – senão o mundo real, mecânico, tangível, visível, abordado pelas nossas ciências clássicas. Costearei a terra sem me aventurar no desconhecido imenso do qual nada posso dizer ainda, senão que existe, sem que nem eu nem ninguém o tenha podido penetrar.

Contudo, esse mundo tangível e visível que, não obstante suas irregularidades, se dirige para um desígnio sublime, isto é, uma inteligência superior – só pode ser conduzido por uma lei, lei suprema, universal, que governa a todo o Biocosmos.

Essa lei poderia não existir? Não o creio, é o fatum dos latinos, a anangké dos gregos. Nossa inteligência não pode supor que o mundo material não seria submetido à lei da atração, que o hidrogênio não se combinaria com o oxigênio e que a vibração da luz não se propagaria com a velocidade de 300.000 quilômetros por segundo.

Assim; pois, a evolução do esferóide era fatal. Fatal seu esfriamento. Fatal seu povoamento de seres vivos. Fatal a evolução desses seres vivos para a inteligência.

Para além do mundo solar, há, sem dúvida, no imenso espaço e no infinito, antigo ou futuro, tempos, outros mundos análogos ao nosso, com uma constituição e uma evolução quase idênticas. Sim! há lá no alto milhares de planetas imensos, girando em redor de milhões de estrelas suspensas na abóbada celeste.

Pois bem! conheço unicamente um desses planetas, é a terra onde habitamos e vejo que ela é habitada por seres inteligentes. Poderei eu supor que só ela possui essa vantagem? (se é vantagem).

Façamos então uma comparação. Ela é surpreendente.

Eis um saco grosso e fechado onde se encontra um milhão de bolas, talvez de diferentes cores, que ignoro. Tiro uma ao acaso. Ela é vermelha. Não será grandemente absurdo supormos que dentre as 999.999 bolas, só haja uma vermelha?

E agora respondo (ai de mim, timidamente!) à pergunta que é o título deste capítulo: Por que existes?

Existes porque o destino, isto é, uma lei quis que vivesses. E eu te provarei agora que essa lei existe porque o destino te concedeu os meios muito eficazes de consolidar as forças ínfimas de tua ínfima individualidade.

Vejamos quais são esses meios.


Livro II

A defesa do indivíduo contra a morte

Existes e não precisas empregar esforços para energicamente defender tua existência, isto é, obedecer à força que te tirou do nada; essa força assegurou-se de tua obediência por processos bem simples, dos instintos protetores, irresistíveis, instintos comuns de todos os seres vivos.

Esses instintos protetores, de modalidades tão diversas, são de tal forma universais, de tal forma adaptados a uma proteção eficaz, que seria loucura atribuí-los ao acaso. Como! para assegurar a vida na superfície terrestre, haveria um acaso, acaso maravilhosamente disposto, prolongado durante milhares de séculos, propagando-se sem exceção a todas as espécies animais! Não! não foi o acaso que criou esses instintos quase divinos, sobre-humanos em todos os casos, o medo, a repulsa, a dor, a fome, o horror à morte.

A – O medo

O medo é um instinto universal. Ante um movimento brusco, ou um ruído violento, perante o inesperado, o animal, quer se trate de um inseto, de um peixe, de um pássaro, de um cervo, ou mesmo de um homem, fugirá. Não é necessário iniciação alguma, é o reflexo psíquico fatal, ao qual eles imediatamente obedecem, antes mesmo de se certificarem da existência de um perigo. Os animais domésticos (corrompidos pela domesticidade) podem ser adestrados e não fugir. Mas a não ser que estejam sabiamente ensinados, eles não resistem a esse primeiro impulso. Dizem que os pingüins, nos pólos antárticos, não demonstram receio com a nossa aproximação, mas devemos conservar reserva sobre essa sociabilidade.

O medo que determina a fuga imediata tem todos os caracteres de um instinto no mais alto grau de domínio. Ele é repentino, irresistível, irrefletido, dominador. O homem também, como o cervo, a lebre, o peixe, apesar de sua inteligência, é provido desse instinto que o faz fugir precipitadamente quando um perigo o ameaça.

Um medo especial é aquele que as serpentes infundem a quase todos os animais, porque as serpentes, por seus venenos, são extremamente perigosas. O instinto nos defende delas pelo horror que nos infundem assim que as vemos.

Nada é mais divertido do que encerrar uma serpente ou – o que dá no mesmo – uma enguia viva numa gaiola onde haja dois ou três macacos. Estes então se tornam realmente cômicos. Dão saltos desordenados e agarram-se com forçadas momices aos poleiros superiores da gaiola. E, ao mesmo tempo em que se mostram amedrontados, são curiosos. A curiosidade e o temor formam nessas almas ingênuas um conjunto bizarro, onde aliás o temor predomina.

Perante as serpentes o homem quase se porta como o macaco. A civilização não aboliu esse medo instintivo que uma hereditariedade ancestral lhe transmitiu. Conheço inúmeras pessoas às quais a presença de uma serpente provoca um terror que quase chega à síncope. Isso não é ocasionado pelo raciocínio seguinte: devo temer a serpente porque ela é venenosa. Certamente não. A idéia do veneno está bem longe. É um velho temor hereditário que sobrevive. Observaremos que esse temor é quase hereditário, pois a serpente não atemoriza nem pelo seu porte colossal, nem pelos silvos ferozes, nem pelos botes impetuosos. Ela devia, para fazer-nos evitar sua insidiosa mordedura, amedrontar-nos com sua forma e rastejamento.

A par do medo instintivo, há o medo que provoca o conhecimento do perigo, perigo real ou unicamente possível. O perigo possível é o desconhecido. Quanto mais desconhecido é o desconhecido, tanto mais ele amedronta. A obscuridade por exemplo. Sente-se medo quando se tem de caminhar tarde da noite por lugares desconhecidos. Nada é mais estranho que os fantasmas, nada é mais aterrador. Entretanto, esses pobres fantasmas jamais fizeram mal a alguém.

Quando o perigo é previsto, ele também pode provocar o medo: o instinto conserva toda sua força, mas a inteligência acrescenta-lhe alguma coisa. O assobio das balas é aterrorizador quando sabemos o que ele significa, mas aí é um temor inteligente e não instintivo.

Além disso, a previdente Natureza não exigiu dos animais longas ou curtas deliberações que os induzam a fugir diante do perigo. Quando um cão persegue uma lebre, a lebre não perde seu tempo com raciocínios sutis, ela foge rapidamente quanto pode, como tocada por mola. Quando uma bala assobia na orelha de um soldado, ele abaixa a cabeça quase instintivamente sem se dar conta de que esse movimento é absolutamente inútil.

Assim a fuga, isto é, o mais habitual reflexo do medo é um reflexo psíquico de grande poder. E no entanto o medo às vezes é tão intenso que em lugar de excitar as forças musculares, ele as paralisa. A expressão francesa, “mort de peur”, que se encontra provavelmente em outras línguas, indica um fenômeno bastante conhecido. Quando o medo é muito grande empalidecemos, trememos, e nossas pernas vacilam. Não se pode mais andar. Não se pode nem mesmo gritar. Certos insetos, quando tocados, têm o curioso instinto de se fingirem mortos. Eles simulam a morte para evitar a morte.

Cometemos quotidianamente um singular erro psicológico. Esse erro é o desprezo enorme que nos inspiram os poltrões. Confesso que eles me causam profunda repulsa. Portanto, convenho que essa repulsa e esse desprezo sejam bem justificados, porque, em resumo, eles nada mais fazem que seguir a ordem imposta pela Natureza soberana de temer todo atentado contra a vida.

B – A vertigem

O medo especial que o hábito e a educação chegam (embora dificilmente) a vencer é a vertigem, tipo do medo instintivo.

Nenhum estudo ainda foi feito, de meu conhecimento pelo menos, sobre a vertigem dos animais. Estou certo de que as cabras montesas, saltando alegremente pelos precipícios, não sentem, com certeza, nada que se assemelhe aos nossos temores dos abismos.

No homem o que caracteriza a vertigem, não obstante toda a sua vontade, é a inibição de movimentos. ele fica como que pregado ao solo. Suas pernas dobram-se e recusam-se a qualquer movimento. A coragem e a inteligência nada mais podem fazer. Não posso admirar realmente a suspeita que a Natureza tem de nossa inteligência, pois que ela nos infundiu com todo império esse terror pelos abismos. Trata-se de defender nossa vida. Ora, a Natureza, essa velha dama, que Joseph de Maistre dizia desconhecer, dedicou-se no entanto a protegê-lo. Provavelmente, J. de Maistre teria sofrido uma vertigem se fosse compelido a atravessar uma estreita tábua, sem amparo, por sobre um despenhadeiro abrupto.

C – A repulsa

Este outro sentimento protetor, sem o qual provavelmente toda a vida animal teria há muito desaparecido da face da terra, é a repulsa pelas substâncias infecciosas ou tóxicas.

Comparai uma confeitaria a uma farmácia. Tudo na confeitaria é apetitoso, porque se trata de alimentos necessários à vida e agradáveis ao paladar, enquanto que na farmácia tudo é detestável e nauseabundo. Os medicamentos ali vendidos – pois eles são venenos – são todos de um gosto execrável. Esses venenos, embora em doses mínimas (por exemplo um centésimo de miligrama de estricnina) são ainda desagradavelmente amargos, todos os alcalóides estão nesse caso (quinina, atropina, cocaína, nicotina). Seguramente não é por acaso que eles são amargos, mas porque são tóxicos e a Natureza, querendo nos preservar dos venenos, fê-los amargo.

Freqüentemente nos admiramos de que os herbívoros que vão pastar em regiões deles desconhecidas e onde germinam plantas novas e tóxicas, jamais se envenenem. Mas isso em nada nos surpreende. Como aos homens, os venenos inspiram repulsa aos animais.

Há entretanto algumas exceções. Certos cogumelos muito tóxicos não inspiram repulsa. Entre os homens também há casos de morte (relativamente freqüentes) causada por cogumelos, mas entre os animais não conheço casos semelhantes. Os cogumelos jamais entram na consumação alimentar dos animais.

Quanto à nocividade da salsa para o papagaio, talvez seja uma lenda; em todo caso, se não for uma lenda a exceção confirma a regra.

A repulsa pode ser provocada por outras sensações além da gustativa. O odor e a vista nos inspiram par vezes uma repulsa insuperável por tal ou qual objeto. O odor de carnes putrefatas, ricas em micróbios, às vezes perniciosos, é abominável. Enquanto os frutos frescos são de um sabor e perfumes agradáveis e apetitosos, os dos frutos apodrecidos são detestáveis. Custa-me crer que não haja uma estranha perversão do gosto o deleitar-se com carnes em começo de putrefação.

Algumas vezes a repulsa se confunde com o medo; os insetos parasíticos, seres nefastos e insuportáveis, que freqüentemente nos irritam, os piolhos, os percevejos, as pulgas, nos inspiram um sentimento de horror que varia entre o medo e a repulsa.[1]

O medo, a vertigem, a repulsa, o horror, todos admiráveis instintos de proteção e defesa, nada mais são que formas da dor. Ora, a dor, como vou demonstrar, é a grande benfeitora, a base da nossa existência. Se ela não existisse não haveria mais vida animal.

D – A dor

A melhor definição que se pode dar da dor é esta: uma sensação tal, que não se quer continuar a senti-la ou a sofrê-la novamente. Uma queimadura, um corte, uma mordidela, uma fratura, uma nevralgia, um abscesso, são causas de dor, e então quase instintivamente empregamos todos os esforços para evitar queimaduras, cortes, fraturas. Pois bem! é o receio da dor e não a inteligência que nos faz velar com tão prudente zelo pela integridade da nossa pele, da nossa querida pele.

Não se deve, pois, maldizer mais a dor do que o medo. É a dor que nos faz resistir às intempéries. Estaríamos há muito gelados ou queimados se houvesse somente a nossa inteligência para preservar-nos do frio extremo e do calor excessivo. O que nos protegeu foi o medo da dor que provocaria um frio intenso ou um calor extremo.

Não nos poderíamos defender contra as inumeráveis causas de destruição que nos assaltam a cada minuto, se não tivéssemos perante nós, muito vivaz, a reminiscência de uma dor antiga e a ameaça de uma nova dor.

Em realidade a dor é a mãe de todas as nossas indústrias. Se os homens edificaram suas habitações foi para poderem dormir bem abrigados. Se teceram suas vestimentas foi para enfrentar o inverno, porque eles não possuem, para se defender, a espessa pele dos animais.

Atribui-se a um grande filósofo grego, o mestre dos estóicos, uma expressão bastante absurda: “Ó, dor, dizia Zenão, tu não és mais que uma palavra”. Que sandice! De todas as realidades, a dor é a mais real. Talvez mesmo a única realidade!

Se os feiticeiros dos selvagens, os médicos nas sociedades civilizadas (antigas ou modernas) têm tanta autoridade e prestígio é porque selvagens e civilizados imaginam que a medicina e a feitiçaria podem fazer desaparecer, ou pelo menos diminuir, a dor e a doença. Hipócrates já dizia que o sedativo da dor é obra divina.

Todo órgão doente tem necessidade de repouso. Portanto a atividade de todo órgão doente se torna dolorosa. Eis aí o que a previdente Natureza imaginou. Ela nos impõe o repouso do órgão doente porque dói quando entra em ação. Em estado normal, nossos órgãos, excetuando-se a pele e as mucosas, têm uma sensibilidade bastante obtusa, quase nula. O estômago, o coração, o fígado, o intestino, a bexiga, os rins, o cérebro, quando tudo vai bem, são quase desprovidos de toda sensibilidade. Mas, desde que estejam doentes, fazem-nos sofrer conscientemente e nós então, para evitarmos essas dores cruéis, somos levados a tratamentos que nos permitem a cura.

Dando-nos a dor, a Natureza certamente nos fez um presente odioso, mas presente necessário. É preciso viver, é preciso que nossos órgãos estejam intactos para que a vida prossiga. Ora, a Natureza não estabelece a integridade de nossos órgãos, nem pela inteligência, nem pela sagacidade, nem pela ciência, mas por um outro fenômeno simplicíssimo, que é imperiosamente simples: o receio da dor, receio que nos recomenda o respeito por nossos órgãos doentes.

E – A fome e a sede

A fome e a sede são sensações quase agradáveis, quando começam e quando vemos a nosso lado um repasto copioso e saboroso que nos aguarda. Mas essas duas sensações tutelares tornam-se verdadeiras torturas quando se prolongam sem esperança alguma de alívio.

A fome e a sede são as grandes protetoras da vida. Na China, os fumantes de ópio acabam morrendo, porque perdem a sensação da fome. E, então, o que é pouco difícil e muito fácil, eles deixam de comer. Mas os fumantes de ópio são excepcionais.

Todo animal para viver tem necessidade de água, de carbono e de azoto nutritivos. Se a água, o carbono e o azoto nutritivos lhe faltam, ele de tudo se esquece e enfrenta os mais espantosos perigos. É pela fome que se domam os mais selvagens animais.

O homem não faz exceção. Em todas as sociedades, quer sejam modernas ou antigas, o cuidado do pão quotidiano, como o da oração dominical, é a preocupação universal. Não há política nem retórica que nos desobrigue de comer, porque é preciso viver. É somente na sinistra república Soviética que assistimos a esse espetáculo consternador, em que milhões de indivíduos que se submetem, sem revolta, a fomes cruéis.

Por vezes, nos países ocidentais, alguns prisioneiros revelam uma coragem extraordinária. Protestam contra suas prisões, fazendo greve de fome. Mas essas exceções são tão raras, que não servem de exemplo.

Eu deveria talvez insistir nesses magníficos instintos protetores: o medo, a repulsa, a dor e a fome. Para estudá-los detalhadamente, cada um desses instintos mereceria um livro, um grande livro; mas posso demonstrar aqui que todos têm uma mesma causa, uma causa profunda: o dever de viver, tanto para o animal como para o homem. Todas essas poderosas sensações, que nada têm a ver com a inteligência e que dependem unicamente de nossa constituição psicológica, limitam-se a este dever inexorável: é mister viver, é preciso fugir à morte. Todos os seres, conscientemente ou inconscientemente, se precipitam para a vida; todos os seres querem viver; todos os seres têm horror à morte.

F – O temor à morte

Entre os animais não há suicídio. Mas, entre os homens, às vezes, a inteligência é assaz vigorosa para combater e mesmo dominar os sentimentos instintivos que preservam a vida.

Dizem que o suicídio é uma covardia. Na minha opinião esse conceito é errôneo. Bem entendido, deixaremos de lado os epilépticos, os alienados, os alcoólicos, que num acesso furioso se enforcam ou se atiram na água. É o delírio. Não o comentemos.

Mas há indivíduos cuja razão parece sã, que, friamente, deliberadamente, após uma demorada premeditação, resolvem abandonar o mundo dos vivos. Pois bem! terei a temeridade de dizer que devemos assombrar-nos com essa coragem e quase admirar.

Eis aqui, por exemplo, um desventurado homem atacado de um câncer na laringe ou na língua. Apesar do ópio, ele sofre dores insuportáveis. Não pode mais falar. Quase não se pode alimentar. Exala um odor infecto. Tornou-se um objeto de repulsa para aqueles que se lhe aproximam e para ele próprio. O terrível mal progride cada dia, repouso algum é possível. Nenhuma esperança de cura. Além disso ele sabe que dali a poucos dias a morte fatalmente terminará a sinistra e inútil agonia. Então por que prolongá-la?

Um outro indivíduo é condenado à morte. Outrora a fogueira e o esquartejamento, hoje a guilhotina, mas o carrasco o horroriza e algumas gotas de veneno livram-no da espera angustiosa do momento fatal.

Mas que um banqueiro que fez maus negócios, que um namorado abandonado, que um marido traído, que um jogador infeliz terminem seus infortúnios com um suicídio, é realmente uma tolice. No entanto, eu repito, é necessário uma força pouco comum para passar da vida à morte e violentar o amor profundo que animou os milhares de ancestrais que nos precederam.

É bem curioso que raramente seja escolhida a morte fatal, sem remissão nem perdão. Arriscando-se a ser seguido por algum desconhecido, tomo a liberdade de recomendar um modo de suicídio absolutamente seguro, pois uma bala de revólver muitas vezes erra o alvo, ficando assim uma pequena porta aberta para a esperança da sobrevivência. Sugiro, então, que do alto de um navio, em pleno oceano, tarde da noite, silenciosamente, com quarenta quilos de pedra nos bolsos, se deixe cair junto à enorme hélice. Suponhamos, o que é pouco provável, que essa queda foi vista e ouvida, pois quando o navio puder interromper sua marcha, o infortunado que se precipitou no abismo já tem 500 metros de água sobre a cabeça.

Em todo caso, o suicídio é uma tremenda derrogação da lei da vida, lei que a Natureza impôs a todos os seus filhos, com tanto império que é quase impossível ser desobedecida por algum dos seres vivos.

Direi, no entanto, que esse temor à morte é desarrazoado, mormente para os velhos quando não podem ter filhos, quando todos os seus órgãos estão desordenados, deslocados, senis. Insônias, digestões difíceis, tremores, tosses, queda de dentes, diminuição auditiva, cegueira, enfraquecimento da sensibilidade e da memória, males incuráveis. Tudo se debilita. Então por que se apegar à vida? Disse La Fontaine:

“Morre de mais má vontade aquele que mais junto se acha da morte”.

Pois bem! conheci pessoas bem velhas, incapazes de produzir e reproduzir, capazes somente de sofrer e fazer sofrer, que se agarravam desesperadamente a um resto de vida, à medida que a vida as abandonava. Entretanto, elas não eram idiotas nem irresponsáveis. Tinham uma excelente justificação, a ordem de viver que a Natureza lhes dera. O amor à vida não desaparece, quando a vida se esteriliza.

Assim como para os adolescentes, para os homens feitos, esse apego excessivo à vida, esse terror angustiado da morte, são sentimentos deselegantes.

O prudente Montaigne dizia não ter medo da morte, mas do morrer. Há provavelmente uma passagem que será, digamos, bem difícil de transpor, a caminhada da vida para a morte, segundo uma expressão poética. Mas, na verdade, essa passagem não é absolutamente difícil. Coma, síncope, delírio, não há o que recear.

Os gregos, mestres do pensamento, apresentavam um dilema surpreendente.

“Ou estás morto ou vivo. Se estás vivo, não tens razão para temer a morte. Se estás morto, como teu pensar não mais existe, não poderás lamentar, porque não há sentimento sem pensamento.”

Lucrécio, em seu livro admirável, apresenta um outro dilema, também muito eloqüente (porque até mesmo os dilemas têm a sua eloqüência).

“Ou foste desgraçado, doente, traído por teus amigos, impotente para satisfazer os desejos sempre insaciáveis e sempre renovados. Então a morte não é um refúgio precioso que te permite a fuga deste mundo que te foi rico de lágrimas e desesperos?... Ou foste cumulado de todos os bens da fortuna, tiveste os louros, as mulheres, os festins, o dinheiro, a saúde, a mocidade triunfante e próspera; então por que não deixar a vida com alegria e reconhecimento, pois ela te trouxe o que recusou a tantos outros mortais?”

Esses belos raciocínios, por justos que sejam, são muito fracos contra o instinto universal. Eis por que eu repito tantas vezes neste livro: existes porque a Natureza te ordenou a amar a existência.

Mas não estás sozinho no mundo, tens irmãos humanos, teus semelhantes, nos quais é preciso pensar, pois também eles têm o dever de viver. Portanto, se não te deixares absorver por um egoísmo sinistro, deves pensar neles, em suas existências, na felicidade deles, curar-lhes as feridas, secar-lhes as lágrimas, aliviar-lhes as tristezas, matar-lhes a fome, retardar-lhes a morte. O dever de todo homem não é somente o de viver, mas também de proteger a vida e a felicidade dos homens. Prolongar a vida de seus irmãos e torná-la menos cruel, eis o que nos foi imposto. O mal é a dor alheia. Essa é a moral que outrora, na bela e longínqua época de minha juventude, foi o meu propósito; moral à qual, no declínio de minha longa existência, me agarrei obstinadamente.

Sim, a vida humana é coisa sagrada, e aqueles que tiram seus proveitos, os conquistadores, os imperadores, os reis, os diplomatas, são grandes culpados. Eles fazem a guerra, como dizia altivamente Clémenceau e Kromprinz. Mas a guerra é um massacre... Não insisto; o crime é de uma tal evidência que toda frase é supérflua.

O homem não é o único animal compelido a proteger seus semelhantes. Existem animais que têm uma tendência instintiva para proteger seus irmãos, os que vivem agrupados como os corvos, os pingüins, os elefantes, as gaivotas e principalmente os macacos. Estes são verdadeiramente admiráveis em seu amor por seus irmãos infelizes. Se um caçador ferir um macaco cinocéfalo, todo o bando imediatamente se precipita em seu socorro; e esse sentimento de solidariedade simiesca é realmente comovedor. Que exemplo e que vergonha para muitos homens!

Fiz experiências (aliás raramente) com os macacos. Mas quando, da gaiola, um de seus irmãos assistia à operação, imediatamente se punha furioso, soltando gritos desesperados e dando pulos assustadores. Esse sentimento de solidariedade nos macacos faz um contraste surpreendente com a indiferença dos cães. A domesticidade perverteu-os. Quando se faz uma experiência perante eles em um animal de sua espécie, eles não fazem o menor esforço para socorrê-lo, demonstrando uma indiferença que bem pode ser chamada de cínica.

Porém, em resumo, no animal e talvez no homem também, se os indivíduos têm o maior cuidado com sua vida pessoal, não têm o menor cuidado com a vida de seus semelhantes.

O horror a morto comum em todos os animais é de tal intensidade no homem, que ele não se resigna quase nunca a aceitar a morte como fim de sua última viagem. Até os mais degradados selvagens imaginaram aventuras prodigiosas depois da morte, paraísos, valhalás, infernos. Com mais razão os civilizados. A sobrevivência é a base de todas as religiões.

Já está provado que os hebreus, antes de serem dominados pelos egípcios, desconheciam a sobrevivência. Jeová punia os maus, não por meio do inferno, mas por horríveis tormentos reservados à descendência. Ora, depois da passagem deles pelo Egito, um novo dogma foi introduzido pelos judeus, porque o fato dominante da civilização egípcia foi a fé na ressurreição.

Os monumentos magníficos, colossais, ou as múmias reais sepultadas com suas faixas perfumadas, testemunham eloqüentemente essa preocupação exclusiva. Ao lado das múmias, os servos reais colocavam alimentos, jogos, tesouros, colares e diademas, a fim de que os mortos, ao acordar, pois deviam despertar, encontrassem ao alcance da mão os objetos que os haviam encantado durante a vida passada e que deveriam encantar-lhes a vida futura. A felicidade de uma fugaz existência terrestre nada é, comparada ao preço da felicidade que a deve encantar depois de ter o coração cessado de pulsar.

Os gregos e os romanos pensavam de um modo diferente. Nos tenebrosos domínios de Plutão e Prosérpina, os espectros sentiam falta do divino Sol que ainda ontem os iluminava.

Portanto, graças à sua inteligência superior, os gregos jamais temeram a morte. Sócrates bebeu a cicuta sem tremer. Nos belos tempos de Roma o suicídio era considerado um ato de finura. Os mais elegantes cortavam as veias durante um banho quente e juntamente com o sangue a vida se esvaía. Desertavam assim das agruras de uma vida importuna e desapareciam com o sorriso nos lábios.

Uma antiga lenda grega mostra-nos bem esse sentimento.

Ceres recebera do Olimpo a permissão de vir todos os anos passar algum tempo na terra. Como ignoravam sua divindade, ela era muitas vezes mal recebida. Contudo, um dia foi acolhida com tanto carinho por um humilde casal de camponeses que resolveu recompensá-los. À noite, os dois filhos do velho casal voltaram de seu trabalho. Eram jovens, alegres, vigorosos, belos e, chegando à choupana, saudaram com reconhecimento seus velhos pais e com respeito a estranha. Ceres então os tocou com o dedo, fazendo-os cair subitamente mortos, ambos em plena alegria, em plena saúde, em pleno vigor. Assim, a deusa poupava-os das crueldades da vida e da velhice.

Na Idade Média, a morte era encarada com grande terror, como testemunham os caso sinistros de Orcagna e as inumeráveis danças macabras que os pintores e os escultores imaginaram durante dois séculos. Colocando-nos sob o ponto de vista da simples lógica, realmente nada se compreende – mas os homens jamais se interessam pela lógica – como esse temor à morte pode coexistir com uma profunda fé cristã. Porque, enfim, o Cristianismo tem por base a sobrevivência com a punição ou recompensa; inferno, purgatório, ou paraíso, segundo os méritos do morto. Então, um bom cristão, devidamente batizado, que não cometeu pecado grave e que, depois de uma leal e completa confissão, recebeu a absolvição, se sua fé é inabalável, deve ficar firmemente convicto de que subirá direito ao céu! Em verdade! por que esse piedoso, esse fervoroso cristão temeu a morte?

Seria inexplicável se a lei natural não fosse mais forte que todas as crenças e todos os raciocínios.

Seríamos tentados a crer, observando o progresso de certas indústrias, criadas por nossas sociedades civilizadas até um culto ilimitado, que os instintos naturais se debilitaram. Longe disso! Eles conservaram seu soberano poderio. Toda engenhosidade dos civilizados consiste em lhes dar maior extensão.

As conquistas mais brilhantes da ciência nada mais fizeram que fortificar e suavizar nossos meios de vida; elas jamais modificaram, por pouco que seja, nosso horror à morte ou à dor, horror que subsiste tenazmente no âmago de nossa consciência e na base da ciência.

Que direi de nossas indústrias, de nosso comércio, de nossa agricultura, de nossos transportes? A preocupação do alimento domina tudo. No campo a cultura do trigo, da vinha, do arroz, do milho, da aveia para a criação dos animais (destinados a serem abatidos) e nas cidades, os açougues, as salsicharias, as padarias, os armazéns.

E ainda há as refinações. Temos as confeitarias, os restaurantes, de grande luxo, e principalmente os comerciantes de vinho que são inumeráveis, vendendo descaradamente vinhos nauseabundos e licores tóxicos. Vendeiros, proprietários de restaurante, cozinheiros, garçons de café, formam um exército de fornecedores e empregados cujo papel é alimentar o exército de consumidores.

A ciência do comércio foi talvez a de aperfeiçoar a alimentação (freqüentemente de a corromper). Uma vez satisfeita a necessidade de alimento, deseja-se ir mais longe e nutrir-se com mais requinte.

A inteligência, desenvolvendo-se, deu uma força nova aos nossos instintos naturais; o esforço humano consistiu em tornar mais delicados os apetites com que a Mãe Natureza nos presenteou. Para os animais não há padeiro, nem confeiteiro, nem vendeiro, nem vendedores de vinho. Três quartos de comerciantes não têm outro fim senão o de dar algum atrativo à nossa alimentação.

A cultura de frutas progride cada ano. Pela seleção das sementes, pela sábia maneira de enxertar, obtemos frutas magníficas e saborosas.

Em síntese, a essência da civilização é tornar mais fácil e mais sorridente a existência que a natureza nos impôs. Porque nós nada inovamos. Não há instintos novos. Nós nada mais fazemos que marchar docilmente na senda da vida universal.

Para evitar o tédio, a inquietação, a dor, nós inventamos o conforto e o luxo. Ora, o conforto e o luxo só nos são assegurados pelo dinheiro, isto é, desde os tempos imemoriais, um metal raro, ouro ou prata, em realidade, o dinheiro é necessário para a tranqüilidade do espírito depois (ou às vezes antes) do trabalho; o dinheiro para uma habitação cômoda e grande, o dinheiro para agasalhos, o dinheiro para a certeza de que não se morrerá de fome amanhã e que também se poderá fazer uma refeição copiosa.

A prata e o ouro em si nada significam, mas podemos trocá-los pelos alimentos requintados, vestuários limpos e elegantes e habitações agradáveis. Se se deseja o dinheiro com ansiedade incansável é para aumentar os instintos naturais.

A Natureza não tem motivos para inquietar-se, pois poderá ter a certeza de que será obedecida. Ela não inspirou só a necessidade, mas ainda o desejo e o prazer quando essas necessidades são amplamente satisfeitas. Mesmo os fisiologistas puderam demonstrar que os alimentos que mais agradam ao nosso paladar são mais facilmente assimilados. Um jantar apetitoso já está quase digerido, porque a aparência e o cheiro de uma iguaria suculenta provocam a salivação na boca e o suco gástrico no estômago. A indústria humana, em lugar de contrariar, favorece e intensifica o nosso esforço para viver e para viver bem.

Ao mesmo tempo em que combate a dor, essa indústria humana luta contra a nossa terrível inimiga, a morte.

E os médicos, quer sejam feiticeiros como entre os selvagens, ou sábios como entre os civilizados, são respeitados, considerados, adulados (embora não muito ouvidos quando procuram melhorar a higiene pública). Entretanto, em cada país existem ótimas escolas de medicina e farmácia. Em todas as grandes cidades há superabundância de médicos e farmacêuticos.

Quando se está ardendo de febre, o médico que chega é quase um Deus, e o dentista também, quando se tem dor de dentes. O farmacêutico, quando se tem necessidade de bismuto ou aspirina. O cirurgião, quando se tem um membro quebrado para encanar ou um abscesso para ser rasgado.

O culto do nosso corpo e a defesa da nossa preciosa existência vão muito mais longe ainda, porque a medicina é a instigadora da ciência. No fundo, a ciência pura, abstrata, teórica, em nada interessa ao comum dos homens, mas ela lhes interessa enormemente quando dela eles esperam algum lenitivo às suas dores, qualquer melhora para o seu bem-estar ou qualquer retardamento à sua morte.

Não é necessário ser um grande clérigo para compreender que o melhor meio (mesmo o único) que nos permite diminuir os males que afligem o nosso corpo é o de conhecê-los. Que se pode fazer contra esses inimigos ocultos? A doença, prelúdio sinistro da morte, é o nosso pior adversário e os médicos são os soldados que o combatem. Sabemos que estamos continuamente ameaçados por seres maléficos, invisíveis, obstinados, que ocasionam antes a dor, depois a morte. Ora, é necessário conhecer primeiro quem são esses inimigos, qual a sua natureza, onde se encontram, como vencê-los ou, pelo menos, como atenuar sua insidiosa agressão.

Sabemos também que, para que a medicina e a terapêutica sejam eficazes, todas as ciências são necessárias, concorrendo todas para o mesmo fim, sendo, pois, indispensáveis.

Em última análise, todas as ciências, todas as indústrias, têm um fim supremo, que é o de proteger nossa existência. É por isso que as ciências têm uma grande reputação, o amor à verdade é menor que o amor à vida.

Nós e os animais nos comportamos do mesmo modo, mas os animais estão reduzidos a instintos protetores, elementares, o medo, a repulsa, a fuga, a perseguição de uma presa, a procura de um alimento. A civilização é tanto mais avançada quanto esses processos de defesa são mais eficazes e ela não pôde obter esse poderio senão pelo conhecimento mais aprofundado do mundo material que nos cerca. Quanto mais o culto da vida humana avança, tanto mais há uma anomalia atroz escandalosa que é a guerra. Ah! e quando se trata de guerra, os homens, os pobres homens deliram. É conhecida a frase de Napoleão a Metternich. O estadista austríaco lembra ao imperador que na batalha de Leipzig havia, ele Napoleão, perdido cem mil homens. Então Napoleão, irritado, pálido de cólera, atira violentamente o chapéu ao chão: “Cem mil homens, disse ele, que importa!”

Na grande guerra de 1914-1918, os povos e os soberanos, arrastados por um inepto furor bélico, foram tão insensatos quanto Napoleão. Durante quatro anos houve uma média de dez mil homens mortos por dia (mortos por dia durante quatro anos!!!)

No paraíso soviético, no momento em que escrevo estas linhas, milhares de indivíduos morrem de fome! Os ignóbeis tiranos que lá governam olham com indiferença essas dores e essas agonias. Que importa! (se elas são necessárias ao seu plano qüinqüenal).

Creio firmemente no progresso social. Portanto, parece que, comparado ao século de Voltaire, de Diderot, de Montesquieu, de Kant, nosso século retrocedeu e se aproximou da barbaria com Napoleão, os imperadores da Alemanha e os soviéticos.

Depois desse parentesco, voltemos ao culto da existência humana. Existimos porque todas as células, conscientes ou não, de nosso organismo nos ordenam existir. Mas por que é preciso existir?

Porque, enfim, essa miríade de animais que já viveram nada mais fazem que passar e passar rapidamente. Foram substituídos por outros indivíduos da mesma espécie ou de espécies diferentes. Por que?

Desde cem milhões de séculos há ouriços marinhos que ainda hoje são encontrados em grande número. Não posso compreender imediatamente para que fim, no imenso Cosmos, durante milhões de séculos, milhares de milhões de ouriços do mar se têm sucedido.

Uma única explicação (antropocêntrica, talvez!) parece-me aceitável: é que essas obscuras e ínfimas criaturas preparam o futuro do homem, isto é, o da inteligência.

Por que existes? perguntarei ao ouriço marinho. Seguramente ele não saberá responder-me. Mas se ele tivesse o dom da palavra e se possuísse alguma noção dos efeitos e das causas, me diria:

“Existo porque através das gradações sucessivas sou teu antigo ancestral. Eu não mudei desde cem milhões de séculos, mas meus antigos pais tiveram outros descendentes, os degenerados que pouco a pouco se afastaram das formas paternais. Por etapas sucessivas, eles resultaram em um ser humano tal qual tu. Foi para chegar ao que tu és que todos esses ancestrais viveram. Quanto a mim é verdade que estou fora de moda, mas há alguma veneração pelos modestos e indispensáveis predecessores que te permitiram compreender algo sobre os mistérios profundos que te cercam”.

Aceitemos essa declaração do ouriço marinho; ele existiu para que o homem existisse. Mas que utilidade tem a existência do homem?

Porque o homem não passa de um animal. Sua existência é passageira e sua inteligência (à vista dos mundos desconhecidos, gigantescos que o circundam) tão fraca, tão pequena, tão fugaz que não é realmente nada, absolutamente nada. Ela pode apenas atingir – e à custa de que esforços! – os dezesseis quilômetros da atmosfera que circunda a nossa habitação. Em realidade o homem é tão impotente quanto o ouriço marinho.

Evidentemente! E contudo, alguma coisa de novo surgiu com o homem, alguma coisa que não existe no ouriço do mar, uma quase imperceptível ridícula luzerna do esboço informe de uma luz que crescerá talvez, de sorte que esse esboço é uma esperança sublime, uma inteligência superior.

Entretanto, não nos iludamos. Uma luz! seja, mas ela é bem mesquinha, essa luz incapaz de iluminar a grande distância. No entanto, no Cosmos imenso e obscuro, essa fraca luz já representa alguma coisa.

Então, timidamente (resolutamente portanto), digo que é por essa fraca luz que tu existes, que tantos outros seres vivos já existiram, a fim de preparar tua chegada. É por essa fraca luz que a terra, antes incandescente, se resfriou e povoou-se de organismos que não têm apenas vida, mas o esforço para a vida.

Verdadeiramente, se essa luz deve permanecer a miserável luz que é no presente, então a elaboração engenhosa, complicada, prolongada da Natureza para fazê-la vacilar alguns instantes, estaria desproporcionada com a pobreza do resultado obtido. Mas temos o direito de supor que a insignificante inteligência da humanidade não é mais que um começo. Devemos esperar mais, muito mais. Quo non ascendamus?

Os seres vivos sucederam-se e tomaram formas cada vez mais perfeitas para que a inteligência emergisse. Certamente, o universo infinito conhece outras inteligências além da nossa – mais ou metros semelhantes à nossa – mas nós de nada sabemos. Existem? Haverá ou não? Talvez o saibamos mais tarde. Quem poderá negar ou afirmar?

Mas, deixemos esse sonho. É, pois, para perpetuar essa pequena luz (bem pouco resplandecente, no entanto!) que foram constituídos pelo destino todos esses instintos protetores: o cuidado da vida e o horror à morte, que regulam os nossos menores gestos e dirigem todos os nossos mais secretos sentimentos. Quanto mais reflito sobre esses instintos, mais acho verdadeira esta hipótese antiga que lisonjeia a vaidade ingênua de todos os cidadãos do nosso pequeno mundo, os quais dizem ter sido o Universo feito para nós. Todas as precauções, as mais sábias, foram tomadas para assegurar a nossa existência.

Por quanto tempo? Ignoro e ninguém me poderá esclarecer. Talvez, em alguns milhões de anos, um astro errante se atire de encontro ao Sol, produzindo um calor tão intenso que a terra toda nada mais seja que um globo de fogo. Talvez, não obstante as mais severas e mais hábeis bacteriologias, um micróbio maligno apareça, contra o qual todas as terapêuticas sejam inúteis; talvez o sacrossanto oxigênio que envolve a terra desapareça no vácuo do imenso espaço, fazendo com que a terra fique, como a lua, nossa pálida satélite, sem atmosfera e sem ar vital.

Entretanto, nada nos diz que a morte termina tudo e há alguma razão – como demonstrarei mais adiante – para crer que nós nos movemos num sonho e que, ao despertar, teremos magníficas surpresas.

Então tu existes porque isso foi decidido pela Força suprema. Isso não é uma grande descoberta, mas acrescentarei alguma coisa, uma verdade surpreendente e simples.

Aqui ainda abro um parêntese. Pois bem, sim! sou incorrigível. Tenho predileção pelas idéias simples, evidentes. Quero que os indivíduos, até os menos cultos, compreendam tudo com facilidade. Tenho horror ao estilo floreado, requintado e abscôndito. A clareza de uma frase – mesmo banal – que explica uma verdade, encanta-me.

E agora continuo minha demonstração. Existes mas não estás só no planeta. Outros homens, teus irmãos, têm o mesmo direito que tu à existência e à felicidade. Assim, pois, foram providos dos mesmos aparelhos de defesa, de sorte que toda a espécie humana foi atirada na vida com todos os recursos de seus admiráveis instintos.

Assim, pois, com a inteligência aparece um outro sentimento: a noção da solidariedade humana. Essa solidariedade inter-humana separa o homem do animal.

Apesar de nossas guerras absurdas, a civilização consiste principalmente no socorro mútuo. O homem é um animal, naturalmente, mas um animal político, como já dizia Aristóteles, e animal político significa animal social, protegendo os outros homens e sendo protegido por eles.

Existimos no espaço e no tempo. Em um outro capítulo deste trabalho falaremos do tempo. Aqui só trataremos do espaço.

Esse espaço é muito limitado, porque jamais transporemos os limites estreitos de nosso mesquinho planeta, mas podemos estender nossa ação em toda sua superfície, isto é, dar a mão, apoio e socorro a todos os homens, nossos irmãos, que a pisam.

Ora, não se trata somente de respeitar a vida dos outros homens, dever negativo, mas ainda – o que é de dever ativo – de diminuir suas dores e aumentar-lhes a doçura de viver. As artes, as ciências, têm esse duplo efeito. Tua divisa moral devia ser a do grande poeta antigo:

Non sibi, sed toto genitum se credere mundo.

Um gato, um esquilo, uma cotovia, um caramujo, não têm esse cuidado com seus semelhantes; eles existem para ai próprios absolutamente como nós, mas não existem para suavizar a existência de seus camaradas, pois não têm camaradas. Nos temos: camaradas, amigos, irmãos. São os homens, sejam eles de qualquer raça ou cor, que povoam a terra.

Pois então, eis aqui minha resposta à pergunta que se encontra no princípio deste livro: Por que existes? Existes, primeiro para ti mesmo, depois para os outros.

Se não procuras ser útil, posto que numa elevação intelectual maior que a de um gato, de um esquilo, de uma cotovia, de um caramujo, a tua elevação moral é inferior, porque eles não têm noção alguma de solidariedade, enquanto que todo ser, tendo pensar e figura humana, compreende que é mister cuidar da felicidade de seus irmãos, não obstante seu egoísmo brutal.

O egoísmo, embora menor que nosso amor, estende-se mais. Há um egoísmo familiar e um egoísmo nacional. Ora, afirmo que, quando exclusivos, ambos devem ser combatidos, mormente porque o egoísmo familiar, às vezes tão sublime, e o egoísmo nacional, também muitas vezes sublime, em nada contradizem o sentimento do internacionalismo, mais sublime ainda.

De bom grado compararei o amor a si próprio, o amor à família, o amor à pátria e o amor à humanidade a círculos concêntricos que, em lugar de se romperem e de se contrariarem, se corroboram.

Não é o acaso que nos faz nascer; está tudo muito bem disposto, fantasticamente bem disposto, para a proteção de nossa vida. A sede de viver é uma necessidade. Todo ser animal tem instintos tão poderosos, tão esmagadores, que não os pode quebrantar. O homem não faz exceção. O ouriço marinho e a gaivota, como o elefante e o canguru, estão obstinadamente agarrados à vida. Como o ouriço marinho, como a gaivota, coma o elefante, como o canguru, o homem quer viver e é criado para viver.

Mas há uma diferença essencial entre o animal e o homem. O animal não se ocupa senão com a sua existência, enquanto o homem pode pensar na de seus semelhantes.

Ora, devemos auxiliar nossos semelhantes. Isso é um apostolado. A expressão é talvez um tanto pedante, contudo ela tem um sentido preciso. Um apostolado é um axioma que não se pode demonstrar, mas que se pede ao interlocutor aceitá-lo devido à sua evidência primordial.

Para defender esse apostolado direi somente que as nossas relações com os outros homens não comportam mais que as três alternativas seguintes:

 1 – ou se deve fazer-lhes o bem;

 2 – ou se deve fazer-lhes o mal;

 3 – ou não se deve fazer-lhes nem o bem nem o mal.

Fazer-lhes mal é idiotice. Não falemos disso.

Não lhes fazer o bem nem o mal! Conservar-se neutro enquanto eles combatem contra a morte! Abandoná-los quando estão na miséria! Não estender a mão ao desgraçado que se afoga! Recusar um copo de água a quem morre de sede! É um absurdo execrável.

Então é mister fazer-lhes o bem.

Por conseguinte existes para viver, para auxiliar a existência dos outros.

E imediatamente o horizonte se alarga.

Imediatamente podemos conceber que há, não um imenso Cosmos que nos está implacavelmente fechado, mas, pelo menos, na superfície de nosso pequeno planeta, qualquer coisa prescrita, uma intenção, uma direção, um fim. Ah! certamente sei que as palavras vontade e intenção são dolorosamente antropomórficas. Mas terei coragem de dizer que há na evolução da qual resultou o homem, como que um plano obstinadamente e lentamente executado. A lenta progressão da inteligência desde a mônada monocelular e o ouriço marinho até Galileu, Newton e Pasteur, não pode decididamente ser por efeito do acaso.

E agora faço mais um resumo, pois quando quero convencer não me abstenho de repetir.

Sim, ó meu irmão humano, tu existes porque é necessário que tu existas; existes para continuar e, se for possível, para prolongar tua existência. Não fazes exceção, pois todos os seres vivos possuem, assim como tu, o mesmo apego à vida e os mesmos instintos protetores. Mas, socorrendo os outros homens, podes elevar-te acima da animalidade.

É para isso que te foi dada essa inteligência, que parece ser o grande objetivo da vida terrestre.


