MÃE  E  FILHO

 

Maria Dolores

 

A cena se passou em residência nobre.

 

A dama não disfarça a palidez que a cobre,

Enquanto o filho, um jovem excitado,

Fala exaltadamente ao coração materno:

– “Mãe, não aguento mais! E agora vivo armado...

Meu pai deve saber que eu hoje me governo.

À força de conversa, adubada a dinheiro,

Ele está conquistando a moça que eu adoro,

Aquela de quem sou o fiel companheiro,

A mulher que sonhei, o apoio em que me escoro;

“Moça livre,” diz ele, – mas aquela

Pela qual posso ver a vida clara e bela...”

 

       

A senhora escutava, em profunda tristeza,

Como quem se esquivava à opinião qualquer,

Mas o filho aditou: “A senhora é mulher

Que parece feliz de ser fraca e indefesa...

Surge uma, vem outra, amante sobre amante,

E a senhora parara, inerte, tolerante...

Mas agora a questão é diferente,

Se eu tiver a certeza que não quero,

Meu revólver fará, exatamente,

O meu desejo de apagá-lo a zero... ”

 

A pobre mãe, por fim, comentou com cuidado:

– “Filho, perdoe seu pai, ele vive enganado;

Não me sinta mulher, sem carinho e sem zelo,

Sucede que seu pai se assemelha a um menino,

Que Deus nos colocou no campo do destino...

E preciso ampará-lo e compreendê-lo.

Claro que sofro e muito, ao vê-lo desgarrado,

Sempre longe de nós, a deixar-nos de lado...

Mas Deus não nos despreza. Acharei na oração

O meio de encontrar nossa antiga união.

Não lute com seu pai, seja a questão qual for,

Ninguém consegue a paz, sem guardá-la no amor.”

 

Mas o jovem gritou: – “Não penso assim,

O caso com meu pai é uma bala no fim.”

 

As horas deslizaram sobre as horas.

O pai arrebatou ao próprio filho,

Sem maior empecilho

A moça a que o rapaz se dedicara,

Enquanto o coração materno, atento à devoção,

Pedia ao Céu auxilio e proteção.

 

Alguns meses passados,

Numa noite de folga e de alegria,

Realizava-se um baile à fantasia.

Clube repleto. Muitos convidados.

Perfumes raros. Roupas esvoaçantes.

A orquestra a destacar-se em músicas vibrantes...

Muitas damas, em lindas cabeleiras,

Disfarçavam-se em máscaras pequenas.

Grupos e coquetéis. Conversações amenas.

Homens bem postos. Belas companheiras.

Quase oculto, por trás de uma cortina,

O moço acompanhava o pai que dançava, feliz

Com formosa mulher espartilhada,

Divinamente apresentada

Em traços juvenis.

 

O genitor entusiasmado

Era todo elegância e cortesia...

E os dois bailam, mantendo espantosa harmonia,

Mostrando, de um ao outro, apego desmarcado.

 

O rapaz, entre a cólera e o despeito,

Julga ver na mulher notável que dançava

A moça que ele amava...

 

Obedecendo a impulso subitâneo,

Sente o ciúme a espicaçar-lhe o peito...

O crime é a idéia triste a lhe estourar no crânio...

Toma o revólver sob 'a mão tremente,

Escondido no bolso de lã fina,

Põe-se, de todo, atrás da pesada cortina,

Senta-se, faz a mira,

 

E vendo, de mais perto, o par que dança, em música envolvente,

Ele, impulsivo, atira,

Pretendendo arrasar o pai que baila, alegremente.

 

Mas a dama qual se lhe adivinhasse

O intuito manifesto,

Na rapidez de inesperado gesto,

Coloca-se-lhe à frente.

O projétil lhe atinge o níveo busto.

O tumulto aparece. O cavalheiro

Abandona a mulher e afasta-se, ligeiro.

Tudo é perturbação, ruído e susto.

 

No entanto, o deliquente apaixonado,

De arma oculta, destaca-se na cena,

Mostra a face de horror que inspira pena

E clama, desvairado:

– “Esta mulher é minha companheira!

Quero um carro, depressa!... Um médico!... O hospital!...

Quero salvá-la!...”E, em seguida se inclina,

Sobre a vítima em sangue, estendida no chão...

 

A surpresa é geral.

O ambiente é de angústia no salão...

 

Adentro do hospital, eis que o médico atento,

Junto ao rapaz, começa o atendimento.

Retiradas, porém, a bela cabeleira

E a máscara de seda leve e fina,

Ante o sangue que escorre

Sob a pinça sutil da medicina,

O moço reconhece, a soluçar de espanto,

 

Na vítima que morre

A própria mãe que ele adorava tanto...

 

Ele grita: “Meu Deus, por que? por que, Mãezinha?

A senhora no mundo é o tesouro que eu tinha...”

Ela, reunindo as forças que a deixavam,

Embora fraca, respondeu-lhe, ainda:

– “Meu filho, a vida é linda

Pelo amor que se tem...

Você, filho querido, é meu sonho e meu bem!...

Não lute com seu pai, seja a questão qual for,

Ninguém consegue a paz, sem guardá-la no amor...”

 

O médico enxugou a lágrima pendente.

E, enquanto o jovem soluçava à frente,

A senhora, ao deixar o corpo já sem vida,

Como se agradecesse, em paz, a própria cruz,

Estampou sobre a face dolorida

Um sorriso de luz.

 

 

Do livro A Vida Conta. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.