Livro III

A defesa da espécie e o amor

É, pois, necessário viver. Mas nossa vida não tem mais que curtos instantes. A Natureza então nos deu instintos poderosos e eficazes para viver e continuar a vida.

Ela não só impôs a vida, mas também a sobrevivência.

Há dois gêneros de sobrevivência: a sobrevivência da pessoa e a sobrevivência da espécie.

A sobrevivência da pessoa! Problema aflitivo que os espiritismos e as religiões unanimemente resolveram, por uma afirmação temerária. Todas as religiões nos ensinam, com preceitos imperiosos, que a morte não é a morte da consciência. Mors janua vitae.

Todos os selvagens crêem na sobrevivência de seus parentes, de seus inimigos, de seus amigos e deles próprios. Os espíritas estão convictos de jamais haver o aniquilamento do espírito. Disseminados pelo mundo todo, milhares e milhares de espíritas prosseguem, com tendências quase científicas, essas demonstrações.

Certamente essas crenças, mais ou menos cegas, mais ou menos provadas e razoáveis, são de tal maneira universais, que não podem ser tratadas com descuido.

Discuti-las, analisá-las, seria escrever diversos livros. Entretanto as provas alegadas são ainda muito hipotéticas, inverossímeis, quer se trate de religiões ou de espiritismo, para serem definitivamente aceitas.

Não! provisoriamente não quero aventurar-me no domínio pérfido e encantador da hipótese. Falarei como fisiologista, não irei às nuvens e tratarei somente da sobrevivência da espécie.

Provei que a Natureza impôs em todos os seres vivos o amor à vida e o horror à morte. Certamente. Mas ela fez muito mais ainda, inspirou o desejo ardente, inconsciente quase sempre, da sobrevivência pela descendência.

Em primeiro lugar nos animais.

Os apetites amorosos têm tanto poder que às vezes aniquilam o culto, tão profundo entretanto, da vida individual. Lucrécio descreveu em versos admiráveis essa intensa sede de amor que inspira genus omne animantum.

Pela posse de uma corça, dois cervos lutam até a morte. Entre certas aranhas, o macho precipita-se sobre a fêmea com risco de ser devorado por ela, e quando o ato sexual é consumado, quando o macho não pode mais se defender, a fêmea, devidamente fecundada, precipita-se sobre ele e o devora. As mais carinhosas gatas, quando chega a hora dos amores, não podem ficar presas em casa, tornam-se furiosamente vagabundas e perambulam a noite toda para oferecer seus louvores ao primeiro gato que aparece.

Pode-se comparar o frenesi de dois esquilos que disputam uma presa para matar a fome ao frenesi de dois cervos que lutam para possuir uma corça. No primeiro caso é a luta pela vida do indivíduo e no segundo a luta pela vida da espécie.

A borboleta morre algumas horas depois de ter posto os ovos, pois sua tarefa está terminada. A vida da espécie está então assegurada.

Citarei os belos versos de Virgílio, êmulo de Lucrécio, nesta pintura de amor:

Omne adeo genus in terris hominumque ferarumque
Et genus aequoreum, pecudes pictaeque volucres
In furias ignamque ruunt. Amor omnibus idem.

Como pelos apetites amorosos, o amor da mãe por seus filhos torna-se mais forte que o amor pela vida da espécie.

Nos mamíferos e nos pássaros que desvelos da progenitura! Que cuidado com a descendência! Não é mais o ardor da procriação, é a ternura maternal. Nada mais comovedor do que ver a vigilância da mãe perdiz, cadela ou macaca, por seus filhos.

O homem é tão encarniçado em ardores amorosos quanto os animais. A inteligência, longe de amortecer esse instinto universal, reforça-o, enfeita-o, embeleza-o, circunda-o de uma auréola e freqüentemente também de lama.

É o que ousadamente tentaremos demonstrar.

Deixemos os amores dos selvagens; são realmente pouco interessantes, pois eles se portam como os mais vulgares animais. Vejamos de preferência o que os civilizados fizeram do amor. É ao mesmo tempo sublime e lamentável.

Antes de o homem ser verdadeiramente civilizado, ele é uma criança, um adolescente, no qual então os sentimentos naturais instintivos guardaram intacta toda a sua força.

Pois bem! olhai como, já sob o ponto de vista do amor, se portam as crianças, as meninas principalmente, mais precoces que os meninos.

Desde a idade de doze a treze anos, quando os seios começam a despontar, elas já têm pequenas garridices femininas. Inocentes ou não, procuram agradar os jovens. Já têm gosto pela toalete. Lentamente se vestem olhando seus corpos nus com uma curiosidade comovida, comprazendo-se com as jóias que lhes permitem usar, gostando de roupas elegantes e de sapatos novos. Querem meias curtas de seda enquanto esperam crescer para usarem compridas como suas mães. Preferem os tecidos multicores e berrantes. Usariam batom nos lábios se o permitissem. Nos livros que lhes são apropriados, elas lêem e relêem os episódios amorosos. Virgínia, assim como Julieta, na idade de treze anos já estão inclinadas ao amor. As meninas, mesmo as mais honestas, não ousam confessar, mas um olhar, um aperto de mão, um leve contacto as emociona.

Nas pequenas camponesas, como nas pequenas burguesas, como nas pequenas da cidade, já há, a despeito de sua inocência, vaga inclinação pelo amor. Lêem às pressas fragmentos de jornais e essa leitura lhes revela muita coisa. Dão preferência aos dramas passionais, aos ciúmes ferozes, à impudicícia das ricas aventureiras, fartando-se desses alimentos que excitam a sua sensualidade inata.

Assim, pois, aos dezoito anos, quer seja na Europa, quer seja na Ásia ou na América, nas mais humildes povoações como nas mais luxuosas capitais, as jovens nada mais têm para aprender sobre o amor. E só pensam no amor.

Para os meninos é ainda pior. Nos liceus, nos colégios e mesmo nas escolas primárias, nos campos ou na cidade, eles falam das mulheres. A inquietação sexual aparece um pouco mais tarde nos meninos do que nas meninas, mas desde a idade de quinze e dezesseis anos, nessa corrida ao amor, os rapazes já alcançaram as meninas.

Quantos encontraremos entre os jovens conscritos de vinte e um anos que sejam virgens? Será uma estatística fácil para fazer. Quantos mesmo entre os bacharéis? Quantos entre os alunos de nossas grandes academias?

Que me compreendam bem. Não julgo nem condeno; apenas constato.

E explico.

Isso ocorre porque um instinto soberano se impõe a todos os efebos, eles seguem a lei natural antes da que está nos códigos, pois não podem fazer de outra maneira. A Natureza é uma poderosíssima divindade para que um pobre pequeno ser débil possa revoltar-se contra ela. Milhares e milhares de ancestrais não lhe permitem portar-se diversamente deles.

Bem entendido, há inúmeras exceções. Há neste momento na superfície terrestre quase dois centos de milhões de rapazes e moças de 15 a 25 anos. É possível adotar a mesma rubrica para esses cem milhões de criaturas humanas? Cada uma delas tem sua personalidade característica. Num monte de saibro não há dois pequenos cascalhos idênticos. Como dois seres humanos o poderiam ser? Nenhuma identidade e, no entanto, grandes semelhanças.

Desde séculos e séculos, os sentimentos permanecem quase os mesmos. Para a união da juventude humana em todo país domina uma tendência invencível, irresistível, às coisas do amor. Mais tarde, mas bem mais tarde, esses jovens, tornando-se personagens circunspectos, terão outras ambições. Talvez mesmo condenem os ardores sexuais que lhes perturbaram a juventude, mas sempre se conservarão, mesmo em idade avançada, fortemente ligados às coisas amorosas.

Um psicólogo alemão muito reputado – talvez um pouco demais – Freud, ousou dizer que o prazer sexual é a base, não somente de todos os nossos pensamentos, como de todas as nossas ações. “Investigai bem, diz ele, e descobrireis em todo ser a inquietação do amor”. Este é o parecer de uma admirável personagem, um outro filósofo alemão, Schopenhauer, certamente mais extraordinário que Freud, denominando o amor de o demônio da espécie.

Na idade de 15 anos, um pouco mais ou menos, o demônio da espécie incrusta-se em todo ser humano. Jamais o abandonará.

Esse furor sexual e esse apetite de amor constituem uma bem grande parte de nossa inteligência; vede o que sucede quando num menino as glândulas genitais foram destruídas, como faziam outrora para ter eunucos capazes de, como tenores, alcançarem notas altíssimas ou para serem guardiões de harém, forçosamente irrepreensíveis. Por essa mutilação foram criados seres vis, hipócritas, mentirosos, sonsos e principalmente poltrões.

Podemos fazer uma justa idéia das modificações que a castração causa à inteligência, vendo como se tornam, depois de uma castração durante a infância, os cordeiros, os bezerros, os potros. Um boi torna-se diferente de um touro, como um carneiro castrado de um carneiro, como um capão de um galo.

Quanto à castração feminina (praticada raramente), não parece obter efeitos fisiológicos ou psicológicos acentuados, pelo menos na espécie humana. Mas nos animais os fisiologistas estudaram metodicamente os efeitos. Se eu escrevesse um tratado de fisiologia, daria alguns detalhes sobre essas belas experiências, feitas especialmente nas galinhas. Em se lhes tirando os ovários e em se lhes injetando estratos testiculares de galo, elas tomam exteriormente a perfeita aparência de galo; nascem-lhes uma crista e esporas. A plumagem delas se modifica. Chamam as galinhas e fazem algumas tentativas (evidentemente infrutíferas) para assaltá-las à maneira dos verdadeiros galos.

Inversamente, se tirarmos os testículos dos galos, estes perdem as esporas, a crista e, em se lhes injetando produtos ováricos, portam-se como as galinhas e são capazes de chocar ovos.

Assim, a genitalidade, se me permitem empregar esse neologismo, faz parte da inteligência; as glândulas genitais vertem no sangue produtos que dão à mentalidade seja do homem, seja da mulher, sua constituição normal.

Sem o apetite sexual o homem e a mulher são seres psicologicamente incompletos e inferiores.

Bem entendido, a castração só tem esses efeitos quando praticada antes da puberdade. Mas não posso ser prolixo sobre esta bela questão de biologia geral. Eu quis apenas demonstrar, por essa exposição sumária, que a Natureza dotou todos os seres vivos de um sentimento sexual tão forte que ele domina invencivelmente toda sua idealização.

A civilização nada mais faz que reforçar esse sentimento em lugar de amortecê-lo. Da mesma forma ela fortificou o amor à vida em lugar de o diminuir.

É só observar, mesmo superficialmente, as condições de nossa vida social para certificar-se dessa influência soberana.

Há pouco mostrei que papel preponderante representa o comércio da alimentação: padarias, confeitarias, pastelarias, salsicharias, especiarias, negócios de vinho, leiterias, restaurantes, casas de frutas. Ei-los para a vida do indivíduo. Para a vida da espécie o comércio quase nada é, porque a vida da espécie é a excitação ao amor.

As mulheres, mesmo as mais honestas, fazem tudo para se tornarem desejadas. A grande preocupação delas é antes sexual, depois, mais tarde, quando têm filhos, maternal. Os joalheiros, os penteadores, os perfumistas, os costureiros, os floristas, os peleiros, os sapateiros, os luveiros, representam os primeiros papéis na existência das jovens senhoras civilizadas; falo, bem entendido, das que não têm de suportar trabalhos pesados para ganhar o pão quotidiano.

Quanto mais a civilização progride, tanto mais prospera o luxo do toalete. Quase se poderia comparar a intensidade da Kultur à proporção dos joalheiros, porque em todos os tempos e em todos os países as jóias foram uma das dominantes da espécie humana. Mesmo nos tempos longínquos, quando os primitivos da espécie humana, vestidos de peles de animais, habitavam as cavernas, as mulheres colocavam nas coxas, nos braços, no ventre e nos seios ornamentos simples, pedras ou conchas. Elas se enfeitavam com diversos artifícios (que foram encontrados). Parece que assim se tornavam mais atraentes. Tempo feliz! pois não se tratava de diamantes nem de esmeraldas.

Diversamente dito, o ardor que empregam todas as mulheres – as puras e as libertinas – para se enfeitar, faz o que elas desejam, conscientemente ou não, despertar o amor. Jóias, plumas, flores, perfumes, pinturas, vestuários na última moda, tais são suas armas e foram criados inúmeros jornais para desenvolver o reclame e fornecer modelos que se renovam cada dia.

Não digo nada que pareça censura, a vida social é guiada pelo instinto sexual, irresistível e universal.

* * *

Nada o demonstra melhor que o culto da dança.

Entre todos os povos a dança é muito acatada. Entre os selvagens há as danças religiosas, as danças guerreiras e as danças eróticas também. Mas só permanecem as danças eróticas.

Chamo-as de eróticas. Realmente, o prazer da dança é quase um prazer sexual. Honesto e discreto, concordo, contudo algumas vezes erótico.

Certamente. Como em realidade explicaremos isto: logo que se reúnem alguns jovens, quer seja no campo, quer seja na cidade, quer seja na Europa ou nas Américas, eles imediatamente se apressam a organizar danças.

O que prova, inexoravelmente, que a dança é um prazer sexual é o não ocorrer a nenhum desses jovens a idéia de dançar sozinho ou de convidar para dançar uma pessoa de seu sexo.

As moças e as senhoras enfeitam-se cuidadosamente para o baile, e se gostam tanto de bailes é porque encontram algum prazer em serem cingidas pela cintura por um dançarino e a apoiarem suas cabeças sobre um ombro masculino. Ele, o dançarino, sem dúvida, gosta de sentir o frêmito, o arfar perfumado e o corpo jovem e flexível que se lhe abandona.

Não me lembro mais qual escritor chinês, falando das sociedades européias, conta que muitas vezes foi convidado para saraus dançantes e para grandes bailes, mas que nunca permaneceu até o fim, porque, certamente, comenta ele, o fim deveria ter sido uma orgia. Não se compreenderia de outra maneira toda essa exibição de mulheres seminuas, com gestos audazes e olhos cintilantes. “Não poderia ser, diz ele, senão o prelúdio de cenas revoltantes a que nunca assisti, mas que deduzo”.

Assim que há uma festa pública, imediatamente o populacho organiza danças pelas ruas. Nos transatlânticos luxuosos que atravessam o oceano, todas as noites, apesar do balanço, há danças.

Imperiosamente o demônio da espécie lá está.

Em que idade perdeu ele seu diabólico poder?

É difícil responder. Perguntaram a um de meus amigos, de idade bem avançada: “Quando deixará você de olhar as jovens e as belas mulheres, com esses olhos de velho bode?” “No próximo ano”. É o que ele já respondera no ano precedente. E pode-se ter certeza de que responderá sem dúvida, da mesma forma, enquanto tiver olhos para olhar.

As mulheres são, salvo exceções, mais razoáveis. A partir de cinqüenta anos aproximadamente, elas depõem as armas. Mas quando têm filhos, o amor maternal sucede ao amor conjugal. Portanto, ainda é o que ordena a vida da espécie.

Enfim, a Natureza é sempre a sábia soberana. A partir de cinqüenta anos a mulher não é mais capaz de ter filhos e sua psicologia se conforma com a sua fisiologia.

É mister conformar-se. Nada podemos contra a fatal evolução de nossos órgãos. A vontade não os transforma. Obedece.

Se fosse necessário dar outros exemplos, mais brilhantes talvez, dessa empresa universal do apetite sexual, eu os encontraria nas artes.

Não certamente na arquitetura. Jamais essa arte magnífica teve qualquer relação com os sentimentos amorosos. A música também não, ainda que às vezes, principalmente quando ela se associa a um drama, desperte vagas emoções amorosas.

A dança às vezes é considerada como arte, mas evidentemente não passa de uma arte exclusivamente erótica. Repito de novo, não é uma censura, é uma constatação. Os espectadores que no teatro arregalam os olhos e limpam os vidros de seus binóculos para melhor distinguir as formas encantadoras e os gestos deliciosos de uma bela mulher (antes despida que nua), não deve deixar-se iludir sobre os sentimentos que esse espetáculo lhes inspira. É das ewig weibliche, o eterno feminino que lhes desperta esse prazer, ao qual chamam de estético, mas que é simplesmente erótico.

Agora abordemos a escultura.

Embora já existissem no velho Egito estátuas de rara beleza, volvamos à verdadeira escultura grega que atingiu nessa arte esplêndida uma perfeição que será, sem dúvida, impossível aos modernos suplantá-la ou igualá-la. Pois bem! a escultura grega é a apoteose da beleza física. Uma lenda nos conta que o estatuário Pigmalião criou em mármore uma Galatéia tão bela, tão bela, que dela se apaixonou loucamente. Implora então a Júpiter que anime esse mármore, transformando-o em mulher palpitante. E nós, sem enlouquecermos como Pigmalião, sentimos uma alegria profunda e uma espécie de êxtase quando admiramos as Afrodite, as Juno, as Diana, as Palas, as Flora, que a antiguidade nos legou. A beleza do corpo feminino perturba-nos amorosamente.

Se em lugar de uma mulher de nossa raça, Pigmalião, Fídias, Praxíteles, nos tivessem apresentado uma negra ou uma hotentote, não teríamos para as suas formas horrendas os mesmos olhos que para a Diana de Gabies e a Vênus de Milo.

Se o estatuário esculpisse um carneiro, um javali, um cedro ou um barco, nós olharíamos essas obras, por mais belas que fossem – e por vezes são belíssimas – com menos atenção.

Talvez possam objetar que as esculturas não nos dão somente corpos femininos para admirar. Espero não ser acusado de ter péssimo gosto, ao confessar que é com admiração que contemplo o Apolo de Belvedere e o Gladiador agonizante. Mas em verdade, quer se trate de Afrodite ou de Apolo, é sempre o culto da beleza física. Talvez mesmo eu prefira a Vênus de Milo ao Apolo de Belvedere. Seria curioso saber, com toda sinceridade, qual a preferência de uma mulher por uma dessas obras-primas.

Em todo caso, poderiam julgar-me estúpido, pensando que considero a escultura uma arte exclusivamente erótica. Só a dança pode ser considerada uma arte erótica (e assim mesmo nem sempre). Mas uma bela escultura transporta-nos a um mundo ideal bem distante do aguilhão da carne, como dizem os padres da Igreja. Minha escultura predileta é o Moisés de Miguel Ângelo, na qual nenhuma sensualidade aparece; e aprecio com toda a admiração a Vitória de Samotrace e a Marselhesa de Rude. Essas três obras sublimes estão longe de provocar a menor excitação sexual.

Portanto, a escultura não é uma arte sensual; entretanto, podemos notar a predileção de todos os escultores por exibir corpos de mulheres nuas.

A pintura comporta maior variedade que a escultura: paisagens, cenas históricas, retratos, naturezas mortas, quadros de estilo. Apesar dessa variedade, há sempre um número considerável de mulheres nuas. Não é somente o grande pintor (salvo alguns paisagistas) que ensaia exibir a mulher sob sua mais sedutora forma, isto é, sem véus. Os autores da Sagrada Família: Dürer, Rafael, Ticiano, Corrégio, Rubens, depois de pintarem virgens muito castas, belas e enfadonhas, fizeram (felizmente) numerosas incursões pelo paganismo. Suas Evas ou suas Deusas são mais interessantes que suas virgens.

Para os pintores, assim como para os escultores, o culto do corpo feminino é sagrado. Não é o culto do amor?

Se descermos a uma arte bem inferior veremos, em profusão, em todos os jornais ilustrados, fotografias de mulher. Freqüentemente elas se acham nuas ou pouco vestidas e os jornalistas têm certeza de que assim favorecem o gosto do público. As atrizes de cinema, as estrelas, as girls de café concerto, por se servirem da odiosa gíria moderna, são exibidas em todas as páginas dos grandes jornais de todos os países. A preocupação constante da ilustração moderna é mostrar lindos corpos ou bonitas caras femininas.

Mas é principalmente na literatura que aparece com toda a sua força o poder da atração sexual. Aí o demônio da espécie se entrega com toda a alegria.

Os poemas mais antigos – e os mais belos talvez – a Ilíada e a Odisséia, abundam em batalhas, mas também em aventuras amorosas. A guerra de Tróia, que conta a Ilíada, tem uma mulher por objeto. Helena é tão admirável que os anciões de Tróia, quando ela passava, se esqueciam das desgraças que essa mulher fatal tinha desencadeado sobre a sua cidade.

Certamente, diziam eles, compreendemos que por uma beleza tão triunfal os povos tenham guerreado. No começo da Ilíada, Aquiles é acometido de uma cólera furiosa contra o Rei dos Reis, porque este, abusando de sua autoridade, lhe roubara Briseis, a bela escrava. Até Homero empresta aos Deuses sentimentos amorosos tão ardentes quanto os dos homens. Juno, a deusa dos alvos braços, querendo cair nas graças de Júpiter, seu real esposo, torna-se tão sedutora pelos artifícios proporcionados por Afrodite, que Júpiter, apesar das inumeráveis infidelidades conjugais que cometia com os simples mortais, tem de satisfazer imediatamente seu amor ardente pela astuciosa Juno.

Assim, pois, não somente nos campos de Tróia, mas também nas alturas do Olimpio, é o amor que governa todos os corpos humanos, todas as almas humanas. O amor tudo pode, ele é mais poderoso que Júpiter e mais forte que Hércules. Júpiter, apesar de seus trovões e seus raios, e Hércules, apesar de sua clava e músculos, servilmente lhe obedecem.

Na Odisséia, o grande mestre ainda é o amor. Ulisses, no meio das tempestades e dos perigos, pensa em Penélope e Penélope não sonha senão com Ulisses. Entretanto, a ternura de Ulisses por sua fiel esposa não a impede de amar (durante muitos anos) a bela Calipso e a não menos bela Circe.

Talvez mesmo ele não tenha sido insensível aos encantos da deliciosa Nausica. Entretanto, ao chegar em Ítaca, depois de haver trespassado os pretendentes com suas flechas, nada mais deseja (assim como Penélope) senão atirar-se com ela sobre o velho leito conjugal.

Na Eneida, o amor tem um papel preponderante. Não falemos do insuportável Enéas, uma das mais desagradáveis personagens que um poeta exaltou, mas da deliciosa Dido. Só farei uma censura a Dido, que é a de se ter enamorado de uma personagem tão antipática como o herói da Eneida. Entretanto, ela tem uma desculpa, pois o pequeno Deus do Amor tomou o lugar de Ascagne, a filha de Eneida, para inflamar os sentidos da bela cartaginense.

Entre os autores gregos e principalmente latinos, em toda obra de imaginação, o amor ocupa o primeiro lugar. As Metamorfoses e A Arte de Amar, de Ovídio, as poesias de Tibulo, de Marcial, de Horacio, mesmo de Juvenal, mostram até que ponto, entre os romanos, mais ainda que entre os gregos, chegou o apetite sexual.

Entre os modernos, teatro ou romance, é sempre e em toda parte a apoteose do Amor.

O Amor domina tudo a tal ponto que parece ser o único assunto interessante. As literaturas sobre a cozinha, a padaria e a confeitaria são bem pobres, apesar da alimentação ser a mais urgente das necessidades; mas a literatura sobre o Amor é completa. Athalie é uma exceção magnífica.

Cid, a obra-prima de Corneille, é uma esplêndida epopéia amorosa. Chimène é adorável e nós todos a admiramos como Rodrigue. A obra-prima de Racine é Fedra. Fedra e Chimène, que criaturas amorosas! Aliás, todas as peças teatrais de Racine nada mais são que conflitos amorosos. Andrômaca, Bérenice, Roxana, são tão sedutoras quanto Chimène e Fedra. Quanto aos homens, também são apaixonados, porém muitos menos interessantes.

Um pouco antes de Racine tivemos Shakespeare e Cervantes, esse dois colossos de toda a literatura.

O romance de Don Quixote (contendo tantas aventuras) é principalmente um romance de amor. Se o cavaleiro da Mancha prossegue infatigavelmente suas cômicas e gloriosas aventuras, não é somente para combater Mandrin e socorrer os oprimidos, mas para merecer, por suas proezas, a suprema recompensa: o amor da inverossímil Dulcinéia.

Quanto a Shakespeare, os seus mais admiráveis dramas são dramas de amor. Ofélia apaixona-se loucamente pelo incompreensível Hamlet. Julieta, apesar de seus treze anos, já é uma apaixonada ardente. Quanto a Desdêmona, enamorando-se de um preto disforme, devemos supor que ela, ao deixar um preto profanar-lhe a beleza, tinha instintos bem perversos. Cleópatra, apesar de seus vícios, encontra palavras abrasadoras para exprimir seu amor ardente ao triste Antônio.

Falemos de La Fontaine, nosso incomparável La Fontaine. Nenhum poeta cantou o amor com tanto encanto e convicção. Certamente é o amor sem grandes frases, o amor sem epíteto, o amor para as grandes damas como para as “Jeannetons”. Esse poeta não era um romancista, mas um alegre libertino. Todavia (ele adaptava uma tão deliciosa poesia à sua libertinagem) devemos admirá-lo e perdoá-lo, pois a sua sensualidade, aliás real, é freqüentemente mais verbal que verídica.

Os padres, mesmo os mais virtuosos, como o admirável Fénelon, imaginaram frases ardentes e cheias de indulgência para o amor. A ninfa Eucária nada tem de casta e talvez, nas expansões místicas do bispo de Cambrai com a Senhora Guyon, existisse outra coisa além do amor

No século XVIII foi ainda um padre quem compôs a mais ardente história de amor até hoje escrita. Manon é uma cortesã fascinadora.

Essa atração sexual que um padre contou com tanto realce, os mais severos magistrados também a sentiram, ao menos na juventude. O autor de O Espírito das Leis escreveu as Cartas Persas e o Templo do Guia.

Quanto ao poder do amor num coração de mulher, basta ler as cartas enternecedoras das Srtas. de Lespinasse e Aïssé, para ver o que pode pensar, dizer e escrever uma mulher loucamente apaixonada.

Creio bem que Voltaire pouco sabia do amor.[2] Quanto a Diderot e principalmente J. J. Rousseau, eles ainda o compreendiam menos.

Nas peças de Molière, o amor é quase sempre o grande motivo dramático. Mas Molière parece amaldiçoá-lo (e adorá-lo ao mesmo tempo) e assim ele fez, não só em suas peças teatrais como em sua vida desolada.

Suas mulheres jamais se mostraram ardentes. Longe disso. Elvira, Elmira, Celimênia, Mariana, Angélica, Agnes, Henriqueta, Carlota, são criaturas cinicamente frias ou pérfidas. Os homens de Molière são certamente apaixonados sinceros, mas o amor quase sempre os torna ridículos, como Tartufo, Arnolphe, Georges Dandin. Em suma; Molière fala muito de amor, mas detesta-o cordialmente.

Uma das mais deslumbrantes obras-primas do teatro é Le Mariage de Figaro. Aí o amor triunfa sob todas as formas entre as personagens. Ele domina Querubim, que não passa de uma criança e que se enamora de todas as mulheres. Domina a deliciosa Rosina, tornada condessa, já pronta a ser infiel. O conde Almavia não pensa senão em seduzir Suzana, e a encantadora Suzana, numa secreta perversidade, só pensa no amor. Todas as personagens dessa maravilhosa comédia não passam de bonecos movimentados por Eros.

No século XIX, mais ainda, se possível, que na literatura, o amor domina sempre. O que não é aventura amorosa é acessório, teatro, romance ou poesia. Seriam necessários inúmeros volumes para entrar nesses detalhes. Tomaremos somente alguns exemplos chocantes.

Goethe escreveu inúmeras obras, mas em cada uma delas o amor ocupa sempre o primeiro lugar. Sua obra-prima, sua criação principal é a ópera Fausta. Que é? Nada mais que o desenvolvimento dramático e pungente desta idéia simples entre todas – a que aliás comento neste capitulo – de que o amor sexual é a grande mola de todos os sentimentos. A seu lado tudo empalidece, tanto para o homem como para a mulher. Fausto, que estendeu seus conhecimentos até o último limite, que é matemático, astrônomo, médico, alquimista e até feiticeiro, reconhece que nem a medicina, nem a magia contam que é mister viver para amar. E de seu lado a meiga Margarida, desde que viu Fausto, o adora perdidamente e se entrega. Mefistófeles, os perfumes mágicos, as jóias esplêndidas, são inúteis. Só o instinto basta, e sua voz é tão forte que emudece todas as outras, a da religião, do pudor, do amor filial. O verdadeiro demônio que fala não é um cavaleiro de pé bifurcado e de penacho vermelho, é o demônio da espécie que dominou completamente essa pequena mortal para perdê-la.

Alfred de Musset, assim como Racine, La Fontaine, Goethe, é o cantor do amor. Victor Hugo também, em Dona Sol, a rainha da Espanha, a Esmeralda, Cosette, celebrou o amor. E Lamartine em Elvira.

Aliás, Alfred de Musset, Goethe, Lamartine, Victor Hugo, Petrarca, Byron, Chateaubriand, d'Annunzio, tiveram todos uma vida terrivelmente agitada. Para cada um desses maravilhosos poetas, o amor não foi somente o inspirador de suas vidas, mas também de seus gênios.

As grandes obras literárias do século, a Dama das Camélias, Madame Bovary, Thaïs, Cirano de Bergerac, As Flores do Mal, são sempre uma série de epopéias amorosas.

Assim, pois, por toda parte e sempre, a literatura não é apenas a deificação do amor. Se os poetas e os romancistas o cantam sem se cansar, é em primeiro lugar porque eles se inspiram em seus próprios sentimentos e em segundo porque bem sabem que o público (para quem principalmente escrevem) prefere as histórias de amor a todas as outras.

Apoiando minha idéia, citarei uma lenda árabe característica.

Um dia, um sultão, apaixonado pelas coisas do espírito, ordenou a seu grão-vizir que lhe mandasse buscar os livros mais preciosos, escritos sobre a sabedoria humana. Ao fim de um ano, chegaram ao palácio uns trinta camelos carregados de manuscritos, de papiros, de pergaminhos. “Isso é de mais, disse o sultão, eu nunca poderei decifrar todos esses enigmas. Basta-me muito menos.”

No ano seguinte, só um camelo chegou, trazendo uma centena de livros preciosos, vindos de todo o mundo árabe, de Cordue a Bagdá, de Fez ao Cairo, de Bassorah a Stambul. “Ainda é demais, disse o sultão, eu só quero um livro, um único livro.”

No ano seguinte, no dia aprazado, o grão-vizir chegou, trazendo somente um livro, suntuosamente encadernado e religiosamente o entrega. Comovido, muito comovido, o sultão o abre. Nesse livro precioso, só uma página estava escrita e nela somente uma linha:

A mulher, o amor

Não é somente a história dos artistas e dos literatos que nos mostra o papel preponderante representado pelo amor em todas as suas exigências. Salvo algumas exceções (Pascal, Newton, Pasteur, foram castos) os homens políticos e os sábios, daqueles que se conhece a história, tiveram vidas amorosas cheias e acidentadas. César, Luís XIV, Henrique IV, Henrique VIII, que em certa época dirigiram os destinos do mundo, foram muitas vezes escravos do amor. É estranho observar até que ponto a sorte das nações, conduzidas pelos tiranos e pelos reis, dependem das fantasias sexuais dos aludidos tiranos, reis e imperadores. “Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, diz o nosso grande Pascal, a face do mundo ter-se-ia modificado”.

Os homens políticos de nossos dias, que não são nem imperadores nem reis, também são freqüentemente influenciados pelas mulheres. É sempre Eros quem domina; como nos tempos de Júpiter, de Hércules, do general Boulanger, de Pompadour e de Nelson.

Não há razão para se indignar nem para se lamentar. Já que a Natureza assim o quis, ao mesmo tempo em que o amor pela vida, ela nos impôs, com uma autoridade da qual nem a sabedoria nem a vontade podem triunfar, o amor sexual.

Que é, pois, o amor sexual, senão a grande lei da Natureza que não quer ver destruída a vida da espécie, destruída pelo aniquilamento da vida individual? Dar ao indivíduo o horror à morte nada é, ou menos, é preservar a função vital por algum tempo, mas bem depressa a morte faria o indivíduo voltar ao nada. Então a Força que criou toda a matéria (os micróbios, as estrelas e os átomos) encontrou um meio engenhoso de perpetuar as vidas frágeis dos indivíduos. É, pois o indivíduo em breve desaparecerá, porque a vida é passageira – implantando neles a vontade de uma descendência e de um amor sexual que dirige tiranicamente toda a sua idealização e, por conseqüência, todos os seus atos.

Se estabelecêssemos uma escala de nossas necessidades teríamos o tríptico seguinte: em primeiro lugar o oxigênio, depois o alimento e depois a reprodução, isto é, a união dos sexos.

Do oxigênio não podemos prescindir. Dois minutos sem oxigênio é o máximo que suportamos. Sem oxigênio não há mais seres vivos. Mas há tais provisões de oxigênio na vasta camada atmosférica que envolve o nosso planeta, que não devemos temer – pelo menos, ainda por alguns milhões de anos – qualquer falta dele.

A necessidade de alimento não é tão imediata quanto a do oxigênio – duas semanas em lugar de dois minutos. Mas o carbono e o azoto não estão à nossa disposição como o oxigênio. É preciso sofrer, às vezes sofrer muito, para conquistá-lo. A fim de não morrerem, os seres vivos precisam absorver quase todos os dias o carbono e o azoto em quantidades suficientes. Os carnívoros são forçados a caçar para conseguir a sua presa: os herbívoros, correr para obterem uma pastagem. O homem, que é ao mesmo tempo carnívoro e herbívoro, deve, para nutrir-se, trabalhar, promover a cultura de plantas e manter o gado, pois a caça não bastaria para o seu sustento. É preciso cavar, lavrar e semear para obter o trigo, o arroz, a aveia, o milho e as frutas.

A necessidade de alimentos não é menor que a necessidade de oxigênio, mas não com exigência tão imediata. Pode-se esperar pelo carbono e pelo azoto necessários. Mas não se pode esperar pelo oxigênio.

De fato a organização social não precisa preocupar-se com o oxigênio, mas sim com o alimento. O alimento é a grande preocupação. Há lavradores, açougueiros, padeiros e as trocas se fazem graças ao dinheiro – espiritualmente chamado “o denominador comum”.

A civilização emprega os maiores esforços para assegurar a vida de cada indivíduo, para diminuir as probabilidades de morte, para curá-lo quando doente, para evitar-lhe, por uma sábia higiene, muitas doenças, minorar-lhe a dor se ele sofre, preservá-lo dos calores tórridos ou dos frios terríveis, abrigá-lo contra os ventos, a chuva, a neve, conceder-lhe o trabalho com o menor esforço, porque o esforço é sempre um pouco doloroso.

Nossa vida social não é mais que o sábio desenvolvimento de inumeráveis processos de defesa contra a morte e a dor.

Portanto, a Natureza e a sociedade se coligaram para assegurar e perpetuar a vida dos indivíduos. Os fatos são evidentes. Ora, só existe sociedade para a raça humana.[3]

Essa organização social era necessária porque o homem é menos protegido do que o animal. Seus órgãos são mais educados, sua pele mal o protege contra os ferimentos e o frio. A força de seus braços e a velocidade de sua carreira são medíocres. É somente pela sua inteligência que ele pode enfrentar os leões, os lobos, as serpentes e os parasitas.

Hoje o homem se multiplicou profusamente. Associou-se a outros homens, o que aumenta enormemente a sua força, e cobre toda a terra, desde o tórrido Saara até à Sibéria glacial. Não há região alguma de nosso pequeno planeta que não seja habitada por ele. Todo o reino animal a ele se submete e começa mesmo a ser (pelo menos parcialmente), o senhor da matéria.

É, pois, para que reines verdadeiramente, ó homem, que tu existes. É absurdo supor que foi o acaso que fez de ti o Rei do planeta terrestre. Rei, porque podes conquistar os espaços com uma celeridade maior que a dos pássaros, o mais rápido. Rei, porque podes modificar a forma dos continentes escavando montanhas, unido os mares, atravessando istmos. Rei, porque tens uma linguagem que te permite transmitir tuas idéias a teus irmãos. Rei, enfim, porque compreendes alguma coisa – bem poucas ainda – das forças que turbilhonam em torno de ti. Ora se, apesar da impotência de teu mísero corpo e de tua inteligência também mesquinha, pudeste chegar a essa aparência de realeza, é porque uma pequena luz intelectual intensificava os instintos que a Natureza te havia imposto ao ordenar que vivesses.

Mas como! Viver, está bem, mas é pouco. A vida não é mais que uma passagem rápida. Então, para que o homem não desapareça, a Força descobriu um meio prodigiosamente eficaz: desconfiando da inteligência, ela fixou na alma de todos os homens e de todas as mulheres o desejo e o prazer, sentimentos amorosos, ardentes, irresistíveis, preludiando assim a sobrevivência da espécie.

Que não se admirem se falo da Vontade da Natureza; o termo vontade é terrivelmente humano. Mas permanecerei no domínio do ceticismo científico (que me convém) dizendo:

Tudo se passa como por ordem da Natureza

Entretanto, não existes somente por existir, ainda para reproduzir seres semelhantes a ti.

Além disso, essa vontade da Natureza é tão poderosa e tão engenhosa que não podes fugir a essa ordem imperativa. Assim como a civilização (isto é, a inteligência) reforçou nossa resistência contra a morte, da mesma forma reforçou poderosamente o sentimento sexual.

Infelizmente o homem não é prudente; ele se esquece, ou simula esquecer, que a perpetuação da espécie é a razão de ser, a causa formal de seus impulsos amorosos. Aqueles dois jovens que ali estão, de mãos dadas, fitando-se amorosamente, frementes de prazer por estarem abraçados, não pensam em absoluto na grande lei natural. E, no entanto, esses arrebatamentos, esses ardores, esses frêmitos,

Já é a humanidade futura
Que em seus seios palpita”.

Mas, ai de mim! a literatura (toda ela) é cúmplice. Será que George Sand e Alfred de Musset (ele e ela, ela e ele) se preocupavam com as crianças que poderiam nascer? Paris raptou Helena; Fedra apaixonou-se por Hipólito; Berenice chorou sobre o corpo de Tito; Querubim enamorou-se de Rosina. Mas nem uns nem outros pensaram em procriar uma criança. Fausto seduziu Margarida, mas quando a criança nasceu, ela a matou. Ruy Blas jamais pensou em tornar mãe a Maria de Neubourg, rainha da Espanha.

A Força que rege os mundos implantou em nós sentimentos amorosos invasores, mas não foi em absoluto para dar-nos ocasião de uma rápida volúpia, de um passatempo romântico, de um divertimento agradável, de uma distração deliciosa. Ela tem outros interesses que os delíquios de dois amantes. Seus desígnios estão bem acima de nossos sorrisos ou nossos suspiros. Creio firmemente que há um fim e creio que esse fim, bem distante, é grandioso. Mas é escarnecer o aceitar, como fim supremo, o que não passa de um argumento.

Não se saberá admirar o bastante esses poderosos impulsos naturais, porque eles não querem somente a perpetuação da espécie, mas ainda, para a progênie futura, saúde, vigor e beleza. Se uma mulher provoca o desejo de um homem é porque ela é bela e sã. Feia e disforme, ela nada desperta em ninguém. Mas, possuindo formas elegantes, realçadas por sábios artifícios, ela fatalmente determinará, senão a paixão, pelo menos o desejo, o vulgar e delicioso desejo. Por quê? Porque inconscientemente o homem que a nota sabe que essa lei geradora poderá dar-lhe filhos vigorosos. O inconsciente que governa o homem lhe diz baixinho (mas com autoridade irresistível): “Aquela mulher, melhor que qualquer outra, é capaz de te dar uma descendência magnífica”. E então, obedecendo a essa inconsciência que domina a consciência, o homem a deseja e a ama.

Da mesma forma as mulheres. Um velho, um aborto, um corcunda, um indivíduo atormentado por grave defeito físico, não poderão despertar o menor desejo em mulher alguma.

Em algum lugar eu disse: “A vida da mulher feia não é mais que uma longa agonia”. Para o homem feio também, porque ambos, homem ou mulher, sabe bem que jamais poderão despertar o amor. O nariz de Cirano de Bergerac tornou-o muito infeliz. Sua bravura e seu espírito ao lado desse nariz anormal, pouco valiam, até mesmo para Roxana.

Entre os animais, o culto da beleza provavelmente não existe. Talvez haja um indício entre os pássaros, quando o macho procura agradar a fêmea com sua voz e sua plumagem. Mas as cadelas, mesmo as de boa raça, entregam-se voluntariamente a mastins ordinários (com certeza as nossas opiniões sobre a beleza canina não são semelhantes às das cadelas).

Se a sociedade intensificou o sentimento sexual, muitas vezes ela o perverteu (e não falarei da homossexualidade, essa depravação ignóbil que toca às raias da loucura).

Em primeiro lugar trataremos da prostituição.

Ela é de todos os países e de todos os tempos. O que lhe dá o caráter essencial é não encerrar preocupação alguma pela procriação. A prostituição é o sinistro aviltamento da mais nobre função de um ser vivo.

E não temo dizer que o homem é mais culpado que a mulher.

As infelizes que adotaram essa estranha profissão – “entregar-se ao primeiro que chega. Para dormir uma hora oferece seu seio nu” –, só a isso se resignam para ter o que comer.

Há países onde os pais de família aceitam tranqüilamente que sua filha tenha adotado essa profissão, profissão que nem ele, nem ela, nem ninguém, considera desonrosa. Um árabe, um japonês, um chinês, entram numa casa de prostituição como numa casa de comércio. A mercadoria que elas vendem, vendem-na lealmente, sem hipocrisia inútil, na verdade sem perversidades nauseabundas.

No ocidente, a prostituição (clandestina ou não) a maior parte das vezes é provocada pela miséria. Não podemos, pois, encarar como viciosas, criminosas, essas pobres criaturas que teriam talvez desejado levar uma vida completamente diversa, ter filhos, não o permitindo seus tristes destinos.

Seus tristes destinos! Seja! Mas com freqüência também uma perversidade inata, precoce, pois ainda bem jovem, a pequena vagabunda abandona facilmente seu primeiro amante para passar a um outro, depois a um outro, talvez para não ficar sozinha e para poder viver. Então, após essas trocas repetidas, elas entram para o rol das mulheres públicas. Não atirarei a primeira pedra nessas infelizes, vítimas de um estado social defeituoso, mas sim nos numerosos homens, jovens ou velhos, ricos ou pobres, que, degradando uma santa função natural, compram (por alguns minutos) em troca de algumas moedas, o corpo viciado dessas criaturas.

Indulgente com as mulheres, mas com os homens não.

O ato sexual friamente (ou ardentemente) consumado com a primeira mulher que aparece, é obsceno ou bestial, apesar de toda a poesia que procuram impudicamente emprestar-lhe. Entretanto, segundo um velho adágio, depois de tal união, o homem se sente triste.[4] Sente vergonha do que fez. Seu subconsciente chora.

Verdadeiramente nada é mais embaraçoso do que se saber onde começa e onde acaba a prostituição. Uma bela jovem aceitar um casamento com um velho porque ele é rico, não é quase uma prostituição?

Terei a coragem de dar minha opinião em uma fórmula que provocará exclamações indignadas a muita gente (que se sente culpada). A união dos sexos sem o desejo ou a possibilidade do nascimento de um filho é uma verdadeira prostituição.

Em suma, a civilização transformou, aviltou, perverteu as inspirações que a Natureza implantou em todos os seres, especialmente em todos os seres humanos.

Irei mais longe ainda. Mesmo o casamento, casamento honesto, razoável, legal, autêntico, que não tem por fim essencial a constituição de uma família e o nascimento de filho não pode ser, salvo exceções, mais que uma medíocre sociedade comercial.

Deixo de lado certas uniões nas quais a mulher, nesse caso mais perversa do que a mais perversa das cortesãs, diz:”Não quero ter filhos! É fatigante! É doloroso! Por preço algum eu me privaria do luxo e do bem-estar”. Essas mulheres – existem algumas – sabem perfeitamente, tão bem quanto um médico experimentado, como defender-se de uma funesta gravidez.

Creio bem que essas criaturas – senão na América, pelo menos na França – são realmente excepcionais. Quase sempre todo casal deseja ter pelo menos um filho. Sim! um filho!

Ah! freqüentemente o casal aí fica e eis aí o crime; triplo crime; contra a Natureza, contra a Pátria, contra toda a sociedade.

Se a natalidade não exceder de três filhos por casal, a população aumenta dificilmente, porque, desses três filhos, talvez só dois atinjam a idade de vinte e cinco anos, e, mesmo se os três se tornarem adultos, não poderão, talvez por uma causa ou outra, todos os três ter filhos.

Para que a população aumente e mesmo aumente com dificuldade, é necessário um pouco mais de três filhos por casal. Ora, hoje, pelo menos na Europa (salvo na Polônia e Romênia) a natalidade está abaixo desse número, enquanto os povos da Ásia (chineses, hindus, russos, japoneses) têm uma grande natalidade. Assim, os povos asiáticos tendem a suplantar as populações européias. Diversamente dito, nossa gloriosa civilização greco-romana, honra e esperança da humanidade, será destruída por uma civilização completamente diversa, que chamarei voluntariamente de bárbara, se esse epíteto pudesse ser aplicado a uma civilização.

Mas não quero insistir sobre esse futuro cruel: o arrasamento da Europa pela Ásia. Esse seria o assunto de um livro inteiramente diverso, que deveria ser escrito com amargura e indignação.

Tratarei da questão não sob o ponto de vista político e social, mas sob o ponto de vista que ouso chamar zoológico. A inteligência do homem que executou tão belas obras não está isenta de certos inconvenientes, de certos perigos graves. Ela permite ao homem (muitas vezes o induz) violar a lei natural. Insulto permanente à grande lei da sobrevivência da espécie.

Para a lei que nos ordena viver, há bem pouca derrogação porque o suicídio é excepcional. Ao contrario da lei que impõe a vida da espécie, só existem derrogações.

Falemos claramente, sem hipocrisia, sem falso pudor. Não existe um só casal – união livre ou união legal – que não ponha em prática por meios que todos os esposos conhecem, a restrição da natalidade. Dois esposos sãos, jovens e vigorosos, deviam ter um filho, pelo menos de três em três anos (um ano de gravidez, um de aleitação, um para a terceira gravidez) e assim até que a mulher atingisse 40 anos. Geralmente ela se casa aos vinte. Então, numa taxa bem baixa de um filho de três em três anos, ela deveria ter seis ou sete. Se há menos é pela vontade do casal. O nascimento de um filho, em lugar de ser, como seria justo, um fato natural, tornou-se um fato voluntário, econômico e social.

Vós todos que me ledes, tende coragem, por uma confissão leal, feita intimamente, para reconhecer esta verdade insigne. Todos, sim, verdadeiramente todos, mesmo os melhores, vós limitastes o número de vossos filhos.[5]

Um de meus mestres, homem de coração, excelente e sábio, teve a audácia de um dia me dizer: “É uma falta de juízo o ter-se mais de dois filhos.” Ah! optimi corrupti pessima.

E uns e outros, vós todos inventastes razões especiais para agir dessa maneira: “Não se pode alimentar uma família numerosa”. A saúde da mulher requer cuidados (razão abominável, pois o nascimento de um filho, conforme opinião de meu sábio amigo, A. Pinard, é necessário à saúde da mulher). Pode-se dar a essa criança uma educação conveniente? Precisamos manter a nossa vida. Não sei mais quantos motivos razoáveis ainda nos apresentam.

Então, se os meios habituais foram insuficientes há o recurso do aborto, fracamente combatido pelas leis insuficientes (aliás leis quase nunca aplicadas, apesar de sua indulgência escandalosa.)

Não é somente à limitação de nascimentos que se aplica essa intelectualidade criminosa, mas ainda, após o nascimento da criança, isto é, à amamentação. As mulheres não querem mais dar o seio ao recém-nascido. Médicos, parteiras, farmacêuticos, industriais de todos os ramos, incitam-nas a prática miseráveis, inventaram leites de todas as espécies, drogas que são para os bebês verdadeiros venenos, não obstante seus impertinentes reclames.

Oh, como! A Natureza deu à mulher uma glândula mamária (ornamento de sua beleza) que fornece o único alimento conveniente – digo firmemente o único – e a mãe nega-o a seu filho. Isso é quase um infanticídio e um infanticídio para o qual se alega uma infinidade de razões ridículas. Pinard, em grandes caracteres, colocou em sua clínica esta frase admirável: “A criança tem direito ao leite de sua mãe”.

Oh! bem sei que assim falando do casamento, da natalidade, do aleitamento, vou provocar indignações, cóleras, zombarias, talvez silêncios desdenhosos, mas não faço caso disso. Há muito tempo eu me libertei da opinião pública e a esse respeito minha opinião, bem distante da opinião pública, é inabalável.

É mister obedecer à lei natural.

Todo o palavrório dos políticos, dos economistas, mesmo dos fabricantes de leite, não prevalecerá contra a lei natural.

Quanto mais avanço em anos, tanto mais me convenço de que nada melhor do que o leite de mulher para nutrir um bebê.

Em breve, tanto cercamos a nossa vida pessoal de cuidados meticulosos, que nos engenhamos a combater com todas as forças as leis que regem a perpetuação da espécie.

Felizmente para a espécie humana, nada temos a recear, pois os asiáticos lá estão. Mas é permitido lamentar a extinção futura, quase fatal, da raça humana.

Contudo, ainda me resta alguma esperança, não que eu nutra a louca ilusão de crer que as minhas palavras encontrarão eco. Mas imagino que a inteligência dos brancos não os conduzirá ao aniquilamento. Os europeus compreenderão que está no interesse imediato de cada indivíduo e de cada nação o não desaparecer diante dos bárbaros. Acabarão por se convencer de que o significado profundo da vida é seguir os instintos protetores que a Natureza implantou em nós, não havendo felicidade para o homem senão na adaptação escrupulosa de sua inteligência a esses instintos.

E, alem disso, envelhecer sem posteridade é condenar-se a uma velhice miserável. Portanto, em se colocando sob o ponto de vista de um egoísmo vulgar, é uma grave falta.

Por que existes? pergunto. Em primeiro lugar para existir e em segundo para ter filhos.

Et nati natorum et qui nascentur ab illis.

Eis aí a lei, a lei universal, a lei de outrora e a lei de hoje; a lei do Antigo e do Novo Testamento, a lei dos nacionalistas, a lei de todos aqueles que pensam, a lei de todos aqueles que querem ser dignos do nome de homem.

Mas é necessário ir mais longe, bem mais longe e ver o que poderemos esperar.

Tu existes e deves ter filhos, porque há para o escopo da humanidade uma grande esperança.


Segunda Parte

A grande esperança

Livro I

O mundo habitual

Donde viemos? A resposta não é duvidosa. Não é mais possível – e mesmo a Igreja Católica o reconhece – admitir uma criação no sentido literal do primeiro capítulo da Gênese. Os seres, no correr dos séculos, modificaram-se a tal ponto que, derivando de um primeiro protoplasma original (donde saem eles?) adquiriram, graças a transformações graduais, uma complicação extraordinária.

Em todo caso, entre o homem primitivo e o homem de hoje, há um intervalo de cento e cinqüenta mil anos (como assegura M. Osborn). O homem é provavelmente o último dos animais terrestres que apareceu. Portanto, admitamos como possível, e mesmo provável, que sua evolução progredirá ainda e que daqui a cem mil anos ele se transformará mais que superficialmente, de sorte que o homem futuro será tão diferente do homem atual quanto um selvagem da Nova Guiné é diferente de um acadêmico.

Mas nesse ponto ainda é preciso ser prudente e não querer aprofundar demais.

Antes de saber para onde vamos é necessário perguntar onde estamos e o que podemos esperar.

A superprodução domina a situação atual, devido ao aumento gradual, enorme, da população terrestre, que cresce mais ou menos de dez milhões de homens por ano. Sobre esses dez milhões de acréscimo, a Europa (e principalmente a França) só tem uma parte mínima. Mas a imensa e misteriosa Ásia (compreendendo a Rússia Asiática) aumenta anualmente, conforme sabemos por estatísticas muito imperfeitas, de nove milhões de homens.

Maltus supôs que esse acréscimo da população acarretaria um déficit crescente das substâncias alimentares, mas ele se enganou redondamente. Em lugar de um déficit de substâncias alimentares, há uma superprodução. Os brasileiros são forçados a atirar o café ao mar, os pescadores destroem muitas vezes mil toneladas de sardinhas e quanto ao trigo é de tal forma superabundante que, às vezes, no Canadá aquecem as locomotivas com ele.

Essa superprodução explica-se facilmente, pois o maquinismo progrediu de tal forma que uma dessas máquinas substitui com vantagem o trabalho de dez ou mais operários.

Portanto, quer se trate de produtos agrícolas ou de produtos industriais, em toda parte a superprodução ultrapassa o consumo.

Daí a falta de trabalho e a miséria.

É doloroso e quase necessário. Que tanto, quando se é obrigado a dizer: “este ano a colheita é tão bela que estamos arruinados”.

Esperávamos que os homens, à medida que aumentassem em poderio industrial e em número, mais se unissem e associassem os seus esforços. Porém, em 1932, foi o contrário que se nos apresentou. As nacionalidades que usam o mesmo idioma são cada vez mais inimigas das outras nacionalidades. A despeito de uma fraseologia fastidiosa, estéril e verdadeiramente desarrazoada, erguem fortalezas, fabricam metralhadoras e as legislações aduaneiras e draconianas ainda são mais encarniçadas que outrora.

Para todos aqueles que sonham com um mundo pacífico onde a colaboração ativa de todos os seres humanos prepararia um mundo melhor, é um doloroso espetáculo.

Creio bem que esse nacionalismo desenfreado seja de curta duração. Contudo, seria necessário qualquer coisa de novo para transformar esse egoísmo nacionalista, esse inacreditável despeito de povo para povo. Ora, não é com os congressos, as conferências, os discursos, as associações – mesmo generosas e em grande número – que poderemos conduzir esses homens cegos a concepções menos loucas e a competições menos ardentes.

Usos e costumes

Os costumes, pelo menos na nossa velha Europa, tornaram-se mais humanos. Não há mais escravatura, nem tortura, mas o egoísmo dos indivíduos em nada retrocedeu, continuando tão feroz quanto ontem.

Entretanto, assistimos impotentes a um fenômeno geral, que é a imigração da gente do campo para as cidades. As cidades, com seus subúrbios, tornaram-se monstruosos formigueiros. Nova York (7 milhões de homens); Londres (6 milhões); Paris (4 milhões). As condições de vida foram modificadas. Entretanto, o homem foi criado para viver ao ar livre e não para se amontoar nos escritórios e nas fábricas. O desenvolvimento da vida urbana faz-se em detrimento da moralidade individual, da saúde pública e da natalidade.

Portanto, nisso também são necessárias inovações; a volta à terra seria desejável. Mas qual! O trabalho agrícola, no estado atual das coisas, conduz à miséria.

E, além disso, não se volta atrás. Não se deve esperar que haja para os campos o afluxo de camponeses. Por toda parte os camponeses desejam tornar-se senão intelectuais, pelo menos cidadãos, operários, e nada (mesmo lhes sendo permitido trabalhar com tratores aperfeiçoados) poderá convencê-los a permanecer em suas choupanas ancestrais.

As Artes

Assim como os costumes, as artes evoluem. Elas se modificam, se transformam, mas sapateiam no mesmo lugar, pois a arte não comporta nenhum progresso. Verdade banalíssima sobre a qual é inútil insistir. Há construções audaciosas, de arranha-céus de 65 andares. Naturalmente é uma curiosa obra industrial, mas nego-me absolutamente a considerar esses 65 andares como representando um progresso em estética. Pode-se mesmo perguntar se a pirâmide de Quéops e os suntuosos monumentos de Luxor não são devidos a uma técnica tão aperfeiçoada quanto a dos americanos?

Não falemos nem da escultura, nem da pintura, nem da poesia. Os modernos poderão fazê-las a rigor, mas não as farão melhor que os antigos. Talvez algum homem de gênio possa criar – e isso será maravilhoso – se ele produzir um drama igual a Prometeu acorrentado, uma Vênus tão bela quanto a Vênus de Milo e um quadro igual à Bodas de Caná.

Talvez com a música não se dê o mesmo, pois a indústria inventará, quem sabe, instrumentos superiores aos instrumentos antigos. A música é a única arte que, no decorrer dos últimos cento e cinqüenta anos, tem realmente progredido. É possível que o progresso continue, graças a instrumentos de música mais complicados. Mas, segundo as aparências, não será grande coisa.

Também nada se pode esperar sobre a invasão das artes orientais na nossa velha civilização greco-romana. Vasos sagrados, pagodes, budas ventrudos, estampas sobre papel de arroz, leques multicores de nada nos adiantarão. Confessarei que me sinto moderadamente entusiasmado e que repetirei voluntariamente a frase de Luís XIV perante as personagens cômicas de Téniers e Callot: “Tire-me esses bonecos daí”.

Em todo caso, a arte oriental, japonesa, chinesa, greco-romana e (ó profanação) a arte negra, não poderemos esperar uma renovação humana pela renovação da arte.

Religiões

Há pelo mundo, sem contar as pequenas religiões fetichistas insignificantes, quatro grandes religiões, representadas por seus fundadores: Moisés, Cristo, Maomé e Buda.

As quatro são muito poderosas. E nenhum de seus sectários troca seu culto. Embora suas formidáveis jurisdições e seu passado, ao mesmo tempo sangrento e glorioso, elas são indesarraigáveis e desarrazoadas.

O judaísmo só é praticado por populações quase apagadas e infantis.

O cristianismo é dividido entre cinco ou seis seitas que não querem de modo algum se confundir.

O maometismo não terminou ainda o seu período conquistador. Na Índia ele é quase tão poderoso quanto o budismo, e na África, apesar da conquista da África pela Europa, está solidamente arraigado.

Quanto ao ridículo budismo, conta com mais adeptos que todas as outras religiões. Mas os oitocentos milhões de budistas nada representam sob o ponto de vista da civilização geral.

E é lamentável que uma religião uniforme, sábia e tolerante não reine sobre todos os nossos irmãos humanos. Mas será isso possível?

A condição primordial de uma religião não é a intolerância?

As ciências

Ainda que os progressos da indústria tenham estendido os nossos poderes sobre a matéria e tenhamos explorado quase completamente todos os escaninhos de nossa pequena habitação esférica, nada mudamos essencialmente em nossa existência moral, em nossa vida interior, mais importante talvez que uma mecanização completa, perfeita e rápida.

Ora, se algum progresso pode modificar, melhorar, transformar nossa vida interior, será graças à ciência, à ciência soberana que, abrindo novos horizontes, nos revelará verdades desconhecidas e por conseguinte trará o imprevisto.

Certamente sim! Mas quais são as ciências que poderão transformar a nossa moralidade? Mudar nossas concepções sobre as coisas e os homens? Substituir o nosso estado social defeituoso por um estado social superior?

Passemos rapidamente revista a deslumbrantes progressos da ciência nestes trezentos anos, mesmo nestes cem anos, mesmo nestes cinqüenta anos.

A) Uma ciência que não existia, nem de nome, é a paleontologia. Encontraram-se na terra vestígios de seres inumeráveis, tendo outrora vivido e prosperado, e dos quais hoje nada mais resta que despojos fósseis.

É, portanto, a história da terra que se pôde, bem ou mal, reconstituir. Prodigiosos e imensos répteis, fetos colossais, amonites enormes. Sabemos que, há mais de cem mil séculos, a terra era povoada por outros seres diferentes dos atuais.

Conseguiu-se reconstituir a pré-história do homem, porque foram encontrados vestígios de sua indústria primitiva.

Há ainda muita incerteza sobre o momento em que o homem apareceu. Teria sido há cinqüenta mil anos? Ignora-se. Mas pouco importa. O homem é provavelmente o último feito da criação. Seguramente é um progresso o termos encontrado esses raros testemunhos de nossa pré-história, mas isso em nada modifica o juízo que fazemos do nosso estado atual.

B) Prossigamos. Já que os seres assim se transformaram, essas mutações são os indícios de uma transformação das espécies. A forma dos seres que passam sua curta existência na superfície da terra está em perpétua evolução. A modificação parece-nos muito lenta, apesar de ser muito rápida sob o ponto de vista dos séculos que se sucedem. Na história do mundo, dez mil séculos nada mais são que um ponto.

Admiro certamente o imenso esforço dos pensadores e dos pesquisadores que demonstraram essas mutações vitais, mas não podemos infelizmente ultrapassar os limites dessa simples constatação, nem prever, por pouco que seja, qual será em um próximo (ou longínquo) porvir a morfologia do homem futuro.

C) Depois de Lavoisier a química fez progressos enormes. Confundindo-se com a física, ela pôde aprofundar a estrutura íntima da matéria. Conseguiu-se mais ou menos retroceder à profunda concepção de Epicuro. A matéria é desconhecida; granulosa, constituída por átomos cuja pequenez confunde a nossa imaginação, pois existem mil milhões de átomos num miligrama de hidrogênio. Cada um desses átomos representa, por si só, um mundo. E, como se houvesse, no grande como no pequeno, uma organização homóloga, cada átomo é um mundo solar em miniatura, constituído por um núcleo central análogo a um Sol, em torno do qual volteiam os elétrons negativos, análogos eles próprios aos planetas. Conseguiram-se medir a velocidade, a energia, o número desses átomos, como se mediram a velocidade, a massa e o número dos planetas que gravitam em redor do Sol.

Certamente isso demonstra o poder do gênio humano. Mas, no fundo, que haja mais ou menos elétrons negativos em torno do núcleo central, que sua velocidade seja mais ou menos grande, que eles desprendam mais ou menos íons quando o átomo se desloca, de fato isso nada importa quanto às idéias de paz e de justiça, nem às esperanças de felicidade que devem iluminar a nossa vida interior.

Tudo é admirável nesse microcosmo cujo espetáculo nos assombra, mas esse microcosmo não intervém na nossa vida interior. Ele é pequeno demais para nós.

D) Ao lado do microcosmo há um megacosmo que instrumentos cada vez mais poderosos e observações cada vez mais precisas nos ensinam, não a conhecer, mas a pressentir. Os astrônomos viram no imenso Cosmos que nos rodeia universos-ilhas análogos à nossa via-láctea, tão grandes e muito mais remotos. Essas milhares de nebulosas (universos-ilhas) são povoadas de milhares de estrelas, assim como a nossa via-láctea. Algumas dessas nebulosas estão a cem milhões de anos-luz (trezentos mil quilômetros por segundo!)

Assim, pois, o número de estrelas (e de planetas por conseguinte) é imenso. Assim também imensa a distância que as separa e delas nos separa.

E as palavras faltam-me para indicar a pequenez de nosso mundo solar no Universo.

Pode-se provar ainda que os espaços interplanetários não são vazios. Uma matéria prodigiosamente tênue os preenche. Mas, apesar dessa tenuidade, o espaço é de tal forma vasto que a massa dessa matéria difusa é enorme. E no entanto o vácuo desses espaços interestelares é muito maior que os que podem fazer os nossos mais hábeis instrumentos.

Assim como a vida na superfície terrestre, esse megacosmo do mundo estelar está em evolução perpétua.

Há estrelas que mudam de esplendor? Há as Novae devidas, segundo as aparências, ao encontro de duas estrelas, encontro que produz sem dúvida um cataclismo inaudito, do qual não podemos conjeturar a intensidade.

Em lugar de crer na imobilidade do céu, eis-nos forçados a admitir que ele muda constantemente (para dizer de passagem, se me pedissem que apresentasse alguma prova do poder intelectual do homem, eu diria que nada é mais extraordinário que poder conhecer pela análise espectral a composição química de um astro que é luminoso há cem milhões de anos).

Portanto, o conhecimento, sempre imperfeito, desse maravilhoso megacosmo, assim como o do microcosmos, não mudará nada de nossa trágica existência terrestre.

Vivemos num mundo diverso. É o biocosmos.

O Sol aquece-nos. O oxigênio, o carbono e o azoto alimentam-nos. Eis bem distantes dos abismos do megacosmo e do microcosmos e forçados a limitar o nosso Eu e o de nossos irmãos humanos ao biocosmos.

Também não prevejo que, aprofundando suas tenebrosas grandezas, mudemos alguma coisa de nossa existência.

Em conclusão, a física e a química fazem-nos conhecer alguns dos mistérios do microcosmos, como a astronomia alguns mistérios do megacosmos; mas, estamos muito distantes do mundo que nos interessa, socialmente, psicologicamente e moralmente, isto é, do biocosmos.

Ah! Nem a Zoologia, nem a Botânica, essas duas belas ciências que venero profundamente, nada nos podem ensinar sobre o destino dos homens. Supondo-se que apesar de se ter dominado e descrito todas as plantas, todos os animais terrestres e marinhos, nós moralmente em nada avançamos.

A Fisiologia por si mesma, essa ciência magnífica, à qual eu devotei a vida toda, poderá, sem dúvida, graças a métodos mais perfeitos, graças ao esforço concêntrico dos sábios de todos os países, que aplicarão seu gênio a pesquisas, estabelecer fatos novos, imprevistos, que desvendarão alguns dos meios secretos que animam os prodigiosos organismos que nós somos! Viveremos sempre no mesmo plano. As leis da vida melhor aprofundadas permanecerão sempre as leis da vida animal.[6]

É certo que os dois grandes males que pesam sobre a nossa frágil existência são a doença e a velhice, sua terrível irmã.

A Medicina fez grandes progressos desde há meio século. Ela ainda o fará, isso é absolutamente certo. Chegaremos talvez a descobrir o meio de combater os micróbios e o vírus que dizimam a pobre humanidade. Admito mesmo que os problemas resolvidos por medidas higiênicas rigorosas, profilaxias sábias, terapêuticas eficazes, tenham vencido o câncer e a tuberculose, como também quase foi vencida a loucura, o tifo, a peste e o cólera; espero até nesta concepção otimista de um futuro mais ou menos próximo, que também tenham subjugado a sífilis e o alcoolismo. O número de mortalidades então não será mais como o de nossos dias; homens e mulheres atingirão uma idade avançada e a média da vida será de 90 anos, em lugar de ser de 55, como no presente.

Pois bem! E depois?

Que se viva mais tempo, isso pouco mudará a nossa alma. As condições da vida social e moral permanecerão as mesmas. Haverá nas sociedades humanas muito mais velhos que atualmente. Isso é tudo.

Portanto, não seria uma grande vantagem retardar essa determinação progressiva de nossos órgãos, triste lei da velhice. Não ignoro que inventaram métodos de rejuvenescimento pela infusão de um sangue jovem por diversas injeções orgânicas, mas os resultados, aliás duvidosos, não podem ser senão medíocres sob o ponto de vista de nossa felicidade. Na realidade, é pouca coisa o ter-se prolongado a juventude de quinze ou de vinte anos! Sob pena de demência nós não podemos supor que algum dia a juventude dos indivíduos seja permanente; nós todos estamos condenados a morrer e a nos gastarmos; não há exemplo algum no mundo orgânico – e mesmo no mundo mineral – de uma máquina cujas rodas, funcionando, não terminem por se alterar.

Por mais poderoso que seja esse hipotético rejuvenescimento, jamais deixará de ser parcial e temporário. Então de que servirá?

Se fiz minhas reservas relativas à seleção humana, não é para supor uma nova espécie humana, tendo mais vigor e longevidade; é na esperança de que a qualidade que é a essência própria do homem, isto é, a inteligência, aumente talvez em poderio e em extensão e que então tenhamos uma concepção das coisas completamente diversa, menos incoerente e menos mesquinha que nossa concepção atual.

Mesmo admitindo a vitória contra todas as moléstias, um rejuvenescimento de alguns anos, o que é talvez um otimismo ridículo, não chegaríamos a uma mudança radical na constituição das sociedades e das individualidades humanas. O pensar do homem não se transformará. Sua esperança não se engrandecerá.

Para certificarmo-nos dessa impotência do progresso científico ou industrial para transformar nosso estado de alma, vamos imaginar os sentimentos de um homem medíocre do século dezesseis, contemporâneo de Montaigne.

No ano de 1560 não existia coisa alguma que constitui nossa vida mecânica. Não se conheciam nem a luz elétrica, nem mesmo as velas. Não se fazia senão uma vaga idéia de todas as noções da física. O peso do ar era desconhecido. Admitiam-se os quatro elementos: a terra, a água, o fogo e o ar. Nem Kepler, nem Galileu haviam falado do movimento de rotação dos planetas em redor do sol, não conheciam álgebra, nem o cálculo integral, não havia telescópio nem microscópio, nem termômetro, nem máquina pneumática; a circulação do sangue era desconhecida, a Paleontologia não existia e, com mais razão, as assombrosas descobertas modernas como o telefone, a telegrafia, a fotografia e a Bacteriologia. A Química nada mais era que uma aglomeração de idéias infantis, quase tão ridículas quanto a Medicina dessa época.

Pois bem! apesar dessa ignorância, apesar desses erros, o estado de alma do homem medíocre no século XVI semelhava-se estranhamente ao nosso estado de alma atual. Certamente, os nossos ancestrais iam com menos rapidez de um ponto a outro, não tendo nem as estradas de ferro, nem os automóveis, nem os aviões, nem os barcos a vapor, mas em que os automóveis, as estradas de ferro, os aviões e os barcos a vapor transformaram o estado de alma dos homens?

Os costumes mudaram tão pouco que um burguês, um operário, um camponês do ano de 1560 se reconheceria exatamente nos camponeses, nos burgueses, nos operários de 1932. Os costumes modificaram-se, mas a alma permaneceu a mesma. Mesmos cuidados, mesmas esperanças, mesmos receios:

O francês de 1560 é quase o francês de 1932.

Do mesmo modo, se em lugar de comparar os homens modernos aos homens do século XVI, nós tomássemos os Galos-Romanos do tempo de Trajano, por exemplo, os habitantes de Nimes, de Marselha, de Lion, do Vale do Reno, veríamos que estes pensavam quase como seus descendentes de hoje.

Seria loucura negar que houve enormes mudanças mecânicas na vida dos homens. Mas, porque se tem uma máquina de costura, uma navalha mecânica, um estilógrafo, um datilógrafo, um telefone, um receptor de T. S. F., um álbum de fotografias, quinina, clorofórmio, um automóvel, um cinema, não se sentirá transtorno algum em nossa vida interior.

Podemos apenas melhor combater as doenças. Comunicamo-nos mais facilmente com os nossos semelhantes, temos jornais quotidianos e mesmo radiotelefonias que nos dão, a cada momento, notícias exatas e detalhadas do que se passa em o nosso globo terrestre. Mas conservamos sempre, sobre a origem dos homens, a vida e a morte dos indivíduos, as mesmas idéias e a mesma preocupação de ganhar o pão quotidiano e de obter um pouco mais de luxo. O vestuário muda, o adorno transforma-se, mas apesar dessas variações no vestuário e no adorno, os atores de hoje semelham-se aos atores de ontem. Os sentimentos, as emoções não diferençaram.

Poderemos esperar outra coisa?

Se não houver uma mutação radical em todas as nossas idéias, não e não.

O desenvolvimento, o quanto considerável nós o supúnhamos, das artes, das ciências e da indústria, em nada mudará a mentalidade das sociedades humanas. Que a Mecânica triunfe, que o luxo e o bem-estar aumentem, que a matéria cósmica ou terrestre se torne mais conhecida, nada será essencialmente modificado.

A ciência metapsíquica

Entretanto, ao lado de nossas ciências clássicas, há uma que ainda permanece num estado de esboço tão rudimentar que quase não se pode, em 1933, dar-lhe o nome de ciência.

Produzem-se em torno de nós fatos inverossímeis que parecem absurdos e que registramos com hesitação (e mesmo com algum terror) sem poder reatar por uma cadeia contínua esses fenômenos disparatados. Vivemos todos, sábios e leigos, como se os nossos pobres sentidos, com o auxílio ou sem o auxílio de instrumentos aperfeiçoados, nos revelassem a realidade das coisas e das causas. Ora, ao lado do que podemos ver, ler e entender, se verificam fatos extraordinários que poderiam ser chamados de anormais, se as coisas reais pudessem ser anormais.

E a conclusão, ei-la aqui! é que, confundido com o nosso mundo habitual, existe um mundo misterioso que nos rodeia, fantasmas, casas assombradas, telepatias, premonições, monições, transportes, de sorte que nos movimentamos numa obscuridade profunda.

Existirá esse novo mundo? Tentarei provar que ele existe e que por conseguinte a esperança de uma transformação mental completa pode ser apresentada.

Felizmente! porque o nosso estado social e a nossa mentalidade individual são muito miseráveis para que aspiremos a uma sorte melhor, a uma grande esperança.

E são estas as razões que apresentarei de sua existência sem poder, no entanto, agrupar esses fatos estranhos numa doutrina coerente.


Livro II

O inabitual

Para nos assegurarmos de que há fatos anormais, maravilhosos sob o ponto de vista da ciência atual, invocarei em primeiro lugar o argumento de autoridade. Em favor da nova ciência, há de um lado certos sábios e do outro certo público.

Em primeiro lugar falarei dos sábios.

É facílimo dizer que se enganaram e que foram enganados. É uma objeção que está à altura do primeiro sabichão que aparece. Quando o grande William Crookes relata ter visto, em seu laboratório, Katie King, fantasma capaz de se mover, de respirar ao lado de sua médium, Florence Cook, o dito sabichão, pode erguer os ombros e dizer: “É impossível. O bom senso faz afirmar que Crookes foi vítima de uma ilusão, Crookes é um imbecil.” Mas esse pobre sabichão não descobriu nem a matéria radiante, nem o tálio, nem as ampolas que transmitem a luz elétrica. E assim, minha escolha está feita. Se o sabichão disser que Crookes é um farsante ou um louco, serei eu quem sacudirá os ombros. E pouco importa que rebocados pelo sabichão, uma multidão de jornalistas – que nada viram, nem nada aprofundaram, nem nada estudaram – diga que a opinião de Crookes de nada vale. Não me admirarei.

Se Crookes ainda estivesse só! Mas não! Há uma nobre plêiade de sábios (grandes sábios) que presenciaram esses fenômenos extraordinários. Em lugar de fazer essa simples suposição que eles presenciaram do inabitual, poderei considerá-los cretinos ou mentirosos?

Stainton Moses, um homem de piedade rara, de elevada moralidade, com seu amigo Speer e Senhora Speer, anotaram diariamente, durante dez anos, fenômenos que ele observava consigo próprio. E isso apesar dos riscos que sua audácia o fazia correr.

Os fenômenos produzidos por Eusápia Paladino foram afirmados e confirmados por toda uma série de ilustres experimentadores, por Enrico Morselli, um dos mais sábios psiquiatras da Itália, por Filippo Bottazzi, Foá Herlitzka, professores de Fisiologia nas Universidades italianas, pelo célebre Lombroso, por sir Oliver Lodge, por Ochorowicz, por Fredrich Myers, por Camille Flammarion, por Schrenck-Notzing, por Albert de Rochas. O testemunho de um só desses grandes homens seria suficiente. Então, quando eles se reúnem numa mesma afirmação, irei eu dar ouvidos às críticas infantis que se resumem quase todas nesta pequena frase ingênua: “Não é possível”.

E por que não é possível?

Unicamente porque não é habitual.

Na Alemanha, o grande matemático Zöllner presenciou, com Slade, fenômenos realmente estranhos.

Meu distinto amigo, Doutor Gibier, Diretor do Instituto Pasteur de Nova York, constatou fenômenos semelhantes com a Senhora Salmon.

Geley obteve com Kluski surpreendentes modelagens que toda a habilidade mecânica dos modeladores não poderia reproduzir e que só se explicam pela desmaterialização de formas moldadas.

Quanto aos fenômenos mentais de adivinhação, de leitura de pensamento, de premonição, citarei os nomes de William James, de Sir Oliver Lodge, da Senhora Sidgwick, de Schrenck-Notzing, de Fredrich Myers, de Osty, de Flammarion. No decurso deste livro farei referências de algumas de suas constatações, mas desde já afirmo que a autoridade desses sábios é suficiente para, a priori, fazer-nos admitir que eles não se enganaram completamente.

Repito: trata-se de homens versados em ciências experimentais, tendo o espírito constantemente alerta para com a série de todas as fraudes possíveis.

As objeções dos jornalistas de pasquins que negam a realidade dos fatos são da mesma espécie que as objeções feitas à realidade dos meteoritos. O grande Lavoisier ousou dizer: “Não há pedras que caem do céu, porque no céu não existem pedras.” Boucher de Perthes chamou a atenção sobre o sílex, que ele dizia ter sido talhado por homens primitivos. Durante dez anos ele foi ridicularizado, como ridicularizaram aqueles que julgavam possível o vôo de máquinas mais pesadas que o ar. Denis Papin construiu um barco a vapor. Foram necessários mais de cem anos para que essa invenção fosse adaptada à prática náutica.

As novas verdades, estabelecidas pelos grandes sábios, custam a ser aceitas pelo público. É necessário muito tempo para que uma descoberta científica seja aceita. Que será então quando se tratar de fatos inabituais? Toda constatação de um fato novo, a princípio, parece inverossímil. Então, quando é inabitual, não podendo ser repetido à vontade, é negado, apesar das provas que se apresentam. Sim! E negado obstinadamente, porque nada é tão fácil quanto uma negativa.

Voltemos a metapsíquica.

Um primeiro fato é evidente; é que todas as vezes que um sábio assentiu em estudar de maneira aprofundada esses fenômenos, chamados outrora ocultos, adquiriu a convicção da existência desses fenômenos. Na história da metapsíquica, não conheço somente um caso, não somente um, de um observador consciencioso que, após dois anos de estudos, tenha concluído por uma negativa.

Dois anos de estudos não é realmente muito, porque não é suficiente para fazer (com idéias preconcebidas e a intenção determinada de negar) duas ou três experiências prematuras e incompletas.

Portanto, dou uma importância primordial a esta constatação que jamais, até o momento presente, um experimentador perseverante, tendo feito pacientemente uma trintena de experiências (pelo menos) com dois ou três médiuns julgados autênticos por observadores competentes, tenham finalizado por uma negativa.

Uma objeção ridícula freqüentemente nos é apresentada. Os negadores, quando consentem com, outra coisa que motejos, pretendem que nós, metapsiquistas, empreguemos todos os nossos esforços para provar não que esses fatos existem, mas que eles não existem. Nossa constante preocupação é procurar a fraude possível, o erro sistemático. Pensar que queremos encontrar fenômenos sobrenaturais ou paranormais, é loucamente absurdo. Não temos mais que uma preocupação: é a de descobrir os embustes. Qualquer que seja o fantasma que se nos apresente, não temos outro receio que o de ser ludibriado por um indivíduo real, um odioso impostor.

Todos aqueles que publicaram as suas experiências sabiam que por essa publicação comprometiam seu renome científico, expondo-se às zombarias de seus colegas e aos sarcasmos do povo. Não é, pois, com satisfação que se entra nessa batalha, onde não há mais que golpes a receber. É porque nos limitamos à honra de defender a verdade, por mais arriscada que ela possa ser.

Não imaginam as angústias interiores por que passa um sábio assim que se lhe apresenta um fenômeno extraordinário, anormal, cruelmente inverossímil, que parece estar em contradição evidente com tudo quanto ele conhece, com tudo que seus mestres lhe ensinaram, com tudo que ele próprio ensinou. Poderá um jornalista adivinhar o que pensa um fisiologista quando presencia (como eu presenciei), uma expansão sair do corpo do médium, prolongar-se formando duas pernas estranhas que se fixam no solo, emitindo depois mais alguns prolongamentos que tomam aos poucos a forma de mão, da qual se distinguem vagamente os ossos, sentindo a sua pressão nos joelhos. É necessário coragem para crer nisso! E é necessário muito mais coragem para relatar.

Pensais por exemplo que Crookes, Oliver Lodge, Schrenck-Notzing, de Rochas, Flammarion, Lombroso ignoravam que seriam olhados com desprezo por ousarem dizer que o inverossímil e o absurdo são muitas vezes verdadeiros?

Se tivemos a audácia de falar é porque estávamos absolutamente certos de nossa experimentação, muito mais certos que inúmeros sábios estão freqüentemente quando sustentam um fato verdadeiro, mas novo.

Vitam impendere vero. Essa é a nossa divisa.

Faço um resumo:

1°)  os fatos metapsíquicos foram afirmados por uma trintena de sábios de honorabilidade absoluta, após provas anteriormente adquiridas por uma irrepreensível competência experimental;

2°)  empregaram eles todos os esforços para não admitir o extraordinário;

3°)  não receiam comprometer-se, perder-se, ao publicarem o resultado de suas experimentações.

* * *

Eis o que se pode dizer dos sábios que fizeram experimentações. Mas não há somente os sábios, há também um numeroso público, de cultura intelectual não descuidada, público cujo número e atividade crescem cada dia. Estarei longe da verdade, dizendo que há tanto na Europa, como nas duas Américas, duzentas sociedades psíquicas, sejam espíritas, sejam metapsíquicas, particulares ou não, e pelo menos cinqüenta jornais de pesquisas psíquicas. Sei bem que esses jornais se entregam muitas vezes a lucubrações teóricas e místicas sem valor, enfadonhamente embaraçantes, cruelmente indigestas. Do mesmo modo, fatos curiosos são relatados, cuja documentação é muitas vezes nula ou medíocre. Mas para que se decidam a publicá-los é mister que se tenham solidamente convencido de sua realidade.

Cada um dos membros de cada uma dessas sociedades está absolutamente certo de que o paranormal existe. É, pois, qualquer coisa que deve ser levada em consideração, em vista da convicção raciocinada de trinta mil pessoas judiciosas.

Elas estão convictas, não como se está de uma crença religiosa. Não é uma fé mais ou menos cega, como a dos católicos, dos protestantes, dos muçulmanos; é uma fé científica, pessoal, apoiando-se em observações, porque realmente, posto que essas observações sejam freqüentemente bem imperfeitas, essas pessoas observaram, viram, tocaram, controlaram, ouviram, ou pelo menos pensaram ver, tocar, ouvir, controlar.

Ao lado dos jornais há livros dos quais alguns são notáveis. Somente a bibliografia desses livros e os artigos de espiritismo ou de metapsiquismo seria de duzentas páginas, talvez ainda mais. É uma biblioteca muito volumosa, mesmo só tomando os trabalhos escritos desde há meio século (ver por exemplo o último catálogo de Rider, em Londres).

Recuso-me absolutamente a crer que todos esses livros, todos esses jornais, são uma coleção de mentiras e de equívocos. Que haja algumas mentiras, muitos equívocos, e mais ainda, ilusões, é absolutamente positivo. Mas Jeová teria perdoado a Gomorra se lá houvesse um único justo e há certamente mais de um escrito verídico nas relações que nos são dadas em abundância.

A todos esses escritos, a todos esses fatos confirmados por sábios ilustres, expostos por pessoas de boa-fé, fazem sempre a mesma objeção: “É contrária ao bom senso, é absurdo!” Não sei que sábio ousou dizer: Não quero assistir à experiência que me propõe, porque já estou certo de que, se eu cresse, ela me induziria em um erro formidável. Oh! que terrível cegueira recusar com antecedência uma experimentação nova. É necessária uma fé inabalável, injustificável, entretanto, nos miseráveis dados atuais de nossos sentidos e de nossas ciências para negar qualquer coisa a priori.

Tanto mais que nada é contraditório, os fenômenos são novos e inabituais, eles nada destroem. Não é o absurdo, é o desconhecido ainda.

O bom senso de 1933 não é o mesmo de 1833.

Em 1833 quem poderia supor que se colocariam todas as doenças em pequenos frascos, que se poderiam fazer as mais graves operações sem que o operado sentisse a menor dor, que máquinas carregando cinco mil quilos iriam, em menos de duas horas, pelos ares, de Londres a Paris, que se ouviria em Paris, em Berlim ou em Roma, um discurso pronunciado, ou um concerto realizado em Nova York, que se reproduziria a imagem, não somente das pessoas, mais ainda de seus movimentos, etc....

É todo um mundo que os acadêmicos de 1833 teriam considerado farsa ou feitiçaria e teriam, em nome do mais elementar bom senso (de 1833), repudiado essas extravagâncias.

Abordemos, portanto, com risco de ofender o bom senso dos acadêmicos de 1933, o inacreditável, o inabitual e absurdo.


Capítulo 1
O inabitual na biologia

Eu poderia escrever longas páginas e relatar numerosos fatos, mas serei breve.

Curas inacreditáveis devidas a fenômenos misteriosos.

Há muitas, mas eu me contentarei com citar duas.

I – Eis um fato assinalado por Duchatel e Warcolier (Les Miracles de la Volonté, Paris, Durville, 1913, páginas 89 a 96).

A Srta. B., com vinte e oito anos de idade, órfã. Um irmão morto de tuberculose com a idade de oito anos. Ela também está tuberculosa, se bem que tenha de se recolher definitivamente ao leito, em abril de 1905.

Três médicos chamados em consultas separadas fazem o mesmo diagnóstico:

1°)  perda absoluta de sensibilidade e de movimento dos membros inferiores;

2°)  inchação extrema do abdômen com muitas dores, tornando impossível a palpação;

3°)  respiração diminuída dos dois lados; à esquerda, estertores e ruídos submaciços;

4°)  sensibilidade aguda na região vertebral e a coluna apresentando uma curvatura convexa à esquerda.

Estado geral, emagrecimento e fraqueza extrema, perda de apetite, constipação pertinaz, insônia por lesão da coluna vertebral, tuberculose pulmonar e peritonial, estado gravíssimo.

A 28 de fevereiro, o Doutor Levy vai ver essa pobre mulher, concluindo que não há esperança alguma de cura. Ela está inerte no leito, somente os braços conservam alguns raros movimentos, e pode ligeiramente virar a cabeça do lado direito. Mas assim que se lhe levanta o corpo, a cabeça pende pesadamente. Não se pode sentá-la no leito, a coluna não tem firmeza alguma. Cada um de seus movimentos provoca uma síncope, o ventre está muito crescido a as alças intestinais distendidas desenham-se sobre a parede abdominal.

Em desespero de causa chamou-se então o Sr. Emile Magnin para experimentar um tratamento pelo magnetismo. A Srta. B. contou-lhe isto:

Aos 18 de setembro, às duas horas da manhã, minha lâmpada apagou-se duas vezes. Ouvi então uma voz, vinda do quarto vizinho:

– Podes tu suportar a prova?

E eu respondi: sim!

Então se aproximou de mim uma fina mão alongada, segurando uma flama que iluminou todo o quarto e pude ler estas palavras: “a 8 de maio tu te levantarás”. A visão desapareceu lentamente e, após alguns minutos de obscuridade, a lâmpada se acendeu sozinha.” (!).

Diante disso, o Senhor Magnin, de acordo com os médicos, dá passes magnéticos que acalmam as dores e trazem um pouco de sono à doente.

Aos 8 de março a doente conta a seu novo médico, Senhor Magnin, que via junto de si uma linda senhora; depois seu busto se acalma, ela se move e vira a cabeça, faz esforços para sentar-se, ficando perfeitamente ereta, sentada no leito. O Senhor Magnin então diz à linda senhora (que ele não via) – Se sois vós quem aí estais, tendes poder para fazer a doente andar. A doente ergue lentamente a perna direita, depois a perna esquerda, apóia-se contra o leito e faz duas vezes a volta do quarto. Pouco a pouco a expressão muda; há uma verdadeira transfiguração. – Não creio alterar a verdade, diz o Senhor Magnin, pretendo ter visto uma pálida auréola circundar a cabeça da doente. Depois, a dois passos de seu leito, o busto se curvou, a cabeça tornou a pender e as pernas se dobraram. O Senhor Magnin tomou-a em seus braços e colocou-a no leito.

Aos 16 de março dormiu sete horas. Disse que a sua amiguinha lhe mandara estender as mãos que tocara, tendo ela então sentido uma força nova. Escreveu depois uma carta, o que não acontecia havia vinte e três meses.

Cessaram as hemoptises.

Aos 15 de maio estava definitivamente curada!

Como se essa história não fosse cientemente estranha, acrescentemos isto: que o reconhecimento da doente a levou a ponto de querer casar-se com o Senhor Magnin, e como Magnin recusasse, a linda senhora disse-lhe que o faria morrer.

O Senhor Magnin dissuadiu-a (não sem dificuldade) desse projeto funesto (por intermédio da doente). Então a linda senhora lhe disse: – Eu vos provarei que me seria fácil pôr o meu projeto em execução.

Dois dias depois o Senhor Magnin foi a Veules, dirigiu-se à beira do mar e pôs-se a ler, tranqüilamente, junto a um rochedo. Após duas horas ele se levantou para voltar, mas, apenas partiu, o rochedo desmoronou-se. Se o Senhor Magnin ainda lá estivesse teria sido esmagado.

Quanto à Srta. B., ela se consolou. Completamente curada, casou-se e teve dois filhos.

Detenhamo-nos um instante nessa história extravagante.

Em primeiro lugar, ela é autêntica, pois não se pode considerar o Senhor Magnin ingênuo ou mentiroso.

Teremos freqüentemente de voltar a essas duas objeções, tão fáceis que sempre se poderá observar: mentira cínica ou credulidade imbecil. Mas neste caso, essas duas objeções são nulas, porque o Senhor Magnin (que conheço pessoalmente) é de uma honestidade escrupulosa, e sua sagacidade de observador e de crítico é incontestável. É preciso, pois, aceitar os fatos tais como ele os relata.

1° – Uma doente cujos pulmões estão tuberculosos, que tem uma lesão óssea da coluna vertebral e uma paraplegia devida a uma compressão medular (mal-de-Pott) (tuberculose óssea) curada em três meses e curada completamente; os quatros médicos que a examinaram não hesitaram no diagnóstico e num prognóstico rapidamente fatal. Ela estava, pois, absolutamente condenada, e, no estado atual da ciência médica, não havia dúvida de que jamais se pudesse salvar um doente tão grave.

2° – A presença (muito hipotética no entanto) da linda senhora (uma alucinação evidente) teve conexão com a cura. A Srta. B. ouviu-a, viu sua mão carregando uma luz e sentiu mesmo o seu contacto.

Sim, foi, sem dúvida, uma alucinação. Mas a palavra alucinação é bem depressa empregada. É uma alucinação bem singular, pois ela indicou a cura inacreditável. E, como diz o Senhor Magnin, a descrição que a Srta. B. fez da linda senhora parece concordar com uma personalidade de sua família (?).

3° – Que dizer da pálida auréola que o Senhor Magnin viu em redor da cabeça da doente? Teria sido uma alucinação do próprio Senhor Magnin?

4° – Quanto ao desmoronamento do rochedo, teria sido uma coincidência? Certamente sim, é possível, mas bem pouco verossímil.

Se quisesse, a toda força, encontrar explicações racionais desses fatos estranhos, seríamos forçados a dizer:

 1)   que os médicos diagnosticaram mal-de-Pott, quando não era mais que histeria (!);

 2)   mesmo atacados do mal-de-Pott e de tuberculose, os doentes algumas vezes saram (em três meses?);

 3)   a linda senhora não passa de imaginação da Srta. B.;

 4)   a auréola não passa de uma alucinação do Senhor Magnin;

 5)   o desmoronamento do rochedo não é mais que uma coincidência.

Mas vê-se imediatamente a que ponto essas cinco suposições são absurdas. Mais vale reconhecer francamente que nada compreendemos.

II – Eis aqui um caso referido pelo Senhor Magnin (Annales des Sciences Psychiques, dezembro 1907). Trata-se de uma cura inverossímil sobrevinda em Lourdes.

Em dezembro de 1897, Gabriel Gargan, empregado dos Correios, é vítima de um acidente de estrada de ferro, no trem que vai de Bordéus a Paris, perto de Angoulème; às 22:30. Ele é atirado distante da estrada, fica sepultado na neve até as 7 horas da manhã. É então transportado ao Hospital de Angoulème. Está sem sentidos, coberto de chagas, paraplégico, a clavícula quebrada. Depois ele se enfraquece gradualmente. É forçado a alimentar-se por intermédio de uma sonda. A paraplegia é completa. Dois relatórios médicos no processo que ele intenta contra a Companhia de Orleans atestam não somente a incurabilidade, mas ainda a evolução progressiva da moléstia. A gangrena principiava nas extremidades.

Gargan era muito pouco religioso. Mas em vista da insistência de uma de suas tias e de suas primas, religiosas em Angoulème, ele se deixou levar a Lourdes, se confessa e quer comungar. De súbito, no momento em que ia comungar, ele se ergue: “ajude-me, diz ele, eu posso andar”.

Eis aqui a narração que fez M. V., Conselheiro Municipal radical de uma grande cidade do centro: “Ele lá estava diante de nós, ereto como um ressuscitado, sem chapéu, sem calças, não tendo senão uma camisa e um roupão”. “Deixe-me andar”, exclamou ele novamente: “Virgem Santa – soluçou sua mãe –, havia vinte meses que ele não falava”. E perante milhares de espectadores, essa ruína humana, de pernas semelhantes aos cilindros dos pasteleiros, e com os pés que não eram mais que um montão de chagas, dá alguns passos vacilantes pelo quarto. Dos pés, as feridas que supuravam estão quase totalmente curadas; a voz é distinta, ingere caldo, ostras e peito de galinha. No dia seguinte; vestido de novo, ele se apresenta no escritório. Não há mais gangrena nos pés, a cicatrização prossegue a olhos vistos e ele pode andar sem apoio.

Três semanas depois já tinha ganhado dois quilos. Hoje é enfermeiro em Lourdes e pode fazer serviços pesados.

Nada temos a acrescentar a essa observação: é-nos impossível admitir um milagre, mas também é impossível supor que seja uma coisa normal. Portanto, não aceitamos nem as conclusões arrebicadas dos cépticos, nem as conclusões entusiásticas dos crentes. Estamos perante o incompreensível.[7]

Parece, pois, que os fenômenos normais da fisiologia, da terapêutica, da patologia, sob a influência de não sei que forças, estejam completamente revolvidos e transtornados.

Jejuns prolongados

A Fisiologia nos ensina que se a temperatura de nosso corpo e do corpo de todos os “homeotéricos” (animais de sangue quente) eleva-se de 20°, algumas vezes de 30°, algumas vezes mesmo de 50°, acima da temperatura do ambiente, é porque há uma combustão do carbono e do hidrogênio de nossos tecidos. Ora essa combustão não pode evidentemente prolongar-se sem que a alimentação introduza o carbono e o hidrogênio destinados a substituir o carbono e o hidrogênio dos tecidos orgânicos que se queimaram.

Em estado normal, o homem pode suportar sem grande dano um jejum de uma semana, mas é raro que a sua vida possa prolongar-se após vinte dias de jejum. Em todo caso, os jejuadores profissionais (pois essa estranha profissão foi adotada por alguns) jamais puderam ultrapassar o número de cinqüenta dias (de uma vez). E durante esse tempo eles emagreceram enormemente.

Eis aí fatos tão bem e tão freqüentemente estabelecidos que parecem leis.

Mas há exceções.

Sob a influência de idéias místicas, geralmente religiosas, algumas vezes mesmo sem idéia alguma religiosa, indivíduos e principalmente mulheres, podem jejuar durante muito mais tempo, quase sem emagrecer. Em todo caso, elas conservam a integridade de suas funções musculares e intelectuais e sua temperatura não sofre queda notável. Restaurarei alguns desses casos.[8]

Catarina Binder (1587) fica sete anos sem comer nem beber coisa alguma. Uma menina de doze anos, em Angers, permanece durante quatro anos sem ingerir alimento algum, a não ser um pouco de água (1568). Uma menina de Spire (1586) passa três anos sem comer, assim como uma jovem de Confolens, em Poitou (1602). Kundmann fala de duas jovens das quais uma passou dez anos e outra três sem nada comer (1724). Segundo Fontenette, uma jovem de quinze anos ficou quatro anos sem beber nem comer. Mercadier (1765) conta a história de uma mulher que teria ficado 17 anos sem comer.

Apresentarei somente – pois ela é muito semelhante às outras – a observação seguinte das Ephémérides des Curieux de la Nature (1670-1686) sur une abstinence extraordinaire de toutes sortes d'aliments, por Henri Samson.

“Uma filha do Conde Derby, chamada Marthe Teiler, recebeu uma pancada nas costas que a obrigou a reter algumas gotas de suco de passas de ameixa cozida. Foi com grande dificuldade que então engoliu, perdendo completamente o apetite. Desde a festa de Natal (1667) ela cessou inteiramente de ingerir alimentos sólidos. A dificuldade para engolir, tendo aumentado cada dia, tornou impossível a absorção até de líquidos, com exceção de algumas gotas de suco de passas de ameixas cozidas, ou água açucarada que lhe pingavam algumas vezes (mas raramente) na boca, com uma pena; e já há três meses que dura essa abstinência de toda espécie de alimentos. Durante todo esse tempo nenhuma evacuação, nem urina, nem excrementos. A boca está continuamente seca e é necessário umedecê-la de tempos em tempos como acabamos de dizer. A tez conserva-se boa e o som da voz bastante forte... a pele mantém-se áspera, coberta de uma espécie de caspa. Uma quantidade de curiosos, médicos e cirurgiões de todos os estados, acodem de todos o lados para ver essa mulher e passam muitas vezes noites inteiras junto dela para examiná-la e ver se descobrem não haver fraude. Desses fatos extraordinários ninguém duvida no país.”

Eu poderia apresentar ainda outras observações vindas da França, da Alemanha, da Holanda, da Itália, da Inglaterra, da América, onde jejuns prolongados são apresentados com detalhes.

Bem entendido, os médicos que citaram esses fatos estranhos sempre supuseram haver trapaça. Eles tomaram então as precauções necessárias para não serem burlados. Na verdade, eles não vigiaram esses bizarros jejuadores durante seus anos de jejum, tendo-se unicamente contentado com uma observação atenta e escrupulosa durante alguns dias. É absolutamente impossível pretender que suas observações não passem de mentiras, salvo se os considerarmos de uma ignorância crassa.

Mesmo admitindo que haja 90% de exagero, é ainda uma quantidade de alimento muito menor àquela que a Fisiologia normal nos permite admitir.

Não é somente por causa do absurdo de uma simulação total das trinta ou quarenta observações publicadas que eu creio parcialmente autênticas, é porque tenho tido ocasião de observar metodicamente duas mulheres que, sem jejuarem completamente, tiveram contudo uma alimentação absolutamente insuficiente e isso sem que seus pesos tenham diminuído sensivelmente e sem que as suas temperaturas tenham caído abaixo do normal.

Em estado normal a produção de calorias em um adulto que se nutre regularmente é de cerca de 45 calorias por quilograma e por hora. Nos camponeses italianos, os mais nutridos, nos japoneses, nos abissínios, nos malaios que vivem nos climas quentes, a produção calorias é de 40 por quilograma e por hora. Nos jejuadores profissionais (já que a consumação dos tecidos é evidentemente mínima) ela é de 26 calorias. Pois bem, nas mulheres que eu escrupulosamente observei o regime, a produção foi de 12 calorias para L., e para Marceline somente de 7 calorias.

Eis aí, pois, o fato normal, cientificamente constatado, que nessas duas mulheres a produção de calorias não foi senão a quinta parte da produção calórica normal.

O que confirma absolutamente essa anomalia estranha é que medindo a quantidade de oxigênio consumido e a quantidade de carbono queimado, encontrei uma diminuição de 75% das combustões respiratórias (comparativamente com o metabolismo habitual).

Não entro em detalhes. Assinalo simplesmente o fato e, entre parênteses, surpreendo-me enormemente de que essas anomalias não tenham provocado maior espanto nos fisiologistas e nos médicos. Como! a temperatura do corpo pode manter-se sem que haja combustão correlativa!

Um caso mais recente e bem curioso é o de Teresa Neumann, de Konnersreuth (Baviera). Já existe a respeito dela uma bibliografia abundante: o Cônego de Hovere, o Professor Ewal, o Dr. Weiss, o Doutor Kröner, o Doutor Seidl, o Doutor Gerlich, o Doutor Willemin, o Padre Meharht e o Doutor Maer de Gand. (Annales et Bulletin de la sté royale de Gand, página 123). Segundo M. Maer, desde 1927 Teresa nada come. Tudo nela é extraordinário. Chagas supurantes invadiram as costas e os pés. Mas a aplicação de uma relíquia determinou a cura imediata dessas chagas. Uma apendicite aguda, que devia ser operada com urgência, foi curada imediatamente após uma invocação; uma broncopneumonia que a deixa entre a vida e a morte sara subitamente quando uma voz é ouvida anunciando a cura. Há estigmas (corrimento de sangue das pálpebras). Outros estigmas aparecem como se ela tivesse sido crucificada como Cristo, nas costas, nas palmas das mãos e na fronte, isto é, no mesmo lugar onde foi colocada a coroa de espinhos e nas costas, no mesmo lugar onde Cristo transportou a Cruz. Assiste-se até ao espetáculo impressionante do sangue que brota das regiões estigmatizadas. Às vezes ela fala uma língua desconhecida, a qual ninguém em redor pode compreender. Alguns filólogos julgaram reconhecer a linguagem Aramiana, isto é, a língua que falavam na Palestina no tempo de Cristo (??).

Desde 1927, ela nada mais come. Então para o contestarem, submeteram-na a controles severos. O Professor Ewald diz que nada justifica a idéia de uma fraude e que tudo é completamente inexplicável. Declara ser um fenômeno antifisiológico. Quanto ao Doutor Kröner, ele encontrou uma explicação engenhosa, dizendo haver uma nutrição astral.

O caso do jejum de Teresa Neumann é, pois, realmente extraordinário; mas vê-se pelo breve resumo apresentado antes sobre casos análogos antigos, não ser esse o único caso conhecido de jejum prolongado.

Assim, pois, nós nos encontramos em presença de fatos autênticos que parecem estar em contradição com os mais positivos dados e os mais universais da Biologia e da Patologia. Eis-nos então forçados a admitir que há, por uma causa qualquer, indivíduos que não fazem parte do quadro dos indivíduos comuns.

Os estigmatizados

Há poucos quesitos que dêem lugar a tantos escritos e polêmicas como a estigmatização.[9] Somente a bibliografia ocuparia inúmeras páginas deste livro, mas nós nos contentaremos com relatar dois ou três casos de estigmatização que parecem estar acima de toda contestação possível.

Eis em que consiste a estigmatização: são fluxos, ressumações de sangue acompanhados de alteração da epiderme, de hemorragias cutâneas, convertendo-se em formas especiais.

O primeiro estigmatizado e o mais célebre foi São Francisco de Assis. Aos 14 de setembro de 1224, estando em êxtase, ele teve a visão de um anjo que lhe anunciou a sua crucificação como Jesus Cristo. Há algum tempo, inúmeras pessoas viram suas mãos e pés trespassados por pregos que se viam. Havia também em seu lado direito uma chaga vermelha como se tivesse sido aberta por uma lança e freqüentemente dessa chaga jorrava um sangue que encharcava sua túnica. As chagas das mãos, dos pés e do lado conservavam-se continuamente dolorosas, mas jamais supuravam.

Na morte do santo, diz São Boa Ventura, mais de 50 irmãos, a Virgem Clara e suas irmãs puderam ver os estigmas sagrados.

Qual o valor desses testemunhos?

Dirão tratar-se de testemunhas da Idade Média, mas, como de Vesme o faz justamente notar, para os sábios do século XXX, os sábios do século XX também serão da Idade Média. É fácil, pois, pôr em dúvida as estigmatizações de Francisco de Assis, e poder-se-ia, dever-se mesmo duvidar se não houvesse nas histórias de santos ou mesmo de indivíduos vulgares um número respeitável de fenômenos análogos.

Os estigmas de Santa Verônica (abril 1700) aparecem mesmo após cerrarem suas mãos em luvas seladas.

Relativamente a nossos dias, são citadas numerosas histórias de estigmatizados. Teresa Neumann, de quem há pouco falei, foi certamente uma estigmatizada. Transcreverei somente, segundo de Vesme, a opinião do Doutor Gerlich, Redator-Chefe de um grande jornal de Munich.

Chegado a Konnersreuth com bastante cepticismo, mas tendo tido a constância de estudar o caso durante dois anos (dos quais passou cinco meses constantemente ao lado de Teresa), Gerlich, historiador protestante, narra essa longa observação e termina dizendo: “Não mais duvido da autenticidade dos fenômenos”, chegando mesmo a dizer que uma explicação mística é a única possível.

Ensaiemos, portanto, achar uma explicação racional da estigmatização, pois que, na maioria desses casos observados, a hipótese do embuste é inadmissível. Poderemos explicar pelos dados da fisiopatologia normal o fenômeno das hemorragias cutâneas?

Todo mundo sabe que há vasomotores e não é absurdo supor que esses fenômenos vasomotores podem ser influenciados pelo sistema nervoso central e pelo grande simpático em sua direção, localização e extensão. Mas é da mesma forma bem singular que a vontade possa produzir uma congestão da pele distintamente definida para apresentar uma cruz ou letras.

O que é completamente anormal, incompreensível e inabitual, é que essa congestão definida da pele possa chegar à hemorragia.

Por outra parte, à estigmatização simples se confundem os fenômenos acessórios, os estigmas luminosos, os estigmas perfumados, os estigmas dos quais o sangue escorre contrariamente à gravidade, os estigmas que saram sem deixar traços, as alterações da pele onde não há supuração.

Em suma, a fisiologia dos estigmatizados é absolutamente diferente da fisiologia normal.

Devemos ver nisso, como o fazem muitos católicos, o efeito de uma intervenção divina ou angelical? Seria completamente injustificado, porque há casos de estigmas em pessoas não religiosas, ou cuja religião era bastante heteróclita, como por exemplo nessa religiosa de que fala de Vesme, a qual se dizia esposa de Jesus Cristo e que no entanto cometia uma infinidade de infidelidades muito materiais a seu divino Esposo. Ignácio de Loyola não contesta os estigmas dessa jovem, mas considera tudo como obra do diabo (!).

Entre os protestantes, mesmo entre os muçulmanos, também houve estigmatizados.

Aqui estamos, pois, qualquer que seja a estranheza da estigmatização, no limite entre os fenômenos fisiológicos normais e os fenômenos metapsíquicos. Entretanto, é bem extraordinário que, em certos indivíduos, a inervação cerebral, quer seja consciente, quer seja inconsciente, se torne capaz de fazer nascerem na pele manchas vermelhas, inchações, chegando à hemorragia. Dizem algumas vezes: são os histéricos. Sim! é fácil dizer, mas a histeria é como um cesto onde se atira, misturadamente, tudo que não se compreende, nem se explica.

Se algum crítico tiver a idéia, em parte justificável, mas que creio, de minha parte, errônea, de pôr em dúvida todos os estigmas observados pelos religiosos e religiosas, desde São Francisco de Assis (1224) até Teresa Neumann (1.931) eu lhe citarei uma experiência rigorosa à qual assisti, em companhia de meus amigos Drs. Jean Charles Roux, Osty e Cunéo.

Trata-se da Senhora Kahl, de nacionalidade russa.

A Senhora Kahl, perante nós, ao estender o braço nu, pôde fazer aparecer, sem saber como, dermográficos cutâneos bastante nítidos para que todo o mundo possa ler, segundo o relevo, certas letras na pele. Numa experiência feita no Instituto Metapsíquico (Revue Métapsychique, 1929, p. 133), aos 28 de janeiro de 1928, a Senhora Cunéo, na sala vizinha, escreve qualquer coisa, ao acaso de sua inspiração, sobre um pedaço de papel que dobra e entrega a Cunéo, que o guarda em seu bolso. Então, depois de a Senhora Cunéo ter tocado ligeiramente no braço de Olga Kahl, assim que retirou a mão, vemos desenhar-se sobre o antebraço dela a palavra Sabine. Ora, a Senhora Cunéo escrevera o nome de sua filha Sabine.

Assim, pois, nessa curiosa experiência, há duas coisas distintas: em primeiro lutar o conhecimento pelo sexto sentido da palavra escrita pela Senhora Cunéo; em segundo, a aparição dermográfica da palavra que, inconsciente, a Senhora Kahl recebeu.

Quase não se pode explicar a fisiologia normal dos fenômenos de estigmatização, mas porque não se pode explicá-los não é uma razão para negá-los. Voltemos, pois, à conclusão de que há seres cuja fisiologia é inteiramente especial. Aceitemos para eles o triste nome de médium e digamos que existem médiuns, isto é, seres humanos excepcionais, anormais, subtraídos às leis biológicas que nos habituamos a olhar como absolutas.

A incombustibilidade

Uma série de fatos ainda mais extravagantes se refere à incombustibilidade.

Se alguma coisa parece evidente, em geral, é que nossos tecidos são destruídos pelo fogo. Não se trata de Biologia, mas de simples Química.

No entanto há exceções.

Home deu magníficos exemplos; o Visconde Adare, Lorde Dunraven, a Senhora Jenkin, o Major Blackburn, a Sra. Hennings, todos grandes personagens da nobreza inglesa, são testemunhas desses fatos.

Na casa da Senhora Hennings, Home chega-se à chaminé, toma uma brasa (duas vezes maior que uma laranja) coloca-a na mão e passeia assim pela sala. Ele faz então com que lhe cheirem as mãos que, em lugar de terem odor de queimadas, estão perfumadas. Torna depois a colocar a brasa no fogo e, ajoelhando-se, deita seu rosto sobre as brasas. (Placed his face among the burning coal moving it about as though bathing in water).[10]

Ele me perguntou, disse Adare, se eu desejava tocar na brasa. Segurei-a com as duas mãos; ele colocou as mãos sobre as minhas e ficamos com a brasa entre nossas quatro mãos. Senti apenas um pouco de calor.

Evidentemente é impossível toda explicação racional desses fatos extraordinários, mas as condições da experimentação são tais que não se pode supor terem-se iludido todas as nobres e sensatas pessoas presentes.

Entretanto, por mais extraordinário que seja esse feito de Home, ele não é o único, e poderíamos citar alguns outros, segundo M. Oliver Leroy (Les hommes salamandres) Recherches et réflexions sur l'incombustibilité du humain, (Paris, 1931).

Isso foi observado em certos santos, como São Francisco de Paulo, Santa Catarina de Siena, dos quais a Igreja Católica venera a memória e aceita o testemunho. Há o fire walk que ainda hoje é praticado na Índia. Alguns podem andar de pés descalços por sobre o fogo, sem se queimarem. Há também as façanhas mais ou menos funambulescas dos Aissaouas e dos Faquires.

Devem-se suscitar dúvidas reais sobre a autenticidade desses fenômenos. Entretanto, a experiência de Home, sendo dada, de uma parte, a autoridade e a multiplicidade dos testemunhos, de outra parte, a intensidade dos fenômenos, resiste absolutamente a todas as críticas.

À incombustibilidade de Home nós acrescentaremos um feito quase tão extraordinário. Trata-se de uma fanática jansenista sobre o túmulo do diácono Paris (1731). Um processo verbal foi assinado por um Doutor em Teologia da Sorbonne, um Cônego, um Lorde inglês, quatro burgueses de Paris, quatro escudeiros, um Conselheiro do Parlamento e um Tesoureiro do Tribunal de Contas, Armand Arouet, cujo nome atualmente é célebre.

Vejamos o que diz esse processo verbal.

“Vimos Marie Sonnet deitar a cabeça sobre um tamborete, de maneira que seu corpo, sob a coberta de um enorme fogão, ficasse no ar por sobre o fogo que era de uma violência extrema. Ela permaneceu assim por espaço de 36 minutos, sem que a coberta na qual se envolvia, não tendo outras roupas, se queimasse, apesar da chama muitas vezes cobri-la, o que nos pareceu realmente sobrenatural. Enquanto assinávamos este certificado, a dita Sonnet colocou-se novamente sobre o fogo e lá permaneceu durante nove minutos, procurando adormecer por sobre o braseiro que era ardente”.

É difícil acreditar que os homens probos que assinaram esse documento tenham impudentemente mentido. (Oliver Leroy, Les hommes salamandres, Paris, 1932, páginas 31-33).

E agora, retomando esses diferentes fatos, em aparência maravilhosos (fatos de que poderíamos apresentar inúmeros exemplos e que, para abreviar, reduzimos aos casos que nos pareceram os mais demonstrativos da série), constatamos que as ditas leis absolutas da Biologia não existem.

1° – Uma mulher atacada do mal-de-Pott, com paraplegia, tuberculose óssea e peritoneal, tuberculosa dos dois pulmões, fica curada em três meses, como um fantasma lhe havia predito e, ao cabo de um ano, casa-se e tem filhos.

2°  – Em Lourdes, um indivíduo cuja coluna vertebral foi fraturada, sara quase de súbito.

3°  – Algumas mulheres podem viver quase sem comer, quase sem respirar, quase sem emagrecer durante meses e meses e, no entanto, a temperatura não baixa.

4° – Foi possível (Home) tocar em uma brasa ardente e colocar a face num braseiro sem se queimar. Portanto, certos indivíduos podem tornar-se incombustíveis.

5° – Sob a influência de emoções místicas poderosas, hemorragias cutâneas surgiram, tendo formas determinadas (estigmas dos Santos).

Poderemos explicar esses fatos estranhos? No primeiro poderíamos crer na intervenção de um espírito todo poderoso. Rigorosamente, para os fenômenos de Lourdes e os estigmas dos Santos, pode supor-se, ainda que seja bem pouco satisfatório. Rigorosamente, também, podemos admitir a intervenção de um espírito para a cura da Srta. B. e para a incombustibilidade de Home; mas a explicação não é razoável para os casos de jejuns prolongados, pois que se trata de pessoas vulgares que não recorrem a nenhum poder divino.

Entretanto, mesmo admitindo a ingerência de uma divindade (ou de meia divindade) como supor que essa força seja bastante poderosa para mudar as condições normais da vida dos tecidos e torná-los incombustíveis, para manter a temperatura orgânica sem combustão intersticial, para curar em algumas horas uma chaga da medula, para fazer aparecer cruzes sanguinolentas nas mãos e nos pés. Essa pretensa explicação por forças sobrenaturais desconhecidas é justamente o contrário de uma explicação, é a omissão dolorosa de nossa ignorância, é, em uma palavra, o misterioso.

Portanto, sob o ponto de vista da ciência atual, há anomalias tais, exceções tão extraordinárias que nos sentimos mergulhados num oceano de trevas e de dúvidas. Esses fenômenos têm uma causa, mas nossa ciência (que ainda está na infância) não pode conjeturar qual seja essa causa.

E vou insistir sobre esses absurdos aparentes porque se trata de considerações que creio novas e que são talvez a trama essencial do que vai ser dito neste livro.

O princípio suposto da identidade é absoluto e não admite restrições.

Seja, por exemplo, a e b. Todas as vezes que eu tiver uma relação qualquer entre a e b, se essa relação for idêntica, o resultado será idêntico também. Se eu multiplicar a por b, terei sempre o mesmo produto ab, se eu dividir a por b, terei sempre a por b. Não é um postulado, é uma tautologia.

Mas essa evidência tautológica supõe que a é sempre rigorosamente idêntico a a e que b é sempre rigorosamente idêntico a b. Ora essa identidade nunca existe na Natureza. Só há identidade para os a em matemática, pois nas coisas naturais jamais há dois a que sejam absolutamente idênticos. Sempre que assim pensamos, nós nos enganamos, pois é por uma imperfeição de nosso julgamento e de nossos sentidos que achamos esses dois a idênticos.

Quando suas semelhanças são enormes, por exemplo como dois átomos de hidrogênio, não podemos entre eles estabelecer diferença alguma. Supomos então (arbitrariamente) que são idênticos e que, se por exemplo tomarmos b fazendo-o agir sobre a teremos sempre o mesmo resultado. Mas é um erro, em realidade nunca teremos ab e ab, mas ab, a’b’, a”b”, etc....

E vou apresentar alguns exemplos para provar, da maneira evidente, que jamais haverá no mundo das coisas reais dois a, nem dois b idênticos.

Nada será mais comum, direi mesmo mais absoluto, do que a lei da queda dos corpos. Uma pedra atirada ao ar sempre cai e seríamos tentados a dizer, em conseqüência de nossas inumeráveis e constantes experiências, que nunca há exceções nessa lei.

Enganamo-nos entretanto. Eis aqui um pedaço de ferro. Atiro-o ao ar, ele cai. Mas se eu o atirar ao teto de meu quarto e se no teto houver um forte ímã, ou mesmo um solenóide, então o ferro não cairá. Ficará colado ao ímã. Se eu ignorar as propriedades magnéticas do ímã e se não souber da existência de um ímã no teto, serei tentado a dizer que os corpos atirados ao ar, apesar de seu peso, nem sempre caem.

Não há necessidade de um imã, porque se no teto foi colocado um ferro doce envolto por um fio metálico, pelo qual passe uma corrente elétrica, o pedaço de ferro cairá como todos os outros pedaços, desde que se desligue a corrente. Mas se alguém, de perto ou de longe, sem que eu saiba, faça algumas vezes passar pela espiral metálica uma corrente elétrica de intensidade suficiente, então o pedaço de ferro ficará, pela imantação do ferro doce, retido no teto; e se ignoro a fantasia do que fez passar uma corrente elétrica na espiral metálica, serei forçado a dizer:

1°)  que quase todos os corpos caem por terra quando se atiram ao ar;

2°)  que, às vezes, sem sabermos a causa, os pedaços de ferro não caem.

Os físicos modernos, estudando profundamente a radioatividade, constataram que não é o determinismo, determinismo sempre incompleto, imperfeito e grosseiro, que regula os fenômenos, mas sim a probabilidade. Os fatos constatados são registrados estatisticamente. Temos uma média que nos dá, não uma certeza, mas uma probabilidade. Quando essa média é tirada sobre um número imenso de algarismos, a probabilidade aproxima-se da certeza, sem nunca a atingir.

Eis aqui, por exemplo, neste frasco 3.000.000 de átomos de rádio. Todos os anos, há mais ou menos 1.000 que desaparecem, explodindo. Portanto, havia cerca de 1.000 que deviam desaparecer, mas não é exatamente 1.000 e em todo caso, nada nos fará prever quais os que vão transformar-se. É pouco mais ou menos como se, numa cidade de 3.000.000 de habitantes, a mortalidade sendo de 10%, se pudesse prever que no fim de um ano houvesse mais ou menos 1.000 mortos. Más não se sabem quais são os que morrerão.

Retomemos o nosso frasco de rádio o ano seguinte; há ainda mil átomos que irão desaparecer. Todos os anos acontecerá quase a mesma coisa. Diremos então que esses três milhões de átomos não se conduzem todos da mesma maneira, portanto, que não são idênticos.

Assim, os átomos de rádio, embora nos pareçam idênticos, não o são. Há os que são mais velhos e que irão perecer, absolutamente, como na cidade há indivíduos de idades diferentes, dos quais alguns, principalmente os mais velhos, irão desaparecer. Compreendemos perfeitamente que os diversos indivíduos de uma cidade, crianças, adolescentes, velhos, mulheres, operários, burgueses, enfermos, alcoólicos, alienados, tuberculosos, cancerosos, miseráveis, são muito diferentes uns dos outros, e que o índice da mortalidade não nos pode dar a não ser uma estatística global; mas, sentimo-nos terrivelmente embaraçados quando se trata do rádio. Como admitir que um átomo de rádio seja diferente de um outro átomo?

Com mais razão isso ocorre quando se trata de células vivas, mesmo muito simples, monocelulares como as bactérias. Fiz uma experiência à qual não foi dada a importância merecida: anticépticos regulares e irregulares (comunicação feita à Academia de Ciências). Se tomarmos um caldo contendo lactose (cerca de 40 gramas por litro) e o semearmos de fermento lácteo, a lactose fermenta e dá o ácido láctico, que se pode facilmente dosar pelo simples manejo do acidômetro. A quantidade de ácido formado vai medir a atividade da vida do fermento. Ora pode-se juntar ao licor fermentescível uma certa quantidade de anticépticos, de maneira a diminuir em média – pouco mais ou menos – suponho, de 50 por cento a atividade da fermentação. Ora tomando-se o bicloreto de mercúrio como anticéptico, a experiência dá resultados verdadeiramente imprevistos. Têm-se cem tubos contendo o mesmo licor fermentescível adicionado das mesmas quantidades de bicloreto de mercúrio e fermento láctico muito diluído. Esses cem tubos parecem, portanto, idênticos, pois se trata do mesmo licor, do mesmo anticéptico e da mesma proporção do mesmo fermento.

Pois bem! Esses cem tubos não se conduzem da mesma maneira: há, cinco por exemplo que ficaram estéreis e onde o fermento não germinou. Há outros cinco nos quais a fermentação foi mais ativa que nos líquidos fermentescíveis normais não adicionados de bicloreto de mercúrio. Os outros 90 tubos terão uma fermentação de atividade intermediária e a média dará 50% de fermentação normal.

É, pois, necessário concluir que os micróbios que serviam de fermento não eram idênticos. Se fossem idênticos, teríamos a mesma quantidade de ácidos em todos os tubos com minúsculas diferenças omissíveis, devidas aos erros experimentais.

Assim, pois, mais ainda para os átomos de rádio, não há para os fermentos uma lei absoluta. Não há mais que probabilidades.

Atualmente os físicos reconhecem que a dita lei de Mariote está sujeita a extravios que excedem os possíveis erros experimentais. Quando se comprime um gás, a uma atmosfera, seu volume diminui pela metade. Seu volume aumenta pela metade quando se diminui sua pressão de meia atmosfera.

Ora, isso só é real em parte; pois os números encontrados pela experiência nunca são rigorosamente os que deviam ser achados. Estatisticamente, em média, a lei é exata, mas isso é tudo que se pode dizer. Admitimos então que o resultado não é senão global, real em média, pois que é feito sobre um número imenso de moléculas; mas, sem dúvida, cada uma dessas moléculas se conduz um pouco à sua maneira pela compressão ou pela decomposição.

Portanto, quer se trate de moléculas gasosas, de átomos de rádio, de células microbianas vivas ou de corpos sujeitos à gravidade, existem pequenas diferenças individuais que tornam impossível a edificação de uma lei absoluta.

Esses preliminares eram necessários para nos mostrar que, apesar da estranheza de certos fatos, temos constatações tão formais, provas experimentais tão rigorosas, que devemos admiti-los. Se existem diferenças reais, posto que inacessíveis a nossos sentidos, entre as moléculas de um gás, entre os átomos de um corpo simples, entre as bactérias monocelulares provenientes de um mesmo tronco, com mais razão para os seres humanos, tão dessemelhantes, devemos, sem nos sentirmos muito surpresos, aceitar os fenômenos que parecem estranhos.

Eu poderia multiplicar os exemplos para estabelecer as leis orgânicas constatadas pelos médicos e fisiologistas, leis que parecem estabelecidas por milhares de experiências e de observações, sujeitas, no entanto, a exceções singulares, inexplicáveis. Nossa ignorância, que nos dissimula a não identidade dos indivíduos, devia ser reconhecida como verdadeira. O único ponto litigioso é saber se as observações foram bem apreendidas e se o controle foi suficiente.

E ainda vou apresentar um outro exemplo para mostrar que não se pode rigorosamente assimilar entre eles os diversos indivíduos humanos, pois têm diferenças tais que seria muito imprudente prever, segundo um meio qualquer, as reações ou o destino desta ou daquela individualidade.

Bem entendido, uma média pode ser sempre tomada desde que se opere sobre números grandes. Em Paris, o número de suicídios é quase sempre o mesmo anualmente. Mas quanto a prever que este ou aquele indivíduo se suicidará, é impossível.

Eis aqui três ou quatro formigas que deambulam; elas seguem o mesmo caminho e são de tal forma semelhantes entre elas, que me é impossível distingui-las. Há, no entanto, uma ou duas que de tempos em tempos se desviam do caminho. Por que esta mais do que aquela?

O que governa o mundo é a variedade, a diferença, a não identidade. Quando estabelecemos leis, não de Matemática, mas de Física, de Mecânica, ou de Biologia, não é mais que em média. Essa média, conquanto seja média, é muito valiosa, mas é tudo.

Em verdade, todas as vezes que se quer aprofundar algum quesito, o quesito não é nada simples. Aceitamos que haja diferenças, desvios do termo médio, mas esses desvios não podem ser enormes, inauditos, inverossímeis. Todas as formigas andam quase com a mesma celeridade, um metro por minuto, suponho. Admito, sem grande surpresa, que algumas possam percorrer dois metros; mas é pouco provável que se encontrem as que andam cinco metros, com maior razão dez metros, número que considerarei como absurdo.

Ora, se tomarmos o caso que indiquei, por exemplo a cura de Gargan ou da Srta. B. por Magnin, o desvio é tal entre a média de curas habituais e as duas curas rápidas observadas, que embora toda minha dialética relativa à diferenciação, não chegarei a compreender.

Que será quando se tratar de jejuns prolongados?

E que será principalmente quando se tratar de incombustibilidade?

Estamos, pois, perante o inexplicável, quase absurdo.

Resta contudo um fato positivo: é que certos indivíduos têm poderes extraordinários; esses indivíduos são chamados médiuns e devemos dizer que os médiuns não fazem parte do grupo dos indivíduos normais. Por que?

A única explicação possível – que, entretanto, não é uma explicação – é dizer que eles são, ou bem, super-homens, seres estranhos, excepcionais, ou bem, que são auxiliados, protegidos, envolvidos por certas forças sobrenaturais invisíveis e desconhecidas. Essas forças são, parece, inteligentes, podendo ser chamadas de espíritos.

Volveremos a essas duas hipóteses audaciosas no decorrer desse livro.


Capítulo 2
O inabitual no conhecimento

Mais lucidez que telepatia

Agora chego aos fenômenos psicológicos habituais e resumirei – ao começar este capítulo – minha opinião muito ponderada, profundamente consolidada em meu espírito, por uma proposição simples e formal. Às vezes a inteligência humana pode conhecer certas realidades sem que esse conhecimento possa ser atribuído à sagacidade, ao acaso ou a percepções sensoriais normais e anteriores.

Portanto, é mister admitir que esse conhecimento das coisas exteriores nos chega por uma qualquer excitação exterior. Sem isso concluiríamos no absurdo enorme de um efeito sem causa.

Denomino essa sensibilidade especial de sexto sentido, sem me iludir que esse nome não é uma explicação, ainda menos uma teoria, pois desse sexto sentido só se conhecem seus efeitos, aliás muito irregulares e muito fantasistas. Mas antes de entrar no estudo desse sexto sentido, apresentarei um exemplo sobre o fenômeno das noções concretas que ainda tornará mais fácil a discussão teórica.

No livro que escrevo sobre o sexto sentido, coligi uma quantidade de documentos, mas aqui só apresentarei cinco que me parecem decisivos e melhores que os outros.

Trata-se em primeiro lugar de meu admirável amigo Stephane Ossowietsky, que, tanto a mim como a Geley, Osty, a Schrenck-Notzing e a outros sábios, apresentou provas surpreendentes de uma lucidez que me parece superior à de todos os médiuns conhecidos.

Ossowietzky não é um médium profissional. É um fidalgo polonês, Engenheiro que só faz experiências contra vontade. Apesar de sua boa-fé estar fora de toda suspeita, nunca negligenciamos – e peço-lhe humildemente perdão – de experimentá-lo como se ele fosse um pérfido e consumado prestidigitador. Tomamos, portanto, todas as precauções necessárias para impedir uma inverossímil fraude (consciente ou inconsciente). Relatarei somente três experiências. Eu poderia citar uma trintena, todas de valor, mas escolhi intencionalmente estas porque se duas podem ser mais ou menos explicadas pela telepatia, a outra não contém telepatia alguma.

Eis aqui a primeira que pode ser explicada pela telepatia. Estando só com Ossowietzky em meu quarto, aliás bem pouco iluminado, no Hotel da Europa, em Varsóvia, escrevi (a três metros de distância) ocultando cuidadosamente o que eu escrevia: “Jamais o mar parece tão grande que quando está calmo; seus furores o deixam contrito”. Dobrei esse papel muitas vezes e fechei-o dentro de um envelope. Então, Ossowietzky, tomando o envelope entre as mãos, esfregou-o e, olhando-o apenas, disse estas palavras que escrevo textualmente: “vejo muita água. (Digo: muito bem). É alguma coisa difícil, não é uma pergunta, e uma idéia sua que foi escrita; (digo: muito, muito bem). O mar nunca é tão grande que... não posso ligar as duas idéias. (Digo: perfeito, admirável). O mar é tão grande que ao lado de suas agitações...”

Essa experiência é realmente bela, incomparavelmente bela.

1° – Tratava-se do mar e da grandeza do mar, o que é extremamente preciso e particular.

2° – Essa grandeza do mar evoca uma comparação com uma coisa moral que ele não compreende muito bem; não lhe sendo possível ligar as duas idéias.

3° – Essa frase fazia parte de uma coleção de pensamentos que não estavam publicados, frase que eu sem vergonha alguma reproduzi sobre o papel dobrado, entregue a Ossowietzky, devidamente encerrado num envelope. Mesmo, supondo, o que é eminentemente absurdo, que ele havia visto o que eu escrevera, não poderia saber que era uma idéia minha.

Assim, pois, eis uma experiência que pode ser explicada tanto pela telepatia como pela lucidez.

(Contas dadas pelo Congresso, Paris, 1924, páginas 201-304).

M. Dingwall, especialmente encarregado pela S, P. R. trouxe da Inglaterra um papel que ele assim descreveu: “Três envelopes grossos e opacos estão fechados um dentro do outro, o primeiro, exterior, é pardo; o segundo, preto e o terceiro, vermelho. Neste último está uma folha de papel de carta dobrado em dois com um desenho e algumas palavras escritas”. O envelope exterior estava fechado com cola forte e lacrado. Os quatro cantos do pacote haviam sido furados com uma agulha.

Eis aqui então o que disse Stephane Ossowietzky perante a assembléia emocionada e atenta: “Há um desenho feito por um homem que não é artista, alguma coisa vermelha como esta garrafa, um quadrado desenhado no ângulo do papel, a garrafa está bem mal desenhada, algumas letras que não posso ler. Antes de 1923 há alguma coisa que não posso ler, uma data ou uma cidade. Está escrita em francês, a garrafa está um pouco inclinada e não tem rolha, seu conteúdo está feito com inúmeros traços finos. O pacote está formado assim: 1° – um envelope cinzento por fora; 2° – um envelope esverdeado-escuro; 3° – um envelope vermelho; 4° – nesse envelope um papel branco dobrado em dois”, e Ossowietzky reproduz o desenho.

M. Dingwall, então, tomando o envelope, declarou que cercara a experiência de precauções suficientes para ter a certeza de que o envelope não fora aberto. O momento era solene. Perante a assembléia, M. Dingwall abriu o primeiro envelope, retirou o segundo que era de um preto esverdeado; depois, abrindo o segundo, retirou o terceiro, vermelho. No vermelho então foi visto um papel branco dobrado em dois. Toda a assembléia aplaudiu, porque até ali a experiência resultara admiravelmente. Mas o sucesso foi ainda maior quando constataram a identidade do desenho feito por M. Dingwall e do apresentado por Ossowietzky.

A comparação desses dois desenhos foi emocionante.

Pode-se admitir que tenha havido telepatia em ambos os casos. Mas, para a experiência seguinte, que menciono entre muitas outras, não pode ser aceita a hipótese de uma telepatia qualquer. Trata-se de uma experiência que fiz com Ossowietzky em Varsóvia, tão extraordinária quanto as outras, senão mais.

Em Paris, e vésperas de seguir para Varsóvia, em visita a Ossowietzky, pedi à minha ilustre amiga, Condessa Anna de Noailles, que se interessa profundamente pelas investigações psíquicas, que me desse três envelopes opacos, bem fechados, onde ela encerraria algumas palavras completamente de mim desconhecidas.

Tomo esses envelopes que numero ao acaso: 1. 2. 3. Guardo-os em minha carteira e eles não me deixam até o momento em que em Varsóvia eu os entrego a Ossowietzky para que adivinhe o que está escrito. Digo-lhe que escolha um e ele tira o número 3. Toma o envelope, apalpa-o febrilmente. Sabe que é da Senhora Noailles, pois eu lho dissera. Mas nada mais sabe. Nem eu tampouco. Assistem à sessão: Geley, a noiva de Ossowietzky e suas duas irmãs. Mas nenhuma das quatro personagens toca na carta fechada, carta essa que eu e Geley fixamos atentamente; carta que Stephane olha apenas, mas que continua a esfregar nas mãos.

Eis as palavras textuais de Stephane: Não há nada para mim. (Quer dizer que esta carta não me diz respeito). É alguma coisa de um grande poeta francês, direi Rostand, alguma coisa de Chantecler. Quando ela fala de Chantecler, escreve alguma coisa do galo. Há uma idéia de luz durante a noite, uma grande luz durante a noite. Depois o nome de Rostand com a bela poesia de Chantecler.

Isso foi dito depressa, em um quarto de hora.

Durante meia hora ainda ele amarrota o envelope e diz: as idéias da noite e da luz foram as primeiras antes do nome de Rostand. Há ainda duas linhas em baixo”.

Abrimos o envelope e encontramos o que a Senhora Noailles escrevera.

* * *

Para o sexto sentido, apresentarei ainda uma outra experiência, pois eu poderia citar muitas mais. A que vou narrar é com Alice (não profissional). Trata-se de um desenho a bico de pena que me foi dado por Hericourt, em sua casa, em um envelope opaco, entre inúmeras folhas de papel, ignorando eu completamente o que ele desdenhara. Hericourt, presente a esta experiência, não diz nada nem faz o menor gesto. Sou eu somente quem interroga Alice: “Há muitas cores, é um redondo dobrado em dois, um retrato no redondo, um medalhão, um quadro com um oval, no quadro uma cabeça de homem no oval. Seu pescoço não está vestido como é usado, mas cordões transversais na dianteira sobem e fecham; há seis ou sete cordões transversais, sobre a sua cabeça acha-se um quepe e esse quepe tem três galões circulares; nas mangas quatro galões ou antes, três que se acham no punho; na frente, dez botões; é o busto de alguém que é magro, pode estar sentado mas só vejo a cabeça e o busto. Conheço-o, mas não direi quem é”.

Essa experiência é excelente. O desenho colocado no envelope representa um quadro, mas nada mais, e esse quadro, em lugar de ser redondo é retangular. Portanto, seria quase uma alucinação se nós nos referíssemos ao desenho fechado no envelope.

Mas não é uma alucinação. A contrário, é uma magnífica experiência.

Eis aqui o que se passou. Hericourt, procurando apresentar-me um desenho para ser adivinhado, viu na lareira uma sua fotografia e ele desenhou apenas o quadro; mas Alice viu a fotografia de Hericourt em trajes de Major-Médico e descreveu-a com uma precisão surpreendente, quase como se a tivesse sob os olhos: um homem magro, com um quepe, três galões e sete cordões transversais. Portanto, ela descreveu alguma coisa que não existia no envelope, mas unicamente no pensamento de Hericourt.

É inútil acrescentar que ela via Hericourt pela primeira vez. Nunca estivera em sua casa e não sabia provavelmente que ele fora Médico militar.

Discutamos agora a conclusão que se pode tirar dessas quatro experiências irrepreensíveis.

Meus eminentes amigos da S. P. R., de Londres, propagaram e tornaram quase popular a idéia da telepatia, palavra criada por Fredrich Myers. Warcolier, em um livro notável, contendo muitas belas experiências, também deu numerosos exemplos de telepatia. Ora, afirmo que a telepatia não é mais que um caso particular de lucidez e que, se for explicado mais ou menos, haverá fenômenos bem numerosos que não poderão ser explicados pela telepatia.

Recordo sumariamente em que consiste a telepatia. Sejam dois indivíduos A e P; A o agente e P o percipiente. Os que adotam a explicação telepática dizem que os pensamentos de A podem ser, em certas condições, recebidos por P. Tudo parece passar-se como se o cérebro de fosse agitado de uma certa maneira pelas vibrações do cérebro de A. Um pensamento de A ressoa no pensamento de P.

Não se refletindo, parece mas não é nada simples!

Mas não é nada simples

Não! mil vezes não!

O pensamento de A, mesmo quando ele aplica toda sua atenção, é uma nuvem, uma fumaça, um vapor, emergindo de um turbilhão de outras nuvens, de outras fumaças, de outros vapores. É uma realidade imaterial, inatingível, de uma fragilidade extraordinária. Que P possa entrever essa nuvem, e que, conscientemente ou inconscientemente, precise alguns detalhes, isso ultrapassa tudo que o chamado bom senso e a ciência clássica nos ensinam.

Vou mais longe. É-me difícil compreender que um clarividente leia o nome de Julieta, hermeticamente encerrado em um envelope e logo que penso em Julieta, ele me diz Julieta. Porque, enfim, o nome de Julieta aí está, nesse envelope. O preto no branco. É uma realidade que seria visível se não houvesse um envelope opaco, enquanto que, se penso em Julieta, uma quantidade de idéias flutua em minha cabeça. Será que vejo escrita diante de mim a palavra Julieta? Será que penso no drama de Shakespeare? Estarei pensando na ópera de Gounoud nas Julietas que conheci? nos mil pensamentos que durante as hesitações da vidente, se agitam em meu cérebro? As expansões protoplásmicas de minhas células cerebrais tomaram formas fugitivas, turbilhonantes, que não têm a precisão, a materialidade simples e evidente da palavra Julieta, encerrada em letras grandes dentro de um envelope.

Diversamente dito: a clarividência sem a telepatia é incompreensível, mas a clarividência telepática é mais incompreensível ainda.

Para determinar com precisão esse ponto que me parece de importância fundamental, citarei duas experiências feitas com duas pessoas diferentes que, embora tendo poderes mediúnicos, não são profissionais no sentido exato da palavra.

Numa primeira experiência, tendo em meu bolso uma carta que eu lera, pergunto à Senhora X o nome da mulher que me escrevera. Ela me diz: “É o nome de uma flor, Margarida”. Respondo-lhe: não, está errado. E com efeito essa carta era de uma mulher chamada Blanche. Mas, chegando em casa encontro em minha mesa de trabalho, sobre meus papéis, uma outra carta que eu não levara, tendo-a quase esquecido, onde havia, em letras grandes, como assinatura, o nome de Margarida.

Pode-se hesitar entre a explicação telepática, recordação inconsciente da palavra Margarida que eu lera antes, e a explicação pela clarividência não telepática.

Eis uma segunda experiência. Pergunto à Senhora Y o nome de uma das criadas que se encontravam junto a mim, havia muito tempo, em minha casa paterna. Os nomes dessas duas excelentes mulheres eram: Luísa e Dorotéia. A Senhora Y responde-me (pela escrita automática) Mélanie. Ora, o nome de Mélanie é o de uma honrada mulher que, durante minha primeira infância, era cozinheira em casa de meus pais. A personagem e o nome de Mélanie estavam completamente afastados de minha memória consciente. Certamente eu não havia pensado nessa pobre Mélanie uma vez durante sessenta anos (!) (deve-se notar que o nome de Mélanie não é muito comum).

É, se quiserem, uma telepatia vinda de meu pensamento inconsciente. Mas essa explicação é terrivelmente requintada e acho melhor supor que a clarividência da Senhora Y se tenha exercido sobre a realidade de um fato relativo a meu passado.

Trata-se, pois, de saber se o conhecimento paranormal é devido à vibração de uma realidade exterior, antiga, atual, ou então à vibração sincrônica de dois cérebros. Ora um grande número de fatos prova com toda evidência que a vibração sincrônica de dois cérebros não é em absoluto necessária para que haja conhecimento paranormal. Eu poderia citar um grande número de experiências que relatei com detalhes em meu Traité de Métapsychique e em meu Le Sixième Sens. Mas basta-me referir a experiência já citada, feita por mim com Ossowietzky.

Nessa experiência a hipótese da telepatia é manifestamente impossível de ser admitida, e isso por duas razões: primeira porque a Senhora de Noailles se achava ausente quando entreguei o envelope a Ossowietzky que ela não conhecia. Além disso, ela não sabia qual o momento em que eu faria a experiência e certamente não pensava nela. É altamente absurdo supor que durante muitos dias, numa distância de dois mil quilômetros, o pensamento da Senhora de Noailles vibrasse constantemente de maneira a ativar a cerebração de Ossowietzky. Enfim, havia três envelopes e o pensamento da Senhora de Noailles não poderia adivinhar qual dos três envelopes seria o escolhido por Ossowietzky.

Chego, pois, à conclusão seguinte: a telepatia existe, porém não é mais que um caso particular de lucidez. O pensamento do agente é um fato real. Ora o conhecimento paranormal aplica-se em todos os fatos reais, quaisquer que sejam, como um gesto, uma palavra escrita, um objeto, um envelope, um acidente qualquer, ou mesmo apenas um pensamento. E quando é um pensamento, dizemos: Telepatia.

A telepatia não é mais que um caso especial. E se o aceitamos mais favoravelmente do que o conhecimento não telepático dos fatos exteriores, é porque nessa direção se investigou muitíssimo mais. Os laboriosos membros da S. P. R. inglesa atiraram-se com grande ardor sobre essa pista e foram imitados por inúmeros observadores. Sobre telepatia há talvez cem experiências, contra uma experiência de lucidez simples.

Em segundo lugar, se nos parece mais freqüentemente alcançar bom êxito com a telepatia é porque os sucessos, mesmo muito fugazes, se existe um defeito de experimentação, são mais fáceis para serem obtidos. Se o experimentador conhece os detalhes do desenho que ele encerrou num envelope, é-lhe necessária uma grande atenção para não trair indiretamente, por sua fisionomia, seu tom de voz, seus gestos, algumas indicações vagas que encaminharão o médium, enquanto que se ele de nada sabe, nada, nada, sobre a natureza desse desenho, não poderá evidentemente auxiliar a adivinhação.

Após um grande número de experiências, convenci-me profundamente de que para o médium (percipiente) acertar (reprodução de um desenho, indicação de um nome, etc.) é completamente indiferente que esse desenho ou esse nome seja conhecido de uma qualquer pessoa presente.

O percipiente não tem necessidade de um agente.

Em resumo, há conhecimento paranormal da realidade, sem que essa realidade seja conhecida por um dos assistentes, por conseguinte, sem telepatia.

Contudo, devemos refletir bem. É, repito-o, realmente tão difícil compreender o conhecimento paranormal sem telepatia que com telepatia. Ingenuamente se diz: não é surpreendente que P tenha dito certo, pois que ele leu no pensamento de A.

Ler no pensamento de A.

Verdadeiramente é muito mais difícil compreender do que ler o que – em letras grandes – está hermeticamente fechado num envelope opaco.

Esse conhecimento paranormal da realidade resulta, portanto, de observações e de experiências numerosas que trazem a convicção profunda e a absoluta certeza.

Em capítulos ulteriores, procuraremos ir um pouco mais longe que essa simples constatação e saber se há forças, inteligentes ou não, que, sem se manifestar diretamente a nós, agem, entretanto, em nosso pensamento. Ora, em muitas experiências, e notadamente nas de Ossowietzky, não há necessidade de introduzir uma segunda pessoa diversa do vidente. Basta admitir a existência de um sexto sentido.

E insistirei nesse assunto pois me fizeram muitas objeções.

Responderei às de meu amigo Osty (Revue Métapsychique) e às palavras corteses e bondosas do Doutor Vettari (Luce e Ombra, 1928).

Em primeiro lugar foi-me objetado que quando se fala de um sentido, supõe-se um aparelho sensorial orgânico, como a retina para a vista, a membrana de Corti para a audição, etc., enquanto para o sexto sentido não é possível encontrar um órgão.

Seja. E reconheço que nossa ignorância é profunda, mas essa ignorância só é aplicada para essa explicação. Ela não se aplica para o fato em si mesmo. Em falta de melhor, não podendo achar um termo melhor, digo que há um sentido; mas reconheço que esse sentido não se parece em nada aos nossos pobres cinco sentidos normais, que nos dão alguma noção do mundo exterior.

Reconheço que, em toda evidência, essa sensibilidade especial não tem receptor conhecido. Mas isso não é suficiente para se recusar a palavra sentido.

De mais, creio poder chamar criptestesia a essa sensibilidade especial paranormal, obscura e misteriosa (como o indica a palavra criptestesia) sensibilidade das excitações que não afetam os nossos sentidos normais.

Osty prefere a palavra metagnomia à palavra criptestesia, mas são duas coisas completamente diversas. Há a sensibilidade paranormal (ou criptestesia) que nos permite chegar a metagnomia, isto é, ao conhecimento paranormal. Do mesmo modo que a sensibilidade da retina conduz à visão, do mesmo modo a criptestesia conduz a metagnomia.

A segunda crítica que fazem Osty e Veltrani à denominação de sexto sentido é que tal expressão quer dizer, segundo eles, simplificar em extremo os fatos muito complicados.

Mas eu nunca – ó grande Deus! – pretendi que os fenômenos realçados dessa sensibilidade que chamo de sexto sentido se tornem explicáveis. A complexidade torna-se terrível. Entretanto, qualquer que seja essa complexidade será sempre necessário admitir, como base de todos os fenômenos, uma sensibilidade especial do organismo.

Quer seja pela vibração sincrônica de um cérebro vizinho (telepatia), quer seja pela vibração da realidade (escrita ou não) quer seja pela ação de um fantasma, quer seja por uma outra influência, será sempre necessário supor que a inteligência humana foi despertada por um fenômeno exterior qualquer.

A sensibilidade a esse fenômeno é a criptestesia. É uma palavra que fixa de maneira absoluta, mas que nada explica, assim como a sensibilidade da retina não explica o conhecimento do mundo exterior. Que eu veja uma peça de teatro, que eu ouça uma ópera, a sensibilidade dos olhos e a dos ouvidos são necessárias, mas nada fixam se o cérebro não trabalha sobre as sensações recebidas e se não há exteriormente uma peça de teatro ou um drama ou uma opera que desperte as minhas percepções. O sexto sentido só quer dizer uma coisa: é que somos insensíveis às vibrações ou, se quiserem, aos fenômenos que não fixam nossos sentidos normais.

Em resumo, podemos resolutamente concluir – e esta conclusão é de importância fundamental – que a hipótese de telepatia e a hipótese de uma vibração da realidade se confundem em numerosos casos.

Toda telepatia é uma percepção da realidade, enquanto que muitas realidades, que nos fazem conhecer o sexto sentido, não podem chegar ao conhecimento por uma telepatia qualquer.

Haverá para esse conhecimento paranormal
a intervenção de um poder estranho?

No capítulo precedente determinamos por experiências precisas que, em certos casos, a nossa inteligência pode conhecer o que jamais nos ensinaram os nossos sentidos normais.

Agora vamos discutir essa espantosa questão de saber se pode haver conhecimento paranormal sem a intervenção de um espírito, diversamente dito, de uma força estranha.

Isso é grave, pois os espíritas, dos quais seria estúpido não reconhecer os nobres esforços, afirmam que muitas vezes esses fenômenos são devidos a uma personagem, um espírito, dizem eles, que influenciam o médium:

Dividiremos, pois, essas experiências de lucidez em dois grupos:

A – Casos em que não se pode admitir a intervenção de um espírito;

B –  Casos em que a intervenção de um espírito é possível.

Grupo A:
Intervenção alguma de uma força estranha é admissível.

Além dos exemplos já apresentados, experiências de Ossowietzky e de Alice, ainda citarei algumas que me são pessoais. Elas parecem provar claramente que muitas vezes a influência de uma personagem estranha não é necessária.

I – Há muitos anos eu visitava uma velha senhora, não profissional – dotada da escrita automática – que naturalmente jamais visitara meu laboratório e que nada entendia das coisas de Fisiologia. No decurso da conversa, digo-lhe: “Dar-lhe-ei daqui a pouco uma lição sobre o veneno das serpentes”. Imediatamente ela me responde: “Esta noite sonhei com serpentes, ou antes, com enguias”. Então, sem dizer porque, eu lhe peço que me relate seu sonho.

Eis aqui textualmente suas palavras:

“Eram mais duas enguias que duas serpentes, porque eu via seus ventres brancos e suas peles viscosas. No sonho eu disse: não gosto muito desses animais, entretanto, tenho pena quando os maltratam”.

Ora, esse sonho foi assombrosamente semelhante àquilo que eu fizera na véspera (1° de dezembro). Nesse dia eu havia feito, pela primeira vez desde há vinte anos uma experiência, em meu laboratório de Boulevard Brune, em duas enguias para tirar-lhes o sangue diretamente do coração. Eu as havia amarrado sobre a mesa. Seus ventres brancos, nacarados, reluzentes, haviam-me singularmente impressionado.

Essa bela observação não pode ser explicada pela intervenção de um espírito. Houve no sonho da Senhora X a visão do que eu havia feito durante o dia.

Telepatia ou lucidez, pouco importa. Deve-se admitir o sexto sentido, tanto numa hipótese quanto na outra.. Em todo caso, é absurdo crer na intervenção de um espírito.

II – A segunda experiência que citarei é uma experiência toda pessoal.

Cerca das oito horas da manhã, em 1907, eu estava profundamente adormecido. Sonhava que me encontrava com a Senhora Charcot a quem não conheço, com quem nunca falei e a quem jamais vi. De automóvel atravessávamos uma álea de plátanos. Era a Senhora Charcot quem dirigia. Mas o auto seguia tão rapidamente que eu temia um acidente. Esse acidente dá-se e desperta-me. O acidente foi simplesmente a chegada do carteiro que me trazia uma carta registrada. Ora, imediatamente, ao tomar essa carta, imaginei (por que? isso é bem singular) haver qualquer relação entre meu sonho e a carta registrada que me chegava. Estava de tal forma persuadido que, para fornecer um sinal material, fiz sobre o registro postal de assinaturas uma pequena cruz (que, sem dúvida, poderia ser ainda encontrada). Foi a única vez que fiz um sinal sobre o registro.

Pois bem, a carta vinha dos Açores. Era de meu amigo o Coronel Chaves que me pedia uma apresentação para Jean Charcot, filho do Professor e da Senhora Charcot. Jean Charcot, a quem eu ainda não conhecia, devia chegar algumas semanas depois às ilhas dos Açores, em seu iate “Pourquoi Pas?”.

Nesse sonho tudo é estranho, principalmente minha idéia, imaginando uma relação entre o sonho e a carta registrada. Não há necessidade de insistir para mostrar que o acaso não pode ser invocado. A probabilidade de essa carta relacionar-se com Charcot é extremamente fraca. Foi a única vez que sonhei com a família de Charcot. Foi, aliás, o único sonho monitório que tive (salvo um sonho relativo à Marcha Fúnebre, de Chopin).

III – Assinalarei agora algumas experiências, belíssimas às vezes, de Pascal Forthuny.

Aos 15 de novembro de 1925, Forthuny, em uma reunião onde se encontravam umas quarenta pessoas, dirige-se ao encontro de uma delas que, pela primeira vez, ia à avenida Niel, ao Instituto Metapsíquico. Era o Senhor Papp, redator de um jornal de Viena. O Senhor Papp, que Forthuny não conhecia, sabia espanhol, italiano, francês e alemão.

Diz-lhe Forthuny: “Em seus trabalhos há um misto de cultura alemã e observações meridionais.” – Sim. – (Forthuny) Eu não me surpreenderia se o senhor escrevesse algumas obras. Darei dois exemplos que são definidos por dois nomes: Lessing e Leopardi.

Ora, a dissertação inaugural de doutorado do Senhor Papp tratava da “Influência de Voltaire sobre Lessing”.

Forthuny – O senhor conheceu em Heidelberg uma pessoa chamada Hugo?

Sr. P. – Sim, tenho um amigo que se chama Hugo

F. – E Vera, uma jovem russa?

Sr. P. – Conheço uma russa, mas ela não se chama Vera.

F. – Será Era?

Sr. P. – Não, ela se chama Ara.

F. – Pois ela está como se tivesse saído de um túmulo, esteve gravemente enferma, de uma enfermidade mental. Hoje está curada e falará em público.

Sr. P. – Com efeito, essa jovem teve uma enfermidade gravíssima. Sofreu uma crise de melancolia inquietante; é uma atriz que vai representar pela primeira vez, estando hoje cheia de entusiasmo por sua carreira.

Esse é o tipo da sensibilidade extraordinária de Forthuny. Nele o sexto sentido está maravilhosamente desenvolvido. Seria absurdo ver-se a intervenção de um desencarnado, quer seja um conluio qualquer, quer seja o acaso.

Darei ainda um outro exemplo da lucidez de Forthuny, exemplo esse que não se encontra no livro interessantíssimo e muito documentado que Osty lhe consagrou.

Levei Forthuny à casa de minha prima, marquesa M. G. de Montebelo, para que ele lhe desse algumas provas de sua formidável lucidez. Após diversas indicações, em geral curiosas e interessantes, nós lhe pedimos uma bem mais importante que as outras, apresentando-lhe uma linda miniatura que se achava sobre um móvel. Essa miniatura, da qual Forthuny, como artista, poderia perfeitamente conhecer a data, o autor e mesmo a pessoa representada, era um delicioso retrato da Senhora Recamier. Forthuny toma-o, olha-o, vira-o de todos os lados e diz: “É estranho, vejo um homem, que beija freneticamente esta miniatura, a chorar convulsivamente. Quantas lágrimas!

Ora, essa miniatura era um retrato que a Senhora Recamier tinha, de Paris, mandado a J. J. Ampère, então em Roma. O jovem Ampère, embora a grande diferença de idade, estava loucamente apaixonado pela Senhora Recamier e em uma carta que foi conservada (e publicada) ele relata que depois de haver recebido esse retrato passou a noite a contemplá-lo e a chorar.

Se reunirmos esses diferentes casos, escolhidos entre uma centena de outros, todos da mesma forma autênticos, chegamos à conclusão de que o conhecimento das coisas exteriores chega, às vezes, à inteligência humana sem que nossos órgãos sensoriais normais nem nossa sagacidade tenham podido dar-nos o dito conhecimento; e além disso, sem que se possa, de forma alguma, invocar a ingerência dos espíritos.

Já vimos que a explicação pela telepatia não é suficiente. Ela também não é suficiente para esses casos que acabo de narrar. Se há, pois, conhecimentos paranormais da realidade sem telepatia, as emoções do agente A ou suas vontades, sendo uma realidade, é muito mais simples dizer que elas são recebidas porque são realidades não materiais, mas mentais. E principalmente porque, pelo menos para os exemplos que acabo de dar, seria ridículo imaginar uma outra personagem, um espírito que intervém.

Em todo caso, telepatia ou não, esse conhecimento que chamamos, com Boirac e Osty, metagnomia, significa uma sensibilidade especial, que chamo de criptestesia.

No mundo que conhecemos, mundo do qual a ciência cada dia descortina imperfeitamente algum novo mistério, tudo não parece passar de vibrações. A luz, o calor, a eletricidade, os sons, não passam de vibrações, mesmo admitindo a mecânica ondulatória de M. de Broglie.

Há vibrações em volta de nós, em diversidade sem dúvida imensa, mas por nossos sentidos normais só percebemos um pequeno número. Muitas, sem dúvida, nos escapam. Engenhosos aparelhos fazem-nos conhecer algumas. Mas seria pueril crer que, mesmo com o auxílio desses aparelhos, conhecemos todas. Efetivamente, é bem provável que todas as realidades, percutindo em vibrações mais ou menos rápidas, produzem ondas que podem agir sobre o nosso sexto sentido. Estamos cercados, sem o saber e sem o compreender, pelas vibrações mesmo das mais longínquas realidades. Conhecemos algumas: calor, luz, atração, eletricidade, emissões da telegrafia sem fio, ondas vibratórias hertzianas, raios cósmicos; mas devemos supor, sob pena de um antropomorfismo ingênuo, que há muitas outras. Ora, essas ondas não desaparecem. Elas se atenuam, se transformam. Talvez elas jamais se extingam completamente. Os mares, disse eu em algum lugar, ainda estão agitados pelo sulco das naus de Cleópatra.

Demais, essa não é a dificuldade principal. Que essas ondas vibratórias da realidade existam é extremamente provável e mesmo quase certo. Mas que indivíduos (os quais, aliás, não parecem ser inteligentes, nem mais notáveis que o comum dos homens) possam só eles ser algumas vezes movimentados por essas ondas, eis o que é muito mais difícil admitir. Não obstante, os fatos aí estão... e então?

Em todo caso, a explicação pelas ondas vibratórias, apesar de bem hipotética, é, para os fatos que apresentei até aqui, muitíssimo mais simples que todas às outras. Mas, como demonstrarei, está longe de ser suficiente.

Grupo B:
Casos em que se pode rigorosamente supor
a intervenção de uma inteligência estranha

1°) Alucinações verídicas simples:

A primeira observação que apresentarei é de grande importância, pois foi ela que fez o ilustre William James crer nos fenômenos metapsíquicas., (Proceedings of the American S. P. R., 1. 2.)

Bertha, uma jovem, desaparece no dia 31 de outubro de 1898, em Enfield (New Hampshire). Procuram-na ativamente. Mais de cem pessoas são enviadas para explorar os bosques e a beira do lago. Sabia-se que ela se dirigira em direção à ponte Shaper. Um escafandrista fizera explorações do lado da ponte, mas nada encontrara. Ora, na noite de 2 para 3 de novembro, a Senhora Titus, numa cidade a três quilômetros de distância, sonha que vê o corpo de Bertha em um determinado lugar. Na manhã seguinte ela vai à ponte Shaper e indica ao escafandrista, numa distância de uma polegada, o lugar onde se achava o corpo de Bertha; “de cabeça para baixo, diz ela, e de maneira que só se pode ver a sola de seus pés”. O escafandrista, seguindo as instruções da Senhora Titus, encontra o corpo envolto em ramagens, a 7 metros de profundidade. A água estava muito escura. “Fiquei impressionado, disse o escafandrista; os cadáveres na água não me amedrontam, mas tive medo da mulher que estava sobre a ponte. Como pôde uma mulher vir de três quilômetros para dizer onde se achava o corpo?” O cadáver jazia em um buraco profundo, de cabeça para baixo; estava tão escuro que quase nada se via.

Pode-se, com maior rigor, supor que esse belo caso, que causou tão viva impressão no grande William James, comporta uma vaga explicação espírita. O espírito de Bertha, morta aos 31 de outubro, pôde, não obstante ser pouco verossímil, manifestar-se para a Senhora Titus, em um sonho!

Foram os meus amigos da S.P.R. inglesa que deram o nome de alucinações verídicas [11] aos fatos relativamente numerosos, nos quais um fenômeno (geralmente uma morte) é anunciado pelo fantasma do morto, aparecendo quer seja em sonho, quer seja em estado de vigília, e anunciando dessa forma a morte do indivíduo. Há muitos casos notáveis nos Phantasms of the Living e nos livros de Flammarion. Contentar-me-ei em citar três, abreviando o que eu disse no meu livro acerca do sexto sentido.

1. Caso Wingfield – No camarote de seu iate, o Sr. F. Wingfield, ao se deitar, divisa distintamente seu irmão Richard Wingfield Baker, sentado numa cadeira em sua frente. Mas seu irmão inclina a cabeça sem lhe responder. Era cerca de meia-noite. Essa visão foi tão nítida e angustiante que F. W. se levantou e saiu do camarote. Depois escreveu em seu diário:

“Aparição. Noite de quinta-feira, 20 de março de 1880.

R. B. W. B. (Richard Baker, Wingfield Baker) Deus nos livre.”

Três dias depois, Frederic Wingfield recebe a notícia de que seu irmão R. W. B. morrera, quinta-feira, dia 20 de março, às 20 horas e 30 minutos, em seguida a terríveis ferimentos ocasionados por uma queda de cavalo, durante uma caçada.

2. Caso Frederic – J. S. e Frederic S. eram empregados do mesmo escritório. Na segunda-feira, 18 de março de 1883, Frederic sentiu-se ligeiramente doente. No sábado, 24 de março, J. soube que Fred, a conselho de um médico, ficaria de repouso durante 2 ou 3 dias. Ora, no mesmo sábado, 24 de março, à noite; cerca das 20 horas, J., estando no quarto com sua mulher, de repente avistou Fred, que se conservava de pé diante dele e vestido como sempre. J. notou os detalhes de seu vestuário, um chapéu de fita preta, o paletó desabotoado e a bengala na mão. O fantasma fitou J. e desapareceu. “Meus cabelos eriçaram-se, disse J., um arrepio percorreu-me o corpo e repeti as palavras de Job: Um espírito passou em minha frente e minha pele arrepiou-se toda”. Voltou-se então para sua mulher e lhe perguntou: “Que horas são?”.

– Faltam doze minutos para move horas.

– Portanto, disse ele, Frederic morreu às 9 horas menos doze. Acabo de o ver.

– Que tolice, respondeu sua mulher, amanhã quando você for à cidade há de o encontrar perfeitamente bem.

Na realidade, Fred, que estava apenas adoentado, foi encontrado morto em seu leito, e sem que a hora exata pudesse ser determinada. Deve ter morrido entre, 20 e 21 horas.

3. Caso d’Escudet – Eis aqui o caso que me foi relatado por meu excelente amigo Gaston Fournier, caso esse testemunhado por ele próprio.

Gaston é convidado para jantar com seus amigos o Sr, e a Sra. B. Também esperavam d'Escudet para jantar, pois os quatros depois iriam ao teatro. Mas d'Escudet não apareceu. Jantaram alegremente sem falar em d'Escudet. À sobremesa, a Sra. B. levantou-se para ir pôr o chapéu. Entra em seu quarto, cuja porta, ficando aberta, dá para a sala de jantar.

“B. e eu – escreve Gaston – estávamos sentados à mesa, fumando nossa cigarro, quando, após alguns minutos, ouvimos um grito terrível. Precipitamo-nos no quarto; a Sra. B. estava quase desmaiada.

– Eu estava – disse ela – colocando o chapéu diante do espelho, quando de súbito vejo d'Escudet entrar pela porta. Trazia seu chapéu na cabeça e estava pálido e triste. Sem me voltar, digo-lhe: Até que enfim chegou, d'Escudet; sente-se. E como ele não me respondesse, virei-me e nada mais vi. Então, soltei o grito que me ouviram.

B. e eu quisemos gracejar, mas a Sra. B. disse-nos tratar-se de um caso extremamente sério. Fomos então à casa de d'Escudet, que morava nas proximidades. Encontramos a porta fechada. Chamamos um serralheiro e encontramos o corpo de d'Escudet ainda quente, deitado no leito e varado por dois tiros de revólver.”

Escolhi esses três casos que me parecem característicos. Há muitos similares nos jornais especiais, mas nesses três a monição da morte é de uma precisão surpreendente.

A hipótese do acaso, de uma coincidência fortuita, é inverossímil. Em primeiro lugar, nem J. S. nem a Sra. B. tiveram outras alucinações durante a vida. Pois bem! trata-se de uma visão que ambos tiveram, coincidindo exatamente – numa demora insignificante – com uma morte que nada poderia fazer prever.

Se aplicarmos a esses fatos, o que é difícil e absurdo, o cálculo das probabilidades, admitindo trinta anos de vida para cada um dos três percipientes, isso faz para cada um deles mais ou menos dez mil dias, então, para a morte de Wingfield, de Fred e de d'Escudet, a probabilidade composta de uma coincidência entre essas mortes e a visão alucinatória é de 1/10.000.000.

Certamente, o acaso pode dar isso, pode mesmo dar muito mais. Mas então cairemos no absurdo. Não! não é o acaso, não é uma coincidência.

Será um fenômeno de telepatia? O pensamento do morto ou do agonizante ter-se-ia transmitido através do espaço para acionar o sexto sentido e provocar então uma imagem alucinatória?

Hipótese bem difícil para ser admitida. O fantasma volta completamente vestido, com sua bengala e seu chapéu. O corpo astral seria, portanto, acompanhado de vestimenta, de gravata, de chapéu, de sobretudo, de bengala?

Deve-se evidentemente admitir um símbolo. Não havia certamente nenhuma realidade objetiva, e se tivessem um aparelho fotográfico não teriam conseguido imagem alguma. A mulher de J. S. nada viu, nada mais que Gaston, e a Sra. B. nada mais que os marinheiros do iate de Wingfield.

Será a percepção de uma realidade, indo tocar a inteligência do percipiente, que então, sob a influência dessa sensação confusa, tece uma alucinação simbólica?

Não se pode hesitar senão entre estas duas hipóteses: a percepção da realidade pelos sensitivos ou o pensamento do morto, do espírito, do desencarnado, transmitindo-se por telepatia às pessoas que ele quer advertir.

Ora compreendo que se hesite entre essas duas hipóteses.

Demais, ambas nos conduzem ao incompreensível. Mas, de minha parte, prefiro supor uma lucidez, como a pouco vimos em tantos exemplos; nada mais ser que a intervenção de um espírito.

Já falamos dos conhecimentos que a inteligência pode possuir a respeito das coisas exteriores, quando os sentidos normais nada lhe podem fazer saber. Nos exemplos apresentados vimos que a hipótese de espírito, isto é, de uma personagem nova, era completamente inadmissível. Aqui, ao contrário, podemos encarar, certamente não como provável, mas com todo rigor possível, a intervenção de um espírito que se materializa, dando-se a conhecer ao percipiente.

2°) Alucinações verídicas coletivas:

O que complica prodigiosamente a questão é a existência das alucinações verídicas coletivas. Eu poderia mencionar uma trintena, mas contentar-me-ei com citar três, pois me parece que a repetição não interessa muito ao leitor, não o levando a uma convicção mais forte.

Eis talvez uma das mais importantes que foram assinaladas.

A Senhora Wickham, em Malte, ia todos os dias ao hospital onde estava sendo tratado o Sr. B., oficial inglês, de um ferimento recebido em Tell-El-Kebir. O ferimento gangrenou, tornando a morte iminente. Entretanto, tendo os médicos assegurado à Sra. W. que o fim não se daria nessa noite, ela regressou para sua casa. Cerca das 3 horas, seu filhinho, com a idade de 9 anos, a chama gritando: “Mamãe, mamãe, o Sr. B. está aqui”. “Levantei-me apressadamente, disse a Senhora Wickham. A imagem do Sr. B. flutuava por sobre o quarto a cerca de 16 centímetros do solo. Ela desapareceu, sorrindo, através da janela. Ele se encontrava em trajes de dormir, mas o pé doente, gangrenado, pareceu-me igual ao outro. Meu filho e eu o notamos. Após meia hora fui avisada de que o Sr. B. falecera.” (Phantasms of the Living, tomo II, p. 212).

O outro caso também é muito impressionante. Bozzano A. S. P., tomo 19, 1909, página 326).

A Sra. P., antes de se deitar, vê junto a seu marido, que já se encontrava no leito, uma figura representando um homem em uniforme de oficial de marinha. Ele conservava os cotovelos apoiados na cabeceira da cama e fitava o Sr. P. A Sra. P., então, acorda seu marido, que também vê a aparição e, estupefato, lhe grita: “Senhor, que veio fazer aqui?” A figura, erguendo-se lentamente, lhe disse com voz imperiosa: “Willy, Willy”, que era o apelido do Sr. P. Este se levanta, lívido, para agredir o estranho, mas o vulto, impassível e solene, atravessa o quarto, refletindo sua sombra na parede do quarto iluminado e desaparece através da parede. A porta estava fechada à chave. O Sr. P. então pensa tratar-se de seu pai que fora oficial de marinha e a que não conhecera. Pouco tempo depois o Sr. P. morreu.

O terceiro não é menos demonstrativo do que os dois precedentes. (Citação de Flammarion, p. 174).

A Senhora Obelcheff, em Odessa, estava deitada com seu filhinho e a seu lado dormia, no chão, Claudine, sua empregada. De súbito a Sra. O., erguendo os olhos em direção da porta, vê seu sogro entrar lentamente, de chinelos e vestido com um roupão xadrez que a Sra. O. jamais vira. O fantasma passou por cima dos pés da empregada e sentou-se suavemente em um sofá. Nesse momento a pêndula anunciou vinte e três horas.

“Eu estava certa – disse a Sra. O. – de que via distintamente meu sogro, mas nada falei a Claudine que, tremendo de medo, me disse: “Vejo Nicolas Nilovitch” (nome de meu sogro). Ele então se levantou, passou novamente por cima dos pés de Claudine e desapareceu. Examinamos o apartamento, nada mais encontramos!”

Nicolas Nilovitch, que a Sra. O. e Claudine viram, morria justamente nesse momento em Tver.

Pois bem! para as alucinações verídicas simples, já mencionadas, poderíamos supor tratar-se somente de alucinações, isto é, que o fantasma não tinha nenhuma realidade objetiva. Poder-se-ia crer que, graças ao sexto sentido, o conhecimento de uma realidade é recebido e que a inteligência inconsciente do percipiente a simboliza. Dessa forma, A. sabe pelo sexto sentido que B. morreu; A. então simboliza essa noção e vê B. como se B. estivesse vivo, de chapéu, bengala e gravata.

Mas, quando a alucinação é coletiva, essa explicação torna-se insuficiente.

Realmente, como supor que duas pessoas tenham a mesma alucinação? Somos quase forçados a admitir a realidade objetiva do fantasma.

Que mundos misteriosos nos são então descortinados! Que um fantasma objetivo volte com um uniforme, com um roupão ou com uma camisola, é prodigiosamente absurdo. Haverá então materialização da camisola, do roupão, do uniforme?

Então, o fato de alucinação coletiva objetiva, tão bem demonstrada, nos permite duvidar que nas alucinações verídicas simples também não há nenhuma realidade objetiva.

Entretanto, em alguns casos, por exemplo, no caso de Frederic S., a mulher de S. não viu o fantasma que seu marido vira.

Os fenômenos são de tal forma misteriosos que explicação alguma é suficiente. Prosseguindo neste estudo veremos que quanto mais avançamos em domínios desta ordem, tanto mais impotentes nos tornamos para chegar a uma conclusão. Todas as teorias são absurdas, desesperadamente absurdas.

Eis-nos aqui no limite entre a Metapsíquica mental e a Metapsíquica objetiva.

Devo, portanto, relatar alguns casos de fantasmas vistos muitas vezes por inúmeras pessoas, nas chamadas casas mal-assombradas. A assombração das casas é um dos fatos mais debatidos na Metapsíquica. As casas mal-assombradas aproximam-se muito das alucinações coletivas.

Os casos principais de fantasmas, freqüentando as casas, foram apresentados, num excelente relatório da S. P. R. (março 1882, página 144).

Bozzano escreveu a respeito um livro muito documentado (Les phenomènes de hantise, prefaciado por J. Maxwell, tradução francesa, Alcan, 1919).

Mais que todos os outros fenômenos, é mister desconfiar enormemente, em primeiro lugar, da credulidade do público e, em segundo, do embuste, pois, muitas vezes, encontramos para explicar os fenômenos estranhos das casas mal-assombradas, a existência na casa de uma criança, de um adolescente, mais ou menos idiota, de um místico mais ou menos histérico. Mas essa explicação não é admissível quando se trata de um ser espectral claramente divisado, muitas vezes por pessoas diferentes, de saúde intelectual irrepreensível.

Aqui, darei somente alguns casos nos quais o fantasma foi visto por diversas pessoas.

I – A Srta. Morton, estudante de Medicina, filha do Capitão Morton, num caso cuidadosamente estudado por Myers, viu diante dela, no corredor de sua casa, uma forma de mulher, uma dama alta, vestida de preto. Sobre sua cabeça havia alguma coisa preta que parecia uma touca envolta por um véu. Quando a Srta. Morton lhe falou, a forma espectral imobilizou-se, parecendo estar sempre fora do alcance da Srta. Morton.

“Algumas vezes eu a via – disse a Srta. Morton –, mas ninguém mais a divisava. Uma noite, por volta das oito horas, quatro pessoas puderam vê-la. Aos doze de agosto, minha irmã E. viu-a a seu lado e entrou correndo na sala para chamar-me. Ambas então a vimos. Ela permaneceu parada durante dez minutos e depois se dirigiu para o jardim. Minha irmã M. viu-a subir a escada e minha irmã K., que se achava na janela, viu-a passar pelo jardim e desaparecer.”

Logo, a aparição (de 1882 a 1886) parecia tão segura e real que se podia tomá-la por um ente vivo. A partir de 1886 ela se tornou cada vez mais distinta e desde 1889 não mais foi vista, ouvindo-se somente o ruído de seus passos.

Duas observações interessantes: 1° – algumas vezes, inúmeras pessoas a viam ao mesmo tempo, outras vezes ela era divisada por todos, o que faz pensar que a objetividade era incompleta, acessível somente a alguns sensitivos, talvez passageira. 2° – A Srta. Morton fez uma experiência instrutiva, dispondo fios elétricos na escada. Ora a forma passava através desses fios sem os partir.

II – A Srta. Marg. Vatas Simpson conta que quando criança, brincando com seus irmãos e irmãs, viu muitas vezes, assim como todos, uma velha descer a escada. Ela usava um velho vestido preto, uma mantilha de veludo sobre os ombros e uma grande touca na cabeça.

“Nós lhe tínhamos um pouco de medo e nos aprontávamos para a defesa, caso ela nos atacasse. Meu pai, Senhor Vatas Simpson, não nos permitia falar nisso e não acreditava absolutamente no que lhe contávamos. Entretanto, havia ruídos extraordinários e inexplicáveis na casa, vagidos comovedores de recém-nascidos, cantos melancólicos que quase sempre terminavam em gritos desesperados. Mas meu pai conservava-se incrédulo. Contudo, uma noite, ele viu, sem que a porta se abrisse, em seu quarto iluminado por um bico de gás, a pequena e frágil velhinha com sua touca enorme na cabeça. Ela parecia deslizar e desapareceu como entrou. Meu pai nunca mais quis ouvir nada a esse respeito.”

III – O terceiro caso é o mais extraordinário de todos. Trata-se de duas senhoritas inglesas que publicaram um livro intitulado An Adventure, Londres, Macmillan 1911,[12] srta. Morrison e Srta. Frances Lamonte (pseudônimos). Ora, elas relatam que, em agosto de 1901, indo pela primeira vez a Versalhes e ao Petit Trianon, de súbito viram, primeiro um indivíduo de aparência repugnante e depois um indivíduo alto de cabelos crespos que lhes disse gritando:

“Minhas senhoras, não passem aí.”

“Chegamos – contam elas – diante de um pequeno palácio onde uma mulher, vestida com um costume antigo, entregava um vaso a uma jovem de uns quinze anos que tinha uma touca branca na cabeça.”

Numa segunda visita ao Petit Trianon, as duas viram outras personagens e ouviram música.

Em seguida, ambas fizeram uma averiguação e constataram que as paisagens vistas, entre elas uma pequena ponte de madeira, assim como os costumes usados pelas personagens divisadas (e com as quais elas haviam falado!) correspondiam ao Trianon de 1789 e aos costumes da época.

Ambas as narrações, tanto da Srta. Lamonte como da Srta. Morrison, coincidem absolutamente.

Portanto, eis aí uma alucinação coletiva que se repetiu em poucas semanas de intervalo. Falando a verdade, as personagens observadas pelas duas jovens foram quase as mesmas.

Como sempre, é fácil pôr em duvida a autenticidade dessa história extraordinária. No entanto, como admitir essa dupla alucinação se não havia certeza na objetividade dos fenômenos exteriores?

Já vimos que há alucinações coletivas, tendo alguma relação com um acontecimento atual, mas agora precisamos ir mais longe. Parece que em certos casos os fantasmas podem residir numa casa. Hesito em escrever isso. É de tal forma extraordinário, contudo é verdade e não se trata verdadeiramente de fantasmas reais objetivos no sentido que se dá a essa palavra, porque esses fantasmas não são palpáveis e suas imagens não se refletem num espelho, mas atravessam paredes, entram e saem por uma porta fechada. Tudo se passa como se fossem unicamente imagens. Mas que imagens extraordinárias! Quanto às explicações de Podmore, de Bozzano e de Myers são insuficientes! E ousarei dizer: ridículas!

E a verdade é que não temos melhores para apresentar.

Esses fantasmas serão desencarnados que voltam?

Abordaremos aqui uma outra questão, talvez a mais importante deste estudo, que é saber se esses fenômenos podem ser explicados pela ingerência de uma personalidade estranha, de um morto que volta, de um espírito e se podemos supor que as palavras, as imagens, os escritos que se obtêm são devidos a um ser sobrevivente. Essa sobrevivência é a base da religião espírita.

Sabemos que em todas as experiências espíritas há um guia, o que Maxwell judiciosamente denominou de uma personificação. Uma personalidade nova toma lugar com uma intensidade de vida surpreendente.

Mas não devemos iludir-nos sobre a vida da personalidade que aparece.

Realmente, pude provar que as personagens hipnotizáveis e hipnotizadas adquiriam maneiras rigorosamente semelhantes aos tipos que eu lhes sugerira. É o que denominei de objetivação dos tipos.

Aqui darei somente alguns exemplos simples. Uma senhora minha parenta, respeitável e idosa, mãe de família muito religiosa, é transformada por mim em atriz, em dançarina. Diz-me ela então:

“Você está vendo esta saia, meu bem, foi o Diretor que me obrigou a encompridá-la. Que pena! Quanto mais curta, melhor fica. Como são cacetes esses Diretores!... Você é muito tímido com as mulheres! Vá à minha casa às três horas. Poderemos conversar porque estarei só...”

Digo-lhe depois que é General. Então, imediatamente, ela assume um ar marcial, dá ordens, cai por terra imaginando-se ferida durante uma batalha. Procuro persuadi-la – a despeito de suas opiniões ultra-reacionárias – de que Gambeta é um grande homem. Responde ela: “Ah, sim! é como um véu que se rompe!”.

Uma outra mulher, um modelo de atelier, é transformada em General. Ela assume um ar completamente diferente. Pede um absinto, jura, fuma, encoleriza-se contra um oficial. A mesma mulher é transformada em pasteleiro, a saber, um indivíduo determinado com o qual, tempos atrás, estando a seu serviço, ela teve uma séria contenda, tomando então resolutamente o partido desse pasteleiro contra ela própria.

Tudo se lhe tornou real. Eu lhe disse que iria fazer-lhe uma operação e cortar-lhe a mão. “Eis, disse-lhe eu, o sangue que corre”. Foi quando fiquei horrivelmente assustado, porque ela teve uma síncope e caiu.

Algumas vezes as personificações se tornam de tal forma intensas e ridículas que hesitamos em narrá-las. Disse a meu caro amigo Ferrari que fora transformado em papagaio, ele me diz então seriamente: “Será que posso comer o milho que se acha em minha gaiola?” O estado de credulidade foi bem denominado por de Rochas como uma das condições do sonho.

Por conseguinte, o eu normal se acha transformado em um eu novo cuja vida psicológica é intensa, o que nos faz refletir fortemente na realidade objetiva dos eu novos que aparecem no Espiritismo. Eusápia persuade-se de que é John King, a Sra. Thompson crê que é sua filha Nelly quem fala, a Sra. Leonard crê que é sua filha Feda quem está presente. Stainton Moses tem diferentes personalidades que aparecem: Rector, Imperator, Mentor, Prudens, tendo cada um deles uma escrita diferente e especial e uma linguagem toda particular. A Senhora Piper, em primeiro lugar, foi um estranho médico francês, chamado Phinuit, que, tendo exercido a Medicina em Metz, não sabia mais francês porque, disse ele, possuía tantos clientes ingleses em Metz que se esquecera de sua língua natal.

Portanto, é necessário ser-se muito reservado, quando um médium nos diz: “Sou John King, sou Nelly, sou Feda, sou Phinuit, sou Imperator”, pois é verossímil que esses eu novos sejam puras ficções.

Contudo, há certos casos nos quais essas personalidades novas, em vista das indicações precisas e recordações extraordinariamente exatas, parecem ser realmente as pessoas desaparecidas.

Seguramente os casos mais admiráveis são os de Georges Pelham, encarnado pela Senhora Piper, e o de Raymond Lodge, encarnado pela Sra. Leonard.

De repente, a Senhora Piper diz: “Sou Georges Pelham, chamem meu pai, minha mãe, meus amigos Howard e meus amigos Vance”. E quando eles chegam, a Senhora Piper conversa com seus interlocutores absolutamente como se ela fosse Georges Pelham. As conversações da Senhora Piper transformada em Georges Pelham foram relatadas em um volume enorme.

Encontramo-nos, pois, em presença de duas grandes dificuldades: é um dilema terrível que não receio estabelecer porque ambos os lados desse dilema são igualmente inverossímeis. Ou é Georges Pelham quem se acha presente, sendo, portanto, a sobrevivência dos indivíduos que devemos aceitar, ou não é Georges Pelham, não havendo senão a Senhora Piper, mas a Senhora Piper munida de uma tal lucidez que ela conhece tudo que sucedeu com Pelham, que fala e pensa como ele. Em ambos os casos o inverossímil é formidável.

O que digo de Georges Pelham e da Senhora Piper é também aplicado a Raymond e à Sra. Leonard. Raymond, filho de Oliver Lodge, fala com seu pai pela voz da Sra. Leonard, exatamente como se ele sobrevivesse. Ora, devo dar grande importância à convicção profunda de Oliver Lodge que se trata realmente da sobrevivência de Raymond.

Bozzano esforçou-se para provar a identificação dos espíritos. (Dei casi d'Identificazione spiritica). Uma das provas à qual ele dá grande importância é que algumas vezes o médium (ou antes, o guia do médium), quando se lhe faz uma pergunta que ele não pode responder, diz; “Vamos consultar um de nossos amigos” (um amigo do além, bem entendido). Assim, pois, M. Newbold apresentando um texto grego, a Senhora Piper diz não o compreender, indo em busca de Imperator para explicá-lo.

Todas as provas de identificação espírita podem ser mais ou menos explicadas por uma enorme lucidez. Da mesma forma, essas chamadas consultas que os espíritos fazem a seus companheiros do além, não passam talvez de uma comédia. E não uso essa palavra no sentido pejorativo. É provavelmente um símbolo, símbolo de hesitação e de investigação.

A terrível questão de identificação dos espíritos é a essência da religião espírita. Estamos todos de acordo (refiro-me aos sábios que estudaram esses problemas sem prevenções rotineiras), para dizer que os fenômenos da lucidez existem e, mesmo, que há fantasmas e telecinesias. Mas quando se trata de saber se essas respostas lúcidas são devidas ao espírito de um morto que voltou e que fala pela voz do médium, ou então se é a inteligência quase sobre-humana do médium que, sem a intervenção de uma personagem falecida ou de qualquer outra força extra-humana, pretende ser este ou aquele morto, declaro-me incapaz de me pronunciar de maneira definitiva.

No entanto, estou propenso a crer que não há sobrevivência de um morto e a volta desse morto no pensamento, na voz e nos gestos do médium, porque facilmente, com uma facilidade deplorável, o médium adota a personalidade que se lhe impõe ou que ele inventa. Em casa de Victor Hugo, seu filho Charles, poderosíssimo médium, escrevia versos e prosas admiráveis que atribuía a Tyrtée, a Ésquilo, a Sófocles, a Shakespeare, a Jesus Cristo, a Lutero, a Molière, a André Chénier. Essas personalidades, falando todas em francês, possuíam o mesmo estilo (mais o estilo de Charles Hugo que o de seu pai). Custa-me crer que Tyrtée, Jesus Cristo e o leão de Androcles tenham voltado.

Pudemos impor a alguns médiuns personalidades fantásticas que persistiram e que pareceram provar sua real existência por uma espantosa coerência que se perpetuava durante prolongadas séries de experiências. Ora, a objetivação dos tipos, como a objetivação das personagens de tal forma comum, de tal forma fácil nos médiuns perfeitamente sinceros, produzindo-se então com tais aparências de veracidade e verossimilhança, que me parece natural supor que quando uma personalidade aparece com todos os característicos evidentes de uma realidade, ainda não passará de uma aparência de realidade. Essa é a primeira objeção, aliás formidável.

Eis a segunda quase tão eficaz. Quando o fantasma do morto volta, não há somente a figura, a voz, os gestos, as maneiras que ele possuía durante sua vida terrestre, mas ainda os mesmos vestuários que usava. Como se pode explicar que haja materialização, não somente da figura do defunto, mas também de seus vestuários?

Para crer na identidade dos espíritos é preciso admitir uma quantidade de fatos inverossímeis e quase monstruosos. Não falo desta hipótese audaciosa que a inteligência pode funcionar sem o cérebro. Com efeito, tudo parece provar-nos que a ciência e a memória seguem juntas com a integridade cerebral. Quando o coração pára, quer seja durante meio minuto, toda função cerebral é abolida. É tão difícil um fisiologista admitir a existência da inteligência sem cérebro, quanto um lampista admitir que uma lâmpada ainda ilumine após a deslocação de todos os seus órgãos.

Na verdade, essas objeções, por mais fortes, não resistem a certos fatos. Quando é considerada a volta de Georges Pelham e que, pela voz da Senhora Piper, ele conversa durante muitos meses com uma vintena de antigos conhecidos, absolutamente como se Georges Pelham estivesse presente, só há explicações rebuscadas para dar a esses fatos uma outra interpretação que a sobrevivência de Pelham.

Dos dois lados só há, sob o ponto de vista de nossa miserável ciência contemporânea, o inverossímil e o absurdo.

Eis agora um fenômeno puramente psíquico de importância superior. Embora todos os fatos extravagantes (e autênticos) que acabamos de assinalar, das premonições, é ao mesmo tempo o mais extravagante e mais autêntico. Escrevi um livro a esse respeito (Paris, 1931) e, não querendo repetir, contento-me com assinalar dois ou três casos que me parecem de um valor indiscutível.

Para que haja premonição, isto é, indicação do futuro, é necessária e é suficiente:

1°)  que a premonição não seja provável, ou pelo menos que a probabilidade seja de tal forma fraca, de 1/100.000 por exemplo, que não se possa atribuir ao acaso a dita premonição;

2°)  o conteúdo dessa premonição deve ser escrito antes do acontecimento, ante eventum, ou pelo menos relatada antes do acontecimento a pessoas que a testemunharão;

3°)  a pessoa para quem foi prescrita a premonição não intervém no fenômeno.

E eis as três premonições das quais farei um inventário.

O Cavaleiro de Figueroa relata à sua mulher, em agosto de 1919: “Sonhei que, no fim de uma longa rua, encontrei uma cabana. Um camponês convidou-me a entrar. Sobre sua cabeça havia um chapéu preto. Entramos em uma estrebaria. Ao fundo se achava uma escada de pedra e um jumento impedia a passagem. No alto da escada havia um quarto com cebolas penduradas no teto: nesse quarto, três mulheres, uma velha, uma jovem e uma menina.”

Dois meses depois o Senhor Figueroa foi convidado para servir de testemunha de um de seus amigos, em um duelo. Chegando a Murano (Sicília, localidade que o Senhor Figueroa não conhecia nem de nome), vê a realização de seu sonho. O quarto, o camponês de chapéu preto, o jumento que é preciso afastar para subir a escada e as três mulheres.

a) A Senhora Verall escreve pela escrita automática, aos 11 de dezembro: “Ele estava a ler Marmontel, Mémoires, livro encadernado em dois volumes, que lhe fora emprestado em Passy ou Fleury. Estava deitado num sofá, ou na cama, à luz de uma única vela; fazia um frio impertinente”.

Ora, após dois meses e meio, um amigo da Senhora Verall, jantando em sua casa, aos 21 de fevereiro, o Senhor Marsh conta à mesa que lera as Mémoires de Marmontel à luz de uma vela, durante uma noite glacial. O livro compunha-se de três volumes, mas ele só emprestara dois da biblioteca de Londres. Foi em Passy e o nome de Fleury lá estava indicado.

Ler Marmontel, livro emprestado, à luz de uma vela, durante uma noite glacial, era formidavelmente inverossímil.

b) Alexis Didier, que, há quase um século, foi um vidente magnífico, disse em 1847, durante uma viagem sonambúlica que fez a Roma, ao passar diante do Panteon (que na Roma Papal era uma igreja): “No futuro esse monumento terá um destino mais solene e puramente italiano”. Essa predição de 1847, impressa em 1872, teve uma surpreendente realização, pois na cidade de Roma, tornada após 1872 a capital do reino da Itália, o Panteon deixou de ser uma igreja, tornando-se o mausoléu dos príncipes e dos reis da casa de Savoia.

A última premonição que citarei foi predita a Osty. Disseram-lhe:

“Em breve sabereis da morte de um homem de ciência que conheceis bem, um doutor, vítima de um desastre no estrangeiro. Separação numa viagem. Morte dupla. Transtorno de sua vida.” Era a premonição da catástrofe cruel que matou nosso pobre amigo Geley; queda de avião, morte dupla, a do piloto e a de Geley, transtorno da vida de Osty que se tornou diretor do Instituto Metapsíquico.

Também devo mencionar (brevemente) as experiências completamente novas que denominei “premonições experimentais”. Trinta e um papelinhos, contendo cada um deles um número escrito a lápis, são cuidadosamente dobrados da mesma maneira. Armand, um pintor meu amigo, irmão de Brigitte, indica o número que ela vai tirar. Com certeza comete erros, nem sempre Armand acerta, mas as respostas são bem superiores ao que daria a probabilidade. Há períodos de erros e períodos de surpreendente lucidez. Sob minha recomendação formal, Armand só faz uma experiência por dia, sempre numa probabilidade de, 1/36. Pois bem! numa certa semana, em seis provas, ele acerta 3 vezes. Portanto, é quase de 1/30.000.000.

O resultado de todas as experiências de Armand, não terminadas ainda, em relação a essa premonição experimental (cujo método é completamente novo) é de 11 sucessos em 64 experiências. Creio que com outros médiuns chegaríamos a resultados melhores.

Eu poderia desenvolver os belos casos de premonição. Procurando em meu livro os que desejava relatar aqui, fiquei embaraçado, pois poderia citar todos.

Quaisquer que sejam as nossas opiniões rotineiras, embora a enorme inverossimilhança desses fenômenos, somos forçados a dizer que há premonições que confundem a nossa miserável inteligência. Mas não se trata de explicar, trata-se de constatar.


Capítulo 3
O inabitual no mundo material

Passemos agora à Metapsíquica físico-química, que denominei objetiva, em oposição a Metapsíquica subjetiva ou, antes, mental.

Não necessito recordar que na subjetividade não há fenômeno físico exterior, enquanto que na objetiva há fatos físicos, químicos, mecânicos, fantasmas reais que podem ser fotografados e vistos por todos, ruídos, movimentos e luzes.

Essa divisão seria excelente se não houvesse casos como em certas alucinações coletivas, onde é impossível saber se se trata de uma simples alucinação como no sonho ou se o fantasma divisado não tem uma realidade exterior objetiva como, por exemplo, podendo ser fotografado e visto por inúmeras pessoas. Mas sabemos que as nossas classificações didáticas e explicativas não são mais que arbitrárias. A realidade não faz caso de nossas disposições.

Uma outra observação se impõe: é que os fenômenos mentais subjetivos são relativamente freqüentes. Raramente eles são tão precisos como em Ossowietzky e a Senhora Piper, mas quase não há quem, à sua volta ou com sua própria pessoa, não tenha tido ocasião de constatar alguns fenômenos de vidência, de lucidez e de telepatia. Ao contrário, os fenômenos objetivos são raros, extremamente raros. Os médiuns que produzem materializações e fenômenos de telecinesia e de ectoplasmia são realmente excepcionais. Home, Slade, Eglington, Senhora d'Espérance, a Senhora Salmon, Kluski, Eusápia Paladino, Rudi Schneider, são criaturas raríssimas. Por conseguinte, a observação é então muito mais difícil.

Tanto que, infelizmente, esses grandes médiuns de efeitos físicos têm uma quase invencível tendência para a fraude, o que torna ainda mais difícil uma constatação irrepreensível.

Em conseqüência de suas repetições, que contrastam com a raridade extrema dos fenômenos físicos, os fatos de lucidez que permitem a dedução de um sexto sentido são de uma segurança absoluta. A não ser que estejamos obscurecidos pelas prevenções rotineiras, por uma neofobia inveterada (mesmo entre os sábios e principalmente entre eles), não se pode duvidar, enquanto que para os fatos objetivos alguma dúvida é perdoável.

Entretanto, essa duvida me parece pouco justificada. Os fatos que relatarei daqui a pouco são de tal forma precisos que é impossível pô-los em dúvida, embora seu número limitado.

Uma outra observação ainda se impõe: é que mais freqüentemente esses fenômenos objetivos, por mais extraordinários que seja, pouco significam. Eles não são nada intelectuais. Nada nos ensinam! Que uma mesa seja movimentada sem contato, que uma pedra seja atirada sem haver alguém visível para jogá-la, que uma projeção de forma viva vos dê um soco, mesmo que um fantasma fantasiado apareça, são manifestações um tanto infantis que não nos revelam coisa alguma interessante de um novo mundo, pois o conhecimento pelo sexto sentido das coisas que os nossos sentidos normais não nos podem dar a conhecer, nos descortinam, às vezes, horizontes quase ilimitados dos mundos desconhecidos que vivem em redor de nós.

Da mesma forma, os fenômenos objetivos materiais têm um poderoso interesse teórico, pois provam que nada sabemos do mundo material. Dessa maneira também os fenômenos mentais mostram que nada sabemos do mundo mental.

Assim, pois, provisoriamente, uma conclusão bastante desoladora se impõe. É que tanto para o mundo mental, como para o mundo material, estamos mergulhados numa obscuridade profunda.

Há pouco eu disse haver incerteza para saber se os fantasmas são objetivos. Pois bem! tornamos a encontrar essa incerteza para certos fenômenos de movimento que provocam tantas ilusões, tantos erros, fenômenos esses chamados de “mesa falante”.

Eis em que consiste esse fenômeno, aliás muito antigo.[13] Quando inúmeras pessoas se encontram em redor de uma mesa e colocam as mãos levemente sobre ela, mesmo sem fazer a menor pressão consciente, o menor movimento consciente, a mesa se levanta. É absolutamente certo não haver fraude na maioria dos casos.

O fenômeno só é produzido com certas pessoas.

Então, se o pequeno grupo de pessoas reunidas interroga a mesa, supondo – o que é uma condição em geral necessária para que a operação seja bem sucedida – que um espírito faz a mesa mover-se, essa mesa, após um tempo muito variável, parece responder às perguntas que lhe fazem. Soletra-se o alfabeto e quando o dito espírito quer responder, dá as letras que indicam palavras. O espírito dá seu nome e dita frases. Podem-se assim sustentar conversações prolongadas. Como só se opera com pessoas de confiança, é rara a vontade consciente de um dos assistentes intervir para fraudar.

Ingenuamente, então, supõem que se acha presente uma personagem qualquer, um morto, digamos, um desencarnado. Se ele deu seu nome, será Aristóteles, André Chénier, John King, Imperator ou uma abstração como a voz do túmulo, ou o Leão de Androcles, nas mesas falantes de Jersey.

O que contribui para fazer admitir essa ilusão são os movimentos da mesa que têm realmente princípios psicológicos. E isso é curioso. Segundo o caráter da suposta personagem presente, os movimentos são solenes, violentos, alegres ou fantasistas. Se forem chamadas muitas personagens sucessivas, cada uma tem sua maneira de responder. Os que não assistiram a essas experiências não podem calcular como uma humilde mesa parece ter uma alma, uma personalidade.

Mas é mister abster-se de crer que Aristóteles, André Chénier, John King, Imperator ou o Leão de Androcles tenham vindo agitar esse móvel. Evidentemente só há um simples médium que, por meio de movimentos musculares inconscientes, move a mesa, embuçando-se de uma personalidade imaginária.

Na maioria dos casos essa explicação é suficiente. Do mesmo modo, se dermos um lápis a uma pessoa dotada da escrita automática, obteremos respostas coerentes. Isso prova somente uma troca de personalidade.

Tanto para os movimentos da mesa, como para a escrita automática, certamente quase nunca há fraude. Os movimentos da mesa só são devidos às contrações musculares inconscientes de um dos assistentes mais ou menos médium que se revestiu de uma personalidade especial. Nada há de espantoso, em vista da invasão dominadora dessa personalidade, nas respostas coerentes da mesa, correspondendo exatamente ao que poderia pensar e dizer essa personalidade.

Até aqui nada mais simples e não é necessário intervir com um grão de Metapsíquica para esses fatos elementares. Há uma troca de personalidade, assim como observamos no hipnotismo, produzindo-se então uma série de movimentos inconscientes do médium, movimentos harmônicos, coerentes, devidos unicamente aos músculos do médium.

Fenômeno psicológico (de modo algum metapsíquico) bem curioso. O médium, ao mesmo tempo em que se reveste de uma nova personalidade, conserva sua personalidade normal, fala, conversa, pensa e ri, absolutamente como se nele nada tivesse mudado. No entanto, ele se desdobrou, isto é, uma outra personalidade se manifesta nele, pela escrita automática ou pelos movimentos da mesa, porque, embora a integridade aparente de sua personalidade, uma outra personalidade de que ele não tem consciência, age sobre seus músculos e dá respostas perfeitamente coerentes.

Mas! as coisas estão longe de ser tão simples, pois dois fatos de extrema importância complicam o fenômeno das mesas falantes:

1° – É muito difícil e quase impossível atribuir sempre os movimentos da mesa unicamente a movimentos musculares inconscientes. Vi, como todos que fizeram experiências em mesas falantes, que elas se moviam, às vezes, com violência, quase sem haver contacto. Bons médiuns encostavam levemente um dedo no velador e esse velador dava saltos estranhos, dirigindo-se para aonde o dito espírito o queria conduzir. É muito cômodo pretender que sejam unicamente os movimentos musculares do médium, que animam a mesa ou o velador. Freqüentemente isso é verdade, mas se aplicarmos essa suposição a todos os casos de mesa falante, a afirmação parece-me bem insuficiente e não corresponde à realidade. Minha dúvida é, aliás, mais justificada, pois há exemplos autênticos (contudo bem raros) de mesas que, sem contacto algum, foram levitadas, erguendo-se numa altura de quatro pés.

Entretanto, sempre se deve, em matéria semelhante, aceitar de preferência uma explicação racional, isto é, conforme a Fisiologia clássica normal, que é a estranha hipótese de uma força invisível e não os músculos do médium.

Portanto, por prudência talvez excessiva, considerarei todos os movimentos da mesa, desde que haja um contacto por mais leve gire seja, como devidos aos movimentos musculares do médium.

Veremos mais para diante que às vezes se obtêm outros fenômenos, de modo algum explicáveis pelos movimentos musculares inconscientes, por exemplo: pancadas e levitações.

2° – Os movimentos da prancheta e da escrita automática são meios precisos para obter respostas que indicam com clareza a existência de um sexto sentido (criptestesia, metagnomia, lucidez).

Devo citar aqui as experiências que fiz durante mais de um ano com meu saudoso amigo Gaston Fournier, que foi um médium notável, não profissional, bem entendido. Essas experiências, que chamarei de alfabeto oculto, não obtiveram a repercussão que mereciam.

Eis no que consistem.

Uma mesa é disposta de tal forma que, quando um de seus pés se ergue, uma campainha elétrica toca. Tomam lugar nessa mesa, com as mãos sobre ela, Gaston F. e dois amigos meus, que chamarei de A e B. Todos os três dão as costas a mim e a um outro amigo que chamarei C. A sala acha-se iluminada. Tenho diante de mim um alfabeto, isto é, um cartão sobre o qual estão escritas todas as letras do alfabeto. Seguro-o de forma que nem Gaston, nem A nem B possam ver nenhuma de suas letras. Então, silenciosamente e com um ritmo variável, passeio meu dedo, ou um objeto qualquer, diante do alfabeto. Esse alfabeto traçado sobre o pequeno cartão não pode ser visto por nenhum dos três, mesmo que estivessem de frente, em vista da distância que os separa. C, que está a meu lado, escreve a letra do alfabeto diante da qual meu dedo passou no momento em que a campainha tocou, revelando o movimento da mesa.

Durante o tempo todo da experiência, falamos alto. Gracejo, no que Gaston e os outros nos acompanham. Cantamos, recitamos, fazendo muito barulho.

Pois bem! nessas condições obtemos frases, citações de versos franceses e latinos.

Advirto que A, B e Gaston ignoram o que foi ditado pela mesa e anotado por C. Às vezes, como a experiência se prolonga, eles se impacientam, julgando que tenha malogrado. Mas não malogrou, e insisto para que continuem.

Citei muitas experiências em meu Traité de Métapsychique, mas relatei aqui duas que me parecem de importância extrema.

Embora inverossímil, eu temia que Gaston pudesse conhecer o ritmo de minha mão ao passar pelo alfabeto. Fiz então um alfabeto circular e não mais começava pela letra A como sempre, mas ao acaso, por uma letra qualquer do alfabeto. Além disso, eu variava completamente o ritmo em cada letra nova. Nessa bela experiência tive uma resposta sem grande sentido, mas que seguramente não pode ser atribuída ao simples acaso: FAZOLDO.

3° – A outra experiência teve a honra de ser feita em minha casa perante o ilustre e genial William Crookes. Não se realizou à noite, mas durante o dia: havia uma semi-obscuridade. Somente o alfabeto estava iluminado. Sir William então, sentado longe das duas mesas, pediu uma resposta à pergunta mental que fazia e a mesa, por intermédio da campainha, respondeu com clareza extrema: I know only the slang.[14] Deve-se notar que Gaston não fala inglês. A pergunta mental feita por Sir William era: “Como se chama o meu primogênito?”.

Essas experiências tão interessantes do alfabeto oculto provam em toda evidência e toda simplicidade que havia conhecimento das letras por onde passava meu dedo sem ruído.

Assim, pois, para estabelecer a existência do sexto sentido, isto é, o conhecimento das coisas por vias diversas das sensórias ordinárias, as provas abundam: “Os caminhos são diversos, mas o fim é o mesmo”.

A esses movimentos musculares, inconscientes, revelando uma certa lucidez, é preciso evidentemente ligar os fenômenos estranhos conhecidos a muito tempo, da varinha divinatória. Não se pode duvidar que com uma varinha divinatória na mão, o portador dela possa indicar onde se encontra um veio de água subterrâneo. Na prática agrícola, comumente nos servimos da varinha. Aliás é certo que os movimentos da varinha só podem ser atribuídos a contrações musculares involuntárias e inconscientes de seu portador. Mas por que essas contrações? Será que o veio de água subterrâneo desperta a sensibilidade do adivinho? Então, não haverá aí o que já dissemos, isto é, o conhecimento inconsciente da realidade?

Eis-nos, pois, de volta à constatação desse fato extraordinário, tornado, por todas essas provas, evidentíssimo pela sensibilidade que às vezes os homens têm, sensibilidade essa que não é a dos sentidos normais, permitindo-lhes conhecer as coisas reais que esses sentidos normais não lhes mostram. Sunt quaedam in intellectu quae non prius fuerint in sensu.

Para revelar essa sensibilidade especial, os movimentos inconscientes são freqüentemente eficazes. Parece realmente haver um conflito perpétuo entre o consciente e o inconsciente. Quanto mais desperta a nossa consciência, tanto menos podem agir as forças inconscientes reveladoras do sexto sentido.

Todos esses fatos são intermediários entre a Metapsíquica objetiva e a Metapsíquica subjetiva. Agora só tratarei da Metapsíquica objetiva.

Para pôr um pouco de ordem nos fenômenos que parecem desafiar toda classificação metódica, começarei pelo fenômeno exterior mais simples que se chama telecinesia, isto é, a ação à distância.

Dessa telecinesia, os exemplos são muito numerosos. Os mais notáveis são evidentemente os de Home, observados por Crookes, que fazia experiências com ele, em plena luz. Ao lado de muitos outros fatos estranhos, ele viu e descreveu um caso admirável de escrita direta: um lápis colocado sobre papel, em plena luz, ergueu-se sobre sua ponta, avançou titubeante no papel e elevou-se acima da mesa, mas sem poder escrever. Então, como para ajudar o lápis (!) uma pequena lata, que se encontrava a seu lado, se elevou um pouco acima da mesa para que ele, apoiado nela, pudesse escrever.

Outras telecinesias, também admiráveis, devidas a outros médiuns e relatadas em meu Traité de Métapsychique foram ainda observadas. Com os grandes médiuns, como Slade, Eusápia, Gusik, Stainton Moses, Kluski a Sra. Goligher, Linda Gazzera e muitos outros, houve, sem contacto algum, tanto em plena luz como em semi-obscuridade, sem que se possa supor qualquer fraude, movimentos de objetos (às vezes até de objetos pesados).

Não recomeçarei aqui o relatório detalhado desses fenômenos. O que importa neste livro é saber como eles se produzem. Sobre esse assunto misterioso ainda só temos induções, mas essas induções nos permitem esboçar uma teoria de telecinesia.

É provável que em certas condições se desprendam do médium forças quase materiais ou mesmo completamente materiais, podendo produzir efeitos mecânicos manifestos. Assim, por exemplo, com Eusápia observávamos, comumente, prolongamentos que saíam de seu corpo, prolongamentos que eu denominei ectoplasmas, que são como pedaços de membros informes, dando às vezes o vago esboço de mão.

Darei somente dois exemplos, que me são pessoais.

Uma tarde, ou antes, uma noite, na ilha Ribaud, à meia-luz, em presença de Myers, de Ochorowicz, de Sir Oliver Lodge, seguramos no ar as duas mãos de Eusápia. Eusápia permanecia de pé e durante esse tempo uma mão me acariciou o rosto. Senti distintamente ser mão de homem.

Outra experiência feita com Eusápia em Paris, no Instituto Psicológico. Penumbra que permite ver bem os fenômenos. Eusápia encontra-se diante de uma cortina. Uma pequena mesa acha-se em sua frente. Diante dessa mesa está Courtier. A Sra. Curie acha-se à esquerda de Eusápia e eu à sua direita. Então, enquanto Eusápia está em transe, do meu lado a cortina se incha. Divisamos como que um pedaço de membro que parece apontar por detrás da cortina. Então, com minha mão direita, que está livre, pois com a esquerda seguro a de Eusápia, tento tomar a mão do dito John King que se acha atrás da cortina. Seguro firmemente essa mão, passeando meus dedos através da cortina sobre os dedos dessa grande mão e conto exatamente 28 segundos, isto é, o tempo suficiente para poder observar tudo e constatar que tenho a mão direita de Eusápia presa em minha mão esquerda e que a Sra. Curie continua a segurar-lhe a mão esquerda.

Essas duas experiências seriam suficientes para provar que há ectoplasmas e para explicar a telecinesia pelo ectoplasma.

Ainda farei algumas observações:

1° – Conquanto mais freqüentemente os fatos de telecinesia exijam a obscuridade, em muitos casos há uma meia-luz, o bastante para que se possam ver as mãos e o corpo do médium. Com Home a experiência era feita à luz do dia. Tive ocasião de ver em pleno sol Alice, médium de Maxwell, deslocar levemente um leque colocado diante dela.

Portanto, a objeção de que a telecinesia só pode produzir-se na mais completa obscuridade não é válida.

2° – Em geral a telecinesia só se manifesta com pequenos objetos, não exigindo força considerável. Mas há exceções. Home, pois é sempre a ele que devemos voltar, foi levitado com um piano e poderíamos duvidar desse fato ainda mais estranho que os outros, se isso não tivesse sido absolutamente constatado por testemunhas honradas.

Eusápia muitas vezes pôde mover objetos pesados. Vi-a mover, sem contato aparente, um grande melão de cerca de três quilos. Com Eusápia, os eminentes fisiologistas das Universidades italianas viram uma pesada e sólida mesa completamente quebrada; e o célebre Lombroso viu um móvel enorme, colocado a dois metros de Eusápia, aproximar-se dela, imitando a progressão de um gigantesco paquiderme. Em uma experiência feita com Guzik, enquanto suas mãos estavam seguras, um grande sofá, onde Osty estava sentado, foi bruscamente seguro, elevando-se depois acima de nossas cabeças e, sem ferir ninguém, atirou-se sobre a mesa com tal força que se quebrou (!). Stainton Moses viu uma mesa pesadíssima agitar-se sem ser tocada. A filha de meu amigo Ségard teve, quando criança (12 anos), fenômenos extraordinários de telecinesia. Ela chamava para junto de si objetos e móveis e ambos a obedeciam. Esses fenômenos (que aliás não vi) só perduraram três dias, sendo constatados por meus filhos então crianças (12 e 15 anos) que se divertiam com eles.

Em todo caso, dessa exposição sumária que eu poderia desenvolver muito (ver o Traité de Métapsychique, páginas 532 a 556) [15] resulta que pode haver movimentos de objetos, mesmo volumosos e pesados, mesmo em plena luz, sem contacto e sem a intervenção de nenhuma força mecânica conhecida.

Notar-se-á, sem dúvida, que há uma espécie de paralelismo entre a telecinesia e a telestesia. Nossa sensibilidade é afetada por forças que os nossos sentidos não percebem: o nosso poder motriz aplica-se sem que os nossos músculos pareçam agir.

Deve-se perguntar por que prodígios se produzem esses movimentos dos objetos.

Em primeiro lugar é incontestável que, em certos casos, saem expansões do médium, ectoplasmas – o nome tornou-se clássico – que podem tomar formas diferentes, Crawford fez metodicamente com os Goligher experiências numerosas que não deixaram de provocar críticas, principalmente as de Fournier Alle, mas a crítica de Fournier pareceu a Schrenck-Notzing e a Sir William Barret não operante.

Eis, segundo Sudre, a experiência fundamental (Introdução a Metapsíquica Humana, p. 241): “O paciente senta-se em uma cadeira colocada sobre um básculo; a mesa é disposta no meio do círculo formado pelos assistentes a uma distância de cerca de um metro do médium. Pede-se aos operadores invisíveis levantar a mesa e sustê-la no ar. Nesse momento o peso do paciente aumenta mais que o da mesa... Contudo, a mesa é erguida por um cantilevantador, alavanca psíquica engastada no paciente, fazendo corpo com ele.”

Esse cantilevantador, não passa de um ectoplasma.

Veremos mais adiante que esses ectoplasmas têm tendência para tomar formas vivas, geralmente pedaços de membros, como mãos, braços, mas algumas vezes também tomam aparências diferentes.

Meu saudoso amigo Ochorowicz estudou com o maior cuidado o que ele chama de raios rígidos, isto é, fios fluídicos, no entanto materiais, que se desprendiam de seu médium, Stanislawa Tomczyk. Fotografias admiráveis desses raios foram tiradas por ele e mais tarde por Schrenck. Pude ver os movimentos telecinésicos obtidos em plena luz por Stanislawa. Uma bala, uma campainha, tesouras, uma agulha são atiradas e permanecem no ar durante algum tempo. Schrenck-Notzing, que também experimentou com Stanislawa, fotografou o levantamento de uma bala por um fio fluídico. Esse fio fluídico apresenta inchações. Parece formado por pontos descontínuos e parte dos dedos de Stanislawa. “Eu senti esse fio – disse Ochorowicz – sobre minha mão, meu rosto e meus cabelos. Assim que o médium retira as mãos, esse fio afina e desaparece. Ele dá a sensação tátil de uma teia de aranha. Se o cortarmos com uma tesoura ele se reconstitui imediatamente.”

No ano de 1906, em Paris, com Eva, isto é, Marthe Béraud, observei sozinho com ela e a Sra. R. (que se conservava distanciada de Marthe, a tomar notas) fenômenos decisivos de ectoplasmia. Um objeto de cor esbranquiçada (Traité de Métapsychique, p. 672), aparece no chão, desloca-se, aumenta, subindo no sofá onde se encontra Marthe, subindo depois no seu peito. É como um véu membranoso. Seguro as duas mãos de Marthe que está imóvel e fala com intervalos. Desse ectoplasma móvel dei os desenhos, feitos sucessivamente e que talvez valham mais que as fotografias. Pouco a pouco o ectoplasma toma a forma vaga de uma mão, na qual se pode distinguir o esboço vago dos dedos. O notável é que Geley, sem conhecer os detalhes de minha experiência, fez exatamente a mesma descrição das suas (1919).

Resulta dessas múltiplas experiências que os movimentos de objetos são devidos a expansões móveis mais ou menos análogas a formas vivas que saem do corpo do médium.

Tal era o estado de nossos conhecimentos em 1930, quando Osty e seu filho Marcel, no Instituto Metapsíquico, fizeram em Rudi Schneider (de quem Schrenck-Notzing já constatara a notável mediunidade) experiências extraordinárias provocadas por um acaso feliz, mas fertilizadas e desenvolvidas por uma longa série de engenhosas e pacientes investigações. Elas constituem um progresso enorme nos nossos conhecimentos sobre a ectoplasmia.

Sabemos que num espetro luminoso, segundo a duração das vibrações, há ondas que vão do ultravioleta ao vermelho, pois o ultravioleta e o infravermelho são invisíveis. Por meio de vidros apropriados pode-se não deixar passar de uma lâmpada acesa senão os raios do infravermelho. Ora, se dirigirmos esses raios (invisíveis, bem entendido) em direção de uma célula fotoelétrica, essa célula acha-se acionada por eles. Um dispositivo simples faz com que não haja campainha elétrica enquanto a luz vermelha agir sobre a célula fotoelétrica. Mas desde que se interrompa o raio vermelho passando a mão por exemplo, ou um objeto qualquer sobre o trajeto do raio, há, segundo as disposições experimentais, fáceis de imaginar, que foram tomadas, quer seja uma campainha elétrica, quer seja um sinal elétrico, registrando-se sobre um cilindro, quer sejam simultaneamente os dois fenômenos. Pode-se pois saber quando um objeto qualquer passou sobre o trajeto do raio.

Nessas duas experiências memoráveis do Instituto Metapsíquico, Rudi Schneider estava, assim como todos os assistentes, separados do raio vermelho por um biombo de tela metálica. Além disso, as suas mãos, envoltas numa faixa fluorescente (de sulfureto de cálcio) estavam seguras. Portanto, podíamos ver-lhe a posição das mãos durante o tempo todo. Demais haviam disposto um aparelho fotográfico de tal maneira que, no momento da interrupção do raio vermelho, se produziria uma corrente elétrica que provocaria instantaneamente um claro de magnésio.

Assim, pois, toda probabilidade de fraude estava afastada; 1°, pelas mãos seguras; 2°, por se verem as mãos de Rudi; 3°, pelo biombo metálico. Demais, se algum objeto material fraudulento interrompesse o raio vermelho, haveria a fotografia do dito objeto, denunciando a fraude.

Pois bem! nessas condições rigorosíssimas de experimentação, algumas vezes – e geralmente depois de Rudi haver indicado que o fenômeno se daria – houve interrupção do raio vermelho, e isso sem se produzir manifestação alguma exterior visível.

Por conseguinte, sem que possamos insistir nas modalidades minuciosas que Osty expôs em seu livro recente, há ectoplasmas invisíveis que interrompem o raio vermelho, agindo sobre ele como se esses ectoplasmas fossem objetos materiais.

O ectoplasma, isto é, a projeção de uma força para além do corpo do médium, tem, pois, uma primeira fase de invisibilidade, uma segunda fase, durante a qual ele aparece como um vapor ou um fio fluídico que é quando começa a ser visível, uma terceira fase durante na qual ele é tangível, visível, algumas vezes claramente, mas a maior parte das vezes informe. Veremos, num capítulo ulterior, que essa forma pode tomar as aparências e quase a realidade de um ser vivo (quarta fase).

Por mais estranha que seja a ectoplasmia, ela não é o único fenômeno singular dessa Metapsíquica física. Há ainda muitas outras.

Em primeiro lugar, temos os fenômenos luminosos.

Quase em todas as épocas foi observado que alguns indivíduos, raros, tinham às vezes uma auréola em redor da cabeça. Da auréola dos santos só falamos de memória. Mas, em certos casos, de nossos dias, também foi observada uma auréola. Arsonval e Curie viram em redor da cabeça de Eusápia uma espécie de zona obscura seguida de uma zona luminosa, como no pequeno canhão negro catódico quando há descarga num tubo de Crookes. Ossowietzky diz ver uma auréola verde em redor da cabeça dos indivíduos ameaçados de grande perigo, mas deixo a ele a responsabilidade dessa afirmação (!).

Com Guzik vi figuras fantasmagóricas iluminadas o bastante para que se pudessem distinguir claramente os traços desses fantasmas.

Geralmente, as luzes são como clarões que passeiam. Com Guzik elas parecem olhos; com Eusápia, pequenas línguas de fogo; com Stainton Moses e principalmente com Home, bolas de fogo. “Vi – disse Crookes –, numa experiência com Home, um corpo sólido luminoso por si mesmo, quase do tamanho de um ovo de peru, flutuar sem ruído através o quarto, elevar-se mais alto do que poderiam fazer os assistentes e descer suavemente até o chão. “

Levitações

Os fenômenos de levitação, constatados também com os santos, aliás bem freqüentes, revelam ainda fenômenos de Metapsíquica objetiva. As levitações mais conhecidas e melhor autenticadas são as de São José de Cupertino (1603-1663). Na vida de São José, publicada em 1753, é relatado que muitas vezes José se elevava do solo e que em certas ocasiões ficava suspenso no ar em presença de todos os irmãos de comunidade. O Papa Urbano VIII testemunhou essa levitação.

Os médiuns modernos deram diversos exemplos desse fenômeno paradoxal. O mais belo é o de Home, que se elevou acima da cabeça dos assistentes, fazendo no teto um sinal com um lápis. Ele passou pela janela do primeiro andar de um apartamento e voltou por uma outra janela como se nadasse no ar. Quando voltou pôs-se a rir. Perguntaram-lhe por que?

É que, respondeu ele, se um policial me tivesse visto, não teria compreendido.

Verdadeiramente, nada compreendemos.

Morselli observou com Eusápia uma belíssima levitação. Stainton Moses foi levitado inúmeras vezes, como também recentemente Rudi Schneider, em excelentes condições de controle.

Portanto, a levitação não é um fenômeno mais contestável que os outros fenômenos e telecinesia.[16]

Raps

Um dos mais belos fenômenos da Metapsíquica objetiva é o das pancadas. Infelizmente, as pancadas fortes para serem claramente ouvidas são fenômenos bem raros.

Eis no que consiste. Se entre os assistentes que colocam as mãos sobre a mesa há um médium poderoso, às vezes são ouvidas vibrações sonoras da mesa, freqüentemente vibrações que normalmente o médium não pode produzir porque suas mãos estão imóveis, dotadas de penetração (não nos esqueçamos de que foi por pancadas que os fenômenos espíritas se manifestaram pela primeira vez, na família Fox, em Hydesville).

Nunca ouvi pancadas fortes. Maxwell conseguiu formidáveis com seu médium Alice. De minha parte, freqüentemente, com duas ou três pessoas diferentes, obtive pancadas, mas fracas. Encostando meu ouvido à mesa ouvia distintamente leves ruídos semelhantes a arranhaduras.

Youjeritch disse-me ter ouvido pancadas fortes a distância, produzidas por uma pessoa de sua família que não era em absoluto profissional.

Portanto, pode haver pancadas e fenômenos mecânicos sem um médium para produzi-los.

Com Stainton Moses, com Home, as pancadas eram fortíssimas.

Eis aqui um fato que me foi relatado por um observador muito competente, C. De Vesme, em quem se pode depositar inteira confiança.

Ele recebe de seu irmão, em um envelope remetido pelo Correio, cabelos de seu pai morto há algum tempo e, então, num transporte de amor filial, beija esses cabelos brancos. Apenas fez isso, ouviu fortes pancadas ressoarem sobre a mesa junto ao leito. Essas pancadas repetiram-se claramente com um ritmo particular.

Dois jovens tinham no Hospital um amigo gravemente enfermo. Ambos moravam na mesma cidade, mas bem distanciados. No mesmo momento os dois ouviram pancadas na porta. Ninguém na rua. Imaginaram então que o amigo morrera. Com efeito, chegando ao Hospital constataram a morte de seu camarada.

A Senhora Ulrich – pseudônimo de uma escritora notável – ouve repetidas pancadas na mesa. O ritmo é o mesmo com que seu filho dizia quando pequeno: “Mamãe, mamãe”; as pancadas aumentam até sacudirem o vaso de cristal. Nesse momento, seu filho, agora soldado de Infantaria, acabava de ser morto. (Traité de Métapsychique, pág. 423).

Eu poderia multiplicar os casos desse gênero, mas relatarei um que me é pessoal e que é notável sob muitos pontos de vista.

A experiência foi fornecida por uma senhora – não profissional, que só obteve pancadas nesse dia, mas quão interessante!

Esta experiência parece-me, sob todos os pontos de vista, uma das mais brilhantes da Metapsíquica. Relatei-a com detalhes em meu Traité de Métapsychique, págs. 302-305. Resumo-a aqui. Por meio de pancadas recebemos esta frase: Banka, a morte espreita a família (junho 1906 às 22:30). Ora, essa monição corresponde exatamente ao assassinato de Draga (filha de Banka), rainha da Sérvia, e de seus irmãos, também filhos de Draga, por oficiais sérvios. A hora coincide, em vista da distância de Belgrado a Paris, exatamente com o momento em que os conjurados sérvios saíam para cometer esse crime. A palavra Banka não foi exata. O pai de Draga chamava-se Pandja, e quando digo “dj” é uma letra do alfabeto sérvio que não se encontra no romano, podendo ser tanto um “C” quanto um “K”.

Portanto, eis aí uma monição precisa a três mil quilômetros de distância, pois que, no pequeno círculo de quatro assistentes formado em Paris, nenhuma das pessoas presentes conhecia o nome de Draga, nem o de Banka e muito menos a conspiração de Belgrado. Ora, o acontecimento que se ia dar foi indicado em termos tão concisos e decisivos, que se estivessem a par de todos esses fatos, nada poderiam encontrar de melhor do que estas palavras fatídicas: “a morte espreita a família”.

Atribuir isso ao acaso é loucamente absurdo. A probabilidade, impossível de avaliar, está abaixo de (1/10)–10.

Enfim, a história das pancadas é tão curiosa que induzirei de bom grado algum jovem metapsiquista a fazer uma monografia detalhada.

Direi ainda alguma coisa a respeito de outros fatos materiais.

1° – Ochorowicz, experimentando com Stanislawa Tomczyk, constatou, com uma pequena roleta de bolso, que Stanislawa poderia parar a bola no número desejado, contanto que a bola não virasse rapidamente.

2° – Constatou-se a ação elétrica de Eusápia, de Stanislawa e de outros médiuns.

A Senhora d'Espérance agia sobre a agulha imantada. Slade fazia o mesmo. Esses fatos encontram-se bem explicados no excelente livro de Sudre: Introtroduction à la Métapsychique humaine (págs. 249 a 272).

Transportes

Tudo é incompreensível na ação do espírito sobre a matéria. Talvez o mais estranho seja a história dos transportes. Bozzano a esse respeito escreveu um memorial detalhado e instrutivo como sempre. Citarei apenas dois fatos (Luce e Ombra, 1930, passim).

A Senhora Frondini Lacombe, experimentada em Lisboa com a Condessa de Castelvith, disse: “Eu lhe segurava as mãos e encontrava-me sozinha com ela. De súbito um objeto muito pesado caiu com grande ruído nosso lado; era uma enorme acha de lenha que se achava na sala vizinha, cujas portas estavam fechadas”.

A Senhora de Castelvitch ficou de tal forma amedrontada que não quis recomeçar.

O outro fato que comuniquei a Bozzano é o de meu amigo Paul de Pitray, neto da célebre Condessa de Ségur, née Rostopchine.

Em Buenos Aires, onde ela vivia em 1898, fazia com alguns amigos experiências de mesa falante. Nenhum médium profissional. Foi dito pela mesa: “Trar-vos-ei flores”, e um grande ramalhete de violetas de Parma foi atirado na mesa, justamente quando elas só eram encontradas a 250 quilômetros de Buenos Aires. Depois, ele teve um transporte de uma cédula de 5 centavos. As pessoas presentes pediram então uma cédula de mil piastras, ao que a mesa respondeu: “Não posso, pois isso seria um roubo”.

Serge Yourjevitch relatou-me que em um aposento onde não havia ninguém, separado de uma sala por uma porta de vidro, ele ouve o ressoar de um sininho. O som parece aproximar-se, o sininho atravessa o vidro, sempre tocando e, após um trajeto prolongado pelo aposento, cai ao chão.

Pude assistir bem de perto, em condições irrepreensíveis, a um fenômeno singular (análogo a um transporte). Na ilha Ribaud, seguro entre a minha, a pequena mão direita de Eusápia, e em plena luz, nós todos vimos (nós, isto é, Ochorowicz, Oliver Lodge, Myers e eu) a mão esquerda de Eusápia erguida no ar segurando um lápis. Eusápia, então, diz que vai fazer passar a substância azul do lápis para meu indicador. E com efeito, com meu indicador num papel branco, posso traçar linhas como se tivesse um lápis azul, na mão. Vejo ainda, nessa experiência extraordinária, diante de uma vela colocada na mesa, a alguns centímetros de distância, Ochorowicz e Myers (Myers com seu lornhão) olhando de muito perto os traços azuis que meu indicador fazia ao passar por sobre o papel.

Eis uma outra experiência que fiz com Eusápia, em casa de Flammarion. Eu segurava a mão direita de Eusápia e Flammarion a esquerda. Digo então: “Dê-me um alfinete, quero ver se John é sensível”, e com o alfinete espeto o pretenso membro de John, através da cortina. Mas não continuei, porque à medida que eu espetava parecia que um alfinete entrava no alto do meu braço, magoando-me bastante, o que fez Eusápia rir muito.

Como prova excelente da natureza fluídica das formas que aparecem, devemos citar o testemunho feito pelas “modelagens”. Principalmente com Kluski foram obtidas belíssimas modelagens. Alguns modeladores espertos declararam que, evidentemente, se tratava de mãos vivas, únicas capazes de produzir semelhantes modelagens. Não se podem explicar esses entrançados de dedos, a não ser supondo que a mão fluídica envolta de parafina se havia desfeito qual uma nuvem.[17]

Que mãos fluídicas possam desfazer-se, isto é, desaparecer entre as mãos, há exemplos autênticos. Crookes observou com Florence Cook e F. Bottazi, fisiologista experimentado, com Eusápia. “Aperto, diz ele, a mão que se desvanece sob meu aperto; ela se dissolve, se desmaterializa, desaparece”.

Outros fatos singulares da metapsíquica objetiva

De Vesme acaba de relatar (Revue Spirite, 1932) fatos antigos e recentes, talvez mais difíceis de serem compreendidos do que todo o resto. Inúmeras testemunhas viram no ar, durante horas seguidas, soldados armados, tão bem armados que num dos casos, uma tropa de cavaleiros reais, comandados por um oficial, vai ao encontro dessa armada fantasmagórica. Viram essa armada fantasmagórica destacar-se para ir ao encontro do Oficial real, depois, tudo desapareceu.

Que diria eu dos fatos singulares de uma música que sobrevém no momento da morte, o que Bozzano denomina de música transcendental (Fenômenos Psíquicos no Momento da Morte), tradução francesa, 1927, pág. 225 e 236).[18]

Citarei somente o fato seguinte:

Uma criança, irmã do doutor K., agonizava. No quarto, iluminado pelo sol do meio-dia, estavam reunidos todos os membros da família; de repente ouviram um canto melodioso. Esse canto divino era qual um queixume suave e melancólico cantado por voz de mulher. Continuou durante alguns minutos, depois foi diminuindo como a se afastar. Começara com a agonia da criança e terminou com a sua morte.

A propósito dos cavalos de Alberfeld, há homens instruídos e competentes que admitem que esses cavalos façam cálculos. Maeterlink escreveu a esse respeito muitas páginas interessantes. Ele não é suspeito de credulidade. Claparède, psicólogo eminente de Genebra, pediu ao cavalo Mohamed, na ausência do Senhor Krahl, a raiz quadrada do número 456.756. E em alguns segundos Mohamed respondeu. A indicação dos algarismos foi dada por movimentos da pata.

É bem difícil formar-se uma opinião; propenderei pela negativa. Mas, em todo caso, antes de estudar a Metapsíquica animal, conviria conhecer melhor a Metapsíquica humana.

Psicometria

O termo psicometria é execrável, contudo, é tão freqüentemente aplicado que me parece impossível empregar outro. Os autores que escreveram sobre ocultismo chamaram de psicometria a lucidez sobrevinda pelo contacto de uma coisa material.

Os profissionais de lucidez, quando se lhes pedem detalhes sobre esta ou aquela pessoa, muitas vezes insistem para ter em mãos um objeto que lhe tenha pertencido. Contentar-me-ei com citar uma experiência a que assisti, pois dou um certo valor (talvez um pouco exagerado) às minhas experiências pessoais.[19]

Em primeiro lugar citarei uma bela experiência feita em minha casa, em presença de Myers, pela Sra. Thompson. Ela adormeceu e tomou a personalidade de Nelly, sua filha morta. Meu filho Georges achava-se presente. Entregamos a Sra. Thompson o relógio de meu filho; imediatamente ela diz: ''Há sangue neste relógio... vejo três gerações misturadas”. (Three generation mixed).

É impossível exprimir-se melhor. Esse relógio pertencera a um irmão de minha mulher, Georges Aubry, morto na batalha de Vendôme em 1870. O pai de Georges guardara esse relógio e dera-o a meu filho, seu neto.

Há sangue neste relógio, três gerações misturadas, que lucidez maravilhosa! inverossímil!

M. Pagenstecher, citado por Sudre, também obteve belos exemplos de psicometria.

Da mesma forma, conquanto seja relativamente simples admitir que os objetos conservam uma emanação das coisas, parece que para a lucidez o objeto não é indispensável. Ele auxilia a lucidez, da mesma forma que para os videntes o tirar das cartas, a visão num cristal, o marco de café, a consulta das cartas espanholas, auxiliam o médium a encontrar o que ele procura. Para a psicometria, como aliás para todos os outros fenômenos, ainda estamos em plena obscuridade.

Pode-se provisoriamente admitir que a presença de um objeto é útil, mas não indispensável.

Os fantasmas

Vimos nos capítulos precedentes:

1°)  que às vezes há fantasmas divisados por inúmeras pessoas (em condições não experimentais) o que exclui quase completamente a hipótese da alucinação;

2°)  que freqüentemente, em condições experimentais determinadas, há fenômenos de telergia, de telecinesia, formação de ectoplasmas, expansões materiais, podendo ser fotografadas ou agindo sobre raios infravermelhos.

Veremos que esses ectoplasmas podem tomar as aparências, quase as realidades de seres vivos que parecem independentes do médium do qual eles emanam e aos quais eles não estão mais ligados. Salvo sua origem e seu desaparecimento, serão eles realmente viventes (??).

Eu poderia citar numerosíssimos casos, mas fiel ao plano deste livro, contentar-me-ei com indicar somente alguns, retornando ao meu Tratado de Metapsíquica, aos trabalhos de Flammarion, de Gabriel Delanne, de Bozzano e de Sudre.

I – São, em primeiro lugar (e sempre), as admiráveis experiências de Crookes que devemos relatar. Ele viu, tocou, fotografou Katie King que tinha todas as aparências de uma pessoa real. Ele estava sozinho com a Srta. Florence Cook em seu laboratório e pôde observar Katie King ao mesmo tempo em que Florence Cook. Pôde até ouvir as pulsações do coração de Katie. Nada mais comovente que a despedida da misteriosa e fantasmagórica Katie King. Ela anuncia que é forçada a partir e, dirigindo-se à sua médium Florence Cook, que jazia inanimada no assoalho, desperta-a dizendo-lhe: “Acorde, Florence, agora preciso deixá-la”. Florence despertou e, entre lágrimas, suplicou a Katie para ficar, mas foi em vão. Katie, com seu vestido branco, desapareceu. Sir William Crookes aproximou-se então de Florence, prestes a desfalecer, e Katie desapareceu qual uma fumaça. Nunca mais voltou.

Nada satisfaria mais que essa experiência, feita por um homem como Crookes. Sudre diz com razão: “Em um Congresso científico, 24 anos depois, o grande sábio, no apogeu de sua glória, declarou solenemente que nada havia para retratar. Não se pode distinguir o Crookes do tálio e dos raios catódicos, do Crookes de Katie King.”

II – Meu amigo, o doutor Gibier, sábio eminente, Diretor do Instituto Pasteur de Nova York, operando com um médium notável, a Senhora Salmon, fecha-a em uma gaiola de ferro da qual só ele tem a chave. Vê então sair da gaiola uma mulher esbelta que parece viva. Ela parece 25 anos mais jovem que a Senhora Salmon. Depois, chegam a pequena Mandy, que tem apenas um metro de altura, um homem alto do qual Gibier pôde apertar a mão máscula, vigorosa e musculosa. Todas essas personagens permaneciam no tablado somente alguns segundos e pareciam apressadas por sua vez.

III – Com o poderoso médium polonês Kluski, que infelizmente consente com relutância a fazer experiências, Geley, no laboratório do Instituto Metapsíquico de Paris, tendo-o despido completamente, vê surgir diferentes formas vivas: uma velha desdentada e enrugada, um oficial polonês de uniforme e quepe, um oficial alemão igualmente de uniforme com capacete de ponta.

Geley contou-me a história seguinte: Em Varsóvia, estando sentado entre Kluski e um seu amigo, oficial polonês, este lhe diz: “Eu só acreditarei nos fantasmas após ter visto uma centena deles.” Então, quase no mesmo instante, um grande vento abriu a janela e apagou uma das luzes. Depois, sucessivamente, diante do sofá passou um desfile interminável de formas diferentes, mulheres, crianças, velhos, soldados, padres. Havia do que tremer, e a assistência (três pessoas) tremia realmente.[20]

IV – Tive ocasião de observar, em condições de controle irrepreensível,[21] um fantasma que era produzido por Marthe Béraud, na residência do General Noel, brilhante aluno da Escola Politécnica e Comandante de Artilharia em Argélia. Esse fantasma, que dava o nome ridículo de Bien Boa, pôde, soprando em um tubo onde se continha água de barita, fazer a água da barita embranquecer, como se a tivesse excretado de ácido carbônico, à maneira de um ser vivo. O fantasma achava-se de pé diante de Marthe que estava sentada. Fotografias estereoscópicas demonstrativas foram tiradas. Delanne, os assistentes e eu mesmo vimos claramente o fantasma separado de Marthe.

Outra vez, em outra experiência, nós todos vimos sair do chão um vapor branco que pouco a pouco se condensou, tomando a forma de um indivíduo vivo, um homem de pequena estatura, vestido com um cafetan. Depois de dar alguns passos titubeantes diante de nós, bem perto de todos, a menos de um metro, desapareceu, abatendo-se sobre o solo com ruído de clac clac, como se fossem ossos que tombavam. A impressão foi tão clara que desconfiei de um alçapão.

Mas não havia alçapão algum.

Para que multiplicar as narrações de aparições de fantasmas? Que há fantasmas, isso é tão certo como se eu dissesse há estrelas.

Não se pode chamar de fantasmas às imagens que vemos em sonhos, que aparecem durante o sono ou o sonambulismo.

Elas não têm mais realidade material do que as fantasias de nossos sonhos e de nossos pesadelos. Não são fantasmas.

Mas os verdadeiros fantasmas são os que têm uma realidade objetiva, com roupas, um uniforme, um boné, rendas, etc., etc... Os olhos movem-se, a voz é ouvida, há exalações de ácido carbônico. Todos os assistentes podem vê-los, eles podem ser fotografados e movem objetos. Nenhuma diferença entre esses fantasmas e um ser vivo, a não ser que, algumas vezes, ele desapareça, se atenue, fugindo ceu fummus in auras. Ele se forma de um vapor e se reduz em vapor.

Jules Romains, em seu curioso romance Quand le Navire, comenta a nossa extraordinária inconseqüência. Como! sabemos que em volta de nós vão aparecer seres que têm todos os atributos da vida e nada mudamos em nossa conduta! Continuamos a nos dedicar a nossas ocupações habituais sem dizer que um mistério, um mistério espantoso pesa sobre nós.

Enfim, prossigamos...

Os fantasmas não são somente seres humanos; mostram-se vestidos, havendo portanto materialização de objetos materiais. Katie King, antes de partir, deu fragmentos de seu vestuário.

Não há somente materialização de homens, também há materialização de animais... De minha parte, com Guzik consegui uma que foi realmente espantosa.

Em Varsóvia, numa sala fechada à chave, apareceram, iluminadas por um vago luar, duas formas de indivíduos fantasmagóricos, dos quais não se viam as faces. Conversavam entre si em polonês. Um disse: “Por que trouxeste teu cão?” Nesse momento ouvimos na sala o trote de um cão. Senti o cão aproximar-se de mim e morder gentilmente meu tornozelo, aliás sem me magoar. Foi tão nítido que pude distinguir ser um pequeno cão do qual eu sentia os pequenos dentes pontiagudos. Depois o cãozinho aproximou-se de Geley e mordeu-o com mais força, de sorte que Geley disse: Basta, basta! ao que censurei energicamente. Ele deveria dizer: Mais, mais!

Outra vez, Kluski sendo o médium, aliás em minha ausência, houve materialização de uma enorme águia e uma surpreendente fotografia foi tirada.

Supuseram, pois, que tivesse havido uma ideoplastia, palavra criada por Durand de Gros. A ideoplastia seria a criação de um objeto material provavelmente transitório pela força do médium cuja idéia se tornaria uma realidade objetiva.

Na discussão geral terei de voltar a esses fatos tão certos quanto espantosos.

Também com Kluski, Geley viu um homem primitivo com uma crina e barba espessa, a emitir sons roucos; exalando um odor de louro e roçando as mãos dos assistentes.

Eis um outro fenômeno, da mesma forma espantoso. É o dos fantasmas minúsculos.

Bozzano colecionou inúmeros exemplos. Contentar-me-ei em citar o da Senhora Bisson, tendo Marthe por médium. Houve materialização de um fantasma, mas de um fantasma minúsculo, uma pequena mulher nua, encantadora, tendo todas as aparências da vida, tão pequenina que se podia conservá-la na mão. Ela olhava e sorria. Para explicar esse fenômeno mais que singular não declaro satisfatória a suposição de Bozzano, que um médium não tendo força suficiente para fazer um grande fantasma fez um pequeno. É contentar-se com pouco!

Os fenômenos de assombração são tão inexplicáveis quanto os outros. Um caso antigo (1834) absolutamente identificado, é o célebre caso das Belling Bell, observado pelo Comandante inglês Edward Moor, membro da Sociedade Real, sábio oficial, muito religioso, que durante muito tempo hesitou publicar os fatos extraordinários testemunhados por ele próprio. Em 1834 não existiam campainhas elétricas. Ora, na casa do comandante Moor, durante muito tempo, quase dois meses, sem um dia de tréguas, todas as campainhas da casa soaram com fragor. A violência de seus toques era tal que não se podia imitar com quanta força se empregasse. Reuniam-se num aposento todos os empregados e, na casa deserta, todas as campainhas tocavam ao mesmo tempo. O Comandante Moor concluiu dizendo: “As campainhas tocavam por uma causa que não era humana.”

Um belo caso de casa assombrada, castelo de T., na Normandia (Calvados) é relatado com detalhes nos Annales des Sciences Psychiques (1892). Durante muitas semanas, ruídos extraordinários e violentos se produziram na casa, galopes, pancadas que faziam tremer as paredes, objetos eram deslocados ruidosamente, gritos agudos, furiosos, desesperados, mugidos vindos de fora, gritos enraivecidos. Os proprietários do castelo, que eram muito religiosos, pediram a um abade amigo que fizesse exorcismos. Após o exorcismo houve calma durante algum tempo, mas logo os fenômenos reapareceram.

Deixo de lado alguns casos de fantasmas, algumas vezes divisados em uma casa, por muitas pessoas em momentos diferentes, fantasmas que tinham os mesmos característicos, de maneira que na casa estavam habituados a vê-los (!).

Duas vezes fantasmas múltiplos foram vistos na rua, durante o dia. A Sra. F., passeando com sua irmã e uma empregada, conta que os três viram, na rua de uma vila inglesa, onde moravam, personagens que caminhavam ao lado delas. As formas desapareciam repentinamente e pareciam entrar no corpo da Sra. F. e de sua irmã. Essas formas usavam trajes antigos. Havia também dois fantasmas de homens que tinham as cabeças cercadas por uma auréola cintilante. Suas faces eram cadavéricas. “Todas nós ficamos horrorizadas, disse a Sra. F. Durante os duzentos metros que fizemos a correr, procurando evitar essa turba fantasmagórica, só ouvimos choros e gritos.”

Eis, enfim, um outro caso antigo (1849) que se produziu em Hull, na Inglaterra. O Senhor Bristol, que trabalhava como aprendiz de marceneiro, contou a Myers, com todos os detalhes, os fatos a que assistiu: toros de madeira mexiam-se sozinhos, pulavam sobre o solo e dançavam pelo aposento. Esses fenômenos absurdos duraram seis semanas. Sempre durante o dia, objetos voavam pelo aposento, ora em linha reta, ora fazendo curvas. Se algum dos presentes tentava segurá-los no ar, eles se desviavam das mãos que os queriam agarrar. Inúmeros visitantes testemunharam essas manifestações estranhas.

Pode-se supor, como Myers, que há uma relação entre esses movimentos de objetos e uma certa dívida que o proprietário da marcenaria não havia pagado. O proprietário, Sr. John Gray, aterrorizado ao ver os toros de madeira animarem-se com movimentos inteligentes, resolveu pagar a dívida e, desde então, os movimentos cessaram. Quem sabe se aí não há uma analogia de efeito de causa... (?)

O fenômeno material, estranho, implica um fenômeno moral.


Capítulo 4
Discussão

Se tiveram paciência de ler esta compilação estranha, inverossímil, incoerente, aliás forçosamente incoerente, de observações e de fatos, uma pergunta foi desde logo feita: esses fatos serão autênticos? Não teria eu sido ludibriado por singulares ilusões? As provas são suficientes para fazer admitir a criptestesia, a telecinesia, o sexto sentido, os transportes, os fantasmas, as assombrações e as premonições?

Antes de entrar nesta discussão, quero estabelecer que a incredulidade do público e dos sábios diante dos fatos inabituais é freqüentemente singular e, às vezes, tão cega quanto algumas ingênuas credulidades.

Citarei a esse respeito à cômica afirmação de um Professor de uma Universidade americana, o muito honrado Scripture.

No Congresso de Psicologia de 1900, mostrei aos 150 sábios reunidos nesse Congresso, uma criança de prodigiosa precocidade musical. Somente com a idade de três anos e três meses tocava piano muito bem, improvisava, tocando com as duas mãos, marchas guerreiras, fúnebres, núpcias, valsas e habaneras. Esse pequeno espanhol, Pepito Ariola, tocou, duas vezes durante o dia, perante todos os membros do Congresso, num piano que eu mandara buscar. À noite, ele esteve em minha casa e durante mais de uma hora tocou piano, dando acordes extraordinários, enquanto sua mãe, do outro lado do salão, conversava conosco.

Pois bem! vitimado por um estranho delírio de ceticismo, o Senhor Scripture ousou escrever que nós todos havíamos sido iludidos, pois fora a Senhora Ariola quem tocara piano e não o pequeno Pepito. Será que uma tal incredulidade não seja um caso patológico?

Seguramente, inúmeras das narrações que fiz não têm a evidência ofuscaste da precocidade musical do pequeno Pepito; contudo, elas são suficientemente probatórias para que não se possa duvidar de todas. Para muitos desses fatos, senão para todos, eu poderia estabelecer uma discussão aprofundada, a fim de mostrar que eles desafiam toda contestação; mas, assim, eu teria aumentado enormemente este livro. Portanto, achei melhor aceitar o testemunho humano, quando essas testemunhas são pessoas como a Senhora Verall, a Senhora Sidgwick, sir William Crookes, Gibier, Lombroso, William James, Fredrich Myers, sir William Barret, sir Oliver Lodge, Geley, o Coronel de Rochas, etc., etc.

Contentar-me-ei com duas observações fundamentais. Os que relataram esses fenômenos só ó fizeram com relutância porque foi contra a vontade que os consideraram autênticos, consentindo publicá-los, com risco de se perderem e de comprometerem a sua reputação de sábio.

Pensam que pude admitir, sem um enorme desgosto íntimo, que um fantasma, Soprando na água de barita, pudesse produzir um precipitado de carbonato de bário? Pensam que Crookes não se tenha dado conta do absurdo de ver um lápis, em plena luz, erguer-se sozinho para escrever e uma lata aproximar-se desse lápis para auxiliá-lo? Não teria ele certamente suposto que o chamariam de louco?

Por conseguinte, repilo com toda indignação que ainda conservo, essa estranha censura de que nós quisemos ver fenômenos extraordinários. NÃO! Não! e Não! Não quisemos ver.

Às vezes me dizem: “Não se sentiu apavorado ao presenciar esses fenômenos estranhos?” Sim, confesso, mas pavor de ser enganado. Foi esse meu único e constante pavor. A mim mesmo eu dizia sem cessar: “Contanto que eu não esteja sendo vítima de uma velhacaria! Contanto que não haja cúmplices!” E assim, pois, não havia lugar para outros temores.

E estou certo, por me terem feito suas confidências, de que assim pensavam William James, Oliver Lodge, Myers, Morselli, Schrenck-Notzing e Bottazzi. Eles só temiam uma coisa: serem ludibriados por impostores.

Farei também uma outra observação que me parece importante – e sinto-me feliz por ter a esse respeito a mesma opinião de meu ilustre amigo Bergson. Não há estatística que resista. Um único fato bem observado, religiosamente constatado, em condições irrepreensíveis, é suficiente para estabelecer por si só a telecinesia, o sexto sentido, a premonição ou a realidade de um fantasma. Neste último livro – digo último porque é provável que eu não escreva outro – acumulei fatos como nos meus trabalhos precedentes. Indiquei somente alguns casos que me pareceram um pouco mais importantes que os outros.

Meu querido e sábio amigo Pierre Janet fez-me uma singular censura, dizendo-me que os fatos duvidosos causam dano aos fatos positivos. Mas não! os fatos positivos são suficientes. Tomo uma solução de ácido sulfúrico puro, junto-lhe água de barita pura e obtenho um precipitado branco insolúvel de sulfato de bário. Não é preciso repetir essa experiência; a formação do sulfato de bário insolúvel é um fato indiscutível.

Assim, quando apresento a Ossowietzky, inclusa em um envelope opaco, uma frase escrita pela Condessa de Noailles, se em plena luz o envelope opaco, do qual ignoro absolutamente o conteúdo, permanece diante de meus olhos sem ser aberto e se Ossowietzky diz: “É à noite que é bom pensar na luz”, um verso de Chantecler proferido pelo galo, isso me basta para afirmar que há um sexto sentido, isto é, o conhecimento pela inteligência de Ossowietzky de um fato real que seus sentidos normais não lhe puderam revelar. Não tenho necessidade de ir mais longe. A realidade do sexto sentido está provada por essa experiência, porque sob pena de cair no absurdo, não se pode atribuir ao acaso as palavras de Ossowietzky.

Como diz Bergson, a prova estatística, em certos casos, nada significa, e só uma experiência perfeita basta.

O acaso é um Deus que se pode chamar sempre em seu auxílio. Seja! Chamei-o, a esse Deus que vos parece tão bom; mas eu não perderei meu tempo a responder a essa personagem.

Outrossim, todos os fatos que já expus, fatos que intencionalmente não tornei mais numerosos, ainda que me tenha sido fácil, eu os considero autênticos. De um lado, salvo as exceções, bem entendido, não há fraude nem má observação; de outro, é loucura atribuí-los ao acaso.

Por que então opor a toda a Metapsíquica (o grande público e principalmente os sábios) uma tal resistência? Isso vale a pena ser examinado de perto porque seria insensato acusar os opositores de imbecilidade ou de má fé. Eles não são melhores nem piores que nós e as causas de sua resistência devem ser escrupulosamente analisadas.

Há em redor de nós fatos habituais, muito habituais, quase universais, entre os quais nos movimentamos. Nós os aceitamos então sem refletir, porque eles se nos apresentam a cada minuto, a cada segundo de nossa vida. Só enxergamos o que nossos olhos nos mostram. Não ouvimos senão os ruídos que ressoam em nossos ouvidos. Há junto de nós seres reais em carne e osso. Os objetos só se deslocam se uma força mecânica, que pensamos conhecer, os põe em movimento. Não podemos aprofundar o menor fragmento do futuro.

Eis, parece, verdades incontestáveis, evidentes.

E então, apoiando-nos sobre a experiência pessoal de toda nossa vida, sobre as tradições, os hábitos, as ações de nossos pais, de nossos amigos, de todos os homens, sobre os ensinamentos que milhares de livros encerram em nossas bibliotecas, não podemos admitir que haja outra coisa senão as que os nossos olhos viram, que os nossos sentidos revelaram.

Há fortes razões para assim pensar, porque durante anos e anos, milhares e milhares de homens só vivem no habitual. O habitual envolve-nos, encerra-nos num mundo muito coerente onde tudo parece explicar-se por leis mecânicas e psicológicas, leis que a ciência estuda com frutuosa obstinação, sem procurar aprofundar o inabitual. À força de assim viver nesse mundo coerente, lógico, inflexível, que nos circunda com a sua rede estreita, nós nos recusamos a aceitar o inabitual.

E contudo, o inabitual existe. Acabei de dar aqui múltiplos exemplos.

E por que ele não existiria?

Se estivesse em contradição com os fatos científicos, devidamente constatados, podia-se pô-lo em dúvida e mesmo negá-lo; mas o inabitual não está em contradição com a ciência clássica; ele nada transtorna.

Eis que de súbito aparece um fantasma do qual a fotografia reproduz as formas. Podemos tocar esse fantasma, sentir sua mão, apalpar seus cabelos. Pois bem! Isso não me fará dizer que a Fisiologia não é uma ciência precisa; a Fisiologia do habitual em nada mudará a Fisiologia do inabitual, ela lhe acrescenta algo e nada lhe rouba. A estricnina continuará a causar convulsões, o quociente respiratório terá o mesmo número. Que a nossa inteligência receba vibrações desconhecidas, isso em nada modifica as leis de percepção sensorial. A lei de Fechnes permanece inatingível.

As verdades da Metapsíquica não transtornam as leis que a ciência instituiu. Elas introduzem na ciência um novo capítulo, o do inabitual. Eis tudo.

Encontramos numa das mais gloriosas descobertas da ciência clássica contemporânea uma invasão admirável do inverossímil e do inabitual. Neste momento, no silêncio da noite, nada ouço absolutamente e eu poderia afirmar que não há vibrações sonoras à minha volta. Se alguém, há vinte anos, tivesse a ousadia de me dizer “Ides ouvir, em vosso quarto, à medida de vosso desejo, o que dizem, neste momento, em Berlim, em Londres, em Roma, em Nova York”, eu então teria rido na cara desse louco! E contudo, hoje, o que há de mais natural? de mais industrial, de mais comercial? Tenho um aparelho, e, virando-lhe um botão, posso ouvir a meu gosto concertos ou discursos de Berlim, Londres, Roma ou Nova York. O inabitual e o inverossímil de outrora se introduziram mesmo em nossos hábitos:

Querem outros exemplos? Conheci o tempo – e o quanto sofri – em que diziam: “Os que pretendem que poderemos nos elevar nos ares com máquinas voadoras são tão insensatos que deveriam ser internados em hospícios, como alienados”. Assim diziam até o fim do século XIX. Pois bem! os primeiros anos do nosso século XX viram o começo da aviação. E a aviação progredirá tanto que daqui a alguns anos será o principal meio de transporte (e infelizmente de guerra também). O desconhecido, o inabitual, o inverossímil introduziram-se nos costumes.

O quanto seria difícil aceitar fatos novos que contradizem os fatos comuns e o quanto é mister admitir, se tivermos provas formais, os fatos novos que nada contradizem.

Nas ciências que não são matemáticas só há uma prova de valor, que é a prova experimental, isto é, a observação, pois a prova experimental não passa de uma observação, segundo a forte expressão de Claude Bernard. Em geral, a observação, quer seja espontânea, quer seja provocada, é a base de toda ciência, e não é um verdadeiro sábio aquele que não se curva perante o poder dos fatos. Não há nem autoridade, nem teoria, nem ensinamento clássico, nem opinião do público que possa ser levada em conta. Ossowietzky diz que neste envelope fechado há um verso de Rostand; ora, ele só o pode saber por uma sensibilidade paranormal. Portanto, não emprego teoria dizendo que essa sensibilidade paranormal existe, pois nada mais faço que exprimir um fato indiscutível que deveria forçar o vulgo e os sábios a inclinar-se. É inabitual, é inverossímil, seja, mas é verdade e direi como o grande Crookes: “Não digo que é possível, digo que é”.

Não obstante, compreendo muito bem por que hesitam em admitir esses fatos inabituais. A certeza não se maneja como se quer. Quando vemos, mesmo com evidente clareza, fatos estranhos e inabituais, embora contra a vontade, a dúvida nos domina. No momento em que constatamos um fato extraordinário nós nos sentimos convencidos, solidamente convencidos; mas pouco depois, essa solidez diminui. Ao cabo de algumas horas, de algumas semanas, e com mais razão de alguns anos, a certeza do fato observado, se ele é extraordinário e inverossímil, termina por se evaporar.

E é grande desgraça.

Não se tem mais confiança em sua antiga afirmação. Para que fiquemos definitivamente convencidos é preciso que o fenômeno metapsíquico, isto é, inabitual, se repita incessantemente.

A certeza foge nas asas do tempo.”

Um outro obstáculo à difusão de nossas idéias é que elas encontram por toda parte críticas acerbas, hostilidade dos incompetentes e ignorantes e, algumas vezes – o que é mais grave – a indignação dos sábios judiciosos e experimentados. Somos então vencidos por essa incredulidade universal. Que responder aos que sacodem os ombros dizendo: “são histórias boas para serem contadas às crianças”. É quase o mesmo absurdo se disser a um geólogo: “Faça cair meteorito em meu jardim que acreditarei na existência deles”.

Eis por que me parece inútil responder aos que não reconhecem a observação e a experiência como soberanas de suas convicções. E da mesma forma repetirei a frase de Crookes e a de Oliver Lodge: “Negar os fatos é diminuir-se”.

Na realidade, os sábios, quando fazem experiências, jamais contam com o inabitual e não crêem nele. Não obstante, à medida que as ciências tratam de assuntos mais complicados, o inabitual torna-se mais possível. Por exemplo: em Fisiologia um fato evidente é a parada do coração pela excitação elétrica do nervo pneumogástrico. Mas é possível que, em certos casos, o pneumogástrico não pare o coração; por exemplo, quando previamente se deu uma forte dose de atropina. A atropina é um veneno que mata o homem numa dose bem inferior a um decigrama. Mas, numa cabra, pode-se dar uma dose cinqüenta vezes mais forte sem que o animal pereça. Em Medicina, sendo os fatos patológicos mais complicados ainda que os fatos fisiológicos, são freqüentemente encontradas exceções embaraçantes.

Com os grandes médiuns, todos os fenômenos são inabituais, jamais se estando certo de que a experiência dá o resultado previsto. Muitos revezes nada provam e é necessário uma grande paciência para recomeçar sem se cansar, embora esses revezes repetidos. Alguns médiuns, como Eusápia e miss Goligher, produzem ectoplasmas, mas freqüentemente nada obtêm. É necessário método completamente novo para experimentar sobre o inabitual.

Conheço médiuns que algumas vezes deram surpreendentes respostas de adivinhação, mas quantas vezes fracassaram? Freqüentemente ficamos desanimados ao constatar que, após uma bela prova de lucidez, operando exatamente nas mesmas condições, nada mais se obtém durante muitos dias e às vezes muitas semanas. Nem todos os médiuns têm a mesma lucidez admirável de Ossowietzky, que jamais comete erros.

Como Osty, muitas vezes consultei videntes. Algumas vezes obtive respostas excelentes, mas muitas vezes só obtive escárnios.

Quase podemos comparar, como eu já disse por diversas vezes, nossas experiências sobre o inabitual às tentativas que faria um geólogo para conseguir a queda de um meteorito. Ele nada pode absolutamente. Tem de se contentar com notar o fenômeno quando este se produz. Será essa uma razão para negá-la? como ousou fazer Lavoisier, o nobre príncipe da ciência?

* * *

Definitivamente, o que é a Metapsíquica?

Defini-a – e adoto a leve modificação que Sudre fez em seu excelente trabalho: Introdução da Metapsíquica Humanauma ciência que tem por objeto fenômenos fisiológicos ou psicológicos de natureza até agora misteriosa, devido a forças que parecem inteligentes ou a faculdades desconhecidas do espírito”.

Mas sempre as definições são imperfeitas e essa tanto quanto as outras.

Em primeiro lugar esclarecerei um fato que me parece absolutamente provado e que para mim tem uma certeza igual à dos mais positivos fatos das ciências clássicas; por exemplo, a fixação do oxigênio nos glóbulos vermelhos do sangue, a dilatação dos corpos pela temperatura, a combinação do oxigênio com o hidrogênio. Eis um fato brilhante: para o conhecimento da realidade, há meios que não são os meios sensoriais normais.

É o que denominei de sexto sentido. E estou certo de que essa denominação não é em absoluto uma explicação: é a expressão de um fato.

Mas quantas obscuridades! Quem diz sentidos pressupõe órgãos sensoriais. Ora, para o sexto sentido é impossível encontrar um órgão sensorial. A vista, o tato, a audição, mesmo supondo uma percepção extraordinária, uma hiperestesia inverossímil, não podem dar a razão desses fatos observados. Somos forçados a aceitar – o que é quase teoria – que a realidade emite vibrações de natureza prodigiosamente desconhecida que agem sobre o cérebro, evocando um conhecimento.

Enfim, no fundo, é infinitamente mais inabitual, mas não muito mais extraordinário do que o conhecimento dos objetos exteriores pela vista ou pela audição. Primeiramente o mundo exterior provoca uma sensação, depois uma percepção, para finalmente chegar a um conhecimento. Abro os olhos; vejo minha lâmpada e alguns livros e a vista me dá o conhecimento da realidade exterior.

Fenômeno habitual que não me admira mais, ainda que eu o compreenda mal: Mas quando a realidade chega ao meu conhecimento por outros meios misteriosos, fico estupefato e preciso de toda minha fé no método experimental para admitir essa realidade inabitual.

Mormente que o conhecimento é quase sempre simbólico e mesclado de alucinações. Quando a Sra. Thompson toma o relógio de meu filho Georges e diz: “Há sangue sobre este relógio, três gerações misturadas”, é simbólico. Quando Wingfield, na Bretanha, estando acordado em seu iate, vê aparecer seu irmão no momento exato em que ele morria na Inglaterra, vitimado por um acidente, é simbólico.

Tudo se passa como se a vibração da realidade se apresentasse ao conhecimento sob uma forma simbólica, pois o fantasma do irmão de Wingfield aparece, mas a visão da queda do cavalo não.

Se falo da vibração da realidade é porque os fenômenos materiais que conhecemos são sempre do gênero vibratório. Quer se trate de um som, de uma luz, de uma corrente elétrica, de um fluxo de calor, de uma atração, são sempre ondas que se propagam por círculos concêntricos. De maneira que, para fazer compreender que a realidade em certos casos chega ao conhecimento do homem, deve admitir esta hipótese quase necessária, que é por vibrações que a realidade nos chega.

Primeira proposição: a realidade chega-nos por meios desconhecidos, e aqui está o corolário: ela nos chega por vibrações, capazes de provocar em certas pessoas um vago conhecimento dessa mesma realidade.

Para explicar esse conhecimento os sábios membros da Sociedade Psíquica de Londres supuseram que se tratava de uma vibração vinda do pensamento de A, vibração que se comunica ao pensamento de P, exatamente como em uma comunicação telefônica. A placa P vibra por meio de vibrações idênticas às vibrações da placa A e eles (com Myers) chamaram essa relação entre dois pensamentos, de telepatia. Supõe-se que havia um agente A e um percipiente P. Deram muitos exemplos incontestáveis dessa telepatia. Escreveram muitos artigos e excelentes trabalhos com provas múltiplas, de sorte que a telepatia é um fato incontestável.

Infelizmente o grande mal dos que crêem na telepatia é julgar que todos os fatos são explicados por esse estranho sincronismo de dois pensamentos; o conhecimento de uma palavra pela telepatia é tão difícil de se compreender (senão mais difícil) que a leitura dessa palavra fechada em um envelope opaco. Não é, pois, sonegar a dificuldade – ao contrário – dizendo: há leitura de pensamento. A leitura do pensamento é um fenômeno mais misterioso ainda que a leitura de uma frase fechada em um envelope opaco.

Se apresentarmos a um vidente desenho ou palavras fechados em um envelope, o vidente adivinha-as, mesmo que o interrogador as ignore. Ossowietzky, o melhor vidente que conhecemos, revela-me exatamente o que se encontra no envelope, quer eu conheça o seu conteúdo, quer não. Meu conhecimento do conteúdo do envelope não torna nem mais fácil, nem mais freqüente a designação do desenho. Por conseguinte. não é preciso supor que há um agente que determina por sua vibração cerebral o conhecimento pelo percipiente.

Não obstante o pensamento do agente é uma realidade (quer seja uma palavra escrita ou um simples pensamento) que, sendo realidade, é conhecida pelo percipiente.

Que a telepatia existe não há dúvida, mas ela não passa de um caso particular no qual bem freqüentemente é mister fazer uma série de hipóteses sutis para admitir que seja telepatia.

Pergunto a uma vidente (que nada sabe de minha família) qual é o nome de uma das duas empregadas que estavam em casa, na minha primeira infância e penso intensamente em Louise e em Dorothée; mas a vidente responde: Melanie. Ora, nessa honrada Melanie, cozinheira de meus pais há sessenta anos, eu não havia pensado nem uma vez sequer. Seu nome jamais fora pronunciado.

Os que admitem a telepatia são forçados a dizer: foi meu pensamento inconsciente que provocou a resposta da vidente. Bem o quero. Mas apoiando-me em inúmeros fatos onde a telepatia não pode ser levada em consideração, também é simples supor que a vidente dissesse Melanie, porque ela teve conhecimento de uma realidade. Pretender que seja uma recordação inconsciente (adormecida em minha memória desde há cinqüenta anos) que provocou a resposta de Melanie, é uma explicação de tal forma alambicada que prefiro dizer: “foi a realidade de Melanie que determinou a resposta da vidente”. Por que não disse ela Louise ou Dorothée, os dois nomes nos quais eu pensava intensamente?

Longe de mim a idéia de negar a telepatia; nos livros encontram-se belos exemplos. Uma palavra imaginária que foi somente pensada sem ter sido escrita é às vezes indicada, bem entendido, sem que se dê a menor ajuda à resposta do médium. Mas esse pensamento é por si só uma realidade. Realidade psicológica, seja, Mas realidade igualmente.

Em todo caso, a distância entre o agente e o percipiente parece quase indiferente.

A maioria das vezes é inútil supor a ingerência de um espírito, pois não há razão para admitir a intervenção de um anjo; de um defunto ou de um desencarnado. Veremos adiante que há casos importantes e interessantes para as quais a presença dessa personagem pode ser invocada. Mas por enquanto só se trata de telepatia simples ou de lucidez. Nesse caso terminarei essa discussão propondo as conclusões seguintes:

1º)   Para conseguir o conhecimento da realidade há meios (misteriosos) diversos dos meios sensoriais normais.

2º)   Essa realidade pode ser conhecida ou desconhecida do interrogador. Conhecida ou desconhecida, isso em nada altera a probabilidade do sucesso. Se ela é conhecida, pode-se pretender que haja telepatia, mas se é desconhecida não pode haver telepatia.

3º)   Há casos relativamente numerosos nos quais foram dadas respostas exatas sem que a telepatia tenha sido possível. Por conseguinte, a explicação telepática freqüentemente aceitável, está longe de sempre ser válida. Tem-se, pois, o direito de deduzir que, se são dadas algumas respostas exatas, é porque a realidade chega ao conhecimento do médium.

4º)   A vibração da realidade não é mais difícil de se compreender do que a vibração paralela do pensamento do interrogador e do pensamento do médium.

5º)   Em muitos casos o sexto sentido é exercido por um conhecimento simbólico. Uma morte ou um acidente chega ao conhecimento do médium sob as mais diversas formas.

Quando falamos da vibração da realidade que determina o emprego do sexto sentido, a palavra vibração é uma hipótese, mas é permitido investigar em que condições se exercem essa misteriosa faculdade.

1º – Supuseram que se tratasse de uma hiperestesia dos sentidos normais. Com todo rigor, em alguns casos excepcionais, essa hiperestesia explica o conhecimento, mas quase nunca essa explicação é aceitável. Levaria muito tempo para discutir os fatos de lucidez ou de telepatia e para demonstrar que uma hiperestesia, quer seja retiniana, quer seja auditiva, quer seja tátil, nada pode explicar, salvo se a supusermos de tal maneira intensa que ela nada tenha de comum com a sensibilidade normal.

2º – Partindo desse fato de, às vezes, os videntes precisarem de um objeto material que apalpam para obter uma resposta (psicometria), pois dizem que os objetos materiais, tendo pertencido a uma determinada pessoa, se impregnam de sutis emanações que concorrem para a lucidez do médium, ousaram dizer que a lucidez é uma questão de psicometria. Entretanto, a adivinhação obtida pela palpação de um objeto é excepcional e ao mesmo tempo não indispensável. Demais, como compreender essa emanação fixada em um objeto inerte? Não se explica obscura, per obscuriora.

3º – Deve-se admitir também, como o queriam os antigos magnetizadores, que o espírito do vidente se desprende, faz viagens, para encontrar as coisas ou as pessoas que se lhe pede para distinguir?

Em certos casos raríssimos, essa explicação pode ser adotada, mas para adquirir esta ou aquela hipótese é mister que ela seja válida para todos os casos e não para alguns casos raríssimos e excepcionais.

4° – Já que estamos no domínio das mais estranhas hipóteses, devemos supor que seres sobrenaturais, anjos, demônios, intervêm? ou as almas dos desencarnados?

Essa opinião, que é a dos espíritas, parece-me, ao menos para os casos simples, radicalmente inútil, portanto inadmissível. Por que supor a intervenção de uma personagem que não é absolutamente necessária? E, enfim, por que declarar que é onisciente? Já é muito difícil conceder a onisciência aos vivos. Não será ainda mais difícil concedê-la aos mortos ou a seres cuja existência é prodigiosamente problemática?

Concluamos: o conhecimento paranormal está solidamente estabelecido. Mas todas as hipóteses que se podem apresentar sobre a origem desse conhecimento são, na minha opinião humilde, inaceitáveis.

Tudo que se pode dizer é que o grau do vidente, quanto menos desperta a consciência, tanto mais desenvolvido é. No sono, no sonambulismo, na intoxicação alcoólica, provavelmente mesmo nas proximidades da morte, durante a agonia final, a lucidez é maior do que quando se está bem desperto, consciente de sua existência. Quando um vidente procura e se põe a refletir, ele só dá respostas ininteligíveis, sendo-lhe necessária uma espécie de inspiração e de inconsciência real, de transe disfarçado para que responda mais ou menos bem.

Talvez mesmo nos selvagens, nos homens incultos, a lucidez seja mais desenvolvida que nos indivíduos pertencentes a uma antiga civilização e a uma elevada cultura. Somos obrigados a dizer com Swedenborg: o espírito sopra onde quer, flat ubi vult.

Porém, há casos muito mais complexos nos quais o médium tomou uma certa personalidade. Assim, por exemplo, a Senhora Piper fala como se fosse Georges Pelham; a Sra. Leonard fala como se fosse realmente Raymond Lodge, e na ciência há outros exemplos notáveis.

Um dos últimos é o chamado: A volta do Capitão Hintcliffe.

A explicação espírita é muito simples. Quase se poderia dizer que ela se impõe por sua simplicidade.

Georges Pelham morreu, mas a sua consciência não desapareceu. Seu eu persiste, sua memória sobrevive e invadiu o pensamento da Senhora Piper de tal maneira que, falando por sua boca ou escrevendo pela mão da Senhora Piper, Georges Pelham reaparece inteiramente, psicologicamente, tendo conservado a lembrança do que ele disse, fez, viu e ouviu durante sua vida terrestre. Não hesito em dizer que essa explicação é a mais simples e que todas as outras se apagam a seu lado; mas, quantas objeções formidáveis e, no meu parecer, decisivas podem ser feitas na hipótese dessa sobrevivência.

1° – É mister supor que a memória sobrevive à destruição do cérebro. Ora, alguns dias após a morte, o cérebro é reduzido a uma papa infecta e ao cabo de um ano ou dois, nada mais resta. Entretanto, ensinamos que a memória é função do cérebro. Se o sangue oxigenado cessa de passar pelo cérebro, mesmo durante um meio minuto, não há mais memória. Com duas gotas de clorofórmio no sangue, a memória é abolida. Um choque na cabeça faz desaparecer toda consciência.

Sei que a objeção não é definitiva, pois o paralelismo absoluto, constante, irresistível, entre o pensar e a função do cérebro, não é de uma evidência indiscutível.

2° – Quando um médium encarna um indivíduo morto, aos 90 anos por exemplo, cuja memória sobrevive, qual o desencarnado que volta? Será a criança, o adulto ou o ancião que voltou à infância?

3° – Se as personagens que viveram voltam, como explicar que certos médiuns encarnem personagens certamente imaginárias, como por exemplo o extraordinário Phinuit, o médico francês de Metz que não sabia mais nenhuma palavra de francês por ter tratado de muitos ingleses em Metz. Ora, na Senhora Piper, Phinuit tinha tanta lucidez quanto Georges Pelham.

Para falar a verdade, essa última objeção parece muito mais grave. Porque os grandes médiuns (Stanislawa, Tomczyk, Reese, Kahn, Ossowietzky) possuem uma formidável lucidez que se exerce sem que lhes seja necessária à intervenção de uma personagem defunta encarnada no médium.

Mas, esta discussão seria bem injusta se eu não introduzisse alguns dados que fariam propender em favor da doutrina espírita.

Eis, por exemplo, a xenoglossia, da qual possuímos belos casos, raríssimos, particularmente o caso antigo, mas o melhor talvez, o do juiz Edmonds, que foi Presidente do Senado Americano. Sua filha escrevia em diversas línguas que desconhecia. A Senhora Piper, ignorando o grego, compreendia-o quando era Georges Pelham. Encontrar-se-ão curiosos detalhes sobre xenoglossia no livro de Sudre (p. 145) e num memorial recente de Bozzano, La Ricerca Psichica, 1932, Cassina.

Há também o que Bozzano chama de literatura de além-túmulo. Um mecânico aprendiz recebe do espírito de Dickens, por escrita automática, ordem de terminar a sua obra interrompida – The mystery of Edwin Rood. Esse mecânico então escreve um romance do qual é quase impossível negar a autoria de Dickens, tão idênticos são seu estilo e origem.

Mas, entretanto, é preciso desconfiar dessas adaptações da inteligência. A famosa Helena Smith (Elise Müller) encarnou sucessivamente, com um prodigioso poder imaginativo: Maria Antonieta, Cagliostro, um príncipe indiano e uma personagem do planeta Marte. Ela escreveu um poema em linguagem marciana, mas Flournoy demonstrou, em um livro admirável, que nisso nada havia de sobrenatural, sendo simplesmente o resultado de uma inteligência maravilhosa exclusivamente humana.

Que Helena Smith componha uma linguagem marciana, é feitiçaria! Só mudarei de opinião se um documento idêntico nos chegar do planeta Marte a fim de confirmar as fantasias de Helena.

Além disso, devemos nutrir alguma dúvida sobre a autenticidade da linguagem sânscrita que seu príncipe indiano fala, porque esse sânscrito é cheio de erros e porque existia, numa casa que Helena freqüentava, um livro de sânscrito.

Os outros fatos de xenoglossia são muito sérios. Que o médium fale muitas línguas e línguas que, sendo vivas, ele não conhece, é verdadeiramente maravilhoso. Decididamente a explicação espírita é a mais aceitável!

Fazendo a síntese de todos os usos invocados pelos espíritas para defender seu dogma, pode-se unicamente dizer isto: que num número notável de casos a hipótese espírita é a mais simples, isto é, melhor.

Mais eis tudo.

Demais, ela não é em absoluto suficiente para explicar todos os casos.

As outras hipóteses, que não pressupõem as enormes dificuldades da teoria espírita, me parecem mais admissíveis, conquanto sempre estranhas. Basta supor em certos médiuns uma lucidez extraordinária, inverossímil, eu o reconheço.

Em suma, após a análise dos fenômenos puramente psicológicos, se fosse preciso escolher entre as duas hipóteses: 1° – o espiritismo, isto é, a persistência da memória após a morte terrestre e a encarnação dessa memória em um médium, ou, 2° – uma prodigiosa lucidez, como se a inteligência humana fosse muito mais longe do que posso supor, eu penderia por essa segunda hipótese.

É bom notar que essa segunda hipótese é suficiente para explicar todos os casos, enquanto que a hipótese espírita, a melhor em um pequeno número de casos, é inadmissível em muitos outros.

Vejamos agora como se pode explicar (ou antes não explicar) os fenômenos materiais objetivos.

Tomemos em primeiro lugar os mais simples fenômenos, isto é, os ectoplasmas e as telecinesias.

O levantamento da mesa, os movimentos dos objetos, as pancadas, explica-se, se admitirmos que do corpo do médium possam sair prolongamentos de uma substância material qualquer, visíveis ou invisíveis, agindo mecanicamente sobre as coisas. Isso é loucamente absurdo, em vista do estado de nossos conhecimentos, sob o ponto de vista do bom senso, do habitual, bem entendido. Mas, enfim, há observações tão precisas, feitas em condições de controle tão rigoroso, que não se pode duvidar desses ectoplasmas materiais que emanam do organismo.

Reduzida a esse simples fenômeno, a ectoplasmia não necessita de nenhuma explicação espírita. Por que supor que um indivíduo defunto possui, mais que um indivíduo vivo, o poder de levitar um corpo humano, de fazer sair uma expansão do corpo do médium? Por que outorgar aos mortos poderes mecânicos, em lugar de outorgar esses poderes aos vivos? É acrescentar o inverossímil ao inverossímil.

Mas é necessário ir muito mais longe, porque a ectoplasmia é bem mais complicada que a formação de um ectoplasma, visível ou invisível, que desloca um lápis, um tinteiro, uma caixa de música. Há em certos casos, sempre rigorosamente constatados, formação de um fantasma, que tem às vezes (raramente) uma semelhança surpreendente com um defunto. Por exemplo: a Senhora Wickham vê, ao mesmo tempo em que seu filho de nove anos, o fantasma de um oficial que acaba de morrer. Será então mais simples admitir a teoria espírita de um corpo astral (??) e, contudo, se rigorosamente se pode supor que a memória dos defuntos persiste, será realmente admissível que o corpo de um indivíduo, após alguns dias, muitas semanas, muitos meses, então que a putrefação o desorganizou completamente, possa reaparecer ainda? Não é loucura supor a revivescência não somente da memória, mas ainda do corpo dos indivíduos, até de seus costumados trajes?

É verdade que ainda se deve admitir alguma coisa a mais. É um fenômeno singular que recebeu o nome, muito bem composto, de ideoplastia, do qual se podem citar numerosos exemplos, de sorte que os fantasmas não seriam senão fenômenos de ideoplastia, isto é, que o espírito do médium pode fabricar objetos materiais unicamente pela força de seu pensamento.

Tive com Eusápia um exemplo notável. Seguro em minha mão, durante vinte e oito segundos, atrás da cortina, a mão materializada de John King, mão essa muito maior que a de Eusápia, que tem as suas controladas pela Sra. Curie e por mim. Eu havia pedido um anel (uno annello). A mão imediatamente fez-me sentir um anel; depois pedi uma pulseira e senti em meu pulso a pressão de uma pulseira de mulher cujo fecho era uma fivela.

Materializações de animais também são ideoplastias, como por exemplo, quando Geley e eu fomos mordidos por um cão (que sentimos, ouvimos e não vimos). Uma bela ideoplastia é a que foi produzida por Kluski. Foi fotografada uma águia com as asas abertas, voando por sobre sua cabeça.

Do momento em que se admite – e é difícil não o fazer – que o pensamento do médium pode fabricar coisas visíveis, fantasmas, como não supor que fantasmas fotografáveis, tangíveis, visíveis, tendo todos os atributos da matéria, sejam apresentados a pessoas que julgam reconhecê-los. Certamente nadamos numa incerteza absoluta. Mas a inverosimilhança dessa formação de um ideoplasma conforme a personalidade do morto é menos difícil de aceitar do que a reconstrução, ao mesmo tempo psicológica, morfológica, fisiológica, dessa personalidade defunta, ao cabo de alguns meses ou de alguns anos de sepultura.

Certos fatos singulares pareciam provar que fora de toda ideoplastia há talvez seres (como anjos) que aparecem em certas condições. Bozzano reuniu casos emocionantes de aparições de defuntos no leito de morte. Apresentou 61 casos, cada um mais curioso que o outro. E, contudo, os moribundos não eram médiuns. Sem dúvida devemos supor que, no momento da morte, os moribundos têm um poder senão de evocação, pelo menos de visão.

Entre essas aparições de fantasmas há algumas que são notáveis, quando quem os vê é uma criança. Posso citar dois casos admiráveis que parecem copiados, de tal forma idênticos. Um é o de uma criança americana, o outro de uma menina francesa. Desses dois casos a homologia é espantosa. Rey, com a idade de 2 anos e 7 meses, vê seu irmãozinho que acabara de morrer e que o chamava. “Mamãe – disse ele –, o irmãozinho sorriu para Rey, ele quer levá-lo”. Dias depois ele disse: “o irmãozinho sorriu para Rey, ele quer levá-lo”. O pequenino Rey morreu dois meses depois.

O caso da menina francesa também é maravilhoso. Tinha ela 3 anos e 3 meses. Um mês após a morte de uma tia que a adorava, ela ia à janela, olhava fixamente e dizia: “Mamãe, olhe lá a titia Lili que me chama”; e isso se repetiu muitas vozes. Três meses depois a pequena adoeceu e, durante a enfermidade, dizia: “Não chore, mamãe; tia Lili está me chamando. Como é bonito! Há anjos com ela”. A pobre criança morreu quatro meses depois de sua tia.

Dois outros casos análogos também são dignos de ser mencionado. Um menino de 3 anos, junto de seu irmão agonizante, chama sua mãe para dizer-lhe: “Mamãe, há lindas senhoras ao lado de meu irmão; elas querem levá-lo”. Nesse momento o pequenito expirava.

Devo apelar a todo meu racionalismo, pois me parece impossível negar que, no momento da morte, anunciando essa morte, haja seres sobrenaturais, fantasmas, tendo alguma realidade objetiva, que estejam presentes, embora só sejam divisados por uma criança. Mas não é absurdo supor que as crianças, numa espécie de transe (agônico, espirítico se quiserem) possam divisar seres que os outros assistentes não vêem.

No momento da morte também há alguns casos de música transcendental, concertos quase divinos, parece, que todos os assistentes podem ouvir. Bozzano reuniu alguns casos comoventes.

Que em certos casos os fantasmas e as formas materiais fotografáveis, palpáveis, possam se moldar na parafina, deslocar objetos, produzir luzes, transmitir suas vozes, isso não é duvidoso. Como nos casos de Crookes, de Gibier, da Senhora d'Espérance, assim como em certas materializações da vila Carmem, esses fantasmas começam por uma espécie de vapor, de nuvem que pouco a pouco se condensa, tomam a forma de um ser vivo, depois desaparecem, e desaparecem como as visões de um sonho, sem que haja porta, alçapão ou gaiola engradada que impeçam a aparição de se evaporar.

Há numerosos casos bem autênticos de mãos que se evaporam. G. Delanne deu alguns exemplos. Bottazzi, fisiologista eminente, sentiu evaporar-se em sua mão uma mão ectoplásmica de Eusápia.

Tudo isso não me parece nada contestável, mas o que seria bem interessante é saber se esses ectoplasmas, esses ideoplasmas, têm uma realidade diversa do pensamento do médium. Diversamente dito, será que Katie King, será que a pequena Stasia Ochorowicz, será que John King de Eusápia Paladino, não sejam frutos da imaginação de Florence Cook, de Stanislawa, de Eusápia? Essas formas fantasmagóricas sobreviverão a seus médiuns?

Expus lealmente as razões às vezes muito fortes que nos levariam a admitir a sobrevivência da memória dos defuntos, ou pelo menos a existência de seres sobrenaturais da quarta dimensão (???). Também exporei lealmente as objeções formidáveis que se pode fazer a essa hipótese.

– Jamais, até o momento presente, os espíritos, falando ou escrevendo por intermédio de um médium, introduziram idéias novas na ciência. Nenhum progresso científico lhes é devido; eles permanecem humanos, muito humanos. Eles nunca transpuseram – bem longe disso – os limites da inteligência do médium, mesmo os lindos versos que Charles Hugo escrevia em Jersey, pois como médium admirável e poderoso, esses versos nunca ultrapassaram o grande talento de um poeta. Em matéria de ciência, à parte talvez uma fórmula matemática dada a Oliver Lodge, para explicar uma figura geométrica por expressões algébricas complicadas e exatas, não sei que tenha havido alguma revelação de um só dos fatos novos espantosos que a física contemporânea nos deu a conhecer.

Quase sempre as operações que produzem, os fantasmas como as palavras que pronunciam, são de uma intensa mediocridade. As revelações que fazem da vida de além-túmulo testemunham uma invenção nulamente pobre.

Que direi de seus movimentos? Mexer um sofá, deslocar um móvel, dar um soco com um pedaço de membro, até mesmo com uma mão bem ou mal formada; isso não dá uma grande idéia da intelectualidade deles.

* * *

No princípio deste livro mostrei que o futuro das sociedades é bastante miserável, pois não podemos esperar, nem pelas artes, nem pela literatura, nem pelas indústrias, nem pelas religiões, nem mesmo pelas ciências, a revolução tutelar que trará a uma nova humanidade um futuro de felicidade e de paz.

Sem dúvida, quando falo de ciências, refiro-me às ciências clássicas, cultivadas e ensinadas (que amo e admiro com todas as forças do meu ser). No entanto, por belas e poderosas que sejam, elas são incapazes de mudar profundamente a nossa consciência e a nossa moralidade.

Portanto não é nas ciências que deposito a Grande Esperança; é na Metapsíquica, porque ela se estende por regiões de tal forma desconhecidas e vastas que é com dificuldade que divisamos a sua extensão.

Digo, pois, com toda a audácia que dá uma convicção profunda: A Metapsíquica é a grande esperança.

* * *

Entretanto, no decurso deste livro, muitas vezes eu me revoltei contra as habituais teorias espíritas. Mas essa revolta está justificada pelo antropomorfismo pueril de alguns espíritas.

Outrora os egípcios, crendo na sobrevivência, envolviam os grandes mortos em faixas, esperando assim lhes preservar os corpos de uma hedionda putrefação. Então, junto à múmia embalsamada, enrolada em faixas perfumadas, eles colocavam jóias, pastelarias, pinturas e jogos, para que o morto, ao despertar com seu corpo quase intacto, pudesse comer, beber e divertir-se.

Ainda encontramos entre muitos selvagens, meio civilizados, como por exemplo, entre os Melgaches, essas mesquinhas idéias de sobrevivência. Quem sabe se os civilizados, adeptos de certas religiões que professam a imortalidade da alma, não nutrem infantilidades análogas, cornetas sagradas soando através do vale de Josafá e fazendo os mortos sair do túmulo para que prossigam eternamente suas existências num inferno inflamável ou num paraíso azul onde entoarão cânticos.

Esse antropomorfismo elementar é um pouco o dos espíritas; eles crêem na sobrevivência, imaginam, como o professava Pitágoras, que, quando se morre, desencarnamos para tornar a passar a um outro corpo humano. Portanto, os desencarnados, isto é, os mortos, revivem pela reencarnação. Antes de se reencarnar, eles, aliás, não passam de pobres figurões, removendo sofás, fazendo as mesas virarem, pregando idéias infantis, ricos em conversações verbosas, ora cômicas, ora libidinosas. Parece até que, se crermos no ingênuo Conan Doyle, eles comem como os humanos dos quais conservaram as formas materiais e os apetites gastronômicos (?).

É esse Espiritismo que acho bem medíocre e digo claramente, conquanto eu admire muitos espíritas por sua coragem e boa fé. É verdade que certos espíritas não caíram nesse Espiritismo grosseiro.

Da mesma forma devo declarar que não refuto em absoluto o que os espíritas afirmam. A esse respeito vou-me explicar com toda a franqueza.

Em primeiro lugar, quanto aos fatos – como o constataram, se tiveram a paciência de ler este livro – há muitos fenômenos absurdos, porém, incontestáveis e, conquanto a ciência oficial ainda não os receba em seu seio zeloso, não há dúvida que daqui a alguns anos dará lugar ao inabitual, criptestesias, telepatias, lucidez, alucinações verídicas, assombrações, telecinesias, fantasmas materializados, xenoglossias, premonições. Tudo isso está bem autenticado e deve-se reconhecer que o inabitual existe.

Então, para explicá-lo, há, como se se tratasse de um dilema, duas grandes suposições que podem ser feitas:

Primeira hipótese: esses fatos inabituais são de ordem exclusivamente humana.

Segunda hipótese: esses fatos inabituais supõem a existência de forças extra-humanas.

Ambas as hipóteses se chocam com enormes dificuldades. Ainda vamos discuti-las rapidamente, fazendo notar que, para aceitar uma ou outra, é necessário que ela satisfaça a todas as condições.

Primeira hipótese

Todos os fenômenos seriam de ordem puramente humana e não necessitariam de nenhuma força extra-humana (astral, espiritual ou qualquer outra).

Efetivamente, antes de tudo, devemos reconhecer a existência de seres humanos que se distinguem da multidão por propriedades que os diferencia dos outros homens. Por exemplo: eles podem conhecer fatos que os seus sentidos normais não revelaram, por exemplo, podem emitir prolongamentos ectoplásmicos. Eles também são dotados de uma força ideoplástica e criam fantasmas, sendo ainda capazes de suportar o contacto de brasas sem que seus tecidos se queimem e ainda de permanecer durante muitos meses sem se alimentar, conservando uma musculatura e uma temperatura orgânica normais.

Voltemos por um instante ao princípio de identificação. Dois seres humanos nunca são idênticos. Seja! mas que inverossimilhança supor que certos indivíduos tenham tecidos que uma brasa não queime e que a temperatura orgânica se mantenha sem que eles tenham necessidade do carbono e do hidrogênio dos tecidos! Principalmente, como supor que eles poderão falar línguas estranhas e que tomarão personalidades, representando exatamente pela palavra ou pela lembrança, personalidades mortas. Rigorosamente compreendo que, sensível a vibrações misteriosas que emanam das coisas, Ossowietzky possa ler uma carta inclusa em um envelope opaco. Rigorosamente também posso admitir que um prolongamento orgânico saia do corpo de Eusápia.

E já é muito admitir essa criptestesia e essa ectoplasmia elementares.

Se formos mais longe, se admitirmos que podemos nos elevar do solo (levitação), ter os tecidos incombustíveis, falar línguas estrangeiras que não aprendemos, criar fantasmas que possuirão todos os atributos de seres vivos reais, isso seria dar ao homem poderes quase divinos. Em todo caso, o homem capaz desses fenômenos maravilhosos é um verdadeiro super-homem, pois podem fazer aparecer um cão, uma águia, um homenzinho com um capacete, uma mulher vestida com uma touca na cabeça. Caímos, pois, no inabitual, de tal forma inabitual que somos forçados a dizer que nada mais compreendemos das coisas.

Se admitirmos, finalmente, que alguns seres humanos possuem essas propriedades extraordinárias, podemos dizer que nisso há uma grande esperança. O homem, então, não mais nos parece uma humilde criatura, um pouco mais adiantada em evolução do que os outros mamíferos, mas um ser que tem em sua inteligência, como em sua constituição psicofísica, recursos prodigiosos. Podemos esperar, portanto, quando não para nós individualmente, pelo menos para os nossos bisnetos e para toda a espécie humana futura, um porvir muito mais amplo que o porvir restrito e estreito a nós ofertado pelo limitado e quase legítimo materialismo da ciência clássica.

A evolução dos seres vivos! Há milhares de séculos eles foram introduzidos na superfície da terra para expandir-se, desmesuradamente, estender-se e agora cobrir o globo. Nisso há, sem dúvida, uma lei de finalidade que se impõe. Pois bem! se desde milhares de séculos a inteligência vai num crescendo, por que havemos de querer que ela pare hoje? Por que não imaginar que esse poder sobrenatural concedido pela Natureza a certos indivíduos de mover objetos sem contacto, de conhecer fatos desconhecidos, de criar fantasmas, por que, digo, não supor que o homem, atingindo um degrau superior de evolução, possa comumente possuir tais poderes?

Portanto, supondo esse poder sobrenatural para o homem futuro, temos o direito de falar de uma grande esperança, grande esperança pela extensão de nosso poder, quer seja individual, quer seja coletivo.

Mas, pobre de mim! esse poder mirífico que encontramos em alguns médiuns, necessita de um esforço mental enorme, uma imaginação e uma extrapolação desmesuradas, mil vezes absurdas, para aceitar que esses inverossímeis poderes surjam no homem medíocre tornando-se normais (!).

Segunda hipótese

A segunda hipótese também é bem audaciosa. Apresentá-la sob a forma menos extravagante, supondo que há em redor de nós, misturadas em nossa existência, intervindo ou podendo intervir em nossos atos, forças individuais, inteligentes: anjos, demônios, desencarnados, espíritos (pouco importa o nome). Esses espíritos que entram no corpo e na alma dos homens lhes dariam uma força sobrenatural, ora mental, ora mecânica. Sozinho e abandonado, o mísero ser humano nada pode. Mas ele se torna quase um Deus quando o espírito o inspira.

Qualquer que seja a audácia desta afirmação da existência de anjos e desencarnados, é impossível, em certos casos, não admiti-la, como por exemplo, quando crianças (o pequeno Rey e a pequena francesa) vêem (algumas semanas antes de morrer) lindas senhoras que as chamam; quando fantasmas erram em casas assombradas, principalmente quando Georges Pelham, com milhares de recordações de sua vida passada, volta na Senhora Piper, etc., etc. Então a explicação espírita é a mais fácil, a mais racional, ouso dizer. Seria tão ridículo supor para a lucidez de Ossowietzky uma hipótese diversa da inteligência humana capaz de ser agitado por vibrações especiais desconhecidas do éter, quanto é justo dizer em certos casos que a explicação espírita é a menos má.

Contudo, hesitei em escrever esta frase, porque ainda vejo nessa hipótese espírita tantos absurdos, tanta obscuridade, mesmo tantas impossibilidades, que não posso me resolver a reconhecê-la como satisfatória.

E mais uma vez resumo as objeções fundamentais:

1°)  memória sem cérebro;

2°)  futilidade e puerilidade, quer sejam movimentos executados pelos espíritos, quer sejam palavras pronunciadas por eles; nenhuma revelação que não seja muito humana;

3°)  personalidade fictícia e fantasista, a gosto dos operadores, pois que raramente aparecem os seres queridos que desejaríamos evocar;

4°)  necessidade de admitir uma sobrevivência para as inteligências dos animais tão vizinhas da nossa;

5°)  impossibilidade de fixar a mentalidade de um desencarnado neste ou naquele momento de sua existência terrestre (bebês, velhos, alienados).

Todas essas razões me fazem veementemente hesitar no momento de aceitar o dogma espírita como o conceberam Allan Kardec e Conan Doyle.

Devo acrescentar aqui que certos espíritas adotaram algumas modificações necessárias à simples doutrina da sobrevivência. Se nenhuma inteligência morre, como o número não pode ser aumentado indefinidamente, deve-se supor a reencarnação. Mas, se somos seres reencarnados, seres reencarnados que não conservaram recordação alguma de nossas existências anteriores, são como se não revivêssemos, porque reviver significa guardar a lembrança do passado.

Falando a verdade, como as teorias nunca falham, os espíritas admitem que um indivíduo que representa muitas personalidades sucessivas (isto é, muitas reencarnações), vai a um dado momento (quando?) reencontrar todas as suas reencarnações anteriores e relembrar-se de tudo que viu, fez, ouviu, nessas suas múltiplas existências precedentes.

Seja! é muito poético e, sob o ponto de vista moral, excelente. Mas, quanto a provas científicas, nem sombra.

Portanto, não é aí que deposito a grande esperança.

A grande esperança para mim, ei-la:

Ela não está nem nos poderes sobre-humanos cada vez mais numerosos e intensos dos indivíduos, nem na persistência da vida dos desencarnados, reencarnando-se em mortais ordinários. Ela se encontra nessa imensa incerteza, que deve invadir-nos quando pensamos nos fenômenos extraordinários, verdadeiramente absurdos da Metapsíquica.

Quanto mais reflito, tanto mais revoco essas materializações, essas assombrações, essa lucidez maravilhosa, esses transportes, essas xenoglossias, essas aparições de fantasmas e principalmente essas premonições, persuadindo-me cada vez mais de que nada sabemos, absolutamente nada do universo que nos cerca. Vivemos numa espécie de sonho e nada compreendemos realmente das agitações e dos tumultos desse sonho. Freqüentemente tudo se passa como se nadássemos no inabitual.

Esse inabitual que às vezes é de uma realidade espantosa, permite-nos conceber grandes esperanças. O espaço e o tempo talvez nada mais sejam que formas defeituosas de nosso intelecto; sem duvida despertaremos munidos de alguns fragmentos de recordações e veremos realidades surpreendentes bem superiores às pobres concepções de um mundo espírita tristemente calcado sobre o nosso mundo material.

Tudo, no Cosmos imenso, não passa de vibrações do éter. Segundo a rapidez dessas vibrações se produz este ou aquele fenômeno: luz, eletricidade, atração, calor, matéria. Provavelmente a nossa vida, a nossa consciência não passa de uma vibração análoga. Ora, as vibrações não desaparecem. Os mares ainda estão agitados pelo sulco das naus de Cleópatra... Nossa consciência, essa vibração misteriosa do éter, então não desaparecerá?

Só conhecemos um mundo com três dimensões. Conheceremos talvez uma quarta, até uma quinta.

Essas considerações são bem vaporosas. Estou farto de o saber. Mas, em presença dos fatos extraordinários que se comprimem em redor de nós e que observamos logo que nos damos ao trabalho de os olhar, é preferível fugir por alguns instantes do nosso restrito mundo material, a procurar explicações tortuosas, certamente falsas, para os fenômenos que são absolutamente possíveis de compreender.

Embora essa incursão nas nuvens, embora essa grande esperança que brilha diante de nós qual uma estrela radiosa, não se deve perder pé nem abandonar o terreno sagrado da ciência experimental. Se quisermos que essa esperança se transforme em realidade, devemos observar e experimentar, experimentar e observar. Talvez, então, acabemos encontrando os elos que ligarão uns aos outros os fatos múltiplos, incoerentes, esparsos, que despertam o nosso estupor.

Os progressos que fizemos no desconhecido (somente desde há oitenta anos) são tais que eles nos autorizam a tudo esperar.

E principalmente, pois a vida é qual um sonho e os fatos estranhos nos dão o direito de esperar dias melhores, podendo, pois, contar verdadeiramente com a benévola colaboração (!) das forças misteriosas que palpitam em volta de nós (?). Portanto, devemos tratar de merecer o nosso futuro e de sermos dignos dessas forças.

Tenhamos contra a ignorância e o ódio, o culto da Verdade, da Justiça e do Amor. Saibamos amar o bem e detestar o mal.


Conclusão

E agora, resumo os fatos e raciocínios
expostos nas duas partes deste livro

I

O inexorável Destino – quer ele seja Deus, Natureza, Força ou Lei – quis que o homem reinasse no planeta, e, para que ele fosse rei, deu-lhe o amor à vida e o amor sexual. Esses dois poderes formidáveis, apoiando-se na inteligência, têm evidentemente por fim e por causa assegurar a vida, não somente do indivíduo, mas da espécie.

– Por que? Para que?

Certamente não compete à nossa mesquinha inteligência sabê-lo. Pode-se, entretanto – humildemente – tomar a liberdade de fazer algumas sugestões.

Tudo se passa como se o Destino tivesse desejado a inteligência. Porque, na superfície terrestre, certamente por graduação, a inteligência sobreviveu nos seres e durante muitos milhares de séculos se desenvolveu e aumentou.

A aparição do ser inteligente não podia ser quase imediata. Essa aparição deu-se por meios indiretos, prolongados, durante séculos e séculos, com esboços informes, hesitações, ensaios infrutuosos, aborto, que uma longa série de seres se sucederam, todos ávidos de se reproduzirem, e seu último descendente, o homem, assim como os inumeráveis ancestrais, receberam os mesmos dois instintos poderosos que dirigem seu pensamento e seus atos.

Sim! O progresso da inteligência foi regular, contanto que se examinem os períodos de muitos séculos, mesmo de muitas centenas de séculos. É pois, ridículo supor que chegamos ao ponto morto e que esse progresso contínuo vai parar. Como admitir que tenhamos atingido o último termo da inteligência e que os instintos dominadores que a Natureza nos deu vão se enfraquecer a tal ponto que a humanidade, privada desses guias divinos, se extinga.

Que a terra seja transtornada por um cataclismo cósmico, que um micróbio invencível destrua todos os seres vivos superiores, que o necessário oxigênio se escape lentamente nos espaços interestelares, que o calor que nos é dado pelo sol diminua a ponto de a Terra tornar-se um esferóide gelado; isso tudo certamente é muito possível, mas deveras remoto. Segundo toda verossimilhança, a humanidade tem ainda muitos milhares de anos diante dela.

Ora, essa prolongação da espécie humana acarreta duas conseqüências formidáveis, apenas hipotéticas.

A primeira é que a inteligência do homem futuro será mais penetrante, mais sutil, que a do homem atual. Além disso se não formos prudentes para instituir uma seleção humana, a Natureza disso se incumbirá. Ela não esperou por nossas Academias, nossas Faculdades, nossos laboratórios de Zoologia, de Fisiologia e de Botânica, para encaminhar a mônada ancestral (da qual derivamos) a se tornar Galileu, Pascal, Newton, Goethe e Pasteur. Ela encontrará algum processo, indireto ou não – que, aliás, não vejo de modo algum – para que uma raça humana superior, um super-homem apareça na superfície de nosso planeta.

Certamente, sim! Mas, ainda uma vez, para que?

II

Pois bem! falando da grande esperança, audaciosamente, tentei conhecê-la.

Para alcançarmos o que significa o progresso intelectual, para ver a marcha triunfal que ele seguiu, examinemos num breve sumário a história da ciência.

Há quinhentos anos, isto é, há quinze gerações somente, no tempo em que vivia o trisavô de meu trisavô, em 1432, nada havia em matéria de ciência.

Nada em matemática, senão os livros de Euclides, isto é, uma ciência que balbuciam os nossos estudantes de 14 anos. Não conheciam nem o cálculo integral, nem a Álgebra, nem os Logaritmos, nem o cálculo das probabilidades, nem a Geometria analítica. Havia uma geometria plana elementar e uma aritmética na qual triunfa a tabuada de Pitágoras.

A Astronomia, não obstante os pastores da Caldéia, eram infantis. Tales julgava que o sol era tão grande quanto o Peloponeso. Talvez soubessem que a Terra é redonda, pois em 1432 ainda o ignoravam. Sabiam que o sol era quente, mas nem sonhavam em assimilá-lo a uma estrela e abstinham-se de conjeturar a distância enorme, inaudita, inverossímil, que nos separa das estrelas, mesmo as mais próximas.

Nesse caso as hipóteses geocêntricas e antropocêntricas governam tudo. A Terra tornou-se o centro do mundo.

Imaginamos a prodigiosa evolução mental que fez a humanidade, quando dizemos: a Terra não é mais que um ponto imperceptível no mundo solar e o mundo solar não passa de um ponto imperceptível, mais imperceptível ainda no vasto universo. O sol não é mais que uma estrela como as outras e há milhões de sóis e milhões de planetas. Hoje sabemos – o que é realmente maravilhoso – que essas estrelas e esses planetas são constituídos dos mesmos elementos químicos da nossa miserável habitação terrestre.

E, se falo de Astronomia e Matemática, é porque o talento dos antigos foi principalmente aplicado a essas velhas ciências, pois as outras não existiam.

Acreditavam em quatro elementos: a terra, o ar, a água e o fogo. Essa enumeração é suficiente para mostrar o triste estado da presente Física de então. Em matéria de eletricidade, só haviam visto com Tales, o âmbar (eletro) que, ao ser atritado, atraía a poeira; mas era, diziam um capricho da Natureza.

A Fisiologia, apesar de Galileu, não existia. Que poderia ela dizer antes de ser conhecida a circulação do sangue e a composição do ar? A Química fazia parte da Alquimia, isto é, uma mixórdia inominável, e a Medicina ainda era mais absurda. Como poderiam falar dos micróbios antes da invenção do microscópio? A Geologia e a Paleontologia nem tinham nome.

Em quinhentos anos o nosso conhecimento do mundo transformou-se completamente. Um aluno de nossas escolas primárias sabe cem vezes mais que os mais ilustrados sábios de 1432.

Estou enganado dizendo quinhentos anos, pois em um meio século, o meio século que vi, todas as ciências fizeram tais progressos que não mais as reconhecemos.

Em 1868, quando comecei meus estudos médicos, nada era conhecido do que forma hoje a mais simples trama de nossos conhecimentos. Nada se sabia de aviação e considerávamos loucos os que julgavam que o homem poderia construir máquinas pesadas que transporiam os espaços aéreos com uma rapidez superior à dos mais céleres pássaros. Afirmavam que jamais a luz elétrica poderia alumiar, pois não passava de uma luz ilusória. O telefone e a telegrafia sem fio não existiam. E quanto ao cinema e o automóvel não passavam de magia negra. A origem microbiana de todas as moléstias era totalmente insuspeitada; a transmutação dos metais era encarada como loucura.

Um Doutor em Ciências de 1868 estaria abaixo do mais medíocre bacharel de 1932.

Mas, que esse medíocre bacharel não fique vaidoso. Quem sabe o que pensará dele o bacharel de 1992? Quem sabe se ele não sorrirá de piedade ao ver as suas idéias sobre as estrelas, sobre os micróbios, sobre os íons, sobre os átomos, sobre a luz, sobre a eletricidade, sobre a relatividade?

As conquistas da ciência foram formidáveis e não se pode alegar um motivo sério para que ela pare, pois a totalidade das coisas para conhecer é enormemente maior que a das coisas comuns.

III

Portanto, apesar da progressão assombrosa de nossas ciências, nós nada sabemos, ou quase nada, do universo.

Em torno de nós freme – em vibrações múltiplas e complicadas – um mundo mecânico, do qual, à custa de grandes esforços, determinamos algumas condições. Então, em nosso ingênuo orgulho, julgamos haver descoberto leis imutáveis alem das quais nada existe.

Que cegueira!

Ao lado desse mundo mecânico em que se precisam o telescópio, o microscópio, o galvanômetro, o espectroscópio e a balança, há um outro mundo mecânico e psicológico ao mesmo tempo; é o mundo desconhecido, oculto. Oculto hoje, mas que amanhã talvez não mais o seja.

Para provar que esse mundo oculto (ou criptocosmos) existe, apresento dois argumentos, um lógico e outro experimental.

Eis em primeiro lugar o argumento lógico: é um dilema irrefutável; ou conhecemos todas as forças da Natureza ou não conhecemos todas.

Ora, o primeiro ponto desse dilema é loucamente absurdo. Como! com os nossos cinco pobres sentidos, com os engenhosos instrumentos que os reforçam, teríamos a jactanciosa presunção de haver limitado, registrado, codificado todas as forças que vibram no Mundo! Existiria alguma força misteriosa que nos laboratórios, as nossas máquinas, os nossos aparelhos não teriam reduzido a fórmulas matemáticas e em demonstrações experimentais? Ou então, envolvidos em nossa vida, assistindo aos nossos atos, controlando os nossos pensamentos, escrevendo por nossa escrita ou falando por nossa voz, há seres misteriosos, invisíveis, anjos ou demônios, talvez as almas dos mortos (que é a convicção dos espíritas). A morte não seria pois a morte, mas a entrada de uma vida nova.

Em ambos os casos, nós nos chocamos com monstruosas inverossimilhanças; nadamos no inabitual, o surpreendente, o prodígio.

E eis onde quero chegar. Retomo a pergunta que fiz no princípio desse livro:

Por que existes?

Parece-me que é para que teus descendentes se iniciem nesses mundos desconhecidos.

Existes porque para a humanidade há uma grande esperança. O universo, o vasto universo seria incompreensível se não passássemos de filhos do acaso. Tudo parece provar que a inteligência se tem constantemente desenvolvido e propagado por sobre a superfície da Terra. Ora, se as nossas ciências não fossem mais longe do que a nossa Astronomia, a nossa Física, a nossa Fisiologia atuais, custaria, realmente, para chegar penosamente a esse pobre resultado, um imenso esforço de muitos milhões de séculos e de muitos milhares de milhares de seres vivos. Mas não estamos no termo derradeiro de nosso desenvolvimento porque o futuro da ciência é quase ilimitado.

Há cem anos, quando Cuvier morreu, não se conhecia nem a eletricidade de indução, nem a síntese química, nem os micróbios, nem a fotografia, nem o telefone, nem as ondas hertzianas, nem o rádio, nem a aviação, estando as ciências ocultas entregues às pitonisas e às feiticeiras.

Portanto, não se pode prever absolutamente o que nos espera daqui a cem anos e, com mais razão, daqui a mil!

Temos, pois o direito de tentar as mais aventurosas experiências. Quantos mundos misteriosos, forças invisíveis (talvez inteligentes) estão em redor de nós; que horizontes esplêndidos nos são descortinados! Façamos uma comparação. Será que uma formiga, que perambula em um formigueiro, pode adivinhar que há transatlânticos e teatros, parlamentos, tribunais, elétrons e estrelas? Seguramente somos mais inteligentes que uma formiga, mas do universo imenso que nos circunda nós não sabemos muito mais do que ela.

Com toda certeza há forças diferentes das forças conhecidas até agora e estudadas pelos sábios. Que possamos conhecê-las um dia é outra coisa. Digo somente que há forças misteriosas, talvez inumeráveis, em volta de nós.

Não esgotamos a lista das forças mundiais. Tales e Protágoras já pensavam tê-la esgotado, como mais tarde Abelard e Scott e, ainda mais tarde, Descartes e Newton. Apesar de seu talento, Tales, Protágoras, Abelard, Scott, Descartes e Newton enganaram-se. Conquanto sejamos bem inferiores a esses grandes homens, tendo mais prudência do que eles, ousam dizer que há uma probabilidade formidável, quase certeza, de que mundos desconhecidos vibram em redor de nós.

E o segundo argumento, o argumento experimental, é muito mais poderoso ainda e seria preciso ser desoladoramente cego para não aceitar o que proclamam a observação e a experiência.

O mundo mecânico, e expressado pelos matemáticos, produzido pelos Engenheiros, descrito pelos Físicos e Fisiologistas, não é tudo. Existem forças mecânicas completamente desconhecidas que podem ser aplicadas (ridiculamente, confesso) em condições inabituais sem que possamos encontrar uma única explicação verossímil.

O inabitual existe, há ectoplasmas, telecinesias, levitações, fantasmas, lucidez, premonições.

Então duas hipóteses (ambas inverossímeis) se apresentam. Mas não vejo uma terceira para propor, sendo necessário adotar uma ou outra.

Ou então a inteligência humana é capaz milagres. Chamo de milagres os fantasmas, os ectoplasmas, a lucidez, as premonições.

Portanto, se outrora houve nômades e ouriços marinhos, foi para que houvesse um homem futuro, mais sagaz, mais inteligente que o homem atual que, aproveitando-se das pesquisas de seus ancestrais, isto é, de nós, descubra talvez a causa profunda pela qual ele apareceu, pela qual tu existes, ó meu amigo!

Contudo, hoje, essas idéias sobre o futuro humano e o engrandecimento do nosso pensar parecem à maioria dos homens (e principalmente, lamento dizê-lo, aos sábios), fantasias e sonhos.

Seja! mas o que ninguém poderá contestar é que a ciência clássica, metódica, a ciência das Universidades e dos ensinamentos oficiais, fará progressos maravilhosos. Mesmo que nada esperemos do inabitual metapsíquico, verdades novas serão descobertas no habitual. Tenhamos a coragem de pensar que a nossa Física, a nossa Astronomia, a nossa Geologia, a nossa Fisiologia, principalmente a nossa Medicina, ainda permanecem em uma infância primitiva. Nada sabemos do mundo inabitual. Mas também pouco sabemos do mundo habitual, mecânico, banal, no qual nos movemos.

O enorme progresso da ciência e a chegada de um homem superior, é um futuro que temos o direito de aguardar.

E é por esse futuro que os poderosos instintos da conservação para a vida do indivíduo e a prolongação para a vida da espécie foram dados a todos os seres vivos. Não é o acaso, talvez não passe de uma lei.

Por que existes? perguntei ao começar.

E agora resumo:

Para existir e para ter filhos.

Porque se a humanidade se prolongar, como há mundos inauditos, enormes, inverossímeis para conhecer, esses mundos serão (pelo menos parcialmente) conhecidos, pois o prolongamento da humanidade será acompanhado de um aumento de inteligência.

Portanto, existes para que teus filhos saibam.

Se eles souberem, encontrarão o meio de ser feliz.

Não é somente teu dever, é também tua esperança. Reflete bem sobre isto: assim agindo, assim pensando, tu te tornarás o construtor, não somente da felicidade de teus irmãos, mas ainda da tua própria felicidade.

Livra-te das servilidades dolorosas da vida, engrandece-te, e, quando a morte chegar, poderás adormecer (para despertar, sem dúvida) em plena serenidade.

 

FIM

 

 

Notas:



[1]    Senti uma vez esse sentimento de horror com tal intensidade que me provocou vômitos. Num cruzeiro realizado no iate do príncipe de Mônaco foi capturado um delfim. Fiz-lhe uma dissecação sumária. O estômago achava-se volumoso, repleto de imundas ascárides, grandes vermes intestinais que fervilhavam, formando um enorme bolo. Havia certamente mais de trezentas. O estômago estava empanzinado; era um espetáculo repugnante o desse amontoamento animado.

[2]    Entretanto ele escreveu versos encantadores; é forçado a dizer adeus ao amor, e então:

L'Amitiè vint à mon secours,
Touché de sa grâce nouvelle
Et par sa lumière èclairè,
Je la suivis, mais je pleurai
De ne pouvoir plus suivre qu'elle.

[3]    Entre as formigas e as abelhas há uma organização social muito complicada, mas é sem analogia com a nossa. O individuo nada representa, é o coletivismo, o comunismo, em toda a sua ferocidade e sua fatalidade inexoráveis.

[4]    Omne animal triste, praeter gallum et scholasticum gratuito fornicantem – diziam os estudantes na Idade Média.

[5]    Uma estatística precisa demonstrou que em 100 casais há uma média de 15 estéreis; bem entendido, involuntariamente estéreis. E freqüentemente isso, para eles, é motivo de grande desgosto. As causas dessa esterilidade são múltiplas.

[6]    Entretanto, faço uma reserva e uma reserva essencial. Se nós conhecêssemos melhor as leis da hereditariedade, se ousássemos instituir uma seleção humana com o mesmo cuidado que empregamos para aperfeiçoar a seleção das plantas, morangos, couves, beterrabas e a seleção dos animais, porcos, cavalos, cães, talvez chegássemos a criar uma nova raça humana, bem superior à raça atual, e então, a modificar o homem profundamente. Mas esse progresso na morfologia da espécie humana esbarraria com tais obstáculos, devido à nossa neofobia invencível, acarretando tais problemas, repleto de tais obstáculos, que, não sei como antes de muitos séculos poderá realizar-se. Todavia, esse princípio da ação humana deve ser uma das nossas grandes esperanças. Não é entretanto, dessa sublime esperança que eu hoje quero falar, menciono unicamente para lembrá-la e passo a outros acontecimentos e a outras esperanças menos longínquas, assim mesmo longínquas.

[7]    No dia em que eu escrevia estas linhas, um Advogado de Genebra M. Ch. relatou-me o seguinte fato: “Em Genebra, minha esposa, grávida, foi atacada de uma gripe tão forte que os médicos que a trataram a consideraram perdida.” M. Ch. resolve então consultar a Srta. Elise Müller (a célebre Hélène Smith da qual meu amigo Flournoy relatara as surpreendentes transformações de personalidade no seu livro famoso: Des Indes à La Planète Mars. Elise aconselhou não sei que droga insignificante que a doente tomou imediatamente e após algumas horas ficou completamente curada, tão bem que os médicos, julgando visitar uma morta, a encontraram de pé e restabelecida).

         Não tiro deduções, digo só que é pouco racional encarar esse fato como obra do acaso.

[8]    Boletins da Sociedade de Biologia de Paris, 1896. Trabalho do laboratório de filosofia, tomo II, p. 231. Revista Metapsíquica, 1930, páginas 386 e 395. Ver catálogo, Washington, 1880, páginas 64 e seguintes. Aqui não ofereço mais que um resumo.

[9]    Contentar-me-ei com citar o livro do Senhor Imbert Courbeyre La stigmatisation, 2 volumes, e os artigos de Cesar de Vesme, (Revue Métapsychique) 1930 e 1931 (passim), sempre notáveis por sua alta erudição e sua documentação abundante. Uma tese acaba de ser defendida na Faculdade de Medicina de Paris (1932) pelo Senhor Abrid.

[10]  Colocou a face entre as brasas, movendo-a como se a estivesse banhando em água. Experiências de Espiritismo com Home, pelo Visconde Adare, com observações introdutórias pelo Earl of Dunraven London, Thomas Scott, 1869.

[11]  A expressão não me parece muito adequada, porque o termo alucinação se emprega geralmente num sentido pejorativo, como sintoma de uma enfermidade mental.

[12]  Fui visitado por um fidalgo inglês que me assegurou a perfeita honorabilidade dessas duas senhoritas.

[13]  Tertuliano já falava nisso. Encontramos abundantes documentos a respeito dessas velhas histórias, no livro excelente de De Vesme: História do Espiritismo.

[14]  “Só falo gíria”.

[15]  O autor cita sempre a 2ª edição (1923). (Nota da editora).

[16]  Num livro ricamente documentado sobre levitação, M. Oliver Leroy (Ed. do Cervo, Juvish 1932) insiste na levitação dos santos na qual ele crê muito mais do que na dos médiuns (!!!), conquanto aceite a levitação de certos médiuns.

[17]  Assinalarei o fato seguinte, que eu soube por Geley. Nessas experiências com Kluski, havia um banho de parafina. As pessoas presentes então diziam: “Queremos a modelagem até o cotovelo”. Um outro dizia: “Queremos um pé de criança”. Geley, então, impaciente, disse: “Por que não umas costas?” Algum tempo depois houve um grande froco na parafina que salpicou os assistentes; era a modelagem em parafina de umas costas. Eram tão finas e tão frágeis que não puderam ser modeladas.

[18] Ver edição brasileira, com o mesmo título. Esse livro contém três monografias do autor: I – Aparições de defuntos no leito de morte; II – Fenômenos de telecinesia em relação com acontecimentos de morte; III – Música transcendental. (N.T.)

[19]  Citarei um erro de tipografia, erro singular e cômico em meu livro O Futuro e a Premonição. O Senhor Servadio, em Ricer Apschia, foi o único a notá-lo. Publicou-a com mais detalhes que as outras minhas experiências. Digo nesse livro: Os Deuses preservem-me de crer que minhas experiências valham menos que as experiências dos outros” (p. 58). Deve-se ler: “mais”. Menos é uma coisa ridícula e absolutamente contrária ao meu pensar.

[20]  Não me recordo exatamente se Geley, que me relatou essa observação, a testemunhou ou se ela lhe foi contada pelo amigo de Kluski.

[21]  Apesar do desmentido de um cocheiro árabe, ladrão, que o general teve de despedir.